Conferência Popular da Glória nº 88

De Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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Data: 11/10/1874

Orador: João Manoel Pereira da Silva

Título: Torquato Tasso e João Milton.

Aviso, íntegra ou resumo: Íntegra

Texto na íntegra

“Senhor! Senhora! Minhas senhoras e senhores: — O fim d'estas conferências não é propriamente esboçar vida de poetas, e nem analisar-lhes as obras; consiste antes em apreciar o que seja poesia épica, e demonstrar quanto é ela distinta e superior aos outros gêneros de poesia, como a mais vasta produção harmônica do espírito, cuja essência se pôde dizer a unidade na imensidade.

A poesia lírica encanta, extasia, eletriza tanto mais quanto exprime os variados movimentos d'alma, os arroubos inefáveis do entusiasmo: a dramática enternece, comove, pela vida em ação, pela realidade dos acontecimentos postos diante dos olhos, pelo jogo das paixões reais e interessantes; a poesia épica eleva, porém, muito mais o espirito, porque concentra um fundo importante, histórico, rodeado de episódios maravilhosos, sob o regime das grandes leis simétricas, que embelezam e divinizam o todo, e as suas partes relativas, e derramam ao mesmo tempo o interesse, não lhe escapando nem a instrução nem o maior grau de imaginação, quer na descrição, quer no desenho, quer no colorido, quer na melodia, quer na magnificência, quer no grandioso. Admirais um edifício gótico um palácio mourisco, um templo moderno; mas quem, aparecendo-lhe aos olhos o Coliseu, ou a igreja de S. Pedro de Roma, aquele com suas massas gigantescas, tão harmonicamente colocadas, proporções grandiosas, mas ajustadas entre si que se diriam montanhas sobrepostas e continuadas; esta rasgando os ares com sua cúpula principal, que desafia emparelhar com as nuvens, embelezando o horizonte outras mais pequenas, menos majestosas, mas tão .harmônicas, um todo igual, completo, perfeito, debaixo de todos os pontos de vista, todas as partes admiráveis por serem ligadas e entrelaçadas; quem não dirá, estes São os poemas épicos da arquitetura! Na pintura vossos olhos se deliciam diante de muitos painéis de Raphael, Murillo, ou Corregio, mas quanto vos não exalta a vista o gigantesco monumento do juízo eterno de Miguel Ângelo? Eis-ahi o poema épico da pintura como aqueles são os da arquitetura! Fazendo estas imagens por uma ideia poética da epopeia, consenti agora que eu continue a aprecia-la, quer na análise de cada um poeta, quer na comparação entre suas obras, para perceberdes as

semelhanças e dessemelhanças, as qualidades distintas e superiores ou inferiores, e os diversos aspectos sob que eles, inspirados cada ura por seu gênio particular, empreenderam e executaram sua nobre missão literária.

Toca-nos hoje Torquato Tasso. Nasceu em Sorrento; às ribas do golfo de Nápoles, no ano de 1544. Seu pai, militar e poeta, sofreu exílio e perseguições que o separarão da mulher e filhos. Levou consigo Torquato para educá-lo convenientemente, e serviu a soberanos estrangeiros para poder sustentar a existência.

A Itália, por esse tempo, andava ainda dividida, como se acostumara desde o desmoronamento do império romano A antigas influências estranhas acrescentava-se ainda a de Hespanha, senhora de vários territórios, e não menos tirânica. Cada pequeno Estado tinha sua corte, seu príncipe ou chefe, rivais entre si, senão de todo pelas armas, pelos desejos ao menos de emular e sobressair pelo brilho, magnificência e esplendor de capitães e cortes.

Os papas procuravam concentrar em Roma, os Medicis em Florença, os Estes em Ferrara, os Gonzagas em Mantua, assim vários príncipes em seus outros Estados, uma corte luzida de poetas, pintores, arquitetos, estatuários, músicos, sábios, enfim de espíritos cultos, que derramassem brilho e gloria, e mostrassem quanto os soberanos animavam as artes, as letras e as ciências.

