Conferência Popular da Glória nº 265

De Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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Data: 24/11/1878

Orador: Feliciano Pinheiro de Bittencourt

Título: Dos climas sob o ponto de vista higiênico  

Aviso, íntegra ou resumo: Resumo

Texto na íntegra

“Realizou-se domingo passado a conferência n. 265, no salão da escola pública da freguesia da Glória, ocupando a tribuna o Dr. Feliciano Pinheiro de Bittencourt, que desenvolveu a seguinte tese - Dos climas sob o ponto de vista higiênico. 

Depois de um pequeno exordio, em que o orador fez sentir ao auditório os grandes serviços prestados pelo Sr. Conselheiro Correia, por todos os meios ao seu alcance, em favor da instrução popular, em cuja propaganda se tem tornado incansável, passou a ocupar-se propriamente do assunto anunciado.

Começou por mostrar que, se quisesse adotar uma divisão geográfica dos climas, baseada nas linhas de zonas isotermas, teria de admitir sete espécies de climas, desde o clima ardente da zona tórrida até o clima glacial, de temperatura abaixo de zero.

Poderia ainda dividir os climas em constantes, variáveis e excessivos. Constantes aqueles que não oferecem diferenças em relação à temperatura média do ano.

Variáveis que apresentam diferenças em relação a essa temperatura; e, finalmente, excessivos os que oferecem grandes, notáveis diferenças.

Disse que deixaria de fazer quaisquer considerações a este respeito para tratar somente da divisão higiênica dos climas em: quentes, temperados e frios.

Mostrou qual a influência de cada um destes climas sobre o organismo humano, quer no estado normal, hígido, ou fisiológico, quer no estado anormal, mórbido ou patológico.

Começou por apreciar a influência exercia pelo clima quente.

Disse que o primeiro fenômeno resultante da ação do clima quente sobre o nosso organismo é o aumento, a exageração das exalações cutânea e pulmonar, fenômeno que dá lugar às seguintes e importantes modificações:

Enfraquecimento da função respiratória, e enlanguecimento da circulação; produção de menor quantidade de calor animal, visto que são fracas, pouco enérgicas as combustões orgânicas.

Nem todos os elementos hidro-carbonados introduzidos no organismo são queimados pelo pulmão; uma boa parte vai ser queimada no fígado ou glândula hepática, razão por que este órgão é justamente denominado pulmão dos habitantes dos países quentes.

Mas, sendo assim, sendo certo que o fígado nos países quentes preenche até certo ponto as funções pulmonares, resulta d’aí uma super atividade dessa glândula, de onde grande aumento da secreção biliar.

Se é, porém, verdade que estas duas secreções aumentam nos climas quentes, não é menos verdade que outras diminuem. Assim é que a secreção da saliva, do suco pancreático e dos líquidos intestinais, em geral, bem como a secreção urinária são grandemente diminuídas em tais climas.

O sistema muscular é pouco desenvolvido, regra geral, e a força física insignificante.

Os temperamentos linfáticos, e nervosos; as constituições fracas predominam nos países quentes.

Tais foram os efeitos fisiológicos que o orador apresentou como determinados pela ação dos climas quentes.

Quanto à mortalidade, demonstrou o orador, fundado em dados estatísticos, colhidos nos melhores tratados de higiene, que é ela maior nos climas quentes do que nos climas frios. Mas por outro lado na fecundação se faz em maior escala nos países quentes, o que traz um verdadeiro equilíbrio.

Dá-se aqui o mesmo que em relação aos sexos.

Está também provado por dados estatísticos perfeitamente verificados que nasce maior número de meninos do que de meninas, porém morrem mais meninos: d’aí o equilíbrio. De outra sorte haveria excesso no número de homens.

Quanto ao talhe ou o porte dos indivíduos habitantes de países quentes, disse o orador que se deve distinguir dois casos.

Se o clima é quente e úmido, o talhe se desenvolve, aumenta, podendo citar-se para exemplo os Patagões ou Puelches.

Se, pelo contrário, o clima é quente e seco, o talhe tende a diminuir, decresce. Servem para exemplo os povos que habitam a Arabia.

Mas é preciso não esquecer, observou o orador, que as raças têm grande influência no que respeita a esta questão.

