Conferência Popular da Glória nº 14: mudanças entre as edições

De Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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Data: 18/01/1874.  

Orador: José Liberato Barroso

Título:A educação da Mulher I

Aviso, íntegra ou resumo: Íntegra

Texto na íntegra

“Era uma tarde do mês de fevereiro do ano de 1864. N’esse dia tinha eu proferido na tribuna da câmara dos deputados algumas palavras, a que deram o nome de discurso, e nas quais chamava com muito empenho a atenção do governo para a necessidade palpitante, indeclinável e urgentíssima de desenvolver-se a instrução publica no país, tão abandonada n’esses tempos passados, e que hoje tenho a fortuna de ver constituindo a preocupação de tantos espíritos ilustrados e pensadores.

Assinalava eu então os perigos d’essa política, que aplica a sua atenção exclusivamente aos interesses materiais da sociedade, abandonando os interesses morais, sobre os quais unicamente se pode firmar a ordem de uma sociedade bem constituída.

De uma d’essas iminências que dão à capital do Império o aspecto imponente e majestoso que faz a admiração do estrangeiro, eu contemplava o espetáculo esplendido que se desdobra às vistas do observador. Os novelos de fumo desenrolando-se das chaminés dos vapores que entravam e saiam do porto, e sulcavam em diferentes direções as aguas d’esta baía vastíssima, que há de conter no futuro, não todas as esquadras das nações em permanente hostilidade e ameaça, mas todas as esquadras das nações que ferirem as batalhas do comércio e da indústria: o grito da locomotiva que descia a serra do mar, e repercutia por essas serranias que nos cercam: o fio elétrico, estendido através do espaço, pelo qual o homem pretende transmitir o pensamento com a mesma velocidade com que a inteligência o concebe, roubando a natureza essa força prodigiosa da eletricidade, que fazendo em um segundo oito vezes a volta da terra, é quase tão incompreensível como a imobilidade no movimento, como o movimento da imobilidade, e parece desafiar como o infinito as mais potentes faculdades do espirito humano: todos estes grandes produtos do trabalho do homem, ainda tão pequenos, tão inferiores às explosões magnificas d’esta natureza estupenda; tudo elevava o meu espirito na contemplação dos futuros destinos de minha pátria.

E a minha pobre e fraca imaginação, erguendo-se somente por um esforço de patriotismo, abraçava o quadro das futuras grandezas d’este país. Por toda a parte, do norte ao sul, do Prata ao Amazonas, os fecundos trabalhos da paz, as criações gigantescas da liberdade, as maravilhas dos progressos, as conquistas da civilização! Sulcadas por vapores as águas d’esses rios imensos que retalham o solo abençoado; suprimidas as distancias pela locomotiva e pelo telégrafo elétrico; o comércio do mundo enchendo os nossos portos; cidades populosas e ricas nascendo e crescendo à sombra da escola e da imprensa! Por toda a parte o espetáculo grandioso da liberdade e da ordem! Por toda a parte a luz inefável da harmonia social!

E lá, nos confins do norte do Império, eu vi um vulto imenso, que abrindo as asas elevava-se do alto das cordilheiras, e descrevendo círculos concêntricos subia, subia até perder-se nas nuvens. Era o condor dos Andes, imagem do gênio do Brasil, que abrangendo todas as esferas da inteligência e da atividade do homem, eleva-se, eleva-se até perder-se nos páramos infinitos do progresso e da perfectibilidade humana!

Era um sonho, senhores? Sim; mas era também a previsão do patriotismo. Era uma simples aspiração? Mas era também a esperança de uma realidade que já se não esconde completamente nas dobras do futuro.

Veio, porém, depois naturalmente a reflexão; e quando eu medi a distância imensa que separa a realidade do presente d’essa brilhante realidade do futuro, senti confranger-se-me o coração por um sentimento contristador!

Então procurei um lenitivo para as dores do espírito no espetáculo do mundo; mas debalde. Por toda a parte o mesmo espetáculo contristador!

Sempre o mesmo antagonismo no seio do progresso! Os factos contestando os princípios: doutrinas estéreis em todos os órgãos da publicidade, porque falta a sinceridade dos que as propalam; e a sociedade debatendo-se nas cadeias do egoísmo e das paixões ruins!

