Conferência Popular da Glória nº 165
Data: 27/02/1876
Orador: João Pizarro Gabizo
Título: Hygiene escolar
Aviso, íntegra ou resumo: Íntegra
Texto na íntegra
“Minhas senhoras, meus senhores. — Bem difícil e embaraçosa é a posição do desconhecido que hoje, pela primeira vez, ocupa a tribuna das Conferências Populares.
Surpreendido pelo convite honroso do Exm. Sr. Conselheiro Corrêa, a cujo esforço patriótico, e perseverante tanto deve a causa da instrução publica entre nós, eu não pudera recusar, embora depois de longa hesitação, o posto que S. Ex. me indicava no interesse do povo, a quem devo o sacrifício da minha obscuridade.
Consenti, pois, que perante vós, cuja ilustração e autoridade acato, eu tente esboçar uma questão de cuja importância e oportunidade vos será fácil julgar. Eu me vou ocupar da higiene escolar, isto é, da aplicação sabia e metódica dos meios que a ciência aconselha, afim de promover e garantir nas escolas a educação física da infância. Quando se discute o problema da instrução popular, escolhendo os meios mais prontos e eficazes de distribuir o ensino pelo povo, e conjurar os perniciosos efeitos da ignorância, o mais terrível inimigo do bem-estar, e do progresso individual e social, a higiene deve intervir com justo título, não como pensão raros retardatários, para negar as vantagens do ensino, que ela aplaude e almeja, porque desse modo vê garantidos os interesses, que ela representa, mas para inquirir e vigiar se os processos postos em pratica comprometem ou servem esses mesmos interesses. Ocupar-se exclusivamente da educação do espírito é desconhecer a natureza humana, é romper a harmonia
do plano divino, que se revela na mútua dependência, e na solidariedade de interesses que prendem o espírito ao corpo. À higiene compete destruir esse aparente e falso antagonismo, que se supõe existir entre as necessidades do elemento corpóreo e espiritual, e demonstrar que elas são inseparáveis, e devem ser conciliadas. A conservação do corpo requer um espírito esclarecido, onde penetre a noção clara das condições que asseguram a saúde, e que possa conhecer e evitar as causas dos males que afligem o corpo: o cultivo do espírito exige o vigor do corpo, que lhe fornece os instrumentos necessários á sua atividade, que consome sempre força orgânica. Se descurardes a educação do vosso espírito tereis sacrificado a grandeza de vosso destino, e dominados pela ignorância sereis seus instrumentos passivos, e perigosos inimigos da sociedade: se ao atenderdes à educação de vosso corpo, seu império se fará sentir sobre vossa alma, cuja energia será muitas vezes nulificada, e infrutífero o trabalho. A conservação e o aperfeiçoamento do homem dependem, pois, da educação do corpo e do espírito. É à escola que está reservada a sublime missão de educar o homem, dando-lhe instrução, moralidade e saúde: ela o recebe do regaço da família, zela e dirige suas aptidões nascentes, dá-lhe o ensino proporcional às forças, prevenindo o cansaço e o tédio na idade em que os órgãos se formam e se consolidam, que as proporções se estabelecem, e que o organismo luta entre a conservação e o crescimento, e onde o equilíbrio é a final sensivelmente móvel.
A pedagogia deve, portanto, aconselhar-se com a higiene para completar sua grave tarefa: os povos mais cultos o reconhecerão, e adotarão como indispensável complemento do programa das escolas normais o ensino da higiene, filha da medicina e do bom senso, que legislando para todas as idades, sexos, profissões e climas, dispensa simpatia e piedade á nossa contingência, e nos ensina a remover e evitar as causas, de destruição e de morte.
Quanto fora para desejar, senhores, em benefício comum, que em vez de ensurdecer a conselhos fáceis, exequíveis e salutares, aprendêssemos aqui, onde a saúde publica nada merece, a auxiliar a Providencia, e resistir aos efeitos da desídia oficial, repartindo com a higiene o tempo, que inutilmente desperdiçamos, com a leitura frívola e às vezes perigosa do romance, que forma a delícia de algumas mais de família descuidosas da educação de seus filhos.
