Conferência Popular da Glória nº 250

De Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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Data:  11/08/1878

Orador: José Maria Velho da Silva

Título: Formação da língua portuguesa, épocas de seu desenvolvimento

Aviso, íntegra ou resumo: Resumo

Texto na íntegra

“Realizou-se domingo, no salão das escolas públicas da freguesia da Glória, a conferência n. 250. Foi honrada com a augusta presença de S. M. o Imperador, ocupando todas as cadeiras um escolhido auditório de senhoras e cavalheiros.

Ocupou pela primeira vez a tribuna o ilustrado professor do colégio de Pedro II, o Sr. Dr. José Maria Velho da Silva, que tratou da formação e desenvolvimento da língua e da literatura portuguesa.

Eis o resumo da conferência:

Conquistas e dominação dos romanos, permanência de se4us estabelecimentos. À língua latina conserva seu caráter clássico entre os eruditos, o povo, porém que a usava oralmente ia corrompendo-a pelo contato dos dialetos das regiões em que estanciava. Antes que a unidade latina, pela superioridade de sua língua e instituições desse aos povos da Europa meridional esse caráter uniforme que a constituiu uma raça, já existia o elemento céltico. Os celtas tinham vindo d’Asia pelas migrações indo-europeias. O latim com o elemento eslavo da região da Dacia no Danubio, deu a valachio ou daco-romano, com as línguas célticas e germânicas deu a provençal, o francês e o italiano, e com estas e mais o árabe formou o espanhol e o português. Fez a história das raças que estanciaram na península hispânica (fenícios, gregos e cartagineses) até que 225 anos antes da era vulgar vieram os romanos, vindo no século V os vândalos, suevos e eslavos, e 18 anos depois os visigodos.

Com o latim dominou quase exclusivamente em toda a península hispânica a ponto de se tornarem notáveis escritores latinos os espanhóis Seneca, Lucio Floro, Marcial, Lucano e outros. Como a língua latina degenerou e desvirtuou-se de sua beleza, perdendo as desinências, obliterando os casos, contraindo-se seus vocábulos e perdendo-se a noção prosódica da quantidade tomando-se os acentos e as disposições silábicas, como base de metrificação. O Forum Judicam, monumento das leis dos Visigodos no século VII, é pouco depois traduzido já com o título de Fuero Jusgo. Como do latim corrompido pelas diversas e sucessivas invasões de povos de línguas, índoles e crenças diversas se formou o espanhol, ou castelhano moderno no século XI, e pouco depois o português, sendo este o último vindo na criação das línguas românicas ou neolatinas.

O orador falou acerca das provas que mostram a procedência latina do português, e citou alguns fragmentos do português desde a independência de Portugal pelo conde D. Henrique, e seu filho D. Affonso Henriques alevantado primeiro rei no campo de Ourique, até o cancioneiro de el-rei D. Diniz no século XIII.

Canções atribuídas ao próprio D. Affonso Henriques, a Egas Muniz Coelho, a Gonçao Hermigues e o Questo Ausures. Prioridade do lirismo provençal escrito na língua galega, tornando-se esta a linguagem convencional da poesia em toda a Espanha e Portugal. Decadência do galego, desenvolvimento do português. Poesias da escola provençal escrita no português anterior a D. Diniz. Como o elemento francês entrou na formação do português pela influência do conde D. Henrique de Borgonha, de seus cavalheiros, homens de armas a amanuenses encarregados de passar os Evangelhos à letra francesa como ordenava o concilio de Leão. Leirias e outras terras do reino doadas a famílias francesas para colonizá-las. A poesia provençal influi no português, assim como o catalão. De todos estes elementos constituiu-se a nobre e majestosa língua portuguesa com a opulência de seus idiotismos, sua eufonia, harmonia, inversões e arredondamento de clausulas adunando em si toda as excelências do grego, do latim, do árabe. O importante serviço feito à língua pelo grande rei D. João I, ordenando que todos os atos públicos, até ali em latim, fossem feitos em português (1400), D. Pedro Affonso, Conde de Barcellos e seu irmão, escritores do século XIV, Nobiliário e trovas.

Como no século XV sob o reinado de D. Duarte houve separação do escritor, do povo; isto é, abandonando-se a corrente popular seguiu-se a corrente erudita, a ponto de ficar a mesma ideia significada por dois vocábulos, um popular e outro erudito, de que citou exemplos. Foi este o século dos grandes cronistas, e se a Grécia teve Heródoto, Tucídides e Xenofonte, Portugal teve Fernão Lopes, Gomes Eannes de Azurara e Ruy de Pina: foi o século em que se estabeleceu a primeira tipografia em Portugal, 6 anos depois que fora descoberto este maravilhoso invento. O orador agradeceu ao auditório sua atenção e benevolência prometendo continuar no empenho a que se tinha proposto.

Ao deixar a tribuna, o numeroso auditório o aplaudiu vivamente.”.

Localização

- Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 15 ago. 1878. Anno 57, n. 227, p.2 (resumo). Capturado em 29 jan. 2026. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/DocReader/364568_06/19032

Ficha técnica

- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.

- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.

 

Forma de citação

Conferência Popular da Glória nº 250. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 17 fev.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=839

 


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