Referindo-se aos caracteres próprios dos povos meridionais, disse que a moleza, a preguiça, a inercia, são atributos de tais povos.

E, para robustecer os seus argumentos, apelou para o fato de sujeitarem-se os habitantes dos países quentes mui facilmente ao jugo dos tiranos e dos déspotas,

Recebem eles com a mesma indiferença as grandes desgraças ou as grandes felicidades. Percorrendo a história vê-se que a Asia foi 13 vezes conquistada, a que os conquistadores, homens notáveis antes por sua energia e atividade, pondo-se em contato com os povos conquistados, adquiriam logo os mesmos hábitos, a mesma moleza, preguiça ou inércia, deixando-se conquistar por sua vez.

A este respeito observou o orador que, se isto é verdade de um modo relativos, não parece sê-lo absolutamente.

Relativamente à imaginação dos povos meridionais, é ela sem dúvida viva, brilhante, fecunda e prodigiosa. D’aí poetas notáveis, literatos de primeira ordem. São indivíduos que tendem sempre à contemplação do belo ideal, elevando-se nas asas do pensamento ao mundo das ilusões e das quimeras.

As diversas seitas religiosas que se tem sucedido na arena do mundo tiveram o seu berço entre os povos meridionais.

Assim é que a religião de Zoroastro tem por berço a Pérsia; a de Confúcio teve origem na China; a de Buda na Índia; o Maometismo na Arabia, etc., etc.

Eis as considerações que apresentou o orador, referindo-se muito por alto aos caracteres dos povos meridionais.

Passou a ocupar-se das moléstias próprias dos climas quentes.

Falou em primeiro lugar das moléstias de pele, que são frequentes, e graves em tais climas. Assim o lichen, a lepra, a elefantíase dos árabes, etc.

As diversas formas graves da sífilis; as afecções da glândula hepática, como as hepatites, as degenerescências, etc.; as moléstias do sistema nervoso, como convulsões, tétano, etc., são também frequentes nos climas quentes.

As afecções do tubo gastrointestinal, como as gastrites, gastroenterites, disenterias, etc., são também próprias de tais climas.

E estas lesões podem até certo ponto ser explicadas pelo abuso dos excitantes, dos estimulantes do tubo digestivo, de que, tem necessidade de lançar mão os habitantes dos países quentes, a fim de que seja despertado o apetite, e as digestões se façam regularmente.

Mencionou ainda o orador as moléstias do cérebro, como as congestões, as meningites agudas, ou crônicas, as hemorragias, etc., que podem manifestar-se sob a influência de uma alta temperatura.

Disse que as variações rápidas de temperatura são uma causa importante de certas moléstias, como as flegmasias aguadas, de entre outras, a pneumonia.

Ocupou-se em seguida da influência dos eflúvios palustres nos climas quentes. Disse que uma consequência imediata da ação destes eflúvios são os acessos intermitentes francos, simples, ou perniciosos, as disenterias, etc.

E para muitos autores as três grandes epidemias cholera-morbus, typho do Oriente, e febre amarela, não tem outra causa.

A este respeito cumpre ponderar, acrescentou o orador, que os deltas de três grandes rios são considerados por quase todos os autores com focos ou pontos de partida desses três flagelos mencionados.

Assim é que o delta do Ganges é considerado como a origem da cólera asiática; o delta do Nilo como a fonte da peste, ou tifo do Oriente; o do Mississipi como o foco da febre amarela, também chamada tifo americano.

E, pois, parece que se não pode contestar a grande influencia que exerce o elemento palustre na produção de tais entidades mórbidas.

Tratou depois o orador da influência dos climas em relação à tuberculose pulmonar, encarando as três seguintes questões:

1ª A tuberculose pulmonar desenvolve-se nos climas quentes?

2ª Será ela mais frequente nos climas quentes do que nos climas frios ou temperados?

3ª Um individuo afetado de tuberculoses pulmonares, deixando um clima frio, e procurando um clima quente, experimentará melhoras?

Quanto à primeira questão, disse o orador, que ela está perfeitamente resolvida, pois é incontestável que a tuberculose pulmonar se desenvolve em larga escala nos climas quentes.

Os fatos clínicos falam bem alto a este respeito.

