Conferência Popular da Glória nº 97: mudanças entre as edições

De Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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Edição atual tal como às 19h29min de 23 de novembro de 2025

Data: 12/11/1874

Orador: Misael Ferreira Penna

Título: Presente e futuro na província do Espírito Santo.

Aviso, íntegra ou resumo: Íntegra

Texto na íntegra

“Imperial Senhor, Exmas senhoras e meus senhores. - Sei, meus senhores, que n’este momento minha palavra se dirige à aristocracia literária d'esta corte; conheço que falo perante vultos proeminentes, representantes do talento, do saber, da ilustração e de outras honrosas insígnias, que recomendam o homem impondo-o ao respeito público. Mas se, por esses motivos, minha palavra, na presente conferência, deve correr indecisa, desanimada e sem os atavios da poesia; se por essas razoes meus passos erradios e trêmulos não podem conduzir-me com segurança até os pórticos da eloquência, anima-me, no entanto, a convicção em que me acho de que, subindo a esta tribuna, cumpro um dever de gratidão para com a província do Espírito Santo. Representante d'essa briosa província, onde se tem honrado a minha individualidade com uma cadeira em duas de suas legislaturas provinciais, e tendo n'ela o coração e a família, os dois mais queridos penhores que ligam o homem à terra — estimulando-o as fadigas do trabalho, corre-me a obrigação de propugnar sempre pelo seu incremento e de consagrar-lhe devotado meus serviços, ainda que valha mais o sentimento, que me inspira, do que os meios e ação de que disponho.

Assistindo, meus - senhores, a uma d'estas conferências, que aqui se celebram com justo e merecido aplauso de todo o país, ouvi um distinto orador[1] manifestar-vos o desenvolvimento da província de S. Paulo, d'essa rica e florescente província, que, sendo a primeira em erguer o hino de nossa soberania de nação livre e independente também vai sendo a primeira em levantar o hino de sua incontestada grandeza econômica. Então, lembrei-me que também a província do Espirito Santo, embora pequena, sem a opulência da terra paulistana e talvez desconhecida para muitos dos que se acham presentes, tinha o direito de ter uma voz que aqui se levantasse em seu favor, falando do seu presente e do seu futuro, porque ela, segundo uma imagem vulgar, mas expressiva, também constitui uma das mais resplandecentes estrelas, brilham na coroa que do Império do Cruzeiro Essa voz fraca, mas verdadeira, simples, mas sincera, rude, mas conscienciosa, é a do orador, que está ocupando a vossa atenção.

Demais, senhores, além do cumprimento do dever, que vos apontei e cuja nobreza em satisfaze-lo já me deve assegurar o concurso de vossa benevolência, acresce que eu também venho falar-vos em nome do sentimento da pátria, me referve no coração, e em obediência ao entusiasmo da mocidade, que ainda me domina a alma: - a pátria, meus senhores, que é o nosso lar, a nossa família, aqueles nossos cerros azuis, aquelas nossas verdejantes montanhas que presenciarão os dias de nossa infância ; e a mocidade, que também é aquele nosso sonhar, que encerra o encanto de douradas ilusões; aquele sacrário dos grandes princípios; aquele viver-se do futuro; aquele embalar-se nos voos da imaginação, em que nosso espirito, deixando-se levar nas azas dó pensamento, sobe até os pés da Divindade para adorar-lhe a majestade!..

Pois bem, em nome da pátria, deixai falia, o cidadão, e em homenagem às esperanças,1ª juventude consenti que o moço despretensioso e apenas no primeiro estádio da romagem da vida, venha hoje provocar a vossa condescendência. Ouvi-me, pois.

Antes, porém, de tratar do presente e futuro da província do Espírito Santo, objeto principal d'esta conferência, devo pedir-vos permissão para lançar uma vista retrospectiva sobre o movimento geral do Império relativamente ao progresso. A razão, obvia para vosso -Ilustrado entendimento, e que se não pôde truta,- da parte sem se referir ao todo; do particular sem o geral; da província sem o Estado. Fa-lo-ei, portanto.

