Conferência Popular da Glória nº 86

De Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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Data: 04/10/1874

Orador: João Manoel Pereira da Silva

Título: Dante Alighieri e Luiz de Camões.

Aviso, íntegra ou resumo: Íntegra

Texto na íntegra

“Senhor, minhas senhoras e senhores. - Haviam apenas decorrido alguns séculos, e já o Império Romano desaparecera. Constantino, transferindo a capital dos seus Estados para Constantinopla, deixara Ruma subordinada como província, exposta às invasões de hordas barbaras saídas do Norte, e que já ameaçavam de ha muito a bela terra de ltália.

Os bárbaros foram derribando o domínio romano na Germânia, na Gália, nas Espanhas, na Itália, e sobre rumas e destroços plantando novas sociedades e governos, independentes da ação do César de Bizâncio. As trevas começavam a cobrir o mundo ocidental; os restos de ciências e letras encontravam apenas abrigo nos conventos. Ainda que Carlos Magno instituísse o Pontificado como poder civil para Roma e alguns Estados italianos, guardando para si o título honorifico de rei a civilização romana se sumira nas desgraças repetidas que ali causaram os Atilas, Gensericos, e outros chefes do Norte. Nova era começava no meio da escuridão; a teologia se apoderara de todos os conhecimentos humanos, ciências e letras abafaram-se sob a escolástica.

Novos Estados se tinham criado pelo mundo ocidental, barbarizados todos pelas invasões e influência dos homens do Norte, que emigrando de longínquos países, fundavam aí seus novos estabelecimentos.

Foram os árabes os verdadeiros sucessores dos romanos nas letras, nas ciências e nas artes. Levantara-se na Asia esta nova raça, imbuída de crenças religiosas inspiradas pelo profeta Mahomet. De Bagdad e Damasco, estendera-se pelo Egypto, a África do Mediterrâneo, d'aí se passara para Hespanha, e ousara penetrar na França até Lyon e o rio Loire. Mas Carlos Martel os fez recuar para os Pyreneos, e salvou assim sua pátria do jugo muçulmano.

Os soberanos árabes desenvolverão, propagarão o cultivo das letras, ciências e artes, e tornarão o seu povo o mais civilizado do mundo durante quatro a cinco séculos. Os árabes inventarão a pólvora, o papel, a bússola, e outros produtos; inúmeras universidades, escolas, bibliotecas se espalharam pelos seus domínios.

De Hespanha partiu o movimento para a França Meridional, Sicília e Itália.

Tal era a situação da Europa, quando nasceu Dante Alighieri, no ano de 1266, na cidade de Florença. Itália retalhada, estava em vários Estados com o título de repúblicas uns e outros sujeitos ao absolutismo de príncipes. Pesavam sobre Itália duas influências rivais, pretendendo ambas o exclusivismo do poder, o papa, e o imperador germânico.

Os Estados italianos dividiam-se, uns subordinados ao pontífice romano, o outros ao império Alemão. Dante uniu-se ao partido guelfo, que era o do papa. Foi guerreiro, apareceu com brilho em vários combates. Foi diplomata, mostrou-se hábil om negociações variadas. Foi um dos magistrados supremos de Florença, e desenvolveu tino administrativo o político.

Infelizmente no próprio partido guelfo de Florença apareceram dissensões. Dividiu-se em dois grupos, brancos e negros. Dante sustentava os brancos; o papa protegia os negros, e mandou ir em seu socorro a Florença o príncipe francês Carlos de Valois com força militar. Dante foi apeado do poder, condenado a desterro, e à morte quando se encontrasse em território da República, seus bens confiscados, seu nome riscado dos livros dos cidadãos e magistrados de Florença.

Isto sucedeu no ano de 1300.

Ei-lo, pois, proscrito, mendigando asilo na Itália Septentrional: ei-lo, pois, obrigado, na sua frase enérgica, a provar quanto é duro o pão do desterro, e quão difícil subir e descer escadas alheias!

De caráter orgulhoso, de espírito violento, de gênio irascível, e basta olhar para o retrato que dele possuímos para, nos traços, nas linhas da fisionomia, no cintilar dos olhos, reconhecer-se-lhe essas qualidades. Dante tratou logo de vingar-se. Mudou de partido. De guelfo tornou-se gibelino. De aderente à influência e poderio cios papas, converteu-se em sectário do imperador da Alemanha. Entrou em combates contra seus antigos amigos; foi, todavia, desgraçado; não conseguiu derrotá-los.

Vagou muito tempo pela Itália do Norte; veio até Pariz, e sustentou brilhante e vitoriosamente teses teológicas contra os doutores mais afamados da Sorbonne. Regressando à Itália, corria Turim; Milão, Mantua, Verona, Pavia e Modena, nada o satisfazia, desterrado como se achava da pátria, para a qual constantemente dirigia seus olhares saudosos.

Já que não podia vingar-se pelas armas, resolveu vingar-se pelas letras. Imaginou escrever e publicar um poema, que fosse o seu grito de guerra, o instrumento de vingança contra seus inimigos e perseguidores.

Mas em que língua o deveria redigir! Aqui apareceu-lhe a primeira dúvida. A latina era a única ainda usada e empregada oficial, literária e cientificamente. não só na Itália, como na Europa. O latim fora o idioma empregado pelos padres da igreja desde a morte de Jesus Cristo; tornara-se universal na Europa, que sendo toda cristã, via em seus ritos, rezas, orações, a língua latina como a única civilizada.

