Conferência Popular da Glória nº 399.1
Data: 13/11/1881
Orador: Feliciano Pinheiro de Bittencourt
Título: Uso e abuso do tabaco.
Aviso, íntegra ou resumo: Íntegra
Texto na íntegra
“Do uso e do abuso do tabaco: Grande poder tóxico da nicotina: experiências e fatos que o provam.
Conferência feita a 15 de novembro de 1881, na augusta presença de S. M o Imperador.
Senhor, minhas senhoras, meus senhores:
Ausente desta corte há mais de um ano, e só vindo aqui de passagem, não tenho podido frequentar esta tribuna com a assiduidade d’outr’ora; mas de lá mesmo, do ponto central da província do Rio de Janeiro, para onde fui por motivo de moléstia, e onde atualmente exerço minha profissão, o 5º distrito eleitoral, tenho sempre acompanhado com o mais vivo interesse a marcha que tem levado a instituição das Conferências Populares, à qual consagro a mais sincera simpatia, manifestada desde os bancos da Academia, pois que eu cursava ainda o 4º ano médico quando pela primeira vez subi à esta tribuna; isto foi em 1876.
De então para cá procurei sempre corresponder à benevolência do infatigável iniciador das conferências, sendo dos últimos em ilustração e talento, mas dos primeiros em boa vontade e prontidão, sempre que me era dado galgar os degraus deste pedestal, onde se tem exibido tantos oradores amestrados e notáveis cultores das letras.
Vários foram os assuntos de que ocupei em tão largo período, mas não vem agora ao caso fazer d’eles uma resenha completa. Apenas vos direi que fiz a minha estreia nesta tribuna, tratando do espiritualismo, e do materialismo, mostrando a supremacia do primeiro sobre o segundo deplorável sistema, verdadeira aberração da inteligência humana. Depois ocupei-me com o positivismo, ou materialismo disfarçado, combatendo-o, com todas as forças, e mostrando que o erro principal dos adeptos dessa doutrina consiste em quererem fazer de um simples método um sistema completo. Não há dúvida que o método experimental é um grande recurso para o homem que estuda, que sem ele não poderá dar um passo no terreno das ciências exatas; mas o vicio deplorável, o erro palmar está em querer generalizá-lo a toda e qualquer ordem de conhecimentos humanos.
Em seguida tratei de darwinismo ou doutrina evolutiva, procurando mostrar que, no estado atual da ciência, é ainda coisa irrisória afirma-se que o homem descende do macaco, ou que não é mais do que um macaco aperfeiçoado.
Discutidos estes assuntos, senhores, entrei propriamente no terreno da ciência médica e aqui fiz um curso de higiene elementar, tratando entre outras questões das seguintes: dos climas, das habitações, dos esgotos, da ventilação, das águas potáveis, da alimentação, das bebidas e dos exercícios.
Ocupei-me ainda com questões da fisiologia e de patologia interna, fazendo várias preleções sobre a tuberculose pulmonar, essa terrível moléstia, tão frequente entre nós, bem como sobre as afecções do coração, igualmente de notável frequência em nosso país.
Mostrei quais as vantagens da hidroterapia para o tratamento da tuberculose pulmonar, sobretudo se a moléstia é de marcha lenta, recomendando os notáveis estabelecimentos que felizmente já possuímos, e onde esse método de tratamento é perfeitamente executado.
Tratei largamente dos climas, e da sua influência sobre a tuberculose, apoiando-se principalmente nos estudos e observações do eminente clínico, o professor Peter.
E, finalmente, começara a tratar da magna questão do uso e abuso do tabaco, quando fui colhido por grave moléstia, sendo forçado a ir convalescer fora desta corte, no lugar onde hoje exerço a clínica.
Tinha feito apenas duas preleções; na primeira fizera o histórico da nicotiana tabacum, mostrando que é planta originária da América; e na segunda tratara especialmente da nicotina, e dos demais princípios tóxicos que se encontram nas folhas de fumo. Os resumos dessas conferências foram publicados com algum desenvolvimento nos jornais diários desta corte.
