Conferência Popular da Glória nº 562

De Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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Data: 30/10/1887

Orador: Feliciano Pinheiro de Bittencourt

Título: Darwinismo ou Transformismo.

Aviso, íntegra ou resumo: Íntegra

Texto na íntegra

“Senhores,

Ligeiro incômodo de saúde privou-me do prazer de dirigir-vos a palavra domingo passado para continuar a tratar da magna questão da origem do mundo orgânico.

Espero que me relevareis essa falta involuntária, procurando corresponder hoje à benevolência e à simpatia, com que me haveis sempre acolhido n’este recinto.

A matéria de que me tenho ocupado n’estas preleções é da mais alta indagação científica; joga com conhecimentos múltiplos e variados, sendo, portanto, digna da vossa esclarecida atenção.

É assunto em que se têm empenhado os maiores sábios do mundo, afoitos por descobrirem o inviolável segredo da gênese primitiva dos seres orgânicos.

Sabeis, senhores, que a lei do progresso é fatal, que tudo caminha, tudo marcha sobre a Terra, ficando à imensa distância os velhos preconceitos, as antigas ideias, os primitivos sistemas, as anosas doutrinas.

A ciência, que diariamente realiza maravilhosas descobertas, pode comparar-se ao Achaverus da fábula – “sempre a caminhar, sempre a seguir!”

Quão frondosa é hoje a árvore secular dos conhecimentos humanos, regada pelo suor de tantos trabalhadores infatigáveis, tratada com particular desvelo pela guarda avançada da ciência, que n’ela vê o esforço acumulado de tantas gerações de sábios que passaram, que dormem já o sono eterno no chão luminoso da história!

Mas todo o progresso que hoje admiramos – as estradas de ferro cruzando-se em todas as direções; os vapores sulcando os oceanos; as nações civilizadas em diário comércio de ideias, suprimidas as distâncias pelo telégrafo, aproximados os continentes; o espaço infinito devassado pelo telescópio do astrônomo; a idade e a natureza das camadas do solo estudadas pelo geólogo; a gênese dos seres organizados estudada pela embriologia, etc., etc., tudo isso tem custado o trabalho intelectual de cérebros privilegiados, verdadeiros Protheus da ideia e do pensamento.

Porém, senhores, no meio de todas essas grandezas da Terra, contemplando as maravilhas do século XIX, o homem esclarecido reconhece que é pequeno, apesar dos surpreendentes resultados que tem alcançado com o seu esforço intelectual, para resolver de modo positivo e claro certos problemas da natureza.

E no número d’eles está certamente incluindo o da origem das espécies, que tanto preocupou o espírito luminoso do eminente sábio moderno tem admirado.

Pois bem, acompanhemos este ilustre sábio em suas investigações; admiremo-lo como merece, e vejamos em que ponto devemos deixá-lo, a fim de que não nos suceda irmos ter ao materialismo absurdo, ao ateísmo.

Examinemos os esteios fundamentais do darwinismo, as leis primordiais que regem todo o sistema, e tiremos franca e desassombradamente as conclusões que d’elas naturalmente decorrem.

Comecemos pela grande lei da – luta pela existência, e a seleção natural d’ela resultante.

É este um fato inconcusso, pois a lei é fatal; não fora ela e a desproporção enorme que existe entre os nascimentos e os óbitos, há muito que a superfície do nosso planeta estaria coberta por certas espécies exclusivamente. Também os oceanos, os lagos e os grandes rios ficariam atulhados em pouco tempo, se vingassem todos os germens produzidos pelas espécies de peixes existentes, ou apenas os germens oriundos de uma única espécie.

O darwinismo atribui a origem das espécies superiores a transformações sucessivas experimentadas pelas espécies inferiores. Há duas hipóteses: a da transformação brusca, violenta, e da transformação gradual, sucessiva e lenta.

Só esta merece as honras da discussão; a primeira é igualmente rejeitada, por absurda e incongruente.

Com efeito, é coisa que ninguém poderá sustentar seriamente que o primeiro pássaro, por exemplo, proveio de um ovo de réptil, ou vice-versa.

A transformação brusca, feita por saltos, não é hipótese científica, e, portanto, a deixaremos inteiramente de lado, como se nunca fora aventada.

Apreciemos o alcance da transformação lenta e sucessiva, feita sem interrupções ou saltos.

Para os darwinistas a cadeia dos seres animais e vegetais é ininterrupta, sendo perfeita a unidade; entre os dois elos extremos da grande cadeia há uma longa série de tipos intermediários.

Partindo-se, por exemplo, dos infusórios, isto é, dos seres que ocupam os últimos graus da escala zoológica, ou das algas e sargaços, das plantas microscópicas, pode-se chegar initerruptamente até os seres superiores, resultantes d’aqueles por transformações sucessivas.

Eis em poucas palavras o que é darwinismo em seus fundamentos – a evolução dos seres, tendendo sempre ao aperfeiçoamento.

A doutrina assim exposta seria inatacável, se no estado atual da ciência se pudesse demonstrar que realmente a cadeia dos seres é ininterrupta, que não há salto algum d’uma espécie para outra. O que se sabe, porém, é justamente o contrário, é grandíssimo o número de tipos intermediários que faltam, que não existem, ou não foram ainda descobertos, apesar de todas as pesquisas e esforços dos que entregam-se a este gênero de estudos.

Se for possível ainda, com os progressos sempre crescentes da ciência, reconstituir-se completamente essa suposta série única de seres orgânicos, então será chegado o momento de poder-se afirmar que – o homem não é mais do que um quadrúmano aperfeiçoado.

