Conferência Popular da Glória nº 186

De Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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Data: 23/07/1876

Orador: João Manoel Pereira da Silva

Título: Poesia dramática V. Poesia dramática nas Espanhas

Aviso, íntegra ou resumo: Íntegra

Texto na íntegra

“Ao principiar o século XVI entrava a Europa em uma transformação social, política, e até civil; nova era se descortinava, que os historiadores apelidam de renascença. Saiam as diferentes nações das trevas da idade média, do feudalismo que as havia dominado, da ignorância em que se tinham submergido. Luziram durante esse período por vezes alguns astros que alumiaram o mundo por um momento, mas que logo desapareceram, deixando após de si a noite cobrindo o horizonte. Raros foram, mas brilhantes, Abelardo, Dante, Petrarcha, Carlos Magno, Gerson, alguns padres da igreja cristã.

Assim ideias, princípios novos, novas luzes, começarão a espalhar-se e desenvolvendo-se posteriormente, se traduzirão nos progressos e aspirações dos tempos modernos.

Mais que nenhum outro povo se civilizara, se ilustrara o italiano, posto que não tivesse pátria comum e unida, pois que se partilhava o solo estendido dos Alpes ao Mediterrâneo em diferentes Estados, com vários chefes, diversos regimes. Mais depressa esses Estados de Florença, Roma, Mantua, Ferrara, se haviam adiantado, cultivando as letras, as artes, as ciências, desenvolvendo o comércio, aperfeiçoando a agricultura, melhorando a indústria, e entretendo com todo o Oriente e a Ásia ativa navegação, e relações profícuas.

Também fora a primeira língua literária da Europa o idioma italiano, empregado por Dante no seu imortal poema, e depois propagado por Petrarcha e Boccacio, em versos harmoniosos e em prosa admirável. A língua provençal deixara monumentos poéticos, fora cultivada antes da italiana, mas só nos nossos dias eles se imprimiram e são conhecidos. A italiana, apenas se descobrira a tipografia, espalhou-se por toda a parte, e não cessou de ser apreciada.

Nenhum país também, conseguira e obtivera tão vasto conhecimento dos escritos antigos, gregos e romanos. Tornou-se até paixão dos italianos o estudo e investigação cuidadosa de todos esses tesouros da inteligência e do espírito humano.

Por essa razão, pelo excessivo zelo e dedicação que eles professavam aos livros e às artes antigas, foram perdendo originalidade literária, e convertendo-se em imitadores antes que autônomos e nacionais, senão em grande parte em copistas de gregos, e particularmente de latinos.

Relativamente ao assumpto de que tratamos, a poesia dramática, enquanto França, Inglaterra e Alemanha se contentavam com mistérios, em sua maioria sem gosto literário, mas farsas burlescas, que cativavam a atenção do povo pelas singularidades, às vezes indecentes, Itália via representar-se perante o papa e os príncipes dos vários Estados, comédias de Plauto e Terêncio, e tragédias de Seneca, vertidas em versos italianos, extasiando-se diante d'essas formulas regradas e compassadas, como se foram o ultimo e mais elevado grau de beleza que o espirito humano pudesse atingir.

Entretanto ali, não longe d'ela, estava outra nação que começara a cultivar uno só uma poesia dramática original, inteiramente própria, sem mescla ou influência, da antiguidade, e com gosto, o gênio dignos de nota, senão também criara alguma novidade em outros ramos da literatura. Era Espanha, não digo bem, erão as Espanhas, que compreendiam não só o que atualmente se chama Espanha, como o reino de Portugal.

Como se dava este fenômeno? Por que circunstâncias as Espanhas brilharão sobre todas as demais nações da Europa?

Encontramos a razão na história particular das Espanhas. Examinando-a, apreciando-a em largos traços, nada mais fácil que explicar suas causas e fundamentos.

Os primeiros povos habitadores das Espanhas foram os Iberos. Conjectural é a sua origem; sua língua, que ainda hoje perdura nos moradores das províncias vascongadas, difere em todo o sentido da eslava, da teutônica, da latina, que são os três idiomas, que formarão as línguas modernas, mais ou menos puros ou mesclados e confundidos.

