Conferência Popular da Glória nº 167

De Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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Data: 12/03/1876

Orador: Tristão de Alencar Araripe

Título: Os Patriarcas da Independência

Aviso, íntegra ou resumo: Íntegra

Texto na íntegra

“Senhores, —Venho hoje discutir um ponto da nossa história pátria, que por pertencer a um dos mais gloriosos períodos, senão O mais ilustre, dos fastos nacionais, merecerá por certo a vossa benigna atenção, como amigos de tudo quanto é nobre e generoso.

Nenhum brasileiro pôde ser indiferente aos autores do grande ato, que deu-nos pátria, instituições livres, e todos os elementos de prosperidade; aos magnânimos varões, que consagrarão a sua atividade, e esforçaram-se pela realização da causa d*este império americano, devemos respeito e gratidão; e falar d'eles é tocar em assumpto do máximo interesse para os brasileiros, e dar testemunho da nossa admiração por suas virtudes.

A vossa benevolência escusará as imperfeições, e a insuficiência do meu discurso.

As grandes causas têm os seus protagonistas; a causa da independência do Brasil foi certamente uma causa nobre e generosa, e teve ilustres e egrégios protagonistas; a estes denomino eu - patriarcas da independência, denominação que o vulgo iniciou, e que a história já tem consagrado.

A primeira questão, que cumpre-nos agora ventilar, é saber se há um ou mais patriarcas da independência do Brasil.

Para resolver esta questão, cumpre primeiro que tudo examinar como surgiu, e realizou-se a ideia da nossa emancipação política.

Poderíamos dizer, que havia um patriarca da independência nacional, si entre nós houvesse porventura aparecido um homem que por uma iniciativa antecipada e poderosa tivesse propagado, e dado impulso por seus atos e opiniões ao pensamento libertador.

Poderíamos dizer, que havia um patriarca da independência nacional, se no meio da luta se houvera erguido um homem de tal preponderância de forças, que ele por si só trouxesse a efetiva realização do facto emancipador.

Mas, senhores, o imparcial exame dos factos da nossa independência, e a averiguação das circunstâncias do país claramente nos dizem, que nem houve iniciativa individual por tal fôrma pronunciada e propagada, que se lhe possa atribuir autor certo e conhecido, nem na ocasião da luta apareceu um homem, que por si tivesse forças, meios e recursos para fazer a independência do Brasil.

O Brasil, extenso e vasto, não possuía em seu seio um cidadão, que resumisse em si todos os seus elementos de força: o Brasil - não resumia-se em estreito âmbito, onde um homem pudesse assumir essa influência, de que gozou, por exemplo, um Rodrigues Francia, e um Solano Lopes no Paraguay.

Só em populações ignorantes e estreitadas, em regiões de pequena extensão pode um homem resumir um povo, pensar, e obrar por ele.

O Brasil, é certo, não possuía ilustração em 1822; todavia tinha algumas luzes espalhadas pelo clero de então, única classe dotada de letras, que penetrava e influía no país, e sobretudo era extensíssimo, e não comportava o domínio exclusivo de qualquer individualidade.

A dificuldade das relações das diversas capitanias entre si inibia a formação de interesses comuns, e a concentração de uma só direção nesses interesses; por isso a ninguém cabia influência geral: tudo localizava-se. porque tudo estava segregado.

Não havia, pois, uma vontade, que pudesse dominar o país.

Quando não há o domínio das pessoas, há o domínio das ideias, o único eficaz e poderoso para decidir das revoluções, ou reformas sociais.

Foi o que sucedeu no Brasil em 1822; a ideia de independência surgiu espontânea no animo de todos os Brasileiros; ela foi simultânea em diversos pontos do par/, de maneira que ao primeiro brado ela generalizou-se, não podendo quase dizer-se com certeza onde esse brado primeiro levantou-se.

