Conferência Popular da Glória nº 560
Data: 09/10/1887
Orador: Feliciano Pinheiro de Bittencourt
Título: Origem das espécies e América Pré-Histórica.
Aviso, íntegra ou resumo: Íntegra
Texto na íntegra
“Meus senhores,
A questão a origem das espécies animais e vegetais, isto é, do mundo orgânico e principalmente da espécie humana, é uma das que mais têm preocupado os espíritos superiores desde a mais remota antiguidade até os tempos modernos.
Com efeito, é natural que o homem procure saber qual a sua origem, quais os seus antepassados primitivos, qual a época em que apareceu sobre a terra, e qual o ponto ou pontos do globo em que teve lugar essa aparição.
Sendo, assim, senhores, compreende-se que muitos tenham sido as divergências, muitas as opiniões contrárias, donde vários sistemas ou doutrinas científicas e filosóficas, que todas procuram descobrir o x do dificílimo problema da origem primitiva da humanidade, e dos seres orgânicos em geral.
A primeira questão que apresenta-se ao espírito do investigador, questão capital a que se prendem todas as outras, é a seguinte: Descende a humanidade de um tronco único, ou pelo contrário de troncos diversos?
A espécie humana é uma só ou desde o princípio houve diferentes espécies de homens?
Qual parece mais racional, a monogenia ou a poligenia?
Segunda questão: quando, em que época, e em que parte do globo apareceu o primeiro homem, ou os primeiros homens? A cronologia poderá esclarecer-nos a respeito?
Previamente vos direi, senhores, que estes assuntos, que tanto têm atraído a atenção dos sábios, têm continuado até hoje obscuros e insolúveis, e isto porque, malgrado o orgulho de muitos, a inteligência humana é finita, limitada, contingente, encontrando a cada passo barreiras insuperáveis.
É um verdadeiro paradoxo o dito de Pouchet: “o gênio do homem é ilimitado, quem poderá dizer até onde ele chegará? Quem sabe, novo Prometeu, criador por sua vez, o homem não soprará um dia a vida à alguma espécie nova produzida em seus laboratórios?
Depois, senhores, o que mais tem embaraçado a solução relativa do alevantado problema, é o fato de quererem muitos explicar a origem da humanidade por meio da religião, fazendo apelo aos livros santos, quando a matéria é puramente científica, do domínio exclusivo da experiência e da observação, e não admite considerações de ordem metafísica ou subjetiva.
É por meio da zoologia, e da botânica fósseis, isto é, pelo estudo das espécies extintas animais ou vegetais; e por meio da antropologia e da paleontologia; com o auxílio da geologia, que nos ensina a conhecer a idade das camadas do solo; em uma palavra, por meio das ciências exatas, físicas e naturais, que chegaremos a resultados positivos e verdadeiros; e não apelando para as crenças religiosas, que não raro apaixonam e obcecam os espíritos empanando o brilho da verdade.
Mas vamos ao assunto. Descenderá a humanidade de um tronco único, ou de diferentes troncos primitivos? Houve no princípio um centro único de criação, ou de centros múltiplos?
Não querendo remontar a um passado mais longínquo, senhores, vos direi que os filósofos e sábios do século XVIII eram quase todos monogenistas; também o fora e ainda hoje o são alguns do século atual. Mas, por outro lado, pode-se afirmar que nos tempos que correm quando a ciência positiva tem caminhado tanto, tende a triunfar absolutamente a poligenia, avassalando todos os espíritos esclarecidos.
O homem que nos tempos atuais mais tem concorrido para que a monogenia ainda pretenda disputar os foros da cidade é o Sr. Quatrefages, membro do Instituto de França, professor do museu de Paris, muito conhecido dos sábios brasileiros, e amigo particular do nosso Imperador.
Mas, senhores, parece incrível que um veterano da estatura científica do Sr. Quatrefages ligue tamanha importância a uma simples questão de palavras, no intuito de resolver um assunto tão grave e complicado, qual é o da gênese primitiva dos seres organizados e mormente do homem!
