Conferência Popular da Glória nº 59: mudanças entre as edições
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Edição atual tal como às 23h16min de 19 de novembro de 2025
Data: 05/07/1874.
Orador: Manuel Jesuíno Ferreira
Título: Instrucção Publica II.
Aviso, íntegra ou resumo: Íntegra
Texto na íntegra
“Minhas senhoras, meus senhores. — Não espereis de mim rasgos de eloquência; um discurso que prime pelos ornatos da retórica; meu fim, encarregando-me de falar sobre a tese que foi anunciada, consiste tão somente em apresentar algumas ideias práticas que tenho sobre a matéria.
Da primeira vez que subi a esta tribuna e tive a honra de entreter vossa ilustrada e benévola atenção, versou o meu discurso sobre a instrução em geral; expendi o meu modo de pensar relativamente à influência que ela exerce na vida dos homens e nos destinos; das nações, e disse que havia cinco elementos principais adequados ao seu desenvolvimento os quais classifiquei da maneira seguinte:
A vulgarização do ensino.
O mestre.
O livro.
A emulação.
A escola.
Comparei estes elementos a um maquinismo, e acrescentei que um sem o concurso dos outros estorvaria a marcha regular do todo.
Fiz considerações sobre o ensino obrigatório em sua aplicação ao nosso país, à vista das nossas condições geográficas, sem contudo contestar à sociedade o direito de exigir que seus membros sejam entes moralizados e inteligentes, obrigando-os a se instruírem; direito que considero originar-se da mesma fonte dos que ela tem quando reclama dos cidadãos os seus serviços, a sua propriedade e até a sua vida; direito enfim mais nobre por ser mais humanitário em seu exercício que o de punir, que até hoje não lhe foi contestado por criminalista algum.
Agora venho tratar d'esses elementos, que, repito, considero os mais profícuos para desenvolver e firmar a instrução, base de todo o progresso social.
Senhores, um dos nossos mais notáveis homens de Estado disse outr'ora:
“Os governos despóticos são os que amam e promovem a ignorância como um elemento de sua existência e duração, e, no delírio de embrutecer os povos, assemelham-se ao louco que pretendesse arrancar a luz do astro do dia para cobrir de trevas o mundo; mas os governos livres, que se sustentam sobre a teoria das obrigações e deveres do homem social, não receiam, antes protegem os progressos de todos os conhecimentos humanos”.
Há já quarenta anos, que esse venerável ancião proclamara que a vulgarização do ensino era uma necessidade pública nos países livres. E sobre essa vulgarização que baseio o primeiro elemento da instrução publica
É intuitivo que quanto mais escolas forem criadas, tanto maior devem ser as vantagens obtidas, porque aproveitarão ao maior número de cidadãos; mas como o governo, em um país tão vasto como o nosso, e onde há uma população tão diminuta, não pode fundar escolas em qualquer lugar onde existam dois analfabetos, porque isso iria muito além das forças do tesouro nacional, quanto mais dos recursos dos cofres provinciais, já tão sobrecarregados de ônus, não vejo outro meio de remediar o mal senão fazendo o ensino livre onde porventura o governo ou entidades conhecidas não tiverem fundado ainda escolas suas. Em tais lugares tolere-se, permita-se que ensine quem souber e o que souber, pouco ou muito, porque a instrução sempre aproveita ao homem, ainda que ela seja a mais acanhada e limitada possível.
Não se ponha estorvos em tais condições ao ensino, por que é preferível saber pouco a não saber nada.
Saber escrever ainda que mal para dar o voto nos comícios populares; saber assignar o nome apenas para firmar o depoimento como testemunha, para autenticar a obrigação do negócio, para autorizar a vontade extrema, é preferível a não saber fazer isso.
É bem provável que esse ensino livre nos sertões das nossas províncias se circunscreva o mais das vezes a uma escrita de caracteres desiguais e sem as regras da ortografia, e que abranja apenas a quatro operações simples da aritmética. Não julgueis que seja pouco. Em falta do mais é o suficiente, se atenderdes às condições do mundo limitado em que vive quem o recebe; se atenderdes à vastidão de aspirações circunscritas a uma vida de aldeia, à satisfação de deveres que a bem pouco se reduzem.
