Conferência Popular da Glória nº 215.1: mudanças entre as edições

De Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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Edição atual tal como às 17h00min de 25 de fevereiro de 2026

Data: 12/11/1876

Orador: João Manoel Pereira da Silva

Título: Poesia Dramática VII: Shakespeare

Aviso, íntegra ou resumo: Íntegra

Texto na íntegra

“Senhora Princesa! Senhor Principe! Minhas senhoras e senhores! — Mostrei-vos na última conferência que tive a honra de fazer perante este esclarecido auditório, o estado das letras em Inglaterra quando apareceu Shakespeare. Analisados e apreciados os poetas de seu tempo, prometi-vos tratar d'ele particularmente, explicar-vos seu gênio e sua influência, e apreciar com algum cuidado as suas «admiráveis composições.

Venho hoje cumprir minha promessa.

Pouco se sabe da vida de Shakespeare. Nada sobre ela se publicou em sua época; os seus pósteros organizaram lhe biografias apresentando conjecturas como factos, recontando legendas, como verdadeiros acontecimentos. Só, portanto, direi o que parece exato, deixando de parte quanto encerra dúvidas.

Ignora-se se foi filho de um carniceiro ou de um cardador de lãs. O que está averiguado pelo seu testamento é que nasceu em Straford às margens do Avor, em 1562, que se casou ainda moço, teve filhos, e dirigiu-se na idade de 22 anos para Londres, a fim de procurar e ganhar meios de fortuna com que se sustentasse e a sua família.

Em Londres entrou para uma companhia de atores, que funcionavam no Teatro de Blackfriards, sob a direção de Burbage, um dos cômicos mais apreciados do século XVI e XVII, e que por ser do mesmo condado que Shakespeare, o protegeu constantemente.

Com quanto adoptasse igualmente a profissão de cômico, como manifestou talento literário, foi empregado em preparar e corrigir os dramas oferecidos ao teatro para serem representados, acomodando-os às necessidades da cena, ao gosto do público, e ás qualidades dos artistas que tinham de figurar n'eles.

Não apareceu, portanto, na literatura inglesa, como um meteoro, que lançou a luz pela primeira vez. Encontrou teatros, autores dramáticos, alguns muito reputados o do elevado merecimento, como Marlowe, Ben Johnson a outros de que já me ocupei, companhias de cômicos bem-organizadas, público de gosto, e frequentador dos espetáculos.

A glória que lhe cabe é aperfeiçoar a poesia dramática, elevá-la ao maior apogeu de esplendor e brilho.

Começou, pois, por corrigir dramas alheios; depois e com o tempo é que os foi escrevendo, mais ou menos de lavra própria, e espontânea imaginação.

Parece que pouca importância dava às suas composições dramáticas. Em sua vida nenhuma publicou: só foram impressas a expensas dos seus colegas cômicos para lembrarem sua memória oito anos depois que Shakespeare desapareceu do mundo.

Entretanto ele havia publicado, dedicados a Lord Southampton, dois poemas, Venus e Adonis e Lucrécia, uma coleção de sonetos e canções, que mais nos ministram esclarecimentos para sua biografia, que os escritos que a respeito se imprimirão em Inglaterra depois que ele faleceu.

Posto que estas composições ligeiras contenham descrições de aventuras amorosas, de acontecimentos extravagantes, de fatos e eventos extraordinários, parece que o poeta foi homem econômico, regrado nos costumes, e prático como verdadeiro inglês, porque logo que concluiu cinquenta anos de idade, abandonou o teatro e Londres, recolheu-se á sua terra natal e ao seio de sua família, comprou propriedades, e morreu no meio de sua mulher e filhos aos cinquenta e seis anos.

Nenhum poeta, à excepção de Homero, teve tão grande número de críticos, analistas e comentadores. Também nenhum poeta tem sido tão elogiado, e ao mesmo tempo maltratado e injuriado como Shakespeare.

Seus dramas, segundo as tradições e crônicas, produziram em sua vida, e em Inglaterra, a maior impressão; foi o dominador da cena em seu tempo, durante os reinados de Izabel, e de Thiago I. Mas com a queda da monarquia, e a morte de Carlos I no cadafalso, passando o governo político para os republicanos e puritanos, e fechando-se todos os teatros, ficaram esquecidos. Com a restauração de Carlos II não passou esse eclipse. O gosto original literário inglês se perdera. França reinou em Inglaterra quer com Carlos II, quer com seu irmão e sucessor Thiago II. Em política, nas artes, nos costumes, na poesia, tudo foi francês em Inglaterra. Com a revolução de 1688, que colocou no trono a Casa Holandesa, continuou Shakespeare a ser esquecido, e suas composições dramáticas se não representavam, posto que se imprimissem várias edições d'elas.

Johnson, Pope, e outros literatos do século XVII não o compreenderam nem o apreciaram. Pode-se dizer que ressuscitou no fim do século XVIII, e deve sua glória a um ator celebre, Garrick, que começou a interpretar na cena alguns de seus dramas, mutilando-os, todavia, para os acomodar ao gosto da época.

Mas o público começou a gostar d'eles; a glória de Shakespeare foi crescendo, apesar das ironias de Voltaire, e até de vários ingleses. Ao acabar o século XVIII o nome de Shakespeare era o primeiro e mais brilhante de Inglaterra e da Alemanha; no século XIX foi universalmente acolhido. Todas as nações traduziram, representaram seus dramas, e o consideram atualmente, o mais original, vigoroso e elevado poeta dramático dos tempos modernos.