E uma interrogação me saiu espontânea dos lábios. Porque? Pergunta eu a mim mesmo; e o eco repetia – porque? – no silencio de minhas meditações.

E n’esta situação de espírito recolhi-me ao meu gabinete, onde abrindo as páginas de um livro li o seguinte pensamento:

Pode-se transformar completamente a face do mundo, reformando-se a educação da mulher. – Eureka!

Para que o Brasil seja o teatro das futuras grandezas da civilização, e cumpram-se os seus altos destinos, é necessário educar a infância; e para educar a infância é preciso educar a mulher, formar a mãe de família.

Sagrei-me ao culto d’esta ideia, senhores; e é este o motivo de minha presença n’esta tribuna.

Não venho encarecer a necessidade de se difundir a instrução por todas as classes da sociedade. Oradores muito competentes já o fizeram.

Que o ensino obrigatório, prudentemente aplicado às circunstâncias peculiares do nosso país; a liberdade do ensino a cuja sombra se desenvolve a iniciativa individual e o espírito de associação que têm operado verdadeiros prodígios no Estados Unidos da América do Norte; e uma sábia organização do ensino público levem a instrução às mais longínquas paragens do território, e a derramem por todas as classes sociais, é o mais ardente voto do meu coração. Aplaudo com júbilo esse movimento regenerador do espírito público; e permiti-me dizê-lo, sinto algum orgulho, quando me recordo das palavras que proferi na câmara dos deputados; quando folheio as páginas de um pobre livro, que tive a coragem de entregar aos ventos da publicidade.

Oxalá que em poucos anos se não possa dizer mais, que há no Brasil um milhão de meninos em idade escolar que não recebem instrução; e que no município neutro, na capital do Império, há para mais de trinta mil meninos nas mesmas condições! É preciso que desapareça essa humilhação da face do país! Que em matéria de estatística de instrução primária, não se limitem as nossas pretensões a rivalizar com Portugal e com a Turquia!

Entendo, porém, senhores, que não basta derramar a instrução por todo o território e por todas as classes da sociedade. Este poderoso e essencial elemento da grandeza e prosperidade das nações encerra um grave perigo, quando se lhe não imprime a direção conveniente. Não basta saber ler; é preciso ler, e ler bem.

Perto de nós existe uma nação: existe?... Existia perto de nós uma nação, que se tendo formado sob a direção do despotismo teocrático dos jesuítas, viveu sob o despotismo de um tirano sombrio e tenebroso, e de um déspota sagaz e astuto para acabar sacrificada às desregradas ambições de um déspota insensato. Compreendeis que vos falo do Paraguai: pois bem, senhores, quase todos os paraguaios sabiam ler. Liam o lhe tinham ensinado os jesuítas; o que lhe permitiam ler a tirania de Francia e o despotismo dos Lopes.

Remontemo-no à antiguidade. Houve uma nação que conheceu a imprensa séculos antes de nós, que soube ler, instruiu-se, e teve uma grande civilização. É a China. Na China, porém, a instrução não desenvolveu as instituições; petrificou-as.

O que vemos nas sociedades modernas? A Alemanha, a culta e sábia Alemanha sacrificando ao militarismo os recursos de suas populações instruídas, e infamando-se nos horrores de uma guerra de vã preponderância política, enquanto se agita interiormente pelos mais difíceis problemas de organização e bem-estar social; e não pode impedir a deserção em massa de seus filhos, que procuram nas terras do novo mundo o pão que na pátria que rouba a sua preconizada organização militar. A França, a grande e poderosa França, pagando tão cara e dolorosamente as glórias do seu primeiro Império, humilhada perante o mundo, e sacrificada aos erros de um governo que foram os seus próprios erros, entregue descuidada aos deleites de uma civilização corrompida, quando o inimigo lhe batia às portas; e dando depois dos seus grandes revezes o hediondo espetáculo dos horrores da comuna. A Inglaterra, a rica e poderosa Inglaterra, dando na Asia o espetáculo do assassínio sistematizado de um povo, degradado e cruelmente sacrificado à voracidade do mercantilismo, quando o pauperismo lhe dilacera as entranhas; e ela vê morrer, nas ruas de sua opulenta capital e de suas ricas cidades, milhares de vítimas da fome, não longe dos palácios de sua orgulhosa aristocracia e dos seus ricaços banqueiros e mercadores. E os Estados Unidos da América do Norte, onde a instrução popular tem tido um desenvolvimento maravilhoso, onde não há analfabetos, nem mesmo aqueles que as armas vitoriosas do Norte libertaram da escravidão! Esse povo gigante que soube dar a instrução aos quatro milhões d’almas emancipadas pela política evangélica de Lincoln; que estabeleceu mais de quatro mil escolas nos Estados do Sul para os libertos, regidas por mulheres, as quais como missionarias da ciência seguiam os exércitos libertadores, e iam derramando a luz da instrução no meio das populações libertadas; que durante a guerra tinha feito frequentar por quarenta mil libertos as escolas dos regimentos criadas pelos generais; que habilitou em escolas normais especiais mil e duzentos pretos libertos para reger mil e duzentas escolas; que elevou à cadeira do magistério primário e secundário mulheres de dezoito anos, há pouco escravas! Essa nação que nasceu das entranhas da liberdade de consciência e pensamento, debate-se nas garras de uma grande corrupção administrativa e de um mercantilismo aventureiro, que abalam as bases de sua organização social!