Entretanto os povos falavam já outros idiomas, formados sobre o latim e os dos bárbaros do Norte, aproximando-se mais uns d'estes e outros d'aquele. Na própria Itália vários eram os dialetos, em França dois mais gerais, o provençal e o wallon; nas Hespanhas o catalão, o castelhano, o gallego e vasconso, além do árabe para a raça asiática ainda ali dominadora de vastos territórios; além dos que mais puros se conservavam entre os germanos e outras nações da Europa.

A língua provençal fora a primeira moderna literária, pela vizinhança dos árabes, que lhe comunicavam suas ciências e conhecimentos. Havia poetas, romancistas, cronistas, e os trovadores da Langue d'Oc se tinham celebrizado pelo mundo.

A denominada hoje italiana, começada na corte da Sicília, com o título de cortesã, era diferente da língua empregada em geral pelo povo. Da Sicília passara para vários Estados da Itália, e particularmente para Florença, onde era geralmente falada. Tinha seus poetas ligeiros, amorosos, elegíacos, descritivos, satíricos, cujos cantares se guardavam tradicionalmente. Mas monumento sério, literário nem um possuía, porque o idioma latino era o preferido pelos sábios e literatos, que entendiam que era ele a língua geralmente conhecida e que única poderia transmitir obras à posteridade.

Dante meditou escrever o seu poema em latim, e começou a escrevê-lo nesta língua. Mas depois, pensando melhor, disse consigo: “quero que o povo todo de Itália me entenda, e não os ânimos cultos somente”. Redigiu-o, portanto, na língua italiana. É assim o poema de Dante, o primeiro poema de importância escrito em idioma moderno, e na língua italiana. Foi o criador da língua como literatura, e adaptou-a a obras de fôlego e futuro.

Denominou-o comedia, porque, diz ele, a comedia principia por desgraças e acaba em felicidades. O seu poema começava pelo inferno, referia o purgatório e terminava no céu.

Foi povo que, admirando-o e repetindo-lhe as estrofes por toda a parte, chamou-o - Comédia Divina. Foi este título honroso que sancionou-o a posteridade.

É a Divina Comedia um poema épico, na inteligência que damos a este gênero de poesia?

Primeiro ponto, que desejo tratar.

Para mim nenhuma dúvida há que o é, e verdadeira epopeia. Difere, é verdade, na fórmula, que é rimada e não solta, como as obras de Virgílio e Homero, mas porque os árabes que tinham criado a rima para tornar o verso mais harmonioso e musical a tinham comunicado à língua provençal, à italiana, às espanholas e à wallon. Difere, ainda, na série de episódios variados e multíplices, seguidos uns após outros. Difere mais na admissão de todos os gêneros de poesia, empregando ora o lírico, ora o satírico, ora o elegíaco, ora mesmo o trágico. Mas a Divina Comedia compreende todas as condições da epopeia.

É um poema grandioso no fundo, descreve não só um, mas vários factos históricos, emprega o maravilhoso com singular descrição, sustenta o interesse e tem unidade de ação e de pensamento. A ação é uma viagem do poeta pelo inferno, purgatório e paraíso, cheia de peripécias e perigo, que desperta a atenção e comovem o leitor. O pensamento é a pintura da Itália com todos os seus homens, costumes, usos crenças, legendas, tradições, história, lutas civis e estranhas, e paixões exaltadas. A Divina Comedia é um estudo enciclopédico da sua época, e dispõe da unidade na imensidade do próprio assunto. Que mais requisitos exige a epopeia? A divergência entre ele e os outros poetas consiste na diversidade dos caracteres dos autores, na diferença dos objetos que celebram e cantam.

Antes dele não mereciam o título de poemas épicos, posto que tenham seu merecimento, os romances rimados dos árabes e provençais, nem a obra dos nibelungos, em língua teutônica cantando as vitórias de Atila rei dos hunos contra os burgonheses, nem os cantores de rei Arthur na língua wailon.

O que é certo, é que à proporção que Dante foi escrevendo seu poema ia dando cópias de cantos, e estas espalhando-se pela Itália, lidas por todo o povo, tornarão o poema popularíssimo. Dante era apontado nas ruas de Verona quando passava, e conta-se que uma vez em um grupo de mulheres pobres do povo disse uma: “- Aquele homem vai ao inferno quando quer e volta quando lhe parece.” - E as outras responderam: “Deve ser verdade, porque seus cabelos e barbas estão chamuscados de fogo”. (Hilariedade prolongada no auditório)

O efeito que a Divina Comedia produziu em Itália, e na própria Florença foi tão poderoso, que o povo fugia de três magistrados que Dante colocara no inferno, dizendo que já estavam mortos, e condenados às penas eternas, posto que seus corpos existissem ainda em Florença, e só se mostravam vivos porque eram animados pelo demônio. (Risadas). Admirável é ainda mais que os próprios três magistrados, inimigos de Dante, e que o haviam condenado a desterro, quase que se convenceram de que era possível ser verdade o que anunciava o poeta, e tremiam de si próprios. (Continua a hilariedade.)

