Conferência Popular da Glória nº 81

De Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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Data: 20/09/1874.

Orador: João Manuel Pereira da Silva

Título: Homero e Virgílio

Aviso, íntegra ou resumo: Íntegra

Texto na íntegra

“Senhor, senhora, minhas senhoras e senhores. Demos tréguas, por algum tempo, aos estudos de história. Troque-mol-os hoje por um rápido passeio através dos jardins encantadores da poesia.

A variedade deleita. A concorrência de tão seleto auditório neste recinto, provém não só de que ocupam a tribuna oradores diferentes, como que estes tratam de assumptos variados e diversos. Permiti-me, portanto, que não vos ocupe os momentos presentes com as considerações começadas acerca da historia das colônias americanas, mas com outro objeto, não tão instrutivo, de certo, nem tão severo, mais agradável aos sentidos todavia, mais risonho ao espírito. Perdoai-me se não corresponder neste novo campo á vossa expectativa e curiosidade como pela animação e aplauso com que me honrastes, quando em outras ocasiões ocupei a tribuna, suponho que vos ganhara a atenção e simpatia.

Conversando sobre poesia, tendes direito a perguntar-me o que ela é, e o que constitui. Mas eu não posso, e nem sei que ninguém possa defini-la.

Poesia não se define — sente-se. Nasce-se poeta, não se aprende a ser poeta. (Muito bem.)

A poesia emana da imaginação, faculdade do espirito; é uma das faces admiráveis por que a imaginação humana se manifesta; poesia, música, pintura, história, eloquência, até a filosofia, como a poesia, recebem suas inspirações nessa faculdade vasta, criadora, fantástica, luzente, que se pode comparar a ninfa dos Contos Escandinavos, que, lançando sobre as trevas olhares de ternura e amor, arrancava do seu seio átomos invisíveis, que se convertiam logo em luz brilhante, em criaturas reais, em objetos animados.

Do estudo não provém, portanto, o gênio, sim e somente o gosto que se adquire e aperfeiçoa. O gênio cria, o gosto apura e traduz em realidade profícua. O gosto é o bom senso do gênio. Sem ele o gênio não passaria de uma sublime loucura.

O gosto reproduz o pensamento, o voo do gênio, com as imagens convenientes, o colorido próprio, o desenho correto, a fisionomia viva; tira da lira os sons harmoniosos, e os vibra com a arte precisa e a melodia conveniente, afim de conservar a ordem, e a regularidade.

A poesia, meus senhores e senhoras, foi cultivada desde o começo do mundo, desde a infância dos povos. É o ramo literário mais antigo. Nasceu espontaneamente do vagido do infante, das cenas do lar doméstico, da solidão, das alegrias, do raiar da aurora, do levantar do sol, do ciciar das arvores, do empolar dos mares, do murmurar do zephyro, do cair da tarde, do escurecer da noite, do brilhar das estrelas e dos astros, da imensidade, enfim, do espaço e do horizonte.

Ainda os homens não conheciam a escrita, e já para contar seus prazeres, publicar suas sensações, queixar-se de suas magnas, manifestar seu entusiasmo, usavam da poesia, formando canções improvisadas, que como tradições e reminiscências passavam de homens para homens, de séculos para séculos, guardadas na memória, e repetidas no seio das famílias.

Quantos cânticos pastoris, amorosos, elegíacos, quantas fábulas, provérbios, parábolas, gêneros poéticos tão conformes ao caráter dos povos primitivos, se perderão por não haverem sido escritos!

Quantos nos restam ainda dos antigos Persas, Hindus, Chins, que ultimamente traduzidos se têm espalhado pela Europa moderna, e que provão o engenho e tendências literárias daquelas nações, desaparecidas umas da terra, outras continuando com seus próprios nomes ou diversas denominações?

Como não resplendece entre os monumentos antigos da poesia, a Bíblia, obra magnífica do povo patriarca, a Bíblia, tesouro extraordinário de imaginação, a Bíblia, em que tantos obreiros trabalharão, Moysés, o poeta legislador e homem de Estado, David, o poeta lírico, Izaias, o poeta descritivo, Job, superior a todos pela elevação, variedade e profundeza das imagens?

Job procedia de família patriarcal e pastoril da lduméa, e Job escreveu um poema que é verdadeira epopeia d'alma, drama íntimo do pensamento, filosofia lírica, gemido elegíaco do coração. Esse poema é uma parte da Bíblia, sem dúvida a mais preciosa pelo sentimento complexo e variado.

