Conferência Popular da Glória nº 564.a

De Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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Data: 30/11/1887

Orador: Feliciano Pinheiro de Bittencourt

Título: A América Pré-Histórica.

Aviso, íntegra ou resumo: Íntegra

Texto na íntegra

“Senhores,

O assunto de que vou hoje ocupar-me, e para o qual ouso solicitar a vossa esclarecida atenção, é um d’aqueles que impõem-se por si mesmo, tal é o seu grande alcance científico e literário.

Escolhi-o para a minha última conferência d’este ano não só porque tem intima ligação com a matéria das minhas anteriores preleções, como porque nos diz respeito bem de perto, interessar-nos por tudo quanto se refere ao novo continente, tão prodigamente dotado pela natureza.

Será uma chave de ouro para as conferências do presente ano que tenho a honra de encerrar.

Seria longo e fastidioso, senhores, se eu quisesse enumerar d’esta tribuna todos os principais trabalhos que os americanistas têm publicado a respeito da origem da religião, usos e costumes dos habitantes primitivos desta parte do globo. As questões pré-históricas referentes à América têm sido tratadas por numerosos escritores; de sorte que uma bibliografia completa exigiria volumes.

A obra mais importante que conheço sobre o assunto é a de H. Bancroft, em 5 volumes; será sempre consultada com proveito por quantos pretenderam conhecer profundamente a questão.

São igualmente dignos de menção especial os estudos e escritos de Topinard, Nott, e Gliddon, Foster, Morton, Prescott, Waldeck, Short, Taylor, Squier e muitos outros.

Sinto deveras que o meu estado de saúde não me permita dar à matéria o desenvolvimento condigno, porque, senhores, devo declarar-vos, não como recurso de tribuna de que são careça n’este recinto, que deixei hoje o leito para vir e cumprir com o meu dever de dirigir-vos a palavra, uma vez que a preleção fora anunciada.

Antes, porém, de encetar as minhas considerações, cumpre-me agradecer as benévolas palavras que acaba de dirigir-me o S. Ex. o Sr. Conselheiro Correia, muito digno diretos das conferências. Se, como diz S. Ex., estou na vanguarda de tantos nomes ilustres que tem abrilhantado esta tribuna, levantando-lhe tão alto os créditos; se ocupo o primeiro lugar na lista dos oradores pelo número de preleções que tenho feito (66), devo isto a S. Ex. mesmo, exemplo vivo de atividade e esforço em tudo quanto diz respeito à instrução do povo e ao engrandecimento nacional.

Serei breve, mesmo porque esta é uma conferência de encerramento e já algum tempo foi preenchido pelo Sr. Diretor, que acabou de fazer o relatório dos trabalhos anuais.

Quando novamente voltar a esta tribuna, como desejo, terei então oportunidade de explanar completamente o assunto, cujo estudo hoje apenas encetarei. Começando por apreciar os monumentais trabalhos do sábio dinamarquês Lund, que deram nova face à Pré-História d’América.

O ilustre estrangeiro, cujo nome acabo de mencionar, viveu por espaço de mais de 50 anos no Brasil, habitando de preferência a esplêndida província de Minas Gerais, que em parte percorreu por vezes, em digressões científicas.

Seus estudo sobre o homem fóssil brasileiro, encontrado nos arredores das lagoas do Sumidouro e Santa, foram tidos desde logo em alto valor não só no nosso país, como na velha Europa.

Em correspondência continuada com os nossos mais notáveis homens de letras, a começar pelo chefe do Estado; estudando e investigando sempre, não se poupando a sacrifícios de todo o gênero, conseguiu Lund examinar nada menos de mil cavernas, encontrando somente em seis ossadas humanas, de envolta com abundantes ossos de espécies animais extintas.

Ninguém, como Lund, estudou até hoje a fauna fóssil do Brasil, resultando de seus valiosíssimos estudos a demonstração da idade remotíssima, dos homens e animais primitivos desta parte do continente americano, o que aliás está de acordo com as presunções de Agassiz e Lyell sobre a grande antiguidade da América.

Lyell, com efeito, sustenta que o rio Mississipi corre em seu leito atual há seguramente mais de cem mil anos!

E não é opinião para ser desprezada, quando se sabe que esse é o mesmo sábio que revolucionou o mundo científico derrubando a velha teoria das catástrofes geológicas gerais, e erguendo em vez dela a doutrina das revoluções locais, das catástrofes parciais.

Compreende-se que as belas ideias do eminente inglês vieram dar garrote na teoria dos atos reiterados da criação correlativos a diferentes períodos de formação do globo; e eis porque à princípio levantaram grande celeuma, antes que pudessem impor-se aos espíritos cultos ou apaixonados.

Mas deixarei a digressão e voltarei aos trabalhos de Lund, cuja apreciação rápida desejo fazer.

Já de passagem me referi em uma das minhas anteriores preleções, aos estudos desse sábio ilustre que tanta glória alcançou para o Brasil no terreno cientifico; hoje darei maior desenvolvimento às teses que então apenas delineei.