Estremecerão se os ânimos dos florentinos de modo que revogaram as sentenças contra Dante. e permitiram-lhe a volta para sua pátria, com a cláusula, porém, de pagar uma multa pecuniária, para o que ficava habilitado, com a restituição de seus bens e propriedades confiscadas,

Mas Dante não sabia humilhar-se. Proclamou que voltaria para Florença declarado inocente, e que pagar uma multa equivalia a confessar-se culpado. Preferiu vagar ainda em desterro, e morreu por fim em 1321, em Ravena, onde foi enterrado, e se conservam ainda seus ossos, apesar de instantes reclamações de Florença para consegui-los.

Apreciemos agora este poema extraordinário, singular original, profundo, digno do toda a nossa admiração. Não o faremos minuciosamente, porque seriam precisas muitas conferências, tantas são as faces porque se o pode encarar, mas em traços largos, gerais, tanto quanto se possa compreendê-lo no seu todo. Dante aproveitou todas as crenças, e superstições populares religiosas do seu tempo, da teologia escolástica quo então dominava a inteligência; serviu-se dos contos e lendas da época para pintar a outra vida do homem, quando a alma. se destaca da carne e passa à eternidade a receber o prêmio ou o castigo dos seus feitos na terra.

Dante amara em Florença uma donzela, que morrera em verdes anos. Chamava-se Beatriz. Parece que exaltado era o amor, e séria a afeição, toda espiritual, que o poeta lhe consagrava. Coloca-a, pois, no céu, e d'ela recebe o auxílio para percorrer livremente o inferno, o purgatório e o paraíso, seguido por Virgílio, que Beatriz obtém de Deus seja seu guia e companheiro.

Burila-se a entrada do inferno com versos tão enérgicos, que todos quantos conhecem o italiano os sabem de cor. Letras de fogo tirão a esperança dos que ali penetram; numerosíssimas almas ali expiam em turbilhão suas culpas e pecados no mundo. A primeira vista é a dos sábios, filósofos, historiadores, artistas, poetas, oradores e vultos celebres da antiguidade, conhecidos pelos seus serviços e virtudes. Não sofrem penas físicas, mas lamentam-se sem cessar de não terem conhecido a verdadeira luz, a religião cristã, sendo assim original o seu pecado. Á frente d'eles marcha Homero, a quem Dante honra como altíssimo poeta, apelida soberano gênio, e compara à águia que plaina no espaço mais elevado, acima de todos os outros companheiros.

Descobre-se logo após o sítio em que se punem os pecadores do amor. (Risadas).

Quantos no mundo se deixarão arrebatar pelas paixões amorosas, e esquecerão seus deveres severos, pagam ali suas faltas. Dido, Semiramis, Helena, Cleópatra, Achiles, e outros amantes sofrem ao lado de Francisca de Rimini, que o poeta conhecera, casada com Lanceloto, e que o marido assassinara por descobrir relações intimas com Paulo Malatesti. E este um dos mais suaves e admirados episódios do poema. As queixas de Francisca, confessando o amor a que não pudera resistir, arrancam lágrimas; a poesia de Dante manifestou-se esplêndida, e n'ela muitos poetas posteriores de todas as nações do mundo têm ido buscar inspirações para dramas, romances e cantatas de Francisca de Rimini. Uma tempestade fria, gelada, solta no espaço, açouta essas almas dos pecadores do amor, não os deixando parar e nem descansar na rápida carreira, em que sempre estão a girar como castigo do fogo amoroso, que lhes queimara os corações e transviara os espíritos. (Muito bem!)

Passa depois o poeta a pintar os fossos onde se junta as almas dos coléricos, dos invejosos, dos heresiarchas, dos perjuros, dos suicidas, dos ambiciosos, dos avaros, dos traidores à pátria e aos amigos, dos caluniadores, dos ateus, e dos mais pecadores, e a cada espécie d'eles reserva condigno castigo.

Aos papas simoniacos e culpados não perdoa, e vários dos sumos pontífices sofrem penas no inferno pelos seus crimes e pecados na terra. Ao clero corrompido distribui castigos horrorosos, nomeando de uns e outros os nomes, muitos contemporâneos, sem o menor receio de comprometimento. Aos ladrões anexa serpentes sibilantes, que se lhes agarram aos corpos, e que assim ligados, as serpentes se vão convertendo em homens, e os homens em serpentes, trocando-se as figuras a cada instante (Muito bem! Ilícito bem!) Aos assassinos e tiranos, mergulhados em lagos de sangue ardente, arranca gritos de dôr, que horrorizam.

Entre eles lá está o bispo de Pizza, Ruggieri, que Dante conhecera, e que apanhando em combate o conde Ugolino com seus seis filhos, os encerrara em uma torre, e os matara todos de fome.

Este episódio faz estremecer pela energia das frases, pelo grandioso do pensamento. Um pai que vê morrer um a um e a fome os filhos, sem lhes poder valer, e que após fenece igualmente, torna-se, de certo, assumpto de um horrível sublime, tratado por um gênio exaltado e esplendido como o de Dante, que coloca no inferno o conde Ugolino agarrado ao hispo, e a morder-lhe o crânio com os dentes enraivecido. (Sensação.)

