Conferência Popular da Glória nº 174

De Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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Data: 30/04/1876

Orador: Nuno Ferreira de Andrade

Título: Dos banhos em geral

Aviso, íntegra ou resumo: Íntegra

Texto na íntegra

“Minhas senhoras, meus senhores. — Se não fora o empenho em satisfazer a um compromisso, eu não subiria hoje a esta tribuna, e principalmente para tratar de uma questão de higiene pública. Tenho presentes ao espírito as palavras de um escritor, que já não vive, e que afirmava possuírem as questões d'esta natureza a singular propriedade de conceder “fala ao silencio”.

O assumpto, portanto, desculpa a minha ousadia, embora não a justifique.

Todos foram surpreendidos, há pouco tempo, com a leitura de ama carta, vinda de tão alto, que pareceu caída do céu; os médicos, que se persuadiam que da solução dos grandes problemas relativos à gênese das epidemias muito havia ainda a esperar, ficarão deslumbrados com a nova luz que os vinha esclarecer; a generalidade dos leitores d'essa carta acreditou que as interrogações, acumuladas pelo tempo, se achavam profundamente respondidas, e que ás causas múltiplas da moléstia que atualmente oprime a população da nossa capital se substituía uma causa única, perfeitamente clara, razoabilíssima: a falta de banhos.

Compreendeis, pois, a plausibilidade do motivo que me sugeriu a ideia da presente conferência, em que me proponho mostrar-vos que os médicos têm tido razões de sobra para se persuadirem que não se pôde considerar como única e exclusiva a causa da epidemia reinante. E sem me aventurar agora na difícil pesquisa da etiologia da moléstia, pretendo apenas entreter vossa obsequiosa atenção cum algumas considerações sobre os banhos, sua vantagem e condições de estabelecimento dos banheiros públicos.

Senhores, para tratar-se d'esta questão e principalmente em sua generalidade, é mister fixar-se certas divisões preliminares e, como nos ensina a lógica, começar-se por definir o termo.

N'este particular todos são acordes. O banho é a imersão total ou parcial do corpo em um meio solido, líquido ou gasoso.

Ocupar-me-ei especialmente dos banhos líquidos, que são de uso geral, e que mais particularmente interessam aos higienistas de uma cidade como esta, onde as condições de salubridade devem ser estudadas, e onde se tem obrigação de

fornecer à classe mais desprevenida de meios de fortuna a maior soma de bem-estar que for possível.

A este respeito, senhores, as mais importantes questões que se têm agitado em matéria de higiene referem-se todas elas à ação dos líquidos sobre o organismo animal; e sob o aspecto da divisão preliminar que é mister estabelecer dos banhos líquidos, cumpre considerá-los, de um modo geral, como distribuídos em banhos de água simples ou doce, e de água do mar ou banhos salgados. Estes últimos farão, eu o espero, objeto de uma próxima conferência em que procurarei demonstrar as vantagens do seu uso.

Em todos os tempos, senhores, acreditou-se ser de grande vantagem ao organismo animal a sua imersão gerai ou parcial em um meio liquido; por quanto, ainda que as condições da existência peculiares aos animais, os obriguem a banhar-se continuamente em um meio gasoso, faltam contudo n'esse meio duas condições importantes e que trazem uma grande vantagem para a salubridade individual: pressão suficiente e sobretudo a estabilidade precisa da temperatura.

O meio atmosférico, que a todos envolve, não pode satisfazer, pois, ás multíplices necessidades orgânicas; forçoso é recorrer a outro elemento, a água, que nos oferece as propriedades que no meio gasoso faltam.

Nos banhos líquidos, porém, é imprescindível atender-se a certas condições que, ainda que pareçam desnecessárias à primeira vista, todavia representam um importantíssimo papel em relação aos efeitos que a imersão pode produzir

Considerando-se os banhos frios, por exemplo, tão generalizados entre nós, convém estabelecer diferenças reais e que distinguem os de água corrente, de água parada, de chuva, de ducha, etc.; é de incontestável utilidade examinar-se a temperatura mais ou menos baixa do líquido; necessário é considerar-se, enfim, grande número de condições que ao higienista compete determinar quando aconselha esta ou aquela espécie de banhos.