Na prelação de hoje, senhores, pretendo demonstrar-vos que a nicotina exerce perniciosa influência sobre os aparelhos digestivos, respiratório, e circulatório, bem como sobre o sistema nervoso central, e os órgãos especiais dos sentidos.
E como sou ainda muito moço, e confio pouco na observação e experiencias próprias, hei de socorrer-me do testemunho de autores dos mais notáveis e insuspeitos, de quantos se tem ocupado com o importante assunto, que me proponho desenvolver.
Antes de entrar, senhores, na demonstração da minha tese seja-me lícito declarar-vos que acho-me munido de tudo quanto de mais moderno e importante se tem escrito a respeito do uso e abuso do fumo; possuo grande cópia de memórias, monografias, livros e jornais, onde a questão é perfeitamente encarada sob os seus múltiplos pontos de vista. A maior parte desse material pertence à Biblioteca Imperial, e me foi benevolamente confiado por S. M. o Imperador, a fim de que eu pudesse melhor aprofundar o assunto, obsequio especial que eu não sei como agradecer, e ao qual procurarei corresponder, expondo em linguagem clara e positiva quais os graves inconvenientes, que resultam na intoxicação pelo tabaco, ou nicotismo agudo ou crônico.
Em um dos últimos números do Jornal da Associação francesa contra o abuso do tabaco, excelente publicação que aparece regularmente duas vezes por mês na cidade de Paris, onde a Associação tem a sua sede, vem publicando um trabalho monumental, que eu não hesitei em traduzir e peço licença para ler-vos, certo de que não fatigarei a vossa atenção, pois que são curiosos os fatos e observações aí referidos.
Esse trabalho, senhores, é o Relatório apresentado à Faculdade de Medicina de Paris por uma comissão composta dos seguintes membros da mesma Faculdade: Lagneau, como redator; Vulpian, Peter Villemin e Leon Collin, os quais foram encarregados de dar parecer a respeito de um requerimento feito pela referida Associação, a fim de obter o seu reconhecimento legal e ser declarada de utilidade pública. O requerimento, feito ao ministro do interior, foi à Faculdade para que, à vista da autorizada opinião dessa ilustre corporação, o governo pudesse decidir. D’aí a nomeação da comissão, e o Relatório, firmado por homens que gozam da mais alta reputação em todo o mundo científico. Depois o unanimemente aprovado pela Academia, aumentam-lhe grandemente o valor.
Mas, vejamos como se exprime o relator da comissão: “O tabaco, diz ele, conforme a sua origem ou procedência contém quantidade variável de nicotina, princípio que, desde a sua descoberta por Vauquelin, tornou-se objeto de estudo de muitos químicos, como Posselt, Reimann, Boutron-Chalard, Henry, Barral e Schloesing”. As experiencias toxicológicas de Stas, Orfila, Cl. Bernard, Blatin, Jullien e Vulpian, mostraram positivamente que a nicotina é um veneno extremamente enérgico. “Este alcaloide, diz Cl. Bernard, é um dos venenos mais violentos que se conhece; algumas gotas que caiam sobre a córnea de um animal o matam instantaneamente”. A nicotina pela aparência sintomática dos seus efeitos, e por sua energia de ação, aproxima-se muito do acido prússico. O envenenamento de Gustava Fougnies, em casa do conde de Bocarmé, e o suicídio de um oficial observado por Fonssagrives, testemunham o grande poder tóxico desse alcaloide.
