Conferência Popular da Glória nº 90: mudanças entre as edições
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Data: 18/10/1874
Orador: João Manoel Pereira da Silva
Título: Milton: Paraíso Perdido.
Aviso, íntegra ou resumo: Íntegra
Texto na íntegra
“Minhas senhoras e senhores. — Das plagas meridionais da Europa saíram os cinco primeiros poetas épicos, de cuja vida e obras nos ocupamos. O sexto gênio, que com eles emparelha e rivaliza, nasceu ás ribas do Tâmisa, na fria e nebulosa Inglaterra, sob um céu diverso do da Itália, de Portugal, da Grécia, onde a natureza, o horizonte, o mar, as montanhas, os golfos e as flores, tudo convida ao repouso do corpo e ao cismar do espírito.
João Milton veio ao mundo em 1608, e na cidade de Londres. Esmerou-se seu pai em educá-lo. Aos trinta anos não era Milton somente um dos mais ilustrados vultos ingleses nas ciências filosóficas e políticas; sabia todas as línguas modernas e vivas, que falava corretamente; conhecia o grego, o hebraico e o latim, e até versos latinos escrevia com facilidade.
Faltando-lhe ar e espaço na pátria, passou-se à França, e d'aí à Itália, que percorreu quase toda. Em Ferrara visitou a prisão de Tasso, em Florença quiz ver Galileu encarcerado pela inquisição por ter descoberto o movimento da terra, que até aquela época os sábios do tempo consideravam firme e fixa. Escreveu a este respeito uns versos em italiano, sustentando que os governos absolutos civis protegiam as letras e artes, toleravam as ciências e perseguiam só a independência de caráter: mas que o regime eclesiástico admitia as letras e artes para ornamento, mas nem as ciências tolerava; a prova estava em que Galileu, apesar de protegido por príncipes italianos, não pudera escapar ás garras do tribunal do Santo-Oficio.
Não houve na Itália literato ilustre que Milton não procurasse, academia artística ou cientifica a que não fosse apresentado. Itália era a nação mais nomeada então nas ciências, nas letras e nas artes; marchava na dianteira da Espanha, Portugal e Inglaterra, cuja literatura começara no século XVI, e sobretudo da França, que não conta sua história literária senão do século XVII em diante, apenas podendo gloriar-se em época anterior com alguns escritores isolados.
Inglaterra até o tempo de Milton possuía uma tal qual literatura, ou instrução literária; mas em todos os ramos inferior às de Itália, Espanha e Portugal principalmente, salvo no dramático. Parece que o povo inglês foi sempre mais que nenhum propenso à poesia dramática. Não cede n'ela palmas a nenhum outro. A findar o século XVI, o teatro inglês brilhava literariamente quase só, apenas alguns raros espanhóis às vezes fulguravam no horizonte, como prelúdios de Calderon de Ia Barca que viveu no século XVII. Shakespeare, que abrilhantava o reinado de Izabel, Shakespeare, o primeiro, ainda hoje o mais elevado e admirável poeta trágico dos tempos modernos, tivera antecessores e contemporâneos quase rivais na sua própria pátria. Marlowe, Fletcher, Lilly, e outros autores competirão com ele no favor público, posto que, com gênio mais possante e esplendido, atraísse Shakespeare as vistas exclusivas da posteridade e os deixasse ficar injustamente esquecidos.
Em Nápoles soou aos ouvidos de Milton a notícia de que Inglaterra se revolucionara, que entre o rei Carlos I e o povo se encetara uma luta terrível, que os primeiros golpes da guerra haviam sido já feridos. Milton abandonou a Itália incontinente, e regressou a Londres, no intuito de atirar-se ao campo da batalha, e partilhar a sorte dos combatentes.
As armas, porém, que empregava Milton, não erão as militares, sim a dos literatos; era a pena, e Milton tinha consciência d" valor da sua pena, que no meio de agitações apaixonadas e de excitações revoltas, devia produzir efeito, criar prosélitos e coadjuvar a vitória.