Tudo indica, senhores, que há um vício radical na civilização das sociedades modernas, um desequilíbrio no progresso dos diversos elementos sociais, um defeito gravíssimo na vida do homem, que não conserva a precisa harmonia no desenvolvimento regular de suas faculdades.

É a educação o remédio para esta grande enfermidade social. Educar o homem, desenvolver simultânea e harmoniosamente todas as forças de sua natureza, formar o homem completo no pleno desenvolvimento de sua natureza corporal, intelectual e moral, é a obra de uma verdadeira civilização; é a condição essencial da verdadeira grandeza das nações.

Se fazeis desenvolver somente as forças físicas do homem, o habilitais para satisfazer com mais facilidade as suas paixões depravadas. Se formais somente a sua inteligência, tendes um perverso, armado de todos os meios de fazer o mal. Quantos caracteres depravados unidos a uma inteligência rica de conhecimentos! Quantos homens muito inteligentes e muito ilustrados, profundamente corrompidos, capazes de todas as baixezas, e, portanto, perigosos instrumentos do mal.

Educar a vontade humana, desenvolver os bons sentimentos do coração do homem, formar o caráter, única força com que o homem produz as obras duradouras do progresso individual e social, é o complemente necessário da educação. É a prática do dever, meus senhores, o único meio de conjurar o perigo imenso que ameaça a civilização moderna pelo constante abaixamento do nível moral das sociedades. E o sentimento do dever desenvolver-se pela educação moral do homem.

Mas o homem não vive isolado. O homem foi criado para viver em sociedade; e a família é o tipo das sociedades humanas. É o seio da família que o homem nasce, vive, cresce e se desenvolve: é no seio da família que começa a educação do homem para completar-se no seio da harmonia social.

Na família, minhas senhoras, impera a mulher, pela força de sua franqueza, pela franqueza de sua força. A Providência ergueu para vós um trono no lar, onde exerceis, a mais nobre, a mais santa de todas as realezas, onde desempenhais a missão sublime, inefável, quase divina da mãe de família.

Constituir a família pela educação da mulher, formar a mãe de família, deve ser a obra de civilização moderna. É o problema das sociedades contemporâneas.

Falando da mulher em vossa presença, minhas senhoras, eu venho advogar a vossa causa; mas sinto o maior receio que pode embaraçar o advogado, o receio de desagradar o seu cliente. Hei de falar-vos, como é o meu dever, com toda a franqueza e lealdade; hei de dizer-vos a verdade. Mas na posição elevada em que eu vos contemplo, na missão sublime como eu compreendo ser a vossa no seio da família e da sociedade, está a mais completa manifestação do profundo respeito que vos consagro; e as minhas palavras hão de ser também inspiradas pela simpatia e afetos que deve inspirar a um homem de coração a mais primorosa de todas as obras da natureza.

Antes de considerar a mulher no seio da família; virgem, sentindo no peito o perfume da inocência, a flor de todas as virtudes, o perfume de todas as flores d’alma: esposa, elevando o homem pela dedicação, pela lealdade, e pelo amor: mãe, desempenhando a mais nobre de todas as missões humanas pelo mais santo de todos os sacrifícios, e pela mais sublime de todas as dedicações; permiti, minhas senhoras, que eu peça inspirações à história.

