Conferência Popular da Glória nº 180

De Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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Data:11/06/1876

Orador: João Manoel Pereira da Silva

Título: Poesia dramática III. Poesia dramática em Roma

Aviso, íntegra ou resumo: Íntegra

Texto na íntegra

“Para se apreciar com justiça e exatidão a literatura de um povo convém estudar sua história, seu caráter, sua religião, suas instituições, os elementos por fim constitutivos sua língua.

Temos hoje que tratar da grande nação romana, da maior conquistadora e domadora do mundo, de que nos falia a história.

D'onde provieram os romanos? Qual sua origem? Eis uma primeira questão difícil de resolver. Seus cronistas imaginarão encontrar o berço da cidade eterna em uma colônia troiana, escapa das ruinas famosas e do incêndio devorador a que fora pelos gregos reduzida a pátria de Príamo.

Mas esses restos ou grupos de Asiáticos não podiam por si sós constituir a cidade e inaugurá-la. Todo aquele território italiano que corre dos Apeninos ao cabo mais meridional estava já povoado por várias raças, celtas, olscos, sabinos. Os gregos possuíam colônias ao longo do golfo de Nápoles, e na própria ilha da Sicília quando se fundou Roma.

Não haveria um amálgama de todos esses povos? Não nos contam os próprios romanos que um núcleo de aventureiros começara sua edificação, que para eles terem mulheres as roubarão aos vizinhos, para aumentarem os habitantes dirigirão desde o princípio guerras de conquista, cuja consequência foi a anexação e reunião dos primeiros ocupantes com os dos arredores, que já estavam estabelecidos?

Que elemento preponderou, troiano, grego, celta? Problema ainda. Se nos deixarmos decidir pelo caráter conhecido e sempre sustentado dos romanos, mais de celtas procederiam, que erão bárbaros, cruéis, guerreiros, quando os gregos mais ilustrados, civilizados e pacíficos se mostra vão, e os troianos afeminados e tímidos.

Enquanto sob o regime monárquico, guerreiros, agressores, conquistadores; adoptando o sistema republicano, não modificarão as qualidades do caráter: o Estado foi sempre em progresso, aumentando-se com novas conquistas de vizinhos, novos domínios externos. Ao lado de guerras estrangeiras contínuas a guerra civil em permanência, plebeus com a nobreza. A mesma pobreza dos primitivos romanos de que alarde se faz, foi consequência não causa do desprezo que manifestavam pelas letras, pelas artes, pela civilização, porque o gênio das armas, que era o único que os inspirava, não consentia cultura do espírito. A não ser assim não conseguiriam subjugar e governar o mundo.

Se pretendermos resolver a origem dos romanos pelas instituições que adoraram e seguirão, elas são perfeitamente originais, autônomas, não as receberão de outros povos, formaram por si regime político particular, muito diferente dos gregos, dos etruscos, dos troianos, dos sabinos.

É verdade que a religião que abraçarão e praticarão era a grega, com pequenas e peculiares modificações. Não é de admirar, porém, este facto, porque as colônias gregas espalhadas pela África, Galia, Sicília, Itália e Ásia menor, infiltrarão sua religião em todos os povos com os quais se entrelaçaram. Não se prova com ele que os romanos descendessem privativamente de gregos.

Quanto à língua, nos primeiros quinhentos anos de Roma, foi grosseira, barbara e agreste. Não se prestou a nenhum cultivo literário. Não se conhecem, nem a tradição nos fala de obras literárias ou científicas, sobre qualquer assunto, durante esse espaço de tempo. Ainda depois de polida pelos gregos e de receber a organização gramatical e literária que estes lhe deram, muitos, numerosíssimos vocábulos, frases, palavras, que eles lhe introduzirão, nunca conseguiu aquela maviosidade, aquela graça, que caracterizava o idioma grego; continuou enérgica, dura, viril, posto que em geral agradável, porque prima pela gravidade e concisão, quando a grega foi sempre abundante, musical, doçorosa.