Os partidos políticos ingleses nessa época misturavam e baralhavam princípios religiosos. O luteranismo se dividira em seitas, que às vezes se combati ao com ódio e até rancor, e acompanhavam estes e aqueles grupos políticos. Milton tomou lugar entre os presbiterianos. Escreveu e publicou panfletos sustentando os direitos do povo e do parlamento contra as pretensões da coroa. É notável que já então Milton suscitasse princípios até ali desconhecidos, a respeito das liberdades civis e políticas, e que vigoram hoje na nova ara como axiomas inconcussos, devendo ser por este motivo considerado o precursor das ideias liberais.
Carlos I lutou, resistiu às justas exigências do parlamento: a batalha passou para a ação material, para a guerra civil. O parlamento venceu, Carlos I foi preso. Cromwell que se fizera chefe dos adversários do rei, teve medo de que o parlamento denominado o longo, que já tinha dado provas de tanta independência, se negasse à condenação do rei, e dissolveu-o para organizar um que fosse cego instrumento de sua política. O rei foi condenado então á morte por esse novo e improvisado parlamento; executado no patíbulo, no meio da Inglaterra atônita e em frente da Europa espantada.
A república foi declarada. Milton serviu a república, aceitando o cargo de secretário latino perante o conselho de estado. As reclamações diplomáticas da época se redigiam na língua latina.
Mas conquanto se chamasse republicano o regime inglês, Cromwell se fizera, com o título de protetor, mais absoluto e mesmo despótico que os antigos reis, e o próprio desgraçado Carlos I, que regara o cadafalso com seu sangue. Sem entrar na questão se é responsável como qualquer particular o soberano, embora declarado inviolável, quando excede a esfera das suas atribuições, e comete atos contra os direitos e liberdades públicas ou privadas, cumpre-me dizer que erro foi, é grande erro político e social, a condenação e morte de Carlos I; de que serviu à Inglaterra para o regime liberal o despotismo de Cromwell, seguido quase logo depois de uma restauração reacionária de Carlos II e de um governo louco e estúpido como de Jacques II? Se não fora a revolução posterior de 1688 com Guilherme III, o que seria do sistema representativo em Inglaterra? Nada se deve praticamente aos revolucionários de Cromwell; a revolução não alego que seja direito, mas é um fato causado por graves erros e acontecimentos fatais; é às vezes providencial, porque salva as nações, conquanto na ocasião as balance e perturbe seriamente; muitas vezes, porém, origem de grandes calamidades, e da ruína geral dos povos. Cumprir benefícios por meios pacíficos e regulares preferível é sempre em minha opinião, lutando-se dentro da esfera legal para encontrar apoio e alcançar a vitória das ideias.
E como é que Milton, espírito pensador, claro e livre, que adotava e defendia doutrinas sãs de liberdade, que proclamava o princípio da liberdade da imprensa como indispensável, como é que Milton passou do serviço da república para o de Cromwell. dedicou-se ao lord protetor, tornou-se mesmo fanático seu, quando Cromwell não passava de um déspota, de um Maomé do norte, iludindo o povo e ganhando-lhe os afetos com hipocrisia até ridícula, porque só lhe falava em Inglaterra e Evangelho, dando a entender que estava por Deus incumbido de uma missão sobre a terra, e jejuava, rezava e chorava diante do povo, batendo nos peitos? (Risadas.)
Como conseguira Cromwell que o ânimo esclarecido de Milton, o caráter livre e nobre de Milton se lhe curvasse a tirania, que ostentasse mesmo garbo de apoiá-la e servi-la? E duro dizer, mas cumpre falar sempre a verdade, Milton tanto se prostrou a Cromwell, que escreveu um panfleto em resposta a outro intitulado Eikon Basilike, e n'ele defendendo a condenação de Carlos I, lançou injurias á memória do rei infeliz, insultou-lhe a família e a honra. Tinha-se tornado Milton o publicista mais distinto com as suas publicações do iconoclasta, do episcopado, das defesas do povo inglês e da areopagetica, panfletos notáveis pelos princípios liberais e generosos, e ao mesmo tempo repletos de paixões incendiarias, de incentivos revolucionários.
Seduzia-o, impunha-lhe sem dúvida Cromwell pela energia de caráter, pela vontade de ferro, pelo respeito que sob seu governo curvou os povos estrangeiros, de modo a alçar a reputação inglesa acima da das outras nações, pela hipocrisia talvez do procedimento, que fanatizava de certo o poeta. Milton não teve ação ou parte nos atos e crimes da república, ou de Cromwell; seu único feito foi defendê-los pelos seus escritos. Sua influência adquirida pelo talento, ou pelas qualidades da alma, era sempre empregada em favor dos perseguidos, embora aderentes a causa que ele combatia como escritor e publicista.