Vejamos o que foi a mulher no passado, para que compreendendo o que sois no presente, possais melhor compreender o que deveis ser no futuro.

Não me demorarei em descrever a situação da mulher no estado selvagem ou da natureza, como é ainda hoje entre os habitantes da Nova Zelândia; e a lei de Manou da antiga Índia consagrava sob o título de casamento do gigante. N’esse estado a mulher, vítima da superioridade física do homem, arrasta como um longo suplicio a sua existência na terra.

Também não falarei da situação da mulher, objeto de domínio comum, como entre os povos da antiga Bretanha.

A mulher comprada é o começo da instituição da família, como a conheceu ainda os povos contemporâneos da África ocidental; e são exemplos nos livros santos as esposas de Jacob. Na Índia, quando o pai pretendia casar uma filha, punha na porta de sua casa um ramo de folhas verdes; os pretendentes se apresentavam, discutiam o preço; e aquele que pagava o preço estipulado conduzia sua mulher.

Da compra da mulher foi consequência o seu encarceramento; o senhor defendia assim a sua propriedade, e a escondia aos olhos cobiçosos dos estranhos. O Oriente inventou o serralho, a Pérsia inventou o eunuco.

O Egito foi mais engenhoso no sistema de encarcerar a mulher. Uma lei de seus códigos prescrevia o seguinte:

Art.1º: É permitido à mulher sair, mover-se de um lugar para outro fora de sua casa.

Art. 2º: A mulher, porém, só poderá sair de casa calçada.

Art. 3º: É absolutamente proibido aos fabricantes de sapatos fornecer calçado às mulheres.

Essa liberdade metafisica fazia o orgulho e as delícias das matronas de Memphis; como ainda hoje faz as delícias de muitos povos livres que conhecemos.

Houve, porém, um povo muito mais engenhoso que o Egito no sistema de encarcerar as mulheres. Os chineses tiveram a habilidade de convencer as suas mulheres de que a graça e a elegância do andar consistia em não poder andar; e a mulher chinesa se fez o instrumento de sua própria reclusão, apertando os pés até privá-los do seu movimento natural.

Foi na Grécia que se afirmou a personalidade da mulher: ela deixa de ser coisa para passar ao estado de pessoa.

A hetaira Menesareth saiu um dia do banho do mar em presença da multidão; e enxugando na praia os seus longos cabelos, expôs às vistas curiosas dos atenienses os encantos de suas belas formas. Era uma representação do nascimento de Vênus; e os atenienses cantaram o hino sagrado de Chipre. Foi a santificação da beleza; e n’esse culto consagrou-se a personalidade da mulher.

Não procuremos o tipo da mulher grega n’essa sociedade excepcional criada pelo gênio de Lycurgo que se chamou república de Esparta. Constituindo uma nação guerreira Lycurgo considerou a mulher como uma máquina de produzir soldados, sem os doces sentimentos que são as flores do coração feminino. A mulher que ouvindo da boca de seu filho a notícia da morte de outro filho o repreende por não ter morrido ao lado de seu irmão, é uma cidadã da república de Esparta, mas não é uma mãe.

Em um dia do ano reuniam-se em uma sala escura todas as donzelas em idade de casar; fazia-se entrar igual número de mancebos, que nas trevas escolhiam as suas esposas, isto é, as máquinas de soldados.

É em Atenas que se deve estudar o tipo da mulher grega. Nos tempos homéricos Penelope, encerrada nos seus aposentos, sujeita ao seu marido e ao próprio filho, é o tipo de matrona casta e virtuosa. Escondida no gineceu, a matrona ateniense vivia somente para os misteres domésticos; e toda a sua glória consistia em dar filhos à pátria. Ligada a um homem que não era o eleito do seu coração, porque o casamento se fazia sem o consentimento da mulher, e que só vivia para os misteres da vida pública, que o prendiam todo o dia fora do lar, a matrona ateniense conhecia o pai de seus filhos, mas não conhecia o esposo. A vida para ela era um desgosto perpetuo.

