Conferência Popular da Glória nº 235
Data: 05/05/1878
Orador: Carlos Victor Boisson
Título: A revolução que se opera atualmente nos métodos de navegação
Aviso, íntegra ou resumo: Resumo
Texto na íntegra
“Realizou-se domingo, no edifício das escolas públicas da freguesia da Glória, a conferência n. 235. Foi honrada com a augusta presença de S. M. o Imperador. Muitas pessoas competentes assistiram à exposição que dos novos métodos de navegação com que principalmente se ocuparam Villarcean e Magnac, ia fazer o lente da escola de marinha o Sr. Carlos Victor Boisson.
O orador, depois de sucinto histórico, apoia os novos métodos em experiencias feitas a bordo da fragata escola de aplicação La Renommée, em viagem de Toulon a Brest, tocando em diversos portos, durante a qual, a vantagem foi completa em favor dos processos novos, comparados com os antigos, ficando nesta ocasião provado à evidência que permitem eles navegar com a maior segurança durante 100 dias, podendo conservar-se a bordo com toda a exatidão desejável [?] do primeiro meridiano, base em que assentam todos os processos da nova navegação astronômica.
Propondo-se fazer uma síntese dos livros de Villarcean e Magnac, fala dos progressos ultimamente realizado na cronometria, e mostra como se deduzem no mar as marchas diurnas dos cronômetros são funções do tempo e da temperatura.
A razão de não estarem descobertos há muito tempo os novos métodos, para cujo fim se acumulam elementos há quarenta anos, provém de nunca ter sido bem compreendida a importância dos cronômetros a bordo. Estes instrumentos ocupam hoje, graças ao aperfeiçoamento dos processos cronométricos, o seu verdadeiro lugar, e fornecem unicamente por suas indicações a longitude, com mais exatidão do que as melhores observações de distâncias lunares.
Para confirmar a superioridade dos nossos métodos, lembra que: até agora só se determinava direta ou separadamente as duas coordenadas e longitude e latitude, obrigando-o sempre a observações no meridiano ou no primeiro vertical; entretanto que atualmente a observação de uma altura qualquer dá uma circunferência onde se acha o navio, e que obtendo-se, portanto, duas destas circunferências, o ponto fica determinado, isto é, a latitude e longitude simultaneamente.
Estas circunferências tomaram o nome de circunferências de altura, pois imaginam-se traçadas sobre a esfera com uma distância polar igual à distância zenital resultante da altura observada, tendo por polo a posição geográfica do astro, que é o traço produzido na superfície da terá pela reta que vai de seu centro ao do astro, e cuja posição é conhecida desde que se tenha à bordo a hora exata do primeiro meridiano, porquanto sua latitude é declinação do astro, e a longitude a hora do primeiro meridiano diminuída da ascensão reta do mesmo astro.
Faz breve exposição dos dois métodos direto e indireto para a resolução do principal problema da navegação: determinar em um instante dado a posição geográfica do navio.
No primeiro método não se conhece o ponto estimado, ao contrário do segundo onde se entra, como dados da questão, com a longitude e latitude estimadas.
A cada método correspondem dois processos, um gráfico e outro analítico.
O orador mostra qual a construção gráfica para um e outro caso, notando que no segundo (o indireto) as circunferências de altura são substituídas por suas tangentes ao ponto que foi denominado aproximado, a qual por si só independente d’aquelas tangentes, que foram chamadas retas de altura, fornece já uma posição do navio, que em todo caso é mais aproximada da verdadeira do que o ponto estimado.
Todas estas construções são facilmente executadas sobre a carta de Mercator, desde que as distancias zenitais estejam compreendidas entre certos limites, porque neste caso as curvas de altura (projeções das circunferências de altura sobre a dita carta) podem ser consideradas circulares.
Quando a referida condição não possa ser satisfeita, deve recorrer-se à solução pelo cálculo, o qual é mais complicado no primeiro, porém muito simples no segundo método.
Para evitar o cálculo do primeiro método convém prescindir de obter as duas coordenadas simultaneamente, calculando separadamente a latitude.
O orador mostra como se determina o ponto aproximado, daí o traçado das retas de altura e finalmente a posição do navio.
Menciona que a nova navegação ocupa-se também da determinação da longitude e latitude separadamente, para os casos em que se pode observar em circunstâncias favoráveis. Estes processos têm apenas a vantagem de serem mais exatos do que os da antiga navegação.
Passa a falar de um novo ponto, o mais provável, que serve para atenuar os erros cometidos nas observações, quando o horizonte se acha em más condições.
O ponto mais provável é de subida importância, pois dá uma aproximação da posição do navio nos casos em que os antigos métodos são absolutamente impotentes.
O orador mostra como se determina esses pontos graficamente e diz que pode ser finalmente determinado pelo cálculo.
Fala sobre as observações ao crepúsculo e à noite, estudo preliminar que deve ser feito por aqueles que quiserem adotar a prática dos novos métodos.
Diz ainda algumas palavras sobre as discussões provocadas em França pela descoberta dos novos métodos, entre partidários da nova e da antiga navegação, fazendo ver que tal divisão não tem razão de ser, porquanto os novos métodos não excluem os antigos, apenas devem ser preferidos em razão de sua incontestável superioridade em exatidão e segurança; apresenta mesmo o caso de falhar, por qualquer motivo, a confiança depositada nos cronômetros, caso em que torna-se necessário recorrer ao antigo processo de distancias lineares.
O orador termina fazendo votos para que seja adotada entre nós, a exemplo da França, a nova navegação astronômica.
O numeroso auditório, apreciando devidamente o serviço prestado pelo orador, o aplaudiu como mereceu ao terminar a conferência.”.
Localização
- Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 08 mai. 1878. Anno 57, n. 128, p.2 (resumo). Capturado em 28 jan. 2026. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/DocReader/364568_06/18358
Ficha técnica
- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.
- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.
Forma de citação
Conferência Popular da Glória nº 235. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 26 fev.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=818
Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz – (http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br)