Conferência Popular da Glória nº 187

De Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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Data: 30/07/1876

Orador: Luiz Maria Vidal

Título: Exposição das bases de um sistema para facilitar a tradução das línguas

Aviso, íntegra ou resumo: Íntegra

Texto na íntegra

“INTRODUÇÃO. — Épocas da mente humana e das suas primeiras ideias e operações. — Dos princípios gerais para se conhecer as coisas, e dos processos do iniciado nas letras e dos do erudito. — Ideia geral do sistema, chamado FLEXIOLOGIA, e como está baseado sobre os processos intelectuais e especialmente da memória. — Conclusão.

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Minhas senhoras, meus senhores. —Inúmeras são as invenções que o espírito humano tem posto em prática para conservar a existência, pata economizar a ação do corpo, para encurtar as distancias, e para se aproveitar o tempo e o supérfluo. Teorias, livros, sociedades e maquinismos têm sido apresentados para realizarem estas aspirações. Hoje, pois, a sociedade trata de zelar as coisas que lhe são mais caras: a vida, a propriedade e a honra. Provão isto tantas associações criadas para preservarem as obras materiais dos incêndios e sinistros, para resguardarem a existência dos caprichos da fortuna, e a saúde dos estragos das doenças. Por que também não se busca um meio para a memória conservar intactas em seu seio as noções que com tanta dificuldade o homem obtém das coisas? Não é aos trabalhos da ciência que a matéria deve os seus progressos?

Quando a terra vê os produtos de suas entranhas convertidos em preciosidades e monumentos grandiosos, quando sobre as ruínas das brenhas se levantam povoados florescentes, quando a vida se declara nos desertos ao som da trombeta da civilização, quando finalmente o homem vê o templo da indústria carregado dos troféus de sua atividade, então ele sente necessidade de render um preito de homenagem a essa entidade augusta que representa todas as glorias e conquistas de sua inteligência.

À vista, pois, d'essa porfia do erro e da inércia em procurarem convergir toda a ação inteligente do homem para as obras da matéria, é necessário que os pensadores se coloquem ao lado da ciência, e reúnam seus esforços a fim de acharem um meio de resguardar a memória das trevas do esquecimento.

É verdade que a ideia da instrução popular é hoje compartilhada por todo o mundo civilizado; mas tem-se estudado os meios de se conservá-la na memória, e de se obtê-la com facilidade? E este o problema que deve preocupar seriamente os espíritos investigadores.

Se um método para guardar a ciência na mente é um invento de alta importância para a sociedade, um meio pelo qual as relações dos povos se estreitam mais, a descoberta de um sistema didático pelo qual se estude rapidamente todos os idiomas conhecidos, e que se preste a todas as inteligências, até ás dos homens materializados pelo trabalho, será de summa utilidade para todas as nações.

Mas, ilustres senhoras e senhores, seria dado a um filho do povo realizar tamanha concepção, e ainda mais para vir anunciá-la do alto d'esta tribuna, que tem sido ilustrada por inteligências brilhantes cujos troféus parecem esculpidos e ressoar sob as abóbadas d'este augusto recinto?... Por certo que não.

Conhecendo minha insuficiência, eu prosseguirei; mas irei caminhando debaixo das sombras dos louros colhidos aqui por essas inteligências como o peregrino do Oriente por entre as sombras das palmeiras do deserto.

Até aqui, ilustrados ouvintes, tendes, pois, ouvido d'esta tribuna discursos que primão pelos atavios da eloquência e pela magnificência do assunto; hoje, porém, vós me permitireis que eu vos transporte às áridas regiões da filosofia.

O assunto que me propus desenvolver aqui é difícil, porque vai entrar no domínio de uma ciência inflexível na aplicação de seus princípios, de uma ciência que é a mãe, mestra e rainha de todas; por este motivo peço-vos que me desculpeis se por acaso for moroso na exposição de minhas ideias.

O' filosofia, irmã congênita da verdade, põe adiante de mim teu brilhante fanal, e guia meus passos!

Sendo o nosso sistema didático destinado para os jovens estudantes e literatos, e sendo também destinado a auxiliar a memória no difícil estudo das línguas, vamos examinar os seus fundamentos, começando por percorrer o terreno da inteligência humana, e ver os processos de que ela lança mão para obter os conhecimentos das coisas, concluindo por apreciar as funções da memória, e ver de que modo as noções das coisas entram e se conservam n'ela.

Segundo escrevemos no nosso Esboço mathesiologico ou filosofia do ensino, distinguem-se no pensamento duas épocas diferentes: a instintiva e a perceptiva.