Felizmente para as pessoas que fazem o uso do fumo a fermentação lhe faz perder uma notável quantidade de nicotina: todavia a fumaça do tabaco segundo Melsens e Heubel, contém ainda grande porção de alcaloide. Segundo o ilustre fisiologista Gustave Le Bon “a proporção susceptível de ser absorvida pelos fumantes não desce nunca abaixo de 50 centígramos para cada 100 gramas de tabaco queimado. A quantidade de amoníaco absorvida é quase a mesma”. Se é verdade que os Srs Krausse, Le Bon, Richardson notaram na fumaça do tabaco proporções consideráveis de oxido de carbono e de acido carbônico; se nas experiencias de Imbert-Goubeyre, Gréhant, e Lucien Périgord os animais impregnados de fumaça de tabaco morreram rapidamente, apresentando os sintomas morreram rapidamente, apresentando os sintomas de envenenamento pelo óxido de carbono, a ação tóxica da fumaça do tabaco sobre o homem não pode ser atribuída a esse óxido, porque nenhum homem permanecerá voluntariamente e por um tempo indeterminado em uma atmosfera fortemente enfumaçada.
Todavia pode-se perfeitamente aproximar a esses resultados experimentais certos acidentes mórbidos, certos casos de morte mesmo, observados em pessoas que se achavam em uma atmosfera sobrecarregada de fumaça de tabaco, como a jovem que o Dr. Liebaut viu cair em um estado de síncope e depois de coma profundo; como um moço de 17 anos, que tendo adormecido em um pequeno quarto ocupado por três temíveis fumantes, sucumbiu em algumas horas à uma congestão cerebral, fato este análogo a um referido por Desloges de um rapaz de 15 anos que também sucumbiu em um pequeno aposento cheio de fumaça de tabaco.
O tabaco empregado por um modo imprudente como medicamento tem sido também a causa de lamentáveis desastres. Murroy refere à observação de três meninos vítimas de tonteira, de vômitos, vertigens, suores e convulsões por haverem friccionado a frente com uma forte solução de tabaco. Mélier refere que as loções de fumo empregadas outr’ora contra a sarna no Hospital de S. Luiz determinavam por vezes vertigens, cefalalgia e cólicas.
Numerosos observadores, entre outros, Olivier d’Angers, West, Chevalier, Tardieu, Giraud, Bertherand e Decroix, referem exemplos de intoxicações graves, algumas vezes mortais, em consequência de lavagens com água, contendo algumas gramas de folhas de fumo.
Sabendo-se que o poeta Santeuil morreu no meio de atrozes sofrimentos por ter bebido vinho de um copo no qual haviam lançado tabaco de Espanha; sabendo-se que Morgan observou um caso de morte em um menino, que ingeriu água que estivera em maceração com tabaco, ficando o pai e a irmã do desgraçado, que também beberam da mesma agua, em estado de prostração extrema, não é admirar que cólicas violentas e graves acidentes sobrevenham por vezes nos indivíduos que tem o detestável vicio de mascar o fumo e que as vezes ingerem sem o querer, uma certa porção d’ele, que lhes pode ser fatal.
Sem nos demorarmos na exposição de certos acidentes devidos ao abuso do tabaco quer para o lado das fossas nasais, que mais ou menos se inflamam; quer para o lado do faringe e do orifício das trompas de Eustáquio, d’onde alteração de audição; sem levarmos em linha de conta certos eritemas da mucosa palatina de faringiana; sem falarmos das estomatites, aftas, ulcerações ligeiras, placas brancas epiteliais da língua, e calosidades; sem falarmos de certas anginas granulosas, e certas alterações da voz observadas por Michel Levy em alguns fumantes; deixando tudo isso de parte, é preciso insistir sobre uma lesão muito mais grave de que todas essas – o epitelioma ou cancróide do lábio inferior, observado muitas vezes nos fumantes pela maior parte dos cirurgiões. Na etiologia desta grave degenerescência cancerosa o tabaco não atua por si mesmo como agente tóxico; o cachimbo, sobretudo quando é curto, causando uma irritação constante no lábio inferior, quer diretamente pelo calor do tubo, quer indiretamente estragando os dentes, cujas irregularidades ferem a mucosa labial, determina frequentemente o desenvolvimento do cancroide do lábio.
Por duas vias de absorção principais os princípios tóxicos do tabaco penetram no organismo humano: pelos órgãos digestivos e respiratórios. Os órgãos digestivos os absorvem de mistura com a saliva; os respiratórios pela fumaça que vem de mistura com o ar inspirado.