Os Celtas invadiram Espanha, depois Fenícios e Cartagineses. Os Romanos a. possuirão durante cinco séculos e meio como província, governando-a por pro-cônsules. E há um facto digno da maior nota. Os Romanos introduziram a lingua latina em todos os territórios que avassalaram. Não aparecem entre imperadores romanos, escritores e poetas latinos senão italianos, gregos, ou espanhóis. A Espanha deu a Roma três imperadores, Trajano, Marco Aurelio, Theodosio: às letras e ciências romanas Floro, Quintilianno, Marcial, os dous Senecas, Silio itálico, e o grande poeta Lucano.

No século V foi de novo invadida Espanha por Vândalos, Suevos, Alanos, que a curvarão a seu jugo, que não durou muito tempo, porque uma tribo de Godos, denominada Visigodos se assenhoreou do território, subjugou todos os habitadores, expeliu d'ele os Vândalos para a África, e governou três séculos de um modo regular, e com instituições mais ou menos humanizadas e sociais, abraçando como todos os habitadores o cristianismo, como religião geralmente aceita.

No século VIII apareceram os Árabes, vindos da Ásia, possuidores da África septentrional, de onde se passarão para Espanha. Toda a península foi por eles domada, salvo uns rochedos nas Asturias, onde se refugiarão alguns restos de antigos Godos e Romanos; salvo as províncias vascongadas que haviam resistido a Celtas, a Romanos, a Godos e a Árabes, e que conservarão sempre até nossos dias uma raça autônoma e particular, sem que se deixassem curvar por estranhos invasores.

Os refugiados das Asturias resistirão aos Árabes, defendendo-se em montanhas e cavernas, que formavam até o mar um verdadeiro e impenetrável esconderijo. Foi uma felicidade para as Espanhas, porque erão Godos senhores e Romanos escravos. Ficarão todos iguais, e desapareceu a diferença social entre as duas classes. Assim não teve mais Espanha feudalismo propriamente. Do seu covil começarão a sair, e recuperar terras sobre posses dos Árabes, levantando castelos à proporção que ocupavam o solo. D'aí pelo número de castelos deriva o nome dado ao país de Castela, primeiro a velha mais ao norte, depois a nova mais meridional. Ao lado dos castelos construíam-se cidades, onde se aninhavam os cristãos, que fugiam do domínio árabe a que se haviam submetido. Essas cidades obtiverão foros, isto é, direitos, para se poderem defender, e entre eles o de nomear seus magistrados e alcaides. O povo converteu-se em cavaleiros, e tributários; os primeiros deviam prestar-se a toda a guerra contra os Mouros, os segundos concorrer com os impostos para coadjuvá-la, obedecendo todos ao rei, mas possuindo assembleias municipais, e assembleias gerais que auxiliassem o governo.

O primeiro reino foi o de Leão, que se sumiu no de Castela; criaram-se depois outros, Aragão e Portugal. Este último formou-se no século XI, e ficou sempre independente. O de Aragão uniu-se ao resto de Espanha, com o casamento de Fernando e Izabel, no século XV.

Assim os Árabes, posto que se tornassem em Espanha independentes da Ásia, criando um califado próprio, e chamassem em seu socorro os Mouros da África, foram a pouco e pouco perdendo o território que haviam conquistado, abandonando aos cristãos ora Toledo e Saragossa, depois Valença e Cordova, a sua magnifica capital, após Sevilha, e por fim a bela Granada dos Abencerrages, até serem de todo expelidos das Espanhas ao findar o século XV.

Foi uma longa e cruenta luta, que durou oito séculos, e que acabou por criar uma nação—a Espanha—e por não deixar mais Árabes no território.

Alimentou-a de pais a filhos, não tanto o ódio de raça, como principalmente o da religião. Apesar de que os Árabes haviam sido tolerantíssimos em matéria de religião, não impondo o islamismo a nenhum cristão, não obrigando nenhum cristão a apostatar, consentindo-lhe liberdade de culto, ainda que fossem os cristãos os vencidos e curvados ao jugo muçulmano; todavia os Espanhóis, atribuindo suas vitórias a milagres do seu Deus, porque não lhes parecia bastante sua valentia contra tão grande poder como era o de  Árabes e seus auxiliares Mouros, e recebendo constantes animações do Pupa, e dedicações e admoestações do clero nacional, tornaram-se excessivamente religiosos, e intolerantes a respeito do culto católico: converteram-se em verdadeiros fanáticos.