Já declarei que não podia senão esboçar em traços ligeiros os admiráveis episódios da Divina Comedia, que aliás se prestaram logo ao princípio, a comentários dos próprios contemporâneos. Apenas morrera Dante, dois professores foram nomeados, um em Milão e outro em Florença, para explicar seu poema, onde as alusões, o sentido, a intenção se mostravam mais obscuras. Lembrarei ainda como primores da poesia as histórias de Farinata, chefe dos gibelinos de Florença, de Bruneto Latino, mestre de Dante, de Bruoso e de Bruneleschi. Não se queixem, portanto, os meus auditores, se procuro ser conciso, correr rápido sobre particulares, e ocupar-me só com observações largas. Do inferno passa Dante ao purgatório. Aqui punem-se coma no inferno os culpados e pecadores, não com penas eternas, mas temporárias. Criminosos idênticos se encontrão, mas serviu-lhes para salvação o arrependimento na vida.

Católico como era Dante, aceitando as tradições da igreja sobre o inferno, o purgatório e o paraíso, adota também o princípio de que o arrependimento, sério e eficaz antes da morte, salva do inferno, e pode levar ao paraíso as almas, depois de expurgadas no purgatório. O império dos mortos, dos poetas antigos era obscuro, confuso, ininteligível. O de Dante que se desenha com as cores do catolicismo, é regular, majestoso, claro, e conforme as ideias e superstições da sua época.

No purgatório quantas almas conhecidas de seus contemporâneos! O músico Casella, o poeta provençal Sordello, e aquele famoso Manfredo, rei da Sicília, que o papa e os padres perseguiram, precipitaram do trono, excomungaram, condenaram-o a não se enterrar quando morto, e cujo cadáver fizeram arrancar do sepulcro dado pelos fiéis contra suas determinações, para exporem aos animais vorazes e carnívoros, às bordas de um rio. Deus, porém, que se não decide pelas sentenças dos que na terra o representai) como cheios de sua religião; Deus que julga por si e por sua só justiça, desprezou as excomunhões e condenou ao purgatório, não ao inferno, o infeliz Manfredo, provando assim que são sujeitos a paixões também e a injustiças os sumos pontífices. (Muito bem! Muito bem!) Aí, e nas invectivas que Dante dirige aos papas pela sua corrupção, adivinha-se Luthero antecipado de três séculos, para alçar sobre as superstições o império da razão, e para reduzir os representantes da igreja a se contentarem com a direção das consciências, deixando de pretender ao governo temporal da sociedade. (Muito bem! Muito bem!) Do purgatório transfere-se o poeta para o paraíso. Virgílio retira-se. Beatriz o recebe e conduz à visita do Éden reservado às virtudes e a felicidade eterna.

No meio de ininteligíveis alusões, de questões escolásticas e teológicas, ouvem-se hinos primorosos e dedicatórias à Itália, que o poeta deseja ver unida e não retalhada em Estados, que se combatem constantemente, dilacerada como se acha por guerras civis e estranhas, humilhada e atormentada por tiranos, e a Florença, particularmente Florença., sua pátria dileta, que Dante nunca esquece, e a quem lamentando, do seu desterro cruel, envia desejos ardentes, votos sinceros de venturas e fortunas! As ideias teológicas do tempo, professadas por S. Bernardo e S. Boaventura, são embelezadas pelo poeta, e divinizadas em seus cânticos.

Tal é, minhas senhoras e senhores, esse poema, glória da Itália e admiração do mundo. Vasto, enérgico, esplendido monumento do gênio e do saber, grito de vingança de uma alma desesperada e irascível!

Se se destaca da essência e fórmulas do poema épico, cumpre todavia as principais condições da epopeia, e, posto que acusações graves se tenham levantado particularmente a respeito da obscuridade dos cânticos do paraíso, não são elas imputáveis senão as ideias da época, daqueles séculos, XIII e XIV, om que predominava a escolástica dos padres da igreja, em que todas as ciências deviam n’ela concentrar-se, como ciência mãe, e também a instrução de Dante, que passava por profundo teólogo, tanto que esse título de glória se lhe gravou no túmulo, em Ravena.

Portugal tem a glória minhas senhoras e senhores, de haver produzido um grande poeta épico, um dos seis grandes vultos da epopeia: posto que país pequeno, de população diminuta, de seis gênios sublimes em poesia, que produziu o mundo antigo e moderno, um foi seu, um foi português, um nasceu em Lisboa, Luiz de Camões, no ano de 1524.

De família nobre, ainda que pobre, estava-lhe ás armas reservada a sorte, como era uso do tempo. Começou, todavia, cursando as aulas da universidade de Coimbra, que de Lisboa havia sido há poucos anos transferida por D. João 111. Poetou logo no verdor dos anos, não houve divertimento em Coimbra, justa de estudantes, em que Camões não recitasse odes, cantatas, sonetos, terminados seus estudos, foi para Lisboa, e obteve entrada no paço.

A corte de D. João III timbrava em esplendor e elegância, posto que já inferior à dos seus últimos antecessores. Portugal ganhara nomeada e importância na Europa, desde que D. João II na África e D. Manoel com seus descobrimentos na Ásia, América e África, haviam espantado o mundo, que nunca julgará a nação lusitana capaz e habilitada para tão portentosas empresas. A ideia de estender domínios e espalhar a religião católica, predominava no ânimo dos príncipes, incitava os nobres, exaltava o povo, e sorria ao clero. Onde se levantava o pendão das quinas portuguesas, na Ásia, na África e na América, a cruz de Jesus Cristo radiava, aparecendo ao lado do guerreiro audaz o missionário incumbido da propagação da fé.