Analisemos agora suas obras, sem paixão, e com imparcialidade.

Os defeitos ou acusações dirigidas contra Shakespeare encerram-se em negar-lhe invenção, em atribuir-lhe ignorância, grosseria, exageração, e mal gosto.

Não há dúvida que em Shakespeare parece haver falta da qualidade que se chama -invenção— porque talvez nenhum dos seus dramas nasceu espontaneamente do seu espírito. O assumpto de todos ou quase todos é alheio, encontrado pelo poeta em romances, poemas, e até mesmo dramas anteriores dos poetas que o precederão ou eram seus contemporâneos.

A falta de invenção não é só a Shakespeare que se pôde atribuir: Molière e muitos outros gênios da mais sublime esfera a sofreram. Moliére até se gabava de apanhar o seu bem onde o encontrava, com aquele sarcasmo fino e pungente que lhe era peculiar.

Para ser, porém, grande gênio poético, há necessidade da invenção? O que é a invenção? A primeira ideia, a lembrança de uma aventura, de um assunto?

Quantos poetas ordinários e medíocres a possuem, e não merecem glorias por essa qualidade.

O que é privativo, característico dos grandes gênios poéticos, minhas senhoras e senhores, não é a invenção, é a imaginação, o que é muito diverso e diferente.

Só a imaginação presta essa grande força para combinar, coordenar, organizar, e executar obras primas e sublimes.

É a imaginação quem encontrando assumptos informes, brutos, extravagantes mesmo, os modifica, regulariza, desenvolve, dá-lhes vida, alma, imortalidade.

Assim é artista não o que encontrou o bloco de mármore ou o pedaço de metal, mas o que com eles formou uma bela estatua; é artista o que converteu em ouro o latão, em brilhante a pedra escura e imunda.

A imaginação é a que nasce da inspiração, e cria um mundo novo, que povoa com entes reais e vivos, orna com preciosidades admiradas, e apresenta como primor d'arte.

Essa grande qualidade, sublime atributo do gênio, possuía Shakespeare: nenhum poeta foi mimoseado pela Providência com imaginação mais rica, robusta, opulenta, poderosa, brilhante!

Comparai o que ele escreveu com o que compuseram outros, e dos quais ele tirou o assunto. Que diferença enorme! Green, um cômico o poeta trágico do seu tempo, vendo modificado, mudado, transformado por Shakespeare um drama seu sobre Henrique VI de Inglaterra, chamou Shakespeare de corvo coberto de penas alheias. Ora Henrique VI transformado por Shakespeare, posto que encerre ainda versos e cenas do drama de Green, é outra obra, admirável, majestosa em algumas partes, enquanto que a de Green que se publicou, e que se pode comparar é um drama sem interesse, sem vida, monstruoso, extravagante, medíocre, maçante, miserável. Não  diria melhor Green se se queixasse que a águia se dignara descer à terra a apanhar o seu drama, e o elevara às nuvens, tornando-o merecedor dos elogios da posteridade?

Quanto â ignorância atribuída a Shakespeare cumpre declarar que não teve estudos regulares, não podia ser um homem erudito; mal sabia latim, francês e italiano. Mas estudou sua língua, leu tudo quanto em inglês se publicou próprio ou traduzido, aprofundou as crônicas de sua pátria, dedicou-se a estudos filosóficos, sendo Montaigne, que merecera as honras de uma tradução, um dos seus escritores prediletos; que mais lhe era preciso, quando o inspirava o gênio, e o elevava a imaginação?

Não merece grandes censuras o facto de encerrarem seus dramas muitos anacronismos. É verdade que se encontram e bastantes. Em um drama abre navegação entre a Bohemia e a Sicília; em outro faz um Troiano do tempo de Enéas citar Aristóteles. N'este povoa as rochas das Ardennas com leões e serpentes: naquele torna Júlio Romano contemporâneo do oráculo de Delfos. (Risadas.) Em Hamlet apresenta-o estudando em Wittemberg, quando ainda pão havia na Europa universidades instaladas. Ricardo III cita Maquiavel que lhe é muito posterior. (Hilaridade.)

São senões, que se devem desculpar tanto mais quanto em quase todos os escritores, por mais escrupulosos, se encontrão idênticos ou quase idênticos. Nada há de perfeito sobre a terra. O que se deve é pesar defeitos e qualidades. Se estas excedem, esquecem-se aqueles.

Fosse por ignorância, o que importa isso para se não apreciar o seu poderosíssimo gênio?

Grosseiro na linguagem, bárbaro mesmo, ele o é, mas porque usou da linguagem do tempo. A língua inglesa não estava formada, polida, estabelecida, firmada. A prosa só pode-se dizer foi criada por Milton, posterior a Shakespeare: a poesia, sim, foi cultivada antes de Milton, mas o idioma, o instrumento de que ela se podia servir, não estava completado; era grosseiro, bárbaro; muitas palavras, muitas frases não se entendem ainda hoje; desapareceram, deram lugar a novos vocábulos. Como quereis que Shakespeare escrevesse ao acabar o século XVI, e a começar o século XVII, na língua que Milton organizou e que do reinado de Anna em diante é que foi propriamente polida e assentada?

