Conferência Popular da Glória nº 252
Data: 25/08/1878
Orador: José Maria Velho da Silva
Título: Língua Portuguesa II
Aviso, íntegra ou resumo: Resumo
Texto na íntegra
“Na augusta presença de S. M. o Imperador e de numeroso auditório de senhoras e cavalheiros realizou-se domingo a conferência nº 252, no salão das escolas públicas da freguesia da Glória.
Ocupou pela segunda vez a tribuna o ilustrado professor do colégio de Pedro II, o Sr. Dr. José Maria Velho da Silva que, continuando a tratar da formação e desenvolvimento da língua e da literatura portuguesa, recapitulou todos os pontos expostos na preleção anterior, desde o elemento céltico preexistente na península hispânica até a dominação romana, como se formou o castelhano no século XI, a fundação da nacionalidade portuguesa, a língua galiciana, veículo do lirismo provençal, comum à Espanha e a Portugal, separação e desenvolvimento da língua portuguesa e decadência da galega, reduzida a simples dialeto.
Apresentou provas da procedência latina do português, e comparando vocábulos portugueses com os latinos donde se formaram, mostrou como vinham dos nominativos, acusativos e ablativos latinos, ou pura e simplesmente ou com substituição, supressão ou adição de letras, apontando exemplos. Percorreu resumidamente os fatos distintivos e característicos de cada século na língua e na literatura até o século XV.
Mostrou como no período embrionário da literatura tiveram a maior voga em Portugal os romances de cavalaria, divididos em cinco ciclos ou classes a saber: o de Amadis de Gaula, de Arthur ou da Távola Redonda, de Carlos Magno ou Carolíngio, o de S. Gral ou S. Breal e o grego romano ou erudito, explicando cada um deles; e finalmente falou das quatro escolas que sucessivamente dominaram, a galiciana ou dos trovadores, a jogralesca, a intermediária e espanhola, até o princípio do reinado d’ El-rei D. Manoel; fazendo ver a importância da carta do Marques de Santilhana ao condestável D. Pedro, em que estão assinalados importantes fatos etnológicos da época.
Chegando finalmente ao século XVI, áureo ou dos quinhentistas, mostrou todas as alterações fônicas e morfológicas por que a língua passara, deixando então de ser o português da idade média e tornando-se o português de Camões e de João de Barros. Falou do desenvolvimento erudito da escola literária da Espanha, cujo patriarca era Antonio Nebrixa, sábio professor das universidades de Salamanca e Alcalá, colaborador da bíblia poliglota e autor do grande léxicon hispânico latino; e da influência de André Navagiera, embaixador de Veneza em Espanha, sobre a poesia de Boscan e Garcillasso de La Veja. Fez sentir que essas condições de desenvolvimento na Espanha não influíram para o desenvolvimento de Portugal, que engrandeceu sua literatura por fatos particularmente seus e causas imanentes, que pode dizer-se que o progresso das letras correu paralelo e simultâneo em ambos os países. A descoberta da Índia, as grandes navegações, a volta ao reino de varões ilustres que vinham do estrangeiro cheio da mais alta reputação literária e a proteção e animação dadas ao el-rei D. Manoel aos literatos, foram causas de ser o reinado desse felicíssimo monarca o período áureo da literatura portuguesa.
Falou da grande influencia de Francisco de Sá de Miranda, voltando da Itália e tornando-se o patriarca do petrarquismo em Portugal, da introdução do metro hendecassílabo, da guerra que sofreu pelos entusiastas da redondilha peninsular, das esparsas trovas e vilancetes dos cancioneiros; como em torno desta grande individualidade se agruparam Antonio Ferreira, Diogo Bernardes, Caminha, Jorge de Monte-Mór, Sá de Menezes e muitos outros beneméritos das letras. Falou de cada um desde grandes poetas, chegando até Diogo Bernardes, em cuja análise parou de achar-se a hora muito adiantada, prometendo continuar log que possa.
Ao deixar a tribuna, foi o orador vivamente aplaudido.”.
Localização
- Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 29 ago. 1878. Anno 57, n. 241, p.1 (resumo). Capturado em 30 jan. 2026. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/DocReader/364568_06/19127
Ficha técnica
- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.
- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.
Forma de citação
Conferência Popular da Glória nº 252. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 15 fev.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=841
Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz – (http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br)