Conferência Popular da Glória nº 162

De Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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Data: 06/02/1876

Orador: Tristão de Alencar Araripe

Título: O estudo da História Pátria

Aviso, íntegra ou resumo: Íntegra

Texto na íntegra

“Senhores - Um preceito de amizade e o sincero desejo, que sinto, de ver progredir a instituição fundada nesta corte no intuito de desenvolver a instrução publica, trazem-me hoje a esta tribuna.

Acedendo ao convite do meu amigo, o muito ilustrado presidente desta associação, eu não quiz esquivar-me ao meu comparecimento aqui, por entender que, assim o fazendo, demonstraria com o meu exemplo, que ainda aos menos habilitados não é lícito negar-se ao concurso geral, que deve dar animação e vigor às conferências populares, que me parece terem tido aceitação do ilustrado público da corte, e proveito reconhecido por todos. (Muitos apoiados.)

Receoso de que, na presente ocasião, outro se escusasse e a nossa conferência de hoje não pudesse ter lugar, não hesitei em aceitar o convite do meu honrado amigo, decerto de que não vinha trazer aqui as flores graciosas da eloquência (não apoiados), mas convencido do dever que impõe-nos o preceito de empenhar todos os esforços, a fim de que a instrução publica derrame-se n'este país, que não pode certamente prosperar sem a cultura intelectual de seus filhos, predestinados a glorificação da pátria, que desde o berço já é gigante.

A instrução pública é a base de todo o desenvolvimento e prosperidade do nosso país, assim como o é também de qualquer outro povo.

Se, porém, todos os povos precisão de instruir-se ante o grandioso espetáculo da civilização, muito mais precisamos nós curar deste assumpto, porque somos um povo novo, que, desprendido recentemente das faixas infantis, agora enceta a sua educação viril.

Começamos ontem a ocupar posição entre as nações do mundo; já temos 10 milhões de almas espalhadas em vastíssimo território; mas d'esses 10 milhões de indivíduos apenas 2 milhões sabem ler e escrever!

Estes simples algarismos mostram a magnitude da nossa empresa, e tornam patente o dever que tem todo o Brasileiro de empenhar-se pelo derramamento das luzes na pátria das nossas afeiçoes.

Como, senhores, poderá o Brasil, sem larga instrução publica, chegar aos seus altos destinos pela sensatez da política, pelo incremento da indústria, e pela progressão da riqueza nacional, cujas fontes pujantes e numerosas concitam a nossa atividade?

Um povo, que de si mesmo confia a sua sorte; que em sua mão tem os seus destinos; que dirige pelas inspirações da consciência nacional os seus atos, esse povo, senhores, só instruído e ilustrado poderá com vantagem figurar no mapa das nações. (Muito bem!)

Sendo assim, é consequente que todo o esforço empregado na propagação da instrução pública do Brasil será obra benemérita: eu jamais esquivar-me-ei ao concurso n'esse grande cometimento.

Não levantam-se os palácios e as altas pirâmides sem que aí, ao lado do granito e do mármore polido, coloque-se o • diminuto grão de areia que os cimenta e segura; eu, que não posso polir o mármore nem afeiçoar o granito, trarei o imperceptível grão de areia para a obra da nossa civilização. (Muito bem.)

Todas as ideias no mundo passão, completando um ciclo determinado, findo o qual desaparecem para abrir campo a outras, que encerram novos princípios, origem de novos bens ao gênero humano. Duas ideias, porém, permanecem no pensamento da humanidade; e são instrução e justiça.

Por meio da instrução adquire o homem aquele grau de aptidão e capacidade necessárias para o preenchimento dos seus destinos na terra; aptidão e capacidade, que tanto mais amplas devem ser quando esse homem é membro de uma sociedade regida por instituições livres como é o Brasil.

Ao cidadão livre, que toma parte nas deliberações públicas, elegendo mandatários, a quem dá instruções, e de quem exige contas, é indispensável a instrução, sem a qual nem saberá deliberar, nem conhecer do bom ou mau desempenho da missão daqueles a quem se confiam os públicos negócios.

Sem justiça a vida social, ingênita a natureza humana, é impossível. A justiça nas sociedades humanas é o princípio conservador, que as mantém, preservando-as da dissolução que resultaria da contrariedade das paixões, e dos interesses ilegítimos, suscitados pela ausência do prêmio e do castigo.

Como, porém, fazer justiça, e avaliar delia sem instrução?

É tão necessária a instrução para a existência e prática da justiça, que os sagrados livros ensinam-nos como impreterível a luminosa máxima: Erudimini, vos, qui judicatis terram.

A instrução e a justiça, pois, são duas ideias fundamentais, que não têm fim restrito, mas sim geral, constituindo condição indispensável à vida das sociedades humanas.

Um povo, na sua máxima parte sem ilustração, nem pode por si praticar a justiça, nem avaliar os atos dos poderes sociais para os chamar ao exato cumprimento dos seus de veres.

D'aqui resulta grave perigo. Os povos sem luzes, em vez de conterem p poder social por atos de prudência e sabedoria, quando vítimas de alguma injustiça, rompem, por assomos de irreflexão, em lamentáveis catástrofes.

Assim, senhores, o tempo da justiça nunca passa, nem também o da instrução, base da justiça e do seu aperfeiçoamento.

Portanto incumbe-nos como cidadãos brasileiros não poupar esforços para que no império americano a instrução derrame-se, tornando-se universal.

Feitas estas considerações, saídas agora quase por involuntário impulso do coração, sobre o motivo que trouxe-me a este lugar, passo a enunciar o objeto, acerca do qual pretendo discorrer nesta amigável conferência.

Falarei, senhores, sobre o estudo da história pátria, considerando o modo porque cumpre escrevê-la; direi o que entendo dever o historiador brasileiro ter em consideração no desempenho da nobre tarefa de escrever a história da nossa pátria.

Ninguém duvida da utilidade da história, a que um ilustre escritor antigo denominou luz da verdade, e mestra da vida.

Nestas palavras está o elogio da história, que não constitui uma ciência de mero deleite e recreação, mas uma escola de proveitosa lição para o homem, e para a sociedade.

Expondo os acontecimentos, que nos precederão, deve o historiador ter por intuito duas cousas: premiar o mérito dos benfeitores do gênero humano, aos quais a prudência dos séculos denomina heróis, e excitar nobres estímulos de imitação dos grandes modelos de patriotismo, desse sublimado sentimento e generoso, que dignifica o homem ante a própria consciência, e infunde-lhe valor para as mais altas empresas, que o homem pôde cometer.

Se o historiador não tiver nos seus intuitos conseguir estes dois fins supremos da lição da história, não compreenderá por certo o destino da mesma história, nem poderá, portanto, ser o seu fiel intérprete.