Um varão distintíssimo, cuja perda o país e as letras deploram, e cuja benemerência todos nós reconhecemos, já por seu patriotismo, e já por suas luzes, o finado marquês de Sapucahy, falando do modo uníssono, porque o país erguera o grito emancipador dizia em 1833:

“Sabido é já, que ninguém pôde arrogar-se a glória, não digo só de ter feito, mas de ter apressado a declaração da emancipação política do Brasil: este ato operou-se tão aceleradamente, e por tal unanimidade de votos de todos os Brasileiros, que pôde dizer-se com verdade, que os factos encaminharão os homens, e não os homens os fatos. “O grito da independência repercutiu em todos os ângulos da terra de Santa-Cruz com geral espontaneidade, e pouca diferença de tempo, sem que precedesse sedução; porque os ânimos estavam preparados, e muito mais quando se viu que as cortes de Lisboa por seus atos hostis tendiam a recolonizar o Brasil”.

Eis o juízo de um homem competentíssimo por sua ilustração, e por sua assistência ao grande drama da independência nacional.

Com efeito, senhores, a ideia da emancipação política do Brasil achava-se desenvolvida e enraizada no país, desde que o Brasil passara de colônia à categoria de reino em 1815, e desde que em 1817 uma revolução patriótica tentara essa emancipação, levantando o estandarte da independência nas províncias de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará.

Desde que o rei D. João VI resolvera regressar à antiga metrópole, deixando as terras americanas, a independência foi uma opinião assentada no ânimo dos Brasileiros.

A voz popular, a nascente imprensa, e todos em geral sentiam a força da opinião.

Era ela tão manifesta, que o próprio rei não duvidava do seu próximo êxito.

Por isso ao embarcar para Portugal dirigiu a seu filho, o príncipe regente, as terminantes palavras que este consagrou em carta de 19 de junho de 1822, quando recordava a seu pai haver-lhe dito: “Pedro, se o Brasil se separar, antes seja para ti, que me has de respeitar do que para algum aventureiro”.

Nas palavras do velho rei é impossível não ver a profunda convicção, que ele tinha, de que, deixando o Brasil, deixava feita a independência da nossa pátria.

O rei tardio em suas concepções, mas atilado nas perspectivas do futuro; indiferente ao exercício do poder, mas cioso da sua posse, jamais suscitaria no ânimo do príncipe a ideia da desmembração do seu império, se porventura se lhe não afigurasse a realidade da separação, que já não podia impedir.

Mas ele a suscitou, e na sua despedida para a Europa, instruía o filho para fundar na América o império, de que ele, ora constrangido, ora voluntário, apartava-se com a dor, que aflige-nos nas grandes perdas.

Da vontade do país não era lícito duvidar: o rei e o Príncipe a conheciam, e se lhe não deram logo livre curso, é porque o rei não podia de boa mente resolver-se a perder a melhor porção dos seus domínios, e o príncipe não queria, sem mostrar-se impelido por causa forçosa, ser instrumento dos paternos prejuízos.

Um hesitava em abrir mão da herança avoenga, que reputava deposito inviolável; o outro escrupulizava antecipar-se na posse dela, para que o não arguissem de violador do respeito filial.

O pensamento do Príncipe retrata-se claramente nas expressões com que justificou-se perante o rei, quando decidiu-se a abraçar a causa do Brasil.

Ele dizia então: “Foi chegado o momento da quase separação, e estribado eu nus eloquentes e singelas palavras expressadas por Vossa Majestade, é que tenho marchado adiante do Brasil”.

Aqui o príncipe revela-se: ele reconhece a vontade nacional, e aproveita a autorização paterna para pôr sobre a sua cabeça uma coroa gloriosa, e fundar um povo.

Apenas a ideia do ingresso do rei a Portugal foi sancionada pela sua efetiva retirada do Brasil, o pensamento emancipador irrompeu por-todos os poros da nossa sociedade.

A musa popular apoderou-se do patriótico assumpto, e o vate nacional procurou vulgarizá-lo: assim a tradição e a história conservam a memória de uma pequena poesia, na qual transpira o sentimento vivaz tia nossa nacionalidade.

Assim ainda os homens políticos incubavam a ideia, quando ela no meio do povo manifestava-se vigorosa nos seguintes versos alusivos ao príncipe:

“lnda que não fosse herdeiro

Seja já Pedro Primeiro;

Seja nosso Imperador

Com governo liberal

De cortes tranco e leal.”

Aqui todos vemos a ideia independente surgir com tal energia, que fica de parte o princípio hereditário para atender-se unicamente ao princípio emancipador.

Se o vate popular assim exprimia-se, o publicista na imprensa não protestava com menor vigor em prol da independência nacional.

