Conferência Popular da Glória nº 32

De Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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Data: 22/03/1874.

Orador: José Liberato Barroso

Título: A educação em geral, e com especialidade em relação à mulher.

Aviso, íntegra ou resumo: Íntegra

Texto na íntegra

“Minhas senhoras. A fraqueza do espírito humano não lhe permite compreender um só objeto, seja ele grande ou pequeno, debaixo de todos os aspectos, por todas as faces que ele pode oferecer à sua observação. Quem jamais pôde compreender completamente no prado, a caprichosa borboleta que beija todas as flores, o lindo beija-flor que liba-lhes a todas o néctar do cálice?

Quem pode jamais completamente compreender o astro que brilha nas trevas do horizonte, o sol que enche de luz todos os mundos, todos os espaços do firmamento?

E quem pode compreender e explicar a mulher, mais mimosa que a flor, mais caprichosa que a borboleta, mais formosa que o beija-flor, mais brilhante que o astro da noite, mais esplendida que o Sol, inefável e misteriosa como o anjo?

Se eu fora poeta, minhas senhoras, idealizando na poesia todos os sentimentos da minha alma, idealizando na poesia todos os sentimentos de minha alma, poderia cantar-vos, e talvez pudesse dizer nos meus cantos os segredos de vossa existência; mas nem sequer possuo todos os talentos do fisiologista!

Felizmente para mim, tenho o sentimento, falo a linguagem do coração, a que a mulher sabe melhor compreender. E parece-me que vós me tendes compreendido: mas se isto é somente uma ilusão de meu fraco espírito, por bondade deixai-ma conservar, até que vos diga minha derradeira palavra n’esta tribuna.

Quando na minha última conferência despedi-me de vós com a esperança de ter ainda a fortuna de vossa preciosa atenção, deixei-vos no gozo da suprema felicidade de vossa vida: tínheis feito o vosso casamento, segundo os votos do coração. Permiti que eu vos surpreenda no meio da vossa lua de mel.

Penetrando n’este santuário de vossas venturas, sento-me tomado de sentimento de profunda tristeza. É porque ao levantar o véu de vosso santuário eu vejo uma pegada, sinistra como a inscrição da porta do inferno de Dante! No pórtico do templo da família escreveu a iniquidade humana pela mão de sua vítima – lasciate ogni speranza ó voi che entrate -: ó vós que aqui entrais, perdei toda a esperança de constituir uma família! É porque adiante de vós, primeiro que vós penetrou no vosso lar o maior de todos os infortúnios com a mais cruel de todas as iniquidades, a degradação da natureza humana, a ignominio da criatura feita a imagem de Deus, a escravidão!

É a escrava, a inimiga que a sociedade vos deus, que vem correr as continas de vosso leito nupcial, que surpreende a primeira carícia de amor de vosso esposo, a primeira resistência de vosso pudor assustado, a primeira lagrima, o primeiro sorriso do vosso abandono! É a escrava, que com um riso brutal rasga o véu dos mistérios do himeneu na entrada de vossa câmara nupcial! E n’este riso brutal vai muitas vezes, quase sempre, uma ameaça aos vossos direitos sagrados, à vossa dignidade de esposa, um insulto à vossa castidade, um desafio à vossa virtude, um escarnio pungente aos vossos sonhos de felicidade.

E é assim, meus senhores, que a sociedade expia esse atroz atentado contra os direitos da natureza humana. A escravidão corrompe a família, e ataca a sociedade em sua base. São imensos os males d’esta instituição nefasta, que como a túnica envenenada do centauro gruda-se ao corpo social, e lhe dilacera as carnes, triste legado dos séculos da barbaria, contra o qual protesta há dezenove séculos a voz do Mártir divino do Calvário!

Não basta que possamos hoje dizer: no Brasil ninguém mais nasce escrava, Oxalá possamos dizer brevemente: no Brasil ninguém é mais escravo.

Para vós, minhas senhoras, deve ser esta a mais ardente aspiração, o mais fervoroso voto de vosso coração de mulher e cidadã.

Forçoso é, porém que eu vos contemple no interior do vosso lar, esposa e mãe, desviando os olhos d’essa imagem negra, que aí está a perturbar-me o espírito, a enlutar—me o coração.