O escritor brasileiro, pois, que pretender escrever a história da nossa pátria, terá em consideração desenhar a figura respeitável dos nossos homens beneméritos, de maneira que existem em nossos corações o amor para com as suas venerandas sombras, e persuadam-nos quanto é doce a recompensa da virtude pela gratidão da posteridade.

Para isso cumpre examinar com escrupulosa exatidão a verdade, e não desprezar fatos que deem a medida do caráter do homem, que consagrou-se ao bem do seu país.

Se o pintarmos com perfeição, e se ao retrato dermos os traços característicos do verdadeiro herói, oferecendo à imaginação do leitor as feições intimas da alma do homem egrégio, teremos exibido modelos capazes de excitar os mais santos desejos de imitação.

Quantos atos generosos, quantos sacrifícios úteis tem visto o mundo, nascidos da admiração dos nobres exemplos!

Pode o historiador ser benfeitor da pátria, se souber no manejo da pena escolher assumptos e figurar os grandes moldes, em que deve fundir-se o patriotismo brasileiro.

Escrevendo a história nacional, cumpre ao escritor refletir sobre a notável diferença da história antiga e da moderna, em relação a compreensão dos assumptos.

Na história antiga o escritor, embora destro e habilíssimo, tinha diante de si ideias menos amplas do que as dominantes atualmente no seio da humanidade; e essa amplidão de ideias está na mesma proporção em que está o mundo moderno para o mundo antigo.

Outrora limitava-se o mundo à Europa, Azia, e África e seus mares ribeirinhos com acanhadas ilhas; hoje o mundo abrange essas três grandes regiões, a vasta América, a remota Austrália, as inumeráveis ilhas de todos os mares, e a amplidão quase incomensurável do Oceano!

O historiador antigo possuía os factos de pequenos povos, sem ilustração, se exceptuarmos os Gregos e os Romanos: o historiador moderno tem ante o seu pensamento os sucessos de grandes e ilustradíssimas nações, guiadas por uma civilização esplendida.

Na Jonia, Grécia, e Itália estreitava-se a antiga civilização, que ministrava material para a história; a civilização moderna abrange todos os continentes, e já penetra nas apartadas ilhas do Pacífico, resumidos vestígios da imensa catástrofe dos tempos primitivos.

Que diferença na magnitude dos fatos, e na vastidão da experiência!

O homem diante de sucessos grandiosos exalta-se, estende a compreensão do seu pensamento, e vai buscar na fonte primaria da sabedoria a explicação dos atos humanos, cuja razão se lhe oculta, quando laboriosa investigação a não arranca dos íntimos recessos do coração.

A antiguidade, sem os elementos de crítica, e sem a soma de experiência das idades modernas, restringia a sua história aos indivíduos ou a certa ordem de fatos mais ou menos memoráveis.

Os historiadores de então celebravam os indivíduos pelas proezas bélicas, e as guerras pela extensão do horror e do estrago.

O estratagema e a felicidade celebrizavam o general; a vastidão dos males dava importância às guerras.

O espírito moderno não encara a humanidade dentro de tão estreitos limites: ele a quer conhecer em toda a sua plenitude, e para esse fim estuda os fatos de todos os gêneros, e analisa-os por todas as faces.

A história antiga representa unicamente o drama de peripécias ruidosas; a história moderna narra os fatos dos reis e dos capitães, como narra as ações do operário, para exibir a lição do justo e do honesto.

D'estes contrastes, pois, nasce a grande diversidade da história antiga e da moderna.

Em uma há mais compreensão de assuntos, e aio [sic] profundeza de vistas; n’outra maior artificio, e menos atenção às causas providenciais.

O que notamos, com efeito, entre a história das épocas remotas, e dos tempos recentes.

A comparação de uma e outra oferece-nos palpável contraste.

Os historiadores antigos não escreviam a história dos povos, narravam os acontecimentos, de que erão protagonistas homens notáveis; referiam as lutas entre cidades, dando preferência aos atos mais estrondosos, porém não aos de maior proveito à humanidade.

A história antiga tem os heróis da guerra; o seu Hercules era um semideus porque possui enorme força muscular, e com a massa abatia a hidra de Lerna, assim como trucidava os salteadores, seus êmulos ou antagonistas: era a entronização da força material.

A história moderna tem os heróis da paz, aqueles que no silencio dos gabinetes regem com sabedoria os povos, e aqueles que nos milagres da indústria melhoram a condição dos homens, santificando assim os esforços do trabalho e da moral.

Os historiadores antigos escreviam a história dos reis; os historiadores modernos ocupam-se com a história dos povos; os escritores antigos celebravam as devastações e os morticínios; os escritores modernos aplaudem as conquistas da indústria, a confraternidade dos povos, e o triunfo dos sãos costumes.

Os antigos escritores, em summa, seguiam o estrepito dos factos e o seu brilho exterior, com desprezo do sentimento moral, que constitui o verdadeiro elemento da história moderna.

Nos tempos idos os povos erão rivais, concentravam em torno de si toda a sua atividade no intuito do seu próprio e exclusivo desenvolvimento: os povos estranhos erão objeto de preza, se mais fracos, e objeto de terror, se mais fortes; por isso tão somente o guerreiro tinha mérito, tão somente o general alcançava o aplauso dos historiadores, intérpretes do sentimento dominante dos povos.

Eis porque as guerras da antiguidade erão pugnas de extermínio.

Assim desapareceu Tróia ante o ferro, e o incêndio dos capitães gregos; assim Roma arrasou Carthago, cumprindo-se o voto incessantemente repetido pela fórmula do austero Catão Censor: Delenda Carthago.

As nações de hoje alimentam mais generosos pensamentos, e vêm em todos os povos da terra amigos, a quem não depredam, e de quem não receiam injustos acometimentos.

Daí provém que, em razão do sentimento de confraternidade dos povos modernos dispensam-se os guerreiros, que antes são flagelos do que bens, e ambicionam-se os estadistas, os sábios, e os industriosos.

As conquistas da guerra só podem aproveitar ao povo conquistador; nascem, pois, do sentimento do egoísmo: as conquistas da indústria convertem-se em benefício comum do gênero humano; e procedem do sentimento de confraternidade, que aproxima os homens, e persuade os povos a dos bens gozar da terra sem opressão nem vexame de uns contra os outros.

A indústria no seu espírito cosmopolita conquista sem exclusões; tudo cria sem nada destruir.

D'este modo, senhores, contrapostos os tipos morais do caráter antigo e do caráter moderno dos povos, reconheceremos a razão por que a história antiga individualiza-se, quando a história moderna generaliza-se.

Por isso também os escritores da antiguidade não escreverão a história dos povos, a que pertencia o, com a extensão de vistas, que cumpria; escreverão, sim. a história de reis e de generais; expuseram a crônica de uma ou de outra guerra mais ou menos notável por seus horrores e estragos. A vida inteira de um povo nenhum d'eles escreveu.

