Conferência Popular da Glória nº 28
Data: 08/03/1874.
Orador: Manoel Francisco Correia
Título: Riqueza Intellectual.
Aviso, íntegra ou resumo: Íntegra
Texto na íntegra
“A admiração mais completa, o respeito mais profundo, a adoração mais íntima, eis o que sente o homem quando, recolhido no santuário da consciência, ou concentrado nas profundezas do raciocínio, contempla absorto as obras maravilhosas daquela suprema autoridade que povoou o céu dos mundos inumeráveis, que giram em perpétua imutabilidade na órbita traçada pela mão onipotente do Criador.
Estrelas, sóis, planetas, marcham com seguro passo por caminhos sempre desembaraçados, onde não há receio nem de que os aquilões raivosos dobrem os madeiros da margem, nem de que as torrentes impetuosas separem e despenhem das alturas das montanhas as terras movediças.
Nessa imensa grandeza tudo é ordem e harmonia; e sua silenciosa e imponente majestade ao mesmo tempo exalta e confunde. Confunde o átomo, que às vezes desvairado e insano não quer ver o sol que rutila por sobre o sol que alumia. Exalta o homem que, em sua microscopia eminência, pode conhecer e apreciar todas essas maravilhas.
Mas eu me vou deslisando e deixando arrebatar para as regiões mais inacessíveis do entendimento.
Não trouxe o propósito de excitar vosso fervente entusiasmo diante de obras de tanto esplendor; e se proferi estas palavras, foi para mostrar quanto há de surpreendente nessa inalterável sabedoria, que conserva e conservará sempre com o mesmo brilho da primitiva criação os astros luzentes que presidiram ao nascimento da primeira geração e hão de assistir ao funeral da última.
Sabedoria é essa tão superior a todos os cálculos, que nem à mais fogosa imaginação é lícito demarcar-lhe os limites por mais que queira estender eu vôo pelo mar incomensurável da fantasia.
Se na composição do universo são deslumbrantes os raios da divina majestade, não os achamos menos pasmosos quando, respingando em campo mais próprio para nossas explorações, estudamos a nós mesmos.
O homem, enigma a seus próprios olhos, procura em vão os títulos em virtude dos quais é ele o rei da terra, e apenas pode agradecer os motivos pelos quais lhe foi dada a supremacia.
Mas ele compreende e sente que a seu serviço estão postos os minerais, os vegetais, e ainda os outros animais que ele doméstica, avassala ou persegue.
Porque lhe não são adversos os mares? Porque há dele, único dos animais que não tem sua morada nos abismos do oceano, atravessá-lo rápido, e percorrê-lo em todas as direções? Porque, não contente de fazê-lo suportar os mastaréus altivos de suas naus e de suas galeras, busca insaciável disputar ao gelo a pequena conquista das frias regiões dos polos?
Porque lhe não servem de obstáculo as elevadíssimas montanhas que segredam com as nuvens os mistérios da criação? Ele as transpõe; e, se é mui persistente o embaraço que oferecem, o homem as perfura.
Porque só ele, entre os animais terrestres, não há de sentir detidos os passos ante os rios caudalosos? Ele os percorre em barcos ligeiros, quando não caminha ovante sobre pontes que se firmam no fundo dos mesmos rios, ou quando, como no Tamisa, não zomba do peso enorme de suas águas, e em arrojado túnel não passa nas asas do vapor para a margem oposta.
Diante de seu esforço curvam-se as árvores seculares, rompe-se a consistência dos rochedos; seu tiro certeiro abate as aves que se equilibram nas alturas, e faz cair inanimada a fera bravia das matas; as malhas de suas redes trazem suspensos os povoadores dos mares para os quais não é perigo a revolta das ondas.
Porque foi assim constituído o homem árbitro da natureza terrestre? Ah! Senhores, curvem-nos ainda ante o poder infinito, pois que para tamanha predileção não se descobre outra razão além da impenetrável vontade do Altíssimo.
Para preenchimento de seu destino percebe o homem que seu ser é completo.
Quão admirável é a sua organização! Como todas as partes de seu corpo estão bem-dispostas, como se harmonizam e se completam para que ele possa mover-se, deliberar, lutar e vencer! Ah! Não estrague ele as molas engenhosas sobre que gira!
Mas, perguntar-me-eis, a que vêm essas observações quando nos convidastes para ouvir-vos sobre assunto tão limitado qual o da riqueza intelectual?
Atendei e julgai.