Senhores, dai agasalho em vossas casas à higiene, fazei-a intima do lar, e só tereis de abençoar os frutos do contato.... Eu não posso deixar de externar d'aqui um voto de apreço e louvor aos ilustrados colegas que me precederão nesta tribuna, entre os quais o Sr. Dr. Antenor, que com tanto sucesso agitarão questões de higiene, por sua natureza sempre interessantes e proveitosas.
Senhores, devendo ocupar-me de escolas, e particularmente de escolas públicas destinadas aos filhos do povo, de quem são tutores os governos patriotas, consenti que eu me detenha alguns momentos diante d'aquelas que possuímos, para provar-vos que, além de insufticien.es em número, elas são a v triste negação dos mais indispensáveis preceitos da higiene: eu me referirei particularmente às da Corte, aquelas sobre quem facilmente se poderia fazer sentir a influência do poder central.
Entre nós, senhores, os prédios em que funcionam as escolas públicas são em geral acanhados, escuros, úmidos, mal asseados, tomados a esmo em ruas estreitas, onde os meninos permanecem por largas horas como em uma prisão sem ar, e sem luz. Esses prédios são quase todos de propriedade particular, com cujo aluguel despende o governo soma tão avultada, que o capital de que é ela o juro a 6% daria, na opinião autorizada do Exm. Sr. Homem de Mello, manifestada em seu relatório de Inspector Geral interino da Instrução Publica da Corte, “para dotar-se cada freguesia com próprios nacionais expressamente construídos para n'eles funcionarem as escolas nas condições especiais que para esse fim se requerem”; cumprindo ainda notar que os aluguéis tendem a elevar-se em proporções as mais desfavoráveis, e que dos contratos ultimamente reformados o mais vantajoso sofreu um aumento de 50 %. Eu me estou baseando em dados oficiais muito recentes, são de 1875, quando ministro do Império o Exm. Sr. Conselheiro Corrêa de Oliveira, cujos atos demonstram a atenção e solicitude que constantemente lhe mereceu a instrução popular. As escolas municipais ha pouco construídas constituem excepções, são sumptuosas e vastas, mas são em número limitadíssimo, não são isentas de defeitos, e não satisfazem as nossas necessidades.
Eis-aí, senhores, infelizmente tudo que temos, o que equivale a dizer-se, nada temos; esta importante necessidade não tem sido atendida por aqueles a cuja sabedoria e experiência o país confia a solução dos problemas de utilidade pública. Entretanto, senhores, o país pede instantemente escolas, reclama o ensino obrigatório para seus filhos, e como torná-lo efetivo se as escolas são raras, se os meninos devem, mesmo nos centros populosos, fazer longas travessias, expostos ora aos calores, ora às humidades; às intempéries enfim próprias do nosso clima, que impõem uma higiene especial? Edifiquem-se próprios nacionais, e o aparente acréscimo de despesa terá plena justificação nas vantagens que, resumida e sabiamente assim traduz o Ex. Sr. Homem de Mello, a quem rendo homenagem repetindo-vos aqui suas palavras:
“1ª. A necessidade de terem os prédios destinados a escolas a capacidade e as acomodações recomendadas pelos preceitos higiênicos, e exigências do regime escolar.
“2º. A conveniência de ficarem de tal sorte situadas que possam ser regularmente frequentadas pela população mais necessitada dos benefícios da instrução, regulando-se de tal modo as distancias respectivas, que não embaracem umas a frequência de outras.
“3º. A regularidade que esta medida traz à administração, dispensando-a da necessidade de infringir as prescrições regulamentares, colocando escolas fora de suas freguesias, por falta de prédios para alugar, evitando-se as questões com os senhorios, e as continuadas mudanças, já nos moveis, já na frequência dos alunos, o que é do mais pernicioso efeito para o aproveitamento escolar”.
Os Estados-Unidos, país cujo progresso rápido nos assombra, e que devêramos imitar, despendem com a manutenção e criação de escolas soma quase tão considerável como aquelas destinadas à sustentação do seu exército e marinha: é que se a honra nacional exige defensores armados e valorosos, também se devem exercitar e municiar nas escolas os amigos da paz, os cooperadores do progresso, a quem está reservada a mais gloriosa de todas as conquistas, a conquista do futuro; e é sem dúvida por isso que Julio Simon proferiu a seguinte sentença: “o primeiro povo será aquele que tiver melhores escolas, se não o e hoje, sê-lo-á amanhã”.