Em cada uma dessas cortes notavam-se também princesas, senhoras de grandes talentos, de instrução, de gosto literário, protetoras igualmente das artes. O sexo feminino, em Itália, no século XVl, dedicava-se ao estudo, á poesia, à pintura; quantas brilharão ao lado, ou rivalizando com Victoria Colomna em Roma, que reunia em seu palácio o que havia de superior nas ciências, letras e artes, representadas então por grandes gênios? Era assim a Itália uma especialidade, e gloriosa, no meio da Europa. Já que não tinha unidade de governo e de território, já que estava avassalada por estranhos, cativa de ambiciosos espanhóis, franceses, alemães, vingava-se vencendo as outras nações pelo cultivo e desenvolvimento das letras, das artes e das ciências, mostrando-se muito superior a seus dominadores pelo espírito e pela inteligência.

A casa de Este, que tinha por chefe Affonso II de Ferrara, conseguiu chamar para seu serviço e sua corte a Torquato Tasso, ainda bem jovem, mas já conhecido por várias canções, odes, até por um poema romanesco com o título de Reinaldo, Affonso deu-lhe aposentos no palácio e uma pensão pecuniária. Suas duas irmãs Leonor e Lucrécia acompanharam-no na proteção a Tasso, e esmeraram-se em provar estima a seus talentos. Eram ambas engenhosas, ilustradas, artistas, e apreciadas geralmente.

Assim, no meio dessa corte de Ferrara, escreveu Tasso e concluiu aos 31 anos de idade o seu poema de Jerusalém libertada, que dedicou em 1575 a Affonso de Este.

Anterior a ele foram os Lusíadas, e Tasso apreciava tanto o gênio de Camões, que dirigindo a Vasco da Gama versos inspirados, assim exclamou:—Por mais longe, porém, oh! Vasco, que vão tuas naus audaciosas, por mais alto que subam tuas aspirações, não chegaram tão alto nem tão longe como os vôos do gênio do grande Camões. (Muito bem.)

Na Itália Trissino pretendera formar um poema épico com fatos históricos da pátria. Mas não merecera apreço a sua obra, e fora logo esquecida. Os poemas que se espalhavam, e sorriam ao público, erão só romanescos, aventurosos, de cavalherias, sobre Carlos Magno, seus paladinos e suas legendas e torneios d'armas. Boiardo, Puci, Poliziano, e particularmente o divino Ariosto encantavam Itália com esses poéticos devaneios e deliciosas loucuras, que cintilam tão agradavelmente no Orlando furioso.

Tasso se separara dessa escola, e executara o terceiro poema épico moderno. A família de Este encheu-se dedicatória do poema, conservando o seu serviço de corte. Tasso foi d'aí por diante mais considerado, honrado e estimado em Ferrara.

Mas ou porque Tasso, infeliz na juventude, quer por sequer por sua família, guardara sempre indelével a reminiscência dos seus infortúnios, e com ela o influxo das passadas desventuras sobre o seu caráter, ou porque, o que me parece sinais provável, excessiva de mais fosse sua imaginação, falhando-lhe o equilíbrio necessário com as outras faculdades do espirito, e tudo o que na organização humana não é harmonia é desordem, certo é que seu ânimo se mostrava sempre enevoado, abatido por sofrimentos Íntimos, e, o que é mais, seu procedimento como particular era sujeito a censuras merecidas pelas irregularidade de vida.

Sua imaginação exuberante não pra contrabalançada pela razão, seu entusiasmo pelo bom senso, suas paixões pelo dever; e nem sabia resignar-se a dores da vida, ou resistir a contratempos, que todos suportamos no correr da existência terrestre.

N'aquele cérebro só a imaginação era superior. A razão lhe não faltava á poesia, mas sim á vida. A inteligência estava sã, mas o caráter transviado.

O gênio não é senão a vibração de uma das cordas intelectuais do homem. A razão é que forma a harmonia de todas. Uma corda pode conservar-se intacta, sonora, perfeita mesmo, e faltar todavia a harmonia no concerto geral. (Muito bem.)

Não se pense que assim são todos os grandes poetas, como muitos o propalam. Não. Tem havido gênios superiores, até enciclopédicos, e ao mesmo tempo gloriosos em vários e distintos ramos dos conhecimentos humanos, e que fazem marchar de acordo as faculdades do seu espírito, de modo a nada faltar-lhes para se conservar ao nível da sociedade, prestar serviços a pátria e a humanidade, e produzir obras portentosas.

E que n’eles a imaginação, ainda que possante e vigorosíssima, estava em relação exata com uma razão infalível.