Não aquilatemos as necessidades daqueles que moram em tais lugares pelas nossas, porque vivemos em uma sociedade espírituosass exigências onde precisamos de outros recursos da inteligência e da ilustração, e com receio de sermos desiguais na decretação dos meios de instrução para todos, não caiamos nos seguintes extremos – tudo ou nada – porque o tudo é impossível, e o nada em matéria de instrução é para o espirito o que é a ausência de luz para a vida animal, isto é, o resfriamento, as trevas, o caos, finalmente a morte!”
Haja liberdade, dadas essas condições; mas onde o Estado ou aquelas entidades tiveram escolas suas com um pessoal profissional moralizado e instruído, com o ensino distribuído sobre boas bases e meios de transmiti-lo, e melhor qualidade, quanto às matérias que compuserem o seu assumpto, nada de liberdade ampla. Seja a instrução recebida nas suas escolas, porque aí se deve ensinar o respeito às leis, o amor às instruções, e o temor, tão necessário, a Deus; há confiança na instrução que aí se transmite ao menino, o depositário das crenças de seus antepassados, o herdeiro das glorias de seus pais, o defensor da pátria e das instituições juradas.
Nem se diga que essas precauções são desnecessárias por parte do Estado, porque ninguém melhor de que um velar sobre a felicidade pai pode de um filho; ninguém melhor do que um pai pode ser juiz da moralidade do mestre ; pode conhecer finalmente dos demais predicados do ensino, porque a isso responderei que a ignorância por um lado, os labores e ocupações pelo outro, as condescendências aqui, acolá as falsas apreciações, e enfim os ódios da política podem transtornar as mais bem intencionadas vontades.
Nem se diga mais, senhores, que todos estes receios desapareceriam à vista de uma cuidadosa inspeção da parte do Estado, porque a isso responderei, que é tão vasto o nosso país porquanto abrange uma zona de cerca de treze milhões de quilômetros quadrados, e os núcleos de população estão tão disseminados e distantes, que seria preciso um grande pessoal, muito trabalho e fadiga para conseguir-se alguma coisa, gastando-se grandes somas, a que não corresponderia por certo o resultado obtido. Essa fiscalização havia de consumir uma grande verba, que tendo outra aplicação necessariamente produziria mais seguras vantagens. E o pessoal habilitado para isso, onde o governo iria achar?
Atendei, senhores, que todas as ponderações que deixo expostas têm por ponto objetivo o nosso país, onde nem o elemento local, nem o município, nem mesmo as associações auxiliam ainda o Estado no desenvolvimento da instrução; por quanto, se existissem tais elementos e associações, outras seriam as minhas ideias.
Convençamo-nos de que por muitos anos ainda é do Estado que têm de partir todos os esforços para o desenvolvimento da instrução até porque é o que ele dá a mais popular e cômoda, porque é a gratuita.
E não será possível, não se deve mesmo desconfiar que uma ampla liberdade de ensino traga também uma propaganda de ideias subversivas, sem um corretivo eficaz? Para os que podem correr na imprensa há o corretivo da mesma imprensa, mas para os que forem inoculadas no espírito das crianças não há remédio: durarão para sempre como impressões da infância.
Temei o veneno oculto— disse o imortal Fénélon; contra o perigo conhecido o homem tem força; ninguém receia o mal e o engano inopinados. Quando Proudhon atacou às descobertas a propriedade, Thiers o fulminou; quando as mais extravagantes ideias atacarão a religião, Lacordaire e Ventura de Raulica fizeram a luz e firmarão a verdade católica em muitos espíritos em dúvida. Poder-se-á conseguir isto contra o erro que é ensinado às escondidas ao menino? Não! O inocente há de beber até as fezes a raça da cicuta cujas bordas são besuntadas de mel, ainda que a sociedade se veja para depois obrigada a lançar mão de todos os recursos de que pode dispor para contê-lo no meio de suas ideias extravagantes. O que poderá conseguir é problemático.
O granito pôde ser talhado-d elo ferro, o ferro pôde voar em estilhaços pelo fogo, mas contra as convicções feitas desde os mais tenros anos não valem nem o ferro nem o fogo.