Isoladas as Espanhas do resto da Europa, sem d'ela receber o menor socorro para combater Árabes, a consequência foi um patriotismo egoístico, acrisolado e altivo; combatendo durante oito séculos, soldados todos os habitantes, o resultado foi virem a ser aventureiros, guerreadores altanados, invasores, cruéis mesmo; vivendo de vida própria, social e doméstica, com costumes particulares e especiais, d'aí seguia-se uma expansão literária autônoma, nacional, original.

Nas Espanhas duas línguas principais prevalecerão sobre as outras faladas na Península, porque foram as únicas oficiais, e em que se escreverão leis, ordenações, decretos, e obras literárias. A castelhana e a portuguesas: ambas irmãs porque procederão conjuntamente da latina, mas diferentes pelas diversas anexações estranhas que receberão, adoptando mais da árabe a castelhana, porque mais longo e duradouro foi o seu contacto, enquanto que já no século XIII Portugal estava constituído, sem Árabes e Mouros a combater, tomados os Algarves e Alentejo, e não entretendo mais relações com eles, quando Espanha continuava na luta.

Assim, posto que nada influíssem na região dos Espanhóis os Árabes, influíram, todavia, nos costumes, no gosto, nas letras, nas ciências, porque os Árabes eram povos cultos, civilizados, adiantados em progressos materiais e intelectuais, e os Godos espanhóis mais ou menos bárbaros, e ignorantes, como ficaram os povos dominados pelos invasores do Norte da Europa. Chegou a ponto o influxo dos Árabes que quando Saragossa caiu em poder dos Espanhóis, os Mozarabes, isto é, os Godos subordinados aos Árabes, falavam unicamente a língua dos vencedores, e foi preciso aos bispos católicos fazer traduzir em árabe a Bíblia e os Evangelhos.

Dos Árabes receberão os Espanhóis o gosto de canções ternas, sentimentais, melancólicas, de romances de torneios, justas, cavalerias, e aventuras, que desenvolverão brilhantemente; uma tal qual ornamentação metafórica, senão imaginação luxuosa, oriental, que derramarão em todos os seus escritos.

Assim canções, copias, particularmente pastoris, foram o primeiro ramo de poesia cultivado nas línguas portuguesa e castelhana. Ha coleções, denominadas cancioneiros, de ambas as nações da Península, onde se encontra muito sentimento, muita ternura, muita melodia. Entre eles brilham as trovas do poeta português Macias, enamorado de uma dama casada, encerrado em prisão a pedido do ciumento marido por ordem do Mestre de Calatrava, e aí assassinado pelo marido da sua adorada com uma seta que ele lhe disparou em ocasião em que a guitarra cantava suas composições, encostado a uma janela. Brilham ainda essas canções de Donna Auzenda, conde Alarcos, D. Gaifeiros, em ambas as línguas, repletas do mais enternecido sentimento nacional e original. Só com eles se parecem as copias dos poetas provençais hoje conhecidas, e que também haviam imitado as poesias arábicas. E mais que todos, os cânticos do Cid, el Campeador, que todo o espanhol repetia e cantava por toda a parte.

Também nas Espanhas se desenvolveu o romance de cavalerias, parecendo o mais notável, senão o primeiro, o Amadis da Gália, obra do português Vasco da Lobeira, do século XIV, escrita na língua castelhana, o Palmeirim de Inglaterra, do português Francisco de Moraes, a Menina e Moça, do português Bernardim Ribeiro, nas suas línguas nacionais, o Bernardo del Carpio, D. Belianis, a Princesa Magalona, e tantos outros no idioma castelhano.

O gosto dos romances tornou-se em Espanha tão geral e popular, que se extraviou, exagerado e estravagante. Quanto mais extravagâncias, mais aplausos merecia. Foi preciso que Miguel Cervantes, com o seu imortal Dom Quixote de Ia Mancha, vingasse o gosto literário, ridicularizando e extinguindo com a ironia e sarcasmo composições tão detestáveis, como o erão a maior parte d'elas: poupou apenas o Amadis e o Palmeirim como dignos de lêr-se.

