Conferência Popular da Glória nº 06: mudanças entre as edições

De Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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Edição atual tal como às 13h31min de 11 de novembro de 2025

Data: 14/12/1873

Orador: João Manuel Pereira da Silva

Título: História e literatura pátria

Aviso, íntegra ou resumo: Resumo

Texto na íntegra

“Realizou-se ontem, pelas 11 horas da manhã, no edifício da escola da freguesia da Gloria, a 4ª conferência, sendo orador o Sr. Conselheiro João Manoel Pereira da Silva, que iniciou as suas Considerações sobre a história e literatura pátria.

Assistirão SS. MM. Imperiais, acompanhados de seus camaristas, o presidente do conselho, damas e cavalheiros da primeira sociedade, professores, homens das letras, estudantes das escolas superiores, representantes da imprensa periódica, enfim um concurso escolhido e ainda mais numeroso que aos das conferências precedentes.

Esta concorrência esteve fora de todos os cálculos, desde que a manhã se apresentou chuvosa e ameaçadora de tempestade. Esperavam todos que o mau tempo matasse a curiosidade e que a sala de conferências se convertesse em deserto.

Não sucedeu, porém, desse medo, porque um causa poderosa pôde vencer a força indomável dos elementos, que pareciam conspirados contra as Conferências populares.

Essa causa resume-se com uma frase: o nome do orador.

Era esse nome quem inspirava uma grande confiança e que despertava um grande interesse.

Todos desejavam ouvir a palavra autorizada do antigo parlamentar escritor notável e orador distinto, cuja autoridade em assuntos de história nacional é reconhecida e incontestável.

E não se iludiu a expectativa publica, que o hábil historiador foi na tribuna o que é no gabinete: observador consciencioso das altas questões sociais, desses grandes problemas que preocupam os críticos da história, quando observam o passado, quando comparam o presente, quando anteveem o futuro com o alcance da vista larguíssima e profunda do gênio superior.

O Sr. Conselheiro Pereira da Silva é incontestavelmente um dos mais respeitáveis talentos deste país.

Se o não tivera antes mostrado nas suas obras de mérito real, obras que tem sido honrosamente apreciadas não só por escritores nacionais, mas por muitos estrangeiros na imprensa europeia; se o não tivera comprovado na sua larga vida literária, em que tem obtido tantos florões de glória, demonstrá-lo-ia, ontem até a evidência na rápida exposição que fez na presença de tão respeitável auditório.

A sua palavra foi correta e fluente e o seu pensamento elevado e grandioso!

Fazendo a exposição da doutrina, de que ia tratar, não foi além do programa que se propôs seguir na defesa de sua tese.

Como, porém, esse programa é vasto! Ele abrange as raças indígenas antes e depois da descoberta. Ele estuda a ocupação europeia neste belo país da América, e nesse estudo terá que apreciar portugueses, franceses, espanhóis e holandeses. Ele, enfim, abraça toda a época das independências até aos nossos dias, comparando instituições, costumes, leis, progressos e aspirações!

A tese, enfim, consubstancia-se nesta frase do orador: estudar o que fomos, o que somos e o que seremos; em uma palavra: o presente, o passado e o futuro do Brasil.

Eis um plano vastíssimo. É a história de quatro séculos, a não constar as tradições das raças indígenas, que algumas se perdem em remotíssima antiguidade.

A alguns espíritos insofridos pareceu ir muito longe esta promessa, e por isso não poucos foram os que já aconselharão a restrição do assunto nas palestras seguintes.

Nós ao contrário, se fora escutada a nossa voz, diríamos ao orador, que prosseguisse larguissimamente na apreciação da história, em conformidade do seu programa, porque não só atrairá a atenção publica o assunto das conferências, mas também a palavra autorizada e eloquente do orador.

E é aqui o lugar de dissermos uma grande verdade.

A conferência do conselheiro Pereira da Silva esteve na altura do assunto e do auditório.

Foi conferência não popular mas científica, elevada na forma e na essência; na tese e na demonstração; na doutrina e na palavra, exatamente em harmonia com os princípios que estabelecemos no nosso artigo precedente sobre a teoria das conferencias.

O orador compreendeu o seu lugar e desempenhou-se dele conscienciosamente.

Ora, nós temos dito, desde que pela primeira vez cos ocupamos desta matéria, que compreendemos dois gêneros de preleções: as cientificas e as populares.

Vimos que nas conferências da Gloria se quiseram amalgamar as duas ideias, prejudicando-se ambas com esse duplo pensamento, que na segunda parte ficou morto desde que cerrarão as portas e se negou a entrada ao povo.

Definamos mais claramente o nosso pensamento.

As conferências literárias e scientificas serão para os homens ilustrados; as populares serão para o povo, que precisa educar-se e instruir-se.

Nestas, os preletores devem ser professores práticos, habituados ao ensino das escolas; naquelas só talentos provados , que tenham o dom sublime da palavra podem ocupar a tribuna, que não deve descer nunca ao nível das mediocridades, porque a ostentação dos talentos nesses certames públicos da palavra não satisfez uma vaidade pessoa, mas convém ao nome, à honra, à glória da nação!

Neste sentido aplaudimos a conferência do Sr. Conselheiro Pereira da Silva, mas não deixaremos de pedir ao mesmo tempo, que, já que se fazem conferências para os sábios, se façam também conferências para o povo. É o povo que precisa de luz; prometeram-lhe, é-lhe devida.

Por fim ainda instamos que as conferências tomem um caráter público.

Nos templos de Deus, nos templos da lei, nos templos da justiça, há lugares para o povo!

Por que os não há de haver nos templos da civilização e do progresso?

Abram-se de par em par as portas da igreja, do parlamento, dos tribunais e fecham as portas da escola!

Oh! Contradição flagrante com as aspirações daqueles que se propõem a espargir a luz entre o povo, que tem vivido nas trevas!

Temos mostrado, na imparcialidade dos nossos juízos e na retidão do nosso julgar, que nos não cega nenhuma paixão. Desejamos só o bem da causa publica, e, inspirado por esse sentimento generosíssimo, é que temos apreciado largamente esta questão, que por um erro fatal foi deslocada no terreno das conveniências sociais.

Se aceitam a nossa boa-fé, então este conselho os que dirigem esse movimento literário:

Não fação das salas das conferências o teatro onde se represente uma nova comédia social; elevem antes mais um templo a essa religião sublime, cujo dogma fundamental é a redenção da humanidade!

No edifício em que dais as vossas preleções, lê-se em grandes letras de mármore: o governo do povo!

Pois bem; não falseies este título. Abri as portas das conferências e convidai o povo a tomar parte nesse primeiro banquete da civilização.

(Artigo editorial do Diário do Rio de 15 de dezembro)”

Localização

- Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, anno 52, n. 347, p. 2, 16 dez., 1873. (resumo). Capturado em 20 mar. 2025. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/DocReader/364568_06/7722

Ficha técnica

- Pesquisa: Yolanda Lopes de Melo da Silva, Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.

- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca. 

Forma de citação

Conferência Popular da Glória nº 06. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 30 nov.. 2025. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=597

 


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