Aparelho digestivo: O fumo parece à primeira vista apenas um excitante das vias digestivas, mas assim não é sempre, tudo depende da quantidade. Em fraca dose, e para aquelas pessoas de longa data habituadas ao uso do tabaco, a fumaça estimula por vezes a digestão. Cl. Bernard explica esta ação salutar pela estreita simpatia existente entre as diversas secreções do tubo digestivo. A excitação da secreção salivar, com efeito, determina uma atividade maior da secreção gástrica.
Mas vê-se muitas vezes meninos, que querem imitar os seus maiores, ao fumarem os primeiros cigarros, apresentando náuseas, vômitos, cefalalgia, vertigens, etc.
Semelhantes acidentes, e bem assim a inapetência, e os desarranjos intestinais, se observam também nos operários que começam a trabalhar nas fábricas de tabaco. “O fumo, diz o professor Peter, atua sobre o estomago, provocando sucessivamente a anorexia, e a dispepsia flatulenta por paresia da sensibilidade da membrana mucosa e da motilidade da tônica muscular”.
“O uso do tabaco, diz Potain, é muitas vezes a causa da dispepsia e da anemia”.
Os Drs. Druhen, Vulpian, Josephson, Monneret, e outros referem casos de gastralgias, e de dispepsias devidas incontestavelmente ao abuso do fumo, tanto que alguns dos doentes observados por esses clínicos restabeleceram-se completamente, logo que abandonaram o vício. Seria inútil citar mais opiniões para demonstrar a ação nociva dos princípios tóxicos do tabaco sobre as vias digestivas, e isto porque o fato é incontestável, uma vez que a observação diária o está sempre confirmando.
Aparelho respiratório: Sobre as vias respiratórias o tabaco atua não menos poderosamente que sobre as digestivas. O tabaco, diz Peter, é um verdadeiro veneno para os nervos pneumogástricos; atua ao mesmo tempo sobre os pulmões, o coração e o estomago. Atuando sobre os pulmões, e por conseguinte sobre a laringe e ramusculos brônquicos, produz, desde a simples tosse até a asma tabágica, e exercendo a sua influência sobre o coração determina as intermitências do pulso, e as palpitações. Posto que o tabaco determine muitas vezes a tosse, algumas vezes a asma, ou antes como observa, o Dr. Jacquemart “uma dispneia muito penosa e ás vezes mesmo agonizante, ainda que passageira, e geralmente sem gravidade”, manifestando-se de ordinário nas tardes dos dias em que se tem fumado em excesso, a ação do tabaco, quer os seus princípios tóxicos tenham sido absorvidos pelas vias digestivas, quer pelas respiratórias, exerce-se sobretudo para o lado do - aparelho circulatório, e sobre o sistema nervoso.
Em 1862, Beau comunicava à Academia das ciências o resultado de suas pesquisas sobre a fumaça do tabaco, considerando-a como uma das mais poderosas causas da angina pectoris. O ilustre clínico baseou o seu estudo em oito observações, das quais três relativas a médicos, mais do que quaisquer outros próprios para observarem em si mesmos a moléstia.
Esses oito doentes, além das perturbações digestivas, apresentavam intermitência do pulso, palpitações, constrição toráxica, angústia, sufocação, e dor cardíaca, irradiando-se para as espaduas. Em alguns deles esses acidentes desapareceram completamente pelo abandono do fumo.
O importante trabalho de Beau serve para mostrar quanto podem ser profundas as perturbações circulatórias determinadas pela fumaça do tabaco, perturbações aliás perfeitamente explicáveis, se atendermos às experiencias fisiológicas, que sobre a nicotina fizeram os Srs. Cl. Bernard, Blatin, Jullien e Vulpian.
Felizmente, porém, na maioria dos casos os fumantes apresentam apenas ligeiras perturbações circulatórias, simples anomalias, modificações insignificantes do pulso. É assim que nota-se geralmente grande lentidão no batimento arterial não só nos fumantes, como nos operários das fábricas de fumo. Em 38 operários fumantes o Dr. Decaisne notou 21 que apresentavam intermitência do pulso, independentemente de qualquer lesão cardíaca, orica ou valvular. D’entre 43 mulheres fumantes, ele observou que oito apresentavam intermitências, e outras perturbações circulatórias, sem haver lesão do órgão central da circulação.