A prova é o amor da pátria pela qual damos a última gota do nosso sangue, é a dedicação dos mártires, fundada em crença gerada na infância, desenvolvida na adolescência e robustecida na idade viril.
Vem a propósito repetir o que há dias foi desta mesma tribuna dito pelo ilustrado Sr. Conselheiro Pereira da Silva:
“As instituições sociais não se improvisam. Para durarem, carecem de estar enraizadas nos usos, na educação, nas tendências, na alma do povo: de outra sorte desapareceram como o sonho do poeta”.
Diz Belime: « II peut se faire que les lois soient paralysées quand les moeurs ne les soutiennent pas ».
Sobre todos os homens deixam os acontecimentos dos verdes anos impressões que repercutem na mais avançada idade.
Foram essas impressões que formarão Homero e Virgílio.
Chateaubriand falando d'eles disse:
“O poeta cego pinta de preferência os costumes da Jonia, onde recebeu a luz do dia, e o Cysne de Mantua não se entretém senão com as saudades de seu sítio natal. Nascido em uma choupana, expelido da herança de seus avós, estas duas circunstâncias parecem ter singularmente influído para seu gênio: elas deram-lhe esta tinta de tristeza que constitui um de seus principais encantos. Ele recorda sem cessar esses acontecimentos e vê-se que frequentes vezes lembra-se d'essa Ârgos onde passou a sua mocidade”.
Um escritor inglês assim se exprimiu:
“Os sentimentos que durão sempre são aqueles nascem ao redor que do berço, e a voz dos velhos nos repete a todo o instante que as nossas primeiras emoções são também as nossas ultimas lembranças”.
Disse um orador moderno: «O homem é um ente ensinado”. Anteriormente Leibnitz se havia pronunciado d'este modo: “Dai-me a direção do ensino durante um século e eu mudarei a face do mundo”.
À vista de tão judiciosas advertências e opiniões devemos em um país novo como o nosso entregar o ensino à mais ampla liberdade? Creio que não.
Eis, senhores, como penso sobre a vulgarização do ensino ou antes sobre a liberdade do ensino: creio que só com as cautelas de que falei pode ela produzir benéficos resultados para a nossa sociedade.
Poderia tirar argumentos ainda a favor da minha opinião de muitas leis justa e louvavelmente repressivas e cautelosas que temos sobre diversos assumptos, e que são de todos vós conhecidas; mas isso me levaria muito longe n'esta minha exposição, e por tanto passo a falar do outro elemento. — O mestre.
É incontestavelmente o mestre um dos principais elementos do ensino, porque é o seu princípio ativo, é o elemento vivo.
Se a instrução é uma instituição social, deve ter um representante, que não é nem o aluno, nem o delegado da instrução, nem o inspector, nem o governo, mas sim o mestre, que conseguintemente deve ser instruído, morigerado, exemplar e respeitável; e como não tereis arvores sem raízes, nem edifícios sem alicerces, assim então tereis mestres sem escolas normais. Cumpre por portanto formar a corporação dos professores instruídos e moralizados, nomeados em concurso, fazendo-se do magistério uma carreira, sendo tudo regulado pelos princípios da restrita justiça, equidade e merecimento real.
Não me demorarei tratando da necessidade da criação das escolas normais, porque d'este assumpto já se ocupou um dos mais distintos talentos, o iniciador d'estas conferências; mas o que digo tão somente é que não devemos parar na que foi inaugurada há dias; vejamos que a Inglaterra tem 34 escolas normais, a França 69, a Áustria 96, e a Itália 91, com as quais despendem esses Estados centenas de contos de réis, como assevera o Sr. D. Antônio da Costa no seu precioso livro intitulado — A instrução nacional.
O mestre sempre foi considerado como o mais poderoso órgão do desenvolvimento da instrução, portanto todos os esforços para que elle esteja na altura de sua missão são poucos.