Começa Job por cantar suas felicidades públicas e particulares dramatiza depois suas desgraças, dores, abandono e miséria. Narração, drama, hino, dor, desesperação, furores, apóstrofes, ironias, tudo aí há. Depois sucede a prostração, a resignação, a piedade. Termina pela adoração. E o rugido do leão, a braços com as torturas da vida, da morte, da dúvida, que se arroja a interrogar Deus, e só depois de convencido, curva-se e submete-se contrito á misericórdia do Eterno.

Apareceram numerosos poemas na antiguidade; todos os povos de que falei contão poetas. Nenhuma, porém, de suas composições, ainda que grandiosas, sublimes, quer dos hindous, os poemas de Ramayanna e Mabaharat, quer dos árabes, os de Antar, quer dos hebreus, os de David, Moysés, Job, nem uma dessas composições se pode denominar épica; dividem-se todas em líricas, elegíacas, pastoris, didáticas, em parábolas e fábulas reduzidas a contos poéticos. Outros gêneros e espécies de poesia se notão assim ou só por si, ou misturados e aglomerados. É que a poesia épica fora desconhecida em tão longínqua antiguidade.

A poesia épica nasceu na Grécia, e foi criada por Homero. Compõe-se de um facto ou fundamento histórico, ornado de episódios de imaginação, de maravilhoso fantástico para captar o interesse. Deve conservar a unidade da ação, ligando-se-lhe como partes delia as aventuras de invenção, marchando par e passo e conjuntamente. O poeta deve narrar, mas embelezando a composição, cantando-a, elevando-a ao grau mais sublime; é-lhe portanto o verso indispensável para se formar uma harmonia de pensamentos e palavras, uma melodia sonora e igual de frases e imagens, uma música, enfim, que acompanhe o murmúrio das ondas da poesia, que devem brotar da exposição do assumpto. Deve ser o monumento enciclopédico de uma época ou período histórico, com suas crenças religiosas, suas ideias predominantes, seus costumes particulares; não é um romance em verso, é uma grande ação representada ao vivo, e sob o seu assunto majestoso.

Assim, o poema épico é a mais elevada, a mais difícil, a mais sublime de todas as composições, porque, além de ser sua missão mais vasta e larga, e mais particular que a dos outros poemas, reflete e dispara igualmente emoções dramáticas, arroubos líricos, entusiasmos, êxtases, que o realçam e aformoseiam, com a pintura grandiosa dos feitos heroicos.

É por isso que só poucos poetas épicos existem, que mereçam os lugares de honra e de primor; encontrais na história das letras da antiguidade número extenso de líricos, descritivos, dramáticos, elegíacos, filosóficos, didáticos; só vos aparecem dois épicos, Homero, grego, e Virgílio, latino. Folheai os anais dos povos modernos, quantos de todo o gênero e espécie na Alemanha, França, Inglaterra, Hespanha, Itália, Portugal, Holanda, Dinamarca? Só quatro vultos se levantam para serem aceitos como sucessores de Homero e Virgílio, Dante e Tasso, italianos, Camões, português, e Milton, inglês.

Quem foi Homero, e o que era a Grécia fio seu tempo? E o primeiro ponto que nos cumpre investigar, porque sobre ele se têm suscitado contradições e dúvidas.

Toda a antiguidade acreditou na existência de Homero; Heródoto escreveu sua vida, que chegou intacta aos nossos tempos. Platão, desterrando a poesia do seu mundo social e político, exceptua Homero quanto à Odisseia. Aristóteles cita a cada momento Homero; numerosos escritos falam dele, e tratam de sucessos de sua vida. Estatuas se levantarão em várias cidades, monumentos, bustos, tudo em sua glória. Ninguém na Grécia suscitou dúvidas sobre sua existência. Nascera cerca de 180 a 200 anos depois da guerra de Tróia, e cerca de mil antes de Jesus Cristo. Nos tempos romanos, de Homero falam todos os escritores. A história de Homero chegou até o século XVIII pura, e aceita geralmente, sem que ninguém a contestasse, posto que algumas das tradições que legendas, de que andava ornada, não pudessem ser acreditadas na sua integridade.

Mas no século XVIII, dois grandes literatos e filósofos, Wolff e Vico, publicarão que Homero era um mito, porque nunca existira; e os poemas espalhados com seu nome não passavam de rapsódias, ou extratos de muitos autores, como o era a Bíblia, e vários poemas antigos. Encontrarão muitos adeptos em favor desta alegação. Não admira. No século XVI, todo de ceticismo, duvidou-se até da existência de Deus, por que se não duvidaria da existência de Homero?