Por enquanto essa afirmativa não passa de uma hipótese arrojada.

Mas, voltemos à lei da luta pela existência.

Ninguém, senhores, como Darwin, demonstrou de modo mais positivo qual a desproporção que existe entre a cifra dos nascimentos e a dos indivíduos vivos; também ninguém melhor estudou que ele as causas gerais da mortalidade.

Lembrando que cada espécie multiplica-se por uma verdadeira progressão geométrica, cuja razão é expressa pelo número de filhos que uma mãe pode ter durante toda a sua vida, o ilustre sábio tornou-se evidente a grande intensidade das lutas diretas e indiretas sustentadas pelos animais e vegetais entre si e contra o mundo externo material.

E concluiu brilhantemente que, se não fossem essas lutas, a Terra inteira seria invadida em poucos anos por certas espécies, e do mesmo modo os oceanos e os rios, como já vos disse ao começar a preleção.

A luta pela existência tem pois como resultado final a destruição dos seres inferiores pelos superiores, e d’aí a seleção natural, pela conservação das espécies destes últimos.

Há necessidade, senhores, de fixar bem o valor que os darwinistas dão aos termos superior e inferior na luta pela existência.

Não se suponha que o superior é sempre aquele ser animal mais corpulento, dotado de maior soma de força física; não, superior será aquele que melhor adaptar-se às condições do meio em que se for chamado a viver.

Exemplificaremos para tornar mais claro o nosso pensamento, em relação à lei da adaptação.

O rato negro e o camundongo tiveram que lutar contra o rato das margens do Volga, chegado à França no último século. O rato negro era tão grande e tão forte como o seu adversário, porém menos feroz e menos fecundo foi por ele exterminado em pouco tempo; ao passo que o camundongo, muito mais fraco, mas podendo pela sua pequenez refugiar-se em qualquer esconderijo, e sendo também dotado de grande fecundidade, conseguiu sobreviver ao rato negro, escapando à terrível sanha do rato do Volga.

Assim, pois, no terreno da luta pela existência, o camundongo foi superior ao rato negro, muito mais forte fisicamente, e muito mais corpulento.

Cremos que, pelo exposto, fica bem claro o sentido em que devemos cientificamente empregar e compreender os termos superior e inferior.

Buchner, sábio alemão, autor do livro “Força e Matéria”, apreciando o transformismo em suas conferências, publicadas em um volume, em 1869, assim se exprime em relação à luta pela existência:

“Compreende-se que na luta geral pela existência os indivíduos, as espécies, as raças que têm maiores probabilidades de vitória, isto é, de assegurarem a própria conservação e a da descendência, são os que distinguem-se dos seres concorrentes por qualquer propriedades, qualquer vantagem do corpo ou do espírito. As propriedades e vantagens podem ser de mil sortes, como: o vigor, a força, a grandeza ou a pequenez; a natureza dos meios de ataque ou de defesa; a cor, a beleza, a rapidez; a aptidão para melhor suportar as privações; os melhores vestidos, a astúcia, a habilidade em procurar a alimentação; a inteligência ou a prudência em evitar um perigo ameaçador, etc., etc.”

Ora, tudo isto, em última análise, resume-se na palavra meio, e na lei da adaptação, cujo alcance já nos fizemos compreender.

Passaremos agora a tratar de outra grande lei darwiniana – a da variabilidade as espécies, trazendo com consequência a formação de espécies novas.

Vejamos, senhores, qual o valor real deste princípio. Que as espécies, variam, segundo as circunstâncias do meio e outras, é fato sabido e incontestável; mas a variabilidade é unicamente relativa aos caracteres exteriores dos seres; na essência, na sua constituição intima, eles não podem sofrer mudanças.

Assim sendo, não parece lógico admitir-se que uma espécie dada possa ir-se transformando até produzir um outra inteiramente diferente. Não, as diferenças serão apenas acessórias, exteriores, e nunca fundamentais ou essenciais.

Nest ponto, como em outros, nos separamos completamente de Darwin, não admitindo suas conclusões, por injustificáveis no terreno da ciência positiva.

Uma espécie tipo será sempre a mesma, mau grado as modificações que possa experimentar, dependentes desta ou d’aquela circunstância.

Certamente que o clima, o calor, o frio, a luz, a escuridão, o gênero de alimentação, a herança, os cruzamentos, etc., modificam as espécies animais e vegetais, mas não tem o poder de alterar-lhes a essência ou natureza constitucional.

É como pensamos, de acordo com sábios ilustres, sem desconhecermos que a opinião contrária conta também alguns aspectos.

Como já vai longa esta preleção, e não desejamos de modo algum fatigar a vossa atenção, reservamos para outra ocasião as muitas considerações que temos ainda a fazer sobre a doutrina evolutiva.

Mais uma vez nos confessamos gratos à vossa benevolência.

(o orador foi cumprimentado pelos ouvintes e muito aplaudido).”.

Localização

- BITTENCOURT, Feliciano Pinheiro de. “Origem das espécies e América Pré-Histórica”. In: Conferências efetuadas na Escola Pública da Glória pelo Dr. Feliciano Pinheiro de Bittencourt. Rio de Janeiro: Papelaria Gonçalves Mendes & C, 1889, pp. 15-20. (BN)

Ficha técnica

- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.

- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.

Forma de citação

Conferência Popular da Glória nº 562. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 28 jun.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=1179

 


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