Tasso, porém, tornava-se triste, hipocondríaco, suspeitoso e desconfiado de tudo e de todos Ora espalhava que era traído por quantos se diziam seus amigos e admiradores ; ora que era vigiado por invejosos de seus talentos ; ora que a inquisição se preparava a persegui-lo por suas opiniões religiosas, e foi preciso para o apaziguar n'este incidente que Affonso de Este obtivesse dos inquisidores de Ferrara uma declaração assignada de que o consideravam verdadeiro católico e apostólico romano; ora enfim Tasso procurava esconder-se, dizendo que o queriam matar, ou deixava de comer, receando que o tentassem envenenar. Assim tornava-se um ente desgraçado, e até sujeito ao ridículo.

Uma vez achando-se nos aposentos da princesa Lucrécia a ler versos perante uma sociedade escolhida, e entrando um criado do paço, Tasso atirou-se de repente sobre ele, pretendendo feri-lo com um punhal, apelidando-o seu assassino. Foi logo preso por louco, e recolhido á casa reservada aos desgraçados que padeciam d'esta moléstia terrível.

Mas Affonso pouco tempo o deixou aí, e mandou-o curar-se no convento dos franciscanos, com ordem de ser tratado com todo o carinho. Cumprirão bem sua missão os dignos monges. Tasso pareceu melhorar, e recuperou a razão. Eis porém que uma noite desapareceu do convento, abandonou repentinamente Ferrara, fugiu para o sul da Itália, só, sem a roupa precisa, sem os meios necessários.

Deixando de parte as cidades como Bolonha, Florença, Arezzo, Roma e Nápoles, atravessando na maior miséria os Apeninos e os Abruzzos, seguiu caminho para Sorrento, sua pátria, procurando a casa onde nascera, e onde ainda morava pobremente uma sua irmã viúva, Cornelia, com dois filhos menores.

Apresentou-se à irmã com a fisionomia mudada, trajos de pastor infeliz, e declarou-lhe que Tasso o mandara lhe dizer para que vivia no meio dos maiores riscos e perigos, e te- mia ser assassinado a cada momento por seus inimigos. Attonita Cornelia, manifestou as mais pungentes dores, e, banhando-se em pranto, ofereceu-se ao desconhecido para fazer tudo quanto coubesse em suas forças, afim de salvar o irmão Então Tasso se descobre pedindo, todavia, a Cornelia que o receba e acolha em sua casa, mas a ninguém, nem a seus famulos e filhos, declare que com ela se acha seu irmão, porque seus inimigos podem, sabendo onde está, ir procurá-lo para lhe arrancar a vida.

Cornelia reconheceu o desarranjo mental de Tasso, e cuidou de sossega-lo e trata-lo com todo o carinho. Alguns meses se conservou Tasso em sua companhia, e dir-se-hia que melhorava a olhos vistos, graças ou aos cuidados da irmã, ou aos ares pátrios, que aos grandes talentos sobretudo falam sempre como amigos e consoladores, ou pela vista d'esse admirável panorama do Golfo de Nápoles, que sorri com suas ilhas frescas e verdes, seus cabos de Myseno e Pausilipo, seu Vesuvio a iluminar o horizonte constantemente com lavas de fogo, suas cidades de Baia, Torre dei Grego, e em particular a majestosa Parthenope, banhando-se como odalisca nas águas tranquilas e alegres da magnífica bahia.

Tasso não se pôde, todavia, habituar a vida calma e solitária de Sorrento. Um dia abandonou a irmã, a casa de seu berço, a arvore que na infância o cobrira de sombra, sem mostrar o menor sentimento. Dirigiu-se para Roma, procurou alguns cardeais e personagens ilustres a pedir-lhes conseguissem de Affonso de Este licença para ele voltar para Ferrara, mostrando-se arrependido da sua fuga d'ali, e confessando-se transviado da mente quando a praticara.

Affonso resistiu ao principio, mostrando quanto desagrado lhe causara o procedimento do poeta; mas instâncias tão repetidas foram empregadas que cedeu, impondo condições a Tasso para voltar a Ferrara, e reentrar no serviço de sua corte: deveria tratar-se da moléstia que lhe acabrunhava o cérebro, e cuidar de proceder com mais discernimento.

Ei-lo, pois, de regresso a Ferrara, acompanhado desde Roma por um diplomata de Affonso, e cercado de toda a consideração. Acolhido pelo príncipe e pelas duas princesas com provas de amizade, alojou-se em palácio, e continuou a Viver como antes de sua fuga.