Mas o século XIX, escrupuloso nas suas indagações históricas e filológicas, desfez fogo às ideais do seu antecessor. Os profundos estudos sobre a Grécia e a antiguidade, os descobrimentos de muitas obras desconhecidas até agora, e que só em nossos dias apareceram, quer gregas, quer latinas, uma crítica mais apurada e filosófica, sem preconceitos e sem partidos, provão que a antiguidade toda teve razão, que Homero existiu, que Homero escreveu, os dois poemas da Ilíada e da Odisseia, e que podem algumas legendas inventadas haver sido introduzidas na sua biografia, sem que o fundo deixe de ser exato e real.

Viço e Wolff perderão seu tempo, pretendendo roubar á Grécia, e ao mundo todo, bem como á literatura de todas as nações antigas e modernas, o prestígio dessa gloria que a todos cabe, de contar Homero á frente da poesia épica, como seu criador e seu primeiro representante.

O que dizem os antigos acerca da vida de Homero? Difícil será joeirar o que há de verdadeiro e o que há de fantasia. Qual a nação, qual o vulto célebre, e principalmente de tempos remotos, escapa a que em sua história se misturem lendas, inventos, o maravilhoso, enfim, que sempre inspiram as grandes ações, e os grandes acontecimentos?  Sofreu-as a memória de Homero, mas não foi ele só. Suportou-as Grécia, Roma, mas nem Espanha, e nem a própria Inglaterra padecem porque sua história primitiva está recheada de factos inventados, de tradições falsas, de lendas como as de Bernardo dei Carpio, Rei Arthur e tantos outros, nascidas do entusiasmo nacional, e da imaginação do povo.

Narram todos os escritos gregos que sete cidades reclamarão a glória de ter sido o berço de Homero, mas que Smyrna, na Eólia, tem o direito de preferência, porque seu nome primitivo era Melesigeno por haver nascido nas ribas do rio Meles, que banha a cidade de Smyrna.

Acrescentam que em seu tempo havia pelas cidades da Grécia numerosos poetas, que viviam cantando poesias e canções sobre a guerra de Troia e Grécia, e sobre os grandes eventos e infelicidades dos seus guerreiros. Chamavam-se rapsodas. Um Phenix existia em Smyrna com escola aberta, e que foi o padrasto de Melesigeno e seu mestre. Depois da morte de Phenix, Melesigeno viajou pela Ásia menor, examinou os restos de Tróia, correu as ilhas gregas, e diversos Estados. Perdeu a vista em Colophon, e vivia do que lhe davam, recitando e cantando seus versos, corno antes dele o haviam feito seus contemporâneos Phomion e Demodoco, e seus antecessores Musêo, Amphion e Orfêo.

Achando-se em Cymêa, pretenderão alguns cidadãos, encantados pela poesia, retê-lo na sua cidade, dando-lhe uma pensão para viver. Mas o conselho ou diretório declarou que, a passar a ideia. não haveria cego que não quisesse pensão.

Cego, no dialeto Cymêo, diz-se — Homero. D'aí por diante Melesigeno foi chamado Homero, isto é, cego, por todos os seus coevos, e os posteros não o conhecerão senão por esse nome.

Por esse tempo já se usava a escrita na Grécia; as letras, caracteres e papiros tinham sido descobertas na Ásia, e as relações dos egípcios e fenícios os haviam transferido para a Grécia. Assim Homero, escrevendo a Ilíada e Odisseia, os repetia e cantava, vendendo copias de cantos e versos, que se espalhavam pela Grécia, e se tornavam conhecidos e populares. Não se passarão muitos anos depois da sua morte na Ilha DeIfos, que várias cidades da Grécia lhe não levantassem esta tuas, tão grande era já a reputação dos poemas do cego, ou de Homero.

Lycurgo e Pisistrato foram os que tratarão posteriormente de reunir os cantos dispersos, e de organizar cada um dos dois poemas completo e regular, como os conheceu a Grécia nos tempos da sua literatura bela e gloriosa, como os conheceu Roma e nós os conhecemos.

Cumpre também dizer que em Alexandria vários sofistas e gramáticos antigos levantaram dúvidas sobre ser Homero o autor de ambos os poemas. Parecia-lhes impossível que o mesmo homem os compusesse pela diversidade de seus assumptos, e pela diferença e divergência que notarão na linguagem e no estilo plástico.

Esses gramáticos foram chamados chorisontes porque tratavam de separar os dois poemas do mesmo autor; chorisonte sendo sinônimo de separatista.

O exame aprofundado, porém, dos dous poemas quer nas suas vestes, quer no seu fundo, prova que os chorisontes se não baseavam em razão nenhuma plausível. Decidiam-se mais por palavras que por ideias, pela versificação que pela poesia. Como não encontrar algumas divergências, e disparates mesmo nos versos, quando eles correram manuscritos pelos rapsodas, e só depois de muito tempo foram coligidos, apurados, e reunidos em os dois poemas?