Quanto à segunda, divergem essencialmente as opiniões dos autores. Assim é que uns sustentam que a tisica pulmonar é rara nos climas quentes, e mais frequente nos climas frios, sustentando outros justamente o contrário.

Ora, se nos guiarmos a respeito deste assunto por dados estatísticos, e sobretudo, pelos fornecidos por Michel Lévy, chegaremos à conclusão seguinte, isto é, que a tuberculose pulmonar não respeita climas, desenvolvendo-se indiferentemente neste ou naquele.

Mas deve-se fazer sentir, ponderou o orador, que as estatísticas de Michel Lévy referem-se à tuberculose desenvolvida entre soldados, entre indivíduos em campanha, não sendo, portanto, isentas de defeitos, e sendo passíveis de objeções.

Diz-se, por exemplo, e com toda a razão, que a vida militar é muito diversa da vida civil, muito diferente é a vida do soldado em campanha da do cidadão, que passa tranquilamente no seu lar, ocupando-se apenas de seus negócios.

E, pois, para merecerem toda a confiança, deveriam os dados estatísticos, fornecidos pelos higienistas, referir-se não a soldados, mas a indivíduos em sociedade.

Na vida social outras são as causas da moléstia, influindo muito para a sua produção as condições individuais, o gênero de trabalho, e uma série longa de outras circunstâncias, que devem de ser tomadas na devida consideração.

Apesar, porém, destas ponderações, o orador declarou que inclina-se muito a admitir a opinião do distinto higienista francês citado.

Relativamente à terceira questão, se nós formos ainda a guiar pelas estatísticas, responderemos que o individuo porventura afetado de tuberculose pulmonar em um clima frio, procurando um clima quente não experimenta melhora alguma.

No entanto a este respeito diz o ilustre professor Becquerel que, se um indivíduo, vítima da tuberculose em um clima frio, abandoná-lo, procurando um clima oposto, e se neste último observar rigorosamente todas as regras higiênicas, não cometer excesso algum, trabalhar pouco, levar uma vida sóbria, etc., experimentará indubitavelmente melhoras muito positivas.

Continuando, disse o orador que também não há acordo entre os autores relativamente ao fato de serem ou não favoráveis à minoração da tuberculose as grandes alturas, os lugares muito elevados.

Sustentam alguns que as grandes alturas são inconvenientes à habitação dos tuberculosos, e isto porque sendo aí o ar atmosférico mais rarefeito e mais puro, a respiração é mais ativa, mais enérgica, tendo, portanto, os pulmões necessidade de trabalhar mais, o que apressa a evolução da moléstia, levando-a rapidamente ao seu termo fatal.

Parece ao orador ser esta opinião digna de aceitação. Nada de extremos, deve-se adotar o meio termo, as alturas médias.

Feitas estas considerações passou o orador a ocupar-se dos climas temperados. Disse que tais climas não determinam efeitos fisiológicos, nem moléstias especiais, que lhe sejam exclusivamente próprias.

A razão é muito simples.

Como é sabido os climas temperados participam da natureza dos climas quente e frio. E, pois, tudo depende da zona em que o individuo habita. Se ela for mais próxima do clima quente é claro que os efeitos fisiológicos e as moléstias serão as mesmas que já indicamos.

Se, pelo contrário, a zona for a mais próxima do clima frio, os efeitos fisiológicos e as moléstias que acometerem os indivíduos serão as mesmas que se observam nesse clima.

Tratou em seguida dos climas frios, fazendo largas considerações a respeito da fisiologia e da patologia destes climas, que fora longo reproduzir aqui, tratando-se apenas de um resumo.

Terminou fazendo importantes reflexões relativamente à influência dos climas sobre a alimentação do homem.

Ao deixar a tribuna foi o orador vivamente aplaudido pelo numeroso auditório, do qual faziam parte várias senhoras.”.

Localização

- Jornal do Commercio. Rio de Janeiro, 29 nov. 1878. Anno 57, n. 333, p.2/3 (resumo). Capturado em 03 fev. 2026. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/DocReader/364568_06/19774

Ficha técnica

- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.

- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.

Forma de citação

Conferência Popular da Glória nº 265. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 15 fev.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=852

 


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