Para o observador, que com justa imparcialidade quiser examinar a seiva que corre abundante no seio d’este país, inquestionavelmente ressalta uma grande verdade: - é que o Brasil vai apressado na senda do progresso. Assim: as estradas de ferro, umas já em trafego, outras em construção e muitas projetadas, cortando nosso fertilíssimo território em todas as direções , formando hoje uma verdadeira aspiração nacional; o telégrafo devassando o espaço, ligando as províncias entre si, com o centro comum deste Império e com o resto do Universo; a navegação sulcando todos os nossos mares; o comércio patenteando de dia a dia mais incremento em suas relações; a lavoura, desenvolvendo-se maneira a por trazer ao mercado maior quantidade de produtos tudo isso revela que o nosso progredir material se manifesta de modo verdadeiramente imponente.

Entretanto, senhores, notai que não é somente o desenvolvimento material que vai se operando no país, mas também o progresso moral, que se exibe na reconstituição de nossos costumes, na organização de nossas leis e na reforma de nossas instituições.

Assim também: a lei do elemento servil, que é um decidido preito rendido ao princípio da igualdade evangélica; a reforma judiciaria, que, apesar de seus senões, é um monumento erguido à liberdade individual; a lei da guarda nacional, que é uma reverencia ás garantias do cidadão • a lei da garantia de juros ás estradas de ferro, providencia do maior alcance para o desenvolvimento da lavoura, e portanto da riqueza das províncias; a criação das relações, que tanto vale para a descentralização em matéria de distribuição de justiça; tudo isso ocorre para que possamos dizer com a seguridade de quem tem por si o testemunho irrecusável dos factos, que o país caminha com firmeza na senda do progresso e da verdadeira civilização.

E o progresso intelectual, meus senhores, tão necessário para dar luz ao espírito, espancar as sombras do erro e fazer o homem conhecer e praticar o seu dever, esse, mostrando-se animado n'esta corte, propaga-se por todas as províncias do Império. Prova bem frisante e expressiva tendes n'este soberbo e majestoso edifício[2] que a solicitude do poder público aqui levantou inscrevendo nas suas portadas as significativas palavras - Ao povo o governo -, palavras em que muito alto se traduz que o governo quer que o povo se instrua, para que bem conheça o seu direito, entenda a sua lei e saiba ser livre soberano, como é indispensável para que seja grande feliz! Nas províncias, a prova também a tendes nessas escolas noturnas, que se abrem a cada passo, nas bibliotecas populares, que se criam, nas conferências públicas, que se celebram propagando-se n'elas, como aqui, conhecimentos de incontestada utilidade prática. E como não ser assim, quando a palavra mágica — instrução publica - esse verbo sedutor, esse princípio simpático partiu do preclaro cidadão que dirige o leme da governação do Estado, e que sabendo mostrar-se à frente dos batalhadores quando se trata da defesa do país sabe também apresentar-se na vanguarda do progresso do Império sul-americano.

O Brasil, senhores, assim caminhando, obedece a lei fatal da civilização, aqui inaugurada quando ele se desvendou ao mundo antigo. Como já algum dia o disse: - quando Pedro Alvares Cabral, em 1500, afastava-se das plagas lusitanas em busca de louros para sua terra natal; quando, desfraldando as quinas de Portugal, dirigia suas naves em procura de novas glorias para a bandeira de sua pátria, já tão opulentada; quando, no devassar de um mundo novo, surpreendeu este abençoado torrão que hoje pisamos, trazia como símbolo  de sua fé e animação aos cometimentos que planejara a Cruz do Calvário, que foi o primeiro monumento que ele aqui ergueu, essa cruz que, sendo o símbolo da redenção humana, é também a síntese majestosa e sublime do poema da civilização!

E, assim, o Brasil para progredir não tem mais do que acordar, olhar para esse monumento imorredouro e caminhar desassombrado na conquista de sua grandeza futura.

D'esse modo, meus senhores, podemos dizer: cale-se o espírito partidário e a paixão política; contenha-se o vozear da turba, que não quer ver nem ouvir, e reconheça-se que este país, fadado e abençoado pelo Criador para ser o primeiro das Américas, há de indubitavelmente galgar o pedestal de sua futura grandeza.