Basta notar que a elocução é a mesma, iguais e semeIhantes as frases; que o colorido, os movimentos oratoricos os pensamentos na sua expressão, e fórmulas, se parecem com ar de família tal que não podem deixar de ser atribuídos ao mesmo gênio, que concebera e escrevera um e outro poema Demais, notai e comparai o plano de ambos. A Ilíada tem por base a história desde que Achilles brigara com Agamenon por causa de Briseis, até que morre Heitor e seu cadáver se entrega a Príamo.

Não compreende a guerra de Tróia toda, já ela começara quando principia o poema, e continuou muito tempo ainda depois de terminada a llíada. Na Odisseia começa-se com as aventuras de Ulysses, depois que deixou Tróia, até que chega à sua pátria, Ithaca, e se reúne á esposa Penelope. Ulysses vivera antes, e o poema termina deixando ainda Ulysses vivo. Ha, portanto, em ambos, um só facto, um plano idêntico concentrado em um período histórico. Observai ainda. Em ambos os poemas há uma unidade de ação, sem a menor discrepância; há episódios tão ligados à ação, como partes concomitantes delia, com idênticas maravilhas. Há uma abundância e variedade de retratos de personagens, heróis, heroínas, guerreiros, pastores, servos, escravos, tão modelados pelo mesmo sistema, que não é possível que se possa deixar de crer que ambos os poemas pertencem ao mesmo autor. O mesmo facto se não encontra em os outros poemas épicos conhecidos.

Será razão plausível sustentar-se que sendo os assuntos diversos, o mesmo homem não poderia possuir, dispor de tal imensidade de gênio, que os pudesse conceber e executar?

Não equivale essa opinião a ignorância da historia. Napoleão I não foi grande gênio na guerra, na política, na ciência militar, na eloquência, até como jurisconsulto? Miguel Angelo Buonarotti não foi engenheiro, pintor, escultor, arquiteto, poeta, e tudo em grau elevadíssimo?

Custa a crer, mas é verdade que o gênio que concebeu e levantou a cúpula da igreja de S. Pedro em Roma, foi o mesmo que executou a estátua colossal de Moysés, e pintou afresco do juízo eterno no Vaticano, foi o mesmo que arrancou do mármore a imagem da Piedade e as figuras do túmulo dos Medicis, que desenhou admiráveis telas de cenas domésticas e históricas que ornam os museus da Itália. Raphael não pintou a escola de Athenas, as guerras de Constantino, as belíssimas Virgens de Folino e da cadeira, assumptos tão diferentes?

Como, portanto, não seria Homero capaz de escrever dois poemas épicos, de assumptos diversos? Poemas parecidos entre si, que se diria um o complemento do outro, ainda que em objetos diferentes, mas com a mesma ordem e método?

Comparemos agora os dois poemas

A Ilíada é o poema da mocidade; a Odisseia da velhice. A Ilíada é o poema guerreiro, a Odisseia doméstico. Um pinta a vida pública, o outro a vida intima. Um descreve heróis, o outro homens. Um é o símbolo da gloria, o outro do lar e ninho da família. Um tem, portanto, acentos, expressões mais deslumbrantes, mas a natureza as possui mais ternas e ticas; e a Odisseia se patéticas não é tão sublime como a Ilíada, é, todavia, mais interessante, se não falia como aquele à imaginação, corresponde porém, mais ao sentimento do coração.

Ressoa na Ilíada o tinir das espadas, o ranger dos ferros o gemido da agonia, o furor da guerra, o ódio dos combates salpicar o do sangue; sentem-se na Odisseia a ondulação suave das vagas sobre o flanco do navio, o bater dos remos nas águas respingando chuvas de prata liquida, o murmúrio da brisa nos ciprestes, o cantar rios pássaros, o balar do gado, a alegria da família, as cenas do lar doméstico.

Na Ilíada que belos episódios de Helena a abrir seu coração a Heitor, que admiráveis colóquios de Andrômaca que cenas intimas da casa de Príamo? E os combates seguidos entre guerreiros que se parecem deuses pelo conselho e valor! Na Odisseia que lindas pinturas da ilha de Calipso, de Circe dos cânticos de Demodoco, dos trabalhos e inquietações de Penelope! Se a guerra é descrita em um poema do modo o mais interessante, atraente e terrível ao mesmo tempo as virtudes domésticas da Odisseia formam hinos verdadeiros, que deliciam a alma dos leitores.

O método de excitar o interesse, de desenhar as paixões de mover os afetos, de suspender a atenção de modo a não poder distrair-se para outro objeto, tudo revela o mesmo gênio, o mesmo cérebro criador.