O ânimo de Tasso estava, no entanto, arruinado demais para ele resignar-se a uma existência quieta e pacífica. No fim de alguns meses, queixando-se de que era desprezado e ridicularizado, fugiu segunda vez de Ferrara sem dar satisfações aos príncipes seus protetores, e seguiu para Mantua, Milão e depois Turim.

Na capital do Piemonte, foi muito bem acolhido pelas principais personagens, e quem não receberia carinhosamente o maior gênio poético italiano da época, cuja fama e nome voavam por toda a parte, cujas canções e poema erão lidos com entusiasmo por todo o povo? Tasso ocupou-se, todavia, não em repousar e reganhar saúde, mas em escrever e publicar versos, ora contra Affonso de Este, ora de amorosas missivas a uma Leonor, de quem se mostrava extremamente apaixonado.

Affonso irritava-se, de certo, com as notícias de Turim, e tanto mais se trocava em seu peito a estima que consagrava a Tasso em furor e desespero, quanto se propalava em Itália que a Leonor cantada pelo poeta era sua irmã, a princesa de Este, que tanto protegera a Tasso.

Não pôde Tasso parar ainda em Turim; abandono do Piemonte, e sem suplicar licença de Affonso, regressou a seus Estados e entrou em Ferrara.

Affonso, ao saber a nova mandou-o recolher preso ao hospício de Sant’Anna, em um quarto baixo, úmido, estreito, quase inabitável.

Não há viajante que passe por Ferrara e deixe de ir visitar essa miserável célula, onde jazeu por um ano ou mais o desgraçado poeta. Milton, Montaigne, Lamartine, Chateaubriand, Goethe, falam da prisão de Tasso, que eles foram examinar. Affonso passou-o depois para uma sala melhor e arejada do hospício, deu-lhe mais cômodo tratamento, consentiu-lhe receber visitas dos admiradores de seu gênio, e no fim de sete anos o mandou soltar, e sair de Ferrara e de seus Estados.

Todos os literatos têm unisonamente censurado Affonso de Este por este ato de violência e despotismo. Uns o imputam a que Affonso se receava de que o poeta abandonasse sua corte para se passar para a dos seus rivais, os Medicis de Florença, que muito desejavam honrar sua pátria com a presença de Tasso. Outros o atribuem ao boato dos amores de Tasso com Leonor de Este, como castigo de ousar o poeta erguer suas vistas e dirigir sua paixão a uma princesa. Há quem pense também que a loucura reconhecida de Tasso, e o ódio de Affonso pelas suas sátiras, deram motivo verdadeiro à prisão do poeta.

Examinemos estas três opiniões para reconhecer a verdade histórica.

A Affonso dedicara Tasso o seu poema, e n'ele o elogiara lisonjeiramente. A glória estava adquirida para Ferrara e sua corte e família. Que receio poderia ter mais de que o poeta preferisse a residência de Florença?

E se Affonso o queria sempre em Ferrara, porque com dificuldade lhe permitira licença para voltar, quando de Roma lhe fora ela suplicada?

Amores com Leonor de Este! E este um incidente de que os poetas dramáticos posteriores e os romancistas se têm servido para ornar a vida de Tasso, e torná-la pitoresca e poética; é uma verdadeira lenda, que agrada, seduz e cumpre reduzir à sua expressão verdadeira,

O que a história nos diz é que houve em Ferrara duas Leonores, na corte de Este, a princesa, e Leonor condessa de Scandinavo: aquela passou sempre por muito virtuosa, ilustrada, amante e protetora das artes e letras, caritativa e estimada do povo: tinha maior idade além d'isto do que Tasso. A segunda foi uma das mais formosas mulheres que se tem notado. Os poetas do tempo e de Ferrara, Ariosto e Guarini, falam de sua beleza com assombro, o próprio Tasso dedicou-lhe um soneto encomiástico com seu nome por extenso.

Ora Tasso, em seus versos a Leonor, nunca declarou e nem deixa adivinhar qual das duas Leonores lhe inspirava os afetos. Se a suspeita subiu a Leonor de Este foi pela proteção que ela deu ao poeta, ou pela perseguição que centra ele moveu Affonso?

