Conferência Popular da Glória nº 298
Data: 26/10/1879
Orador: Feliciano Pinheiro de Bittencourt
Título: O Valor da Teoria da “assystolia” de Beau. Higiene das afecções do coração.
Aviso, íntegra ou resumo: Resumo
Texto na íntegra
“Na augusta presença de S. M. o Imperador, e de numeroso concurso de ouvintes, realizou-se na escola da Glória, domingo passado, a conferência nº298, sendo orador o ilustrado Sr. Dr. Feliciano Pinheiro de Bittencourt, que discorreu sobre este importante assunto: valor da “assystolia” de Beav; higiene das afecções do coração.
Começou por definir o termo “assystolia”, dizendo que chama-se assim o último período das lesões do coração, quando há rotura do equilíbrio circulatório havendo predominância da tensão venosa sobre a pressão arterial, d’onde as congestões passivas dos órgãos pareuchymatosos, a infiltração ou edema dos membros, etc.
Disse que a palavra “assiptolia” não tem para o caso uma significação etimológica exata, e que deve ser substituída pela expressão “dyssistolia”, mais correta.
Passou a refutar a teoria de Beau, encarando-a sob os pontos de vista fisiológico, químico e anatomopatológico. Disse que esta teoria é incompleta fisiologicamente falando, por que esse ilustre patologista tudo atribui ao coração, esquecendo-se dos vasos arteriais, o que é um erro fatal.
Mostrou com muitos argumentos socorrendo-se da opinião de Peter, o distinto-clínico, e de outros, que os vasos têm a sua autonomia, a sua individualidade própria, independente até certo ponto do órgão central da circulação. Como prova desta asserção referiu-se às CONGESTÕES SCRETÓRIAS das glândulas e às chamadas CONGESTÕES MÓRBIDAS INDEPENDENTES, fazendo ver que em tais casos o sangue necessário é fornecido diretamente pelos vasos arteriais, sem intervenção do coração.
Citou, para corroborar os seus argumentos contra a teoria de Beau, as experiências fisiológicas de Bezold, Ludwing, Thiry e Cejou, o ilustre fisiologista que descobriu o nervo sensitivo do coração; experiências que bem demonstram a independência e autonomia relativas dos vasos arteriais.
É para lamentar-se, portanto, que Beau, esquecesse inteiramente os vasos, apresentando a sua sedutora teoria, que foi logo abraçada por muitos clínicos, devido isso provavelmente à simplicidade da doutrina, que seria magnífica se não fosse incompleta.
Em seguida passou o orador a razões de outra ordem para refutar a mesma teoria sob o ponto de vista clínico e anatomo-patológico, citando em seu apoio a opinião de Peter, em cujo livro de clínica encontram-se observações e estudos importantes sobre este ponto.
Depois de haver demorado sobre este assunto, passou a tratar da 2ª parte da tese, isto é, da HIGIENE DAS MOLÉSTIAS DO CORAÇÃO.
Disse que é esta uma matéria muito importante e que deve ser por todos estudada, pois que são demais certos preceitos para os doentes cardíacos, que, esquecidos delas podem sucumbir, precipitando-se a marcha da lesão do coração, de que porventura sofram.
O orador tratou minuciosa e detalhadamente as regras higiênicas que devem ser rigorosamente observadas pelos cardíacos, entrando mesmo em evidências, aliás indispensáveis.
Depois de haver por espaço de uma hora prendido a atenção do auditório, terminou a sua importante preleção sendo devidamente aplaudido.
Hoje, 1º de novembro, a tribuna das conferências será ocupada pelo Sr. Conselheiro Pereira da Silva”.
Localização
- Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, Anno 58, n. 304, 01 nov. 1879, p.2 (resumo). Capturado em 10 agosto 2025. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/docreader/364568_06/22054
Ficha técnica
- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.
- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.
Forma de citação
Conferência Popular da Glória nº 298. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 17 fev.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=885
Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz – (http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br)