De um pequeno condado ou feudo se convertera em pequeno reino, sob Afonso Henriques. Ganhando sobre mouros terrenos para o sul até encontrar os mares, foi a pouco e pouco formando-se a monarquia. Possessora de uma estreita zona banhada pelo oceano, posto que encravada em territórios alheios, passou á África, devassou-lhe as costas, plantou-lhe colônias. Descobriu depois a Ásia, mundo de riquezas esplendidas, de comércio importantíssimo, e aí se devia fundar o teatro dos feitos heróicos de guerreiros e navegantes portugueses. E ei-la que, por um acaso, encontra e domina a mais bela parte da América Meridional, favorecendo-a ainda a fortuna, para que a Hespanha-, que se assenhoreará primeiro de territórios americanos, não fosse a única possuidora d'estas plagas destinadas à sucessão da Europa em todos os elementos da civilização.

Pouco tempo se demorou, contudo Camões, no serviço ou exercício de fidalgo a que se empregara. Posto que admirado e estimado pelas suas poesias, que por toda a parte se liam, quase todas versando sobre amores, que são sempre as inspirações da mocidade, recebeu, de repente, intimação para sair do paço e de Lisboa, e conservar-se retirado em Riba-Tejo.

Este incidente teve lugar em 1550.

Para o seu desterro, como Camões chamava, partiu o poeta, e ali comparava-se a Ovídio, e dava a entender que amores haviam sido causa de sua desventura, nos versos que compunha e remetia para Lisboa; como nome de Natercia pintava a donzela que dizia haver-lhe cativado o coração, e dominado o espírito.

Os biógrafos curiosos se têm dado a trabalhos insanos para descobrir quem era essa Natercia. Sem minuciar quantas Natercias ou Catharinas, que aquele nome não passa de um anagrama, a mais provável e fundada opinião é que Camões se enamorara de uma dama da corte, chamada Catharina de Athayde da família mais nobre e aristocrática, que era essa a Natercia que ele por todos os feitios cantou e divinizou em suas poesias, e que o irmão da donzela, D. Antônio de Athayde, não levando a bem esses amores apaixonados, correspondidos ou não - quem pode saber? nada o prova: mas que poderiam ter consequências desastrosas à sua casa, obteve d'el-rei a ordem para o afastamento do poeta, quer da corte, quer mesmo de Lisboa!

Certo é que Camões, aborrecido em seu exílio, em Santarem ou qualquer outro lugar de Riba-Tejo, conseguiu vê-lo por fim levantado, mas pouco tempo se demorou em Lisboa, e seguiu logo para Ceuta, alistado entre os jovens fidalgos, que deviam batalhar contra mouros, e habilitar-se no exercido das armas.

Não o favoreciam somente as musas, inspirando-lhe versos admiráveis; correspondiam-lhe ao gênio os dotes de valentia e coragem, e provas deu imediatamente em Ceuta, tomando parte em vários combates contra mouros. Ou em um naval, como pensam certos biógrafos, ou em terra e perto de Ceuta, como acreditam outros, perdeu Camões o olho direito, traspassado de uma seta, além de receber várias outras feridas, pouco graves, em diversas partes do corpo.

Mas não se pôde afazer à vida na África; voltou em 1552 para Lisboa.

Viria requerer prêmios pelos seus feitos de guerra? Nada conseguiu da corte, senão desprezos e desdéns. Viria tornar a ver aquela donzela que não pudera esquecer nem no desterro, nem nas lides da guerra. É fato verificado que encontrara morta Catharina de Athayde, porque o próprio poeta escreveu a celebre e terníssima canção, em que lamenta o falecimento de Natercia; e porque não se quiz Camões demorar em Lisboa, e no ano de 1553 seguiu para a Índia a procurar fortuna, ou ventura?

Parece que a Providência Divina protegia o poeta para não desaparecer do mundo antes de levantar à gloria do seu país e das letras portuguesas o mais justamente admirado monumento. De quatro naus que juntas seguirão para a India, três foram devoradas pelos mares, a única que se salvou foi a São Bento, e era ela que levava a seu bordo Luiz de Camões.

Empregou-se em Gôa, no serviço militar, por algum tempo. Posto que a título de provedor de defuntos mandado para Macau, é tradição razoável que o vice-rei Barreto o desterrara, para deferir a queixas de altos funcionários que em uma sátira de Camões, acerca da corrupção dos costumes na Índia, se considerarão compreendidos.

Correu a costa da Índia e da China. Estabeleceu-se Camões em Macau. Aí empreendeu, talvez já anteriormente imaginado, aí escreveu o seu poema dos Lusiadas. Mostra-se ainda uma gruta, onde se diz costumava o poeta isolar-se e inspirar-se. Passados anos, de volta para Gôa, naufragou o navio na embocadura do Rio-Mokon, o poeta salvou-se a nado, sustentando na mão o seu poema, e abandonando tudo o mais que possuía. Assim o próprio Camões o reconta em uma das estrofes dos Lusiadas. Se alguma fortuna ajuntara em Macau tudo perdera com o infausto naufrágio.