Por mais, pois, que procuremos afirmar, cerca-nos a dúvida, e confessamos, obrigados, que não sabemos a origem dos romanos; conjecturamos apenas que procederão de um amálgama de raças diversas e encontradas.

O que é certo é que só mais de quinhentos anos depois um, escravo grego tentou tonar literária a língua latina, traduzindo para ela dramas gregos, e conseguindo fazê-los representar e conhecer dos romanos.

Até aliem poesia, ou arte dramática, nada sabiam nem cultivavam os romanos. Os olscos lhes enviavam de quando em quando companhias de polichinelos e pasquinos, como ainda hoje se encontrão na Itália, correndo de cidade em cidade, e que são quase semelhantes aos figurinos descobertos nas ruínas de Herculanum. Os romanos riam-se, folgavam com uns diálogos que eles pronunciavam, indigestos, indecentes, mas joviais e prazenteiros. Os etruscos introduzirão ainda o uso de histriões, dançarinos, puladores, saltimbancos de força, cujos exercícios se tornarão em Roma populares.

Estes mesmos divertimentos, porém, não sorriam aos romanos como os combates de gladiadores e animais ferozes nos circos. Desde o princípio da nação se acostumarão a eles, e só eles faziam estremecer, alegrar, entusiasmar, e captavam o afeto dos romanos. Erão os seus divertimentos e espetáculos queridos e favoritos, pelos quais desprezavam quaisquer outros, mesmo depois que se civilizaram e dominaram o mundo.

Quem começou a civilização em Roma, quem civilizou Roma foi a Grécia. Roma subjugou a Grécia, e converteu-a em sua colônia e província, impondo-lhe leis e governo.

Era costume dos romanos trazerem para Roma os prisioneiros que apanhavam nos combates, reduzi-los em escravidão, e vendê-los em leilão a particulares por conta do Estado e do tesouro, além da parte de escravos que tocavam aos generais e vencedores. Assim a escravidão se introduziu no país. Como devia ser interessante ouvir o leiloeiro oferecer à venda um cozinheiro, um filósofo, um poeta, um matemático, um médico, um literato, um arquiteto, um pintor, um escultor? De certo o cozinheiro custaria mais caro. (Risadas.)

Assim foram os gregos introduzindo em Roma todos os ofícios, artes, misteres, letras, ciências. Os romanos só se dedicavam ao uso das armas e da agricultura. Os gregos lhes levantarão prédios aparatosos, templos, edifícios, arcos, colunas; de miseráveis choças, que formavam a cidade, foi ela tomando galas, e desenvolvendo-se o gosto da arquitetura.

O mesmo em relação à escultura e à pintura se praticou. Os escravos gregos começarão a educar a mocidade romana, a desenvolver-lhe a inteligência. Tornou-se até luxo romano terem as famílias preceptores gregos. Os espíritos mais elevados ganharão gosto pela língua grega, estudarão os tesouros literários gregos. A língua romana se foi infiltrando da organização gramatical grega, adotando-lhe expressões e frases agradáveis, correção, limpidez, e tal qual harmonia do idioma dos Hellenos.

Assim Roma tornara romana a Grécia pelo direito das armas e da conquista, pelo direito da força; a Grécia tornou Roma grega pelo direito da inteligência, do espírito, do gênio; pelo direito da educação. (Aplausos.)

No ano de 514 de Roma pôde Livio Andrônico, escravo grego, fazer representar um drama grego traduzido na língua latina, que agradou bastante. Levantou-se um tablado de madeira no monte Aventino para os atores e aí continuou Andrônico a dar espetáculos, durante as festas públicas, presididos pelos Edis da cidade.

A Livio sucedeu Nevio, romano da Campania, escrevendo e fazendo representar dramas próprios ou traduzidos. Mas aplicando seu espírito sarcástico e motejador a nomes e figuras romanas, e a cousas de Roma, foi desterrado, e proibiram os Edis que sobre assumptos romanos se fundassem as composições dramáticas.