A primeira época revela-se no instante em que a criança começa a mover-se e a sentir, e vai até o momento em que principia a falar. A segunda época começa desde a aquisição da linguagem e vai até os últimos dias do homem.

A época instintiva é obscura, consta de impressões sensoriais, a princípio inteiramente obscuras; o choro da criança é o único meio pelo qual ela manifesta suas necessidades e sofrimentos. Dos três para os quatro meses a criança começa a conhecer a mãe pelo sorriso; passa das impressões às sensações; adverte, se bem que imperfeitamente, que existe fora de si uma existência estranha pela mobilidade, extensão e duração. Dos cinco para os sete meses, a inteligência infantil deixa escapar de si um raio confuso; a criança parece distinguir os objetos lindos ou sensíveis à vista. É por este motivo que presta atenção ou dá gritos de alegria ao ver as outras crianças que brincam ou cantam.

Aqui acaba a época instintiva de cujos fatos a memória dá conta pela inclinação que a criança tem à mãe ou à sua ama. Observando-se esta época, vê-se que são os objetos sensíveis que deixam vestígios na alma do inocente, e que são eles os primeiros que ele conhece por meio de uma análise confusa, toda fatal, que não atinge as modalidades dos corpos mas somente os corpos.

A segunda época, a perceptiva, começa dos dez meses diante, por ou quando a criança começa a falar.

N'esse tempo estando o cérebro e o organismo da voz mais desenvolvidos, o inocente exprime seus sentimentos, articulando sons silábicos; a sua linguagem a princípio é monossilábica, ao depois torna-se dissilábica, Todos nós sabemos que a criança começa a falar assim: ta, te..., tai, va..., am, etc.

Começando, pois, a falar, o inocente não dá mais esses gritos instintivos; antes se esforça para dar um nome aos objetos que vê, atendendo principalmente às suas qualidades mais sensíveis.

Os primeiros nomes que emprega são às pessoas ou coisas com que está mais em contato; o substantivo torna-se em breve a base do discurso da criança.

Depois dos nomes dos objetos materiais, começa a denominar as coisas pelas suas qualidades que mais chocam os sentidos; d'aqui os adjetivos que exprimem as qualidades mais agradáveis e penetrantes, como: bom, lindo, quente, frio, vermelho, etc

A estes nomes se seguem logo os dos verbos atributivos que exprimem as mesmas e outras sensações, como: queimar, aquecer, esfriar, doer, comer, dar, tomar, andar e outros.

Pelo tempo d'estas concepções que chamaremos onomásticas, nota-se já na criança um princípio de ideias gerais e de analogia, v. g., quando a criança dá o nome de farinha à areia, por causa da granulidade, qualidade comum a estas duas substâncias.

Todos estes e outros fatos assinalam a primeira parte da época perceptiva que se estende até aos cinco anos.

D'essa idade por diante aparecem os primeiros progressos da linguagem; as ideias sensíveis manifestam-se de um modo claro; a criança já não se deixa enganar por ditos, a sua memória permite-lhe apreender as relações das coisas materiais.

Segundo as circunstâncias em que se acha, e segundo as palavras que ouve, entende em que tempos deve empregar os verbos: comer, dar, tomar, andar e outros.

É pela abstração, isto é, separando o atributo da substância, que entende o que quer dizer: roxo, igual, maior, perto, longe, etc.

À medida que novos objetos se apresentam à criança, esta vai lhes dando os mesmos nomes, principalmente sendo semelhantes aos que já conhece, até que lhes dá um nome próprio.

Chegando aos nove anos, o pensamento tendo completas as partes essenciais para sua manifestação, auxiliado pela atenção e por outras faculdades, começa a funcionar de um modo determinado. A mente já está de posse de um vocabulário que permite-lhe exprimir seus sentimentos; manifesta-se então um princípio imperfeito de reflexão.

Pelos anos seguintes aumenta-se a cópia dos termos da linguagem; então o adolescente vai conhecendo as coisas com mais facilidade; e assim vai procedendo à medida do aumento dos anos, sempre lhe restando muita coisa para conhecer.

O homem, pelo que temos dito, nasce imperfeito; as suas faculdades sensíveis e racionais vão se desenvolvendo a proporção do crescimento do seu corpo; e mais tarde, quando no uso da linguagem, é que conhece sua existência e a missão que tem a cumprir no mundo.