As primeiras descobertas e Lund foram feitas em uma caverna situada nas margens da Lagoa do Sumidouro; aí encontrou ele mais de trinta ossadas humanas, pertencentes a indivíduos de idades e sexos diferentes. Os crânios eram notáveis pela forma piramidal e pela estreiteza da fronte; maxilares havia que inteiramente desprovidos de dentes, assemelhavam-se a simples placas ósseas, apenas com alguns milímetros de espessura.

Alguns crânios apresentavam um buraco de forma oblonga e regular, e com as mesmas dimensões. Necessariamente esses buracos haviam sido produzido por instrumentos de pedra, ocasionando a morte em pouco tempo.

Os esqueletos jaziam em extrema confusão sobre o solo da caverna; apresentavam incrustações calcárias, e achavam-se coberto por grandes blocos de pedra, caídos das paredes da abóboda.

De envolta com a ossadas humanas havia ossos de animais de raças extintas; e eram idênticos os caracteres de uns e outros.

Sem dúvida, os homens e animais viveram juntos, e juntos pereceram vítimas das mesmas catástrofes, cuja época e causas é impossível precisar-se.

Após longos e minuciosos trabalhos conseguiu Lund reconstituir 44 espécies extintas, contando-se nesse número várias espécies de macacos.

O ilustre sábio faz remontar a uma grande antiguidade a presença do homem sobre o solo americano, isto é, aos tempos quaternários, a um período correspondente à idade do mamute.

Essas conclusões estão de acordo com a dos distintos sábios argentinos Ameghino e Burmeister; basta ler os artigos do primeiro sobre o “homem pré-histórico no Prata”, publicados na Revista de Antropologia, de 1879 – 1880.

Ameghino diz que o homem vivia na América do Sul em meio de animais de raças hoje extintas; caçava os cervos, as lamas, os paleolamas, numerosos pequenos roedores, cujas ossadas são ainda encontradas de envolta com as desses homens. Não duvidaram mesmo atacar o glyptodon, apesar de sua couraça impenetrável; o toxodon, o megatherium, e o mastodonte. Nutriam-se com a carne desses animais, vestiam-se com as suas peles, e dos ossos faziam armas e utensílios diversos.

Tudo isto atualmente tem sido demonstrado a evidência pelos especialistas nesta matéria, ficando assim provada a grande antiguidade do homem americano.

Há uma questão; senhores, muito importante a resolver e que apenas formularei, pretendendo discuti-la amplamente quando reabrirem as conferências. A que época geológicas remonta a formação dos pampas argentinos, onde tem sido realizadas as notáveis descobertas dos fósseis?

Darwin, Burmeister, Orbigny, Bravard, Ameghino e Dr. Moreno empenharam-se esforçadamente nesta questão, divergindo as opiniões quanto à antiguidade da formação dos pampas.

Darwin considera esse terreno como de recente origem; Burmeister como quaternário; Bravard e Ameghino como plioceno. E acrescentarei que as opiniões não são menos discordantes quanto ao modo de formação dos terrenos pampeanos.

Trtando desta matéria, senhores, não omitirei a notável descoberta feita pelo Dr. Moreno em 1874, e à qual se refere Nadaillac, na sua apreciada obra, a que por vezes me tenho socorrido no correr destas preleções.

Descobriu o Dr. Moreno, nas margens do rio Negro, nas fronteiras da Confederação com a Patagonia, um crânio situado a quatro metros de profundidade, em uma camada de areia e cascalho de formação contemporânea a do sedimento pampeano.

Posto que esse crânio não fosse acompanhado de nenhum outro osso que permitisse assinalar lhe uma data certa o Dr. Moreno o considera como muito antigo, e chama a atenção para a sua notável deformação artificial.

Broca também chama a atenção para os traços deixados no frontal desse crânio por uma osteíte antiga, e não hesita em atribuir essa osteíte a uma infecção sifilítica: é um fato interessante.

Antes da descoberta desse crânio já o Dr. Moreno havia tirado dos antigos cemitérios da Patagônia numerosas ossadas humanas; que essas ossadas eram antiquíssimas ninguém duvida, sendo difícil de fixar com exatidão a sua idade real.

Os esqueletos achavam-se assentados, com os joelhos junto ao peito, os pés cruzados um sobre o outro, e as mãos cruzdas sobre as tíbias, quase a mesma posição das múmias peruvianas. Escusado é dizer que de envolta com esses esqueletos encontravam-se armas e instrumentos de sílex.

Leva-nos isso a crer na grande antiguidade do homem americano, que certamente viveu no período glacial ou quaternário.

Devo acrescentar, senhores, que mais notáveis tem sido as investigações feitas na América do Norte, a que já me referi de passagem em uma das anteriores conferências, quando apreciei o alcance da descoberta feita em 1866 pelo sábio americano Whitney, diretor das explorações geológicas da Califórnia.