Não se contesta também que às vezes foi Shakespeare exagerado na frase e metafórico sem gosto em várias situações dos seus dramas; mas é porque escrevia segundo sua inspiração, e não se importava com a fórmula, com as frases, com a linguagem. Ora ela saía graciosa, encantadora, enérgica, própria, vigorosa, eloquente, sarcástica, espirituosa; de quando em quando, também o mau gosto do tempo lhe escapava, e Shakespeare caia nos defeitos dos seus contemporâneos e que procediam da influência da literatura italiana, que folgava com os conceitos, trocadilhos, e um tal ruido musical na expressão, que a tornava esquisita e monótona,

ao mesmo tempo que com metáforas desordenadas e obsoletas: não é correto enfim, é incompreensível em muitas ocasiões; são duros e inconvenientes muitos vocábulos e fraseado, defeitos, de certo grandes defeitos, se quiserdes. Ainda hoje com dificuldade leem os próprios ingleses as obras de Shakespeare e as entendem em muitas partes sem auxílio de algum glossário de velhas palavras e frases cabidas em desuso. Mas as grandes belezas? Mas as qualidades excelsas e sublimes do gênio? Mas o pensamento, o sentimento, a verdade das paixões? Quem com ele emparelha?

Que poeta atingiu a excelência de pinturas de caracteres, como conseguiu Shakespeare?

Não é um, não são dois, não são três; são todos. Reis, fidalgos, camponeses, prelados, mulheres, crianças, bobos, soldados, tudo tem uma vida particular, própria, diferente da dos outros, uma linguagem e modos e costumes diversos entre si, no mesmo drama e composição. Podem os caracteres das personagens formar galerias variadas de retratos, cada um com seu tipo, sua fisionomia, suas paixões, seus instintos, suas tendências peculiares.

E que verdade e profundeza no desenho, nos traços, nas posições, no colorido! Exterior e interiormente mostra-os como são ou devem ser. São todos os caracteres gerais, humanos, de todos os tempos, e países, reconhecidos geralmente, ao mesmo que variados. Que vigor de mestre! As paixões traduzem-se pelas palavras, e são tão fortes que a ilusão é perfeita realidade. Nenhum caráter se confunde, cada um d'eles grava-se em nossa memória, forma um tipo particular, duradouro. Fale ou mova-se, é ele, não pôde ser outro.

Relativamente às paixões, ainda aí ninguém iguala Shakespeare nas descrições. Conhece perfeitamente o coração humano, aprofunda, analisa, desenvolve a marcha das paixões, graduando-as paulatinamente, abraçando todas as faces da natureza, estudando todos os segredos da alma. Parece que tem intuição dos mais recônditos mistérios do coração. Variado, trivial, sublime, irônico, nenhum poeta se pôde apresentar com tal majestade trágica. Sob este ponto de vista é um grande' filósofo. Pinta quanto vê, exprime quanto sente, beleza, fealdade, sombrio, baixo, grandioso, horrível, em uma palavra, a realidade, a humanidade, a natureza sob todos os seus aspectos, folgando dos contrastes, conseguindo com eles efeitos admiráveis, e provando o maior conhecimento, o mais profundo estudo do coração e da alma humana.

É além de tudo, Shakespeare um poeta eminente, porque nas suas composições ora sobe á sublimidade da tragédia e da epopeia; ás vezos torna-se lírico, e hinos harmoniosos, como os sons doces da harpa, sobressaem no meio das comoções dramáticas fora se diria elegíaco, melancólico, simples e ao mesmo tempo mavioso; em certas ocasiões prorrompe em sainetes, sátiras, fantasias, e aveia cômica se manifesta com força, como se fora dotado pela natureza da qualidade de autor de comédias facetas, jocosas e sarcásticas.

Outro mérito, de ordem superior, aí se depara, O amor é paixão que subordina a razão; o amor deve triunfar segundo a ordem natural do mundo; Shakespeare obedece a esta lei inevitável. Mas o poder paterno é sempre respeitado e conserva-se incólume. É preciso que o pai, seja bom ou mal ceda, mas ceda por si, e Shakespeare não dá a vitória aos namorados senão com o consentimento paterno. Não pinta maridos ridículos, zombeteados, enganados como o fazem Plauto ou Molière, ou Goldoni e Regnard. O marido é sempre cercado de respeito, e a mulher nunca o ilude e menos o trai. Ha uma moralidade exemplar em todas; as comédias de Shakespeare, que prova assim quanto foi bom cidadão, bom pai de família, respeitador dos laços naturais e sociais, rodeando de uma aureola de dignidade o pai e o marido. Quando apresenta sedutores, como nas Joviais Comadres de Windsor é sobre eles que recai o ridículo, são eles que sofrem vergonhas e mistificações. Sob este ponto de vista merece eternos encômios o grande poeta trágico, que dá tanta glória a Inglaterra. Até nos dramas fantasmagóricos, como a Tempestade e o Sonho de uma noite de estio, em que figurão silfos, gênios celestes infernais, e feiticeiros, não há ideia que não seja moral, ao passo que substituem a falta de intrigas e ação interessantes e dramáticas umas ondas de poesia que desde o gênero lírico elevado até o idílio e o pastoril, extasiam e encantam.