Sem duvida vos ensinaram que a mulher era destinada para fazer a felicidade do homem: ligando-vos ao homem que deve ser para vós o companheiro de toda a vida, a vossa missão consiste em fazer a sua felicidade. Não sereis felizes, não teres desempenhado a doce missão de esposa, se não fizerdes a felicidade de vosso marido; e para é preciso que compreendais perfeitamente os vossos direitos e deveres. A ignorância a respeito dos seus deveres e o abuso do seu poder, diz, Mme Bernier, fazem perder à mulher, a mais bela e a mais preciosa de suas qualidades, a de ser útil. Abrindo a inteligência e ao coração do vosso esposo os tesouros inefáveis de vossa alma cândida e pura, e imprimindo-lhe pela admiração e ao coração do vosso esposo os tesouros inefáveis de vossa alma cândida e pura, e imprimindo-lhe pela admiração e pelo amor o cunho da verdadeira superioridade moral, vós sereis glorificadas na felicidade da família e na prosperidade da nação.

Tratando dos vossos deveres de esposa, minhas senhoras, eu presumo que sois felizes no estado conjugal; que o vosso casamento não foi o resultado de uma inclinação dos sentidos ou de uma surpresa da imaginação, ou de um capricho efêmero da vontade, que esposastes um homem, e não o rosto de um mancebo formoso, o hábito de um de um elegante, a fortuna de um rico, a comenda de um comendador, ou o brasão sem história de um barão. Presumo que a educação preparou o vosso esposo para ser digno da felicidade de possuir-vos para compreender e respeitar os vossos direitos sagrados.

A primeira lei do casamento, como a instituiu a civilização cristã que emancipou a mulher, é a mais perfeita igualdade de direitos entre os esposos. A união de duas criaturas livres, que se associam para se aperfeiçoarem pelo amor, não pode estabelecer uma desigualdade de direitos e uma autoridade que somente se exerce em proveito do homem. A igualdade nos deveres é o caráter novo e sublime, de que Jesus Cristo revestiu o casamento, essa escola de aperfeiçoamento mútuo, na frase de Legouvé, que é a fusão das almas e não a união dos corpos, o complemento do homem pela mulher, e não a consagração de um direito brutal sobre a pessoa d’esta.

Se a indissolubilidade do matrimonio é, como diz Legouvé, o selo supremo da instituição; se é o dedo de Deus na união de suas criaturas, a esperança do infinito no coração dos esposos, sublimes como um princípio de eterna verdade; só pode conservar esse caráter augusto e santo na mais perfeita reciprocidade de direitos e deveres. É cruel essa iniquidade social, que absorve o homem criminoso, porque o quer, porque procura o crime, para condenar a mulher, cuja falta nem sempre é ato de uma vontade criminosa, e sim uma fraqueza do seu coração afetuoso no meio do vácuo profundo do enfado e do aborrecimento de sua solidão; que não procura delinquir, mas é sempre e em toda a parte solicitada pela sedução e pelo exemplo.

É tão cruel essa moderna iniquidade social, como a inexorável condenação de Suzana da Bíblia.

Mas contemplai, senhoras, a revolução operada pelo divino fundador do Cristianismo! Suzana é a mulher escrava da sociedade antiga, que ainda inocente podia ser condenada, se contra ela levantava-se um testemunho, até mesmo do próprio sedutor repelido. Vem Jesus Cristo, e aos pés do Filho de Deus lança-se a mulher pecadora implorando proteção contra os que as perseguem. Aquele de vós que tiver a consciência limpa, lance-lhe a primeira pedra: palavras sublimes que resgatam a vítima da iniquidade dos séculos. Jesus Cristo não absolveu um crime; condenou o delito da pecadora; mas condenou também os seus algozes, condenou o crime do homem. Em nome de que lei ou de que direito, por que princípio, perante que moral social ou divina condenais vós esta mulher, cuja falta é o vosso crime de todos os dias?

Se o casamento é para o homem uma simples associação, que tem por fim manter certas conveniências de convenção, deve sê-lo também para a mulher, que não pode sacrificar o seu coração a deveres injustos e odiosos, quando a reciprocidade os não reveste de seu caráter elevado e santo. A moral cristã, que consagra pelos laços de indissolubilidade a pureza e a dignidade do casamento não tolera essa moral social que decora com o título de conquista o crime do homem, para estigmatizar com o epiteto de infâmia a falta da mulher.

Vós, minhas senhoras, que sois mães, que ouvistes as primeiras queixas de vossas filhas, e que longe de animar ressentimento, e acoroçar suspeitas muitas vezes infundadas, que são somente as emoções de uma vitima de si mesma, a rebelar-se ou orgulhar-se no seu suplicio imaginário, tendes compreendido o vosso dever e o vosso papel n’essas melindrosas situações, fazei compreender aos vossos filhos, que são ou um dia serão esposos, essa virtude que é a condição da excelência, da dignidade e da santidade da união conjugal. É somente pela educação moral dos vossos filhos que se pode operar uma salutar revolução nos costumes, e destruir essa triste aberração moral, tão contrária à felicidade das famílias. Mas deveis também fazer compreender às vossas filhas, quanto depende d’elas, como dependeu de vós, cercar o tálamo nupcial d’essa aureola dupla de virtude, e manter no seio da família a harmonia moral, que é a suprema felicidade da vida.