Nem sempre, porém, a ação do tabaco sobre o aparelho circulatório se limita a produzir essa lentidão, essas irregularidades do pulso, apenas percebidas pelos médicos; pode também determinar desordens mais sérias, que não escapam aos próprios fumantes, sem que, no entanto, eles atinem com a causa. “Todos os grandes fumantes que interroguei em meu regimento, diz o Dr. Bodros, cirurgião do exército francês, me confessaram experimentar em maior ou menor grau, movimentos desordenados, e interrupções assistólicas do coração. Mas o que é verdade é que nenhum queria atribuir o fato ao tabaco”. Julgamos suficiente o que fica dito para provar-se a perniciosa influência do fumo sobre a circulação geral do nosso organismo.
Sistema nervoso: A intoxicação pelo tabaco, ou nicotismo faz sentir os seus maléficos efeitos sobre todo o sistema nervoso, produzindo entre outras desordens – o tremor. O tabaco determina às vezes em certos fumantes em espécie de embriaguez, acompanhada de peso na cabeça, e incerteza no passo. Muitas vezes, após o excesso de fumar, manifestam-se vertigens, acompanhadas de náuseas, e vômitos. Mas o abuso do fumo traz ainda consequências mais sérias, como por exemplo o delirium tremens, que às vezes não reconhece outra causa; pode determinar também a perda do conhecimento, convulsões, e acidentes epileptiformes, sintomas estes que em um doente do Dr. Bigelow desapareceram pelo abandono do fumo, e três vezes voltaram, sempre que o convalescente queria voltar ao seu antigo hábito. O Dr. Jolly refere um caso muito grave de epilepsia observado por Charles Hastings em um jovem fumante, que ficou completamente curado pela proibição expressa do uso do tabaco sob qualquer forma. As vertigens tabágicas acompanham-se muitas vezes de alucinações, como observou o Dr. Blanchet em vários fumantes. A melancolia e a lipemania são afecções devidas em muitos casos ao abuso do fumo.
É incontestável a perniciosa influência da nicotina sobre as faculdades intelectuais.
Os Drs. Clays e Pilman observaram que quando se fuma em excesso há como que uma obtusão das faculdades mentais, que ficam para assim dizer embotadas. O tabaco pode ocasionar sobre o cérebro perturbações diversas, atuando mais particularmente sobre a memória, que vai pouco a pouco diminuindo até que desaparece inteiramente, se o fumante persiste no vício. Há muitos fatos que provam esta verdade. Tissot diz que o fumo exerce sobre o cérebro uma ação semelhante a do ópio, e acrescenta que o nicotismo acaba por enfraquecer a memória, e estraga a vida. Da mesma opinião é o Dr. Montain, que denomina o fumo – o ópio do Ocidente.
A demência paralítica é sem dúvida uma das moléstias mais frequentemente determinadas pelo abuso do tabaco; as estatísticas o provam irrecusavelmente.
Impressionado pela influência nociva da nicotina sobre a aptidão para os trabalhos intelectuais, o Sr. Bertillon teve a ideia de investigar qual era, sob o ponto de vista de sua classificação por ordem de merecimento, a proporção dos fumantes entre os alunos da Escola Polytechnica do ano de 1855. Pesquisas estatísticas análogas foram feitas depois pelo Dr. Devé, e pelo Dr. Gaubert sobre alunos dessa mesma escola no ano de 1875, e pelo Dr. Coustan sobre os de 1878 da escola normal superior, e da escola naval de Brest, e sobre muitos outros estudantes das classes superiores dos Liceus e escolas diversas.
Pois bem, do conjunto de todas essas investigações evidenciou-se que os alunos melhor colocados nas diversas classes por merecimento intelectual eram aqueles que não fumavam, ao passo que os fumantes ocupavam sempre os piores lugares.