Neste ponto havemos alcançado incontestável melhoria sobre a antiguidade.

Se compulsarmos os modernos historiadores, conheceremos logo esta verdade.

A leitura das obras históricas de Guilherme Robertson de Frederico Ancillon, de"Adolpho Thiers, e do preclaro escritor americano Jorge Bâncroft, dá-nos a medida do modo compreensivo porque narram os sucessos das épocas, que se propuseram historiar.

Verdade é que duas circunstâncias, patentes ao espirito de todos, concorrem para dar essa superioridade generalizadora dos historiadores modernos sobre os antigos, aos quais aliás não faltavam talentos e engenho.

Outrora as fontes de informação erão escassas.

Os atos dos governos de então escondiam-se nas sombras do segredo, e não divulgavam-se pela publicidade dos documentos, e pela discussão dos atos.

Nos dias de hoje os governos têm necessidade de justificar-se; tudo ou quase tudo publicam, e a imprensa vulgariza amplamente todos os factos da vida social.

E, pois, fácil ao historiador dos nossos tempos coligir materiais para fazer completa a história.

Além d'isso temos a estatística, que os antigos ignoravam, porque não faziam do complexo e estudo dos fatos sociais essa nova ciência, que tão luminosos auxílios presta ao historiador.

A boa estatística é, para assim dizer, a mais completa e perfeita história de um país; porquanto ela não é senão a exibição dos factos resultantes da atividade de um povo era todas as suas manifestações, sem o enredo do drama, e sem o interesse das reflexões do escritor.

A história antiga resumia-se, como já dissemos, na exaltação do indivíduo, e na exposição de uma certa ordem de fatos; era, para bem dizer, belicosa e individual: a história moderna é ampla, abrange todos os assumptos, e compreende todo o desenvolvimento da vida dos povos.

Os Gregos, por exemplo, encerrarão toda a sua história nas contendas domésticas, e nas guerras contra os Persas.

Com as primeiras tinham por fim manter as instituições republicanas contra os tiranos internos; com as segundas defendiam a própria existência contra os agressores externos.

Tudo quanto saía fora desses dois pontos, os Gregos julgavam indigno da gravidade da história.

Calaram, pois, tudo quanto em sua vida como povo não tinha intima relação com estas duas ordens de factos.

Os Romanos consideravam como fim supremo da sua atividade sustentar o patriciado, e estender as suas conquistas.

Só estes dois objetos constituirão assumpto das suas histórias.

Daqui nasceu à míngua de notícias que temos sobre o desenvolvimento interno do povo-rei.

Dominados pela estreiteza desses pensamentos, os escritores antigos falsearão a história.

Assim vemos que os Gregos, escrevendo a sua própria história, apenas compuseram narrações incompletas: só a parte essencialmente política e guerreira da sua vida nos é conhecida.

As outras partes da história do povo grego, debalde buscaremos hoje nos monumentos literários da antiguidade.

Heródoto, Xenofonte, e Thucydides, os mais conspícuos e abundantes historiadores da Grécia, referem as guerras dos Gregos com os Persas, e as lutas intestinas de Athenas com

Esparta, e outras cidades competidoras do supremo império.

O que pertence às ciências, a indústria, ao comércio, aos costumes, e a todos os outros modos, porque manifesta-se a atividade dos povos, de tais matérias só acidentalmente falaram.

Assim, apenas incompletas noções podemos colher sobre a economia publica, e sobre a riqueza particular dessas famosas repúblicas da Grécia.

Da vida intelectual dos Gregos ajuizámos por fragmentos dos escritos dos seus sábios filósofos: os historiadores não nos dão ideia do que era essa vida, aliás tão esplendida, e luminosa.

Se recorrermos aos historiadores romanos, vemos em Tito Lívio, o mais completo deles, que a história do grande império somente pelo lado político e guerreiro foi encarada.

Tão somente a luta dos plebeus contra os patrícios; tão somente as invasões e as vitórias de Roma contra os vizinhos nos primeiros tempos, e depois contra os povos mais distantes, merecerão do facundo escritor latino as suas elocubrações e vigílias.

Contam-nos esses historiadores como os patrícios resistirão às pretensões dos plebeus; como estes pela insistência, pelo valor, e pela força do direito conseguirão assinaladas vitórias; contam-nos como o povo romano, começando com Romulo no Quirinal, roubou as donzelas sabinas, dominou as sete colinas, tomou o país dos Volscos, ocupou a Itália toda, e por fim transbordou, indo imperar na África, nas Galias, e na Asia.

Mas se pretendeis saber quais os direitos dos patrícios, e quais os dos plebeus; quais os limites do poder público, e quais as regalias do cidadão; se quereis saber como o poder supremo levantava exércitos, criava rendas, e administrava os diversos serviços do Estado, aí começa a escuridão, e nada mais podereis saber senão por inferência dos resultados gerais narrados por esses historiadores.

Pela luta incessante da plebe e da nobreza conjecturamos que o governo de Roma primitiva era o do privilégio; e assim injusto e gerador de contendas interiores; pela grandeza das conquistas avaliamos das forças empregadas na guerra, as quais se não mantém sem grandes recursos pecuniários, e sem administração inteligente e provida.

O historiador, porém, não deve limitar a sua missão dentro de tão acanhada compreensão. E dever seu dar ideia completa e cabal da vida do povo, cuja história escreve.

Não é só pelo lado político que um povo manifesta a sua vitalidade, e que convém estudá-lo e conhecê-lo.

Para bem conhecermos um povo convém saber quais a suas instituições políticas, quais as suas leis civis, e quais as suas regras municipais.

Sem este conhecimento, os factos.se não explicam suficientemente, nem poderemos penetrar a razão de certas revoluções, que na ausência de informações consideraremos como desatinos populares, quando aliás as leis da nação os explicam perfeitamente.

Nenhuma revolução sem causa poderosa. A análise da história ensina-nos esta máxima.

Os antigos historiadores, ou porque não compreendiam bem o caráter da história, ou porque erão intensos ao espírito popular, narravam os sucessos, exibiam as catástrofes, e não nos iniciavam no segredo delas pela exposição da lei nacional.

Assim, se erão justificados os governos, o eram à custa e com o sacrifício dos povos.

Quem, pois, tiver de escrever a história da nossa cara pátria, o Brasil, muito acautelado deve proceder contra os defeitos apontados.

Não deve seguir um ou outro ramo somente da nossa história, noticiando apenas as façanhas políticas e belicosas, aliás as duas faces da história mais sedutoras, por isso mesmo que são aquelas em que contemplamos os sucessos mais estrondosos, e que mais impressionam a imaginação.