O Reverbero, gazeta que começou a publicar-se em setembro de 1821, e cuja epígrafe “Redire sit nefas” assaz inculcava o espírito com que sustentava a causa do Brasil, proclamava em altos brados: “O Brasil já entrou no período da sua virilidade; já não precisa de tutela; a emancipação das colônias segue uma marcha natural, e irresistível, que jamais forças humanas podem fazer retrogradar”.

Assim, senhores, tudo no país transpirava independência, sem que aliás houvesse um autor certo e conhecido que pudesse ser apontado como originário propagador do generoso pensamento, cujo êxito era a formação autonômica de um povo

O rei, o príncipe, a população, todos em summa sentiam a força e o desenvolvimento da ideia emancipadora; todos previam e esperavam os efeitos da explosão; mas ninguém via o promotor d'essa ideia, que parecia mais uma insurreição dos espíritos do que uma combinação de vontades.

Se não houve um iniciador da ideia da independência, e como iniciador d'ela ninguém pôde arrogar a si o título de patriarca da independência, vejamos como a ideia chegou à sua realização pratica.

Apenas chegado o rei a Portugal, as cortes gerais e extraordinárias da nação, estabelecidas em Lisboa, quiseram sopitar os justos desejos dos Brasileiros, que tentando ainda a união dos domínios europeus com os domínios americanos pelo vínculo comum da mesma coroa, pretendiam ser árbitros da sua própria fortuna.

A retirada do príncipe de entre os Brasileiros, e a supressão dos tribunais superiores, necessários à administração de um povo que tem vida própria, foram determinações que não deixaram ao Brasil dúvidas de que a união não podia operar-se sem o completo aniquilamento da sua categoria de nação, e sem a consequente perda dos foros já adquiridos.

O Brasil, pois, levantou-se, e dentro de poucos dias o grito de emancipação soava em todos os ângulos do país, partindo de todos os sentidos.

As forças portuguesas existentes no Brasil tentarão resistir na corte e ergueram-se ufanas na Bahia, no Piauhy, e em Montevidéu, então território brasileiro.

A tentativa da corte, ensaiada pelo general Jorge d'Avilez, passou rápida como sombra fugitiva; na Bahia o brigadeiro Madeira de Mello, e no Piauhy o coronel Cunha Fidiò por pouco mais de seis meses hostilizarão a causa brasílica, e só em Montevidéu por mais algum tempo prolongou-se a ocupação inimiga.

Assim o tentamen português desvaneceu-se, achando obstáculo em todo o país.

Este obstáculo levantava-se no próprio solo, onde a resistência à ideia da independência buscava aparecer.

O príncipe não tinha meios para levantar grande exército, nem fazer despesas custosas; mas por toda a parte o país oferecia-se voluntário.

Na Bahia os cidadãos armaram-se, e com a força ida da corte expeliram o seu opressor.

O Ceará formou um exército de mais de seis mil homens, perseguiu o resoluto opugnador da causa nacional no Piauhy, e levou-o a Caxias, onde o fez depor as armas.

Nem o norte nem o sul prestaram-se recíprocos socorros, e no meio da luta da independência nenhum individuo ergueu-se

para dominar, e dirigir a sorte da mesma luta. O triunfo da causa do Brasil foi devido ao acordo unanime dos Brasileiros e aos auxílios locais, sem ação alguma geral, partida de um centro ativo que tudo resumisse. O príncipe apenas constituía o alvo das esperanças, que desenvolvia as forças, e dava-lhes energia.

Sendo assim, conclui-se que ninguém dominou os acontecimentos, e ninguém, pôde atribuir a si, o êxito da luta.

A luta terminou rapidamente em favor do Brasil, porque todos os Brasileiros auxiliarão a causa emancipadora.

Portanto, se não houve uma individualidade, a quem circunstancias especiais dessem meios de resolver a luta por si, a consequência é que ninguém tem o direito de dizer que teve parte precípua, proeminente e decisiva na luta material, que deu-nos a independência pátria.

Se fica resolvido que não apareceu iniciador da ideia, e que não houve protagonista eminente que arengasse aos seus esforços o êxito da contenda, seguir-se-á porventura que não possamos dar a alguém o glorioso título de Patriarca da Independência?