Na pintura dos caracteres nenhum poeta inalou ainda Homero; é o grande conhecedor do coração e da vida humana. E que multiplicidade e variedade em ambos os poemas! Achiles com suas paixões ardentes, Heitor com Seu heroísmo, Priamo com suas virtudes paternais, Ajax com sua valentia. Ulysses com sua prudência, tino e perspicácia, cada um e completo, e cada um diferente; formão uma magnífica ria gale- que mostra a natureza e a alma nas suas diversas nuanças. Se da llíada brota poesia em flama ardente, da Odisseia correm ondas de sentimento.

A mulher, particularmente, como a sabe Homero descrever animada, viva, poética, entretanto! Calypso e Circe, apesar de deusas, não se esquecem que são mulheres; Helena, Andromaca, Penelope, Nausica, são entes encantadores, ternos, patéticos, verdadeira e puríssima imagem da companheira, que Deus concedeu ao homem sobre a terra, cada uma com suas qualidades particulares, seu tipo real, seus caracteres distintos e sempre agradáveis.

A mulher, no tempo de Homero, não era ainda a que depois se mostrou na própria Grécia, na época de Péricles, dotada de inteligência igual ao homem; na Ásia a mulher era uma escrava, na Grécia de Homero era uma companheira do homem, brilhando pelo coração, não pelo espírito, bela, enternecedora, dedicada, cuja substância era a sensibilidade, e não a arte. Deus depositara na cabeça do homem a flama para esclarecer o mundo exterior das ideias; o calor na da mulher para revelar o mundo interior do sentimento.

Desejo ainda fazer-vos conhecer Homero sob dois aspectos aprazíveis. E' o primeiro que se denuncia o homem virtuoso, o coração terno, a alma cândida e leal. Dir-se-hia que a Odisseia fôra concebida e escrita para provar a sua gratidão. Pobre, cego, mendigando o pão para viver, errando de cidade em cidade, de povoação em povoação, de ilha em ilha, recebera umas vezes, benefícios, outras vezes, maus tratos. Destes se esquece, dos benefícios se lembra sempre. Ao passo que na Odisseia se pinta a fidelidade em todas as suas variadas feições; Ulysses, fiel marido e pai, arrostando todos os perigos, desprezando todas as felicidades para rever sua casa e sua consorte; Penelope, fiel esposa, que, conquanto acredite que e morto o marido, para se não casar com outro, e ganha tempo, desfazendo de noite a tela que bordava de dia, visto que prometera casar-se logo que terminasse seu trabalho; Telêmaco, o filho fiel e leal; Eumeo, o escravo dedicado, Euracleá, a serva fiel, e até o velho cão Argos, já comido de bichos, e curvado sob moléstias, abandonado e atirado a um canto, e reconhecendo e festejando a seu dono Ulysses, posto que em trajes de mendigo (muito bem); eis que Homero, ao lado dessas admiráveis personagens, coloca Nausica, que o beneficiara, Glauco que o protegera, Mentor de Ithaca, que o salvara e asilara, Demodoco, seu mestre, em poesia, para legar seus nomes á posteridade, pagando-lhes a dívida da gratidão (muito bem).

A outra particularidade de Homero, que o faz subir acima dos outros poetas, é o método com que descreve e pinta a natureza, a beleza física e moral dos seus personagens. Não perde palavras, torna-se conciso. Não desenha miudamente os sítios, os montes, os rios, os corpos, as figuras; traça-os largamente, e em poucas frases os apresenta, vivos, animados, marchando por si, saindo o ideal e do vago tornando-se reais, desde o primeiro até o último desde os herdes personagem, e heroínas até as figuras secundarias, que em outros poetas passão como sombras, e nos de Homero deixam muito distintos os seus traços.

Quereis um exemplo? Depois de nas conversas, nas cenas, vos fazer conhecer Helena na parte moral, pecadora, mas terna e sentimental, arrependida, e ao mesmo tempo grata a Príamo, seu novo sogro, a Heitor seu novo cunhado, carece de dizer-nos que beleza é esta tão grandiosa, cujo rapto do poder de Menelau, seu primeiro marido, pelo troiano Paris, seu segundo consorte, causou a longa guerra e luta de dois povos, até que um foi pelo outro destruído e aniquilado; como pratica Homero?

Descreve uma reunião dos principais guerreiros troianos, após tão porfiados combates; ocupa-os a luta, parecem desanimados; desesperam-se com tantas desgraças e mortes de valentes chefes e prestimosos cabos. Passa por perto deles Helena. Outro qualquer poeta pintaria logo os cabelos os olhos, as faces, as ondulações airosas do corpo daquela beleza inexcedível. Homero não diz palavra a respeito. Contenta-se com dizer que os chefes troianos ficarão assombrados á vista daquela mulher, e que, virando-se uns para os outros eles, velhos atletas e combatedores, disseram-se mutuamente: “- Como é bela esta mulher! Com razão dois povos combatem e trucidam-se por sua causa. Dir-se-ia uma deusa do Olimpo.»