Os Edis formarão então um tribunal de censura prévia para se não repetirem as facecias de Nevio.

Dizem as tradições que aparecera posteriormente outro escravo grego, Ennio, a fazer representar comedias imitadas ou traduzidas do idioma grego; o poeta ganhou e deixou reputação, posto que nenhuma composição sua, como nenhuma dos seus antecessores, chegou a nossos dias.

Nem havia ainda poesia propriamente dramática, e nem também a língua latina se tinha tornado bem literária, posto que muito polida já e bastante enriquecida pela grega.

Depois da segunda guerra púnica é que se mostrou Plauto, vulto de valor e veia eminentemente cômica. Começa então a poesia épica a ser cultivada em Roma.

Seu estilo não é ainda polido, sua linguagem não é pura e correta, porque não estava o idioma ainda completamente fixado. Ainda nas obras de Planto se encontrão barbarismos e grosserias, que os escritores do tempo de Augusto, entre os quais com particularidade Horacio, cujo gosto literário é o principal característico do seu talento, estigmatizam com vigor e energia,

Era Plauto um operário, ganhava sua vida ocupado em moer trigo em casa de um padeiro. Aproveitava os momentos de descanso para escrever comédias. Sua sociedade foi mais de gente ordinária que de gente fina. Não admira, portanto, que lhe faltassem dotes de trato delicado, como os que aprimoraram o seu sucessor Terencio.

Mas Plauto era eminentemente mordaz, satírico, espirituoso. Se não se atirou na carreira traçada por Aristófanes, e antes seguiu a escola dos poetas gregos, que escreviam comédias de costumes, intrigas e caracteres, foi por causa da censura dos Edis romanos que lhe não permitiam liberdade de voo, e estro motejador. A licença de que gozavam os Atenienses não se admitia em Roma.

Assim as vinte comédias de Plauto, que mais ou menos completas se não perderão, e são por nós conhecidas, pertencem ao gênero sério, e não ao satírico. Ha até algumas que se ornam com uma ação dramática admirável, atraindo e conservando o interesse dos espectadores. Entre estas figurão a de Eudens, cuja intriga é mais dramática propriamente que cômica; a dos Cativos, que em várias cenas consegue enternecer.

Nos Mennechmas pintam-se jovialmente os caracteres; no Amphitrion o enredo é dos mais finos e complicados. Em todas as comédias desenha Plauto os vícios e ridículos com maestria.

O assumpto de todas era, todavia, grego, gregas as personagens, gregas as localidades em que corre a cena, gregos os nomes de todos os protagonistas. O assunto mais ou menos tirado de comédias gregas, e no prólogo de cada uma declarava o autor de que comedia e de que escritor grego extraíra o fundo da sua composição. Umas de Appolodoro, outras de Dephilo, algumas de Philemon. Confessa ainda e poeta que ou imitou ou traduziu da língua polida da Grécia para o idioma grosseiro e bárbaro dos seus compatriotas, os romanos, o que prova que a língua latina não estava ainda formada literariamente na própria opinião de Plauto.

Todavia, através d’essas personagens gregas, e das cenas passadas na Grécia, descobre-se a originalidade de Plauto, porque são romanos que respiram sob roupagens e vestes estranhas. Os costumes, usos, intrigas, gênio, caráter são de romanos, muito diversos dos gregos sob todos os pontos de vista.

É pena que a linguagem seja às vezes indecente, cínica, como a de Aristófanes; mas supõe-se que o poeta para agradar à plebe, cujas ovações procurava, preferia abaixar seu gênio a elevar a inteligência dos espectadores, com o receio de não ser por eles compreendido. Em geral n’essas comédias há tipos idênticos, e por vezes monótonos, de cortesãos, velhas gaiteiras, criados, brejeiros, rapazes estravagantes, velhos enganados, soldados fanfarrões, e parasitas sem vergonha. Outros, porém, aparecem excepcionais, particulares e admiravelmente desenvolvidos.