Dom Quixote de Ia Mancha não é só um monumento literário, puro, rico, admirável, que elevou o nome do seu autor acima de todas as glorias de Espanha; é uma escola de bom senso, de crítica apurada e fina, e um belíssimo painel dos costumes da sociedade, pintados com a maior maestria e gênio.

Como o mistério, essa composição dramática, sacada de assumptos religiosos, teve desenvolvimento nas Espanhas, apenas foi ali conhecida. Enquanto a Europa se contentava com farsas burlescas, e assumptos recitados em diálogos, como eram os mistérios na Inglaterra, França e Alemanha, as Espanhas, admitindo o gênero, com o título de auto sacramental, o tiraram pouco e pouco da igreja, e levando-o a assumptos profanos, o elevou logo a comedia, ou drama. O auto sacramental converteu-se em poesia verdadeira, em ramo literário nas Espanhas.

Gil Vicente, como tive a honra de dizer-vos na última conferência, foi o criador do drama nas Espanhas. Na língua castelhana, continuarão a cultivá-lo Encina, Huerta e Naharro. Miguel Cervantes, esse gênio portentoso, desenvolveu-o, elevou-o, escrevendo o drama heroico Numancia, e o pitoresco e mavioso intitulado, Tratos de Argel, pintando no primeiro, cenas admiravelmente patéticas de uma cidade sitiada, esfomeada, e por fim entregue aos Romanos quando já mortos todos os habitantes; e no segundo, as perseguições, torturas dos cristãos escravos em Argel, a vida intima dos Argelinos.

O drama espanhol foi assim criado, e, o que é mais, sem mescla alguma da antiguidade, sem se modelar pelos clássicos romanos ou gregos, sem receber influência de estranhos todo autônomo, nacional, original, espanhol só, fotografia fiel da Espanha e dos costumes, Índoles, tendencias, instituições e religião sobretudo dos seus habitantes. E por essa mesma razão que com justos motivos se considera irregular, as vezes exagerado, na expansão de suas forças e elementos. Entretanto o mesmo resultado se não depara na poesia dramática portuguesa, posto que Gil Vicente a iniciara patriótica e originalmente, porque Antônio Ferreira e Sá de Miranda, e até Camões, instruídos nos estudos da antiguidade abandonaram a escola autônoma que se criara, e modelaram tragédias e comédias pelas clássicas gregas e romanas mais ou menos, ao tempo em pouco que Trissino, Ruccelai, Machiavelli e o cardeal Bibiano, na Itália, publicavam composições imitadas igualmente, seguindo os preceitos de Horácio, e as regras de Plauto e Seneca.

Assim, na poesia dramática dos Espanhóis não há unidade de tempo e nem de lugar, o que se não dera igualmente na Grécia, mas que Horácio e os latinos exigirão como necessidades indispensáveis. A mesma unidade da ação desaparece substituindo uma complicada, cortada por vários incidentes, à ação simples dos Gregos e Romanos.

Assim, não se divide a composição espanhola em tragédia e comedia, nem em cinco atos regulares, mas cifra-se no drama, que encerra ao mesmo tempo o sublime e o ridículo, o patético e o jovial, as paixões enternecedoras e a crítica e sarcasmo irônico, confundindo o que era trágico e o que era cômico particularmente para os antigos; em vez de narrações e descrições, ação, factos, intriga ao vivo, cada personagem falando sua linguagem, reis, nobres, plebeus, cavalheiros, criados, em cena, ao natural: assim, enfim, o drama é em jornadas, não em atos, para dar ocasião a correr o tempo, mudar-se a localidade, e parecer nova ação ou época.

