Conferência Popular da Glória nº 274

De Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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Data: 27/04/1879

Orador: Feliciano Pinheiro de Bittencourt

Título: Regime alimentar, bebidas

Aviso, íntegra ou resumo: Resumo

Texto na íntegra

“Realizou-se domingo passado na escola pública da Glória a conferencia n. 274, ocupando a tribuna o Sr. Dr. Feliciano Pinheiro de Bittencourt, que continuou a tratar do regimen alimentar, e especialmente das bebidas

O orador, depois de fazer uma ligeira recapitulação de suas anteriores conferências, passou a desenvolver o importante assunto que anunciara.

Dividiu, de acordo com todos os higienistas, as bebidas em: aquosas, alcoólicas, aromáticas e acidas. Ocupou-se em primeiro lugar com as bebidas aquosas, tomando para tipo de seu estudo a água. Mostrou quais as condições que deve reunir uma água para ser considerada potável, lembrando o que a este respeito dissera em uma de suas passadas preleções.

Passando a ocupar-se da água como bebida considerou o orador a quantidade, a temperatura, e a composição dela.

Mostrou que a água, sendo ingerida em excesso é prejudicial ao organismo, pois que vai pesar sobre o estomago, perturbando-lhe as funções, impedindo a secreção do suco gástrico, e a ação deste suco sobre os alimentos, que porventura se contenham na cavidade gástrica. Daí certas desordens, como o embaraço gástrico, as dispepsias, etc. A água em excesso pode ainda trazer como consequência desordens intestinais.

Segundo as experiencias de Dancel, citado pelo orador, experiencias feitas particularmente sobre animais, a água ingerida em quantidade demasiada concorre para o aumento do tecido adiposo, para a obesidade. E, pois, à vista de tais inconvenientes, é deve ingerir diariamente, de modo a tomar somente aquela que for indispensável para reparar as perdas do organismo.

Ora, guiando-nos pelos melhores cálculos até hoje feitos, devemos aconselhar nas 24 horas o uso de um litro de água, ou ainda menos se for possível: nunca mais do que isto, pois que tal quantidade é suficiente para a reparação das perdas orgânicas.

Se a água em excesso traz todos esses inconvenientes, escusado seria demonstrar que ele for em quantidade insuficiente, se não chegar para reparar as perdas do organismo, este necessariamente virá o sofrer, visto que a água é a base de toda a nossa organização, encontrando-se no íntimo dos tecidos, no sangue, nos demais humores da economia, etc. E, pois, a sua insuficiência traria como consequência o aniquilamento do organismo, e a sua falta ou privação traria a morte.

Isto posto passou o orador a tratar da temperatura da água.

Disse que ingerida na temperatura normal a água não pode ser senão de efeitos salutares sobre o nosso organismo.

Quanto à água fria em extremo, ou gelada, distinguiu dois casos: 1º, quando o individuo que a ingere se acha em estado de calma, de tranquilidade; 2º, quando se acha fatigado, e com a superfície cutânea coberta de suores.

No primeiro caso a ingestão da água gelada nada tem de inconveniente. Dá-se o seguinte: caindo o liquido assim frio na cavidade gástrica imediatamente uma certa quantidade de calor é posta latente; mas logo manifesta-se a reação, voltando tudo às condições primitivas.

E, pois, neste caso a água gelada exerce uma dupla ação – a principio calmante, sedativa do sistema nervoso, e depois ligeiramente tônica e excitante. E é justamente por isso que as bebidas geladas são aconselhadas com grande vantagem para o tratamento das gastrites, das dispepsias e das nevroses do estomago, mormente se tais estados acompanham-se da atonia.

No segundo caso, isto é, se o individuo acha-se com a superfície cutânea coberta de suor, e ingere certa quantidade de uma bebida gelada, então ou as coisas se passam como dissemos, ou pode a reação não se manifestar, e ser o indivíduo vítima de um resfriamento geral, que pode trazer como consequência, congestões ou flegmasias internas.

Todos os acidentes que podem resultar da ingestão de bebidas geladas, estando os indivíduos com o corpo quente e transpirando, foram perfeitamente estudados pelo professor Guérard, que, na opinião do orador, nada deixa a desejar sobre este ponto. É sobretudo para o lado do sistema nervoso e dos aparelhos digestivo e respiratório que tais acidentes se manifestam.

Dentre outros fenômenos nervosos que se podem apresentar em tais condições citou o orador as dores locais, certos fenômenos espasmódicos, o trismos, sincopes, e às vezes a morte.

Para o lado do tubo digestivo e do aparelho respiratório se podem manifestar flegmasias agudas, como a gastrite, as bronquites, pleurisias, etc.

Pois bem, para obviar tais inconvenientes, isto é, para atenuar os efeitos maléficos das bebidas frias ou geladas, propõe Guérard as seguintes regras:

1ª Deve-se sempre adicionar a água gelada alguma substancia estranha, como um pouco de vinho, ou qualquer outra bebida espirituosa, açúcar, etc.

2ª Beber pouco e pouco, por goles, e não de uma só vez, bruscamente; e demais deve-se conservar o liquido na cavidade bocal o maior espaço de tempo possível, antes de degluti-lo, e levá-lo à cavidade gástrica.

3ª Preceder a ingestão da bebida fria de algum alimento sólido.

4ª Finalmente, deve-se, para dissipar os inconvenientes das bebidas geladas, lançar prontamente mão de uma bebida quentes, cujos efeitos são diametralmente opostos.

Se é verdade que as bebidas frias podem dar lugar a todos os acidentes apontados pelo orador, não é menos verdade, disse ele, que a água quente ou as bebidas quentes estão longe de fornecer resultados iguais.

Com efeito, as bebidas quentes estimulam o organismo, ativam a circulação, e trazem aumento de temperatura; e é justamente por isto que são consideradas como excelentes sudoríficos.

Depois de trazer algumas considerações sobre a composição da água, mostrando quais os sais, e outros princípios que ela deve conter normalmente, o orador passou a ocupar-se dos vinhos.

Fez largas considerações a respeito da composição química dos vinhos; tratou das diversas espécies, indicando quais as mais convenientes para o uso doméstico, e fazendo sentir a grande importância dos vinhos Xerez e Madeira para o uso dos convalescentes e indivíduos de estômago debilitado em geral.

Ocupou-se em seguida das chamadas cidras, ou vinhos de pera e maças, finalmente, tratou desenvolvidamente da cerveja.

Estando a hora adiantada, prometeu o orador ocupar-se, em uma outra conferencia, das falsificações dos vinhos e das cervejas, assunto da mais alta importância sob o ponto da vista da salubridade pública.

Ao terminar a conferencia, foi o ilustrado orador muito aplaudido pelo numeroso auditório.”.

Localização

- Jornal do Commercio. Rio de Janeiro,02 mai. 1879. Anno 58, n. 121, p.2 (resumo). Capturado em 04 fev. 2026. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/DocReader/364568_06/20828  

Ficha técnica

- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.

- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.

Forma de citação

Conferência Popular da Glória nº 274. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 17 fev.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=861

 


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