Conferência Popular da Glória nº 121
Data: 11/04/1875
Orador: Augusto César de Miranda Azevedo
Título: O darwinismo, seu passado, seu presente, seu futuro.
Aviso, íntegra ou resumo: Íntegra
Texto na íntegra
“Minhas senhoras, meus senhores.
O meu primeiro dever subindo a esta tribuna é pedir-vos que principieis desde já a oferecer-me a vossa benevolência, desculpando a demora que tive, fazendo, involuntariamente, esperar um auditório tão ilustrado.
Se volto a esta tribuna, se venho novamente ocupar a atenção de pessoas tão inteligentes, com um ponto de estudo de ciências naturais, é porque de há muito estou convencido que é pela meditação perene, pelo cultivo constante desse ramo dos conhecimentos humanos, que a instrução popular, grandeza das nações, se há de elevar no século atual, chamado por Haeckel, o século das ciências naturais; acreditando pois na grande utilidade dos conhecimentos positivistas, volto para falar-vos d'essas ciências.
Tratarei do darwinismo e da doutrina, evolutiva dessa teoria que ocupa atualmente a atenção de todos os sábios da velha Europa, e dos Estados-Unidos e que infelizmente é quase desconhecida entre nós.
Anima-me a vir ocupar a vossa atenção, a convicção profunda que tenho de assim contribuir para o aperfeiçoamento dos estudos e da instrução popular no Brasil. Confrange-se-me o coração sempre que cuco de pessoas, que dizem-se habilitadas em ciências naturais, a pergunta, que revelia completa ignorância sobre esta matéria: — quem foi Darwin? O que significa esta teoria? E eu vos referirei com mágoa que ainda ontem um colega, distinto por sua inteligência e por sua Literatura, me perguntava quem era Darwin e o que significava essa doutrina!
Se, pois, na classe medica, se n'aqueles que de alguma maneira devem estar a par das ciências naturais, existe tão grande ignorância, que muito é que na classe dos bacharéis em direito, dos graduados em teologia e outras ciências, haja completa ignorância sobre a teoria darwinista?
Eu ouvi já, com pesar, desta mesma tribuna um orador dizer que “o Darwinismo era uma teoria que nem merecia as honras de tese”. Decidir por essa maneira uma questão que preocupa as mais altas inteligências de todo o mundo, é revelar desconhecimento absoluto da matéria, e inqualificável leviandade de crítica científica.
Eu reconheço que uma das causas que mais tem contribuído para a ignorância da teoria darwinista, para até hoje como que haver um sequestro dessa doutrina científica, é o predomínio de certas ideias teológicas e ortodoxas; acredita-se que essa questão afeta de uma maneira profunda a. crenças religiosas que recebemos de nossos avós, e que contribuo para toda espécie de subversão dos princípios da moral. Mas, senhores, no estudo da teoria darwinista nada temos que ver com a religião. É um erro profundo, um erro que sempre tem prejudicado a ciência, querer-se essa aliança heterogênea, sem razão de ser, entre a ciência e a religião produtos de dois fatores diferentes - a razão e a fé.
Deixemos que cada uma caminhe pelas trilhas que lhe traçaram essas duas forças: os religiosos aceitaram as ideias que receberão de seus pais ou das luzes de sua fé; outros seguirão os princípios das ciências positivas, que hoje constituem a primeira feição dos conhecimentos do século XIX.; pertencendo a este grupo caminharemos com passos seguros na estrada científica, da interpretação real dos factos pelo estudo das leis da natureza. Mas para que os meticulosos não deixem de estudar a doutrina evolutiva, sempre lhes direi que Huxley, um dos naturalistas mais distintos do século atual, um daqueles que contribuiu para fundar o darwinismo, demonstrou que a ideia da criação simultânea de Cuvier, a que se opõe a doutrina evolutiva, não só estava em contradição com os fatos, mas com a Bíblia.
Já vedes que não ha grande razão para que os teólogos queiram levantar-se contra o triunfo das ideias darwinistas. Não pretendo, porém, de maneira alguma confrontar o darwinismo com a religião, nem expor a interpretação dada por essa teoria aos fatos que se ligam a algumas crenças religiosas.
Senhores, a teoria darwinista, exclusiva de história natural, já fora prevista por alguns sábios antigos. Nos livros esparsos de vários filósofos naturalistas, encontramos os primeiros germens, os primeiros ensaios dessa teoria.