Para concluir citarei ainda dois trechos da obra de Naidallac “A América pré-histórica”.

Diz ele, à página 479:

“Entre os mais antigos restos humanos encontrados em terras da América devemos sem dúvida colocar um crânio que os trabalhos de uma ferrovia fizeram descobrir, junto de Denver, a três pés e meio de profundidade. Jazia em um loess que parecia não ter experimentado nenhuma revolução geológica e que cobria imensas planícies, apresentando notável semelhança com os depósitos glaciais da Europa. Também foram encontrados no mesmo terreno numerosos instrumentos de fabricação análoga à dos instrumentos paleolíticos. Tudo leva a crer que o crânio remonta à mesma época, mas não há nenhum detalhe sobre a sua conformação; e se ele pode-nos provar a existência do homem sobre o solo da América desde a época glacial, não nos diz que homem era esse que vivia no meio dos gelos, que combatia o mastodonte e o megatherium, seus temíveis rivais na luta pela existência.”

O outro trecho, senhores, é o seguinte, que encontra-se no capítulo em que Nadaillac trata dos crânios das cavernas:

“Nada mais acrescentaremos sobre os esqueletos encontrados nas cavernas, nas habitações, ou nas sepulturas dos velhos americanos. Alguns deles remontam provavelmente a uma alta antiguidade, mas as observações que possuímos não são ainda bastante numerosas para permitirem uma conclusão séria. Apenas faremos exceção para o crânio da Lagoa Santa (Brasil), e transcreveremos a descrição que o Sr. Quatrefages fez com a sua autoridade, no Congresso de Anthropologia reunido em Moscou em 1879: “Esse crânio, dizia o ilustre sábio, pertence a um individuo de mais de 30 anos de idade; apresenta exteriormente um aspecto metálico bronzeado; seu peso é considerável; as arcadas zigomáticas são quebradas na região média; as apófises estelóides desapareceram; na região temporal direita vê-se uma abertura elíptica de 48 milímetros sobre 20, causada provavelmente por uma pancada de alguns instrumentos que produziu a morte. A fronte é baixa e inclinada para trás, como em todos os crânios americanos; as bossas sub-orbitárias muito proeminentes, o occipital quase vertical. A protuberância occipital externa é larga, plana e pouco saliente; o plano do buraco occipital prolongado passa por uma linha horizontal reunindo as duas órbitas. Os ossos malares são salientes e projetados para diante. As orbitas são quadrangulares, e as paredes laterais do crânio verticais. As apófises mastóides são pouco volumosas, quase todas soldadas. Vê-se no maxilar superior quatorze alvéolos mais ou menos fraturados, e o segundo molar completamente gasto.”

Cumpre acrescentar, diz Nadaillac, que a capacidade craniana (1388 c.c.) posto que fraca, é superior às médias fornecidas pelos crânios de Mound-Builders, e que o indicio encefálico (69,72) mostra uma dolichocephalia pronunciada.

A atenção do sábio Lund fixou-se principalmente n’este caráter importante: o gasto dos incisivos. Eles considerava este caráter como particular ao homem da Lagoa Santa, e como meio de separá-lo das diversas raças humanas, exceção feita dos antigos egípcios, nos quais o fenômeno igualmente se observava.

Quatrefages, pelo contrário, diz que esse fato, observado em todas as raças humanas fosseis do continente europeu, serve para estabelecer estreita relação entre os habitantes primitivos do antigo e do novo mundo.

Diz também o ilustre sábio francês que a forma cefálica dos homens da Lagoa Santa encontra-se no litoral dos dois oceanos, e até mesmo no centro da cordilheira peruviana.

Do exposto é racional concluir que a raça, cujo crânio típico foi encontrado e estudado por Lund, contribuiu ao mesmo tempo para a constituição das raças brasileiras e andoperuvianas.

Não continuarei por hoje n’este estudos, senhores, porque está terminando o tempo destinado à conferência, e eu sinto-me bastante fatigado. Mas posso garantir-vos que as pesquisas feitas em todas as regiões do novo mundo confirmam plenamente os fatos que tenho referido.

O assunto é vasto e difícil, e, pois, seria ousadia pretender alguém discuti-lo e elucidá-lo em uma só preleção; peço-vos que considereis o meu discurso de hoje apenas como uma ligeira introdução ao estudo que espero aqui fazer da América Pré-Histórica.

(o orador foi vivamente aplaudido e cumprimentado pelos numerosos ouvintes).”.

Localização

- BITTENCOURT, Feliciano Pinheiro de. “Origem das espécies e América Pré-Histórica”. In: Conferências efetuadas na Escola Pública da Glória pelo Dr. Feliciano Pinheiro de Bittencourt. Rio de Janeiro: Papelaria Gonçalves Mendes & C, 1889, pp. 26-32. (BN)

Ficha técnica

- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.

- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.

Forma de citação

Conferência Popular da Glória nº 564.a. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 27 jun.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=1199

 


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