Não está aí a pintura mais admirável e verdadeira? (Muito bem! muito bem!)

Eis aí, minhas senhoras e senhores, o que era Homero, o que era o seu gênio, o que era a sua imaginação! Eis aí o que são esses dois poemas de assumpto diverso, mas de fórmulas, de sistema, de plano, com tal parecença que só um

homem os podia compor, para aparecer como apareceu a unidade, a perfeição, o acabado de cada um e de ambos; tanto a Odisseia como a Ilíada são enciclopédias das crenças religiosas, dos prejuízos populares, das legendas históricas, dos costumes, dos usos, das ideias da Grécia do seu tempo, os monumentos que mais nos ensinam sobretudo quando pensa- vão e faziam os gregos. Passemos agora a outro povo e a outro poeta. Vamos a Roma e entretenhamo-nos com Virgílio.

Nasceu Virgílio em um arraial perto de Mantua, setenta anos antes de Jesus Cristo. Descendia de família da classe média e de lavradores. Foi mandado por seus pais estudar em Milão e Cremona.

Ao acabar a República Romana, ao dominar Julio César exclusivamente, a conspiração de Brutos e outros cidadãos, que assassinaram o ditador, recomeçara a guerra civil Octavio

Augusto deu cabo dos seus rivais, apoderou-se do governo. Entre seus soldados, como despojo de vencidos, e prêmio de seus serviços, repartiu terras públicas, propriedades particulares, sem examinar o direito, e nem dispor só do que era da República.

Virgílio veio a Roma reclamar a restituição de terras, que assim lhe haviam sido arrancadas do domínio. Encontrando protetor em Mecenas, favorito de Augusto, conseguiu do Imperador deferimento à sua súplica. Merecendo a amizade de Mecenas, e o apoio de Augusto, fixou sua residência em Roma.

Sua reputação estabeleceu-se como poeta, escrevendo ao princípio as Bucólicas, descrições de fantasia, lisonjas ao senhor de Roma e depois as Georgicas, poema que à harmonia de versos, à forma admirável, junta pensamentos elevados, ciência, estudo, e imaginação fecunda em imagens.

Augusto o estimava, Mecenas o tratava como amigo, o povo romano o aplaudia, os poetas contemporâneos o admiravam. Augusto deu-lhe propriedades, quintas, bens de fortuna. Pressentia que o poeta lhe ornaria a fama na posteridade com seus cânticos sonoros.

A vida, portanto, de Virgílio, correu tranquila, feliz, venturosa. Mas ele folgava mais de residir fora de Roma longe do movimento e rumor da cidade, no seio dos bosques e das flores, respirando o ar livre dos campos.

A Grécia dominara o mundo pela inteligência; posto que caída, postrada à Roma, colônia de Roma sem liberdade sem independência, sua língua era a dos literatos e sábios de Roma, porque no idioma grego encontravam os escritos mais importantes de filosofia, história crítica e poética; na Grécia os monumentos mais grandiosos de arquitetura, de escultura, de pintura.

Os romanos que se dedicavam às ciências, às letras, às artes, iam aprender na Grécia; muitos mandavam buscar a Athenas preceptores para seus filhos ou parentes, que abundavam em Roma.

Roma dominava o mundo pela força das armas, pelas suas cortes, pelas suas legiões, pelos seus proconsules. Tudo avassalava física e politicamente, invejavam, todavia, os romanos a glória grega, que influía sobre o espírito.

O estudo das ciências, letras e artes foi, pois, fundado em Roma. À literatura romana tentou, imitando a grega, acompanhar-lhe os passos, excedei-a se possivel fosse.

Infelizmente, minhas senhoras e senhores, infelizmente para Roma, muito aquém ficou da Grécia, nas letras, nas ciências, nas artes. Foi uma cópia da Grécia, e uma cópia nunca atingiu a beleza admirável do original. Nas ciências o que conseguiu diante das que se cultivavam na Grécia? Nem Seneca, nem Cicero, poderão emparelhar-se com Sócrates, Platão e Aristóteles. Na poesia o que são Catullo, Lucrecio, Propercio, Plauto, Ovidio, Seneca, o mesmo Terêncio, o próprio Horacio, em comparação com Anacreonte, Pindaro, Eschylo, Sophocles, Euripedes, Aristophanes?

Na eloquência, é Cicero um dos maiores gênios romanos, admirável, comovedor, insinuante, lógico, elegante, mas, sem falar em Eschino, e outros oradores gregos, inferiores a Demosthenes, possui Cicero aqueles arrebatamentos entusiásticos, aquelas frases concisas em palavras, mas opulentíssimas em ideias e pensamentos, aqueles acentos e vôos que arrastão e exaltam, e que são o característico de Demosthenes?