Expressas estas considerações sobre o movimento geral do Império respectivamente ao seu progresso, passarei a ocupar-me da província do Espírito Santo, estudando-a debaixo de dois pontos de vista: território e população.

O território d'essa província compreende seis comarcas judiciarias-. Itapemirim, Iriritiba, Victoria, Santa-Cruz, Serra e S. Matheus.

Limita-se a oeste com a província de Minas Gerais: a leste com o Oceano; ao norte com a Bahia, e ao sul com o Rio de Janeiro.

Tem uma superfície de 820 léguas quadradas.

Examinando-se a natureza de seu território, vê-se que é de admirável uberdade.

Assim; na comarca de Itapemirim os fertilíssimos vales do Rio-Novo, Castello, Aldeamento Imperial-Affonsino, Rio-Pardo, Veado, Calçado, Alegre, Itabapoana, e Muqui; em Iriritiba as margens dos riachos Juêba, lconha e Itapuan; na Vitoria os vales de Santa-Leopoldina e Santa-Izabel, onde existem duas colônias, uma já emancipada e outra desenvolvendo-se sob a tutela do governo; na Serra, o morro d'este nome e os terrenos do Timbuhy; em Santa-Cruz, grande parte das margens do Rio-Doce; em S. Matheus, todo o terreno marginal d'este rio e do de Itaúnas; em todos esses lugares a Providencia manifestou-se pródiga de seus mais ricos dons, sobressaindo o de um solo, que se presta excelentemente às mais importantes espécies de cultura, sobretudo as do café, açúcar, fumo, algodão, e em geral a de todos os cereais. E não é somente a uberdade, que por si só vale muito, mas que não basta; é sim a uberdade auxiliada pelo concurso de grandes rios, que, como o de Itabapoana, Itapemirim, Iriritiba, Santa-Maria, Reis Magos, Doce e S. Matheus oferecem inteiro e fácil acesso para uma mais ou menos extensa navegação fluvial, destinada a transportar as produções da província do centro para o seu litoral. D'esses rios, força é dizê-lo, só se acha aproveitado o rio Itapemirim pela empresa Deslandes, que é de esperar se mantenha e prospere, graças aos esforços d'esse laborioso cidadão, auxiliados pelos distintos representantes da província, Conselheiro Costa Pereira e Dr. Heleodoro Silva.

E se por um lado sobressai a admirável uberdade do solo Espírito - Santense, por outro manifesta-se não menos admirável sua riqueza mineralógica representada por grande parte dos metais conhecidos, sobretudo ouro, prata, chumbo e ferro. E para mostrar-vos que minha palavra não é efeito de pura fantasia, nem de orgulhoso patriotismo, peço-vos licença para ler um documento autêntico que tenho em meu poder, do qual se verifica ser de longa data conhecido pelos poderes públicos o que acabo de enunciar. Refiro-me ao decreto de 17 de Setembro de 1824, de nossos primeiros dias de independência, o qual assim se exprime:

“Tendo-se novamente descoberto ricas minas de ouro na província de S. Pedro do Sul, e em tal abundância que grossas partidas de vagabundos se têm d'elas apossado, trabalhando clandestinamente e sem regra, d'onde resulta grande perda para o Estado, ruina aos proprietários das terras e perturbação da ordem pública; e achando-se outrossim, totalmente livre e desembaraçada a rica serra denominada do Castelo, na província do Espirito-Santo, para ser regularmente minerada, em virtude das providencias que recentemente. Houve por bem dar para o aldeamento e civilização dos Índios Botocudos que a infestavam; requerendo os povos de ambas estas províncias que se lhes facilitem os meios para poderem extrair com sistema e boa ordem o ouro e metais preciosos, que o Criador lhes oferece com tanta abundância; e considerando eu os grandes proveitos que pôde tirar este nascente Império de se promover um ramo tão importante da indústria nacional: Hei por bem ordenar que, nas ditas duas províncias, e em quaisquer outras em que se descobrir grande riqueza, se proceda à repartição, medição e concessão dos terrenos descobertos, na fôrma dos regimentos e ordens antigas e modernas e pelas quais se regem as províncias ora mineiras, devendo n'ela servir de intendentes os ouvidores das comarcas, e em falta d'eles os juízes de fora, e nomeando os presidentes das províncias guardas-mores para a medição e partilha, na forma do seu regimento, obrigados os mineiros a manifestarem o ouro extraído para a dedução do quinto nas juntas de fazenda respectivas ou nas câmaras mais antigas próximas, d'onde deverá passar para as mesmas juntas, e tendo os ditos presidentes todo o cuidado sobre este tão importante negócio para darem as providencias que julgarem convenientes e pedirem decisão d'aquilo que depende da minha Imperial Resolução. — João Severiano Maciel da Costa. — Paço, em 17 de setembro de 1824, 3° da independência e do Império. Com a rubrica de S. M. o Imperador.”