Vejamos, porém, antes, o que entende-se por darwinismo?
O darwinismo, como diz Haeckel, não é mais do que um fragmento, uma parte dessa lei geral da interpretação dos fatos universais; defini-lo-ei, portanto, assim: a teoria genealógica que sustenta que todos os organismos extintos, existentes, futuros, e vegetais ou animais derivam-se cie um pequeno número de tipos antepassados, excessivamente simples e transformados por uma evolução ou metamorfose gradativa por meio da seleção natural.
As quatro leis fundamentais desta doutrina, excluindo as ideias das criações simultâneas adoptadas por Cuvier, que por tanto tempo reinarão na ciência, são o resumo e síntese dessa teoria que todos os dias encontra novas demonstrações a favor dos princípios que sustenta. Podem ser formulados do seguinte modo: 1ª luta pela existência, 2ª variabilidade das espécies, 3ª hereditariedade e 4ª seleção natural.
Antes de entrar no desenvolvimento de cada uma dessas leis, permiti que, pedindo luz à história, eu vos mostre quais foram os antecessores e os contemporâneos de Darwin, para que, tomando esclarecimentos nesses factos históricos, possa predizer, propheti.ar o futuro do darwinismo.
Uma das bases mais seguras do darwinismo é por certo a paleontologia, o estudo dos fosseis, quer animais, quer vegetais, ciência, por assim dizer fundada por Cuvier, um dos maiores adversários do darwinismo. Pelas ideias falsas que por tanto tempo prevalecerão a respeito dos fosseis, por acreditar-se que eram eles meros brincos da natureza, lusus natura, nisus formativus, vis plástica, ensaios das forças da natureza para formar organismos e esboços reprovados, por essa ignorância explica-se o aparecimento da doutrina evolutiva só neste século.
Percorrendo-se, a lista dos eminentes sábios da antiguidade, esses homens que com tão maravilhosa previsão e proficiência, descobrirão tantas teorias, tantas doutrinas que as ciências positivas dos séculos modernos têm confirmado, apenas se depara com um nome, o do fundador da escola eleatica, afirmando a ideia menos absurda acerca dos fosseis que nada mais eram do que vestígios de antigas existências.
Depois de Xenophones de Colophonte, apenas em Aristóteles, esse gênio assombroso, que, dominando toda ciência antiga, chegou a influir sobre a dos séculos modernos, vê-se algumas ideias que tenham relação com a teoria evolutiva e genealógica do darwinismo.
Durante a idade média os vestígios fosseis erão considerados como atestados de uma raça gigantesca anterior ao homem, e nessa crença errônea permanecerão sábios e povo até quase este século.
É verdade que Bernardo de Palíssy no fim do século XVI perante “todos os doutores de Pariz sustentou que as conchas, os ossos e outros objetos fosseis, erão na realidade restos de existências anteriores, despojos de corpos organizados, e emprazou toda a escola de Aristóteles para destruir suas provas”. As descobertas deste imortal filho do povo e do trabalho, foram quase esquecidas e só em 1690, Agostinho Scilla as reviveu e sustentou-as com grande entusiasmo a ponto de chamar a atenção de Leibnitz. Ganho incalculável de terreno foi para esta doutrina o nome do grande Leibnitz, que por prestígio seu, adiantou-lhe o triunfo de muitos anos. Com efeito d'aí em diante numerosos sábios se ocupam com as investigações dos fosseis e aparecem trabalhos notáveis. Leibnitz por uma verdadeira inspirarão filosófica, diz que “os homens ligam-se aos animais, estes às plantas e estas aos fosseis”. Acreditando em uma lei de continuidade para todos os seres, considera-os, como extensa cadeia cujos elos estavam tão estreitamente reunidos, que era impossível traçar os limites de um e outro. Levado ainda pela lógica de sua razão este sábio chegou a profetizar a descoberta imortal de Trembley.
Sobre estes factos o naturalista Bonnet criou a sua celebre escala continua dos seres, na qual, cem auxílio das espécies intermediárias ou passagens, supôs um plano único de estrutura através de todas as gradações orgânicas por meio de uma só linha.