Plauto foi no seu tempo, e mesmo depois enquanto Roma, e outras cidades possuíram teatros, o autor mais aplaudido e festejado. Descobriu-se em Pompéia desenterrada provas de que na véspera do dia em que as lavas do Vesúvio a submergiram se havia no seu teatro representado uma comedia de Plauto. As classes mais elevadas lhe preferiam Terencio, pela superioridade e elegância da linguagem e correção da frase; mas o povo propriamente mais admirava, mais apreciava esse espírito vivo, sarcástico, pungente, epigramático, faceto, jovial de Plauto. O famoso padre da igreja S. Jeronimo, lia quase cotidianamente Plauto, e nenhum autor antigo tanto lhe agradava. Copiava cenas escolhidas de suas comédias para explicá-las aos meninos, e incitar-lhes o gosto do belo.

Em Plauto, Molière, Regnard, Cervantes, Antônio José da Silva e muitos outros poetas cômicos foram buscar inspirações, e encontrar modelos que lhes servissem. O que seria Plauto, se seu gênio não fosse manietado pela censura romana? Talvez chegasse a emparelhar com Aristófanes.

Terencio, escravo africano, libertado por seu talento, e estimado pela aristocracia romana, veio depois de Plauto, e sucedeu-lhe no cultivo da poesia dramática. Confessa igualmente nos seus prólogos que suas comédias, e seis d'elas só nos restam, são extraídas senão copiadas de Menandro e outros poetas gregos. Fineza, elegância, pureza, correção, limpidez de frase, a não ser Horácio, nenhum outro escritor latino possuiu em mais elevado grau. Ditos sentenciosos salpicam nos diálogos, e que servem a citações apropriadas a qualquer escrito. Pensamentos escolhidos e delicados abundam em suas composições. Sobra-lhe conhecimento perfeito do mundo, da sociedade, dos homens. Os caracteres de suas personagens são lindamente determinados, a intriga ou ação dramática simples, mas interessante, os costumes bem pintados. Não se descobre, porém, o romano; dir-se-ia comedia grega sob todos os pontos de vista Não é Plauto apresentando o romano sob vestes e nomes estranhos. Mostra-se assim menos original que Plauto. É, além d'isto, menos que ele jovial, alegre, espirituoso, malicioso, irônico, faceto. Julio César, que sobre guerreiro, político, orador e poeta, era literato de apurado gosto, o chama—meio Menandro. Horácio o considera polido sempre, conciso e nobre na frase e no diálogo. Terêncio fixou a língua latina, tornando-a agradável e límpida. As comédias Adrianna, os Adelfos, o Encuo, Phormion, Ecyra, tiveram imitadores numerosos, posto que já elas fossem cópias, imitações do grego.

Ficou, portanto, com estes dois escritores, firmado o teatro latino. Outros poetas lhes seguirão o exemplo, quer no gênero cômico, quer no trágico. Pacuvio, Acio, Cecilio, são citados por Aulo Gello, o espanhol Quintiliano, e vários analistas. Todas as suas composições, todavia, se perderão, já é para nós uma felicidade o termos adquirido as dos dois primeiros e mais estimados autores de Roma.

Por estas composições, e outras de que falia a tradição, reconhecemos que bem que cópia da poesia dramática latina, e iniciada em Roma por gregos, por meio de traduções, os romanos lhe introduzirão, todavia, modificações notáveis, senão inteiramente na essência, pelo menos nas fórmulas.

Os gregos introduziam coros no intervalo dos diálogos e cenas. Constituíam a explicação e. julgamento do assunto dramático, chamando o interesse e atenção dos espectadores: eram acompanhados pela música, para servir de entretenimento ao mesmo tempo. O coro ocupava o lugar que atualmente em nossos teatros preenche a orquestra.

Os romanos abolirão o coro, para dar seus lugares a nobreza e patrícios. Era povo aristocrático, e não democrático, para não dizer demagógico, como se manifestava o grego. Reconhecendo a necessidade de preparar os espectadores, e aguçar-lhes a curiosidade para a ação dramática, substituirão o ofício ou missão do coro por um prólogo, que um ator recitava ao princípio, resumindo o enredo e desenvolvimento do poema, posto que não segui-se as peripécias do drama, como o coro, que representava assim o pensamento, a consciência do espectador.