Contra o aborrecimento perpetuo do gineceu procurou a esposa do cidadão ateniense um remédio na embriaguez e depois na orgia. Ouviu-se um grito que ecoou por toda a cidade, Evoé! E a matrona ateniense abandonou o gineceu; e seminua, com os cabelos espalhados ao vento, atirou-se ao frenesi da orgia, estorcendo-se na epilepsia da bacanal que expirou nas trevas! E a bacante voltava para o gineceu da matrona com mais firme esperança de cumprir a sua missão de dar filhos à pátria.

Demosthenes, o grande orador, dizia com a simplicidade de uma verdade moral, que eles, os atenienses, tinham esposas para lhes dar filhos, e amigas para os prazeres da vida. E era isso uma necessidade da vida ateniense. O homem de espírito, o orador, o estadista, o tribuno, não achavam no interior doméstico os prazeres da intimidade: de nada podiam falar à esposa, porque esta nada compreendia; todo o movimento da vida social lhe era desconhecido.

Mas o que não sabia a matrona ateniense, sabia-o-a hetaira, a musa da civilização grega. A hetaira sustentou o sceptro da realeza do espírito. Aspasia, a inspiradora, a mestra do maior homem de Estado e um dos mais distintos oradores da Grécia, Aspásia de quem a história com mais justiça deveria chamar o século a que deu o nome de século de Péricles, Lais, e Phryné que o gênio de Praxiteles imortalizou nas suas estatuas de Venus, Phryné cujo hábil advogado empregou como mais convincente argumento e mais incontrastável prova de inocência a desnudação de suas formas na presença do Areopago!

Como vos disse, minhas senhoras, a civilização grega afirmou a personalidade da mulher; mas não conheceu a mulher; mas não conheceu a mulher na dignidade de sua missão social. Entregou-lhe o cetro da realeza do espírito, e venerou a brilhante dinastia das Saphos, das Corinas, Cleobulinas, Aspasias, Lais, Phrynés, e Diotimas; mas fez da esposa, da companheira do homem, a epinelide e a bacante.

Em Roma a história contempla com respeito o vulto nobre de uma Cornelia, a mãe dos Gracchos, de uma Porcia, a filha de Catão, e outras encarnações da virtude da matrona romana; mas nos códigos d’essa senhora do mundo está consagrada a imbecilidade da mulher a par da majestade do homem. Embora mais livre que as esposa grega, a romana é completamente subordinada a seu marido, que sobre ela exerce o direito de vida e de morte.

A conquista trouxe para Roma os costumes gregos: a hetaira ateniense ostentou as graças no meio da cidade soberana; e a matrona romana quis imitá-la. Começa então essa longa epopeia do vício e da depravação, na qual se destacam os dois caracteres colossais de Messalina e de Nero.

Mas quando o poder romano corria para a sua ruína, em Belém da Judéia nascia Cristo, o redentor da humanidade. A virgem esposa de um operário, como dizem os livros santos, tinha recebido a visita do enviado de Deus, que a escolhera para mãe do redentor do gênero humano.

O cristianismo, mudando a face do mundo, emancipou a mulher.

Não há mais homem nem mulher diante do Evangelho, disse S. Paulo; e foi levantado o interdito lançado sobre Eva. Pela doutrina de resignação que é a vitória da fraqueza, e pela sua tendencia para o misticismo que é a religião do sentimento, o cristianismo falou a linguagem da mulher, que é a linguagem do coração. Uma virgem esposa e mãe, um Deus filho entre os homens, é a maior glorificação da família, a mais completa dignificação da mulher. Reabilitando a escrava, o cristianismo consagrou a missão da mãe da família.

Poupo à vossa delicada sensibilidade, minhas senhoras, a história da perseguição cristã, poema extraordinário de um martírio que durou dois séculos e meio, pavorosa epopeia do anfiteatro, que começa no reinado de Nero, a mais colossal aberração da natureza humana, entidade apocalíptica, enigma indecifrável na história.