É pela admiração e pelo amor, que a mulher imprime no caráter do homem o cunho da verdadeira superioridade moral. Patenteando à inteligência e ao coração do esposo os tesouros de sua alma pura, a mulher o eleva como o homem digno de possui-los, e a si mesma como a única que lh’os pode oferecer. É n’essa elevação moral, na altura d’essa estima e respeito mútuo que se apertam os laços do amor, e se mantém a dignidade e a felicidade do casamento. Se, porém, receios prematuros, suspeitas injustas ou desgostos imaginários vos levam a aviltar o vosso marido, e a deprimir o vosso próprio merecimento em sua presença, destruís completamente a harmonia do vosso lar, envenenais a vossa união, e com a dignidade e caráter augusto do matrimonio se extingue a vossa felicidade.

E é este um defeito muito geral da educação em nossa sociedade, minhas senhoras. Mulheres virtuosas, verdadeiramente amantes de seus maridos, os aviltam constantemente aos próprios olhos; e como que se comprazem em abater e deprimir moralmente o objeto de seus afetos. Foi isto sem dúvida, o que fez dizer a um escritor moderno, que a mulheres muito honestas, e que são, todavia, péssimas esposas. Infeliz aberração do amor conjugal, pela falta de uma boa educação, tão fatal à felicidade da família! O amor do homem nem sempre resiste a esta prova, a sua alma se revolta; e são tristes as consequências d’esse primeiro grito de indignação, que punge abafado no íntimo d’alma, quando pela sua explosão não destrói de uma vez a harmonia da felicidade doméstica.

Não falo dos ciúmes do marido, que são desprezíveis. O homem que ultraja a sua esposa, expondo-a muitas vezes a maledicência publica, por suspeitas ofensivas à sua honra, é, permiti-me dizê-lo, um miserável, ou um desgraçado.

O amor que pode coexistir com um perfeito conhecimento da indignidade do objeto amado, é uma paixão violenta, que absorve todos os outros sentimentos do coração; mas não é o amor que se associa aos mais elevados sentimentos d’alma, a afeição pura e casta que une os esposos, e aperta nos seus corações os laços da indissolubilidade matrimonial, que opera a doce fusão das almas e não a apaixonada e ardente união dos corpos.

É preciso educar os sentimentos do coração humano, e preparar a mulher para compreender a natureza d’essa afeição profunda e calma, doce e amena, cheia de confiança e respeito, elevada e pura, que modera pela doçura da simpatia o ardor da paixão, que estabelecendo entre os esposos uma feliz permuta de qualidades, une-os por um por um laço mais poderoso que o sangue, o parentesco das almas; e que é a base natural e legitima da formação ideal do casamento.

Grande, muito grande mal tem feito, diz Charles Bray no seu interessante livro – A educação dos sentimentos – essa classe de escritores, principalmente da escola francesa, cujas obras tendem a diminuir a influencia do casamento, representando-o como menos sagrado e indissolúvel pela sua natureza do que é pelo costume; que fazem do casamento uma distração e cujos heróis e heroínas sentem sucessivas paixões, não reputando a afeição que fica depois de extinta a paixão, bastante para essas almas exaltadas, seja ou não o objeto d’essa afeição um esposo, uma esposa, uma noiva. Essas paixões sucessivas sob pretexto de simpatia d’alma e de espírito, etc., podem ser objeto de muito interesse e excitar prazer nas páginas de uma novela, e até mesmo tecido com muita beleza de pensamento e sentimento, com todas as falas do estilo; porém na vida real tais princípios são falsos e perigosos, origem de males e ruinas.

A formação ideal do casamento na inteligência e no coração dos futuros esposos, como a fusão de duas almas que se unem para procurar a perfeição no amor, e não como a união dos corpos, que se ligam somente pelo atrativo da paixão e pela tendencia dos sentimentos eróticos, é um princípio da educação, essencial para a felicidade das famílias; mas, forçoso é dizê-lo, completamente desconhecido na nossa sociedade.