Não é somente a vida política dos povos que reclama a atenção do historiador: a legislação do país com o seu desenvolvimento e progresso; a indústria com os seus pacíficos cometimentos e espantosos resultados hodiernos; a religião com a doutrina santa dos costumes, são outras tantas manifestações da atividade de um povo, que devem ser plenamente conhecidas, para ajuizarmos dele, e colhermos profícuas lições.

Pode um povo ser consumado na arte política, mas desprezar a justiça, porque não cultiva a religião dos costumes; pode ser audaz e belicoso, mas negligente no trabalho.

O historiador, que apresentar-nos apenas o lado político, e o lado guerreiro do povo, e deixar nas sombras o lado dos costumes, e o lado da indústria, deixa-nos incompleta a notícia, e força-nos às probabilidades da conjectura para crer que esse povo nem curou dos bons costumes, nem honrou o trabalho, quando representa-nos os seus males, e a sua precipitada decadência.

Se o historiador nacional satisfizer a esse empenho, expondo os factos da vida social em todas as suas relações, nem por isso lhe não incumbirá atender a outro ponto de mui subida importância.

Será um dos sagrados devores do historiador brasileiro apresentar à veneração dos posteros a memória dos varões beneméritos, que engrandecerão esta pátria com atos generosos, invenções úteis, e obras excelentes.

A antiguidade oferece-nos neste ponto insigne modelo de forma, cujo estudo é digno do escritor sincero.

Refiro-me às biografias de Plutarco. Este biógrafo dos grandes homens gregos e romanos dá-nos com pincel magistral o retrato de seus herdes por tal forma delineados, que impossível é ao leitor não achar aí uma escola de moral e patriotismo, que enobrece o coração, e o enche da inabalável convicção, do que pátria é entidade real, a que devemos sacrifícios, e não artificiosa invenção para ilegítimas especulações.

Pinte o historiador brasileiro os nossos grandes cidadãos, como Plutarco desenhou os homens celebres da Grécia e Roma, e estou certo que conseguirá fazer relevantíssimo serviço ao seu país, a quem dirá patriotas sinceros e verdadeiros.

As nobres inspirações que a leitura de ações heroicas fomenta, são uma fonte de bem geral; e quem desperta o nobre entusiasmo da virtude, auxilia as mais profícuas empresas do espírito humano.

Cumpre-nos observar que o ilustre escritor de Cheronéa, escolhendo os seus herdes, e oferecendo-os á imitação da posteridade, incorreu no erro comum desses tempos, em que só se reputavam beneméritos e grandes aqueles cidadãos que pelas façanhas belicosas ou políticas conseguiam elevar o seu nome acima do vulgo, e dar-lhe fama.

Erro é esse fatal, que não deve perdurar na opinião.

Não são herdes somente aqueles a quem as proezas estrondosas deram celebridade; não, também o são aqueles que no silencio dos gabinetes descobrem as leis da gravitação; aqueles que nos laboratórios químicos acham as combinações da matéria; aqueles que no assíduo labor da indústria inventam os teares, aplicam a força motriz do vapor, e sujeitão a faísca elétrica à vontade e ao serviço do homem.

Verdadeiros heróis são esses; pois assinalam-se por façanhas pacíficas e proveitosas à humanidade; e sem as devastações da guerra, e sem o sangue das batalhas, e sem as lagrimas dos oprimidos operam úteis reformas, que centuplicam os bens e os gozos da humanidade.

Os antigos escritores imbuídos desse erro, e como ministros da injustiça, prodigalizavam em suas obras históricas elogios a essas individualidades, a quem aliás muitas vezes atribuíam influência nos públicos negócios superior á importância real dos seus atos, e deixavam no olvido o mérito do sábio e do artista, porque as ações destes, como o regato que se desliza manso e calmo fertilizando os campos, passavam sem ruido e sem estrondo.

É deste modo que vemos os Gregos apregoar virtudes e talentos no seu Alexandre Magno, deixando tudo o mais nas sombras e no esquecimento.

Se Alexandre Magno foi notável gênio da guerra, nem por isso devemos exagerar o mérito das suas proezas Executor d’esse pensamento hostil dos Gregos contra os Persas, dos quais buscavam vindicta, e contra cujas invasões desejavam premunir-se, não é um herói imaculado.

O filho de Filippe de Macedônia executou uma empresa árdua e pasmosa, empresa sustentada pelo espírito da nacionalidade helênica; mas não basta isto para o seu completo elogio, e para merecer a verdadeira admiração do mundo.

Balanceemos a glória do herói macedônico com os resultados finais da sua empresa para avaliarmos do merecimento real d’ela.

Alexandre Magno formou medíocre séquito de soldados, invadiu temerariamente a Pérsia, e aprisionou o seu soberano, em cujos soberbos palácios alojou-se como senhor absoluto de um remo povoadíssimo, que absorto o contemplava.

O facto maravilhoso pasmou o mundo inteiro, e naturais eram a admiração e os aplausos.

O nome do destemido e feliz guerreiro soou em todos os ouvidos; as suas façanhas encherão todas acrônicas, e todas as histórias; e o homem, que do centro da Macedônia transpusera o Indo, onde só Baco até então tocara, tornou-se o objeto do louvor de todos os historiadores. O generalíssimo dos Gregos foi o non plus ultra do heroísmo.

Para a sua pátria, porém, quais foram os prós do grande cometimento?

Melhor fora a obra da paz, se o talento e a prudência a houvessem dirigido,

Se a Grécia, deixando de entregar-se ao gênio belicoso de um homem, resistisse aos Persas, como até então resistira; se a Grécia, deixando de consumir na guerra as suas forças e os seus tesouros, os houvesse empregado nas obras da paz, não houvera por certo sucumbido, recebendo em pouco tempo o jugo do poder romano.

Mantivessem os Gregos as suas forças vivas, sob o influxo da publica tranquilidade e do trabalho, e podemos assegurar que nem Paulo Emilio os vencera em Pidna, nem o cônsul Tito Flaminino lhes impusera o jugo no meio das aclamações das assembleias dos jogos ístmicos, quando finalmente sucumbia o generoso Filopemen com o honrosíssimo título do último dos Gregos.

O êxito final, pois, da inaudita empresa do guerreiro, que intitulou-se filho de Júpiter, foi a ruína e o avassalamento da sua pátria.

Nos nossos dias não vimos Napoleão Bonaparte dominar a Europa, elevando o nome francês á mais subida altura, para depois vir a reação contaminar o solo da França com a invasão dos Cossacos?!

O mento das obras da paz é superior aos resultados do gênio dos combates; por isso não desdenha o filósofo o juízo de um mavioso poeta da nossa formosa língua, referindo-se ao quando vencedor de Isso e de Arbellas, dizia:

Mas este bom soldado, cujo nome

Não há poder algum, que não abata,

Foi, Marilia, somente

Um ditoso pirata

Um salteador valente.