Em relação a este mesmo assumpto também temos em nosso apoio parte de uma Memória, escrita a anos por pessoa que se deu ao trabalho de investigar a riqueza da província a que me refiro. Diz ela: “Minas— No Rio-Castello e no córrego Rico existem minas de ouro, de que foram remetidas pela presidência algumas amostras para a Corte em setembro de 1820, em 12 de março de 1834, e em 1847, com a informação do sitio e seus veeiros. Por portaria da secretaria do Império de 1 de outubro de 1832 se concedeu ao tenente-coronel Ignacio Pereira Duarte Carneiro que pudesse lavrar n'estas minas, a que se dava o nome de SantAnna, e por ordem do governo supremo se recomendou ás autoridades todo o auxílio em favor dos naturalistas Jorge Guilherme Freyreiss, o alemão Baumer, e Eduard Jacob Bridgess, que em dezembro de 1825 e Abril de 1826 visitarão a província e se dirigirão pro- ao exame d'aquelas minas, sendo o último pertencente a uma companhia inglesa que obteve tal graça. Também no sertão de Itabapoana, entrando pelo Rio Muqui, se encontrão terrenos auríferos. No município de Linhares, à margem direita do Rio Mainassú, descobriu-se em 1780 um terreno aurífero. Quando governador Luiz de Brito e Almeida se descobrirão pedras preciosas, como esmeraldas e safiras, no lugar das Escadinhas do Rio Doce como escreve o padre Simão de Vasconcellos. No sítio denominado -Lavrinha -, seis léguas distante do Aldeamento Imperial Affonsino, descobriu o naturalista Theodoro Descourlitz uma riquíssima mina de ouro. No mesmo sítio descobriu ele uma mina de ferro, que considerou muito importante pela quantidade do metal, como pela extensão. Nas margens dos rios do Meio e da Fumaça, do distrito de Mangarahy, do município da Victoria, se tem extraindo já abundância de ouro sem ser com os preceitos da arte, e a Theodoro Klett, por decreto n. 1243 de 3 de outubro de 1853, foi concedida a faculdade por tempo de dois anos, de que ainda não usou, para proceder por si ou por meio de uma companhia aos exames e explorações nos terrenos devolutos existentes à margem e entre aqueles rios, ficando-lhe garantido qualquer resultado de seus trabalhos, que devia ser apresentado para, à vista do mesmo, ter lugar a concessão e demarcação de datas minerais. O primeiro ouro denunciado no Brasil foi três oitavas, que em 1693 apresentou, perante o capitão-mor João de Velasco Molina e a câmara da Victoria, um Antônio Rodrigues Arzão, natural de Taubaté, na província de S. Paulo, que desceu n'aquele ano da Casa da Casca, nome de uma aldeia sobre a margem do Rio Doce, distrito da Capitania de Minas Geraes. Nas serras do mestre Álvaro, da vila da Serra, é tradição que existem minas de salitre e enxofre. Á margem do Rio Grande, em Guarapary, descobriu-se em 1854 uma mina de gesso, de que se tem usado como cal.”

Eis, portanto, confirmado o que dissemos:- que a província do Espírito Santo, além de uma liberdade de solo verdadeiramente prodigiosa, possuo igualmente variadíssima riqueza mineralógica, o que também foi reconhecido pelo governo atual quando fez concessão de privilégios para lavra de minas ao súdito britânico, Thomaz Dutton Junior, bem como ao Dr. Maximiano de Souza Bueno.