Julgo que não apareceu um vulto, que resumisse toda a vitalidade do povo brasileiro n’esses dias de abnegação e de civismo, apareceram com certeza caracteres nobres e generosos, que nos serviços à causa da pátria, distinguiam-se pela relevância d’eles.

Nos fatos humanos a Providência assinala os instrumentos dos seus desígnios.

Na causa brasílica tivemos muitos homens beneméritos, muitos denodados campeões; mas a posição social, a confiança publica, e o amor dos seus concidadãos deram a alguns personagens posições salientes, que cumpre não desconhecer.

Entendo que entre todos os ilustres lidadores da causa do Brasil três vultos realçam-se acima dos demais, e que a estes cabe a denominação honrosa e patriótica de patriarca da independência.

Estes três vultos são: o príncipe D. Pedro de Alcantara, José Clemente Pereira e José Bonifácio de Andrada.

Cada um deles representou um papel proeminente no drama nacional, que iniciado em 9 de janeiro acabou em 7 setembro de 1822.

O príncipe D. Pedro de Alcântara, que dentro de poucos dias seria D. Pedro 1, governava o país por autoridade delegada por seu augusto pai.

Estando ele à frente do governo, dispondo da força pública, e dos cofres nacionais, é patente quanto importava o sou concurso cm prol da causa da independência.

Este concurso trazia à causa do Brasil três grandes vantagens: dava-lhe logo em começo um centro de poder, grande força moral, e recursos materiais indispensáveis.

A colocação do príncipe á frente da causa nacional era de suprema vantagem; era o mais poderoso elemento de triunfo que ela poderia então contar.

Se o príncipe contrariasse a independência pátria não só tais vantagens se não obteriam, mas também graves males seguir-se-iam. Os elementos que ele punha em auxílio d'essa causa seriam meios de impugná-la.

O príncipe não podia ser indiferente na luta: a sua resolução pró ou contra a causa do Brasil, assim como grandemente a auxiliava, assim também poderosamente a contrariaria.

Basta a mínima reflexão para alcançar esta verdade, e para d'este modo conhecer o serviço relevantíssimo que o príncipe prestou ã sua pátria adoptiva.

As suas circunstâncias especiais faziam que o seu auxílio fosse o mais eficaz e importante entre todos os auxílios prestados à causa da independência, e por isso e ele o mais proeminente dos protagonistas d’ela.

No Brasil ninguém tinha nem mais nem tanto poder como ele; portanto, ninguém prestou maior nem igual serviço do que ele prestou á causa emancipadora.

Ele, pois, em atenção á importância do auxílio, é também o primeiro que deve ser enumerado entre os propugnadores da independência.

Sem o seu concurso a independência do Brasil se não houvera feito nem tão cedo, nem tão isenta das calamidades da guerra fratricida.

Para avaliarmos do serviço prestado à causa nacional pelo príncipe basta recordar que se ele combatesse essa causa, todas as forças portuguesas existentes no Brasil teriam empunhado armas para contestá-la; e se a Bahia precisou de socorro estranho; e se o Piauhy necessitou de forças do Ceara, derramando-se sangue brasileiro, veja-se o que sucederia se em todas as capitanias as torças portuguesas nos contrariassem, insurgindo-se contra nós.

A luta armada seria geral; a força moral da direção de um governo regular daria impulso à resistência, e os Brasileiros seriam por certo reprimidos nos primeiros tentamens para só mais tarde reerguerem-se, e conquistarem a independência que aliás infalivelmente viria.

A aceitação da causa do Brasil por parte de José Clemente foi também de máximo proveito para essa mesma causa.

Homem ativo e enérgico, ele trabalhou com empenho pela ideia nacional, mas a proficuidade do seu concurso nasceu de outro motivo.

Grande parte da população do Brasil em 1822 era de nascimento português; e quando agitou-se a questão da independência da nossa pátria, essa população dividiu-se: parte queria a independência, porque já considerava o Brasil idôneo para tratar da sua própria ventura; parte a impugnava, porque na estreiteza das suas ideias reputava crime o querer o Brasil a própria liberdade.

Na parte da população portuguesa favorável á independência estavam os cargos públicos, a riqueza e a ilustração: José Clemente era alma e direção d'essa importante massa.