Lopo de Vega elevou a poesia dramática espanhola à altura admirável, ao findar o século XVI e começar o XVII. Quando se note unicamente a fertilidade de sua imaginação, e já um grande gênio, um portento da natureza. Compôs mil e oitocentos dramas, quatrocentos autos sacramentais, poemas, sonetos, odes em quantidade: não menos de duzentos e dez milhões de versos escreveu, de que grande parte se não imprimiu, todavia. De certo que se pode apelidar suas composições de improvisos, não tinha tempo o poeta para pensar, meditar, corrigir o que compunha. Sendo assim, podem-se comparar a essas plantas que crescem e se completam em uma só estação do ano; ainda que uberrimo seja o solo e benigna a atmosfera, definham logo e morrem na estação seguinte. Não assim as obras meditadas, estudadas, aperfeiçoadas, corretas, que se assemelham aos cedros, que custam a desenvolver-se, gastam tempo imenso em espalhar galhos, deitar ramos, cobrir-se de folhas, mas que vivem, vivem muito, atravessando o espaço e os séculos, e conservando-se robustos e vigorosos. (Muitos aplausos.)

Todavia, com esses improvisos de Lopo de Vega pode-se afirmar que não só se firmou e consolidou a poesia dramática espanhola, como realmente se manifestam belezas da primeira ordem, que só um gênio podia produzir. Que poderosa imaginação, que invenção admirável, que conhecimento da cena, que naturalidade de diálogos, que enredos, intrigas e peripécias dramáticas tão bem combinadas, que atraem desde o princípio a atenção do expectador, conservam-na presa ao correr dos acontecimentos, excitam ao último ponto a curiosidade, comovem o coração e causam impressão duradoura e agradável!

Ao lado de Lopo, pouco mais ou menos seus contemporâneos, fulguram talentos reais, e mesmo gênios poéticos de valia, como Alarcon, Tirso de Molina, Moreto, Rojas, Solis, o grande historiador da conquista do México. Todos eles escreverão, fizeram representar com aplausos, legaram-nos dramas de muito merecimento: entretanto sobre todos se eleva Lopo de Vega, como o mais primoroso, como superior, como mestre, como prodígio, governando o teatro durante sua vida, e conseguindo a admiração dos seus compatriotas.

É que Lopo, apesar de improvisar, dispunha de qualidades literárias as mais apreciáveis. Poucos dramas seus podem ser hoje lidos com prazer, mas agradam muitos quando representados. Em alguns, que formão verdadeiros tesouros de poesia dramática, há ação magnificamente traçada e enredada, cenas admiravelmente apresentadas, paixões pintadas inteiramente ao vivo, e mais que tudo há um sentimento, patriótico uma inspiração religiosa, uma fotografia da história, costumes, gênio, caráter, ideias, tendências dos espanhóis, quer seja o assumpto nacional do dia, ou tirado da história da Península, movem-se com aqueles brios, altivez, pundonores, e quase ferocidade, que se tornavam qualidades exclusivas, particulares do povo que pela sua liberdade e pela sua religião combateu Mouros e Árabes durante oito séculos, concentrado em suas próprias forças e recursos!

Seu drama é cavalheiroso pelo movimento e ação, heroico pela idealidade, católico pelo pensamento, espanhol pelos incidentes: seus defeitos provêm de falta de meditação e de correção, de seiva exageradamente solta, e que se perde na própria exuberância.

É indispensável conhecer Espanha d'essa época para se apreciar devidamente sua poesia dramática. Outras são hoje nossas ideias e aspirações, nosso modo de ver e julgar as cousas, os factos, os homens. Não é este aspecto moderno que nos cumpre procurar. Tudo em Espanha era guerreiro, altanado, brioso em excesso, religioso por demais fanático, com crueldade, posto que por vezes cavalheiroso pelo contacto e influência dos Árabes. O espanhol considerava-se superior aos outros homens, porque a seu Deus e à sua espada devia a libertação do solo. Portugal não se deixava tanto arrastar pelo mesmo espírito, porque mais cedo se emancipara de Mouros, e formara sua autonomia. Mas Espanha lutara ainda dois séculos, e se imbuíra de sentimentos e caráter mais peculiares.

Não era profissão própria a das letras; o poeta, o escritor, o artista erão igualmente guerreiros e eclesiásticos.