Filósofo e moralista sobressai sobre todos os poetas dramáticos. Um monólogo de suas personagens equivale a uma admirável meditação; o fim de seus dramas é sempre moral; não deixa de castigar o que merece punição. Não faz do homem joguete ou instrumento do destino, como os antigos; não há Fedra que seja arrastada ao crime pela deusa Vênus, Orestes à morte da mãe pelo oráculo. O homem é livre, os acontecimentos de sua vida, os fatos que pratica são resultados da sua razão e de sua vontade; por isso é responsável por quanto comete; pode o acaso, a fortuna, concorrer em parte para os eventos, mas ele deve formar seus desígnios, contrapor-lhes contrariedades quando adversos, aproveitá-los quando favoráveis. O homem de Shakespeare tem o livre arbítrio, portanto queixe-se de si sempre que os resultados de seus feitos forem desastrosos.

E acima de todos estes predicados um orna o poeta que merece particularmente nossa admiração e simpatia. Shakespeare é um excelente patriota. Estudou a história de Inglaterra até o seu tempo; extasiou-se diante das qualidades viris da raça anglo-saxônica; encheu-se de prazer e de entusiasmo pelos feitos de alguns dos seus varões ilustres. Com a instrução segura de historiador, burinou os acontecimentos gloriosos do povo inglês em alguns dramas de primor, que por si só bastariam para assegurar-lhe nas letras o mais elevado lugar de poeta patriota.

Estas qualidades todas reunidas em um homem formam lhe, caracterizam lhe o gênio superior, o gênio sublime. Que importa que senões escureçam muitas vezes suas composições diante de uma força e robustez de espirito, de uma elevação de inteligência, de uma vasta compreensão e estudo da humanidade, como em bem poucos dos seus rivais ou competidores ingleses, franceses, espanhóis, italianos, romanos, gregos, alemães raramente se encontra!

Feitas estas considerações gerais, entremos na apreciação de seus dramas para os aquilatar como merecem.

Além dos poemas de Vênus e Adonis e Lucrécia, que já tive ocasião de citar, e da coleção de sonetos e poesias ligeiras, onde ressumbra espírito imitativo da poesia italiana com seus conceitos, trocadilhos e metáforas, carregadas de imagens extraídas da antiga mitologia, encerra o seu teatro trinta e seis dramas. Shakespeare não os dividiu e nem classificou. Para ele tudo foi drama, ou peça teatral, uns em versos heroicos, outros em versos alternados, outros compostos em verso e prosa, e alguns inteiramente em prosa. Os editores e críticos foram os que os dividirão em comedia, qualificando na primeira classe os que acabam felizmente, na segunda os relativos à história inglesa e Romana, e na terceira os que terminam com grandes catástrofes. Em confessar que se há poeta que mereça a paixão do belo sexo é Shakespeare. Outros como Petrarca, Metastasio, o nosso Gonzaga, tão celebre pelas suas cantatas a Marilia, contentam-se com descrever os dotes físicos de suas damas, olhos, cabelos, fisionomias, porte, graças, mãos, braços, colo; Shakespeare estuda-as no coração, na alma, no espírito, e lhes não acha defeitos que encontra nos homens. Fala d'elas com ternura e prazer, forma-lhes os retratos com as mais esquisitas qualidades, sentimentos e virtudes graciosas; presta-lhes a dignidade do seu sexo, a constância do amor, a sinceridade das palavras, a nobreza dos atos. Todas sabem amar, respeitar seus juramentos, devotar-se pelos amantes, quer na felicidade, quer no infortúnio, quer adoradas quer desprezadas, quer nos prazeres quer nos perigos.

Parece que ele amou seriamente, e não como o geral dos poetas que só cantão amores. É preciso, minhas senhoras, muita cautela com os poetas quando falam amor. Dir-se-iam abrasados de intima paixão, capazes de sacrifícios, decididos a morrer pelo objeto adorado. E tudo imaginação e só imaginação, e nada de coração. (Risadas.) As mulheres são objetos, assumptos para compor versos; os versos é que formão a paixão. (Risadas.) Petrarca não foi excedido ainda nos seus cânticos apaixonados por Laura. Extasiava com eles seus contemporâneos, que tinham pena de tanto sofrimento do poeta. O Papa que o protegia disse-lhe um dia - Sei quanto amas Laura, quero fazer tua felicidade. Secularizo-te, poderás casar com ela — Por piedade, Santíssimo Padre—respondeu-lhe Petrarca — não aceito vossa graça, ainda tenho muitos versos a fazer! — (Hilaridade prolongada.)

Mas, Shakespeare, devia ser de outra tempera, de outra natureza, de outro caráter. E impossível que quem tão profundamente estudou o coração feminino, e tanto sabe fazer sobressair e resplandecer seus raros dotes e virtudes, é impossível que não tivesse sinceramente amado, não amasse sinceramente.

O que admira é como um homem de baixa classe, sem estudos regulares, sem relações na sociedade elevada, n'aquela época em que ainda apareciam ressaibos da barbaria da idade média descrevesse com tal louçania, graça, delicadeza, perfeição, amor, essas criaturas admiráveis que Deus formou para felicidade do homem e do mundo.