Blandina, expirando na cruz para dar testemunho de sua fé ardente no mártir do Calvario! Potamiena, conduzida ao suplicio por um oficial que a defende dos ultrajes, amoroso da virgem mártir, confessa a sua religião, e morre supliciado para se encontrar na outra vida com a esposa do seu coração! Felicidade, escondendo com os braços os seios úmidos, e Perpetua, pregando no chão do circo os seus longos cabelos, inefável serenidade nos tormentos! E tantas outras vítimas puras da volúpia contagiosa do martírio! E, finalmente, a virgem cristã, devorada por Nero, a besta do Apocalipse, que entrava no circo coberto com uma pele de tigre, é, como diz um escritor moderno, a revelação de um princípio que a humanidade ignorava, a volúpia, a beleza, o prestígio do pudor, o ideal de Diotina e de Hypatia.

E vêde, minhas senhoras, como se prendem os elos da cadeia do progresso pelo desenvolvimento das ideias e de todas as manifestações esplendidas do espírito humano. Na Grécia, na sala dos banquetes de Agathon, uma formosa hetaira, Diotima, levantou um brinde ao amor ideal. – Estava presente um filósofo, Sócrates, que colheu a ideia dos lábios da hetaira para transmiti-la ao seu discípulo, Platão, que fez d’ela uma doutrina. Depois Hypatia, a pregadora cristã, ensinava aos crentes de sua fé o amor ideal; porém os monges de Nitria mataram-na.

E o ideal que se revelara ao mundo no martírio da virgem cristã, da vítima de Nero, o amor ideal voou para o céu com a alma de Hypatia, a vitima dos monges!

O cristianismo começava a esquecer as glórias do seu martírio de dois séculos; e foi a mulher, minhas senhoras, como o vereis, a vitima mais infelizes d’este esquecimento.

Tinha soado no relógio dos séculos a hora da queda do império romano. Dos pântanos do centro da Europa levantaram-se multidões imensas que foram bater às portas de Roma; e o império dos Cesares desmoronou-se. No coração d’esses bárbaros – que corriam à voz de seus chefes – quo Deus impulerit – expressão da crença profunda em uma missão providencial, havia um sentimento doce e inefável: era o culto da mulher. Ensinando-lhe a poesia do amor, atraindo-o pela elegância e pela beleza, a mulher exerceu sobre o bárbaro uma ação irresistível; e o converteu ao cristianismo.

Sobre as ruínas da autoridade de Cesar se levanta a autoridade dos bispos, que celebram aliança com o cristianismo com a barbaria nasceu o feudalismo: ergueu-se o castelo, império do nobre, e o claustro, império do monge. Lá em cima, no interior do castelo, a mulher do senhor, a nobre, a poderosa castelã: para dentro dos muros do claustro a religiosa, a freira, a serva do bispo: lá embaixo, no campo, na terra do senhor, a escrava, a mulher, a filha do servo da gleba, que devia ao poderoso fidalgo cristão, ao aliado do bispo, o tributo de sua honra e de sua virgindade!

Onde está a mulher do cristianismo? Onde a esposa, a mãe, glorificada por Cristo? Uma outra pergunta responde a esta, meus senhores: Onde estava então o cristianismo?

A igreja, para quem a mulher fora o instrumento da conversão do bárbaro, e de suas aspirações ao império do mundo inventou a cavalheria. Uma cerimônia religiosa, um batismo, dava ingresso para a ordem: e o novo cavalheiro escolhia a dama de seu coração, a mulher a quem prestava culto; e a quem consagrava a sua espada, como a consagrava à defesa de sua fé. Foi um sistema de bigamia instaurado sob os auspícios do clero, no qual se preparou para a mulher um triste papel.

Criou-se uma jurisdição, e estabeleceram côrtes ou tribunais para julgar as causas do amor. Uma d’essas côrtes decidiu que a mulher não podia amar o seu marido, mas assim o seu cavalheiro!

E quando sob os auspícios do clero, a mulher nobre desempenhava esse papel, inventou-se a feiticeira para a infeliz mulher do povo; e em nome de Cristo, em nome da Virgem Imaculada da Judéia, acendiam-se as fogueiras para queimar a feiticeira. E Joanna d’Arc, a donzela guerreira de Orleans, a salvadora da França, que também foi uma feiticeira!