Pondo de parte Tácito, que é uma especialidade, um talento particular de historiador, porque soube pintar o coração humano, mais até que qualquer poeta, e se tornou o terror dos tiranos, nos seus escritos, o elegante Tito Livio não sobressai a Herodoto, César e Salustio não chegam à altura de Tulcídides, Velleio Paterculo muito longe dista de Xenophonte.

Ergueram-se monumentos em Roma gigantescos, colunas, palácios, termas, templos, arcos grandiosos; mas o que são em belezas artísticas perante os que Athenas possuía, e que causarão sempre o espanto do mundo, até do mundo moderno? De que estatuas e pinturas se gloriam os romanos para opôr às obras semi-divinas de Praxiteles, de Phidias, de Zeuxis?

A Grécia tinha um poema épico; Roma quiz ter também o seu poema épico. Augusto considerou Virgílio capaz de ombrear com Homero. Augusto encarregou Virgílio de escrever um poema épico.

Eis a origem da Eneida. Virgílio-encontrou nas tradições, ou antes legendas primitivas romanas, assumpto para seu poema. Os romanos alardeavam descender dos troianos fugidos depois da destruição da sua cidade pelos gregos. Bastou esta legenda para Virgílio, tanto mais aprazível quanto, ao passo que satisfazia a vangloria do povo romano, oferecia ensejo para contentar o amor-próprio de Augusto, que se tinha por descendente de Enéas, pelo ramo da família Julia.

A vinda, portanto, de Enéas para a Itália, e seu estabelecimento na península, eis o fundamento da Eneida. Não é um facto histórico como o da Ilíada, ou da Odisseia, mas é uma legenda, que sorria aos sentimentos dos Romanos e de Cezar.

Examinado o poema latino e comparado com os gregos, podemos afoitamente dizer que tão distante estava Roma da Grécia nas letras, artes e ciência, quanto ficou Virgílio de Homero.

Ha um grande talento, um gênio notável poético em Virgílio mas não só o assumpto escolhido por ele era inferior ao da Ilíada e ao da Odisseia, como lhe faltava a inspiração grandiosa, o pensamento sublime de Homero.

Era Virgílio um mortal feliz. Não lhe falhavam meios da fortuna, cômodos, fama, consideração. Viveu tranquilamente cinquenta e dois anos, tão tranquilamente que não há uma aventura pitoresca, ou digna de menção na sua história. Homero foi pobre, cego, infeliz, andou vagando desgraçado de um para outro lugar, esmolando o alimento necessário para sustentar-se, cantando seus versos pelas casas dos ricos, ou diante do povo, que lhe atirava o óbolo da comiseração. Existiu em um século menos adiantado em civilização do Virgílio que no seio da rica, opulenta, ilustrada, e voluptuosa Roma.

Apesar deste contraste, os poemas de Homero revelam tudo quanto sabia, pensava, imaginava, acreditava, e cometia a sua época, a história de todos os homens ilustres do seu tempo, as lendas adoptadas, a sua religião desenvolvida e embelezada pelo poeta, os costumes os mais reais, as descrições fidelíssimas dos sítios e localidades que desenha; os poemas de Homero são monumentos históricos, até geográficos, teológicos, filosóficos dos gregos. Entretanto, Virgílio, imaginando Rútulos que combatem os Troianos, falta muitas vezes a unia das necessárias condições literárias à exatidão das pinturas, à exatidão dos usos dos povos; arma os Rútulos como os Romanos ao extinguir-se a República, presta aos Rutulos bárbaros e selvagens sentimentos dos súditos de Augusto. Alexandre trazia sempre consigo um exemplar da Ilíada para aprender a arte da guerra, dizia ele; Napoleão I declarava que os combates descritos na Eneida erão impossíveis, porque Virgílio nada sabia de guerra.

Em Homero maravilham-vos os caracteres completamente distintos, reais, naturais, ao vivo, das personagens, e todas agradáveis, sejam heroínas, sejam humanas, sejam severas e tristes, ou alegres e ligeiras. Em Virgílio só dois caracteres vos aparecem dignos de atenção, e pintados com cores verdadeiras, Dido, a amante abandonada de Enéas, desesperada e suicida, Turno, chefe dos Rutulos; o ambos são de imaginação, e não segundo a história. Enéas é um ente inconcebível, não mostra sentimentos de homem, deixa-se amar por Dido, desampara-a de repente sem o menor sentimento; perde a mulher que expira, e não derrama uma lagrima (risadas): não há um traço que o anime e distingue como herói de poema, figura brilhante, que domine a ação e sobressaia aos outros personagens. É o pio Enéas, como o próprio Virgílio o intitula: tudo será, menos herói de poema, como Achilles ardente, Ulisses aventuroso, ativo e perspicaz. Juno ainda é digna de toda a consideração, pelo colorido com que o poeta sempre a cerca e orna, mas Lavima, o objeto da luta de Enéas, o prêmio da vitória, aquela de onde procede raça de Augusto, é tão secundariamente descrita que nem chama a atenção do leitor.