Cervantes fora soldado e ferido no combate de Lepanto sob D. João de Áustria, cativo em Argel; Lopo de Veja militara a bordo da famosa invencível armada que Felippe II enviara contra Izabel de Inglaterra, e destroçada pelas ondas do mar, e tempestades de ventos; Calderon servira nos exércitos de Flandres e Milanez; Ercilla se batera no Chile, escrevendo o seu poema da Araucania; Garcilaso cometera prodígios de valor diante de Tunis; Hurtado de Mendoza tornara-se notável pelo valor; os Portugueses foram iguais e semelhantes aos Espanhóis, Camões, Corte-Real, Luiz de Souza, Jorge de Montemayor haviam sido soldados, e os dois últimos, prisioneiros na África: uns se fizeram depois oficiais do santo ofício, outros adotaram a profissão eclesiástica alguns até se recolherão a conventos, onde acabarão seus dias de vida em atos de devoção e pensamentos religiosos.

A especialidade de Espanha estava antes na influência do clero, na liga do clero com os guerreiros, no clero que se militarizara, marchando à frente de tropas contra Mouros e Árabes, animando-as ao combate, e ele próprio lutando e pelejando. O clero ganhara o afeto dos povos, como companheiro de lides e pugnas, como corporação ilustrada, como conselheiro dos reis, diretor das almas, consolador nas desgraças e sinistros. Era o clero popular, porque perdoava os pecados, e até crimes quando confessados, defendia o assassino e bandoleiro fugido das garras da justiça sempre o respeitava, que se mostrava católico, presenteava a igreja, que assim se enriqueceu como em nenhuma outra parte do mundo em bens de fortuna e propriedades.

Quando acabadas as guerras contra Mouros e Árabes, e curvado todo o território espanhol a uma só soberania, o espanhol sentiu a necessidade de exercitar sua atividade febril fora do reino, porque aí não havia mais que fazer. Atirou-se sobre a América, atirou-se sobre a Europa, arrastado pelo gemo ambicioso de Carlos V. Suas legiões domaram Itália, Alemanha, Países-Baixos, Flandres, Borgonha e outras partes da França. Impuseram sua influência, seu jugo aos povos europeus, e no século XVI até a língua castelhana foi falada em quase toda a Europa, nas Cortes mais polidas: tornou- se então Espanha a primeira nação, a mais poderosa. Foi então que a Europa conheceu a literatura opulenta de Castella, e imitou particularmente a poesia dramática espanhola, porque não conhecia quase este gênero da poesia.

Itália continuou na cópia clássica dos Romanos; Alemanha só cultivou a poesia dramática nos fins do século XVIII; mas em Inglaterra Marlowe, Congreve, Beaumont, Fechter, foram logo conhecendo os dramas espanhóis, tirando-lhes os assuntos, e os acomodando ao teatro inglês; em França, Thomaz Corneille quase que não escreveu sobre assumpto próprio, e só sobre os do teatro espanhol. O grande Pedro Corneille tirou o Cid do original de Guilherme de Castro, o Mentiroso de Alarcon; Molière encontrou a Escola dos maridos, na Enamorada discreta, de Lopo de Vega, as Sabichonas, no drama de Calderon—Non hay burlas contra el amor, o Medico à força no Acero de Madrid, de Lopo, o Festim de Pedra, do Convidado de pedra, de Tirso de Molina, a Princeza d’Elide, do Desdém com desdém, de Moreto, D. Garcia de Navarra de Lopo da Vega. Ainda depois Regnard e outros poetas praticaram o mesmo fato: o próprio Goethe, no nosso século, extraiu seu Fausto de Marlowe, muito parecido com o Mágico Prodigioso de Calderon, e Gozzi, na Itália não lhe poupou aquisições. Até nos romances que em Espanha passaram da cavalaria e do pastoril para os costumes com o Lazarilho de Tormes de Hurtado de Mendonza, Gusmão de Alfarrache e outros, encontraram posteriormente Florian, Lesage, Filding, e vários escritores materiais preciosos para suas composições.

Infelizmente a casa d’ Áustria, que começara a governar Espanha com Carlos V, passou da política ambiciosa para a descuidada e inepta. Ainda Espanha se aguentou na sua grandeza sob Felippe II. Mas já então começa sua decadência, que se torna visível no reinado de seus descendentes incapazes, Felippe II, Felippe IV e Carlos II, governados por mulheres, jesuítas, inquisidores, que dão a lei no reino. A casa de Bourbon, que depois da guerra da sucessão havia sucedido à de Áustria, não se mostrou mais digna de cingir a coroa, com a única excepção de Carlos III, que não teve forças, posto que lhe sobrassem qualidades apreciáveis de soberano, para resistir aos desastres da nação e da monarquia.