A incontestável vantagem das afusões frias a todos os momentos se patenteia, e se não fossem eloquentíssimos os numerosos exemplos que cada um de nós poderia citar, bastara uma consideração única para convencer que de seu uso inegáveis são os benefícios colhidos.

Com efeito, quando se trata de investigar a natureza da ação que esses banhos exercem, as atenções são imediatamente atraídas para o estudo das funções da pele.

Este tegumento é dotado de propriedades absorventes e exalantes.

Nos climas quentes sua integridade funcional é exigida para o exercício regular das operações vitais; e quando uma alteração qualquer impede o livre funcionalismo da pele, a saúde ressente-se, e um estado de moléstia se patenteia.

Provida de um riquíssimo aparelho de glândulas sudoríparas; dotada de admirável flexibilidade e nimiamente elástica; atravessada em todos os pontos por abundante vascularização sanguínea; sulcada por uma delicadíssima rede de filetes nervosos: precisa a pele de especiais cuidados para manter sempre intactas as forças de absorção e de exalação que ela possui.

Quando a temperatura interna é excessiva, a transpiração cutânea intervém como moderadora do calor orgânico; as glândulas sudoríparas trabalhão, excretam o suor que, em contacto com a superfície aquecida do corpo e em presença da temperatura ambiente se valoriza.

Como, para passar ao estado de vapor, a água absorve calor, o líquido sudoral representa o papel de refrigerante, impedindo assim a concentração de grande quantidade de calor no organismo.

Tal é o motivo, senhores, porque os indivíduos que dificilmente transpiram são muito mais sensíveis à elevação de temperatura do que aqueles nos quais a transpiração facilmente se estabelece.

Esta função exalante, é alimentada pelo soro do sangue que fornece os elementos do suor; e por isso quanto maior é a transpiração tanto mais exigente se torna a sensação da sede.

O renovamento do soro do sangue, porém, precisa tempo e trabalho; a quantidade, pois, de suor excretado está na razão direta do trabalho efetuado pelos órgãos encarregados da regeneração da parte liquida do sangue.

Todo o trabalho exige descanso; porque o trabalho fatiga.

Eis a razão do esgotamento de forças após uma transpiração abundante.

Vejamos agora, senhores, o que tem lugar em relação à absorção.

O fato capital da respiração, a troca de gazes, não se efetua somente no pulmão. O músculo, isolado no recipiente de uma máquina pneumática, desprende gás carbônico quando se contrai e absorve o oxigênio do ar. O número imenso de poros que possui a pele são outras tantas traqueias por onde o ar vital se insinua.

O suor tem sais e estes se depõem na superfície da pele.

E sabido que, depois de uma transpiração, todos encontramos a pele salgada.

Esses sais obstruem os poros; dificultam a absorção cutânea e provocam esse estado de obstrução, em virtude da lei de compensação, uma superatividade dos pulmões.

Notai, porém, que a elevação de temperatura determina a rarefacção do ar atmosférico e que, por conseguinte em um volume dado se encontra uma quantidade interior á normal de oxigênio respirável; os movimentos respiratórios se amiúdam, afim de suprir-se pelo número de inspirações a insuficiência de densidade do ar; agregai a esta importantíssima causa, de moléstias pulmonares, a fadiga provocada pela superatividade com que o pulmão é obrigado a funcionar em virtude da obstrução dos poros; juntai mais a tudo isso a fraqueza geral que as transpirações abundantes determinam. e tereis a explicação da frequência de moléstias do peito nos climas quentes.

Compreendeis, pois, que todas as vezes que a exalação preponderar sobre a absorção, a despesa tornar-se-á maior que a receita e o organismo se abaterá.

O que convirá fazer?

Desenvolver as funções absorventes e moderar a exalação da pele.

Como se poderá conseguir esse resultado?

Subtraindo o excesso de calor; isto é: empregando as afusões frias.