No desenvolvimento em que vou entrar do prometido assunto, haveis de reconhecer como tudo está sabiamente combinado para conseguimento do destino do homem, para realização dos fins providenciais da humanidade.
Meu empenho será demonstrar que a mesma superior harmonia que nos comove em presença das grandes obras da natureza, que notamos na organização do homem, não é alterada em pontos de manifesta inferioridade relativa.
Sempre a mesma sabedoria, a mesma previdência, a mesma inflexível exatidão, os mesmos inabaláveis desígnios.
Parte integrante da humanidade, o homem tem de trabalhar para o bem da grande família humana; é ele o operário da civilização.
Se tem de cuidar em si para libertar-se de dois flagelos, a miséria e o embrutecimento, tem de atender à harmonia do todo para escorar os dois poderosos esteios da humanidade, a virtude e o saber. Diversos fins, meios diversos.
Daí as assinaladas diferenças entre a riqueza material e a intelectual.
A riqueza material é para o homem; a riqueza intelectual é para a humanidade.
A riqueza material o homem a adquire e consome; a intelectual o homem adquire e não consome.
Os herdeiros da riqueza material são os filhos, os da riqueza intelectual não somente os filhos, mas todos os homens.
A riqueza material partilha-se entre poucos herdeiros; a riqueza intelectual, derramada pela imprensa, conserva-se indivisa para patrimônio comum da humanidade.
Quantas salientes distinções, e como elas estão indicando o papel diferente que a cada uma compete, desenhando-se sempre a mesma extraordinária previdência que tudo acautelou!
O fruto do trabalho material não pode ser comum; porque, se o fora, o resultado seria a geral inércia. A ninguém conviria ser produtor; quereriam todos ser consumidores. Daí a desordem, o desequilíbrio, o aniquilamento.
O fruto do trabalho intelectual é um benefício geral; todos podem dele aproveitar-se, e, aproveitando-o, nem por isso diminui a soma de riqueza daquele que o produz.
É que todos os que estão na altura de trabalhar para consecução dos destinos humanos devem deixar recolhidos os elementos para que outros em idênticas circunstâncias, seja qual for sua pátria ou sua família, os ampliem e desenvolvam, lançando cada século uma pedra no edifício monumental da civilização.
Pretendeu um dia o homem erguer nas margens doo Eufrates uma torre que fosse disputar ao céu o conhecimento do espaço. Louca tentativa que a confusão das línguas fez abortar em Babel. Se pudesse haver meio de construção para elevar o homem ao céu, esse meio seria o de levantar a torre invisível das ideias com uma escala misteriosa e impalpável como a de Jacob, cujos degraus se formassem com os produtos intelectuais acumulados pelos séculos que se fossem sumindo na escuridão dos tempos. Só assim, a ser possível, terminaria o suplício de Prometeu, eternamente agrilhoado ao Caucaso com as renascentes entranhas sempre devoradas pelo abutre vingador do ousado cometimento de arrebatar ao céu o fogo divino.
A riqueza intelectual não se perde. A riqueza material está sujeita a todos os riscos da incapacidade, da má fé, dos acidentes naturais.
Diz-se com razão que o saber não ocupa lugar; dele goza-se tranquilamente. A riqueza material inquieta, sobressalta, e às vezes gera o crime. É que a riqueza intelectual está dentro em nós, e não pode ser arrancada, e a riqueza material consiste em objetos estranhos que podem ser arrebatados. Conta-se de um ilustre príncipe que, perseguido pelos vai-vens da política, encontrou no tesouro de sua inteligência os recursos de que necessitava em terra estranha.
A riqueza intelectual, quanto maior e mais esplêndida, se lança os raios mais cintilantes, não embaraça o modesto cultor das letras.
A grande riqueza material, imã atraente de força prodigiosa, cresce como os grandes rios, absorvendo as águas dos pequenos regatos.
Ainda uma última notável diferença.
A riqueza material, se favorece o desenvolvimento da intelectual, não pode produzi-la. O milionário pode viver cercado das mais luxuosas livrarias, deleitar a vista com livros raros de custosa encadernação; mas sua inteligência não dará um passo sem força própria.
O depósito das riquezas materiais são pesadas massas de ferro preparadas para resistir aos estragos do fogo, e que se ocultam no ponto mais seguro de grandes habitações. O depósito das riquezas intelectuais são as bibliotecas, que se ostentam aos olhos de todos sem provocar cobiça; que pedem e instam para que as frequentem, para que aproveitem seus tesouros. A um livro sucede-se outro, e todos na mais plácida união pedem que os folheiem, sem nunca reclamarem repouso, sem nunca exigirem recompensa.