Precipitou-se no abismo. A própria literatura tão rica e fecunda, acompanhou-lhe a sorte. Tantos historiadores, cronistas, filósofos, romancistas, poetas, teólogos, artistas, navegantes, guerreiros, haviam brilhado nas belas eras! Do século XVII em diante tudo foi desaparecendo.

Em vez de impor sobre as outras literaturas, recebeu influxo de estranhas. Mas em Espanha o que é exótico não medra. O gênio espanhol tem necessidade de ser próprio e nacional. Nenhuma instituição alheia, nenhuma ideia literária de fora prospera e se desenvolve! Assim é feito o caráter espanhol! (Muito bem, muito bem!)

Na própria mortalha em que a nação se sepultou lá se foram igualmente dormir o último sono a literatura, a ciência, as artes espanholas. (Muitos e repetidos aplausos.)

Bastaria, para glória da poesia dramática castelhana, o que dissemos em relação ao número de seus autores; nenhuma nação tantos produziu, e tão belos e formosos engenhos; bastaria o número extraordinário de dramas; em nenhuma literatura aparece tal fertilidade; bastaria a quantidade de invenção, a fecundidade de imaginação que em tais composições se derrama, como se não encontra em nenhum outro país. É o passado, mas é um admirável passado que compreende os séculos XVI e XVII, época gloriosa para Espanha em todos os sentidos. Curtíssimo período, e que se não renovou mais desgraçadamente!

Entretanto não falíamos ainda do maior gênio dramático de Espanha, que a todos excedeu, e que pertence ao século XVII. Também foi o último, pode-se dizer, pois com ele se extinguiu a poesia dramática espanhola! Ele só por si formaria uma literatura, como não deve ser considerada uma literatura que além d'ele tantos escritores admiráveis conta?

E D. Pedro Calderon de Ia Barca, que viveu sob os reinados de Felippe III e Felippe IV. No seu tempo tão desenvolvido estava o gosto dramático, que mais de quarenta companhias de atores existiam espalhadas por Espanha com um pessoal superior a mil e quinhentos empregados, e teatros se construirão em todas as cidades!

O único poeta dramático moderno que rivaliza com Shakespeare é, no meu pensar, Calderon de la Barca. Ambos magníficos e poderosíssimos gênios, ambos verdadeiros poetas nacionais. Calderon tem mais invenção, não mais imaginação; Shakespeare é mais profundo pensador e conhecedor do coração humano. Calderon descobria o enredo, a ação a essência do drama, o assumpto histórico, o fundo em si mesmo, em sua própria inspiração. Shakespeare colhia-o em outras composições, romances, cantatas, legendas, até dramas alheios, mas desenvolvia-o com seus recursos fecundos, e sua admirável meditação.

A diferença principal entre eles provém da diferença entre suas nações, Inglaterra e Espanha.

Inglaterra protestante, raciocinadora, um tanto séptica. Espanha religiosa em extremo de fé, e crente até o fanatismo. Das nações cristãs a Espanha foi a mais cristã, das católicas a mais católica: por isso primeira admitiu inquisição, autos de fé, jesuítas, e inteiro domínio da cúria pontifícia.

Inglaterra saíra do despotismo que lhe pesava para a liberdade que lhe abriu a carreira da prosperidade, da grandeza, da gloria, arrancando ao rei João sua famosa carta de direitos políticos, e chamando o povo a intervir na direção dos negócios e interesses públicos.

Espanha de um regímen liberal, de isenções municipais, de assembleias provinciais, e de cortes para tratar dos assuntos políticos, e que com seus conselhos e influxo continham e limitavam o poder e a ação do soberano, passou para o governo de Carlos V, estrangeiro, e depois de seus sucessores para o mais caracterizado absolutismo régio, perdendo seus antigos foros: passara assim da liberdade para o despotismo.