Eu vos disse, minhas senhoras, que vos reputava felizes em vosso estado conjugal, e que o escolhido do vosso coração, o vosso esposo, é um homem moralmente formado. Como vós ele compreende a doce solidariedade e a feliz reciprocidade dos direitos e deveres conjugais. Começais de novo a viver, mas a vida de dois entes em um só pela mais suave de todas as harmonias da criação. Compreendeis as condições e as necessidades d’essa harmonia? Aprendestes no seio da família, no regaço materno, nos conselhos de vossos pais, nas lições dos mestres, nos livros que lestes, nas conversações que vos distraíram, o que deveis fazer de vossa parte para manter inalterável essa doce e afetuosa harmonia da sociedade conjugal? Não, minhas senhoras: a vossa incompleta e errada educação intelectual que vos preparou para isto.

Possui a mulher duas qualidades morais que exercem um poderoso e irresistível atrativo: são o pudor e o desejo de agradar, que se não deve confundir com a garridice muito comum entre nós, e com aquilo que os franceses e nós também chamamos coquetterie.

O pudor não é somente uma resistência física; é um sentimento profundamente moral, uma virtude; e a estima e respeito que esta virtude impõe constituem um novo laço para o amor conjugal. De todas as delicadezas da alma feminina é o pudor a que produz na alma do homem a mais doce, a mais deliciosa agitação. Nas relações conjugais o pudor da esposa é um encanto inefável par todas as almas bem formadas; e cerca a mulher de uma aureola de respeito e veneração, em que brilha com todo o fulgor a excelência e a dignidade da natureza humana.

O desejo de agradar, que descobre todas as belezas da alma da mulher, é já para a esposa a mais poderosa influência, o mais forte atrativo, o meio mais eficaz de exercer a mulher o poder imenso que tem sobre a inteligência e o coração do homem. Costuma-se dizer entre nós, que a mulher casada não tem mais a quem agradar: o que é um erro grave, porque ela tem o dever e o máximo interesse de agradar constantemente ao seu marido. Lembro-me de ter lido na minha mocidade um romance, se não me falha a memorias, de Eugenio Sue, no qual esta tese foi perfeitamente desenvolvida.

Eram dois jovens conjugais ligados pelos laços de um amor puro/ só os seus corações os tinham unido. Algum tempo depois do seu casamento começou a toldar-se o límpido céu de sua felicidade: a esposa entristecia-se, chorava em silencio, e o esposo começava a procurar distrações fora da casa. Aquela que já se reputava infeliz depositou no coração de uma amiga todas as suas queixas; mas esta longe de condenar o esposo acusado, interrogou a consciência de sua amiga; e prometeu a sua intervenção sob a promessa de serem abraçados e seguidos por ela todos os seus conselhos. E com o sentimento, esse olhar rápido e seguro d’alma que só tem o poder de descobrir na vida das mulheres o segredo móbil dos seus pensamentos e suas ações, de suas alegrias e de suas dores, procurou conhecer a origem d’essa felicidade de dois cônjuges que tinham sido tão felizes: facilmente o conseguiu. Um dia ela encontrava a desolada esposa com os cabelos desgrenhados, repreendendo-a docemente, armava0lhe o penteado que dava-lhe mais realce á sua beleza: outro dia era o desalinho do vestido o objeto de sua censura, fazendo-a vestir-se do modo por que ela parecia mais formosa aos olhos do seu marido: outra vez era a leitura de um livro precioso, presente do esposo, que jazia abandonado, a musica que fazia as delicias d’ele, e que por incompreensível capricho se não tocava, nem se cantava mais; e muitas outras coisas que sabem ver os olhos do coração feminino, que certamente estão agora muito frescas na vossa memória. No fim de pouco tempo a esposa infeliz se lançava nos braços de sua amiga, confessando-se a mais feliz das mulheres, e dizendo-lhe que tinha tornado a encontrar o seu marido. Não, lhe disse a boa amiga, tu não o tinha perdido; foi ele que te havia perdido, o que tornou a encontrar-te.

Poderia ainda dizer-vos muito, minhas senhoras, se me permitisse o tempo ser mais minuncioso; e tristemente vos falaria da família do homem de letras em nosso país. Peço-vos somente que mediteis sobre as palavras de um sábio, cuja memória deve ser grata a todos os corações brasileiros. Agassiz, o hospede ilustre que não pagou-nos a hospitalidade com injurias e insultos, porque veio para nós precedido da sua universal reputação, e somente recomendado pelo seu real e alto merecimento, escreveu o seguinte no seu livro, Uma viagem no Brasil: “Não posso concluir o que tenho a dizer da instrução no Brasil sem acrescentar que n’um país onde somente metade da nação é educada, não pode haver completo progresso intelectual. Onde a diferença de educação torna quase impossível a simpatia de espírito entre homens e mulheres; de sorte que suas relações se limitam necessariamente às de afeições domésticas, nunca subindo salvo casos muito excepcionais às de companheiros de educação polida, o desenvolvimento no povo tem de permanecer imperfeito e parcial. Acredito, todavia, que particularmente n’este ponto pode esperar-se rápida reforma. Ouvi tantos brasileiros inteligentes lamentar a falta de instrução própria das mulheres nas suas escolas, que penso, será eficazmente melhorado o padrão da educação das meninas. Lembrando os antecedentes dos brasileiros, as noções que herdaram acerca do que é conveniente ao retiro e sujeição da via da mulher, não podemos com justiça, por mais falsas que pareçam essas ideias, considerar a geração presente responsável por elas; acham-se também muito profundamente arraigadas para poderem ser mudadas em um dia”.