Multiplicai as bibliotecas; fazei com que elas apareçam ainda nas povoações mais remotas: eis o brado ingente que os pensadores do século dirigem incessantemente aos povos e aos governos. A despesa é pequena: uma sala, um bibliotecário, luz, pois que são mais benéficas as que também se abrem á noite.
Junte-se ao livro o jornal, e muitos dos que hoje consome ingratamente tempo precioso correram para o lugar sereno onde podem simultaneamente instruir e deleitar o espírito.
Radique-se no país o hábito profícuo da leitura; procurem-se cautelosamente os livros úteis; e antes do século que pedia Leibnitz para, por meio da instrução, mudar a face do mundo, terá sensivelmente melhorado a situação de nossa pátria.
Sendo tão proveitosas as bibliotecas, essas exposições da riqueza intelectual, como pode o homem lançar mão sacrílega sobre o grande empório da ciência antiga, a famosa biblioteca de Alexandria, fundada por Ptolomeu Philadelpho, que chegou a reunir 700,000 manuscritos? Também as recordações da posteridade ferem com justa condenação essa fatídica sentença de Omar, executada porseu terrível lugar-tenente Amrou, que, apesar de sua brutalidade, não ousou tomar sobre si tamanha responsabilidade; fatídica sentença que fez consumir pelas chamas num momento o fruto paciente de longos séculos de fadiga. As labardas desse, o mais destruidor dos incêndios, lançam ainda luz sinistra sobre uma página lutuosa da história, sem que seu lúgubre clarão servisse ao menos, como pretendia o arrogante califa, para alumiar o caminho por onde devessem passar triunfantes as doutrinas do profeta, empenhadas na conquista do mundo.
Que atrocidade! Novos Heróis, decretou Omar a degolação dos inocentes. Calígula, Nero, Hiliogobalo, fizeram montões de vítimas humanas; Omar enfeixou, em suas mais esplêndidas manifestações, todos os gênios sublimes até então conhecidos, e os suplicou nesse medonho auto de fé que foi a grande hecatombe das robustas inteligências da antiguidade.
Deus, porém, não consentiu que se apagassem todos os lugares das remotas eras. Da sanha islamita escaparam algumas vítimas ilustres. Outras, embora com dolorosas mutilações, vieram ainda iluminar o mundo moderno.
Se as que se puderam salvar contribuíram tanto para o renascimento das letras, quanto não teríamos avançado se muitos dos manuscritos, que serviram para aquecer os banhos lubricos da cidade egípcia, tivessem podido atravessar as idades!
Felizmente nos tempos que correm não há que recear cenas de tamanho vandalismo. João Gutemberg vingou nobremente as gloriosas vítimas do califa sarraceno.
Podemos empenhar-nos sem temor na fundação de bibliotecas; e quando elas abundarem no brasil, e se contarem por milhares as escolas e os cursos noturnos, e por dezenas academias e as universidades, representaremos na república das letras o brilhante papel daqueles que acumulam a riqueza intelectual. Que contraste então com o tempo presente!
Sei quais as dificuldades com que, ao constituir-nos nação independente, tivemos de lutar, à vista dos obstáculos opostos pelo governo da metrópole á disseminação das luzes na colônia; e reconheço que se depois não temos feito mais na aplicação dos remédios convenientes, é porque não conhecíamos o mal em toda a extensão.
Hoje, porém, estão dissipadas as trevas. Os recentes trabalhos estatísticos descarnam a triste situação em que se acha em nosso país a riqueza intelectual.
Sem querer cansar vossa benévola atenção com a repetição fastidiosa de algarismos, peço, entretanto, licença para apresentar ligeiramente os dados que sobre tão interessante ponto estão coligidos. Poucos são, mas bastam.
No município da corte o total da população livre é de 226,033 pessoas, das quais sabem ler 99,156, e vivem em completa ignorância 126,877. Há o excesso de 27,721 analfabetos.
A população escolar eleva-se a 41,514 crianças, das quais somente vão à escola 10,056, e deixam de frequentá-la 31,468, havendo em detrimento da instrução o contristador acréscimo de 21,422.
Não posso repetir sem um sentimento especial, facilmente explicável, os dados que se referem à província do Paraná, minha província natal, por cujo engrandecimento faço os mais ardentes e constantes votos, e a cuja prosperidade consagro os meus fracos esforços.