São dados importantes, e que deixam ver clara e positivamente que é maléfica a influência da nicotina sobre as faculdades intelectuais, e principalmente sobre a memória.
Orgãos especiais dos sentidos: É sobretudo em relação à visão que temos à considerar os perigosos resultados do nicotismo. O enfraquecimento da vista, a amblyopia, muitas vezes tem por causa única o abuso do fumo; tal é a opinião de Mackensie, de Laugier, e Mélier. Muitos casos de amaurose ou gotta serena são devidos ao nicotismo, diz o Dr. Hutchinson. A paralisia, as degenerescências da retina, a atrofia parcial do nervo ótico, segundo a opinião do Dr. Woodswooth, são muitas vezes a consequência do uso excessivo do tabaco; e por isso mesmo tais lesões são muito frequentes nos homens que nas mulheres. Segundo M. Sichel poucas pessoas podem fumar mais de 20 gramas de tabaco por dia sem que a visão e a memória se enfraqueçam. Já dissemos ao começar que a audição também sofre grandemente os efeitos perniciosos do abuso do fumo, que pode trazer como resultado a surdez.
À vista das numerosas observações e estudos especiais do Dr. Depierris, hábil cirurgião do exército francês, pode afirmar que a nicotina exerce uma ação das mais funestas sobre as funções genitais; é sobretudo muito prejudicial o uso do fumo quanto à aptidões geradoras da mulher. Segundo pensam os Drs. Hurteaux e Mélier as operárias encarregadas da manufatura do tabaco tem regras abundantes e aproximadas, frequentes metrorragias, que explicam sua predisposição aos abortos, demonstrada pelos Drs. Kostial, Delaunay, Decaisne e Jacquemard. Assim pois parece fora de dúvida que o tabaco goza da ação abortiva manifesta.
Depois de mostrar que a nicotina estende a sua ação maléfica até aos filhos das operárias das fabricas de fumo, o Relatório conclui assim: “Fazer conhecer as moléstias e os acidentes atribuídos ao abuso do fumo, e propor as medidas higiênicas próprias para preveni-los ou combatê-los, tal é o duplo fim que tem em vista a Associação contra o abuso do tabaco, que acaba de pedir ao Sr. Ministro pra ser declarada de utilidade pública. Ora, sendo a Academia consultada para dizer se tal pedido é justificado por um grande interesse de higiene publica, propõe a comissão à Academia que responda ao Sr. Ministro: 1º que há um palpitante interesse em fazer-se conhecida por todos a ação maléfica do uso do tabaco; 2º que essa ação maléfica está sobejadamente demonstrada por um grande conjunto de observações e fatos científicos. A proposta foi unanimemente adotada.
Até aqui, senhores, tenho me limitado à leitura do excelente Relatório, devido à comissão da Faculdade de Medicina de Paris; haveis de permitir agora que chame a vossa atenção para os pontos capitais desse trabalho.
Vistes que moléstias gravíssimas, tais como o epitelioma do lábio, o delirium tremens, a epilepsia, a paralisia geral dos alienados, a amaurose, e outras são devidas em muitos casos à influência desastrosa do alcaloide do fumo.
E o que dissemos das perturbações intelectuais, e sobretudo da perda da memória, esta preciosa faculdade? A respeito deste ponto, senhores, que julgo de máxima importância, seja-me lícito citar apenas dois casos, que certamente hão de calar em vosso espírito, gerando nele a convicção de que a nicotina é um verdadeiro perigo para a inteligência.
Tendo eu chegado a esta corte nos primeiros dias do corrente mês, vindo do município de Araruama, onde resido, fui visitar o meu distinto colega e particular amigo, o Dr. José Pereira Guimarães, hábil cirurgião, vantajosamente conhecido nesta capital, e um dos mais ilustrados lentes da nossa Faculdade de Medicina.