Os antigos historiadores consagrarão sempre os encomios aos homens notáveis por façanhas estrondosas, sem criticarem se essas façanhas erão proveitosas á pátria, ou se mero resultado de reprovadas paixões em desproveito da causa comum.

É assim que os escritores de Roma exaltarão a Julio Cesar.

De simples cidadão romano elevou-se a ditador para converter-se em opressor do seu país.

Não duvido que esse homem ilustre tivesse na sua vida uma parte realmente gloriosa e digna de legítimos aplausos.

Em Roma pugnou pelo triunfo dos grandes inimigos das liberdades públicas, opondo resistência aos excessos do patriciado

Indo às Gálias preservou a pátria de perigosos inimigos que com assaltos repetidos incomodavam as populações pacíficas dos municípios vizinhos, e que por constante rudeza de leis e costumes impediam as relações regulares do comercio em extensas regiões.

Júlio Cesar, depois de subjugar os gauleses, e cobrir-se com os louros de inúmeras vitórias, não quis continuar no desempenho do serviço da causa popular: abusando das forças obtidas em nome da pátria, arma-se contra ela, vem à Itália, expele o senado romano, que o esbaforido Cneo Pompeu não soube defender, e vai em Farsália dar o último garrote nas instituições republicanas, que haviam dado grandeza a Roma e esplendor ao nome romano.

A pátria dos Cincinatos e Fabricios; sucumbia para levantar-se o império dos Calígula e Caracallas.

Enquanto Júlio Cezar, admirável talento da guerra e da política, serviu aos interesses da sua pátria, foi decerto digno dos elogios da história; na parte final das suas façanhas, porém, não devera o historiador prodigalizar-lhe os louvores com que os seus encomiastas o exaltam.

Se o famoso ditador ao voltar das Gálias, suplantando as facções rivais e a petulância de corrompidos tribunos, houvera dado vigor ás leis pátrias, por via do restabelecimento da dignidade do senado e da inteireza dos tribunais, teria, poupado os rios de sangue, que correrão desde Farsalia até Munda, sangue precioso, que depauperou a república para convertê-la nesse corpo débil e doentio, a que só Octaviano Augusto deu sombras de vida, para depois protrair-se na corrupção da longa agonia do baixo império.

Se o herói romano não preferisse o esplendor do seu nome ao bem da sua pátria; se em vez de substituir a sua vontade ao voto popular; se em vez de destruir as instituições nacionais as aperfeiçoasse, abdicando depois o supremo poder, como Marco Cícero pedia; se em vez de derramar o sangue dos seus concidadãos, o poupasse para o desenvolvimento de uma prole generosa; se em vez de desbaratar a riqueza nacional, lhe proporcionasse elementos de prosperidade, o nome do patrício romano, e do vencedor das Gallias chegaria a nós com menos ruído, é certo, porém com maiores títulos à simpatia e à gratidão  universal.

Nero, Calígula, Domiciano, e o abjecto Eliogabalo de quem procedem?

Esses réprobos tiranos dimanam diretamente da gloria. do vencedor de Farsalia, e do projetado rei de Marco Antônio.

Não deve jamais o cidadão, a quem o destino das coisas humanas coloca na suprema eminência social, curar d'essa gloria efêmera dos aplausos momentâneos, desprezando a satisfação de praticar o verdadeiro bem.

Se os triunfos da guerra levantam em roda do guerreiro o estrondo dos aplausos, este com o decurso do tempo diminui, deixando apenas ouvir eco remoto; ao passo que o sincero benfeitor da humanidade por obras profícuas da paz, se não assiste ao ruido das congratulações dos contemporâneos, ouve o brado ingente da posteridade, que aprecia o benefício tanto mais quanto os séculos se distanciam.

Notemos, senhores, a contraposição dos fatos.

Se Alexandre Magno, se Júlio César, e se o próprio Napoleão Bonaparte apenas deixaram após si, pelas heroicas façanhas da guerra, o estrondo das batalhas, que a distância dos tempos diminui, Jorge Washington deixou após suas ações um povo generoso, que diariamente cresce para exaltar o seu nome, o seu desinteresse, e o seu patriotismo.

Jorge Washington é o tipo verdadeiro do herói.

O que vale, senhores, uma coroa? A coroa é o símbolo do poder; e se o poder não é bem desempenhado, o trono, em que fulgura a coroa, reduz-se, como disseram os Parisienses em 1848, a alguns pedaços de taboa cobertos de veludo.

O grande cidadão americano compreendeu que nenhum talento, por mais vasto e potente que seja, substitui a consciência nacional.

Ele pois, embora lhe fosse oferecido o diadema, preferiu ao trono perecedouro de madeira, o trono invejável das grandes ações, que dão a imortalidade.

Jorge Washington sustentou a independência da sua pátria, trabalhou em prol das suas instituições livres, e com o critério do estadista cristão, e do homem de bem, disse: “Povo americano, cumpri a minha missão; fui vosso chefe, sou agora vosso concidadão, restituo a força, que me destes para o serviço da pátria; governai-vos”.

Eis, senhores, o que praticou o mais nobre e o mais grandioso tipo do heroísmo político, que os fastos antigos e os modernos oferecem à apreciação do mundo.

Alexandre Magno e Júlio César destruirão povos, e causaram o aniquilamento da sua pátria; Napoleão Bonaparte, depois de dar à França dias de esplendor, ocasionou-lhe o opróbrio.

Jorge Washington fundou um povo, que com os seus prodígios de atividade assombra o mundo, e exalta a glória do homem justo.

Os três primeiros heróis foram obreiros da guerra e da ambição pessoal; o quarto foi herde da paz e da abnegação.

Quem, senhores, não invejará a glória do patriota americano, desprezando a dos capitães europeus?

Quem, senhores, não preferirá ser o alvo da gratidão dos povos, e não objeto de terror?

A glória da guerra desvanece-se, porque a guerra apenas deixa de si a memória da aniquilação; a glória da dura paz per- e se engrandece, porque a paz cria, e as suas criações frutificam.

Agora mesmo não estamos vendo os resultados da obra do companheiro de Benjamin Franklin e de Thomas Jefferson nesse espetáculo de grandeza política e de força industrial do povo americano?!

Não o vamos ver exibir-se nessa imensa exposição internacional, que celebra o aniversário secular da independência americana, e exalta o grande cidadão que a consumou?

E assim, que os povos fazem justiça.

Se os historiadores da antiguidade deixarão ofuscar-se pela gloria das armas e das conquistas, o historiador dos nossos dias evita esse erro, e expõe á admiração e ao culto das nações o verdadeiro patriotismo, cujo intuito é o bem do gênero humano.