Ali a população livre eleva-se a 116,162. Sabem ler 33,816. São analfabetos 84,346. A diferença contra a instrução é de 50,530.
A população escolar é de 24,852. Frequentam as escolas 4,424. Não frequentam 20,428. É desoladora a diferença de 16,004 em favor da ignorância.
Na província de Santa Catarina, sobre uma população livre de 144,818 pessoas, sabem ler somente 21,926. Há, contra a instrução o deplorável excesso de 100,966, pois que vivem sepultadas na ignorância 122,892.
A população escolar é de 36,363 crianças, das quais somente vão à escola 5,214. Deixam de ir 31,149. A diferença de 25,935 entre um e outro número é bem pouco lisonjeira para a causa da instrução.
A província do Rio Grande do Norte, a última de que temos dados completos, não apresenta aspecto mais animador.
A população livre sobre a 220,959. Adquiriram a instrução primária 39,822. Não sabem ler 181,137. Diferença 141,315!
Na população escolar o mesmo lastimável desequilíbrio. O total é de 43,220. A matrícula nas escolas só compreende 4,701. Não se matricularam 38,519. Diferença 33,818!
Deduzido no total da população que não sabe ler nem escrever o número de crianças de tenra idade, que não podem frequentar as escolas, ainda assim não é possível desconhecer o atraso em que nos achamos, e que mais se manifesta quando se comparam os algarismos relativos à população escolar. Aí não há desconto alguma a fazer, e a desproporção entre os meninos que frequentam as escolas e os que não as frequentam provoca os mais solícitos cuidados do governo geral e dos provinciais para esta magna questão social. Estariam mui longe de compreender a importância e responsabilidade de seus cargos os administradores públicos que, depois das revelações da estatística, não consideram me entre os primeiros, senão o primeiro de seus deveres, o desfazer cessar tão lastimoso estado de coisas.
Quando sabemos quanto em outros Estados cultos está generalizado o ensino primário, não podemos fazer sem dor a comparação com o nosso país. Como são raros lá os que não frequentam as escolas! Como são raros aqui os que as frequentam! Que esperanças podemos nutrir de caminhar desembaraçadamente para o futuro se não tiver extraordinário incremento a distribuição do ensino elementar?
Não são poucos os que entre nós consideram a instrução primária isolada como coisa de medíocre valia. Entendem que desde que não se tem de cursar as aulas secundárias e as superiores inútil é perder tempo na frequência das escolas primárias. Deplorável erro que nunca combateremos assaz. É por isso que pode dizer-se grande o número dos que frequentam as nossas aulas secundárias e cursos superiores, comparando-o com o dos que se matriculam nas aulas primárias.
Empenhemo-nos todos em modificar profundamente uma situação que não pode manter-se sem alguma quebra na dignidade de nossa pátria. E vós o alcançareis, senhores, se for essa a vossa firme resolução.
Para exata apreciação de meu pensamento devo uma explicação.
O que tenho dito poderia induzir-vos ao erro de supor que não dou o devido apreço à riqueza material.
Para remover de vosso espírito essa suposição, bastaria a consideração decisiva de que uma nação pobre não pode ser verdadeiramente grande; e eu ambiciono para o Brasil tudo o que contribui para dar-lhe politicamente a grandeza com que no mundo físico o dotou a Providência. Quero-o forte e poderoso, não para calcar o direito, mas para ser respeitado no exterior, e poder, à sombra da paz, cuidar tranquilamente no interior dos melhoramentos complexos que constituem a felicidade pública.
Não posso combater a riqueza material desde que, na proporção dela, arrecadam-se os impostos.
É com o produto dos impostos que se erguem os templos em que o homem prosta-se diante do Criador, e que se mantém os exércitos e as esquadras que defendem e garantem a segurança do território nacional.
É com o produto dos impostos que se constroem esses museus, essas universidades, essas academias, essas escolas, que são os grandes focos de luz que esclarecem o povo.
É com o produto dos impostos que abrem-se canais e fazem-se estradas que, facilitando as permutas, excitam o homem ao trabalho.
Não é possível condenar a riqueza material sem lavrar sentença de imobilidade para o desenvolvimento nacional. O que convém proscrever do modo mais vivo e enérgico são os meios ignóbeis de adquiri-la.