Com a riqueza mineralógica concorre a florestal, tão considerável que a província do Espírito Santo, por si só, fornece ao mercado d’esta corte a maior parte das madeiras que n’ele se empregão em obras de construção e de marcenaria. N’ este ponto não posso deixar de notar, ainda que de passagem, quanto é digno de censura o modo, verdadeiramente bárbaro e desolador, como os mercadores d'este gênero devastam as matas da província.

A semelhança do que se observa em outros países, parece-me que não seria desacertado expedir o governo um regulamento que dirigisse este trabalho, de modo que evitasse o enorme detrimento que se pôde causar com o atual sistema de corte de madeiras.

Para quem a aprecie devidamente, estudando-a com a atenção que merece, é fora de toda a dúvida que a província do Espírito Santo, rica em todo o sentido, ocupa proeminente lugar entre suas irmãs mais favorecidas da natureza. É meu dever confessar que alguns administradores, que têm dirigido os destinos da província, não têm deixado de reconhecer e apregoar esta verdade, e de chamar para ela a atenção do governo central. Entre eles recordo o nome do Sr. Conselheiro Costa Pereira, que julgo haver sido o primeiro presidente da província que, em documentos oficiais, reconheceu do modo mais explicito a grandeza d'esta e quanto dependia o futuro da sua população do desenvolvimento da lavoura. Já em seu relatório, apresentado à assembleia provincial em 1861, dizia S. Ex. que a província do Espírito Santo, para quem a natureza havia sido mãe desvelada na distribuição de seus dons, tinha todo o seu risonho porvir dependente do desenvolvimento que porventura desse á sua agricultura. Também o Exmo. Sr. Dr. Luiz Eugênio Horta Barbosa, a quem rendo sincero preito de homenagem pelo modo honroso porque tem dirigido os destinos da província, foi um dos seus administradores compreendeu o que quanto vale o Espírito Santo. É por isso que não posso furtar-me ao prazer de ler uma parte de seu importante relatório, apresentado à assembleia legislativa provincial no ano próximo findo, no qual, calculando a riqueza da província, S. Ex. usa com muito critério dos seguintes termos: Calculando o valor oficial dos produtos exportados em 4,000:000$000, e supondo esta quantia prêmio de um capital a razão de 6%, pode-se sem exageração avaliar a riqueza agrícola da província em 66,000:000$000. Estes ligeiros dados estatísticos habilitam-nos a conhecer os recursos de que dispõe a província do Espírito Santo e a soma de riqueza com que pôde garantir a aquisição de capitais por meio de empréstimos, afim de serem aplicados aos seus melhoramentos materiais. Pelo que acabamos de ler vê-se que S. Ex. lembra a conveniência de um empréstimo para melhorar o estado atual da província, que foi confiada à sua direção. E uma ideia que eu sinceramente desejava ver inaugurada. Estou intimamente convencido que para minha província desenvolver-se precisa contrair um empréstimo avultado, embora pareça que se arrisca seu futuro. Sem isto só lentamente se irá conseguindo o que de outra sorte poderá ser obra de poucos anos. E tanto mais devo assim exprimir-me quanto sinceramente me causa profunda mágoa ver na província do Espírito Santo tanta seiva desprezada, tanta riqueza desconhecida, que estão continuamente aclamar pelo concurso de braços audazes e pelo emprego dos meios que a ciência aconselha.

Ocupando-me agora da. população da província, segunda parte de minha conferência, posso afirmar que, conforme o recenseamento ultimamente realizado, é ela não menor de 82.137 almas, das quais 59.478 são livres e 22.659 escravas, sendo que entre os homens livres encontra-se 19.415 solteiros, 9.298 casados e 891 viúvos; entre as mulheres livres 19.251 solteiras, 9 449 casadas e 1 171 viúvas; entre os homens escravos 10.163 solteiros, 1 157 casados e 239 viúvos, e finalmente entre as mulheres escravas 9.252 solteiras, 1.395 casadas e 213 viúvas. D'essa população sete a oito mil almas são escravos, que se acham empregados na comarca de Itapemirim, onde o grande incremento que tem tido a lavoura exige maior número de braços.