Ao historiador brasileiro, que intentar a narração dos nossos fatos, cumpre meditar nesta verdade para dar valor aos nossos concidadãos pelo mérito real das suas ações, e pela moralidade dos seus intentes.

Inspire ele em nossos compatriotas os sentimentos de benevolência e de confraternidade; mas não a ambição e o egoísmo.

O marinheiro que inventou a bússola, e aquele que descobriu a América, são mais beneméritos do mundo do que o general que avassala a sua pátria, ou destrói reinos estrangeiros.

A América no correr dos mais longínquos séculos conhecera o nome de Christovão Colombo, e uma população de milhares de milhões de homens lhe tributará a grata recordação de dever-lhe a ventura de viver feliz em terra de prodígios.

Talvez então mal se leiam nos livros os nomes de famosos guerreiros, quando o do modesto Genovês será bendito, e andará na memória de todos.

De Cyro, de Cambyses, e de Sesostris só falíamos nas escolas; a memória desses antigos heróis desaparece com o enfraquecimento dobrado das vitórias, porque estas, destruindo vidas e riquezas, ti verão efeito passageiro, mas não criaram elementos permanentes de prosperidade e de ventura para o gênero humano.

Os homens que trouxeram para o Brasil a raça bovina e a cana de açúcar são mais dignos dos encômios do historiador, do que os ousados aventureiros que em injustas pugnas destruirão as tribos indígenas.

Assim, a memória de Martim Affonso e Duarte Coelho, fundadores das colônias de S. Vicente e de Olinda, será em todos os tempos bem lembrada; nem merece menos grata recordação o nome do magistrado João Alberto, transplantador do café para esta corte, d'onde difundiu-se pelo país para constituir um dos elementos da nossa riqueza pública e particular.

Para mostrar quão superiores são as obras da paz aos feitos da ambição e da guerra, basta-nos memorar a sorte do vencedor de Marengo e Austrelitz.

Após as batalhas, esse engenho portentoso promulgou o código civil francês. Esta obra, em que colaborou com os jurisconsultos, subsiste, fazendo a gloria do seu reinado; a obra, porém, das batalhas desapareceu e sumiu-se no golfão dos sucessos de poucos anos.

Império francês e rei de Roma, tudo evaporou-se com o estrondo das armas, que os criaram; mas os códigos da França aí permanecem, regulando os direitos de um grande povo, e servindo de modelo à legislação de outros povos.

Alexandria, fundação da paz, aí campeã na foz do Nilo, para atestar uma obra meritória do intitulado filho de Júpiter Amon; mas Arbellas, lugar da vitória de um rei, e da derrota de outro, ninguém distingue onde existiu.

Estou certo que a nossa pátria terá no futuro vultos eminentes em todos os gêneros de mérito.

Deus, que fadou esta terra com prodígios de grandeza material, lhe não negará a grandeza moral.

A nossa história já nos dá amostras do que seremos.

Ela oferece-nos tipos mui valiosos, e do mais perfeito patriotismo.

Esses tipos ensinam-nos que entre os nossos antepassados o nome pátria não era uma visão, ou mera palavra de convenção para proveito de poucos e sacrifício de muitos.

Desde os tempos primitivos da nossa existência social achamos caracteres que já pelo valor, e já pela prudência, dão-nos modelo do amor pátrio, d'esse puro sentimento que força-nos a empresas árduas pelei desejo de ver gloriosa e prospera a terra do nosso nascimento.

Com efeito, quando considero nos dias primeiros da nossa vida social, observo logo o arrojo com que da última parte ocidental da Europa saiam homens que vinham arribar às nossas plagas para investigar um país desconhecido, cheio de animais bravios e ferozes, irriçado de imensas serranias e cortado de rios caudais.

Nem o ignoto das paragens, nem o ermo da solidão, nem a desmedida distância das situações os embargava; a fome, a sede, as moléstias, os riscos das travessias ante o indígena selvagem, nada os detinha. Parecia que ante a grandeza do perigo crescia o valor e a destimidez.

Convencidos de que pugnavam pela propagação da fé católica, e pela riqueza da metrópole, ideias em que resumiam a pátria, eles penetravam em extensas e invias florestas, arrostavam a fereza dos animais, e desprezavam a seta mortífera do índio bravio, que absorto, mas valente, opunha-se á invasão do território, que possuía por dádiva de Tupã.

Estes ousados Portugueses, senhores sem guia, sem noções do país, que a perder de vista estendia-se diante deles, intrépidos transpunham das ribas do Atlântico às encostas dos Andes, regressando ufanos de descortinar para a pátria novas terras, novos climas, novos assumptos de riqueza e de prosperidade.

Porque não admiraremos o congenial valor desses homens?

Aleixo Garcia, com três companheiros apenas, marcha das praias vicentinas, hoje paulistanas, percorre extensos campos dilatados bosques, atravessa largos rios, e chega ás regiões do Paraguay!

O sol guiava-o como o dedo de Deus, e ele do oriente passa ao ocidente d'essas terras, que, ainda sem denominação, deviam formar a nossa formosa pátria sob o nome já glorioso de Brasil.

Gabriel Soares, com onze pessoas de comitiva, deixa as margens do rio S. Francisco, a que os indígenas no seu harmonioso idioma chamavam Opára, e pisa as raízes dos gigantescos Andes, maravilha da força eruptiva das eras plutônicas.

Outros exploradores já tinham percorrido e feito o roteiro das costas brasileiras desde o Amazonas até o Prata, quando Roberio Dias propalava a notícia do fabuloso romance das inexauríveis minas de prata, em que fundava os sonhos de um marquezado.

Dentro de meio século o Brasil tinha limites ao nascente n'uma costa marítima de 1,200 léguas, ao norte e ao sul em dois rios principais do mundo, e ao ocidente em serras e florestas vizinhas dos Andes!

Tão prodigioso resultado só dá o valor extremo, que desafia a admirarão, e provoca o desejo de também ser valoroso.

Se nos tempos da nossa primitiva vida social achamos matéria para o historiador, não faltará nos dias posteriores assunto para quadros de patrióticos estímulos.

Na guerra holandesa, senhores, vamos deparar com os quatro heróis, que simbolizam n’ essa época o patriotismo das raças então predominantes, e o patriotismo das origens de nacionalidade.

Se Fernandes Vieira é oriundo da metrópole, André Vidal, Antônio Camarão, e Henrique Dias são filhos das terras brasílicas.

Se Fernandes Vieira e André Vidal são da raça branca, Antônio Camarão é indígena, e Henrique Dias pertence ao tipo africano.

Fernandes Vieira, incendiando os seus canaviais para cumprir a ordem suprema; André Vidal, arriscando a vida para ir na Paraíba despertar no animo de ricos proprietários o levantamento contra os invasores estranhos; Antônio Camarão, guiando por agrestes sertões centenários de famílias sãs e salvas; Henrique Dias, empunhando com a mão esquerda a espada, quando o braço direito lhe era decepado pelo golpe inimigo, dão exemplo de atos heroico merecedores de encômios.

