Conferência Popular da Glória nº 607.1
Data: 07/06/1891
Orador: Manoel Francisco Correia
Título: Riqueza irresponsável.
Aviso, íntegra ou resumo: Resumo
Texto na íntegra
“Realizou-se ontem a conferência n. 607 na escola Senador Correia. Continuou o Conselheiro Manoel Francisco Correia a tratar da riqueza irresponsável. Eis o resumo da conferência:
Da riqueza irresponsável ocupou-se o ilustre estadista inglês Gladstone, acompanhando-a com as modificações que vão ser expostas as doutrinas de Carnegie, de que o orador tratou nas duas últimas conferências.
Gladstone, como Carnegie, reconhece o direito de propriedade e o de acumular riqueza. Entendo também, com o milionário norte-americano, que dela se deve fazer distribuição em vida. Carnegie indica que a distribuição seja em obras de beneficência e de utilidade; Gladstone em prestações anuais para serviço livre e para auxílios aos pobres. O estadista inglês avança uma proposição tremenda: a humanidade deve constituir uma grande sociedade altruísta. É uma frase arrojada que abala a civilização hodierna: um apoftegma cheio de reformas radicais.
Hoje cada um cuida de si e dos seus; cada Estado de sua prosperidade e engrandecimento, subjugando o forte ao fraco.
Entre as nações, o altruísmo, se assim se pode dizer, manifesta-se nas alianças ofensivas e defensivas, mas o móvel da união pouco durável é o interesse peculiar de cada uma: o receio ou a cobiça.
Entre os particulares, o sentimento altruísta, aliás saliente em um ou outro piedoso varão, revela-se em associações religiosas ou civis, que se propõem a avaliar este ou aquele infortúnio, a remover esta ou aquela necessidade. Não constitui, porém, a regra entre os povos ou entre os indivíduos.
Ora, pretender que não uma aldeia, uma vila, uma cidade, um Estado, mas a humanidade inteira constitua uma grande sociedade altruísta, é subverter em seus fundamentos, em suas bases mais profundas, os princípios atualmente aceitos e dominantes no mundo social. É o um voo altivo de imaginação, que pressupõe nivelamento de cultura intelectual e uma igualdade comum e geral de civilização, que está longe, muito longe de ser o característico, a feição da humanidade no presente.
Mas é ao mesmo tempo um protesto viril contra a atual mecânica social. Não mais se poderia acumular e acumular, reunir capital e juros, renová-los, e esconder, esconder. As prestações anuais, sangrias periódicas, não permitiriam chambrar-se na região da riqueza.
É praticável a ideia, que vai caminho direito ao socialismo de Estado? A prestação seria voluntária? Fora manter o status quo, que é proclamado insuficiente: ninguém impede agora que cada um concorra com o que pode para o serviço de Deus, e para minorar a aflição dos pobres dignos de comiseração.
Seria obrigatória? Eis-nos atirados de corpo inteiro no domínio do imposto, que importa a exclusão da liberalidade, a negação da sociedade humana altruísta imaginada por Gladstone.
A proposição do estadista britânico, avaliada pelo que soa, é por todas as formas fantasiosa. Tomada como brado de alerta! é salutar aviso das deteriorações ocasionadas pelo tempo nas veredas que a humanidade trilha presentemente: é o prenúncio, que não deve ser desprezado, de que o organismo social está enfermo, e de que cumpre atalhar o mal para tornar dispensável o emprego de meios cirúrgicos.
Ao que destina Gladstone essas contribuições anuas? Ao serviço divino, e a auxílios aos pobres.
Na segunda parte, a doutrina não diverge da de Carnegie, que pugna pela aplicação da fortuna em obras de beneficência, palavras compreensivas, nas quais se descobre cota para os pobres.
Esquece, porém, o serviço divino a tamanha e tão merecia importância liga Gladstone. Este revela firme convicção da necessidade da religião, e de que não se deve prescindir do culto externo, opinião em que o acompanha o orador, que a justificou em conferências de 1879, sobre o sentimento religioso.
Quão diverso é infelizmente o pensar de muitos dos nossos concidadãos!
Decorre naturalmente do sentimento que se expressa pela necessidade do serviço divino, o que aconselha auxílio aos pobres, e que não sofre em sua nobre essência pela objeção do jurisconsulto norte-americano Phelps, cujas opiniões o orador em tempo analisará também, de que há pobres que devem a sua triste condição ao vicio, á indolência e ao crime. A estes cumpre regenerar; o que não impede o auxílio desde logo à classe dos desamparados que o próprio Phelps qualifica deste modo; assim nascidos, ou que a esse estado chegaram por infortúnios independentes da sua vontade.
O que talvez com mais fundamento se pudesse opor á doutrina do great old man é que: querendo ele que a humanidade constitua uma grande sociedade altruísta, não devia limitar o seu influxo, a sua ação, aos dois pontos enumerados, por haverem, nas relações humanas, outros tão dignos, como o auxílio aos pobres, da solicitude de uma sociedade semelhante.
Estudadas as doutrinas de Carnegie e de Gladstone, uma consideração impressiona. Ela acudiu viva ao espírito do eminente cardeal Manning, e inspirou-lhe este irrecusável conceito: “Se se fizesse o que Gladstone e Carnegie recomendam, mudar-se-ia a face do mundo.”
Para melhor? Não o declara o luminar da igreja; mas que ele insta por mudança para melhor é o que veremos na próxima conferência, por estar esgotado o tempo destinado a presente, não querendo o orador fatigar a atenção do auditório, da qual tanto carece ainda para levar ao fim a análise que empreendeu.”.
Localização
- Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, Anno 69, n. 158, p. 01, 08 de junho de 1891, (resumo). Capturado em 10 jun. 2026. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/DocReader/364568_08/4295
Ficha técnica
- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.
- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.
Forma de citação
Conferência Popular da Glória nº 607.1. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 27 jun.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=1228
Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz – (http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br)