Conferência Popular da Glória nº 290

De Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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Data: 17/08/1879

Orador: João Manoel Pereira da Silva

Título: Nação, língua e literatura portuguesa no século XV

Aviso, íntegra ou resumo: Resumo

Texto na íntegra

“Coube ao Sr. Conselheiro Pereira da Silva fazer a de domingo 17 na escola pública da Glória, sob o n. 290, diante de S. M. o Imperador e de numerosíssimo concurso de senhoras e cavalheiros da melhor sociedade.

Para desenhar e pintar ao vivo o desenvolvimento de Portugal no século XV na sua nacionalidade, instituições, civilização, língua e literatura, lançou o orador uma vista de olhos sobre a marcha da nova monarquia criada por D. Affonso Henriques, progredida sob seus descendentes, e que encontrara D. João I ao começar seu reinado com o século XV. Mostrou como Portugal se desenvolvera material e moralmente, acrescendo seu território, aumentando sua população, desenvolvendo seus recursos, e adiantando-se em [?] e língua, que se aperfeiçoaram. Mostrou como caminhara a língua procurando nos monumentos antigos os vestígios dela, que se foi alterando e que em três séculos se mudara a ponto de quase se não parecer com a galiciana, que ficara estacionária, porque aquela com a autonomia e marcha de nacionalidade se opulentara com novos vocábulos românicos e flamengos, e melhor estudo da latina, que lhe firmara a pouco e pouco a ortografia, a prosódia, e mesmo a sintaxe. O último poeta até princípios do século XV, porque até então só poetas houve, foi Massios, cuja biografia fez o orador romântica e pitoresca. Os reis e os nobres recebendo influxo da Catalunha e Aragão, que herdaram o gosto literário da Proença, cultivavam a poesia, e eram guerreiros contra os mouros, ao passo que se forma desbarbarizando e admitindo a cavalaria e a galanteria, como passatempos na paz.

A época de D. João I é a mais cavalheirosa e galante, e por isso nela se funda a lenda dos doze portugueses que foram à Inglaterra quebrar lanças em torneios em honra das suas damas, cujas cores os ornavam, e na batalha de Aljubarrota se notava um esquadrão com o título de Ala dos Namorados. As cortes e as instituições tornaram-se mais defensoras dos direitos populares, quando antes não passavam de conselhos às vezes inúteis, parecidos com as Castelhanas, e não com as Aragonesas, que gozava m de mais liberdades, garantias e atribuições, até pela instituição da autoridade denominada Justiça. Foi de D. Affonso V em diante que começou a decadência das cortes, monopolizando a realeza sob D. João II toda a força e absolutismo. D. João animou o estudo das matemáticas por si e seus filhos birosca, o aperfeiçoamento da navegação, o espírito de conquistas, e mandou que todos os atos públicos se escrevessem na língua vulgar, abandonada a latina. Assim começou tudo o que era nacional a desenvolver-se. A nação começou à ir à África, planta aí posses, à atravessar os mares, dourar as ondas, descobrir terras longínquas, a formar conquistas na África e ilhas novas, e não conhecidas até então. A prosa formou-se, e, portanto, a língua, e a mesma estrutura do verso modificando-se a língua, e a mesma estrutura do verso modificando-se abriu novos espaços ao gênio.

Tratou o orador de João das Regras, que importara dos seus estudos na Itália o direito romano para firmar a lei onde a espada dominara criando a jurisprudência; de vários poetas como Bernardim Ribeiro e Vasco da Lobeira, até chegar a Gil Vicente, que pelo correr do século XV se produziram dos cronistas que tiveram por predecessor Fernão Lopes, o Homero da época na prosa, cujos escritos são hoje admiráveis na leitura, pela alma e vida que sabe dar às histórias, que escrevera D. Pedro I, D. Fernando e D. João 1º.

Depois das mais pitorescas descrições, desenhando o desenvolvimento de Portugal até o fim do século XV, percursos, ou antes primeira parte do XVI, sob todos os pontos de vista, chega o orador à D. Manoel e à Gil Vicente, o criador da musa dramática moderna.

É impossível dar resumo completo desta interessantíssima conferência, aplaudida constantemente pelo auditório, preso à voz do orador, que ao descer da tribuna recebeu as mais entusiásticas felicitações dele, particularmente porque prometeu continuar a tratar de outros períodos notáveis da história e da literatura portuguesa.”.

Localização

- Jornal do Commercio. Rio de Janeiro, 19 ago. 1879. Anno 58, n. 230, p.2 (resumo). Capturado em 11 fev. 2026. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/DocReader/364568_06/21560

Ficha técnica

- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.

- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.

Forma de citação

Conferência Popular da Glória nº 290. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 17 fev.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=877

 


Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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