Em um clima como o nosso, em que na estação calmosa, o uso pernicioso das bebidas geladas faz esquecer - o mal que fazem pelo bem que sabem —; em que a ventarola é uma necessidade, o sono ao relento um refrigério, os condimentos excitantes uma precisão urgente: meio algum é mais salutar, de mais duradouros efeitos que o banho frio.

Para que, entretanto, seus resultados sejam realmente benéficos, é mister observar-se certas regras, cujo fundamento depende do exame das modificações por que passa o organismo sob a influência da água fria.

A primeira impressão que experimenta quem entra em um banho frio é desagradável e penosa; horripilação geral seguida de concentração de calor, respiração anelante, pequenez de pulso, peso do cérebro, obmibilação da vista, zumbido dos ouvidos etc, caracterizam a primeira fase, tempo ou período do banho frio. A esta situação sucede um estado diametralmente oposto, o de reação, em que os salutares efeitos da inversão se patenteiam.

É assim que a calorificação geral se restabelece; o banhista sente-se em uma atmosfera agradável, fresca ; o tórax parece dilatar-se e a respiração torna-se franca e enérgica, a circulação regulariza-se, o pulso bate com energia, os

movimentos são fáceis e rápidos; “poucas sensações são tão deliciosas como a que se experimenta n'esse momento”, dizia Rostan.

Para que esses efeitos se realizem é mister que a temperatura da água seja suficientemente baixa (cerca de 25° centigrados) e que a imersão seja pouco demorada.

A razão da primeira exigência é intuitiva: quanto maior for a ação tanto mais enérgica será a reação. Quanto a determinar-se, como condição necessária a utilidade do banho frio, que seja a imersão pouco demorada, é fácil de se lhe

explicar o motivo.

A água fria atua diminuindo a energia da exalação cutânea pela subtração de calor que realiza.

Se o contacto do corpo com a água for prolongado, essa subtração poderá ser demasiada e a reação será, por conseguinte, fraca.

A reação natural é a mais útil. Sucede ela, com toda a energia, á primeira imersão, e diminui consideravelmente à medida que as imersões se repetem.

A reação artificial provocada pelo exercício oferece incontestáveis vantagens, depois de obtida a reação natural, mas quando tem ela por fim substituir a reação espontânea não manifestada, sobre ser inútil, porque nunca é completa, pode ser prejudicial, visto o esforço necessário para promover seu aparecimento.

Tem-se afirmado que os banhos frios apresentam inconvenientes graves, como o de determinarem resfriamentos, congestões, etc. E verdade que isso sucede; mas somente quando não são observadas certas precauções.

Se, porventura, um indivíduo qualquer empregar esse tão pernicioso sistema de expor o corpo ao ar, para depois sujeitá-lo a ação da água, as congestões serão, de certo, para receiar; mas se o indivíduo, em pleno estado de suor, imergir-se na água, os temores de congestões tornar-se-ão absolutamente infundados. E, para que vos convençais de que o banho, nas condições que vos indico, é proveitoso e salutar, bastará que vos lembreis do modo pelo qual eram, usados os banhos em outros tempos, mesmo por aqueles povos que não tinham as menores noções de higiene.

Quando Fernando Cortez veio ao México encontrou aí estabelecimentos de banhos públicos perfeitamente organizados. Os indígenas mentiam-se em um forno ainda quente, e quando se achavam em estado de pleno suor precipitavam-se em um rio.

Eu peço licença para descrever os banhos tais quais eram entre os gregos e romanos e depois se tiver tempo tratarei d'eles na idade média.

Todos sabem que os banhos entre os gregos estavam estabelecidos nos ginásios. Erão estabelecimentos destinados aos exercícios físicos e intelectuais de modo que depois dos trabalhos ginásticos e outros exercícios musculares, eram empregadas as efusões frias, ás quais se seguiam as conferências e discussões, que se efetuavam em uma divisão especial do estabelecimento denominada —Palestina. —

Hipócrates traça as regras a observar-se no uso dos banhos e das unções que se lhes seguiam.