A morte de Cromwell acabou com a improvisada ditadura. Seu filho Ricardo não tinha ombros para sustentar o peso do edifício, posto que Milton fizesse ainda em panfletos apelo ao povo inglês convidando-o a defender a liberdade e a república. A reação fizera-se nos espíritos, Carlos II voltou para Inglaterra, e sem encontrar resistência empunhou o cetro, cobriu-se com a coroa de Isabel e exerceu o governo da nação, menos contrariado do que seu pai o fora, ou seu avô, que nos parlamentos deparavam com repulsas contínuas.
Carlos II, rei medíocre e dissoluto, despido de qualidades notáveis públicas ou particulares, inspirou-se, todavia, de uma ideia feliz, para salvar-se de responsabilidade perante os pósteros. Deixou que o parlamento que o chamara á Inglaterra castigasse os seus inimigos, sem que o rei aparecesse como vingador das injurias e feitos contra seu pai. O parlamento não poupou prisões, processos, deportações, exílios, sentenças condenatórias, e execuções contra os que mais se haviam ilustrado durante a república e o protetorado de Cromwell, Milton, posto que se ocultasse ao público, não foi esquecido: uma ordem de prisão lavrada pelo parlamento foi contra ele mandada cumprir.
Felizmente para Milton, como procedera sempre na ventura com generosidade, encontrou entre os seus compatriotas generosidade e gratidão na época da desgraça. Milton salvara, durante o governo de Cromwell, o poeta monarquista Davenant, condenado pelos juízes. Davenant, que gozava de influxo com a restauração de Carlos II, lembrou-se do benefício, foi grato a Milton, acudiu em seu socorro, e alcançou que fosse solto, e abandonada toda a ideia de processo contra ele.
Mas Milton achou-se isolado, abandonado, desprezado e odiado pela geração que o rodeava. Seus amigos republicanos tinham todos desaparecido, mortos em guerras ou patíbulos presos, expatriados, escondidos. Recolheu-se Milton á vida intima de família. Tinha perdido a vista no tempo de Cromwell, ficara de todo cego. Três filhas que tinha, e sua terceira mulher, pois que enviuvara das duas primeiras, serviam-lhe de secretários para as obras que ele ditava, e cuja publicação lhe rendia para as necessidades da vida, pobre como ficara com a queda da república, sua favorita e predileta. Assim mesmo tão pouco produziam seus escritos, que nos últimos dias de vida até os livros de sua biblioteca foi compelido a vender para sustentar-se e a família.
Lembrou-se Milton que era poeta, e não publicista e admirável prosador somente. Aos cinquenta e nove anos de idade é que compôs o poema do Paraizo Perdido. Às vezes, às noites, acordava a mulher ou filhas para imediatamente escreverem versos, que no repouso lhe erão inspirados. Concluído o poema, quase não achou livreiro que o quisesse comprar para o publicar. Ou o ódio político, que lhe perseguia a memória, ou a ideia de que só era publicista, e não podia ter valor um poema por ele feito, trouxeram-lhe dificuldades, até que por fim um livreiro apareceu que lhe aceitou a compra da propriedade do Paraizo Perdido por dez libras esterlinas! (Sensação.)
Publicou-se o poema; sete anos viveu ainda Milton. O poema ficou guardado na livraria sem quase ninguém o procurar, sem quase ninguém o ler. A literatura do tempo era representada particularmente por Dryden, e movida por Waller, Rochester, e Wincherley, poetas estimados do governo de Carlos II, e mais dados a gêneros ligeiros e licenciosos que a grandes concepções. O povo que acompanha sempre as ideias predominantes das esferas superiores, não podia também apreciar as esplendidas imagens, e a magnificência severa do Paraíso Perdido, quando a mais desenfreada licença e devassidão influía na corte de Carlos II, e, portanto, na literatura, que era quase toda oficial.