Permita Deus, minhas senhoras, que se realizem as esperanças de Agassiz; e venha essa rápida reforma;

Conheceis o livro de Agassiz? Não; nem mesmo este pequeno folheto de que acabo de ler uma página, e que é a tradução de um capítulo do livro do sábio, feita por um brasileiro de inteligência e de coração. Mas os vossos pais, os vossos maridos, filhos e irmãos também o não conhecem!

Fizeram-vos conhecer o Rocambole e outros livros da mesma natureza, se não pior!

Em outra página, diz o sábio viajante que o seu livro foi escrito na maior parte por outra mão. Foi a mão de sua ilustre esposa, companheira de suas longas viagens e de todos os seus trabalhos, companheira como deve ser a esposa, socia nos trabalhos e nas glorias do homem, e não uma inutilidade, um embaraço, como se costume dizer entre nós quando não teve o préstimo de ser um meio de fazer fortuna.

As funções domésticas, subalternas na aparência, mas sublimes na realidade, se não exigem na mulher a inteligência de um sábio, não excluem, e pelo contrário necessitam da cultura e desenvolvimento do seu espírito.

E permiti-me que leia algumas palavras do meu livro sobre a instrução pública no Brasil:

“Destinada a desenvolver todas as suas faculdades e aptidões morais no seio da família, onde se eleva e enobrece o papel que pela Providência lhe foi distribuído, a mulher não deve, contudo, desconhecer completamente os interesses que se agitam fora do lar e os grandes resultados da atividade humana. Elevando assim a sua própria dignidade, ela concorre para o desenvolvimento mais completo das faculdades do homem.

Na civilização europeia, diz Le Play, os homens que se distinguem pelos seus talentos e pelas suas virtudes, devem a sua superioridade às primeiras lições de suas mães ou aos conselhos de suas mulheres. Encontram na aprovação das mulheres distintas a mais alta recompensa dos seus esforços.

O desenvolvimento das faculdades intelectuais não é menos necessária do que das qualidades morais, para que a mulher passa preencher n’este mundo a sua missão santa de esposa e mãe segundo os desígnios de Deus. É, porém, esta parte importante da educação a que oferece mais sérios perigos. Essa literatura insalubre e perigosa que hoje se respira nos livros, nos jornais, nos teatros, e nos salões, não pode ser o tesouro de espírito, que deve elevar a mulher no meio das relações sociais. Datada de uma sensibilidade esquisita e susceptível de emoções profundas, de uma imaginação ardente e acessível às mais fortes impressões, natureza expansiva e simpática às atrações do belo que se pode ostentar debaixo das formas elegantes da literatura materialista, a mulher está sempre muito exposta aos perigos de uma errada educação literária. Inúmeros fatos, em todos os países e em todos os tempos atestam esta verdade”.

E a este respeito (impus-me o dever de dizer a verdade n’esta tribuna) merecem a mais severa censura alguns escritores, romancistas e jornalistas de nossa terra.

Eu vos disse, minhas senhoras, que vos contemplava no interior de vosso lar, esposa e mãe; mas tendo fatigado a vossa condescendência, só vos falei de esposa. Tem razão os poetas, quando dizem que sois o infinito. Certamente, minhas senhoras, a mulher moral, é o infinito; e compreenderemos melhor esta verdade, quando estudarmos a mãe.

Um pedido, e será o último.

Esquecei-vos do pobre orador, que ainda ousa pedir a vossa atenção, para vos lembrardes somente de que o objeto de sua última conferência será a mulher moral por excelência, a mãe de família.

Localização

Conferências Populares, Rio de Janeiro, nº6, jun.,1876, p. 71-82. (na integra). Capturado em 18 jun. 2025. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/DOCREADER/278556/667

Ficha técnica

- Pesquisa: Yolanda Lopes de Melo da Silva, Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.

- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca. 

Forma de citação

Conferência Popular da Glória nº 32. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 30 nov.. 2025. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=623

 


Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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