Para que não deixasse de haver música, partirão o drama em atos, sendo cinco que uma composição regular devesse conter, suspendendo assim o espetáculo, e tocando a música nos intervalos.

Abandonarão o uso das máscaras, e dos coturnos para possuírem e presenciarem ao natural as personagens. Com esta inovação conseguiram formar atores, mímicos excelentes, porque mais que os movimentos dos braços, e do corpo falia e se manifesta o semblante, patenteando afetos variados, a dor, a alegria, o sofrimento, a paixão, o ódio, o desprezo, o furor, o abatimento. A arte do cômico teve seu nascimento, por esta fôrma, em Roma. Sob as máscaras e calçados de coturnos, os gregos não alcançarão nunca mais que recitadores. Roma atingiu a glória de contar Roscio entre os atores, Roscio, com quem os oradores iam aprender a falar, convencer, e comover o povo.

Cumpre, todavia, dizer que o povo romano não foi nunca como os gregos, apaixonado pelo teatro. Seus costumes, tendencias, índole, o arrastavam de preferência para circos de gladiadores, para combates de animais ferozes, tigres, leões, panteras, que faziam vir de toda a parte do mundo por preços fabulosos, e cujos espetáculos foram sempre os prediletos dos romanos. Panem et circenses era ainda o que pediam aos imperadores, quando já corruptos, desmoralizados, e escravos indignos e pervertidos, se curvavam aos déspotas, esquecidos de suas antigas liberdades e glorias.

Ainda a comedia lhes arrancava o riso, tornava-os alegres no momento; a comedia era assim apreciada no seu tanto e concorrida. Mas a tragédia nunca agradou ao povo, apenas satisfazia o gosto dos literatos, e das classes ilustradas. Por isso fala-se em poetas trágicos romanos, mas eles nunca chegaram à altura dos cômicos. Diz-se que além dos nomes que citei, Cesar escreveu tragédias, tragédias escreveu Ovidio, compôs Mecenas, o próprio Augusto. Mas erão antes destinadas a leitura que á representação. As representadas não atraiam espectadores, não erão por eles apreciadas. Nenhuma composição trágica romana brilha pela ação, pelas situações, pela pintura fiel das paixões, pela naturalidade das personagens, pelo lirismo até dos gregos. As de Seneca, que viveu no tempo de Nero, são frias, pálidas, sem interesse, além de cópias mal-arranjadas das de Euripedes.

E como poderia o povo romano interessar-se, enternecer-se, entusiasmar-se com a representação de tragédias, quando nenhuma se referia à história ou personagem romana, e só á da Grécia, e a vultos gregos?

Os gregos, sobre mais instruídos e imaginosos, e conhecedores por suas lendas e poemas de sua história (quando os romanos ignoravam quase inteiramente seu próprio passado), consideravam o espetáculo como nacional; nos dramas de seus poetas viam seus avós, sua pátria, seus deuses. Os romanos notavam reis estranhos, em Orestes, Atreo, Thiestes, Edypo Theseu, Andromaca, Medéia; que lhes importava? Aventuras estranhas, como lhes podiam afeiçoar a curiosidade e nem atrair o interesse.

Além d'isto, como alimentar sua paixão por lutas de gladiadores, gritos e furores de animais bravios. A tragédia oferecia-lhes cenas fictícias, dissertações recitadas. O gladiador matando ou morrendo, o tigre, a pantera despedaçando membros humanos, fazendo correr o sangue, ecoar gemidos de morte, mostravam-lhes a verdade, a realidade da vida. Preferiam a verdade à ficção: queriam ver com seus olhos a espada que fere e corta, o sofrimento real, a agonia natural, a morte horrível; estrugindo de contentamento, deliciando-se cruel e barbaramente diante de um espetáculo, que lhes lembrava a guerra real, com cadáveres rolando entre sangue, combates atrozes; aplaudiam, aplaudiam entusiasticamente. Bem manifestavam que se queriam tornar dignos descendentes de Romulo, que, segundo a legenda imaginada, fora alimentado as tetas de uma loba feroz, o não aos seios mimosos de uma mãe adorada. (Aplausos.)