Os banhos públicos foram elevados a extraordinária altura entre os Romanos.

As suas termas eram colossais e riquíssimas; ofereciam todos os atrativos e seduções de que era ávido aquele grande povo.

Os documentos existentes parecem demonstrar que não erão os banheiros públicos conhecidos nos primeiros tempos da república.

Sob o regímen dos imperadores o esplendor das termas foi imenso. -O desejo de satisfazer e animar a vontade do povo, fazia com que cada imperador oferecesse aos romanos termas, que escurecesse inteiramente o brilho dos estabelecimentos balneários existentes. Eram esses estabelecimentos divididos em três partes, destinadas às discussões filosóficas e políticas, aos exercícios ginásticos e aos banhes propriamente; ocupavam áreas enormes, chegando mesmo, segundo Alberti, a terem cem mil pés quadrados de extensão.

A divisão consagrada aos banhos era composta de seis compartimentos; o apodyterium onde erão deixadas as vestimentas, que os capsarii limpavam e dobravam convenientemente; o laconicum ou sudatio, verdadeira estufa seca, disposta em anfiteatro, onde os banhistas se entregavam a uma sudação abundante, da qual saiam para se lançarem no balneum, em que erão administrados os banhos quentes. Tinha este compartimento o labrum, banheiro para muitas pessoas, o alveus ou piscina, onde os exercícios natatorios erão possíveis, e finalmente os solea ou banheiros para um só indivíduo.

Do balneum passa vão os banhistas ao frigidarium onde se encontrava o baptisterium, grande bacia de 200 pés de extensão sobre 100 de largura, como nas thermas de Deocleciano, e cheia d’agua fria.

A quinta divisão era denominada—tepidarium, em virtude de sua temperatura moderada. —Aí o banho se terminava, do mesmo modo por que começara, pela transpiração. Envolviam o banhista em panos de lã e provocavam assim a sudação. Este facto era considerado como necessário à utilidade do banho, e Galeno afirmava que “quando o banho era completo, suava-se depois do uso da água fria”.

Era depois da sudação final que se efetuavam certas práticas, como a da massagem, da pura atribuição dos aliptoe, a epilação ou arrancamento de pêlos por meio de pinças, operação exercida pelos alipili, etc.

A sexta1 divisão, finalmente, o unctuarium, era destinada às unções com óleos aromatizados, etc.

A vantagem d'esses banhos era oferecida por diminuto preço; de modo que o furor pelas termas chegou a prejudicar a ordem e a alentar a ociosidade. Indivíduos havia que passavam o dia n'esses estabelecimentos, que antes de Alexandre Severo conservavam-se abertos durante muitas horas. Adriano fixou a abertura para as 2 horas da tarde: sonat oes thermarum, dizia Marcial.

Quando os romanos saiam dos banhos, erão verdadeiras boticas de perfumarias, e isto que não era tão censurável nas mulheres, porque todos sabem o gosto pronunciado que as senhoras têm pelos perfumes, tornava-se muito censurável guando se tratava dos homens.

Uma das causas da decadência dos romanos, senhores, foi precisamente o excessivo cuidado que eles davam aos bens materiais representados no corpo; porque é facto averiguado, que todas as vezes que um povo qualquer vota um culto às suas perfeições físicas a hora da sua decadência não tarda à aproximar-se.

A todas as criações da fantasia excediam em luxo e opulência as termas dos romanos.

As termas foram a última e a mais elevada expressão do luxo imperial; as de Caracalla, superiores em magnificência ás de Tito e de Deodeciano, erão o arquivo e o museu de tudo o que de mais sumptuoso possuía a arte. Mil e seis centos bancos de mármore e de pórfiro mobiliavam as grandiosas salas calçadas dos riquíssimos mosaicos que ainda hoje são admirados por todos.

Seneca, em uma carta escrita a Lucilio, e em que narra as impressões que experimentou ao visitar o banheiro que Scipião o Africano possuía em sua casa de campo, deixa bem vêr qual o luxo a que haviam atingido as termas no tempo

de Nero.