Em razão da imperfeição da natureza humana, o homem, embora tenha o uso da palavra, tem necessidade de ir conhecendo pouco a pouco os objetos do universo, começando por um estudo material, para ao depois penetrar no fundo de sua existência, e estudá-los no domínio da ciência.

Todo o homem é naturalmente desejoso de saber. O mistério é um peso para sua inteligência; a presença de uma coisa desconhecida desafia o poder de sua curiosidade; todas as suas faculdades e sentidos concentram-se sobre essa coisa, e não descansa enquanto não rasga o véu do desconhecido. Não obstante essa propensão ingênita para o saber, o homem não nasce conhecendo coisa alguma, nem ao menos as noções mais necessárias para a vida material.

O primeiro período de sua existência passa-se em uma região de trevas, e quando a luz da ciência lhe aparece, o encontra nos braços da ignorância.

Logo que suas faculdades racionais acabam de desenvolver-se, a necessidade de prolongar sua vida faz com que o ser racional procure meios para conservá-la, esforçando-se para conhecer em primeiro lugar os objetos que o cercam.

Segundo, pois, o grau de compreensão das faculdades intelectuais, segundo a soma e espécies de noções que os homens adquirem das coisas, eles são — analfabetos ou ignorantes, letrados ou instruídos.

Antes de sabermos como cada um d'estes estuda as coisas, demos uma ideia geral do nosso sistema didático para o estudo das línguas, e vejamos quais os princípios gerais que guião a inteligência no conhecimento dos objetos sensíveis e imateriais.

O nosso sistema, chamado Flexiologia, consiste em estudar as flexões, isto é, as terminações e as formativas das palavras, isoladas do seu radical e em quadros sinóticos, sem ligá-las a exemplos (como faz a gramática), resumir as regras da sintaxe, e d'aí fazer-se a versão de uma língua.

É um sistema mui simples, pelo qual se pode estudar uma língua sem se decorar. O estudante, conhecendo as terminações e formativas dos vocábulos por meio de exercícios escritos que não cansam a memória, aprende a traduzir o discurso das línguas cuja ordem é semelhante ao de sua língua natal.

Os princípios gerais que guião a inteligência no conhecimento dos objetos sensíveis e materiais são: — 1º, que se deve começar do conhecido para o desconhecido; 2º, que se deve começar das coisas mais claras e simples; 3º, que as coisas imateriais, ligadas a objetos sensíveis, conservam-se mais na memória; 4°, que se conhece mais facilmente as coisas desconhecidas sendo semelhantes às que já conhecemos.

Passamos a fazer uma aplicação d'estes princípios, examinando os processos de que o analfabeto e o erudito lançam mão para obter noções das coisas.

A primeira coisa que o homem faz, quando vê um objeto pela primeira vez, é observá-lo e esforçar-se para achar n'ele uma qualidade conhecida. Para este fim presta toda a sua atenção ao que atrai mais seus sentidos pela sua cor, brilho, forma, etc. Suponhamos, v. g., que o homem acha em uma estrada uma fruta que lhe é inteiramente desconhecida. Depois de cheirá-la, começa a examinar seu tamanho e sua forma; e pela sua semelhança com tal fruta se esforça para classificá-la na sua espécie. Mas, se pela observação sobre o cheiro, tamanho e forma nada consegue, corta a fruta, e vê seu tecido; e se isto não basta, prova sua polpa, e pôde chegar a conhecer a que classe deve reportá-la.

Este é o processo de todo o analfabeto. O seu exame sobre os objetos e os corpos da natureza não passa além das suas qualidades externas e sensíveis; assim são as ideias sensíveis ou concretas que mais dominam n'ele.

O contrário se dá com o homem que lê ou estuda.

O literato pode elevar-se às mais complicadas operações intelectuais, pode entregar-se às maiores abstrações, generalizações, etc, porque tem os princípios das ciências dispostos em definições e axiomas, e em uma ordem que favorece muito a ação de suas ideias e o trabalho da memória. As linhas e fórmulas constantes de letras são expressões sensíveis dos teoremas, axiomas e princípios das ciências.

Entre os que cultivam a inteligência para saber distingue-se o iniciado nas letras, o literato e o erudito.

O que se inicia nas letras é quase como o analfabeto quando vai conhecer um objeto que lhe é inteiramente desconhecido; começa por fixar sua atenção no livro ou nas palavras que ouve.

Para entender o que lê ou o que ouve, é necessário seja uma coisa clara, que de cujas qualidades uma lhe seja conhecida. A observação, pois, do iniciado versa: 1º, sobre as coisas claras e fáceis, para ao depois passar às dificultosas de compreender ou desconhecidas; as coisas claras são como a lâmpada que alumia às escuras.