O teatro era planta exótica, trazida da civilização; a arena, o circo, eram nacionais. próprios dos costumes graves e grosseiros dos romanos, guerreiros antes de tudo: o circo, a arena, subjugava, matava o teatro.

Apesar d'isso, os romanos, que queriam se não exceder, ombrear pelo menos, com todas as nações conquistada, ou ainda livres, em tudo e por tudo, cousa nenhuma d elas deixando de possuir dentro dos muros de sua cidade, já capital do mundo, já a mais populosa, a mais rica, a mais soberba em edifícios, em grandeza, em extensão; os romanos, digo, trataram de edificar teatros de pedra, que fossem monumentos superiores aos dos gregos, como o faziam com palácios, arcos triunfais, casas de banhos, jardins, etc.

Foi depois de Plauto e Terencio que cuidou-se de substituir miseráveis teatros de madeira, por edifícios monumentais.

Pompeu mandou construir um que podia conter trinta mil espectadores. A parte reservada à cena era a única coberta e fechada. Para os espectadores estendia-se o espaço preciso rodeado de colunas, e repleto de assentos. Cobriu-se, para livrar o povo de chuva ou sol, com um pano de seda, bordado, que se abria quando preciso. Encanou-se água para as necessidades dos espectadores, porque, como na Grécia, os espetáculos se representavam de dia. Refrescava-se o ar quando quente, com água perfumada, que se derramava doce e suavemente de todos os lados.

Augusto, imperador, tentou vencer o chefe republicano; fez edificar outro teatro, que dedicou a Marcello, mais rico e vasto que o de Pompeu. Ainda hoje quem vai a Roma admira as ruínas d'este majestoso monumento.

O Edil Scauro foi mais longe. Não menos de sessenta mil espectadores podiam-se introduzir dentro do novo edifício que conseguira levantar. Acrescentou-lhe três andares de galerias para o povo, uma de mármore, outra de cristal, e a terceira de madeira dourada. O frontispício contava trezentas e sessenta colunas com três mil estatuas de bronze semeadas entre elas.

O Edil Curião, oh! esse obteve ainda maior gloria. Em vez de um, construiu dois teatros encostados, e suspensos por maquinismos, contendo ambos sessenta mil espectadores. Como os romanos erão mais dedicados aos combates de feras e gladiadores, ideou e conseguiu realizar que os dois teatros, depois da representação dramática, se movessem pelos maquinismos aplicados, carregando os espectadores, e volteando um para outro, a fim de formarem um só, com a arena, ou circo no centro, onde logo os gladiadores e animais ferozes erão introduzidos no intuito de continuarem os divertimentos romanos.

É que o Edil Curião compreendia a preferência que o povo romano dava aos espetáculos de feras e gladiadores, a cujos circos particulares concorria extraordinária multidão, e aí está ainda esse grandioso monumento do Coliseu em ruinas para patentear o apurado gosto dos dominadores do mundo. Que de sangue ali corria de vítimas humanas, que deviam mostrar-se cheias de dignidade no momento de cair e expirar, saudando respeitosamente o César, que lhes honrava o martírio com sua presença!

A poesia dramática se admitia ainda em Roma com prazer na comedia; a tragédia, lhes era de todo fictícia, de origem estrangeira, planta que não se aclimava no solo, não reverdecia à atmosfera carregada de Roma. Terencio, Plauto particularmente, dos seus sepulcros podiam, se de lá se ouve alguma coisa perceber repetir-se seus versos, retinir o riso popular, e saborear as saudações dos espectadores. Mas os poetas que tinham escrito tragédias, nem folias se falava mais, e nem d'elas se guardou cópia alguma. Muitas só para ser lidas se redigirão, e suas qualidades não podendo atingir às dos gregos antecessores não eram apreciadas, quando, entretanto os homens ilustrados guardavam cuidadosamente, liam e riam extasiados as de Eschylo, Sophocles e Euripides.