Poderia adivinhar Cordélia, lendo alguma tradução de Antígone de Sófocles; é o tipo feminino mais belo da antiguidade! Mas onde encontrar as outras deidades? Só na sua alma, na espontaneidade do seu coração. Julieta é aérea, diáfana, poética, tão simples que pensa que não é crime amar, e espera para amar a voz que lhe diz que seu leito nupcial será o sepulcro. Miranda, no drama da Tempestade como Eva ou Galatéa acorda a nova vida sob a influência, de um casto amor, e reúne os mais raros tesouros de bondade, nobreza e dignidade. Ofélia parece um ente celeste, um anjo de suavidade e ternura, como o sonho de um poeta inspirado. Desdêmona é a esposa leal, dedicada, pura, que concentra todos os sentidos no cumprimento dos seus deveres, e fiada na sua inocência, mostra energia a Othelo e excita-lhe mais o terrível ciúme que lhe rala o coração e perverte o espírito. Assim lia nos seus dramas tipos tão perfeitos, caracteres tão acabados de mulheres sempre dignas do respeito, do amor, da veneração, que eles formão uma galeria das mais belas para se converterem em retratos. Quando mesmo tenha de pintar uma Nêmesis moderna, Margarida de Augoré, enternece o expectador com suas desgraças passadas; uma assassina de seu marido, Gertrudes, chama para ela compaixão no fim do drama, apresentando-a a chorar e lançar flores sobre o cadáver da infeliz Ofélia; uma ambiciosa como Lady Macbeth, castiga-a com o estado de sonambulismo, que lhe mostra as mãos sempre tintas de sangue, faz-nos ter d'ela compaixão.

Não assim com os homens. Desespera com Ricardo III, horroriza com lago, enfurece com Edmundo. Castiga-os com rigor, e só assim contenta os espectadores.

Não há só pintura de mulheres nas comédias de Shakespeare, outros caracteres sabe o poeta desenhar ao vivo, ao natural, conforme a realidade. Personagens de todas as profissões, aí aparecem, ao sopro do gênio criador de Shakespeare. O capitão Spavento, o monstro Calibar, o silfo Falstaff, o judeu Shyloch, tipo dos mais admiráveis pela paixão da usura e pelo ódio à raça cristã, tipo eternamente admirado pelas raras qualidades que o ornam, e que o tornam interessante mesmo na sua vingança, conservam-se como composições de gosto e primor, pela exatidão, pela realidade, pelo natural que encerram.

Passando agora aos dramas históricos reconhece-se quanto se aperfeiçoou o poeta, e tanta mais elevação adquiriu quanto mais experiência e raciocínio, profundidade ganhava na sua idade viril.

Manifesta-se n'eles mais força e meditação. As comédias da mocidade foram, por assim dizer, brincos, folguedos de poesia. Posto que contenham algumas belezas, e caracteres bem desenhados que se conservam e nunca se esquecem, não formariam por si uma aureola de glória, como a que compete ao poeta pelas suas composições subsequentes. Os dramas históricos de Shakespeare são títulos suficientes para colocá-lo no meio dos maiores gênios, que o mundo tem produzido: não precisava de escrever as cinco admiráveis tragédias, que são as únicas obras que quase todos conhecem, e que nos últimos anos da vida lhe brotarão do cérebro, como os mais belos exemplares do gosto e da arte.

A história inglesa reduzida por Shakespeare a dramas compreende o período entre o reinado do rei João-sem-terra e de Henrique VIII, o mais curioso, bárbaro, e sanguinolento dos anais da Grã-Bretanha.

Assim desfilam n'eles os reis das Casas de Lancastre e York até os da dinastia Tudor; João-sem-terra, o covarde e cruel; Ricardo II de uma fraqueza que o leva a crimes, e acaba deposto e assassinado em prisão; Henrique IV, que apesar de excelente soberano guarda e sofre constantes remorsos pela morte de Ricardo II, e que termina assustado do futuro por deixar o trono ao filho que lhe parece extravagante; Henrique V que cingindo a coroa se lembra que deve ser rei, esquece seu passado de jovem desarrazoado, ganha contra Franceses grandes e assinaladas vitórias, e deixa uma memória gloriosa; Henrique VI que assiste às guerras civis das rosas branca e encarnada, e morre na prisão assassinado barbaramente, posto que tivesse qualidades apreciáveis de homem, faltando-lhe só as de rei; Ricardo III um dos entes mais monstruosos no físico e no moral, que a natureza tem produzido; corcovado, vesgo, coxo, horrível a ver-se; assassino de quase toda a família, do irmão, sobrinhos, e parentes, usurpador do trono; e que tinha tão completamente concentrado na inteligência os dons que recebera da natureza, que foi o político mais hábil, o diplomata mais insinuante, o homem mais jeitoso até para seduzir as damas; enfim depois de esboçar Henrique VII, com habilidade traz à cena Henrique VIII, o pai da rainha Izabel, sob cujo governo vivia.

Em Marlowe aprendera Shakespeare quanto à Musa trágica podia aproveitar a história nacional. Eduardo II de Marlowe causava entusiasmo quando representado em cena. De um drama informe de Green sobre Henrique VI organizou Shakespeare uma trilogia excelente Das crônicas existentes inglesas de Holinshed e Hall arrancara pois os materiais para os seus outros dramas a respeito da Inglaterra.

Shakespeare é o mais exato possível na descrição dos acontecimentos: tão exato que Lord Malborough e Chatam declaravam que tinham em seus dramas apreendido as primeiras noções da história inglesa. Uma admirável intuição de historiador possuía o poeta. Muitos factos d'essas épocas joeirados pela crítica moderna, fundada em documentos originais e autênticos encontrados nos arquivos públicas e particulares , se têm reconhecido de invenção, ou truncados; mas a história verdadeira é moderna, do século XIX; nem no tempo de Shakespeare e nem nos que os seguiram até nossos dias, houve historiadores que pesquisassem, analisassem, apreciassem, aprofundassem, verificassem, como hoje se pratica. Não deve, portanto, admirar que o poeta tropeçasse em um ou outro ponto hoje mais bem apurado.

