Conferência Popular da Glória nº 75: mudanças entre as edições
(Criando um novo verbete.) |
(Sem diferença)
|
Edição atual tal como às 18h36min de 23 de novembro de 2025
Data: 30/08/1874.
Orador: João Manoel Pereira da Silva
Título: Exame dos escritos e documentos históricos sobre as colônias americanas publicados na Europa durante os séculos XI, XII e XIII (cont.).
Aviso, íntegra ou resumo: Resumo
Texto na íntegra
“A de domingo 30 do corrente foi efetuada pelo Sr. Conselheiro Pereira da Silva, às 11 horas da manhã, na escola da Glória com a presença de SS. MM. Imperiais e numerosíssimo concurso de senhoras e cavalheiros.
Versou sobre o exame dos documentos e escritos publicados pelos portugueses nos séculos XVI, XVII e XVIII sobre a colônia Brasil, afim de aí descobrir-se que ideia e conhecimento tinha a metrópole das suas possessões americanas, e que intentos e vistas demonstrava na sua colonização e administração, como o orador havia feito na conferencia passada a respeito das colônias americanas, dos franceses, holandeses, espanhóis e ingleses, que, com os portugueses, foram os cinco povos europeus conquistadores.
Quanto ao século XVI pouco caso fizeram os portugueses do Brasil; tinham a Asia; o Brasil era por demais, bastava segurar-lhe a posse. Também em 1580, caiu Portugal com todas as suas colônias sob o jugo da Espanha. Só duas obras publicaram Gandavo e Antonio Galvão. O que mais se disse foi ou no estrangeiro ou pelo estrangeiro, e a coleção de Rameiro que se imprimiu na Itália.
No século XVII, ao recobrar Portugal sua independência, achou-se sem a Asia, e até sem uma parte do Brasil, e norte. Os ingleses e holandeses haviam-se apossado de suas colônias mais ricas, abandonadas por Espanha, que só curava das de origem espanhola. Como o Brasil deu provas de que era português, unindo-se em 1640 a Portugal e arreando o estandarte espanhol; para o Brasil dirigiu d’aí por diante Portugal a sua atenção, e era uma necessidade, na decadência em que caíra, para erguer-se e sustentar-se. Provou ainda o Brasil sua dedicação, levantando-se por si os povos para expelir os holandeses do solo, porque o governo oficialmente não podia pôr-se à testa do movimento pelo tratado de D. João IV com a Holanda, reconhecendo a esta senhora do norte do Brasil. Se há herói, é André Vidal de Negreiros, que andou animando os povos, e alguns pregadores, como Vieira, que excitavam pela religião os ânimos contra os holandeses. João Fernandes Vieira não foi senão um auxiliar valioso, e que abandonou por último os holandeses, com quem se ligara.
Então começaram-se a publicar obras, e aí estão os escritos de Albuquerque, Calado, Raphael de Jesus, Brito Freire, Ericeira, Padre Vieira e Francisco Manoel de Mello. Examinados, oferecem apenas materiais para a história; acham-se eivados de ideias falsas, não aprofundam as coisas, e a razão era que nenhum viu documentos oficiais, que se depositavam nos arquivos e se não confiavam a pessoa alguma. Os documentos holandeses da guerra são mais importantes para se conhecer o solo, a topografia, os costumes dos gentios e mesmo as lutas. Em relação ao princípio, dão legendas por verdades, como a do Paraguassu e Caramuru, que o orador analisa para provar quanto ahi há de fruto da imaginação.
Houve também no século XVII escritores religiosos, um irmão de Vasconcellos, o melhor deles, e depois Balthazar Telles, jesuítas, que prestaram grandes serviços no Brasil à catequização dos gentios. Declara que a Companhia de Jesus não tinha pátria; sujeitava-se à Roma e ao Papa. Corria o mundo para dominar povos e reis, e o subordiná-los ao Papa. No Brasil os jesuítas se aplicaram isoladamente á obra da propagação religiosa, ao ensino público, e não há louvor que não mereçam dos povos e até do governo. No Prata, 400 jesuítas existiram com sede do estabelecimento de Cordova, 14 residenciais, e por ordens do governo, senhores civis das missões de gentios que formavam. D’aí as chamadas do Paraguay cuja organização, sociedade, governo e administração o orador examina para mostrar os lucros da Companhia que revertiam para Roma.
No século XVIII é já o Brasil tudo para Portugal: remete-lhe mercadorias, que os portos da metrópole vendem ao estrangeiro; a balança do comércio mostra os lucros de Portugal. Publicam-se algumas obras, mas sem o valor de história, como a de Rocha Pitta Berredo, Joboatão, etc. Mas de tudo quanto foi impresso não há uma história.
Os documentos publicados ultimamente, encontrados em Lisboa, no Brasil, na Holanda, é que tem lançado alguma luz sobre a administração do Brasil até 1800, municipalidades, classes do povo, nobres, peões, cristãos novos, degradados, gentios, escravos, seus deveres, direitos e relações, organização da milicia, ordenanças e finanças, instituição dos capitais móveis, etc.
O próprio inglês Southey, que escreveu a melhor história, não serve porque apenas narra com elegância e critério os fatos políticos, guerras, lutas, etc. Mas nunca veio ao Brasil, não viu documentos oficiais, não estudou a sociedade brasileira, e não passa de um escritor estimável.
Então o orador descreveu as qualidades de bom historiador, e finaliza dizendo que se ainda o não possuímos sobre os tempos coloniais tenhamos fé que essa glória não há de caber, porque os brasileiros mostram-se admiravelmente cultores das letras e ciências, seus progressos são espantosos: aconselha que se lembrem que são americanos, mas principalmente que são brasileiros, com sua autonomia e características.
O orador foi aplaudido ao terminar o seu discurso.
Quinta-feira, às 6 horas da tarde, terá lugar a nona conferência do proveitoso Curso de Pedagogia de que encarregou-se o ilustrado Sr. Dr. Antonio Ferreira Vianna, que, continuando a tratar da aplicação da lei da harmonia, exemplificará com um varão ilustre a sua doutrina acerca da grandeza d’alma”.
Localização
- Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, Anno 53, n. 242, 01 set. 1874. p.3 (resumo). Capturado em 16 jul. 2025. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/DocReader/364568_06/9343
Ficha técnica
- Pesquisa: Yolanda Lopes de Melo da Silva, Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.
- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.
Forma de citação
Conferência Popular da Glória nº 75. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 30 nov.. 2025. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=665
Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz – (http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br)