Milton morreu no abandono e desprezo dos seus compatriotas; pobre e isolado no seio intimo e único que lhe restava da família; reputado só como publicista, odiado sempre como republicano, desconhecido inteiramente como poeta. Teria 66 anos de idade, quando faleceu em 1674. Muito tempo depois de sua morte é que se deu apreço ao poema esquecido e desprezado do Paraizo Perdido (Sensação). Ao descer ao tumulo ficaria convencido Milton ou que não o dotara a Providência para a poesia, ou que a sua gente e a sua geração lhe desconheciam o estro poético?
Cuidemos agora de apreciar o poema de Milton. Serve a história do poeta, a descrição do seu caráter, a percepção dos seus sentimentos e paixões, o conhecimento da situação social e civil, em que ele se encontrou e de que foi parte, para melhor se examinar suas obras, e descobrir-lhe as tendências e qualidades. Não tratarei de outros escritos, e só do Paraiso Perdido, porque meu fim é unicamente estudar a poesia épica, e demonstrar sua superioridade entre os vários gêneros de poesia. Assim o pratiquei com os cinco grandes poetas, de que tive a honra de entreter vossa benévola atenção, assim o praticarei a respeito de Milton.
Inspirar-se-ia Milton com uma comedia sacra italiana do século XVII, que ele confessa haver visto representar em Milão, tendo por base a criação do mundo? Assim muitos comentadores o acreditam. O que é certo é que Milton, ao pensar no assumpto, tencionou ao princípio aplicá-lo a uma tragédia, que chegou a-esboçar e regularizar em plano. Depois exaltou-se com o assumpto grandioso, e achou-o superior a uma tragédia, digno de um poema épico, e escreveu então o Paraizo Perdido, aos cinquenta e nove anos de idade, quando já o corpo humano começa a gastar-se, tende à sua ruína, e marcha para a sepultura.
Há quem pense que as mais inspiradas e encantadoras composições do espírito cabem só ás idades verdes, frescas robustas e fortes do homem: particularmente em relação aos produtos da imaginação, aos voos da fantasia, às criações poéticas. Erro é e notável, e a prova se depara em Milton em Milton, como e não só em Rousseau, em Bossuet, em Luiz de Souza, em Calderon de la Barca, e em muitos outros escritores.
O corpo pode estar decadente, e a inteligência, o espírito, a imaginação conservar-se elevada, sublime, e até mais fortalecida pelo estudo, meditação e experiência. Há inspirações poéticas da velhice, que não cedem a nem um vôo ou arroubo da mocidade. (Muito bem.)
A mocidade tem mais fogo talvez; menos razão, todavia; mais imagens alterosas, às vezes, porém, excessivas, profusas, desordenadas; menos método, menos gosto sobretudo, menos natural e simplicidade, que é o que mais vezes toca ao sublime, ferindo a corda própria da harmonia e da verdadeira graça. (Muito bem.) O que é mister é não estragar a imaginação, aperfeiçoá-la antes, robustecê-la, e guardá-la para obra de grande fôlego, que é a que, findo o seu presente, única pode chegar à posteridade. (Muito bem.)
O assunto do Paraiso Perdido é majestosamente épico, posto que diverso dos da Ilíada, Jerusalém, Divina Comedia, Eneida e Lusíadas. Nestes há um fato gigantesco histórico, ornado de maravilhoso. No Paraíso Perdido brilha o grande quadro da criação do mundo, segundo as santas Escrituras, com o aparelho do maravilhoso cristão, que é o mais belo de todos. Os outros poemas são nacionais, cavalheirosos; o de Milton é o da humanidade, e, portanto, de superior interesse para todas as almas, porque apresenta o mundo invisível, como a religião no-lo pinta, e a consciência no-lo confirma.
As personagens do poema de Milton são poucas, mas admiráveis, e encantadoramente desenhadas. Deus, todo pode- roso, é descrito com toda a sabedoria nessa região elevadíssima e sublime, onde não chega o homem, rodeado de nuvens, transmitindo suas ordens naquela linguagem mística, e por meio de parábolas, conforme a Bíblia, afim de produzir todo o efeito maravilhoso.
O filho de Deus, todo ternura nunca desmentida, contendo em si a divindade e a humanidade, de essência divina protetor da criatura feita à imagem de seu Pai, Raphael e Miguel, anjos fiéis e devotos. Satanás, personificação magnifica do gênio do mal, mais gigantesco que os Titãs da fábula, com sua consorte de anjos decaídos por desobedientes e rebeldes, apoiando-se no caos, no pecado e na morte, como companheiros de suas maldades. Adão e Eva, tipos puros e gerais da humanidade, com seus caracteres e qualidades verdadeiras.