Veio o século da renascença, que ressuscitou o paganismo. A igreja fez aliança com o paganismo; e esta aliança inaugurou uma época de devoção e de imoralidade. Dois tipos notáveis exprimem a situação da mulher n’esses tempos de grande corrupção unida à práticas, às exterioridades da religião: são Lucrecia Bórgia, a Messalina de Roma dos papas, e Mary Stewart, a pia e licenciosa, graciosa e pérfida rainha da Escócia, que dos braços de Darnley o dançarino passava para os de Riccio o musico, e dos braços d’este para os do scelerato Botwell, e dos d’estes para os do carrasco, imolada aos ciúmes de sua poderosa rival Isabel da Inglaterra, a rainha virgem, amante de seus ministros. E com Maria Stewart morreu a galanteria na idade média.

Foi um monge, minhas senhoras, que deu o primeiro brado da regeneração da mulher depois da idade média, Luthero, o grande reformador do cristianismo. A reforma pelo seu culto intelectual eleva a inteligência da mulher; e a leitura da Bíblia planta no seio da família uma reforma profunda. A reforma aboliu o celibato clerical, feia mutilação moral do sacerdócio, mais triste para a humanidade que a mutilação oriental, instituição de ambiciosa política que fechou as portas da família ao ministro de uma religião, que é nos seus dogmas inefáveis a glorificação da família! Instituiu o divórcio, porque compreendeu a necessidade da separação, onde só existe a união dos corpos e o divórcio das almas. Quando o casamento cristão for uma verdade e o culto da família o laço sagrado na união conjugal, o divórcio não terá razão de ser. Então a indissolubilidade do matrimônio será uma instituição veneranda, base da ordem moral da sociedade, e não essa hipocrisia, essa mentira sacrílega proferida perpetuamente à face de Deus e à face dos homens.

A reforma, porém, não disse a última palavra a respeito da mulher. A mulher crê; mas ainda não pensa: ainda não começou para ela a vida social. Foi o século XVII que alargou o círculo do lar: a marquesa de Rambouillet abriu o seu salão às celebridades do tempo; e instituiu a conversação, exercendo a soberania da graça e do espírito. Era, porém, estreito o círculo do salão; e o pensamento queria maior expansão: outra mulher, Mme de Sevigné, criou a correspondência, e deixou à posteridade em suas cartas o segredo d’esse estilo inimitável. E depois de Mme de Sevigné, Ninon, a rainha da elegância, a hetaira do século XVII, reivindicou para o seu sexo a liberdade de pensar. Legando a sua biblioteca a Voltaire, ella despediu-se do mundo, saudando a aurora do século XVIII.

E a mulher do povo, minhas senhoras, foi no século XVIII uma ideia, que teve a sua brilhante personificação em Mme Roland, a alma do partido girondino, vítima pura sacrificada às cruéis exigências do terror revolucionário.

Foi assim, minhas senhoras, que sobre as ruínas do passado que desabara ao sopro do tufão revolucionário, sobre os destroços d’esse cataclisma imenso que transformou a face da humanidade, ergueu-se a imagem bela da mulher moderna, mulher da família e da pátria, mulher e cidadã.

E quando o soldado do gênio que com a ponta de seu gladio abriu caminho às ideias modernas, pretendeu reduzir a mulher à condição espartana, máquina de soldados para serem devorados nos campos de batalha, Mme de Staël atirou um desafio solene à face dos detratores do seu sexo; e imprimiu na primeira página do livro do século XIX o verbo da emancipação da mulher: - O gênio não tem sexo.

E o século XIX, que na frase de Julio Simon é o século da escola, e que será também o século da educação, eu o espero, não chegará ao termo de sua evolução antes de ter consagrado a missão da mãe de família.

Mas eu, minhas senhoras, que tanto tempo tenho abusado de vossa delicada atenção, ainda vos não disse quem é a mãe de família. Não tenho títulos para impor-vos o sacrifício de uma segunda conferência: ouso, porém, esperá-lo do interesse que vos inspira o assunto. Sei que nunca é vã a súplica que fala ao vosso coração; e é com a mais animadora esperança que eu tenho a honra de saudar-vos.

Até breve, minhas senhoras".

Localização

Conferências Populares, Rio de Janeiro, nº5, maio, 1876, p. 97-102. (na integra). Capturado em 10 jul. 2025. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/DOCREADER/278556/574

Ficha técnica

- Pesquisa: Yolanda Lopes de Melo da Silva, Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.

- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.

Forma de citação

Conferência Popular da Glória nº 14. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 30 nov.. 2025. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=605

 


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