O que espanta, porém, é como Shakespeare compreendeu perfeitamente o espirito, as ideias, as tendências, as superstições, os costumes, como os soube pintar em quadros vivos e animados, com o colorido local e da época, de modo que a crítica de hoje não lhe pôde negar a maior fidelidade; é como apreciou e desenhou os caracteres dos reis, prelados, príncipes, fidalgos, guerreiros, bobos, e povo inglês; por tal maneira que se reconhecem atualmente como verdadeiros retratos fotografados ao natural: é que ele tinha a perspicácia, a elevação, a atuação de verdadeiro historiador. A crítica nada aí encontra que não seja completamente exato, ou tão verosímil que não podia ser outra coisa.

Não há classe da sociedade, não há profissão, que não apareça n’esta estimadíssima galeria, que se intitula dramas históricos de Shakespeare. Ao lado dos reis como pinta os prelados? O Cardeal Winchester que abusou do poder para enriquecer-se, tiranizar o povo, servindo-se do caráter sagrado e até dos textos das escrituras divinas para seus fins criminosos, abandonado por fim, decaído da graça real, cheio de remorsos pungentes, e morrendo no meio de terrores; o Cardeal Wolsey que incitara o rei Henrique VIII a atentados atrozes e crimes abomináveis, inclusive o de repudiar sua inocente consorte Catharina de Aragão, para se casar com Anna de Bolena, proscrito e reduzido à miséria, encontrando um só amigo, um velho criado, que lhe serve cie companheiro na hora de passar-se à eternidade; o legado do Papa que promove as guerras entre Philippe Augusto de França e João-sem-terra, astucioso, diplomata fino, como a história nos apresenta tantos exemplos entre os representantes da Cúria Romana; e conjuntamente prelados veneráveis pelas suas virtudes e religião que sabem que só devem governar as almas, e não influir pela consciência no mundo temporal.

Como é político eminente o poeta, apresentando-nos as figuras dos ministros da época, dos homens d'Estado como Bolingbrok, Buckingham; de guerreiros cavalheirosos como Mawbrey, Talbot, Hotspuer, e outros vultos notáveis ingleses?

O que é pena é que o poeta, tão imparcial ao mesmo tempo que tão entusiasta pelos grandes homens ingleses que notando-lhes as qualidades lhes não esquece os defeitos, se mostrasse tão inimigo de franceses, desconhecendo caracteres puros de cavaleiros e personagens de França dignos antes de elogios quede vitupérios de Shakespeare, e entre eles particularmente essa bela, admirável, celeste figura da heroína Joanna d'Are, que o poeta inglês despe de suas galas de dignidade, honestidade e sublimidade, para a pintar sob cores tristes e desdenhosas.

Nem os bobos ou truões, de que os reis do tempo se rodeavam para sorrirem e se alegrarem nos momentos de ócio, e no meio dos prazeres das cortes, deixam de aparecer com suas pantominas, momices, bom senso e sainetes sarcásticos, com que interessam e suavizam as cenas de horror trágico, que o poeta tem de descrever.

As mulheres, oh essas! são os primeiros cuidados de Shakespeare, os seus carinhos, os seus amores. São, não personagens propriamente políticas; mas princesas, rainhas, que pelas suas altas posições, andam subordinadas aos acontecimentos; quase todas desgraçadas, perseguidas vítimas. Não é o amor, essa paixão que exalta tanto o poeta nas suas comédias, que o eleva às regiões celestes, que ele se incumbe aí de desenhar; é a esposa, a mãe, a irmã, e aí tão poderosa se mostra sua imaginação, que todas essas mulheres dos seus dramas históricos ingleses são tipos naturais, encantadores, amáveis, graciosos, terníssimos, arrebatadores, que se gravam em nossa memória como em bronze.

Constança de Bretanha é um caractere materno, que entusiasma. Ao saber que o jovem filho Arthur, a João quem usurpou a coroa que lhe pertencia por morte de Ricardo Coração de Leão, fora feito prisioneiro, lastima-se, chora, desespera-se, considera o príncipe assassinado pelo feroz tio sem remissão. O Legado do Papa procura aliviar-lhe as penas, consolá-la, e ela prorrompe n'estas admiráveis palavras, que revelam profundamente o coração de mãe: — Quem fala? Quem não tem filhos! (Sensação.)

A Duquesa de York, a de Gloster, como aparecem vítimas adoráveis e interessantes. Margarida de Anjou, apesar de seus crimes, enternece com os sofrimentos e perseguições, a que foi condenada: viu marido, amante, filhos, assassinados atrozmente, e causa piedade. Catharina de Aragão, a primeira mulher de Henrique VIII, a mãe de Maria Tudor, como se mostra princesa digna e virtuosa, de elevadas qualidades de espírito, procurando abrir os olhos ao marido sobre os crimes e atrocidades do cardeal Wolsey, é por este acusada, condenada com consentimento do rei, e encerrada em um castelo, depois de roto o seu casamento- para Henrique VIII se casar com Anna Bolena. Que impressão dolorosa e ao mesmo tempo simpática produz quando se defende perante o tribunal quando invoca perante o esposo a sua dignidade, brios e inocência, quando ao saber da morte infausta de Wolsey lhe perdoa como cristã, e pede a Deus por ele!