Adão adora Deus por Deus, mas extasia-se diante da mulher que era carne de sua carne, osso de seu osso, sangue de seu sangue. Eva adora Deus pelo homem, mas admira-se em sua formosura, nela deposita sua força e influência Adão, grave, meditativo, pensador; Eva, ligeira, curiosa e cheia de graças e atrativos.
Começa o poema pelo acordar de Satanás no meio de um lago de fogo. Chama a conselho os anjos decaídos e perversos. Anuncia-lhes um novo mundo e uma nova raça criada por Deus. Já que os entes malvados não podem afrontar o próprio Deus, cumpre vingar-se dele nas suas obras. Todos os anjos caídos o aplaudem e animam nos intentos. Satanás atravessa o abismo, e à luz do sol descobre o Paraiso.
Deus percebeu o plano de Satanás, e a perda do homem. O filho oferece-se-lhe para salvar e remir a humanidade, qualquer que seja o sacrifício necessário. Deus aceita a ideia do filho, e manda a Adão o anjo Raphael, afim de aconselha-lo e explicar-lhe o seu destino. Raphael chama Adão a uma conversa particular. Eva oculta-se para ouvi-los. Raphael narra a Adão a história da revolta de Satanaz e seus comparsas, e o castigo que Deus lhes infringe. Aconselha-o a obedecer a Deus, a servi-lo, a adorá-lo, empregando a força que lhe foi dada para resistir ás tentações que o hão de procurar.
Adão confia a Raphael seu agradecimento a Deus por lhe haver dado o melhor presente possível em Eva, que ele presa e adora. Mostra-se extasiado diante da graça que tem seus passos, do céu, que seus olhares apresentam, do amor que inspiram todos os seus movimentos. Sabe que deve ser soberano, e Eva obediente; sabe que recebeu a contemplação e a coragem, quando Eva foi só dotada de graças atrativas; sabe que, sendo desiguais os sexos, diversas devem ser as suas qualidades; mas ele vendo Eva sente que lhe desaparece toda a sabedoria, escurece-lhe a razão, some-se-lhe a autoridade que deve sobre ela exercer, e aceita de preferência a do império de Eva. O que seria para ele a natureza, apesar de esplendida, os céus, o paraíso, as arvores, os perfumes das flores, as delícias do mundo, sem Eva, que única vale mais que tudo quanto existe, quanto ele presencia, e sente. Raphael aconselha-o a resistir a esse amor imenso que o abraça e que pôde perdê-lo.
Eva, satisfeitíssima com a confissão de Adão, corre a colher flores. Não tarda Adão a ir procura-la, apenas se despede do anjo. Eva diz-lhe que quando nasceu para o Paraizo, observou uma fonte, e ali uma imagem arrebatadora pela formosura a acompanhar-lhe os olhares e os movimentos; ouviu estática, depois, uma voz que lhe dizia - és tú - mas encontrarás quem mais te admire, é Adão. Adão cada vez se deixa mais cativar pelas seduções da companheira, e aconselhando a Eva para a vida, explica-lhe que Deus, permitindo-lhe o gozo de todos os objetos espalhados no Paraiso, proibiu-lhe todavia, sob a pena de ficarem perdidos, que provassem dos frutos da arvore da sabedoria, cujos pomos agradam espantosamente à vista.
Satanás que descera ao Paraiso, ouviu-lhes o diálogo: compreendeu logo que Eva dominava Adão, e que a perda de ambos estava na arvore da sabedoria. Senhor, assim, do principal segredo e mistério da criação, coloca-se em cima da arvore da vida, e vê aproximar-se-lhe Eva só, sorrindo e cheia de graças.
Satanás quase se arrepende de seus planos. A presença de um ente tão perfeito e encantador como é a mulher, que ele nunca vira, o seduz e fascina. Mas, lembrando-se logo depois de Deus, de quem quer vingar-se, abafa no seio o sentimento de êxtase e admiração que o assaltara, converte-se em serpente, e dirige-se a Eva, levantando-se, e cumprimentando-a. Eva espanta-se de que a serpente deixe de arrastar-se chão e tome pela posição gentil e elegante. Satanás, pela boca da serpente, entoa hinos à beleza esplendida de Eva, à sua singular formosura: é digna, não do Paraizo, mas de estar no Céu ao lado de Deus. Lá subirá quando queira.