Dizia ele: “Quem se contentaria hoje com a estreita, e sombria estufa em que se banhava o conquistador de Carthago? Todos se julgam desgraçados se as paredes dos banheiros públicos não são cobertas com os mármores do Egypto e da Numidia; se não há cristais, para preservar-nos das injurias do ar e dar-nos os raios de luz; se não são da melhor pedra tarsiana os nossos banheiros; se não são de prata as torneiras que nos dão a água. Não me refiro, acrescenta ele, senão aos banhos do povo.

“Como poderia eu descrever os dos libertos! Como dizer quantas as estatuas, quantas colunas preciosas, que só servem para encanto dos olhos!

“Não queremos andar senão em calçadas de pedras preciosas”.

Pode-se fazer uma ideia do luxo extraordinário a que chegaram as termas em Roma considerando-se que Noel de Vergers, que tanto estudou as antiguidades romanas, diz que os imperadores trabalhavam constantemente em embrutecer o espírito d'aquele povo, de modo que depois de entrarem nas termas sentissem-se desolados por nada mais poderem desejar.

Parece, com efeito, que depois de ter observado os esplendores de Nero, Tito, Deocleciano, Caracalla, etc, era impossível que a humanidade pudesse conceber alguma coisa de maior a menos que não fosse a queda d'aquele povo.

Nos últimos tempos do império observou-se uma certa moralidade nas termas. Os banheiros destinados aos homens estavam colocados longe dos que as mulheres ocupavam. e os banhos não mais auxiliavam a promiscuidade dos sexos: só tarde se conseguiu essa separação; porque de todas as leis enérgicas editadas para tal fim, aquela que produziu mais, efeito foi a de Adriano, que determinava que toda a mulher que entrasse em um banheiro de homens perderia o direito ao dote.

Foi esta a única lei que produziu algum efeito; mas esse, entretanto, não foi completo, porque quando os bárbaros invadirão Roma uma das cousas que mais os pasmou, foi verem a falta de pudor d'aquele povo que não hesitava em apresentar-se em toda a nudez aos estrangeiros.

O luxo das termas era tal que quando os romanos conquistavam qualquer província tinham especial cuidado em construir aí termas, quando não iguais ás suas, pelo menos que pudessem apresentar certa riqueza.

As termas de Carthago foram objeto de dissensões entre os romanos que acusavam os imperadores de animarem a pujança e o luxo d'esta província que, durante tantos anos, foi objeto dos mais estremecidos cuidados dos romanos.

A queda das termas em Roma determinou a decadência dos banhos nas províncias; entretanto era mister conservá-los embora reduzidos a medíocres proporções.

Na idade média vemos os banhos públicos usados na Itália rica de águas minerais naturais.

O hábito da balneação induziu mesmo o papa Adriano I a obrigar os padres a se banharem às quintas-feiras. Iam processionalmente e entoando psalmos.

Mais tarde fundaram-se pequenas estufas, onde se barbeavam, suavam e se sangravam.

Em Espanha os banhos públicos, introduzidos pelos romanos depois da segunda guerra punica tiveram grande aceitação pública. Os Árabes concorreram, para manter-lhes o uso. Mas o rei Affonso VI, de Castella, no século X, sob pretexto

de que o abuso dos banhos enfraquecia o vigor dos soldados, resolveu suprimi-los e mesmo mandou destruir os respectivos edifícios. Quiz empregar assim o sistema de cortar o mal pela raiz.

As consequências d'este ato são ainda hoje patentes. Um médico espanhol, Monlau, diz em um tratado de higiene, que se encontra velhos que nunca se banharão, e lugares onde a palavra banho é desconhecida, com grande prejuízo da salubridade pública.

Levarão os romanos para a França a instituição dos banhos públicos. Após as cruzadas ganharão os estabelecimentos balneatórios grande importância; compreende-se que a introdução em França do luxo que trouxeram os peregrinos do Oriente devia de estender-se também aos banhos públicos. O número das estufas, que tal era o nome aplicado aos estabelecimentos de que trato, multiplicou-se tanto, que no tempo de S. Luiz, os estufeiros foram organizados em corporação, com regulamentos e estatutos especiais.