E nem escapa ao poeta a pintura de meninos e povo: Arthur de Bretanha consegue arredar o golpe do assassino falando-lhe uma linguagem infantil, que o comove, suspende-lhe os desígnios, e provoca sua compaixão. Os filhos de Eduardo, mandados matar por Ricardo III, são personagens vivas, animadas, e o que é mais, verdadeiras crianças que interessam e comovem.

O povo aparece, não em bloco, mau com seus sentimentos reais, diferentes, moveis. Cada homem do povo falia sua linguagem, diz sua opinião, apresenta várias impressões. Vê-se, reconhece-se, aprecia-se essa multidão agitada composta de pessoas diversas, cada um dizendo o que pensa, disparatada, desordenada, variadamente, estes levados pelo interesse, aqueles pelo instinto, alguns pelo bom senso, concorrendo assim todos para a verdade do quadro.

Estes dramas históricos, qualquer que seja o aspecto sob que sejam encarados, merecem toda a atenção, provão o gênio sublime de Shakespeare. Nos factos adivinha ele a influência das paixões humanas, e as esboça magistralmente. Tudo é histórico, personagens, eventos, atmosfera, situações; tudo é dramático, porque une o interesse à verdade, encadeando e desenvolvendo os caracteres, encontrando nos sentimentos do homem a causa de suas ações, explicando as vicissitudes da história na pintura do Coração, no descobrimento dos mistérios d'alma, descobrindo às relações intimas entre os factos e as paixões.

E Ricardo II desgraçado no fim de sua vida? Queixe-se de não ter tido juízo: acaba mal Henrique VI? Porque foi tão fraco rei, e imbecil soberano, embora o ornassem virtudes privadas?

A responsabilidade dos infortúnios recai sobre o indivíduo porque ele a provocou por seus próprios atos. Cada um paga o que faz: eis a lição moral do poeta. Os caracteres explicam as ações, estas produzem os acontecimentos; verdadeira e sublime origem da poesia dramática. Os príncipes, os homens d'Estado, não se devem contentar de ser homens de bem, honestos, inofensivos, como particulares; carecem de lembrar-se que têm a responsabilidade do governo, que os obriga a deveres e cuidados mais elevados. Não possuindo a energia precisa, são vítimas dos acontecimentos, que devem a si imputar, e que são sua punição.

Eis porque eu me extasio perante o gênio de Shakespeare; não é só que as belezas dramáticas, sublimes e literárias de suas composições me comovem e arrebatam; não é só que essa sábia organização das suas tragédias com peripécias encontradas, pinturas de paixões, desenho de caracteres variados, diversos, naturais como a realidade viva, que me fazem admirar o poeta; esqueço-me, aí, de suas irregularidades, ás vezes extravagâncias, ora grosseria de linguagem, ora má colocação de metáforas, que são defeitos notáveis,

Mas o que me parece sobressair em Shakespeare, é a lição moral do político, do poeta, do filósofo: é essa meditação, esse cismar doloroso e profundo, que ele levanta em meu espírito, que ele produz em minha alma, e que me obriga a pensar, a refletir, a cogitar sozinho, acabada a leitura, ou terminada a representação de um dos seus dramas.

Não se contentou Shakespeare com a história de Inglaterra. Plutarco lhe fez adivinhar os varões ilustres da antiguidade. Plutarco inspirou-o em três dramas sobre a história romana, que correm parelhas com as suas outras composições em formosura, graça e sublimidade.

A história de Roma forneceu-lhe três épocas distintas, interessantes, que ele dramatiza. A República com sua luta de patrícios e plebeus, que representam princípios políticos, e interesses diversos das duas classes em que a nação se dividia. Coriolano foi o herói escolhido para o seu desenvolvimento. Roma quando no esplendor da gloria e grandeza, posto que houvesse perdido a liberdade; César e Brutus a devem representar. Roma, quando já em começos de decadência com o domínio de Augusto astuto e político, quando já minada pela corrupção dos costumes, com a degradação dos caracteres, com as ambições de militares poderosos; Antônio, Cleópatra, e Augusto a interpretam e explicam.

São três dramas notáveis pela exposição dos acontecimentos, pela descrição dos caracteres, pelo desenvolvi mento das paixões, pela pintura da época e da história com todos os elementos que organizaram o mundo romano.

Coriolano é o tipo do patrício orgulhoso, bravo, guerreiro, chefe de partido, inimigo da classe popular, educado por sua mãe Veturia para ser herói. Veturia dizia que em relação a seu marido, seria mais feliz durante uma ausência, em que adquirisse gloria, que com os abraços e transportes de seu amor; se tivesse doze filhos, quereria vê-los todos morrer gloriosamente por seu país antes que um só vegetar na volúpia, no ócio, e na obscuridade. Eis aí a matrona romana com suas qualidades severas, e seu orgulho inato de raça.

Assim Coriolano não pensa senão em adquirir gloria, obtida, torna-se orgulhoso, e considera-se superior a todos os romanos. Inimigo dos plebeus; é assim por eles repelido do consulado a que aspira. Como admira a pintura do povo neste drama? Uns são-lhe adversos pelos interesses da classe; outros o admiram, muitos o odeiam, diferentes assim nos sentimentos, posto que tendendo todos ao mesmo fim que é recusar-lhe o consulado, quebrar-lhe as armas do poder, os voos da ambição. Assim é que constitui um quadro vivo essa massa complexa, turbulenta, com pensamentos diversos tantos quantas cabeças, posto que marche compacta contra o orgulhoso patrício.