Aderindo ele a causa do Brasil não era um simples voto que pronunciava-se por essa causa; era um partido poderoso, que por ela vinha combater.

D'aí pois mostra-se quão valioso foi o concurso d'esse homem para a causa da independência.

Ele não trazia simplesmente um nome, nem uma individualidade: trazia após si um partido, e uma força considerável.

José Clemente era magistrado, e n'esta qualidade presidia a corporação municipal d'esta corte: gozava, portanto, além da consideração pessoal, da importância de um cargo público, assaz notável para dar-lhe valor, e conseguir-lhe estima.

Chegamos agora a José Bonifácio, o patriota ilustre, a quem o país tem tributado justas homenagens.

O grande mérito de José Bonifácio na obra da independência nacional consiste em haver, como ministro, sabido fixar e dirigir as ideias do príncipe, no momento em que devia este resolver a grande questão nacional.

Irresoluto entre o dever de manter a união dos reinos europeu e americano, como lhe recomendara seu pai, e entre o desejo de satisfazer o voto dos Brasileiros tão manifestamente pronunciado, o príncipe hesitava, quando o seu patriótico ministro o convenceu da necessidade de optar pela nova pátria, rompendo com os antigos laços da pátria transatlântica.

Então o príncipe e o ministro entrarão na via franca e decidida da independência nacional, e o brado do Ypiranga ecoou do leste a oeste e do sul ao norte, dissipando todas as dúvidas, e colocando o Brasil em frente ás imprudentes cortes portuguesas, que nos provocavam.

Não era mais possível tergiversar: a obra do patriotismo brasileiro estava anunciada, e ninguém podia mais duvidar da vontade do Brasil

Ele proclamava-se livre de qualquer vínculo com a antiga mãe-pátria, e ostentava a sua autonomia.

Com o grito do Ypiranga os Brasileiros entravam em novo caminho relativamente à sua existência política.

Até ali a obediência à mãe-pátria era um dever; de então, por diante o dever era resistir-lhe.

Portugal não unha forças para revogar a resolução tomada pelo Brasil.

Com população talvez igual à do Brasil, não possuía os nossos elementos de riqueza.

Portugal era um povo que decaía, o Brasil era unia nação que levantava-se.

Podia Portugal contrariar a causa do Brasil, demorar o seu êxito, e ensanguentar a nossa vitória, não poderia, porém, jamais anulá-la.

Na série dos acontecimentos notamos três factos principais que deram em resultado a independência brasílica.

Esses factos são: a ficada do príncipe no Brasil com formal desobediência ás ordens das cortes portuguesas; a convocação da constituinte brasileira; a proclamação da nossa autonomia em 7 de setembro de 1822.

Em todos estes factos tiveram parte os três personagens a quem atribuímos o título de patriarcas da independência.

Em todos eles o príncipe foi principal protagonista, porque sem a sua explicita vontade eles se não praticariam; bastava a sua recusa para serem impedidos: o mérito do príncipe na realização da nossa independência é, portanto, da mais patente e incontestável verdade.

Enquanto a José Clemente, ele concorreu para a ficada do príncipe, já com a sua influência de homem político, e já com a autoridade do cargo público, que exercitava n’esta grande cidade.

José Clemente, pode dizer-se, foi o motor principal classe facto; assim como participante do ato da convocação da constituinte, e do brado do Ypiranga, porque estes dois últimos factos não só foram corolários d'aquele primeiro ato, como também receberão o influxo dos constantes e repetidos esforços d'esse benemérito varão em pró da causa do Brasil, que esposara como pátria.

José Bonifácio cooperou para a ficada do príncipe por meio d'essa tão celebrada representação da junta governativa de S. Paulo, em que pedia-se ao príncipe que não abandonasse o Brasil.

Se José Bonifácio não teve a iniciativa d'esse ato, teve, todavia o merecimento de praticá-lo com suprema vantagem da causa nacional.

Quando em 1844 cursava os estudos na Faculdade de Direito de S. Paulo tive ocasião de ler a carta original do capitão-mor José Joaquim da Rocha, escrita desta corte, na qual dizia-se a José Bonifácio que os patriotas daqui, animados por ele, por José Clemente, por Joaquim Ledo e outros, haviam resolvido promover por todos os meios a conservação do príncipe no Brasil, e que um dos meios lembrados era conseguir representações em favor d'essa ideia; pelo que cumpria que ele em S. Paulo conseguisse que a junta governativa, de que era membro, se dirigisse ao príncipe, pedindo-lhe que não saísse do Brasil.