Não penseis, senhores, que eu venho aparecer as habilitações e merecimentos d’esse professorado a quem está no presente confiada em todo o Brasil a instrução da nossa mocidade, e apontar defeitos imaginários que reclamem ponto remédio. Não. Eu entendo que com os meios de educação e de instrução que esse professorado teve em uma quadra em que tudo estava por fazer, como foi essa dos primeiros anos do império, é ele digno dos maiores elogios, merece todos os louvores pelos meios porque habilitou-se tornando-se instruído e respeitável; e, ainda mais entendo que deve ser aproveitado convenientemente em todas as províncias para a criação de escolas normais: serve para satisfazer já essa tais palpitante necessidade, esperando-se o mais do tempo e das reformas que se forem fazendo. Confiamos nele, porque as escolas normais não têm somente de criar instrutores da mocidade, têm também de fazer educadores, e ele pela sua experiencia, estudo, e moralidade dá todas as garantias desejadas.
Uma outra condição para ter bom mestre é a retribuição do seu trabalho. O mestre deve ser condignamente retribuído, afim de que a sua dedicação não arrefeça adiante das necessidades de uma vida cujo futuro consiste na formação de um nome glorioso no conceito daqueles que foram seus discípulos.
E o pessoal empregado na instrução pública é suficientemente retribuído? A resposta não pode ser afirmativa. Na corte e em algumas províncias os ordenados são mais avultados, mas aí os meios de vida são também muito caros, no resto do império a retribuição é muito pequena.
Desculpai-me se não vos digo quanto gastamos. (Pausa.) Para que reticências? Os cofres quais gastam apenas 600 contos e os provinciais três mil e tantos! Os Estados Unidos gatão 180 mil contos, isto é, quase duas vezes a renda do Brasil; a Alemanha, a França, A Suécia, a Itália e a Suíça consignam grandes somas nos seus orçamentos para auxiliar a instrução.
Os inspectores de instrução na Inglaterra têm mais de seis contos; a França gasta com esse serviço mais de 200 contos, a pequena Bélgica mais de 80. Nos Estados-Unidos o diretor de uma escola de mais de 500 alunos tem 6 contos de ordenado, e cada professor de 150 alunos mais de 3 contos; cada mestra um conto e quinhentos mil réis. Os vencimentos de um superintendente de escola em New York são de 10 contos; de um subintendente de mais de 6, e de um diretor de escola normal de mais de 10.
Já ouço, senhores, dizerem-me que se assim é nesse país, e nos outros, é porque, como deixei referido, o Estado é apenas auxiliar; já vejo citarem-me que na França o município dá para a instrução cinco vezes mais do que o Estado, na Itália doze vezes, na Baviera três, na Suissa e na Holanda nove, na Áustria oito, e finalmente na Prússia dez vezes mais. Isto é verdade; n'esses países as despesas da instrução não pesam só sobre o Estado; mas se nada esperamos dos municípios por pobres em geral e sem rendas para tanto; se nada esperamos das associações, porque, ou não as há ainda, ou tudo reclamão do Estado; se pouco podemos esperar das províncias, cujos orçamentos estão sujeitos a enormes compromissos, todos eles têm déficits, o remédio qual é, se tanto se confia na instrução nacional, confiança que ela merece? É convencermos-nos de nossa posição excepcional adiante da questão e procurarmos solver pelos recursos dos cofres as gerais dúvidas do assumpto. Diz Laveleye falando da intervenção dos poderes públicos: “Onde ela falta o ensino primário é quase nenhum, e a ignorância extrema: não se citará um único país onde os indivíduos, mesmo formando poderosas associações, tenham conseguido abrir um número suficiente de escolas”.
Se são despesas gerais as que se fazem com a diplomacia, com o exército e armada, com as justiças civil e criminal, com a representação nacional, com o culto e com a administração, porque não há de ser também geral a despesa necessária à instrução, esse foco de luz que aquece e ilumina, como um sol explendente, todas as instituições que n'ela se baseiam, e que d'ela precisão ? Porque havemos de deixá-la entregue às apreciações de presidentes pouco estáveis de vice-presidentes menos estáveis ainda, e de orçamentos depauperados de recursos?
Julgais porventura que em desejo esse professorado habilitado, bem retribuído e exemplar, para que ele se encarregue da instrução do menino desde os seus mais tenros anos? Não: eu o considero improprio para isso. O instrutor do menino nessa idade deve ser a mulher: a ideia não é nova. Na Itália, na Suécia e nos Estados-Unidos, há muito está em execução; n'este que último país as mestras estão para os mestres na razão de 70 para 100, e na Suécia de 80; há mesmo Estados da União, como diz Laveleye, onde só as mulheres ensinam.
