Conferência Popular da Glória nº 225: mudanças entre as edições

De Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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Edição das 16h58min de 25 de fevereiro de 2026

Data: 24/12/1876

Orador: José da Cunha Ferreira

Título: Educação sob o ponto de vista higiênico

Aviso, íntegra ou resumo: Resumo

Texto na íntegra

“Em presença de numeroso auditório, do qual faziam parte várias senhoras, realizou-se no dia 24 do corrente a conferência n. 225, no salão da escola da Glória, ocupando a tribuna o Dr. José da Cunha Ferreira, que desenvolveu este interessante ponto: da educação sob o ponto de vista higiênico.

Começou o orador ponderando que em vista da vastidão do assunto e da escassez do tempo se limitaria a trazer ligeiras considerações sobre cada um dos três ramos em que dividiu a educação: educação física, moral e intelectual.

Notou que a própria natureza indica que a educação física deve proceder, e mais tarde acompanhar a educação moral e intelectual, o que, entretanto, nem sempre é observado entre nós, pois que muitas vezes descura-se da primeira em benefício da instrução, tendo-se somente em vista fazer com que o menino termine o mais cedo possível os preparatórios necessários para a matrícula nos cursos superiores do Império.

Tratando dos estabelecimentos destinados a casas de educação, disse que se deviam escolher para a sua construção localidades eminentemente salubres e como tais reconhecidas, preferindo-se sempre os terrenos de formação primitiva aos de aluvião e aos argilosos.

Acrescentou que nos climas quentes os lugares elevados são preferíveis às planícies, por ser neles mais fácil a ventilação, mais constante a renovação das camadas do ar atmosférico; que nas grandes cidades, os arrabaldes são preferíveis às ruas centrais, e que estas regras devem ser observadas sempre que se tratar de construir edifícios para casas de educação.

Falou em seguida o orador nos estabelecimentos que possuímos para a educação popular, muitos dos quais são construídos em localidades insalubres, e que não satisfazem as exigências de uma boa higiene: apontou os colégios cujas condições de salubridade podem se considerar excelentes, e outros que não se acham nestes casos, tornando saliente a necessidade de construir-se um edifício para a nossa faculdade de medicina, que funciona atualmente em um prédio que não possui as acomodações precisas para o grande numero de alunos que frequentam as suas aulas.

Depois de algumas considerações relativas ao asseio, que deve sempre reinar em todas as casas de educação, e que, infelizmente, falta em algumas, o orador ocupou-se com a influência do regimen alimentar sobre a saúde dos meninos.

Mostrou que a alimentação deve ser suficiente, tanto em quantidade como em qualidade, deve bastar para fazer frente aos gastos do organismo; ponderando que nas primeiras idades, tendo o organismo de prover-se dos meios necessários ao crescimento do corpo, é preciso que a alimentação seja relativamente mais abundante que nas outras épocas da vida, sem o que a despesa será superior à receita e a saúde alterar-se-á e conseguintemente.

Expos os inconvenientes do regimen alimentar insuficiente, fazendo ver que ele produz a magreza, a consunção, modifica desvantajosamente as constituições fortes, as organizações robustas e deteriora ainda mais os organismos já de si fracos e débeis, predispondo os indivíduos a estados mórbidos graves, a moléstias graves, como sejam a escrofulose, a tuberculose e outras igualmente sérias.

O orador falou depois dos exercícios musculares, apontando as inúmeras vantagens, os muitos benefícios que traz à saúde do indivíduo em qualquer época da vida, e muito especialmente na infância e na adolescência, em que esses exercícios se tornam de indeclinável necessidade; disse que, quando moderados, os exercícios fortificam os músculos, ativam as diversas funções da economia, tornam fortes as constituições fracas, concorrem para transformar o temperamento linfático ou nervoso em temperamento sanguíneo.

Notou os inconvenientes da vida inativa e sedentária, quer quando a ela se ajunta uma alimentação analéptica, quer quando esta é insuficiente; no primeiro caso deposita-se no organismo grande quantidade de tecido adiposo, as fibras musculares perdem a sua contractilidade, há a degenerescência gordurosa de vários órgãos importantes, como o coração e o fígado: no segundo manifestam-se a clorose, o nervosismo, a histeria, a dispepsia, etc.

Tratando dos exercícios especiais, falou dos passeios a pé, e a cavalo, da ginástica, da esgrima, dança, natação, banhos frios, estendendo-se sobre cada um destes exercícios, e mostrando o valor que se deve dar a cada um, relativamente à educação física, sem esquecer, por outro lado, os inconvenientes que tem alguns deles e que convém evitar.

Ocupou-se depois da educação intelectual, e ponderou a dificuldade de se determinar a idade em que o menino deve entrar para uma casa de educação, o que depende de certas condições, como a de temperamento, constituição, etc., opinando afinal que é geralmente depois da queda dos dentes de leite, isto é, aos 7 anos, que o menino se pode entregar aos trabalhos intelectuais.

Os métodos de ensino devem ser atraentes, devem agradar às crianças, a fim de que elas não encontrem grandes dificuldades em aprender as primeiras letras: é rindo e não chorando que elas devem aprender, e seria barbaridade pretender ensiná-las, martirizando-as; a par e passo que se lhe ministra instrução, deve-se também promover o desenvolvimento físico, e para isso as aulas não devem durar muito, sendo preferível que sejam entremeadas com exercícios físicos e recreios.

Falou ainda o orador da utilidade das conferências populares, cujas vantagens e benefícios mostrou, sendo para desejar que elas se multipliquem; ponderou a necessidade do estudo das belas-artes e das belas-letras, e apontou algumas faltas em escolas de instrução superior.

Passando a ocupar-se da educação moral, demonstrou o orador a necessidade do ensino religioso, visto como a religião constitui a base de todas as sociedades, a síntese de todos os deveres do homem; sendo de mister que esta educação fosse ministrada também à mulher, pois é ela quem faz o homem. Observou que seria vantajoso dar-se instrução mais solida à mulher, visto que raramente isto sucede entre nós, não partilhando o orador a opinião de que esta instrução lhe é prejudicial, uma vez que não seja descurada a educação moral.

Tendo mostrado a benéfica influência exercida pela música sobre o moral dos indivíduos, o orador fez mais algumas considerações acerca da educação moral e terminou a sua conferência, sendo muito aplaudido.”.

Localização

- Jornal do Commercio, Rio de Janeiro,26-27 dez 1876. Anno 55, n.359, p.4 (resumo). Capturado em 26 jan. 2026. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/DocReader/364568_06/14868

Ficha técnica

- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.

- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.

Forma de citação

Conferência Popular da Glória nº 225. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 26 fev.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=807

 


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