Foi então que o patriota paulista escreveu, e fez assinar esse documento, que, embora não falasse claramente da independência do Brasil, tão poderosa e imediata influência exerceu sobre ela.

Se n'essa representação não houve da parte de José Bonifácio o mérito da iniciativa, houve o mérito mais importante da influência d’ela em bem da causa comum.

Nos dois atos subsequentes, isto é, convocação da constituinte e proclamação formal da nossa separação de Portugal nas margens do Ypiranga, é intuitiva a parte que n'eles teve José Bonifácio, porque era o ministro conselheiro do príncipe, e o seu imediato cooperador na obra da libertação da pátria.' A nomeação de José Bonifácio como ministro em tão notável ocasião foi um lance de alta política.

Brasileiro nato, reconhecido no mundo como homem ilustrado, reverenciado no país como patriota, a sua exaltação ao ministério fortificou o espírito nacional, inspirou confiança no príncipe, e deu ao fundador do império um colaborador sincero, hábil e dedicado.

Quando o Brasil viu que um filho seu de reconhecido merecimento e saber era chamado aos conselhos do príncipe, ninguém mais duvidou de que este queria sinceramente a independência nacional; e então o amor ao príncipe, e a confiança n'ele depositada deram novas forças á causa da pátria.

Assim o distintíssimo paulista prestou poderoso concurso à obra da independência, aceitando o lugar de ministro para cooperar com o príncipe, cuja situação assim delineia-se ante o Brasil, que dentão por diante via no seu defensor perpetuo a sincera e eficaz vontade de realizar a grandiosa empresa da emancipação brasileira.

Era preciso que o príncipe desse penhores d'essa sua sinceridade, pois estava viva na memória dos Brasileiros os seus recentes protestos de fidelidade a seu pai, fidelidade que só podia manter-se com sacrifício da causa do Brasil.

O príncipe que havia declarado aos Brasileiros que não contassem com ele, se pretendessem fazer a independência, e que havia escrito a seu pai assegurando que essa independência tão somente se faria depois que os brasileiros pisassem por sobre o seu cadáver, tinha forçosa necessidade não só de dizer, como depois disse: “De Portugal nada, nada; não queremos nada”, mas também de tornar participante dos seus conselhos, e dos seus atos um brasileiro insuspeito, e merecedor da confiança nacional por título tão forte e legitimo como era o manifesto e conhecido amor do solo da pátria.

Foi o que o príncipe com prudência e sabedoria fez, chamando José Bonifácio ao lugar de seu primeiro-ministro.

Sei, senhores, que muitos varões beneméritos distinguiram-se na obra da nossa emancipação política.

Joaquim Ledo, Januário Barbosa, José Joaquim da Rocha, Luiz da Nobrega, Fr. Francisco de Sampaio, e outros consagraram os seus esforços em bem da causa do Brasil: foi um incessante labor, a que a posteridade deve gratidão; todavia não tiveram os serviços d'esses egrégios patriotas a mesma, decisiva influência que sobre o êxito da causa nacional tiveram os feitos dos protagonistas, que consideramos principais atores no drama glorioso que o país presenciou em 1822.

A Providência destina a certos homens a sorte que lhes quadra nos acontecimentos políticos do mundo.

Muitas vezes a condição social, e as circunstâncias do momento dão a um personagem influencia soberana nos acontecimentos, e o tornam indispensável ao êxito de uma causa.

Sobrou em todos os Brasileiros o sentimento do mais acrisolado patriotismo; mas nem a todos foi dado influir igualmente por seus atos sobre a causa pátria.

D'aqui vem que para a própria gloria, se necessitamos do talento, da capacidade, e das virtudes, dependemos constantemente do influxo soberano, arbitro da sorte das coisas humanas.

Só da condição intima dispõe o homem pela virtude própria; no mais ele está ligado a circunstâncias externas sobre que não domina.

Rendamos nossos preitos de reconhecimento e veneração a todos os patriotas que lidarão pela nobre causa da independência; não podemos, porém, sem injustiça, deixar de aquilatar em maior conta o valor das ações que o patriotismo ditou com maior proveito do bem comum.