O ensino, senhores, deve ser dividido por grãos, o elemento que compreende o ler, o escrever, o contar, o catecismo, a música, o desenho, o conhecimento do sistema métrico, lições das causas, e geografia, deve ser dado pela mulher ao menino de 6 a 10 anos; a escola de gramática nacional deve ser regida pelo professor e deve compreender aqueles mesmos estudos com maior aplicação e desenvolvimento acrescentando-se a caligrafia, definições etimológicas, análises, aritmética, princípios de anatomia geral e história; finalmente a escola superior onde o aluno vá estudar as matérias precisas para a sua admissão em uma academia.
Senhores, o menino que na mais tenra idade se afasta da família para ir para a escola não deve sofrer os abalos da transição rápida; esta deve ser suave e natural. Se todas as mais de família pudessem dispor de tempo e habilitações para e encarregarem da educação de seus filhes a causa da instrução estava salva. A beleza da mulher, a suavidade ao sexo, os carinhos de mãe produziriam resultados espantosos. Se o ponto objetivo dos labores e aspirações do homem é a mulher, se a sua influência é uma lei da natureza, porque é fato observado desde a queda do primeiro homem até hoje; se como diz Aimé-Martin “quaisquer que sejam os costumes e as leis de um país, as mulheres decidirão sempre de tudo”, que prodígios não obrarão se nós lhes entregarmos a missão espinhosa da instrução e da educação do homem na primeira quadra da vida?
Ouçamos o que diz o superintendente do ensino em New York a seu respeito:
“A elevação de seu espírito se comunica naturalmente aos educandos que estão em relação quotidiana com elas; graciosas, brandas, puras, elas os tornam brandos, puros, graciosos. A mulher, muito mais penetrante que o homem, conhece melhor do que elle o coração humano e particularmente o dos meninos. Ella os mantém no dever pela afeição, melhor do que o fazem os professores com os seus regulamentos e sistemas de repressão. As advertências ternas produzem mais efeito do que as ameaças e a fria lógica dos homens. Enfim, podemos estar certos de que todo o menino, educado por professoras capazes, sairá de suas mãos cheio de sentimentos incompatíveis com uma existência viciosa; terá coração sensível, inclinações delicadas, espírito puro e subtil”.
As mulheres são as principais depositárias do afeto, e muitas vezes amam até por piedade. Esta é a opinião de Shakespeare e de Virgílio.
Othelo, no senado de Veneza, declara que o único artificio que tinha empregado para seduzir Desdêmona havia sido a narração dos perigos a que se tinha exposto.
No princípio do 4° canto da Eneida, depois da narração feita por Enéas, de suas infelicidades e perigos, Dido diz a sua irmã Anna:
Heu quibus ille
Jactatus fatis! quas bella exhausta canebat!
Solus hic inflexit sensus, animumque labantem
Impulit: agnosco veteris vestigia flammae.
Odorico Mendes traduziu estes versos do modo seguinte: Dos fados jogo,
Ai I qu'exhaustas batalhas decantava!
Este único abalou-me, eu t'o confesso,
E a vontade impellio-me titubante.
Sinto os vestígios da primeira chamma.
E quem merecerá, quem precisará de mais piedade para ser amado, porque a educação e a instrução são o amor do que o menino?
Eu o comparo ao tenro arbusto que se desenvolverá e dará saborosos frutos se tiver terra fértil e os cuidados de um agricultor amigo, ou que se fanará se esses elementos lhe faltarem, ou não lhe forem proporcionalmente aplicados.
Ninguém contestará que nos verdes anos o homem seja só sentimento, e então como não há de ser profícua a ação da mulher, o ensino dado por ela, atuando sobre o coração tenro do menino, sobre as suas faculdades em flor!
“O menino e a mulher são naturezas que se assemelham, diz D. Antônio da Costa: a inocência, a curiosidade, a bondade, o sentimento, as lagrimas, os sorrisos, e até a voz, tudo se harmoniza na mulher e no menino. Todas as leis do coração levam o menino para a mulher e não para o homem; o admira isto, se que foi nas entranhas femininas que ele recebeu já uma ante vida”.