Se as coisas parecem inteiramente semelhantes, é necessário comparar e confrontar suas qualidades ou ideias para distingui-las.

O iniciado nas letras conhece, pois, pela atenção com a análise, com a analogia e com a comparação.

A analogia é o método pelo qual se conhece uma coisa desconhecida ou nunca vista por meio d'aquelas da mesma classe, espécie, etc, que se conhece ou se tem visto

É pela analogia que o geólogo conhece a ossada fóssil a que classe de animais pertence, embora falte ou tenha demais uma vertebra.

Ha várias espécies de analogias.

Para a analogia por semelhança requer-se: 1º, que haja na coisa desconhecida alguns sinais ou qualidades semelhantes aos da coisa conhecida da mesma classe, etc, ou que tão somente haja na coisa desconhecida poucas qualidades desconhecidas, v. g., sabemos que uma casa se compõe exteriormente de telhado, paredes, portas e janelas ; pela configuração do seu todo, pela disposição de suas portas, janelas, etc, se sabe se a casa é de simples particular, de negociante, de artista ou de capitalista.

É ainda pela analogia que se distingue as pessoas das famílias, e se sabe que uma pessoa que nunca vimos pertence a tal ou tal família, por causa de tais ou tais traços de sua fisionomia.

O estudo dos objetos da natureza e dos fatos que se passam na sociedade não oferecem dificuldades à mente para compreendê-los, pois versão sobre coisas com que o homem está em contacto desde seus primeiros anos; o processo, pois, para estudar as ciências que tratam d'eles é simples.

O estudo, porém, das ciências abstratas ou racionais demanda muito esforço da atenção e da memória, porque o homem está acostumado com o exame das realidades sensíveis, com os objetos e noções necessárias para o trato social, e não com as realidades insensíveis; e por este motivo, muitas vezes, para se compreender os princípios racionais das ciências, são necessários exemplos sobre objetos materiais, pois as ideias abstratas nunca andam separadas das ideias gerais ou concretas. Mas estas dificuldades estão tiradas. As linhas, os ângulos, as fórmulas dos processos e sinais convencionados são imagens sensíveis que personificam essas abstrações, e que auxiliam a memória a gravá-las na mente, e cuja reminiscência se desperta pela inspeção dos sentidos.

Destarte, pois, no ensino das coisas abstratas ou racionais, as explicações devem ser escritas nos compêndios juntamente com os sinais, fórmulas, etc.

Assim, pois, no estudo das coisas, todas as faculdades do homem concorrem para ele obter o conhecimento d'elas, sendo a memória que conserva o deposito d'esses conhecimentos, e estabelece o comércio entre as diferentes ideias do entendimento humano.

Para a memória guardar e se lembrar das noções das coisas é necessário: 1º, que estejam ligadas a objetos sensíveis; assim os algarismos, as linhas e os ângulos nas matemáticas personificam seus cálculos e princípios; do mesmo modo, nas línguas, as terminações dos vocábulos indicam as modificações de cada uma das partes da oração, e a função que cada uma exerce na oração; 2°, a presença de noções ou de objetos semelhantes ou a sua coexistência.

A memória se aviva mais e não se cansa quando, para conservar as imagens de muitas coisas semelhantes na mente, tem adiante de si meios sensíveis; do mesmo modo a mente, no nosso sistema flexiologico, não se pôde confundir no conhecimento de muitas coisas semelhantes, como são as terminações dos vocábulos, desde que tem meios sensíveis, isto é, os quadros sinóticos das terminações, que permitem discriminar as que pertencem aos nomes, aos verbos e a outras partes da oração.

Além disto, os objetos sensíveis têm qualidades que os distinguem, pelas quais a memória reproduz o seu conhecimento, ainda mesmo que essas qualidades sejam semelhantes ou comuns a objetos da mesma classe, vezes essa semelhança porque muitas desaparece, segundo o fim, a ocasião e os respeitos em que o homem os encara. Assim v. g. as torres e os sinos são partes e sinais distintivos de uma igreja, mas não existem somente nas igrejas. É assim que observando nós em uma cidade, v.g., no Rio de Janeiro seus edifícios mais elevados, etc., pelas torres se conhece as igrejas, e pela sua fôrma e posição se conhece de que invocação são. Mas as torres e os sinos não são sinais distintivos somente das igrejas, existem também nos conventos, palácios, prisões, fortalezas e vasos de guerra; é pela observação de sua forma, posição e altura que se os conhece e se os distingue.