Se Tasso a amava, o que pode ser, foi ou não correspondido? Se foi, porque o poeta duas vezes fugiu de Ferrara, e ambas quando estava no auge do favor da corte e nas boas graças de Affonso de Este? Se não foi, então essa paixão tornou-se um martírio paria q desgraçado, e, o que é de admirar, só ele se lembrou de a decantar quando em Turim, depois de fugido duas vezes de Ferrara; ainda mais, depois de o ter assim publicado, ousa regressar a Ferrara, devendo supôr que não poderia ali mais encontrar proteção.

Acresce ainda uma circunstância notável. Tasso da sua prisão endereçou uma ode a Leonor e Lucrecia de Este, implorando-lhes a intercessão para ser solto. Ai declara o poeta que se confessa criminoso, porque sofre de padecimentos mentais, que é culpado porque é louco, e que elas, como dois anjos que são, e duas virtuosíssimas senhoras, tivessem d'ele compaixão.

Assim trataria. Leonor de Este se sua amante ela houvesse sido?

Seria a loucura de Tasso, causa da sua prisão, ou já despeitos de Affonso? Essa sim me parece a verdadeira. Affonso aborrecera-se do poeta desde que o satirizara. Como quer que seja, sobre Affonso lança a história, imprime a posteridade uma nodoa, um estigma indelével, que lhe desdoura os créditos e desonra a vida. Para que reteve sete anos preso o desditoso poeta? Não sabia que os infortúnios dos grandes talentos e gênios são a eterna acusação dos príncipes e das nações? Que um príncipe, uma nação, desdoura-se por preferir a mediocridade, a lisonja, a humilhação, ao talento, à altivez, a independência? Não gera sempre simpatia no povo e na posteridade o fato de um grande gênio, ou talento notável? E quão atroz e excessiva não foi uma prisão por sete anos, qualquer que fosse o delito do poeta?

Maltratado do corno, do espírito, partiu Tasso de Ferrara e acolheu-se a Roma, esse asilo outrora de todos os grandes infortúnios e decepções da vida. O cardeal Cyntio o quis alojar em seu palácio. Tasso preferiu a companhia dos monges de Santo Onofrio. cujo convento edificado sobre uma eminência do arrabalde ocidental de Roma, domina toda a cidade e goza do mais admirável panorama. Cyntio lembrou-se que Petrarcha havia sido coroado no Capitólio como grande poeta; pediu e obteve do papa que a mesma honraria se concedesse à Tasso. Preparou-se o cerimonial, fixou-se o dia. Tasso; porém, minado de repente por uma febre maligna, expirou nos braços do cardeal Cyntio, em Vésperas do seu triunfo e coroação, na idade de 51 anos e no ano de 1595.

O cardeal Cyntio mandou ornar o cadáver, leva-lo em carro triunfal ao Capitólio, receber aí a coroação devida ao grande poeta, praticando-se a cerimônia como se vivo ainda estivesse Tasso. Terminada a cerimônia, voltou o cadáver para Santo Onofrio, é no centro da igreja se depositou em perpetuo jazigo, cobrindo-o uma larga pedra de mármore com este simples dístico em letras de bronze - Torquato Tasso. (Muito bem)

O poema de Tasso não é só notável pelo assunto, é ainda, particularmente para os Italianos, um monumento de gosto elevado e fino no estilo, metrificação e rima. Dante fizera do italiano uma língua forte, enérgica, varonil, mas Petrarcha à afeminara de modo a parecer só prestar-se a afetos doces e suaves. Todos os poetas posteriores de Itália, à exceção de Alfieri, preferiram a escola de Petrarcha. Tasso adotou-a, e pode-se dizer, aperfeiçoou-a ainda, tornando a frase, o verso, mais harmonioso, se e possível, mais eufônico, mais musical.

Tasso e Camões descendem de Virgílio, criador da escola estilista, e artista perfeito. Homero e Dante fizeram apenas da linguagem o instrumento da ideia, da imagem grandiosa, e nunca subordinaram o pensamento à expressão plástica do metro. Nem todos os que fazem versos são poetas; nem mesmo todos os que fazem bons, excelentes versos, o são. Os versos tornam-se apenas a fôrma, em que a poesia se traduz e dilui as vestes com que ela se cobre e mostra; a poesia provém da imaginação. O verso é o instrumento que vibra o som que ela pretende fazer ecoar.