Andou ainda errante pelos portos da Índia, onde figurou em vários combates contra os indígenas; sofreu prisão em Gôa por causa de denúncias falsas sobre seu procedimento em Macau e por dívidas de dinheiro; foi depois para Moçambique, e, por fim, conseguiu regressar para Lisboa e aí chegar em 1570, pobre de meios, maltratado da fortuna, estragado da saúde, curtido de desgostos e cheio de cicatrizes de honrosas feridas recebidas em combates e guerras.

Publicou em 1572 o seu poema, geralmente aplaudido, admirado pelos seus contemporâneos e compatriotas. Conseguiu que em prêmio dos seus serviços lhe mandasse el-rei D. Sebastião, que sucedera a D. João III, dar uma pensão de quinze mil réis anuais, com obrigação ainda de residir na corte e de renovar o provimento de três em três anos. (Sensação.) E essa mesma pensão não lhe era paga, queixava-se o poeta, quo muito d'ela necessitava.

Caiu na miséria. Foi morar em um pobre casebre. Tinha em sua companhia um índio, Jáu, que na Índia fôra seu escravo e viera para Portugal como seu amigo. Antônio, assim se chamava ele, pedia esmolas pelas ruas de Lisboa, para sustentar seu amo.

No entanto o imprudente e moço rei lá fôra à África ganhar novos louros, e terras, apregoando cavalheirismo em defesa de um contra outro rei mouro. Lá deixou a vida, nos areais do Alcacer-Kibir, lá morreu com ele a melhor e mais guerreira gente de Portugal, lá morreu com elle a independência do seu país! Portugal passou para o governo de um cardeal decrépito, com o prelúdio de um soberano estrangeiro, Felippe II de Hespanha.

Como poderia, o coração patriota de Camões suportar o golpe fatal da derrota portuguesa de Alcacer-Kibir. Que dolorosas e desesperadas impressões receberia! De certo, porque no mesmo ano em que a batalha se ferira, Portugal foi vencido apenas chegaram a Lisboa, as notícias do infaustíssimo e fatalíssimo evento, Camões não sobreviveu à pátria!

Morreu em 1579. Foi miseravelmente o seu enterramento om uma sepultura da igreja de Sant’Anna. Algum tempo depois reconhecido o lugar em que repousavam seus ossos, gravou-lhe na campa um dístico um nobre admirador da poesia. Mas o terremoto do século XVIII destruiu a igreja de Santa Anna, e ignora-se bojo onde param os restos do maior poeta português!

Quando Camões escreveu o seu poema, começava a brotar a literatura portuguesa. A língua se havia formado, usado e empregado oficialmente pouco tempo depois da elevação de Affonso Henriques ao trono que ele fundara em territórios até então pertencentes ao rei de Lyão, e que ele devera a seu gênio e a sua vitória em Ourique. O galego em uma das línguas da península Ibérica, nascido como as outras espanholas, do latim, do godo e do árabe O idioma galego foi a base do idioma português, adoçando-se mais a pronúncia, latinizando-se melhor a gramática e particularmente a sintaxe e robustecendo-se com vocábulos novos, bebidos na língua de Roma, de modo a aproximar-se mais da origem latina. Alguns espíritos cultos a manejavam já, antes do século XVI, mas n'esta época é que ela se fixou literariamente, e abriIhantou-se com obras memoráveis.

O aproximar-se ela mais do latim, foi obra dos literatos, que assim a foram depurando e organizando, e a fizeram aclimatar-se e difundir-se pelo povo.

Gil Vicente dedicara-te ao gênero dramático, Bernardim Ribeiro e Vasco da Lobeira polirão a prosa com os romances de Menina e Moça, Palmeirim de Inglaterra. Alguns outros vultos poéticos traduzirão em versos suas inspirações. Mas Camões, póde-se dizer, ornamentou, aumentou, civilizou a língua portuguesa, que precisava ainda de um gênio como o seu, para tomar assento solido e lugar distinto. Mostrou que ela se prestava perfeitamente a todos os gêneros de poesia, o lírico, o bucólico, o elegíaco, o amoroso, o pastoril, o dramático, e até o épico.

No seu poema, é um poeta artista como Virgílio o fora entre os romanos. A frase, a palavra, a rima, tudo é admiravelmente apropriado. O pensamento assim traduzido em um idioma harmonioso e musical, revestia-se de novo brilho, de fulgor mais resplendente. A verificação de Camões ainda hoje não foi excedida, e nem modificada na fórmula, no torneio, na expressão, na melodia. Notam-se diferenças entre o português puro de Luiz de Souza, João de Barros, Antônio Vieira, e D. Francisco Manoel de Mello, porque as línguas modificam-se, transformam-se de alguma sorte com o andar dos tempos. Criador da língua é o povo, é a nação. As línguas humanas são como vastos monumentos, em que cada geração trabalha a seu turno, e cuja construção prossegue indefinidamente através dos séculos, sem que a ninguém se permita colocar a cúpula sobre o edifício.

Entretanto, que diferença, se percebe entre a poesia de Camões do século XVI e a. de Diniz do século XVlll! Quase que nenhuma, porque Camões com sua imaginação poderosa, e sua arte consumada, soube estabelecer a linguagem do verso de modo a sofrer depois muito pequenas modificações, graças à superioridade do seu engenho.