Vejamos qual o espírito ou pensamento que domina a população da província do Espírito Santo, apreciação que faremos, segundo nos cumpre, com toda a imparcialidade. A este respeito póde-se dizer que há notável diferença no seio da população, manifestando-se em certos pontos um espírito ousado, empreendedor e ativo, e em outros resistindo ainda à rotina dos tempos coloniais. A ousadia em quaisquer cometimentos e a iniciativa manifestam-se no seio da população das comarcas de Itapemerim e de S. Matheus.

Provém isto em grande parte da emigração, que, para aqueles pontos, afluiu das províncias de Minas, Rio de Janeiro e Bahia, emigração composta de homens que não trazem somente o concurso material de seu braço, mas principalmente o do espírito, que pensa, vê e enxerga o futuro de longe. Na Victoria, porém, e nas comarcas adjacentes em geral não se manifesta, no mesmo grau, igual tendência para os grandes cometimentos da indústria. Há ali, como nas comarcas de ltapemirim e S. Matheus, espírito de ordem, mas certa quietação e falta de iniciativa que de alguma sorte prejudicam.

Em referência à capital provém isto em grande parte da tendência, aliás não exclusiva d'esse lugar, para os empregos públicos.

Limitando as suas aspirações, desejos e trabalhos à posse de um emprego mais ou menos lucrativo, inteligências que poderiam servir vantajosamente à indústria, sobretudo a agrícola, deixam de entregar-se a empreendimentos com melhor que poderiam servir a si e ao país.

Pesa-me exprimir-me nestes termos; mas, como já disse, só devo aqui repetir a verdade.

Cumpre-me acrescentar que o fato a que me refiro relativamente à cidade da Victoria mui contribui para que a província não progrida com a rapidez que fora para desejar. E a razão, bem a compreendeis, senhores, é que não pode a vitalidade estender-se por todo o corpo da província quando o abatimento e o desanimo apoderam-se de seu coração; quando d'ele não parte o impulso e o salutar exemplo com que se devera ativar o espírito público no resto do território provincial.

Dói-me, como disse, confessar este facto, e maiores magoas vem causar-me quando n'ele vejo, em parte, a razão ela qual geralmente os presidentes, que são nomeados para o Espírito Santo, não se demoram na província durante o tempo preciso para ali deixarem seus nomes gravados em qualquer melhoramento de incontestada utilidade.

Chegados à capital, sentindo-se sem os meios de ação que resultam do concurso eficaz da atividade particular, notando as dificuldades praticas que se lhes sugere quando exibem qualquer ideia nova e útil à província, pesando os tropeços que na capital se lhes apresenta relativamente à tentativa de qualquer cometimento em vantagem do público, e, constrange-me dize-lo, avaliando que o resto da população da província equipara-se, também com este sombrio e desanimador quadro, que vêm na capital, os presidentes deixam-se logo apoderar pelo desanimo, tratando, após alguns meses de exercício, de se retirarem de uma província onde entendem que não há por toda a parte pessoal que seja apto para o auxilio de um grande impulso, que, porventura, se queira dar aos melhoramentos materiais e morais.

Eis, meus senhores, uma das mais salientes causas do lento progresso da província: é que na sua capital quase não existe vida; é que no seu coração não corre ardente o sangue que deve alentar o corpo; é que na sua cabeça não dominam, tendendo a pronta e feliz realização, as ideias que governam e adiantam os povos.

Repito, penosa me é a confissão d'este facto; mas não devo omiti-la, uma vez que me propus fazer esta conferência com o único intuito de, dizendo a verdade, mostrar como a província do Espírito-Santo vai, o que ela é hoje e o que pôde ser amanhã.

No entanto, meus senhores, apesar d'esses tropeços que se levantam ao desenvolvimento a que a minha província tinha direito, vai ela, todavia, recebendo hoje algum incremento, posto que lento seja seu caminhar.

Este fato revela-se no orçamento da sua receita, a qual tem progressivamente aumentado, como se poderá ver das respectivas leis provinciais. Assim é que, desde o ano financeiro de 1846, em que a receita da província era computada na diminuta quantia de 32:992#452, têm as rendas provinciais subido na razão anual de 10% até que hoje chega a 300:000#000.