É tempo, senhores, de voltar ao objeto de minha conferência, e eu vou fazê-lo, apontando-vos sucintamente as questões principais que a ele se prendem. Nós temos a considerar na escola a influência do meio, e a influência do regime sobre o menino: vejamos primeiro quais sejam as condições higiênicas que deve preencher o edifício-escola.
Senhores, o primeiro cuidado d'aquele a quem compete a distribuição e edificação de escolas é a escolha do terreno onde deva assentar o edifício. As escolas colocadas em um terreno argiloso são inconvenientes pela humidade que aí existe; os terrenos arenosos embora não guardem humidade escondem, todavia muitas vezes camadas argilosas, e a humidade subsiste; é preferível o terreno calcário, por ser aquele em que tal inconveniente não se encontra. Deve-se fugir dos terrenos baixos e pantanosos, procurando sempre terreno seco e elevado.
Se tais condições não se podem esquecer quando se trata de edificar um prédio de uso particular, muito mais nos devem impressionar ainda tratando-se de um edifício onde devem permanecer muitas vidas. As paredes das casas colocadas em terrenos úmidos, como vós vedes infelizmente em muitas das nossas, embebem-se de humidade, que se infiltra depois por toda a edificação, e vós n'elas encontrais o ar carregado de vapor d'agua, e mais tarde de produtos miasmáticos, resultado da fermentação pútrida, que se desenvolve no seio de matérias orgânicas n'elas contidas. Infelizmente nem sempre é possível a escolha do terreno, e n'esse caso ao arquiteto compete o emprego dos meios que a arte aconselha afim de corrigir a insalubridade, servindo-se para isso da drainage, da ventilação dos sub-solos, etc.
Senhores, nós devemos supor que tal sorte de construções não seja confiada a um especulador sem garantias, mas a um profissional competente, e isso me dispensa de demorar-me em detalhes. Acho leviano e perigoso que se aceite de particulares, para edificação de escolas, terrenos que por sua insalubridade tornam funesto o favor.
A orientação da escola não é indiferente, senhores; ela deve ser banhada da luz e do ar, mas colocada de modo a não ser exposta ao intenso calor solar, aos ventos úmidos e às chuvas que os acompanham. A ação solar e atmosférica são uma necessidade para a conservação do edifício, e manutenção de suas condições higiênicas. Convém afastar as escoIas, quanto possível, das ruas estreitas, da contiguidade de prédios muito altos que lhes interceptem a ação vivificante do ar e do sol, da vizinhança dos pântanos, das fabricas, dos monturos e dos cemitérios, cujas emanações suspensas no ar viciam-o, e prejudicam a saúde dos alunos. Se tal vizinhança prejudica os interesses da higiene, nos da pedagogia deve evitar-se as ruas de grande trânsito, a proximidade de igrejas, e todo o barulho que dificulte a distribuição do ensino. O plano de edificação, a escolha dos materiais deve também merecer seria atenção, já com o fim de garantir as condições físicas de seus habitantes, já para remover as causas de insalubridade que se antolhem. Devem ser escolhidos de preferência n’esta sorte de construções materiais sólidos e duráveis, que sejam ao mesmo tempo maus condutores do calor afim de manter no interior do edifício uma temperatura que não seja nem muito fria no inverno, nem muito quente no verão, mas tanto quanto possível igualmente fresca e salubre: é preciso sobretudo que os materiais dos alicerces e dos muros estejam em estado de resistir à umidade do solo e do ar ambiente.
Senhores, a arquitetura escolar constitui uma especialidade tão notável, como a dos palácios, das prisões e dos hospitais: os Estados Unidos, segundo afirma Jonveau em seu excelente livro A America actual, a tem posta a prêmio, e aí tem dado lugar a várias publicações importantes. A última exposição de Vienna oferecia modelos variados de escolas fornecidos pelos países mais adiantados da Europa, e pelos mesmos Estados-Unidos da América: entre eles sobressaem os modelos ministrados pela sociedade austríaca dos amigos das escolas, os modelos suíços e americanos; mas esta questão interessa de preferência aos arquitetos, e eu apenas peço a adopção de um modelo regular, constante e uniforme, onde os interesses econômicos não prejudiquem os da pedagogia e da higiene.