Coriolano furioso corre para os Volscos; coloca-se à frente dos inimigos de Roma: tala os campos de sua pátria, destrói seus exércitos, ameaçai de destruição. O orgulho é n'ele mais poderoso que o patriotismo, e leva-o a ligar-se aos inimigos de Roma, que até então ele próprio combatera e vencera comandando romanos.

Só o amor materno curva essa alma despida de sentimentos suaves e naturais, repleta de orgulho, e, portanto, de vingança pelo sentir ofendido. Veturia implora pela salvação de Roma, o filho que resistira a todas as súplicas, ouve, atende à voz materna, e perdoa a Roma. A piedade filial é o único sentimento que luta em sua alma com o orgulho, e a piedade filial triunfa. Mas ele levantou armas contra seu país, cometeu um crime. Acaba assassinado grande pelos Volscos, que o chamam traidor, sem que Shakespeare tente chamar nossa compaixão pelo trágico e desgraçado fim do herói romano, empregando aquele patético sublime de que possui o segredo quando quer enternecer-nos em favor das vítimas do destino, sobre que pairam circunstâncias atenuantes.

O drama—César— dever-se-ia intitular antes – Brutus — porque este é o verdadeiro herói, este é que é pintado admiravelmente, este é que é o protagonista verdadeiro.

O caráter de César não merece elogios; o poeta o abandona, o maltrata contra a verdade da história. Não é aquele grande vulto, o primeiro dos romanos, como político, como guerreiro, como poeta, como historiador, como literato, como coração largo e generoso, ainda que a ambição de governar o levasse a matar a liberdade de Roma. Também é assassinado no terceiro ato, enquanto que a tragédia continua com Brutus até que este se suicida.

Brutus, Cassio, Casca, Antônio, Porcia, são as personagens melhor desenvolvidas. Brutus é o amigo de bem, o patriota estremado, o afilhado de Catão de Utica. Não se coloca por si à frente da conjuração contra César, ao qual o prendem amizade e gratidão. É, porém, arrastado por Cassio e Casca, que empregão todos os estratagemas para que seu nome preste importância à causa dos conjurados. É pela liberdade de Roma que ele por fim se decide, e se a pudesse restaurar sem derramar sangue e nem ofender a César, ele o faria. O sentimento da liberdade inspira e domina o drama. Aos olhos de um romano da tempera e escola republicana é que a liberdade vale mais que a família e amizade. Brutus se convence de que serve Roma e a liberdade sacrificando-lhe César. Assassinado César, pensão os loucos conjurados que está tudo salvo. Antônio pôde, porém, falar ao povo, lembrar-lhe os benefícios de César om um esplêndido discurso, que se lê e relê muitas vezes com prazer inexprimível. O povo levanta-se, e os conjurados fogem de Roma. Augusto, sobrinho de César, Antônio e Lépido governam. Exércitos partem para perseguir os conjurados. A batalha de Pharsalia entrega o mundo romano aos amigos de César. Brutus mata-se, Cáspio morre, e dispersam-se os seus amigos.

Shakespeare dramatiza os acontecimentos traçados pela pena agradável de Plutarco; em largos aspectos apresenta caracteres admiráveis, e mostra Roma ainda com povo, mas povo que já quer unicamente pão e festas, e não se importa mais com a república e a liberdade.

A terceira tragédia acerca de Roma mostra o mundo dividido entre os vencidos. Augusto governa Roma e o Ocidente; Antônio, Alexandria e o Oriente. Antônio quer elevar os seus domínios e gloria acima dos de Roma. Mas no Oriente não há elementos de força e solidez, posto que Antônio seja o primeiro general da época, educado nas guerras de Júlio César. Entrega-se demais Antônio a amores com Cleópatra, e perde nos prazeres a energia antiga. É um caráter admiravelmente esboçado nas suas passadas glorias, e na sua decadência o de Antônio. O de Augusto representa o político hábil, calmo, fino, e aproveitador dos acontecimentos. O de Cleópatra a mulher voluptuosa que se entusiasma por Antônio, e tudo lhe sacrifica. Augusto vence Antônio em combate naval. A Antônio fugido conta-se falsamente que Cleópatra morrera. “Que faço eu mais no mundo? — diz consigo Antônio, — o astro que me alumiava desapareceu; o coração que me amava cessou suas palpitações; só me resta morrer, acompanhando-a ao sepulcro!”

Quando está a expirar aparece-lhe Cleópatra; ainda um sentimento de ternura lhe rocia os lábios, e adoça o coração. Antônio morto, Cleópatra manda buscar o áspide venenoso, faz-se por ele morder no peito, para não sobreviver ao amante, e deixa a vida, comovendo e enternecendo.

Como a hora corre, minhas senhoras e senhores! Já eu devera ter terminado, pelo que observo, e ainda não tratei de Hamlet, Romeu, Othelo, Lear e Macbeth os únicos dramas que todos têm visto representar, e que são os que maiores glorias conseguirão para Shakespeare!

Não desejo cansar mais a vossa paciência; paremos hoje aqui. Temos tempo de continuar em outra ocasião".

(Ao descer a tribuna, o orador é geralmente aplaudido e felicitado.)

Localização

- Conferências Populares, Rio de Janeiro, nº 10, outubro 1876, pp. 03-29 (na integra). Capturado em 26 jan. 2026. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/docreader/278556/1048

Ficha técnica

- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.

- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.

Forma de citação

Conferência Popular da Glória nº 215.1. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 26 fev.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=799

 


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