Não devemos continuar a entregar exclusivamente o ensino do menino ao homem, senão aparelhai as pequenas peças de um maquinismo com um instrumento impróprio e vereis o resultado. Se alguém tentar aplicar um pequeno parafuso servindo-se de uma chave muito pesada, aquele vergará e jamais será colocado no lugar competente, e até, quiçá, pôde ser atirado fora por imprestável; no entretanto o deleito não foi seu, mas sim da inabilidade do maquinista.
Qual de vós está esquecido da catadura carregada de seu primeiro mestre? Como tímidos e humildes ficáveis adiante desse homem que vos incutia mais medo do que um fantasma, e de cuja presença procuráveis fugir invocando para isso a piedade de vossas mais, e até dos fâmulos que vos acompanhava à escola? É verdade que essas cenas têm minorado muito, mas ainda as há, e cumpre terminar de todo com elas. Em muitos lugares é ainda a escola um objeto de horror para o menino. Só o ensino pela mulher poderá melhorar eficazmente este estado de coisas.
E não é, senhores, somente sobre o menino que a influência da mulher se impõe, é também sobre os homens e objetos inanimados; senão dizei-me o que é Florença sem Dante e Dante sem Beatriz; o que é Vauclusa sem Petrarcha e Petrarcha sem Laura ; o que é Sorrento sem Tasso e Tasso sem Leonor ; o que seria de Abeillard sem Heloísa, e mesmo de Rousseau sem Mme. de Warrens? Vozes sem ecos, sítios sem almas — no pensar de Lamartine.
Minhas senhoras, vós possuis um talismã admirável. Vós não animais somente o homem, vivificais a natureza inteira. Se olhais, ilumina-se o mundo, e surgem como por encanto os prodígios das indústrias e das artes; se mandais movem-se, como faria a lira de Orpheu, os penedos, e os leões se aquietam; se andais, rolão em vossa esfera de atração os homens, e os objetos inanimados sem que desejeis e até sem que saibais. O que admira isto, se sois vós, como diz Michelet, que dais á sociedade as suas duas maiores preciosidades — a civilização e o menino.
Dizia a mulher de Leonidas, segundo refere Plutarcho:
“Não somos senão nós as Lacedemonias que comandamos nossos maridos, porque não somos senão nós que formamos os homens”.
Vejo, senhores, que não poderei hoje expender todas as observações sobre os outros elementos, que considero profícuos para desenvolver a instrução. Ainda, contando com a vossa bondade, me proponho a tratar da matéria em outra conferencia; mas, antes de deixar esta tribuna, permiti-me que laça uma ponderação ligeira sobre o ensino misto.
Não contesto, que nos países onde a civilização está mais adiantada se possa tirar resultado d’esse modo de ensino; creio, porém, que no nosso haveria grande repugnância, pelo menos nos lugares centrais, de mandar meninas para as escolas frequentadas também por meninos.
Ainda há entre nós um elemento que contraria a educação doméstica, é o escravo. Comumente o menino sofre mais a perniciosa influência d’essa aberração social que as meninas, porque sem contestação pais e mães de família prendem mais a atenção a estas do que àqueles; e como não justificar essa justa repugnância da convivência de sexos, que além de instintos diversos, de diversos sentimentos, de aspirações também diversas recebem desigualmente as atenções de seus diretores e educadores? Todas as reformas têm a sua época própria: a inoportunidade da medida pode matar a ideia. Desbrave-se o terreno d’essas repugnâncias, dessas dificuldades, e a instituição dará satisfatórios resultados.
Tenho a maior fé que essa lei que decretou – que mais ninguém nasce escravo no Brasil – é depois da independência a maior conquista que temos feito em prol da civilização, porque, como nova aurora de liberdade, derramará mais brilhantes clarões sobre os vastos campos da moralidade nacional.
(Muito bem, muito bem).”
Localização
- Conferências Populares, Rio de Janeiro, nº5, mai., 1876, p. 62-76 (na integra) Capturado em 18 jun. 2025. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/docreader/278556/540
Ficha técnica
- Pesquisa: Yolanda Lopes de Melo da Silva, Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.
- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.
Forma de citação
Conferência Popular da Glória nº 59. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 30 nov.. 2025. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=649
Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz – (http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br)