Assim, do mesmo modo são as terminações dos vocábulos na Flexiologia; conquanto nos nomes hajam muitas terminações semelhantes às dos verbos, todavia se distinguem pelas suas letras finais e mediais, e pela posição do vocábulo na oração.

O homem que começa a estudar, pela falta d’este hábito, dificilmente consegue fixar a atenção; ora, a primeira condição do estudo é a atenção.

Em razão, pois, d'esta dificuldade, proveniente da falta de hábito, no ensino das ciências abstratas, v. g., no ensino das matemáticas e das regras gramaticais de qualquer língua, nem todas as explicações devem ser escritas nos compêndios: 1º, porque se deve começar das coisas mais claras e simples, daqui das coisas resumidas; ao contrário a inteligência jovem ficará desanimada; 2º, a experiência mostra que nos moços o espírito de curiosidade é muito desenvolvido; por este motivo a atenção sempre se desperta avista de objetos sensíveis ou de novas explicações. Sendo difuso o compêndio, a atenção se amedronta, previne-se ou se acostuma com as longas explicações; de sorte que o que não se compreender da primeira vez nunca mais se compreenderá; 3°, como os sentidos externos auxiliam muito a memória, os meios sensíveis, v. g., as letras, linhas, ângulos, etc, concorrem também para prender a atenção; do mesmo modo nas línguas, os quadros sinópticos das terminações das palavras permitem conhecer as modificações das partes da oração, sem ser necessário estudai-as nos vocábulos, como faz a gramática.

Portanto, o nosso sistema flexiologico está fundado sobre os modos com que o entendimento humano conhece as coisas desde seus primeiros anos e durante todo o tempo de sua existência, e que são os objetos sensíveis que auxiliam as explicações devem ser escritas nos compêndios juntamente com os sinais, fórmulas, etc.

Assim, pois, no estudo das coisas, todas as faculdades do homem concorrem para ele obter o conhecimento d'elas, sendo a memória que conserva o deposito d'esses conhecimentos, e estabelece o comércio entre as diferentes ideias do entendimento humano.

Para a memória guardar e se lembrar das noções das coisas é necessário: 1º, que estejam ligadas a objetos sensíveis; assim os algarismos, as linhas e os ângulos nas matemáticas personificam seus cálculos e princípios; do mesmo modo, nas línguas, as terminações dos vocábulos indicam as modificações de cada uma das partes da oração, e a função que cada uma exerce na oração; 2º, a presença de noções ou de objetos semelhantes ou a sua coexistência.

A memória se aviva mais e não se cansa quando, para conservar as imagens de muitas coisas semelhantes na mente, tem adiante de si meios sensíveis; do mesmo modo a mente, no nosso sistema flexiologico, não se pôde confundir no conhecimento de muitas coisas semelhantes, como são as terminações dos vocábulos, desde que tem meios sensíveis, isto é, os quadros sinópticos das terminações, que permitem discriminar as que pertencem aos nomes, aos verbos e a outras partes da oração.

Além d'isto, os objetos sensíveis têm qualidades que os distinguem, pelas quais a memória reproduz o seu conhecimento, ainda mesmo que essas qualidades sejam semelhantes ou comuns a objetos da mesma classe, porque muitas vezes essa semelhança desaparece, segundo o fim, a ocasião e os respeitos em que o homem os encara. Assim v. g. as torres e os sinos são partes e sinais distintivos de uma igreja, mas não existem somente nas igrejas. É assim que observando nós em uma cidade, v. g., no Rio de Janeiro, seus edifícios mais elevados, etc, pelas torres se conhece as igrejas, e pela sua forma e posição se conhece de que invocação são. Mas as torres e os sinos não são sinais distintivos somente das igrejas, existem também nos conventos, palácios, prisões, fortalezas e vasos de guerra; é pela observação de sua fôrma, posição e altura que se os conhece e se os distingue.

Assim, do mesmo modo são as terminações dos vocábulos na Flexiologia; conquanto nos nomes hajam muitas terminações semelhantes às dos verbos, todavia se distinguem pelas suas letras finais e mediais, e pela posição do vocábulo na oração.

O homem que começa a estudar, pela falta d'este hábito, dificilmente consegue fixar a atenção; ora, a primeira condição do estudo é a atenção.