A metrificação de Tasso é tão perfeita, que no seu tempo e até nossos dias todas as classes do povo aprendem de cór as estrofes do seu poema e as recitam extasiadas da melodia do verso. Os gondoleiros de Veneza, ao clarão do luar, no meio das lagunas, no canal do Rialto, ao balançar do remo que conduz o ligeiro batei, murmuram sempre e cantão estrofes da Jerusalém libertada. Os pescadores de Nápoles, os pastores de Arezzo, repetem-nas, lançando as redes ao mar, ou guardando o gado.

O assunto não podia ser mais bem escolhido; é a guerra das Cruzadas; é a luta entre cristãos e maometanos. A religião anima uns e outros combatentes; a religião não tem pátria, forma uma só nação com povos de diversos idiomas, diferentes governos civis, costumes vários, distantes solos, sem a menor liga ou interesse entre si, que não seja a do culto.

As Cruzadas são um episódio notabilíssimo na história da Europa. Durou dois a três séculos. Começou no século XI. Sabe-se que toda a Europa era cristã, e a Ásia maometana. Os árabes se haviam assenhoreado da cidade de Jerusalém, que continha o túmulo de Jesus Cristo, desde o desmoronamento do império romano. Ora, era crença geral e antiga na Europa que uma viagem, peregrinação ou romaria a Jerusalém, remia os pecados, salvava as almas do inferno e até do purgatório.

Constantemente era a terra santa frequentada por peregrinos a fazer penitência. Aos milheiros ou isolados, ou em grupos numerosos, lá iam, homens, mulheres, velhos, moços. Os muçulmanos de Jerusalém começarão a maltratá-los, insultá-los, obstar-lhes as romarias. Queixas dos cristãos ecoavam por toda a parte contra a tirania muçulmana. O papa Gregório VII, no século XI, lembrou aos povos europeus formar exércitos, e restaurar o domínio cristão em Jerusalém. Sua voz foi ouvida pelas várias nações da Europa. Mais de sessenta mil homens apresentarão França e Alemanha. O sumo pontífice era, todavia, mais político e estadista que representante da santa religião, que só deve cuidar de interesses espirituais, falar à consciência e propagar os verdadeiros dogmas. Pela política abandonou Gregorio Vil seus primeiros intentos, preferindo ser soberano temporal poderoso, e impor seu predomínio aos reis cristãos da terra. (Muito bem!)

Ao findar o século, porém, apareceu um monge a pregar pela Europa uma guerra santa contra os maometanos, afim de salvar o túmulo de Jesus Cristo, sevandijado, insultado, como ele o observara por si, pelos sectários do Islamismo. Chamava-se Pedro, autorizava-se com licença do papa, incitava o movimento pela religião, e pela palavra—Deus o quer. O ermitão Pedro conseguiu fazer partir uma primeira cruzada, ou reunião de guerreiros, por terra, em 1097. Mas todos eles foram desbaratados, destruídos pelos muçulmanos ao deixarem Constantinopla e ao se internarem na Ásia. Segunda Cruzada se levantou, mas esta séria, e com chefes habilitados, em 1098. Goffredo de Buillon conduziu os cruzados à Terra Santa, bateu os muçulmanos, tomou á força de armas Jerusalém, e aí criou um reino que foi efêmero, durou pouco tempo, mas que contou entre seus soberanos Goffredo, seu irmão, e outros guerreiros. Os turcos, que começavam a sobressair, e que curvarão sob seu jugo os árabes até então dominadores, e cuja decadência principiara, coadjuvados por outros povos da Ásia, expeliram por fim os cristãos de Jerusalém, resistiram por dois a três séculos a novas cruzadas, restaurarão sob seu jugo toda a Ásia oriental e África, e por fim se apoderarão de Constantinopla no século XV, extinguido o império do oriente ou grego, e ousando vir à Europa atacar seus inimigos.

Eis o fato histórico escolhido por Tasso para assunto de seu poema, que começa com a nomeação de Goffredo para chefe dos cristãos, e acaba com a tomada de Jerusalém, conservada assim a ação em limites regulares.