Houve quem pusesse em dúvida entre os literatos se era assumpto propriamente épico o que escolhera Camões para o seu poema. Tudo se pode enunciar, e sustentar. Custa, porém, acreditar-se que se pudesse recusar a qualidade de epopeia ao assunto dos Lusíadas. Qual o superior? O da llíada é grandioso para o pequeno mundo da Grécia, é grandioso pelo gênio de Homero, é grandioso ainda porque é o único monumento d’aquelas eras distantes, de que quase não possuímos notícia.

A Odisseia compõe-se de incidentes domésticos, bastante íntimos, romanescos, interessantes ao coração. A Eneida nasce de uma tradição vara, senão fabulosa, da vinda de Enéas à Itália, e de seu estabelecimento no país de Turno. A Divina Comedia encontrou assunto majestoso nas legendas, e tradições, e doutrinas da igreja cristã, que nos faz crer na outra vida do homem, e nos castigos e prêmios que aí o esperam pelos seus feitos na torra. O Paraíso Perdido pinta a criação do homem, e pode considerar-se o poema da humanidade no seu berço e origem. O assumpto escolhido por Torquato Tasso parece-me o mais épico de todos, menos todavia que o dos Lusíadas. É, de certo, um grande facto histórico e glorioso a luta das Cruzadas, porque é a luta de duas raças, a europeia e a asiática, e de duas religiões, a Cristã e a de Mafoma.

Mas de que se trata nos Lusíadas? Da empresa portentosa de executar-se uma viagem, através de mares desconhecidos, nunca d'antes navegados, em busca de mundos de que se tinha apenas noções vagas; de conseguir-se ligar a Ásia com a Europa, enriquecer-se, civilizar-se esta à custa d’aquela; de estender-se todos os conhecimentos humanos; de propagar-se ainda a religião católica por inumeráveis nações e povos indiáticos, que a não conheciam; de tornar enfim a Europa em dominadora do mundo.

Não é, portanto, só um assunto português, deve ser considerado europeu; posto que a empresa fosse só concebida, e praticada por portugueses, que constituíam, entretanto, na época, a mais pequena nação da Europa, seus efeitos, seus resultados foram gerais, importantíssimos, valiosíssimos, de presente e do futuro para a Europa. Seus fins muito mais difíceis e perigosos que os dos Cruzados. Estes sabiam o caminho de Jerusalém, atravessavam países amigos, recolhiam n’eles forças e recursos, e batalhavam em territórios conhecidos, como erão os da Terra-Santa. Vasco da Gama e seus companheiros, entretanto, devassavam mares nunca d’antes navegados, suportaram furacões, tempestades, fomes e sede, e atacaram povos muito mais numerosos, e reis possantes e guerreiros.

Porventura a empresa de salvar a cidade de Jerusalém, e o túmulo de Jesus Cristo, pode ser considerada mais assumpto de poesia épica do que o descobrimento das índias, inteiramente ignoradas, povoadas por multidão copiosa de gente, rica de uma civilização particular, e aí levar-se a religião do verdadeiro Deus, aí propagar-se a fé do Cristianismo?

O assunto dos Lusíadas não, não é inferior ao da Jerusalém, sob nenhum ponto de vista. Maior gloria para o mundo, maior desenvolvimento moral e material da humanidade, maior conquista de luzes e ilustração cientifica, maiores recursos para a riqueza e prosperidade da Europa, eis o resultado da conquista das índias pelos portugueses.

Além de que onde se descobre em Tasso ou em qualquer outro poeta esse entusiasmo patriótico, que é um dos característicos mais distintos de Camões? (Muitos Aplausos.)

O mais puro patriotismo revela-se em cada canto, em cada estrofe, em cada verso dos Lusíadas. (Muito bem) Não é Vasco da Gama o herói senão nominal por dirigir a empresa portentosa: é Portugal quo predomina como figura principal no poema. (Muito bem!) E a nação portuguesa com suas galas, triunfos e glórias que se canta nos Lusíadas. A pátria é que inspira ao poeta essas oitavas admiráveis, que encantam, extasiam, eletrizam (muitos aplausos), que legam à posteridade o nome de Portugal e de Portugueses para eterna reminiscência. (Muito bem.)

Vasco da Gama parte do Lisboa, atravessa mares desconhecidos, dobra o cabo Tormentorio, vaga pelas costas da Àfrica Oriental e descobre a índia. Às aventuras dos portugueses são recontadas aí de modo admirável. A descrição da Ásia mostra conhecimentos geográficos e históricos, de que se não possuía a menor noção na Europa. Ao Camorim conta Vasco da Gama a história o grandeza de Portugal para o arrastar a curvar-se ao jugo de D. Manoel. Com a volta de Gama a Dhboa termina o poema.

Mas que variedade de quadros da natureza! Como é rico, até pródigo o poeta nas descrições da Ásia, dos seus povos, dos costumes e lendas que lhes pertenciam?

Como sabe pintar ao vivo os fenômenos do mar, as trombas marinhas, as tempestades horrorosas, o desencadeamento dos ventos, a impetuosidade das correntes, os perigos que correm os navios, os naufrágios que eles suportam!