Se com atos tais de fortaleza de animo tornam-se credores da estima do historiador, muito mais a merecem pelo êxito da sua nobilíssima empresa.

Pretenderão livrar a pátria da estranha opressão, e o conseguirão com assinalada vantagem da causa do Brasil, que readquiri-o a sua perdida integridade.

Se a empresa dos patriotas pernambucanos se não efetuasse, a Holanda seria dominadora do norte do Brasil, e este, retalhado, constituiria hoje talvez vários insignificantes Estados.

Quem deu-nos, pois, o Brasil grande, unido, e prospero dos nossos dias?

Ao valor e esforço d'esses beneméritos patriotas nós o devemos.

Gratidão a eles!

Em mais próximos tempos achamos sempre não desmentido o patriotismo brasileiro.

Aí está a malograda revolução de 1817.

A essa tentativa em favor da independência nacional não faltou coragem e civismo.

Sob o regime de leis cruéis, que barateavam a pena de morte pelo crime de lesa-majestade, cumpria ter brios e pundonor para arriscar-se em uma empresa, em que afrontava-se a regia autoridade, então omnipotente.

Sinceros patriotas entenderão chegada a hora de bradar pela pátria: assim o fizeram, praticando atos de viril denodo.

Vencidos, sofreram os rigores do cárcere, e os suplícios do cadafalso sem queixumes, mas ufanos de haver iniciado a ideia da independência, que cedo brotaria vigorosa e vivaz.

Os tipos, que se revelarão no padre João Ribeiro, e Domingos Theotonio, quando, vencidos, um ficava no Recife para manter ilesa a população, e o outro retirava-se para o engenho Paulista com a força republicana para cuidar da sorte d'esta, são dignos de apreço histórico.

De posse dos cofres públicos não os empregarão na fuga; mandarão entregá-los intactos á autoridade real, que restabelecia-se no país,

Foi admirando o patriotismo dos protagonistas d'esse drama que o distinto Paula Souza no senado brasileiro, em sessão de 22 de maio de 1844 perguntava: “Todos os que têm amor à independência e gloria do país não deverão respeitar os mártires d'essa revolução”.

A nossa história, senhores, não é de séculos; é, porém, abundante de acontecimentos, que nos nobilitam, revelando a magnanimidade do caráter nacional.

Vemos que em 1831 o príncipe, que havia eficazmente concorrido para a nossa emancipação política, deixara as plagas da pátria adoptiva, entregando-nos no berço o infante, que devia ser o imperador do Brasil.

Compreendeis, senhores, que em tal situação, fácil era suscitar paixões para empolgar o poder.

O futuro imperante era menino; e só o "patriotismo dos guardas do seu berço podia preservar os seus direitos constitucionais; assim aconteceu, e a obra ainda mal firmada do nascente império subsistiu.

A anarquia não teve alimento, porque um Diogo Feijó, um Costa Carvalho, uni Lima c Silva, um Carneiro Leão, um Rodrigues Torres, um Alencar, e muitos outros guiaram-se pelas inspirações generosas do amor pátrio, e não pelas sugestões da ambição.

E mencionando, senhores, este último nome, a mim conjunto pelo sangue, e caro pela amizade e gratidão, não me censurareis, porque me não devo o parentesco inibir de o fazer nesta ocasião sócio na gloria, de que notoriamente foi participante e cooperador aqueles tempestuosos dias, em que corriam perigo pátria e liberdade (Muito bem!)

A medida do patriótico desinteresse desses homens encontramos no ato do magnânimo Diogo Feijó, quando, em vez de lutar pelo domínio, depõe o mando supremo, por persuadir-se que o não exercitaria em prol da causa pública.

Eis o patriota, eis o cidadão benemérito, que a história requer!

O louvável empenho dos nossos concidadãos de 1831 não será esquecido da posteridade, que colhe os seus sazonados frutos na conservação da instituição monárquica, de que o Brasil precisa, e que manterá enquanto os representantes de tão alto princípio compreenderem a generosidade do povo brasileiro, e souberem realizar a eficácia da liberdade constitucional.

Não prosseguirei em apontar materiais da nossa história: assaz já me hei demorado, quando cumpre-me passar a uma consideração sobre o modo de escrever os pátrios acontecimentos, que não devo preterir.

Outrora o historiador compulsiva os documentos, formava o seu juízo, e o emitia depois de sucinta exposição dos factos.

Assim sentenciou o enérgico historiador Cornélio Tácito os seus personagens históricos.

Este sistema, porém, se oferece proporções para uma obra de perfeita estética, nem por isso é completa pelo lado, da justiça.

O historiador narra á sua feição, e julga ao seu capricho. D’aqui resulta que o leitor, na ausência das fontes, não pôde criticar o escritor, moderando-lhe a severidade, ou corrigindo lhe a bonomia.

Convém, pois, ao historiador, não descer as minudencias da crônica, mas narrar com amplidão suficiente para fundamentar o seu juízo sobre os fatos e seus autores, de maneira que o leitor dos séculos futuros encontre elementos de crítica, e possa assegurar-se da exatidão da censura, ou do merecimento do louvor.

Horrorizamo-nos de Nero como matricida, reputamos Domiciano mentecapto pelos enunciados juízos do incisivo estilista latino: estarão, porém, devidamente comprovados os factos para os severos estigmas do escritor?

Analisando os motivos determinativos da volição, sou às vezes induzido a crer que o grande profligador da corrupção romana excedeu-se na asseveração de factos irracionais e circunstâncias atrozes, que se não justificam ante as induções da razão humana.

Como crer nas orgias e depravações de Tiberio sem considerá-lo mentecapto? Mas como julgá-lo tal, se tão atilado governava o império?

Daqui nasce a necessidade hoje reconhecida de documentar a história, de maneira que o historiador não pareça arbitro das reputações, mas juiz imparcial, embora severo.

Eis o que desejara praticado pelos nossos futuros historiadores.

Quisera que eles, sem deixar essa desejável sobriedade do escritor sensato, fizessem a exposição dos assumptos com extensão tal, que ao leitor ministrasse ocasião de chamar ao tribunal da sua consciência os homens beneméritos, e os maus cidadãos, para por si julgá-los.

Assim a justiça histórica seria uma opinião universal, mas não a censura do escritor.

Por mais isenção de animo que possa ter o escritor, em relação aos ódios particulares, nem sempre está livre do espírito de seita, ou do influxo de ideias políticas e religiosas.

Cornelio Tácito era republicano, e só na república encontrou virtudes; Adolpho Thiers foi monarquista na sua História do Consulado e do Império, e só na monarquia achou a salvação dos povos, salvação que agora também encontra na república.