Eva encanta-se com a linguagem poética da serpente; com o veneno da lisonja que ela distila tão doce e harmoniosamente; com a proclamação da sua formosura. Nada agrada tanto as mulheres como gabos à sua beleza. (Risadas) A serpente declara-lhe que obteve os predicados novos que Eva lhe observa, provando dos frutos da arvore da sabedoria; são eles que abrem voos à inteligência, dão formas mais lindas e encantadoras à criatura, e preparam-lhe os meios e elementos de ir ao Céu. Eva não pôde mais resistir-lhe. Aspira os bons que a serpente lhe vaticina, acredita n’ela porque a seduziu pela lisonja, corre à arvore da sabedoria, arranca-lhe um galho carregado de frutos, come um d’eles, e procura Adão para convidá-lo a comer os outros.
Satanás, repleto de prazer e certo da vitória abandona o Paraíso e procura as trevas do abismo.
A cena entre Adão e Eva, quando esta lhe apresenta o pomo, e traçada com a maior graça possível, a mais admirável maestria. É talvez a bela do poema. Adão recusa-se aos pedidos de Eva para provar o fruto da arvore da sabedoria, porque Deus Iho proibira. Desespera-se de que ela se deixasse tentar pela serpente. Resiste-lhe com energia, porque antes de tudo devem obedecer a Deus. Eva lhe confessa que ela já tinha comido o fruto. Percebe Adão a enormidade do pecado cometido por Eva, entra em exclamações de furor, considera-a perdida, mas pensa ao menos em salvar-se a si. Eva chora, lamenta-se de ficar abandonada por aquele que ela ama sobretudo, e exclusivamente. Adão reflete então. Eva está perdida. O que cumpre a ele fazer? Que vida ou existência será a sua sem Eva? Arroja-se ao sacrifício, come o pomo, abraçando Eva e exclamando – Já que tu te perdeste, perco-me eu contigo! (Muito bem, Muito Bem!)
O mundo se transtorna. Ouvem-se trovões. Os horizontes mudam-se. O homem pecou, a humanidade perdeu-se!
Deus envia então o anjo Miguel a Adão. Aparece-lhe no alto da montanha, vestido de guerreiro, com uma espada, chamejante sustentada na mão. Fala Miguel a Adão, anuncia-lhe a sua desgraça irreparável. Desenha-lhe as infelicidades futuras da sua raça. Historia-lhe o futuro que lhe está reservado. Abel, Caim, Abrahão, lhe aparecem, depois todos os acontecimentos, até a vinda do Messias. O gênero humano será só salvo pelo filho de Deus feito homem que pelo homem se ha de sacrificar, ser perseguido, insultado condenado e por fim morto na cruz desonradamente, mas ressurgirá depois para remissão e salvação da humanidade. Anuncia-lhe em último lugar que deixe o Paraizo, e vá com Eva habitar a terra, condenando Deus o homem a viver no trabalho e na miséria e a acabar na morte, a mulher a conceber na dor, e a serpente a arrastar-se sempre pelo chão; saíram do pó, a pó reverterão. Cumpre-se a ordem de Deus, e finda o poema do Paraíso Perdido. (Muito bem.)
É uma obra portentosa de poesia e de graças deslumbrantes. A linguagem é mística às vezes, outras vezes simples e enternecida. No meio de blasfêmias e suplícios dos anjos decaídos, cânticos em honra de Deus, hinos de amor, eletrizam os leitores. Como é inimitável a cena da reconciliação de Adão e Eva! Dir-se-hia que aí vasou a alma do poeta todos os sentimentos que o assaltavam quando reconciliou-se com sua primeira mulher, que o havia abandonado por ser ele republicano e ela de família monarquista, e que arrependida o procurara depois e fora por ele perdoada Os acontecimentos Íntimos da vida quando reproduzidos nos poemas tomam mais verdadeiras proporções, repercutem mais espontaneidade de sentimento, e excedem a tudo quanto pode criar a imaginação, porque a fantasia não vale a realidade.