O ilustre sábio que faz uma longa dissertação, enche páginas, escreve capítulos e capítulos, querendo demonstrar que há grande diferença entre as duas expressões espécie e raça!
Ele diz que a espécie é o tronco, as raças os ramos, raminhos e ramículos de uma grande árvore; que a espécie é a unidade, as raças as frações. E de dedução em dedução conclui afinal que a espécie humana é uma só e única, provém de um tronco primitivo único, havendo, entretanto, diversas raças conforme os climas, as latitudes e longitudes, isto é, segundo as condições do meio censura fortemente a Darwin e seus discípulos por empregarem indistintamente a palavra espécie, raça ou variedade, procurando tirar disso grande partido para a sustentação de suas ideias, que esforça-se por impor autoritariamente aqueles a quem quer doutrinar. O tom por demais autoritário com que escreve; os planos pré-concebidos em que a cada passo baseia a argumentação, condenando in limine as opiniões que lhe são contrárias, resolvendo superficialmente certas objeções, e deixando outras inteiramente de pé; algumas vezes verdadeiro naturalista, outras excessivamente metafísico e abstrato, tudo isso, a nosso ver, concorre para que os trabalhos de Quatrefages, analisados fria e calmamente percam muito do seu valor.
Seria estultice pretender alguém negar a soma enorme de conhecimentos científicos que possui esse sábio geralmente respeitado; mas quer nos parecer que por isso mesmo é ele tão sistemático, a ponto de sustentar teorias atrasadas, verdadeiramente retrógradas. O século atual, na sua última fase, já não admite sistematizações; é um erro querer sustentá-la, e muito maior ainda pretende impô-las.
Mas deixemos a digressão, e voltemos ao ponto que discutíamos.
Admitida a unidade da espécie humana, dando este ponto como incontroverso. Quatrefages passa a ocupar-se da questão de saber-se qual a região do globo onde apareceu o homem primitivo, e parece concluir, após detidas considerações, que foi na Ásia, no maciço central da cadeia de Bolor-Himalaia, o lugar onde habitaram os primeiros seres humanos, que daí foram espalhando-se pela superfície de toda a terra, mediante migrações continuadas e lentas. É o que pensa o distinto sábio sobre a origem geográfica do homem.
Confesso-vos, senhores, com toda a lealdade e franqueza, que essas doutrinas me repugnam, apesar de oriundas de um sábio de tal quilate! Com efeito, a paleontologia – ciência nova, por assim dizer – de ontem, opõe-se formalmente a essas conclusões.
A descoberta e o estudo minucioso dos fósseis humanos veio dar profundo golpe na monogenia, no centro único da criação, porque esse estudo tem demonstrado à evidência que o homem apareceu na mesma época em toda a superfície da terra, uma vez que nela houve condições de vida, a par com os outros animais e vegetais. E apareceu porque ossadas fósseis têm sido encontradas em muitas escavações, em muitas grutas, nos três continentes antigo, novo e novíssimo, apresentando esses despojos os mesmos caracteres físicos essenciais, a mesma configuração, dimensões semelhantes, sendo os crânios delichocephalos, e mais ou menos igual a medida do ângulo facial. Além disso, os rudes instrumentos e utensílios de sílex, encontrados de envolta com as ossadas, ainda servem para demonstrar pela sua identidade o fato de que nos ocupamos.
Perguntaremos agora: - Não aparece mais racional e lógica a teoria dos centros múltiplos de criação, abraçada e brilhantemente sustentada pelo eminente sábio Agassis?
Não aparece mais racional que a humanidade tivesse sido criada por tribos ou nações, podendo ser mesmo que cada uma falasse seu idioma particular, sendo assim perfeitamente idêntica a origem das espécies e das línguas?
Não parece preferível admitir múltiplas origens geográficas para o homem, uma vez de uma única? E por que colocar no centro da Ásia a região privilegiada para o aparecimento do primeiro tronco humano? Não descobrindo nenhuma razão sólida que isso autoriza.