O Brasil já tem vários escritores dos seus diversos períodos históricos.

Desde Pedro Gandavo até Rocha Pita só temos narradores de lendas, e de sucessos parciais, sem elevação do espírito histórico.

De Rocha Pita por diante só encontro dois escritores, que me parecem haver desempenhado com vantagem o seu encargo.

Falo de Roberto Southey, e do conselheiro Pereira da Silva.

Aquele, estrangeiro, e fora do nosso país, escreveu a sua História do Brasil, tendo à mão grande cópia de documentos e memórias; este, nacional, e à pátria, escreveu a sua História da fundação do Império possuindo os grandes subsídios, que a perseverante atividade dos membros do Instituto Histórico do Brasil tem-nos acumulado.

O escritor inglês dá-nos notícia tão cabal, quanto podia esperar-se dos monumentos aliás escassos, que nos legarão os primeiros povoadores da terra brasílica: ele criou um precioso pecúlio da nossa história.

Exposição clara e metódica, com critica justa e razoável, são os méritos salientes deste escritor.

E o seu trabalho histórico a mais completa narrativa, que temos dos tempos por ele investigados. Ela vai do descobrimento do Brasil até princípios do corrente século.

O conselheiro Pereira da Silva como que serve-lhe de complemento; porque noticiando-nos a fundação do nosso império, começa nos tempos em que o autor inglês acaba.

Ambos estes escritores, abundantes em fatos, todavia não considerarão o lado moral da história tão cabalmente, como eu desejara.

Os caracteres históricos não ficarão em muitas partes bem desenhados; faltou-lhes a enérgica brevidade de Crispo Salustio, e o colorido do pincel de Velleio Paterculo para delinear o retrato d'esses caracteres.

Ao conselheiro Pereira da Silva, tão credor das letras pátrias, devemos um importante serviço pela composição da sua história.

Pela incorreção de circunstâncias, seria razoável pedir-lhe a revisão do seu trabalho, que subiria de mérito pelo desenvolvimento de ação de certos personagens, que por justos títulos exigem mais perspicuidade no drama.

José Clemente, por exemplo, requer maior representação como um dos principais protagonistas da emancipação nacional.

Joaquim Ledo e Januário Barbosa quase perdem-se na turba dos simples agitadores da época gloriosa da nossa independência, quando foram lidadores conspícuos.

O autor da História da fundação do Império começou a sua obra dando-nos ciência das máximas governativas, porque regia-se o Brasil colonial.

Esta ideia assaz aproveita ao leitor, que entra na narração dos sucessos habilitado para conhecer a importância de certos factos, sobretudo dos acontecimentos políticos.

A falta de tais esclarecimentos nos antigos historiadores impossibilitam-nos hoje, não só de dar o devido valor a certos sucessos, mas até de compreendê-los.

Ignorando a lei, ignoramos também que muitas vezes um levantamento popular motiva-se na infracção d'ela.

O conselheiro Pereira da Silva expondo o transunto das leis do regime colonial, proporciona ao leitor o conhecimento da justiça ou injustiça dos vice-reis e governadores, e a apreciação do seu bom ou mau procedimento em relação aos cidadãos.

Foi, pois, de bom alvitre esse modo, porque escreveu o ilustre literato fluminense.

Alguns outros escritores temos entre nacionais e estrangeiros, que ocuparam-se da nossa história pátria.

O autor francês Affonso de Beauchamps e o americano David Warden são meros recopiladores sem mérito essencial.

Francisco Varnhagen, hoje visconde de Porto-Seguro, escreveu sem crítica e sem estilo, consumindo largas páginas com factos somenos, quando deixava nas sombras de ligeiros traços acontecimentos notáveis, dignos de mais desenvolvida notícia.

É, porém, autor de grandes serviços de investigação: foi ele quem despertou a necessidade, e mostrou o proveito da investigação de antigos documentos em bem da história nacional.

Se como investigador de fontes históricas tem mérito como historiador as suas obras, História Geral do Brazil e Hollandezes no Brazil, o não realçam.

0 vigor com que progride a literatura brasileira augura-nos esperançosos historiadores da magnanimidade nacional.

Ao contemplar essa mocidade, que instrui-se jocunda e pressurosa, já vejo surgir do seu seio nobres engenhos dignos de expor as nossas glorias, propor-nos modelos de heróis, e levantar o patriotismo brasileiro.

Manter o sacro fogo do amor da pátria é empresa digna dos mais altos engenhos; sem esse fogo vivificador os destinos d'esta terra serão malogrados e pecos.

Foi o patriotismo quem deu-nos por pátria um império vasto; quem formou a independência com regime constitucional; quem assegurou a integridade do império em 1831; e quem acaba de colocar-nos entre os povos do mundo sem a macula da escravidão doméstica.

O patriotismo, nos tem aconselhado, e com ele temos executado reformas úteis.

Assim fizemos o ato adicional de 1834, que concedeu as províncias meios de engrandecimento; assim fizemos a revolução pacífica da supressão dos morgados, com cuja permanência estaria hoje o país avassalado por uma classe de proprietários imperiosos e intransigentes.

Se o ato adicional não houvesse dado às províncias francesas para o seu melhoramento e progresso, ter-se-ia tornado insuportável a união delas ao centro; união que cada vez mais se cimentará mediante novas concessões que os tempos já anunciam como necessidades.

Propugnador da unidade do Império, quero que ela derive-se de recíprocos interesses entre o centro e as províncias; porque d'esta forma a união jamais perigará.

O futuro historiador do Brasil será aquele que souber ensinar-nos d'onde veio, e como formou-se este povo magnânimo excitando ao mesmo tempo o patriotismo dos Brasileiros, já tão assinalado no passado, e tão prometedor no futuro.

Terminarei aqui, rematando o meu discurso por modo bem diverso d'aquele porque o fez um lírico latino.

Este, depois de tratar o seu assumpto, concluía dizendo:

Ornari res ipsa vetat, contenta doceri.

O antigo poeta lamentava não ter matéria para exornar na sua brilhante poesia; eu, porém, lamento não ter facundia para expender tão relevante e ameno objeto.

Peço-vos, pois, que desculpeis a exiguidade de quem aqui veio sem outro intento além do cumprimento de um dever de consciência, que me incita a não poupar esforços para que a ideia da instrução publica se propague, e dê os sazonados

frutos que todos nós devemos desejar.

(Aplausos gerais: muito bem! muito bem!)

Localização

- Conferências Populares, Rio de Janeiro, nº2, fev.1876. (na integra), pp. 46-76. Capturado em 10 out. 2025. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/docreader/278556/159  

Ficha técnica

- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.

- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.

Forma de citação

Conferência Popular da Glória nº 162. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 3 fev.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=745

 


Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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