Senhores, é certo que as escolas devem ser de aspecto elegante, mas não podemos ainda nem devemos pensar em sacrificar inutilmente no luxo das fachadas somas que só podem ser aproveitadas na multiplicação, melhoramento, manutenção e das escolas. A verdadeira beleza de uma escola está em que ela preencha a sua elevada missão, e materialmente como a um templo, basta-lhe a singeleza e harmonia das linhas.
Se bem que no plano de construção escolar sobressaía por sua importância capital a sala de classe, que é a escola propriamente dita, com suas exigências especiais, há contudo algumas dependências que exigem de preferência a atenção do higienista, a quem nada é indiferente, entradas, escadas corredores, portas etc.; assim a entrada deve ser espaçosa para permitir livre passagem aos meninos, as escadas largas e construídas em angulo reto, munidas de balaústres para prevenir os acidentes tão comuns à infância; as portas não devem ser duplas para não dificultar a renovação do ar e os corredores devem ser vastos, claros e arejados
Mas eu deixarei de parte estes detalhes mais próprios de um curso de higiene escolar, que do limitado programa de uma conferência, para me ocupar das dependências mais notáveis da escola, os recreios, e as privadas. A escola deve ter sempre que isso seja possível dois recreios, mas necessariamente um: um pátio coberto para os dias de chuva e para as horas de calor, onde o sol possa beijar os meninos: como às plantas sua ação lhes é benéfica, e como elas à falta d’ele empalidecem e definham. Esse pátio deve ser calçado de cimento para prevenir a umidade e, sua capacidade deve ser pelo menos a de duas classes reunidas. O outro recreio deve ser descoberto, e na Europa é dependência necessária dos estabelecimentos de ensino primário; ele é cultivado, e serve não só para os exercícios ginásticos tão necessários à infância, mas ainda para criar nos meninos o gosto pelos trabalhos hortícolas; ali se desenvolvem os seus músculos, sua força física, e ainda ali recreando-se, se desenvolve a inteligência.
Eu não quero deixar de tratar dos gabinetes reclamar atenção privados e para eles, que às vezes se constituem ver- dadeiros focos de infecção. Os gabinetes d'esta ordem devem ser distribuídos em grande número, colocados em compartimentos claros, arejados e espaçosos, de modo que os depósitos sejam guarnecidos de aparelhos obturadores os mais perfeitos, e onde a ventilação seja fácil. Quando seja possível nas cidades, por exemplo, os líquidos devem ser excretados em depósitos à parte, e uma corrente constante de água deve manter o asseio d'estes anexos. Da misturados sólidos e líquidos resulta a fermentação mais fácil das matérias pútridas, e, pois, convém evitá-la, e impedir a corrupção do ar já pelo asseio das privadas, já pela adopção de um sistema de desinfecção, que facilmente se obterá.
É fácil de conhece-- a negligência dos mestres, e o abandono total das regras higiênicas em relação ás privadas, pelo cheiro infecto que d'elas se exala violentamente em algumas escolas.
A higiene pede, pois, asseio e decência para estas dependências da escola, e aconselha ao edificador, que as coloque sob a imprescindível vigilância do mestre no interesse físico e moral de seus alunos.
As escolas devem ter água abundante, quer para as necessidades do edifício, quer para satisfazer a sede dos alunos. Convém que os seus reservatórios sejam dispostos em lugares onde recebam a influência do ar, abrigados do sol, e longe das privadas.
Eu deveria agora ocupar-me da peça principal do edifício escolar, que, como já vos disse, é a sala de classe, mas não desejando sacrificar o interesse do assumpto, positivo e preciso, eu vos peço licença para interromper a minha conferência e continuar mais tarde, se a vossa benevolência, que me amparou hoje me franquear ainda uma vez esta tribuna.
Tenho concluído.
Localização
- Conferências Populares, Rio de Janeiro, nº4, abr.1876. pp 15-23 (na integra). Capturado em 20 out. 2025. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/docreader/278556/381
Ficha técnica
- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.
- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.
Forma de citação
Conferência Popular da Glória nº 165. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 3 fev.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=747
Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz – (http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br)