Por isso em nossos preitos e homenagens é devido maior quinhão aqueles concidadãos cujas ações maior influência tiveram na suprema decisão da causa da pátria.

D. Pedro de Alcântara, José Clemente e José Bonifácio estão na primeira ordem do mérito; por isso a eles qualifico como patriarcas da independência do Brasil.

As suas ações políticas concorrerão para a solução da causa da pátria com maior eficácia do que as ações de outros muitos, cujos esforços e sacrifícios aliás não foram perdidos, nem são indiferentes à posteridade.

Não me é estranha a opinião que tende a singularizar essa qualificação, aplicando-a exclusivamente ao nome do ilustre paulista, cuja gloria não desconhecemos, nem queremos diminuir.

A história, porém, é inflexível, e deve a todos verdade e justiça.

Dizer que a outros cidadãos igualmente beneméritos da pátria cabe a qualificação honrosa conferida a um, não é diminuir-lhe a gloria, porém sim dar-lhe sócios na benemerência.

Quando coloquei o nome de José Bonifácio em terceiro lugar, não quiz embaçar-lhe o brilho; quis apenas observar a ordem cronológica e sucessiva das ideias e dos fatos.

O ilustre paulista achava-se em sua província sem haver ainda tomado papel ativo na questão emancipadora, quando José Clemente já ostensivamente lidava por ela; por isso apresentando o nome dos egrégios protagonistas da independência, enunciei primeiro o seu nome, pospondo o de José Bonifácio.

Não leveis a mal, senhores, que aqui vos represente o curso das ideias do patriota paulista em relação à independência nacional.

Em 1821 o pensamento tese ilustre brasileiro era a conservação da união dos dois reinos; e eu deduzo esse pensamento das instruções por ele escritas para os deputados do Brasil nas cortes portuguesas.

Ele entendia que a nossa união política com Portugal não podia ainda romper-se; por isso n'essas instruções particularmente dadas aos deputados paulistas, estabelecia o seguinte ponto para o qual deviam tender os esforços dos nossos representantes: “Que se determine constitucionalmente a categoria do reino do Brasil; o que lhe compete como reino a parte, e o que como reino unido”.

As memórias contemporâneas conservam de José Bonifácio expressões que, sem importarem a significação de instintos sanguinários, tão alheios às virtudes d'esse ilustre varão, significam todavia a prevenção com que ele então recebia com desgosto os atos de manifesta tendência à realização da independência nacional.

Julgava ele que a causa da independência perigaria ante o açodamento com que procediam muitos patriotas, que abertamente a promoviam por factos diretos v de hostilidade à ordem legalmente estabelecida no país.

D'aí nasceu, que em certa ocasião esquecido das considerações do cargo de ministro, que exercia, mas irritado por um zelo, que ele reputava serio perigo da pátria, chegara a dizer: “Hei de enforcar esses constitucionais na praça da Constituição”.

Já se vê que no princípio do movimento emancipador José Bonifácio não considerava chegada a ocasião de obrar, e realizar a independência definitiva do Brasil; ele previa, sim, que a ideia marchava, e que os acontecimentos precipitarão a época da emancipação, cumprindo por isso pensar no êxito dos acontecimentos,

Não contava ele então com o príncipe, e assim cogitava de uma constituição republicana para o Brasil.

Persuadia-se ele, por certo, que o príncipe seguiria após o rei para a Europa, e que só então a necessidade da independência irromperia, e buscaria realizar-se.

Dominado d'esse pensamento, José Bonifácio ensaiou formar um esboço de constituição, cujo projeto original de letra do próprio punho do autor li, consignando os seguintes artigos:

“1º Os poderes políticos􀀀do Estado estão divididos: 1°, pela assembleia geral dos deputados; 2º, pelo senado; 3°, pelo sindicado; 4°, pelo arconte, e quatro cônsules com os ministros de Estado. “2º O arcontado se comporá do Arconte-rei vitalício, e quatro cônsules por quatro anos, eleitos pelos colégios eleitorais”.

Estas ideias depositadas em projetos íntimos denunciam que o ânimo de José Bonifácio vagava incerto, e nada tinha definitivamente resolvido sobre a causa do seu país.