Esse movimento ascendente, digno por certo de todo o aplauso, tem sua origem em duas circunstâncias, que passo a enunciar. A primeira é o espírito de progresso que anima o Império e a que me referi há pouco, afirmando que todo este país progride indubitavelmente para atingir à grandeza a que o destina a providência prendando-o com tantos elementos de riqueza e prosperidade. Desse modo é que, de par com outras províncias do império, também o Espírito Santo recebe, posto que tênues, os raios brilhantes d'essa civilização que se nos desponta imponente em todo o território brasileiro.

A outra causa do desenvolvimento que vai adquirindo a província do Espírito Santo, deve-se ao seu ilustrado representante, n'esta corte, o Exm. Sr. Conselheiro José Fernandes do Costa Pereira Júnior, a quem o sentimento da gratidão tem, naturalmente, inspirado a benéfica atenção que S. Ex. dispensa aos negócios da província que o elegeu.

Exprimindo-me por esta forma devo dizer a S. Ex., que me honra com sua presença n'esta conferência, que lhe faço inteira justiça, não me deixando levar pelas considerações da amizade e muito menos pelas da política.

Convicto de que aqui devo usar da palavra com toda a franqueza e imparcialidade; certo de que, afastando-me d'este programa, não prestarei á província os serviços que intento prestar-lhe; e compenetrado do respeito que devo a esta tribuna e ao ilustrado e numeroso auditório que me ouve, rendo a S. Ex, o Sr. Conselheiro Costa Pereira sincero e verdadeiro preito de homenagem pelos seus serviços à província do pro- Espirito-Santo, que S. Ex. já administrou e que hoje mui dignamente representa no seio de nosso parlamento. E títulos, meus senhores, d'este preito de justiça que ora rendo ao Conselheiro Costa Pereira, exibirei nas seguintes obras que se fazem atualmente na província pelo protetor auxílio de S. Ex., na qualidade de Ministro da Agricultura, Comercio e Obras Públicas; tais são : a estrada da colônia de Santa Leopoldina à capital, a que justamente se dá o nome de estrada Costa Pereira; a do Batatal; a de Santa-lzabel; a que vai de Piuma ao Rio-Novo; a ponte do rio Santa-Maria; a aquisição e preparo do terreno preciso para a povoação de Santa-Leopoldina; os trabalhos para se adoptar o melhor traçado de uma estrada que comunique a província com a de Minas Gerais, e a passagem dos paquetes a vapor da linha do norte pelo porto da Victoria ; todos esses melhoramentos são penhores do direito de gratidão que S. Ex. está conquistando para com a província do Espirito-Santo, a qual estou certo de que há de reconhecer o seu dever distinguindo-o sempre com a sua estima e aplausos. Um assumpto, porém, sobre todos merece a solicitude do Exm. Sr. Conselheiro Costa Pereira.

De palpitante necessidade para a província muito se deve esperar das acertadas providencias com que S. Ex. cumpre cuidar d'esta matéria. Falo da colonização oficial do Espírito Santo, a qual atualmente circunscreve-se às colônias do Rio Novo e de Santa Leopoldina, achando-se aquela em muito bom estado de prosperidade, devido em parte à atividade de seu atual diretor o Dr. Pinto Pacca, e esta (a de Santa Leopoldina) em vias de poder conseguir o bem-estar a que aspira.

Passando agora a outro ponto, que julgo ser a parte mais importante d'esta conferência, direi quais as medidas capitães que, em meu humilde pensar, podem muito concorrer para a prosperidade da província do Espírito Santo. Uma d'essas medidas, além de outras semelhantes, é a colonização oficial estabelecida em muitas fazendas da província, as quais acham-se completamente abandonadas por falta de meios dos respectivos proprietários. Animo-me em manifestar esta opinião, por isso que me baseio no princípio da facilidade de recepção e estabelecimento com que o imigrante deve ser acolhido no país.

Compreende-se que não convém estabelecer um imigrante recém-chegado no meio de matas e fora de povoados que só se comunicam por estradas péssimas. N'essas circunstâncias vem facilmente o desanimo ao ponto de, às vezes, abandonar-se qualquer trabalho. Pelo contrário o mesmo não poderá suceder em estabelecimentos agrícolas, já convenientemente montados, onde o imigrante encontra a terra meio preparada, e onde aprende a lavrar com o exemplo e contacto de trabalhadores nacionais.

