Conferência Popular da Glória nº 18

De Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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Data: 01/02/1874.

Orador:  Luiz Alves Leite de Oliveira Bello  

Título: Espírito do século XIX

Aviso, íntegra ou resumo: Seleção dos trechos

Texto na íntegra

“Si a liberdade é a alma, o vapor é o sangue do século XIX...  

(...) O século XIX veio por assim dizer individualizar a humanidade, solver o amalgama da sociedade antiga para separar os átomos vivos que ela fundia bruscamente e fixar que a sociabilidade legitima não é a acumulação de pessoas, si não a harmonia das esferas individuais!!  

Em 1822 quando a liberdade esvoaça por toda a parte passou também por cima do vasto Império de Santa Cruz, um grito de independência fez-se ouvir no seio da América entoando um hino no côro dos povos livres, e o Brasil, nossa terra, nossa pátria querida, insculpiu nos granitos enormes de suas montanhas os títulos de uma grandiosa autonomia nacional, e na primeira página em branco de suas leis, no art. 12 da Constituição lavou este inequívoco testemunho á democracia – todos os poderes são delegações da nação -.  

(...) A minha tese é constitucional, o povo tem um argumento na Lei Mãe, um sectário no espírito do legislador! Como esse filósofo da antiguidade que respondia ao sofista que negava o movimento, andando, aos que negarem a democracia redarguirei, abrindo o livro da Constituição.  

Eu sou do parecer do fundador deste Império, os que contestarem a democracia a quem seguirão?!  

Mas, diz-se a civilização que domina os povos é o materialismo da indústria, o vapor é a alma do filho da revolução, a máquina é o trono da realeza que impha, o negócio é o rei deste trono, o cálculo é o gênio deste rei, o egoísmo é o espirito deste cálculo; foi tempo em que se morria por uma ideia no circo das feras, nas fogueiras das inquisições, nos cadafalsos dos despotismos, nas jaulas dos alienados ou nas solidões do exilio; a primeira vibração do telégrafo anunciou ao mundo a morte das mesas, e as aves de fogo da imaginação se envolvem e se sepultam nos novelos de fumo que a estrada de ferro desdobra nos ares!  

E será assim? No duelo fatídico em que se debatem a liberdade com a fatalidade, o corpo com a alma, o corpo com suas tendencias egoístas triunfará a final da alma com seus instintos simpáticos?! Toda essa expansão da vida moderna, toda essa pompa de progresso será o leito de ouro em que agoniza a inteligência da humanidade?!  

Não intriguem o século com o absurdo; não declamem o óbito mendaz da literatura no panegírico hiperbólico da indústria! Maldito seria o progresso si ele houvesse de esmagar sob a roda de seu carro (...) o espírito humano!  

Positivista sim, materialista é que não! O século não imolou a alma no balcão do negócio ou aos pés da máquina; positivista porque é serio e fecundo; positivista como o operário que se inclina sobre a mesa do trabalho, o que não talhe que nos lazeres erga os olhos e contemple o céu iluminado pela fé...  

Positivista sim, mas como a América do Norte: ali está a oficina da indústria moderna, ali os ciclones do trabalho abriram suas tendas, procurai ver qual o princípio da enorme força motriz que aviventa e precipita esse povo, é um só, mais forte que o vapor, mais rápido que a eletricidade, um só, o musculo das maravilhas históricas, é a liberdade.  

(...)  

Bendito positivismo que é o artista do progresso moral e material dos tempos!  

Fortificar o corpo é alertar o espirito, os séculos que precederam ao que corre curaram da alma, mas, esqueceram o organismo que a envolve e a habita para as funções energéticas da vida, a civilização contemporânea veio corrigir o desleixo dos que passaram, seu intuito, mandato histórico que desempenha é a organização, política, a coordenação das personalidades humanas dentro da esfera social; Montesquieu, Rousseau, Voltaire, Diderot, a Constituinte, a Convenção proclamaram o direito natural político nas regiões das teorias, o século XIX quer tornar efetivo esse direito...

(...)  

Ei-lo aí o século (...) sua data passará a mais remota posteridade porque ele gravita impelido por enormes princípios e imensa tem de ser a projeção de seu giro no tempo – no mundo físico pela maior força a do vapor, no mundo moral pela maior energia a da simpatia, no mundo intelectual pela maior lei a da instrução, no mundo político pela maior aspiração a da democracia.  

E nossa pátria o que é? O que representa no meio da civilização em que vive?...  

(...)  

(...)  

Eu hei de servir meu país com inteiro desossombramento de minha palavra...  

Por Deus! Não agorentem a vitalidade enorme desta terra apertando-a nos moldes de imitações sufocadoras! Não tolham o vôo a essa águia envolvendo-lhe as azas nas teias de filigramas estrangeiros!  

E’ vergonhoso rojar pela estrada que o passo trepidante do velho mundo vai assinalando para a morte, pois as civilizações passam e os povos se extinguem com elas!  

Sejamos americanos, oh! Muito americanos! Que a Europa é da velhice e do passado e a América da mocidade e do futuro!  

(...)  

Sejamos americanos! Abracemo-nos debaixo de uma só bandeira, a do interesse legitimo do país! Confundamo-nos em um só partido, o da dedicação à pátria...  

Pátria, atea a luz de tua glória em nossas dedicações! (...)”.

Localização

- Bello, Luiz A. de Oliveira. O espírito do séc. XIX. Rio de Janeiro: Typografia Cinco de Março, 1874, 30p

Ficha técnica

- Pesquisa: Yolanda Lopes de Melo da Silva, Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.

- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.

Forma de citação

Conferência Popular da Glória nº 18. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 30 nov.. 2025. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=609

 


Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz – (http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br)