A ideia da imediata realização da independência do Brasil, José Bonifácio só aceitou depois da sua chegada à corte em janeiro de 1822, e posteriormente á sua nomeação de ministro.

D'aqui pois se conhece, que quando muitos outros Brasileiros tinham em seu ânimo a ideia assentada da emancipação pátria, e por ela já laboravam, o espírito de José Bonifácio ainda vacilava.

Tratando de vultos tão proeminentes da nossa história política, não é lícito preterir a consideração de paralelismo entre eles

José Bonifácio era brasileiro por nascimento, e José Clemente o era por adopção.

Em um pode dizer-se que o pensamento emancipador nascia do sentimento do amor do solo natal: em outro dir-se-á que esse pensamento brotava do egoísmo que lhe acendia no animo a perspectiva de brilhante carreira política com a exaltação do novo império.

Se o espírito investigador das causas deliberativas das nossas ações pôde no filho da América encontrar maior pureza de motivos, ninguém poderá desconhecer da parte do cidadão adoptivo antecipação na ideia libertadora.

Assim pois, se a José Bonifácio concedermos mais nobreza no sentimento, a José Clemente não negaremos maior mérito na prioridade da fé pela causa do Brasil.

Da circunstância do nascimento parece-me haver resultado a grande diferença com que os contemporâneos ajuizarão de José Bonifácio e de José Clemente.

O orgulho nacional quiz dar tudo a um, pondo em silencio os méritos do outro.

A luta da independência era contra Portugueses; natural era, pois, que o espírito de nacionalidade se indispusesse e exacerbasse contra tudo quanto recordava a origem e a causa dos males atuais dos Brasileiros que se debatiam pela pátria.

Esse espirito de nacionalidade prejudicou a fama de José Clemente, omitindo-lhe o valor político; aproveitou, porém, ao nome de José Bonifácio, exaltando lhe os louvores.

Eis porque a um os contemporâneos conferirão logo o título honorífico e glorioso de patriarca da independência, que ao outro só a justiça dos pósteros outorgará.

Se assinalamos a causa motriz dos dois caracteres, que ficam comparados, não calaremos o incentivo propulsor do príncipe.

Oriundo de plagas europeias, nem por isso o demoveram motivos estranhos à sua nova pátria,

Ele perdia unia coroa na Europa para erguer em terras da América um império, que bem podia malograr-se.

Não era, pois, a simples ambição de reinar quem o guiava; era sim o entusiasmo de uma alma ardente, que deleitava-se com a criação de uma nacionalidade, que, sob a base dos novos princípios das sociedades modernas, pudesse desenvolver-se, e constituir perpetuo monumento da sua memória, e da sua generosidade ante um povo que o aclamava por seu fundador.

Se justo é o sentimento que podemos atribuir ao patriota que no Brasil viu a luz do dia, não é licito reprovar o motivo que dirigiu os outros dois cooperadores da grande causa nacional; porque se n’aquele operou o ingênito amor da terra natal, n'estes a ambição nobre de bem servir a sua nova pátria não desmerece os aplausos e os encômios do filósofo e do historiador.

Em todos o mesmo impulso moveu, e agitou a deliberação do agente: esse impulso foi o de bem fazer à pátria a que servido.

Senhores, o Brasil já pagou o tributo devido ao príncipe e ao ministro, consagrando-lhes a memória em monumentos duradouros, que, atestando os seus importantíssimos serviços, manifestam a magnanimidade do povo brasileiro; mas para com o ativo e eficaz cooperador de ambos a nossa dívida ainda não está satisfeita.

D. Pedro 1 e José Bonifácio já tiveram estatuas; José Clemente, o cidadão prestante, e o filantropo emérito, não tardará por certo em ter semelhante galardão.

Assim, senhores, esses três egrégios patriotas viverão na memória da posteridade como já vivem na gratidão dos Brasileiros.

(Aplausos gerais do auditório.)”.

Localização

- Conferências Populares, Rio de Janeiro, nº3, mar.1876. pp 03-21 (na integra). Capturado em 10 jan. 2026. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/docreader/278556/246

Ficha técnica

- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.

- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.

Forma de citação

Conferência Popular da Glória nº 167. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 2 fev.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=749

 


Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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