Em razão, pois, d'esta dificuldade, proveniente da falta de hábito, no ensino das ciências abstratas, v. g., no ensino das matemáticas e das regras gramaticais de qualquer língua, nem todas as explicações devem ser escritas nos compêndios: 1º, porque se deve começar das coisas mais claras e simples, daqui das coisas resumidas; ao contrário a inteligência jovem ficará desanimada; 2º, a experiência mostra que nos moços o espirito de curiosidade é muito desenvolvido ; por este motivo a atenção sempre se desperta a vista de objetos sensíveis ou de novas explicações. Sendo difuso o compêndio, a atenção se amedronta, previne-se ou se acostuma com as longas explicações; de sorte que o que não se compreender da primeira vez nunca mais se compreenderá; 3°, como os sentidos externos auxiliam muito a memória, os meios sensíveis, v. g., as letras, linhas, ângulos, etc, concorrem também para prender a atenção; do mesmo modo nas línguas, os quadros sinópticos das terminações das palavras permitem conhecer as modificações das partes da oração, sem ser necessário estudai-as nos vocábulos, como faz a gramatica.

Portanto, o nosso sistema flexiologico está fundado sobre os modos com que o entendimento humano conhece as coisas desde seus primeiros anos e durante todo o tempo de sua existência, e que são os objetos sensíveis que auxiliam as operações da memória; d'aqui os quadros sinópticos das terminações das palavras, de que trata a Flexiologia, são o meio mais fácil para se fazer a versão das línguas.

Tenho, pois, ilustre auditório, expendido conforme meus fracos recursos oratórios, as primeiras bases do meu sistema didático.

Em breve mostrarei que satisfaz aos requisitos que anunciou pela imprensa, em breve o artista nacional terá um meio fácil de aprender uma língua estrangeira para n'ela estudar os processos tecnológicos relativos à arte de sua profissão, com aproveitamento do seu tempo, e sem prejuízo dos seus afazeres.

Todos participarão dos seus benefícios, começando do jovem estudante e literato até o pobre proletário, e ajudado pela vossa benevolência, concorreremos para a solução de um problema que afeta a prosperidade do país:— a instrução para todos pelo meio mais fácil e econômico.

A nossa pátria, colocada debaixo do céu mais puro do universo, e em uma região sempre bafejada pela voluptuosa brisa dos trópicos; banhada por imponentes rios de cujas soberbas margens se eleva uma soberba vegetação, que com sua beleza e variedade desafia a dos países mais decantados da terra cortada de serranias; que encerram os tesouros das regiões mais opulentas do Oriente, dispõe igualmente de talentos que podem ser aproveitados, assim como essas preciosidades que vivem ignoradas no fundo dos rios e no seio das rochas.

Uma nação não pode considerar-se feliz e forte quando a parte mais nobre de seus membros, representada pela mocidade, não tem meios para ganhar sua subsistência, e nem para manifestar os produtos de sua atividade.

Sendo, pois, isto uma verdade, tudo o que se fizer a benefício da mocidade concorrerá para a grandeza do Estado.

Para realizarmos isto basta deixar nosso coração abrasar-se nas chamas de um verdadeiro patriotismo, então cairão por terra as barreiras da ignorância, e o gênio nacional, elevando- se nas azas do progresso, colocará a pátria no apogeu da mais brilhante prosperidade.

Ilustres senhoras e senhores, agradeço cordialmente a honra que me fizestes vindo assistir a esta conferência.

Este fato não passará desapercebido, mas será de resultados fecundos no país, porque é a primeira vez que um homem do povo fala d'esta tribuna, d'onde talentos com nome e títulos têm oferecido à pátria novos florões de glória; é também a primeira vez que a ciência (essa ciência que vai abraçar-se com a reflexão no silencio da solidão), por meio de um de seus obscuros operários, apresenta ao mundo civilizado uma invenção, por cuja aceitação a posteridade cobrirá de bênçãos os que a protegerem, porque essa invenção não pertence somente ao presente, pertence também ao futuro, e o futuro é da mocidade. E quereis vós saber o que é a mocidade? .. A mocidade são os ramos brilhantes da família social, são as flores mimosas da grande arvore do Estado, cujos bons frutos marcam em todas as idades a grandeza das nações.

(Grandes aplausos da parte do auditório. O orador é cumprimentado.)

Localização

- Conferências Populares, Rio de Janeiro, nº7, jul. 1876, p. 74 - 87 (na integra). Capturado em 10 out. 2025. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/docreader/278556/790

Ficha técnica

- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.

- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.

Forma de citação

Conferência Popular da Glória nº 187. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 2 fev.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=769

 


Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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