O acontecimento preferido prestava-se a um verdadeiro poema épico. Bastava orná-lo com episódios maravilhosos para sustentar o interesse. Mas Tasso não foi tão simples como seus antecessores. Predominava nele a imaginação. Nenhum poeta o igualava nessa faculdade do espírito. Tasso fez um verdadeiro romance, em vez de um poema épico, com o assumpto das Cruzadas. Nenhuma condição lhe falta da epopeia, mas tão romanesco, tão dramático, tão repleto de peripécias e intrigas enamoradas, como ele é, distingue-se dos demais poemas épicos. Agrada mais aos moços, às donzelas, aos apaixonados, mas diminui de valor, por isso mesmo, perante o gosto e a razão.

Começa o poema descrevendo o campo cristão em Tortosa. Goffredo, Tancredo da Sicília, o conde de Tolosa, são guerreiros históricos: outros de imaginação, como Reynaldo, do qual faz Tasso descender a família dos Estes de Ferrara, passão suas tropas em revista. Delibera-se nomear Goffredo chefe, e atacar Jerusalém.

Passa depois a Jerusalém. Aladin a governa. Argante e outros chefes mouros o sustentam. No campo cristão juntam-se e pintam-se franceses, ingleses, alemães, escandinavos, húngaros, espanhóis, italianos, portugueses, gregos; de toda a parte da Europa saem os cruzados. No campo muçulmano reúnem-se os árabes, turcos, drusos, beduínos e outros povos da Ásia.

Tasso pinta com as mesmas cores e desenhos os guerreiros cristãos e muçulmanos. São todos bravos, cavalheiros, valerites, generosos e denodados. Não distingue cristãos de mouros o cantor das Cruzadas: e as pinturas não nos dão tipos particulares, individuais, distintos um do outro, como são os de Homero, Camões e Dante.

Depois nota-se ainda que Tasso imaginou três tipos de mulher para organizar a intriga do seu poema. Não quiz nem urna cristã. Procurou-as todas entre as maometanas. Pois não haveria mulheres nos acampamentos, nas comitivas dos cruzados? Hermínia o poeta descreve apaixonada por Tancredo, que ela quando prisioneira dos cristãos vira e conhecera, devotada a seu amor, capaz de sacrifícios por ele: Clorinda, sem paixões ou instintos femininos, só guerreira, combatente e dedicada aos seus e à pátria: Arminda, uma fada, mágica, encantadora, revolvendo-se em feitiços e bruxarias, linda como tudo o que pôde a natureza produzir de mais admirável, verdadeira cópia da Vênus de Camões.

Tancredo em um combate singular com Clorinda, ao despedaçar lhe o elmo e descobrir o rosto, reconhece-lhe o sexo, fascina-se com sua formosura, enamora-se em um instante, não a ataca mais, e deixa-se bater. Felizmente para ele estendera-se a luta aos dois exércitos, e Tancredo e Clorinda foram assim separados.

Os demônios, que são todos do partido dos maometanos, incitados por Satanás, espalham-se por entre os muçulmanos, e os animam a perseguir os cristãos. Resolve-se Armida a seduzir guerreiros no campo de Goffredo, magnetizando-os com seus encantos femininos. Atônitos os guerreiros cristãos com o deslumbrante de tão esquisita beleza, que a eles se dirige, querem todos acompanhá-la, e a salvar-lhe o trono, que ela diz pertencer-lhe e lhe fôra usurpado por um parente bárbaro. Goffredo os contém, mas, a bem pesar seu, concede que dez a sigam, afim de auxiliá-la. Não dez somente, esse foi o número permitido, muitos, porém, mais correm após a formosura divina que os fascina e cativa.

Ha perto de Jerusalém uma floresta, de onde podem os cristãos tirar elementos para a guerra. O mágico Ismenio a encanta, assim a fecha aos inimigos de Mahomet. Alli vai ter Armida com os guerreiros cristãos que a acompanharão, e estes ficam encantados pela moura.

Reinaldo, que matara em duelo um chefe cristão, fugindo também do campo, penetra na floresta, é visto, e amado por Armida, que o arrebata, leva para as ilhas afortunadas, e entrega-se com ele a todos os prazeres no meio dos jardins magníficos, e dentro de um palácio de fadas.

No entanto Herminia, desesperada por ver Tancredo, toma as armas de Clorinda, cobre-se com elas, e corre ao campo cristão. Pensão todos que é Clorinda, a terrível, a valentíssima guerreira, e precipitam-se contra Herminia. Tancredo trata logo de defendê-la, e ei-lo que a procura. Herminia, fugindo, recolhe-se entre pastores. Tancredo cai na floresta encantada, e fica prisioneiro.