Em conversa, ele perguntou-me se realmente eu tinha intenção de fazer conferências a respeito do abuso do tabaco; ao que respondi-lhe pela afirmativa; então, disse-me ele, “quero chamar a sua atenção para o grande poder tóxico da nicotina sobre as faculdades intelectuais, e sobretudo em relação à memória; eu fumava desde muito moço, excedendo-me no vício, e assim continuei durante muitos anos até que comecei a notar alteração sensível da memória à ponto de não poder reter quase nada do que lia, ou ouvia. A princípio não pude atinar com a causa do singular fenômeno, mas depois me fui pouco a pouco convencendo graças à uma observação acurada, de que era o fumo que me estava causando todo o mal, resolvi desde logo abandonar completamente o vício, o que consegui com alguma dificuldade. Pois bem, já vai para cinco canos que não faço uso do fumo sob qualquer forma, e hoje possuo a memória que tinha nos meus melhores tempos acadêmicos; e ainda mais as perturbações gástricas de que sofria, e as palpitações cardíacas que me atormentavam, desapareceram inteiramente, de sorte que atualmente nada sinto, gozando da melhor saúde”.
Em situação análoga, viu-se também não menos distinto cirurgião, e eloquente professor da Faculdade, o Sr. Dr. Antonio Caetano de Almeida, que, abandonando igualmente o vício de fumar, restabeleceu-se completamente.
São dois fatos da mais alta importância, porque esses ilustres mestres observaram em si mesmos os terríveis efeitos do nicotismo.
Haveis de permitir ainda, senhores, que vos leia alguns trechos do monumental discurso proferido pelo Dr. Jolly no seio da Associação contra o abuso do fumo, na sessão de 23 de dezembro de 1968.
Diz ele: “Desde o ano de 1930, época que, como se sabe, foi o ponto de partida do abuso sempre crescente do tabaco, em cada ano se viu aumentar em relações constantes e invariáveis a cifra das afecções dos centros nervosos, das diversas formas de moléstias mentais, e mais particularmente as paralisias gerais; o aumento do número de casos de tais meles coincidiu com o aumento do consumo do tabaco”.
E tão constante foi a relação observada entre a paralisia geral e o excesso de fumar que a moléstia tomou o nome de paralisia nicotínica, como dá-se o nome da paralisia saturnina à que resulta da intoxicação pelo chumbo. A observação tem demonstrado, continua Jolly, que os militares e os marinheiros que avantajam-se muito aos demais fumantes no uso do cigarro ou do cachimbo, figuram em primeiro lugar na estatística dos alienados paralíticos. A mesma observação tem demonstrado, por outro lado, que aqueles que fazem uso de um fumo sem nicotina, como os orientais, ou outros povos que fumam apenas substâncias inertes, como o chá, o anis, a coca, etc, são isentos em regra da paralisia geral ou peri-encefalite crônica difusa. E se pudesse ainda haver incrédulos a respeito dos efeitos tóxicos do tabaco sobre os centros nervosos, e particularmente sobre o encéfalo, esses encontrariam nas estatísticas oficiais, no movimento dos doentes dos hospitais e das casas de saúde, nas tabuas de mortalidade, testemunhos irrecusáveis, eloquentes provas.
Eles veriam assombrados que o abuso do tabaco, que o nicotismo tem arrebatado à França desde 1830 mais gente que os três flagelos reunidos – peste, fome e guerra!
Veriam que o número das moléstias mentais, das paralisias gerais, dos amolecimentos cerebrais, das paraplegias, das ataxias musculares exagerou-se grandemente com o consumo extraordinário do tabaco; haviam de encontrar, consultando tais dados, um maior número de casos de angina do peito, paralisias do coração, sincopes mortais e talvez mesmo a causa dessas embolias tão frequentes de alguns anos a esta parte, e de que tem sido vitimas ilustres personagens, fulminados como por um raio, gozando aliás perfeita saúde aparente. Encontrariam mais nessas estatísticas um aumento progressivo das moléstias cancerosas dos lábios, da língua, do estomago, e dos demais órgãos digestivos, e numerosos casos de amblyopia e de amaurose referidos por esclarecidos práticos.