E o poeta mais admirável dos mares e das tempestades! Sente-se ao lê-lo, sibilar o vento, enraivecer-se o tufão, toldarem-se as ondas, encapelar-se o oceano, escurecer o horizonte, ranger o navio, quebrarem-se os mastros, despedaçar-se as vergas, rasgar se as velas. (Muito bem!) Assiste-se a todas as cenas horrorosas da natureza em luta e anarquia de elementos contrários e furiosos.

Mimosa brandura de afetos, propriedade de colorido, vida, enfim, animam alguns dos episódios maravilhosos com que entretêm a atenção do leitor, e suscita-lhe o entusiasmo. Ou sejam eles históricos como o de Ignez de Castro, em que cada uma estrofe, cada um verso, cada uma palavra, cada uma rima, tudo é conforme ao sentimento, tudo exprime a paixão, tudo descreve a ideia, tudo é harmônico com o pensamento; como o do Condestavel, em que o espírito guerreiro, o ânimo cavalheiroso e leal, os caracteres, não encontrão superiores. em poema nenhum do mundo; ou como a lenda dos Doze de Inglaterra, toda heroica e amorosa; ou como essa cena admirável da Rainha de Castella, vindo ao rei de Portugal pedir auxílio contra os Mouros, que apertão e perseguem seu esposo, exclamando:

Açode e corre, pai, que se não corres Pode ser que não aches quem socorres,

ou finalmente nos dois soberbos, esplendidos, magníficos episódios de Adamastor e da Ilha dos Amores, frutos da imaginação portentosa e possante do poeta!

Como não extasiar-se diante d'esse gigante ou Titan da legenda mitológica, que se converte em penedo, e assusta os navegantes que ousam aproximar-se e tentam dobrá-lo para se passarem de uns para outros mares?

Como não deliciar-se a descrição voluptuosa da Ilha dos Amores, arrancada do seio do oceano, povoada de ninfas formosas, que acolhem benignamente os descobridores da Ásia no seu regresso a pátria, e lhes pagão com os mais esquisitos prazeres os trabalhos e perigos que suportarão'?

E quanta melancolia derramada em todo esse poema a qual prova a sensibilidade do coração do vate guerreiro e altanado que nunca soube curvar-se, e marchou sempre de fronte erguida e sobranceira?

Abandonara a pátria pela Ásia, dizendo como Scipiâo: — não quero que meus ossos descansem em teu seio. — Mas par tido que foi, passados os Ímpetos da irritação pelas injustiças que sofrera, ei-lo patriota como ninguém, lançando os olhos para as terras de Cintra que desaparecem a pouco é pouco da vista, aí deixando saudades imorredouras!

Parece que amoroso, como fora Camões, de Catharina, morta ela para o mundo, na pátria concentrou todos os seus amores, o exclusivismo de todos os seus sentimentos apaixonados!

E o que se não encontra n’esse poema de axiomas e máximas políticas, de conselhos aos reis e governantes, de ideias adiantadas até da liberdade, de conhecimentos de administração pública?

Colhem-se nos seus versos epigrafes apropriadas a todas as obras e livros sobre ciências, artes, letras, legislação, governo; sua frase é sempre nobre, adaptada com exação, copiosa sem profusão, brilhante sem deslumbrar pela exuberância de esplendor, corrente, sonora, discreta: sua imaginação é rica de cores vivas que iluminam; seu pensamento elevado; e quando trata de si, o que várias vezes e muito a propósito faz durante a marcha do poema, é sempre como homem avisado, posto que queixoso da sorte infeliz que o persegue, do fado que o martiriza, das desgraças e miséria- que o oprimem!

Se ganhou gloria, e gloria eterna e imorredoura para seu nome na posteridade, fundou também a glória, a reputação de seu país, que, tão pequeno, produziu um dos maiores épicos do mundo, cercado de nações poderosíssimas. A língua portuguesa foi sempre, e é pouco conhecida na Europa; igualmente a sua literatura, aliás tão variada, tão rica em todos os gêneros; mas Camões é apreciado geralmente, seu poema está traduzido em todas as línguas faladas da terra. Conhece-se Portugal por Camões, e por causa de Camões muitos povos se lembram do Portugal! (Muito bem!)

Portugueses e Brasileiros, temos a mesma origem, a mesma ascendência, o mesmo berço, somos da mesma raça: unidos formamos a mesma nação; separados, cada um de nós constitui um povo independente; mas somos irmãos, participamos do mesmo passado, mútuas são as venturas pretéritas, mútuas as venturas e glorias antes da emancipação do Brasil. (Muito bem!)

Camões é o grande poeta, o maior gênio da nossa língua. Pertence tanto sua memória aos portugueses como aos brasileiros. (Muito bem!) Camões é de nós todos, a mais esplendida e pura gloria literária.

(Numerosos e repetidos aplausos e felicitações dá o auditório todo ao orador.)

Localização

- Conferências Populares, Rio de Janeiro, nº3, mar.,1876, p. 37-58. (na integra). Capturado em 22 jul. 2025. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/docreader/278556/278  

Ficha técnica

- Pesquisa: Yolanda Lopes de Melo da Silva, Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.

- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.

Forma de citação

Conferência Popular da Glória nº 86. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 30 nov.. 2025. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=676

 


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