Inglaterra filosófica e meditativa, ao mesmo tempo prática, só procurando atingir o possível, e não o melhor imaginado. Espanha, ideal com laivos de instintos orientais, inspirada por um misticismo de tendências e ideias, obediente, subserviente à direção espiritual do seu clero, que curvava a vida mundana a destinos da outra vida, não considerando o homem como social e só corno religioso.

Inglaterra povoada exclusivamente por tribos do Norte, Saxões, Anglos, Normandos, Dinamarqueses; Roma a domara com suas legiões, mas ao inverso do que sucedera às outras nações, retirados os soldados romanos, quase vestígio nenhum latino ali ficou e nem se conservou: a própria língua apenas foi cultivada para os atos e sacramentos da igreja enquanto católica. As palavras latinas que se introduzirão no seu idioma lhe provieram dos Normandos; a base da sua língua conservou-se o teutônico mesclado com os antigos dialetos do Norte.

Espanha guardando particularmente sempre tradições, língua, costumes dos antigos Romanos, embora um tanto modificada pelos Godos e Árabes, tira a sua raça, quase na sua generalidade, de Latinos, Cartagineses, Gregos, Fenícios, Judeus e Mouros, que absorverão e não foram absorvidos pelos Godos, últimos invasores do solo, que ali permanecerão, mas que desde o princípio se subordinaram à língua, às instituições e à religião dos invadidos e subjugados, com ligeiras modificações.

Shakespeare, pois, filho da Inglaterra livre, da pátria dos pensadores revolucionários, não se podia parecer com Calderon, nascido na tetra do absolutismo político e religioso, no solo que produzira os Torquemadas. (Muitos aplausos.)

Shakespeare pinta os caracteres admirável e filosoficamente; Calderon prefere desenvolver a ação, a intriga dramática para sustentar o interesse e atrair a curiosidade.

O drama de Shakespeare é para ler-se, o de Calderon para representar-se.

O drama de Shakespeare é a razão, o de Calderon é a paixão.

Isto não quer dizer que Shakespeare não desenha paixões; há composições suas que são admiráveis sob este ponto de vista; mas Shakespeare folga de analisá-las, as gela por vezes com este sistema, enquanto que Calderon rasga-lhe os traços gerais, fal-as mover, e agitar-se em cena.

Quando Shakespeare cai na dúvida, no ceticismo que lhe é ordinário, entra em si mesmo, observa, pensa, medita, sonha em monólogos filosóficos: escritor eternamente admirável para as inteligências meditativas, para as almas dadas aos cismares.

Calderon tem fé, e fé profunda, vê na religião o refúgio único da vida, nos seus dogmas a verdade, nas suas teorias a explicação de todos os fenômenos; não duvida, não medita, caminha, marcha, repleto de convicção, e satisfeito de mostrar o mundo entregue inteiramente á Divina Providência, e o homem colocado n'ele com uma missão espiritual, á que deve subordinar todos os atos, ações, e pensamentos de sua vida.

Os caracteres pintados por Shakespeare são humanos, gerais, e, portanto, admirados sempre e em todos os países; os de Calderon são espanhóis, só espanhóis, e, portanto, não cosmopolitas; as personagens de Shakespeare gravam-se na memória como gente conhecida, ou semelhantes ás que conhecemos; as de Calderon são mais supersticiosas que simplesmente crentes, pela estremecida e exagerada fé que manifestam; fanáticas mais que piedosas, ferozes mais que heroicas.

Não o acuseis, porém, por estes defeitos, porque cairíeis no erro de ignorar a história de Espanha, os costumes, Índole, tendências dos espanhóis.

Analisar as obras de Calderon, apreciar as suas mais famosas composições, é um dever nosso. Mas para isso será preciso tempo. Faltaria com o respeito que lhes devo, se o não fizesse. Guardemo-lo, pois, para a próxima conferência”.


(Muitos e repetidos aplausos acompanham o orador).

Localização

- Conferências Populares, Rio de Janeiro, nº7, jul. 1876, p. 57-73 (na integra). Capturado em 10 out. 2025. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/docreader/278556/773

Ficha técnica

- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.

- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.

Forma de citação

Conferência Popular da Glória nº 186. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 11 fev.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=768

 


Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz – (http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br)