Salvaram-se as tragédias de Seneca, únicas das que se escreveram e representarão em Roma. Por elas é que se pode apreciar o desenvolvimento que teve a poesia trágica, e infelizmente bem pequena e triste ideia elas nos deixam do seu cultivo pelo povo rei. Se o poeta pinta Medéia, não é aquela mulher louca pela paixão, devorada pelo ciúme, que tanto interessa na tragédia de Eurípides; é uma Megera, |que trucida o filho diante dos espectadores, vomitando ondas de furor. Se apresenta Hypólito, não passa o protagonista de um estravagante e ente sobre humano. Se mostra os heróis gregos, não são eles mais que recitadores de sentenças e axiomas filosóficos. exagerados nas ações, no caráter, nas palavras.

Parece que Seneca não escreveu para o teatro, sim para traduzir em versos pomposos seus pensamentos de filosofia, seus conhecimentos científicos. Duas vezes fora exilado por Cláudio e por Nero; e por fim condenado a matar-se. Morreu com estoicismo e tranquilidade d'alma. Espanhol de nascimento, nascido em Cordova, servira Nero prestando-se a ser instrumento de desatinos, vícios e crimes, posto que fosse um grande filósofo, escrevesse obras cientificas apreciadas, e vivesse particularmente como um homem honesto, honrado, e de virtudes domésticas.

Nos seus exílios, diz a tradição, compusera suas tragédias, tirando assumptos, ação, situações, e personagens dos gregos, e particularmente de Euripedes. Não lhe vinha d'alma a inspiração; era filósofo e não poeta, homem de razão antes que de imaginação. Não sabia vibrar as cordas do sentimento para excitar a comoção por meio de notas harmoniosas. Não lhe faltam pensamentos elevados, axiomas e máximas admiráveis de filosofia. Mas quem procura na composição dramática outra cousa além da luta das paixões, o combate dos sentimentos, o interesse excitado pela curiosidade, a poesia enfim do coração, que única dá vida à tragédia?

Ainda na comedia, posto que em distância, acompanharão os romanos aos gregos; a cópia, se não reproduzia as belezas todas do original, mostrava talento, engenho no autor. Na tragédia os romanos nem souberam imitar os gregos; nada legaram que nos mereça outra consideração que não seja a de estudar todos os monumentos literários bons e mãos que chegaram a nossos dias.

Em eloquência e história quase ombreou Roma com a Grécia; em todos os mais ramos de ciências e literatura foi inferior a dominadora do mundo.

A Grécia foi sua mestra, sua mãe intelectual: ainda o é hoje do mundo. Conservará sempre essa glória, que não lhe ousa disputar nação nenhuma antiga ou moderna.

Roma brilhará para nós sob outros pontos de vista. Foi a dominadora do mundo. Guerreira e política, a todos os ensinou povos o que era nação. A todos passou suas instituições, sua língua quando abraçou o cristianismo, foi pela língua latina que ele se espalhou e propagou por toda a parte. A glória de Roma está na sua história de feitos estupendos, no seu domínio universal, tendo ela começado uma pequena povoação e cidade de tribos foragidas, e chegando a governar todas as nações conhecidas pela força das armas, e. o que é mais, pela ciência da jurisprudência, que ainda, com mais ou menos modificações, vigora e impera no orbe moderno, e que é particular senão exclusivamente romana.

(Numerosos e repetidos aplausos acompanham o orador ao descer da tribuna).

Localização

- Conferências Populares, Rio de Janeiro, nº6, jun. 1876, p. 15-29 (na integra). Capturado em 10 dez. 2025. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/docreader/278556/611

Ficha técnica

- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.

- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.

Forma de citação

Conferência Popular da Glória nº 180. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 2 fev.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=762

 


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