Os primeiros seis cantos de Virgílio são, entretanto, uma imitação da Odisseia, e por isso, ao lado de descrições agradáveis, fulgura o lindíssimo episódio dos amores de Dido, amores todos sensuais, mas pintados com mão de mestre, enquanto os amores das heroínas de Homero são mais ideais e inspirados. Os últimos cantos da Eneida são cópia da Ilíada, repleta de lutas e combates seguidos e sangrentos.

Homero lembra todos os herdes gregos, Virgílio, receiando-se talvez de Augusto, de quem falia com os mais encomiásticos elogios, não ousa memorar um herói romano dos tempos da República, onde tantos lhe mereciam decerto nota particular.

Homero é o gênio sublime, Virgílio é o artista aperfeiçoado. Os pensamentos de Homero, suas imagens elevadas extasiam; e estilo de Virgílio deixa grata recordação, como a música suave e harmoniosa, estilista mestre! Homero cria, Virgílio encanta.

Em Homero encontrareis mais grandeza e magnificência. Em Virgílio deliciar-vos-á uma ternura de afetos, uma melancolia de ideias, uma sensibilidade natural e profunda.

Homero é o Nilo, que ainda que avolume águas superiores, e as derrame pelas suas margens, parecendo tudo inundar, logo que as recolhe ao leito, deixa os campos por onde elas andaram mais fertilizados e satisfeitos. Virgílio é o rio tranquilo, com suaves curvas, ondulações regulares, que agrada à vista, mas deixa apenas uma emoção sossegada e pacífica. (Muito bem! muito bem!)

Homero é grande, irresistível, ardente, fogoso como seu herói Achilles; Virgílio faz Enéas á imagem de Augusto representá-lo, e então para tudo é calmo, pensado, prudente, como se apregoava o sobrinho de César, pacificador do Estado.

Homero é Júpiter, disparando dos céus os raios, o trovão; Virgílio é Júpiter no conselho dos Deuses, conciliando e sossegando.

Se um tem qualidades superiores de gênio, o outro poeta tem dotes particulares que lhe dão direito igualmente à admiração. Virgílio foi até princípios do século atual mais festejado, mais admirado. Raro literato lhe preferia Homero Apenas Dante, que o pareceu conhecer, o coloca acima de todos os poetas. No século presente, minhas senhoras e senhores, Homero é geralmente, direi mesmo, universalmente, mais considerado e admirado pelos homens de letras. O século presente dedica-se mais profundamente ao estudo da língua grega, tem descoberto monumentos literários e históricos que derramam muita luz sobre a antiguidade, há procedido com escrúpulo a indagações filológicas e eruditas. Conhece melhor o grego que os séculos passados.

Com o domínio de Roma, a língua geral foi a latina; o cristianismo mais se desenvolveu nesta língua, o catolicismo fez sua língua a latina; na Idade Média conservou-se o latim nas classes elevadas, posto que o povo criasse e cultivasse dialetos; latina foi a língua oficial e diplomática até o século XVI, por ser a língua universal da Europa para os espíritos cultos.

Não admira, pois, que conhecendo os séculos passados mais o latim que o grego, soubessem melhor e apreciassem mais a literatura romana que a grega, e que por isso Virgílio lhes parecesse superior a Homero, que mal conheciam em geral, e mais ainda pelas traduções latinas dos poemas, que pela leitura dos seus originais.

Tenho agora a falar de Dante, Camões, Tasso e Milton. Entretanto passa o tempo, já tenho muito abusado de vossa paciência; não quero mais cansar uma tão benévola e animadora atenção, como a que prestais com um cavalheirismo que me cativa. Guardemos o estudo dos demais poetas para outras conferências.

(Muitos aplausos e felicitações recebe o orador do numerosíssimo auditório, que o ouvira.)

Localização

- Conferências Populares, Rio de Janeiro, nº 2, fev. 1876, p. 27-45. (na íntegra). Capturado em 20 jul. 2025. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/docreader/278556/140

Ficha técnica

- Pesquisa: Yolanda Lopes de Melo da Silva, Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.

- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.

 

Forma de citação

Conferência Popular da Glória nº 81. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 30 nov.. 2025. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=671

 


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