Veriam, finalmente, como o fato principal e que decorre do que fica dito, que a França, que durante longo tempo soube precaver-se contra o contágio do tabaco, com uma população sempre ascendente, tende hoje a decrescer, a perder os seus elementos mais viris, aumentando a mortalidade que atinge de preferencia a população masculina entre os 40 e 60 anos, época da vida em que o homem experimenta todos os gêneros de embriaguez, e mais ainda a embriaguez de tabaco, e do álcool – esses dois coveiros da misera humanidade. Alguns fumantes incorrigíveis nos dirão, continua Jolly, que passam perfeitamente bem e que o fumo é coisa inocente; mas ninguém de bom senso tomará a sério esse fácil e cômodo argumento para a defesa de um terrível veneno. É verdade que o tabaco, por graça especial do céu, não mata os fumantes; é certo que o hábito torna o organismo até certo ponto tolerante para com a nicotina, como para com outros venenos – haja vista os comedores de arsênico do Tyrol que começam, por pequenas porções desse toxico.
Mas, perguntamos, deve-se por isso concluir que o organismo seja completamente indiferente à continuidade da ação do veneno, e refractário aos efeitos da intoxicação? A simples reflexão nos leva à responder negativamente, além de que aí estão as numerosas observações e fatos para convencerem-nos da verdade.
Eis como Jolly, meus senhores, eloquentemente e com grande conhecimento de causa descreve os efeitos da nicotina sobre o organismo em geral, e especialmente sobre os centros nervosos, isto é, o eixo cérebro-espinhal.
Ainda uma citação, que será a última. O Dr. Licke, tratando dos meios de combater-se o abuso do fumo, assim se exprime: “ Quando se considera a cifra enorme e sempre crescente do rendimento do imposto sobre o fumo; e quando ao mesmo tempo se reflete em tudo quanto tem sido dito e escrito por homens os mais competentes, médicos experimentados, contra o abuso dessa substância, fica-se confuso, e penetrado de um verdadeiro sentimento de comiseração para com a pobre espécie humana, que persiste em um encarniçamento deplorável em querer envenenar-se! Digo – querer – porque é impossível, a menos que se não ligue a mínima importância a palavra dos sábios, que se ignore, sobretudo desde o famoso drama de Mons, que o tabaco encerra um dos mais violentos venenos vegetais que existem, e que esse veneno pode ser absorvido a cada instante em certa dose, resultando d’aí para a saúde um perigo maior ou menor. Pois aí não estão os belos trabalhos e experiencias de Cl. Bernard, de Decaisne, de Orfila, de Stas, de Tiedmann, do professor Melsens, e de outros sobre a nicotina? E os fatos apresentados pelos médios mais esclarecidos e autorizados de todos os países devem ficar no esquecimento?!”. E o Dr. Licke conclui assim: “Médico e fumante convertido pude, depois de longa prática, e de numerosas observações, formar uma opinião firme relativamente à influência perniciosa do uso e abuso do tabaco sobre a nossa saúde”.
Poderia, ainda, senhores, citar-vos muitos outros autores, e apresentar-vos outras observações e fatos; mas já me tenho por demais alongado hoje, e por isso não prosseguirei, temendo fatigar a vossa benévola atenção. Na minha próxima conferência procurarei demonstrar que são intimas as relações existentes entre o nicotismo e o alcoolismo, que, juntamente com a sífilis, constituem a negra trindade devastadora das sociedades modernas.
(O orador foi vivamente aplaudido pelo auditório e cumprimentado por S. M. o Imperador).".
Localização
- BITTENCOURT, Feliciano Pinheiro de. Conferencias effectuadas na Escola da Gloria. Rio de Janeiro: Typographia e Lithographia a vapor, Encadernação e Livraria Lombaerts & C., 1882, pp 05-31. (íntegra) (IHGB)
Ficha técnica
- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.
- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.
Forma de citação
Conferência Popular da Glória nº 399.1. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 20 mai.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=1113
Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz – (http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br)