Pelo contrário, as descobertas relativas ao homem pré-histórico têm sido feitas em outras regiões, em outros países. Vejamos alguma coisa a este respeito.
Tomemos a França para exemplo. Numerosas ossadas humanas fósseis têm sido encontradas n’esse país, juntamente com instrumentos de sílex e restos de animais do período quaternário, como o urso das cavernas, o mamute, o rinoceronte, a hiena fóssil, etc. Apontaremos as grutas do Cro-Magnon, d’Aurignac, Abbeville, Moustier, Ezier, Magdalena, e outras onde esses restos têm sido achados. Na Alemanha descobertas análogas se tem operado, bem como na Itália, e em outros territórios da Europa.
No continente australiano, e nas duas Américas, o mesmo fato têm-se verificado em larga escala.
Deixando por hoje as descobertas relativas às outras nações, só me ocuparei dos estudos do sábio dinamarquês Lund, que viveu por largos anos no Brasil, habitando a província de Minas Gerais, cuja fauna estudou com todo o cuidado e minuciosidade. Nada menos de mil cavernas foram por ele examinadas, encontrando em quase todas muitos esqueletos de animais, e somente em seis d’elas ossadas humanas.
Quem quiser conhecer bem a importância dos achados de Lund, não poderá deixar de recorrer aos estudos feitos a tal respeito pelos nossos ilustres compatriotas, meus distintos colegas, Drs. Lacerda e Rodrigues Peixoto, que escreveram erudita memória sobre os crânios da Lagoa-Santa.
Essa memória, publicada em 1876, encontrando-se em um dos volumes dos “Archivos do Museu Nacional”.
Também deve ser consultada a importante obra do Sr. Quatrefages – Espécie humana, e o interessante livro de Nadaillac – América pré-histórica.
Pelo estudo acurado dos fósseis humanos do território mineiro, Lund não duvidou afirmar a existência do homem d’esta parte da América no período quaternário, tendo sido contemporâneo de animais de raças de hoje extintas, como: o mastodonte, o megaterium, dinoterium, glyptodon, etc.
Os caracteres dos esqueletos americanos fósseis são mais ou menos idênticos aos dos europeus, de sorte que Quatrefages não hesita em estabelecer relações intimas entre os habitantes primitivos do antigo e do novo continente. Citarei apenas como traços gerais de semelhança a dolichocephalia, e o gasto dos incisivos superiores e inferiores, indicando um modo comum de alimentação. A este último característico liga grande importância o referido sábio para a aproximação de origem entre a raça dos indicados continentes.
Em outra preleção ocupar-me-ei mais detidamente do homem fóssil da Lagoa Santa e dos trabalhos de Lund, uma vez que a hora já vai adiantada. Acrescentarei apenas que os estudos d’esse incansável investigador, cuja morte a ciência tanto deplora, derramaram intensa luz sobre a pré-história da América.
Vieram demonstrar, por exemplo, que o indígena do Brasil é coeso do homem quaternário do antigo continente; vieram invalidar a opinião dos que sustentavam que os americanos primitivos não eram autóctones e sim originários da Ásia, d’onde, mediante migrações sucessivas, passaram a estas plagas.
Só me resta por hoje agradecer a vossa gentileza comparecendo a este recinto, e a benevolência e atenção que me dispensastes. Isto obriga-me a redobrar de esforços para corresponder à vossa expectativa nas próximas conferências.
(O orador foi aplaudido e cumprimentado por todos os ouvintes).”.
Localização
- BITTENCOURT, Feliciano Pinheiro de. “Origem das espécies e América Pré-Histórica”. In: Conferências efetuadas na Escola Pública da Glória pelo Dr. Feliciano Pinheiro de Bittencourt. Rio de Janeiro: Papelaria Gonçalves Mendes & C, 1889, pp. 03-08. (BN)
Ficha técnica
- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.
- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.
Forma de citação
Conferência Popular da Glória nº 560. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 29 jun.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=1141
Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz – (http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br)