Lemos, é verdade, no capítulo XIX do Evangelho de S. Matheus, que é difícil entrar o rico no reino dos céus. Difícil, decerto, quando a riqueza gera o orgulho no espírito, a sobranceria no ânimo, a dureza no coração.
Esse rico, para quem dificilmente se abrirão as portas do céu, é o avarento, alma estéril, que não se apraz senão diante do ouro que aferrolha; é sobretudo esse taciturno e sombrio usurário, alma enregelada, que exaure as presas que caem sob suas garras vorazes; reduz à miséria famílias inteiras, sem que lhe estremeça a consciência; e atira sem compaixão nas ruas da amargura as vítimas de sua insaciável cobiça.
Não é assim, tratando-se do rico que acumulou capitais com o esforço constante do mais honesto trabalho, nem do que os herdou de pais que limpamente os adquiriram, quando estão sempre dispostos a empregá-los em proveito da pátria, que é a mãe comum, ou em suavizar as mágoas dos infelizes em quem a sorte adversa não mirrou as flores da alma, e socorrer os míseros enfermos que, prostados no leito da dor, não podem pedir ao suor do rosto o pão quotidiano.
Vê-de Peabody, esse honrado banqueiro bafejado pela fortuna, que consumiu grande parte de seus avultados cabedais em dotar a pátria de muitos melhoramentos, levantando monumentos à instrução popular, e habilitando-os com o patrimônio necessário para a sua manutenção. Podemos condenar a riqueza que produziu tão benéficos frutos?
Para as almas desses beneméritos da humanidade muito devemos confiar nos dons inexauríveis d misericórdia divina.
Acumulemos a maior soma possível da verdadeira riqueza intelectual; reunamos a riqueza material que puder ser honradamente alcançada; e preparemos nosso país para a brilhante jornada do vigésimo século.
Esse século, que tão próximo está, tem de representar o mais importante papel para os destinos futuros da humanidade, a julgarmos pelos trabalhos preparatórios do século atua, agitando, em busca de solução, as mais complicadas questões de organização política, social e teocrática.
As máquinas aperfeiçoadas, o vapor, o telégrafo elétrico, deram ao trabalho extraordinário movimento, e às ideias espantosa velocidade.
Os importantes sucesso, que abalam uma parte do mundo, repercutem sem demora nos pontos mais afastados, e são logo apreciados em todo o seu interesse, em todo o seu calor.
Está dado o primeiro passo para a fraternização dos povos. Profundas modificações têm de sofrer as relações internacionais. Os acontecimentos seguem uma lógica inexorável.
Nem pode ser de outra sorte desde que elementos novos, de efeitos os mais transcendentes, entram na composição da era que vai começar. Os resultados de sua ação benéfica não se farão esperar.
Aproveitemos sem descanso o tempo que veloz corre; se esbanjarmos esse precioso capital, que não volta, o século vindouro pode surpreender-nos nos moles braços da indolência. Recuaremos, e os povos que recuam, caro pagam sua pusilanimidade. Ficam atrazados no caminho, abatidos, cabisbaixos. Nem ousão fitar o sol que desponta.
Não, essa não há de ser a nossa sorte. Os brasileiros sabemos que não é lícito morrer para a pátria pela indiferença; que para o serviço do Estado o cidadão só perece quando a luz se lhe apaga nos olhos, quando a laje fria cobre-lhe o sepulcro.
As resoluções varonís, que nestes últimos tempos o Brasil tem tomado com a mais perfeita seguridade e a mais robusta fé, alentam-me as esperanças risonhas, não me deixam fraquear o ânimo envolto em preocupações do bem público.
Tenho confiança em meus concidadãos, em sua energia, em sua virilidade, e, apoiado nessa confiança, busco nas visões de meu espírito devassar por entre as névoas do porvir a sorte reservada á minha pátria no próximo século; e capacito-me de que, pelo indefesso trabalho de seus filhos, o Brasil há de então entrar-se entre as mais prósperas e respeitadas nações.
Porfiemos; e Deus que, do alto do firmamento, vela sobre a sorte da humanidade, coroará com suas apetecidas benções os nossos patrióticos esforços”.
Localização
Conferências Populares, Rio de Janeiro, nº3, mar.,1876, p. 23-35. (na integra). Capturado em 10 agosto 2025. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/DOCREADER/278556/265
Ficha técnica
- Pesquisa: Yolanda Lopes de Melo da Silva, Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.
- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.
Forma de citação
Conferência Popular da Glória nº 28. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 30 nov.. 2025. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=619
Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz – (http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br)