Terrível posição dos cruzados! Faltam-lhes os melhores guerreiros, são açoutados pela peste e dizimados pelo ferro muçulmano Goffredo sofre as mais pungentes dores, e não sabe como vencer os perigos que o cercam.

Um ermitão aparece, cristão e mágico, que noticia onde está Reinaldo, e que só ele pode destruir o encantamento da floresta. Dois mensageiros são então mandados às ilhas afortunadas. Reinaldo os vê, arrepende-se. do que faz, toma as armas, abandona Armida, e corre ao campo cristão. A desesperação de Armida é pintada com cores admiráveis, ao abandoná-la o amante por quem tudo sacrificara.

Reinaldo penetra na floresta encantada, não faz caso das imagens de Armida, com que é recebido, combate os espíritos infernais, e reduz a floresta ao serviço dos cristãos, tirando-lhe os encantamentos. Corre depois a salvar Tancredo-e os demais guerreiros, e os conduz ao campo de Goffredo. Começa o sítio de Jerusalém com vigor e energia.

Clorinda delibera destruir as máquinas de madeira que junto aos muros da cidade levantam os cruzados. Não encontrando suas armas pretas, que Herminia levara, toma outras de côr diversa. Ela e o terrível Argante conseguem os seus intentos. Cai dão os cristãos de defender-se, e salvar suas obras entregues ao incêndio. Tancredo encontra-se com Clorinda. Combate renhido travão. Tancredo traspassa o peito de Clorinda com sua cortante espada. Cai Clorinda ao chão, Tancredo tira-lhe o capacete, reconhece-a, desespera-se, pede-lhe perdão, declarando-lhe seu amor, sua paixão extremada, Clorinda enternecida pela primeira vez em sua vida, ela, que nunca sentira emoções e afetos amororos, roga-lhe a batize para morrer cristã.

Assalta-se Jerusalém; são vencidos os muçulmanos, levanta-se a bandeira dos cruzados sobre seus muros e torres, salva-se o túmulo de Jesus Cristo. Acaba o poema com uma derradeira vitória contra Solimão, do Egypto, que acudira em auxilio dos maometanos.

Não se pode deixar de elogiar o maravilhoso cristão de que se serviu Tasso, abandonando de todo o da mitologia grega, quando Camões e Dante o haviam desacertadamente empregado, mesclando-o com o da religião moderna. Não se pode deixar também de sentir um êxtase, um prazer indefinível, quer diante de um episódio solto no poema, o de Olinda e Simphronio, que se não liga à ação, quer perante cenas de amor, de combate, de paixão, de encantamentos, de fadas, com que nos enleva o gênio de Tasso.

Mas ao mesmo tempo sentimos que haja ali imagens de mais, e o que é pior, que parecem só produtos da imaginação, e não do sentimento real e patético: que um tão belo poema se tivesse convertido em quase romance; que contra os costumes, usos, e religião dos maometanos se mulheres pintassem tão europeias de ideias, de sentimentos, de paixões, de gênio empreendedor e ativo! Aqui é Tasso inferior aos seus rivais na epopeia, porque falta á verdade histórica, e á verdade da natureza cujas leis se devem respeitar e cumprir escrupulosamente.

A pompa excessiva da Jerusalém a faz mais artificial que patética. Posto que superior em imaginação aos demais poetas heroicos, não os iguala na simplicidade da ação, como o belo ideal a exige.

Já deu a hora para esta conferência. Paro com Tasso, declarando apenas que lhe faltam a melancolia de Camões, a ciência profunda de Dante, o misticismo austero e gracioso de Milton, a sublimidade de Homero, a suavidade e doce efusão de afetos de Virgílio, posto que mais ornado, imaginoso, repleto de pompa, e de aventuras interessantes e dramáticas, seja de certo o poema de Jerusalém. (Muitos e repetidos aplausos partem de todos os lados).

Localização

- Conferências Populares, Rio de Janeiro, nº4, abril 1876, p. 25-41 (na integra). Capturado em 28 agos. 2025. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/docreader/278556/390

Ficha técnica

- Pesquisa: Yolanda Lopes de Melo da Silva, Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.

- Revisão: Ana Carolina’ de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca. 

Forma de citação

Conferência Popular da Glória nº 88. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 30 nov.. 2025. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=678

 


Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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