A invocação à luz por um cego que encantos saudosos derrama! Dir-se-hia que na noite que cercava a Milton a luz da divina presença brilhava com fulgor mais vivo, e Deus o olhava com mais compaixão e ternura, porque ele não podia mais ver senão a Deus.
A vida inocente e pura de nossos pais, seus colóquios amorosos, seus devaneios pelo Paraizo, estáticos um e outro, enlevados pelo prazer e pela admiração; os cânticos das aves, o colorido das flores, o ruido da cascata, o balançar das arvores, o murmúrio do zephiro, o declive do morro, o viço da relva, o verde das campinas, o dourado das frutas, como pôde Milton, cego, tudo isto desenhar em vivo painel e tão naturalmente quando lhe faltava a vista? Fá-lo entretanto e demonstra que se o mundo invisível se desenvolvia à sua alma com toda a sua sublimidade, o visível lhe aparecia também ainda pelas reminiscências com toda a sua grandeza. A imaginação de quem vê tem um espaço apertado. A do cego parece que não tem limites nem horizonte, porque penetra através dos abismos da imensidade, das profundezas do infinito. (Muito bem.)
Mas há ocasiões em que Milton se torna tão místico que se faz ininteligível; na maior parte d'elas contenta-se com esboçar a ideia deixando-a incompleta ao leitor para que lhe dê formas, a desenvolva e compreenda. Fica assim o pensamento no vago, carece o leitor de completá-lo. Dá o poeta apenas o tom, cumpre que se lhe descubra a melodia.
É esta uma das diferenças essenciais entre Milton e os outros poetas épicos, até com Dante, que é o que emprega por vezes frases e imagens difíceis de serem entendidas. Qualquer pessoa de mediana inteligência compreende tudo quanto pintam e recontam Homero, Tasso, Virgílio e Camões; com algum trabalho entende Dante nas passagens dificultosas. A Milton custa-lhe muito rasgar aquela fôrma mística e zibelina, que o poeta emprega em vários trechos do seu poema.
Temos visto e notado as diferenças dos caracteres e vidas dos poetas épicos, todos infelizes, menos Virgílio: temos analisado as diferenças entre os assumptos que escolherão para cantar; as diferenças entre o método, desenho, colorido, descrição, partes dramáticas ou líricas, empregadas nos seus poemas; apreciações e execuções de cada um e de todos, aqui acordes, lá contrários, cada um com seu gênio especial, suas qualidades raras e particulares, suas tendências próprias. Conhecemo-los pessoal e literariamente. Podemos combinar e resumir um juízo sobre suas obras. Podemos considerar como primando os poemas de Homero pelo heroísmo e grandioso; de Virgílio pela ternura e maviosidade; de Dante pela energia e a vingança; de Camões pelo patriotismo e a melancolia; de Tasso pela imaginação e a cavalaria; de Milton pela vasta ideia da humanidade e misticismo.
Ao despedir-me, portanto, agora d'esta tribuna, resta-me fazer ao ilustrado e numeroso auditório, que me tem sempre honrado, uma declaração, e é que não se me riscará do espírito a reminiscência da sua simpatia e favor, conquanto me acompanhe um sentimento doloroso. Desejava ter podido corresponder a tanta benignidade como ela merecia: aspirara dizer como o poeta português aos monarcas, à nação, ao povo, a este auditório composto de senhoras tão belas e espirituosas e de homens tão entendidos:
Para servir-vos braço às armas feito, Para cantar-vos mente às musas dada.
Mas faltando-me os meios, falecendo-me os dotes precisos, peço e espero da benevolência de todos, que se contentem com os esforços que empreguei, e o zelo e dedicação de que, estou profundamente convencido, exibi provas manifestas.
(Estrondosos aplausos cobrem estas últimas palavras do orador, que recebe felicitações numerosas do auditório.)
Localização
- Conferências Populares, Rio de Janeiro, nº4, abr.1876, p. 43-57. (na integra). Capturado em 22 jul. 2025. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/docreader/278556/407
Ficha técnica
- Pesquisa: Yolanda Lopes de Melo da Silva, Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.
- Revisão: Ana Carolina’ de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.
Forma de citação
Conferência Popular da Glória nº 90. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 30 nov.. 2025. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=680
Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz – (http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br)