N'essa época, porém, as estufas erão um complemento das oficinas dos barbeiros; e d'aí resultou, a fusão entre os barbeiros e os estufeiros. Essa fusão foi ainda mais firmada por Garíos V, e principalmente por Henrique III, pelas graças e benefícios concedidos ao barbeiro do rei. O ofício de barbeiro e estufeiro tornou-se hereditário; a corporação enriqueceu-se e tanto bastou para excitar a cobiça de Luiz XIV.

As extorsões foram enormes; os poucos que resistirão ao desmoronamento das indústrias elevarão seus estabelecimentos a grande altura e exigirão, portanto, maiores preços ao povo; era natural a decadência dos banhos públicos em Paris.

No tempo da revolução havia, apenas, oito estabelecimentos na capital, contendo 250 banheiros.

Na Alemanha os banhos quentes existiam antes da conquista romana, di-lo Tácito; os conquistadores, porém, introduzirão o uso das afusões frias em a nova província. Foram criados vários estabelecimentos de banhos frios, e quando Henrique II suprimi-os, o descontentamento foi tão pronunciado, que chegou a figurar, dizem os cronistas, como uma das causas alegadas para a excomunhão do imperador.

Os conventos abriram suas portas ao povo; foram estabelecidas várias salas destinadas a ministrar aos pobres as vantagens dos banhos. Mais tarde, foram os banhos públicos restaurados.

Em França, senhores, os barbeiros e proprietários de estabelecimentos de balneação eram membros de uma corporação importante, que gozava de certo conceito e estima publica; na Alemanha, porém, o contrário se dava. Nenhum industrial recebia em sua casa um aprendiz sem que este provasse, por meio de atestados, não descender nem ter na família barbeiro, estufeiro, pastor ou carniceiro. Erão, entretanto, os barbeiros os únicos médicos de então.

Tal era o descrédito da classe.

O imperador Wencesláo, salvo do cativeiro—pela filha de um proprietário de banheiros, concedeu-lhes privilégios, que só no século XVII foram firmados por Leopoldo I.

Vedes, senhores, que o estabelecimento dos banhos públicos tem sido objeto dos cuidados dos povos cultos. Em nossos dias acham-se eles difusos pelas principais cidades, e são vistos como necessidades higiênicas. Conviria cria-los entre nós; mas para que pudessem eles ser úteis, seria necessário

atender-se para duas condições: 1ª, aquisição de grande quantidade de água;2ª, cessão d'essa água ao povo por preço baixo.

A questão dos banhos públicos, não é objeto da preocupação exclusiva dos higienistas; os economistas também n'ela se interessam.

Enquanto, porém, não forem criados entre nós os estabelecimentos balneatorios, quem obstará, senhores, ao povo o gozo de todas as vantagens dos banhos frios de água salgada?

Poderá ser, pois, a falta de asseio das classes pobres, a principal causa de manifestação das epidemias?

Parece-nos que não,

Permita Deus que, em breve, possamos construir os nossos banheiros públicos; além da utilidade higiênica possuem eles outra vantagem — a moral.

Chegado a este ponto, permite que eu termine a presente conferência, citando-vos as palavras do Sr. Pinède: “Favorecendo-se a higiene pública e melhorando-se o mais possível o bem-estar dos indivíduos, diminui-se a massa de impostos

que oprime a indigência; e, como tudo se encadeia na ordem moral, inspirando-se hábitos de asseio ao operário, desenvolve-se n'ele o sentimento de respeito por si próprio, e o cumprimento d'este primeiro dever prepara-os para outros

e torna-os mais fáceis”.

Localização

- Conferências Populares, Rio de Janeiro, nº4, abr. 1876, pp. 105-118. (na integra).  Capturado em 12 nov. 2025. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/docreader/278556/466  

Ficha técnica

- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.

- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca. 

Forma de citação

Conferência Popular da Glória nº 174. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 2 fev.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=756

 


Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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