Outra ideia, cuja realização reputo muito conveniente a província, é a da abertura de uma estrada que dê pronta e comunicação com a de Minas Gerais. E uma das medidas a que a população do Espírito Santo liga maior atenção.

São obvias para quem conheça a atuação do Espírito Santo e a de Minas as vantagens que a ambas devem resultar d'essa obra, sendo que no litoral daquela província esta o porto por onde naturalmente tem de se exportar a produção de grande parte do território mineiro.

Várias são as tentativas que se tem feito para levar avante a abertura d'esta grande via de comunicação.

N'estas condições se acham as que se referem à estrada de Santa-Thereza e á de S. Pedro de Alcântara. No mesmo caso está a que se pretende abrir pelo vale do Rio-Doce. No entanto até hoje pode-se dizer que a comunicação não está feita, sendo que d'ela depende em grande parte, como já observei, o futuro e bem-estar da província do Espírito Santo.

De perfeito acordo com a opinião do ilustrado engenheiro Dr. André Rebouças, entendo que, na direção da rede geral dos caminhos de ferro do Império, fôrma a linha do Espírito Santo a Minas um dos traçados mais importantes. Praz-me, porém, reconhecer que hoje, graças ao patriótico empenho de S. Ex. o Sr. Conselheiro Costa Pereira, Ministro da Agricultura, a estrada do Espírito Santo a Minas vai ser uma realidade.

Assim afirmo, convencido de que a comissão, dada por S. Ex. ao distinto engenheiro Dr. Miguel de Teive e Argollo, há de necessariamente, reconhecendo a utilidade da medida a que me refiro, mostrar o melhor traçado que se deve adoptar.

Das observações que hei feito até aqui, colhe-se que no presente o progredir da província- do Espirito-Santo é lento e moroso; mas que a extraordinária uberdade de seu solo, sua riqueza mineral e florestal, sua posição geográfica nas proximidades d'esta Corte, de Minas e Bahia, e a posse de rios navegáveis e de um litoral onde se encontrão alguns portos de fácil acesso, são garantias do brilhante futuro que a aguarda.

Por uma fatalidade, porém, d'essas que não se explicam, por uma circunstância que não tem razão de ser, o Espírito Santo que se acha próximo d'esta Corte, e, portanto, da luz, civilização e vitalidade que d'aqui se irradiam, parece ter visto essa luz passar sobre seu céu para ir iluminar as províncias mais distantes do Norte, deixando-a na sombra do abatimento. Para arredar esse mal uma só cousa é necessária:- o concurso decidido dos homens sinceros e dedicados, que convencidos dos poderosos elementos de prosperidade de que dispõe a província, saibam colocar-se fora do estreito círculo da mesquinha política, para com ardor trabalharem em favor do território a que tanto beneficiou a natureza.

E se porventura, senhores, esse meu ardente desejo não se tornar uma realidade, a mim, que me alisto entre estes homens sinceros e dedicados, restará, ao menos, a consolação de haver n'esta tribuna proclamado o muito que vale e o muito que pode esperar do futuro a província em que tenho lar, família e as mais caras afeições, e de haver solicitado para ela os esforços dos poderes públicos, falando perante o primeiro cidadão chefe do grande Império de Santa Cruz!

(O orador e aplaudido geralmente e felicitado por seus amigos.)


[1] Refere-se ao Dr. França Leite quando incumbiu-se de tratar da província de S. Paulo.

[2] Fala do grande edifício das escolas municipais da Glória onde se realizam as Conferências Populares.

Localização

- Conferências Populares, Rio de Janeiro, nº6, jun. 1876, p. 83-99 (na integra). Capturado em 28 agos. 2025. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/docreader/278556/679

Ficha técnica

- Pesquisa: Yolanda Lopes de Melo da Silva, Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.

- Revisão: Ana Carolina’ de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.

Forma de citação

Conferência Popular da Glória nº 97. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 30 nov.. 2025. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=686

 


Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz – (http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br)