Nessa época havia como que uma inquietação de todas as inteligências, já não era suficiente a cosmogonia mosaica, todos procuravam melhor interpretação para os factos, havia por toda a parte sintomas precursores de uma grande revolução científica. Maillet e Robinet em França, bem que não possuírem ainda dados positivos, esboçavam as primeiras ideias sobre a transformação de todas as espécies. O primeiro explicava essa evolução, pouco em harmonia com a ciência atua., bem como Robinet, que ensinava a gradação natural das fôrmas do organismo. Um nome cheio de merecimento veio trazer grande impulso às ideias evolutivas em zoologia; naturalmente já sabeis que me refiro a Buffon.
Não pretendo demorar-me no estudo de todas as suas obras, nem traçar minuciosamente sua biografia, tão bem sabida deste auditório; peço atenção apenas para a parte relativa à série de considerações apropriada à doutrina evolutiva, Estudando a influência do clima, da alimentação e da domesticidade, Buffon traçou um quadro admirável acerca da degeneração dos animais. Arrastado pela força irresistível da verdade, Buffon admitiu a mutabilidade das espécies, e embora em algumas ocasiões, parecesse esquecido destes princípios, apresentou argumentos tirados de sua observação em favor desta lei do darwinismo.
Senhores, repousemos um instante para contemplar Lamarck, esse talento admirável, esse sábio naturalista que deve ser considerado o verdadeiro fundador da teoria evolutiva.
Lamarck em 1801 tornou conhecida a sua doutrina, cujas últimas consequências ficarão consignadas em sua importante obra Philosophia zoológica, uma das contribuições mais brilhantes em favor da doutrina mecânica da natureza.
Profundo botânico e zoologista eminente, não satisfazia-se em tomar os factos isolados, procurava-lhes as causas eficientes e a ligação natural de acordo com a sua interpretação positiva. Generalizando a soma de conhecimentos particulares, Lamarck traçou de uma maneira que surpreende, as mais ousadas proposições, hoje confirmadas pela ciência. Estabelecendo a descendência e evolução progressiva dos organismos, do mais simples para o mais complexo, reconheceu que só erão regulados pelas forças físico-químicas, da mesma maneira que os corpos inorgânicos. O homem considerado de acordo com sua doutrina ligava-se aos mamíferos superiores por intermédio dos quadrumanos, e pela primeira vez, com coragem, sustentou a existência do homem-macaco....
E este, senhores, justamente um dos pontos, à primeira vista, mais delicado do darwinismo. Sei como ordinariamente é recebida esta proposição, que encontra quase sempre o riso impensado para criticá-la sem exame. Os adversários da doutrina evolutiva, e os levianos tomam superficialmente esta proposição destacada, e procurando provocar o riso e o ridículo julgam ter alcançado vitória. Oh! mas certamente é uma vitória que bem pode ser comparada às de Pyrrho ...
Deixemos estas digressões, consignando, contudo, aqui as palavras de Huxley ao bispo de Oxford, em polemica sobre este assumpto. Disse aquele profundo naturalista que: “preferia mil vezes descender de um animal que se aperfeiçoava do que de um homem que ocupava sua inteligência em combater a investigação da verdade”.
Fazendo minha essa resposta, acrescentarei com Claparède, prefiro descender de um macaco aperfeiçoado antes do que de um Adão degenerado!.... Lamarck superior às ideias de seu tempo, sustentou essa doutrina, baseado nas leis do hábito e da hereditariedade.
Raciocinando sobre essas bases, explicava o maior ou menor volume de certos órgãos desenvolvidos em alguns seres pelo hábito de mais ou menos exercício, a que erão sujeitos, modificações essas que se transmitiam pela herança. Havia talvez neste sistema alguma cousa de exagerado na importância que ligava Lamarck a estas duas forças, e por aí talvez possa ser comparado ao celebre devaneio filosófico de Schopenhauer. As obras do grande naturalista francês não foram devidamente apreciadas por seus contemporâneos, e alguns homens eminentes que sustentavam as mesmas ideias, como Goethe, nunca citarão os seus trabalhos; outros, como Lyell, chegarão a ser contrários ao homem que sustentava a doutrina pela qual combatiam. Como que uma indiferença geral aniquilou a teoria da descendência de Lamarck, o qual só chegou a conquistar o respeito e a consideração dos sábios por outros escritos de zoologia como a sua Histoire des animaux sans vertèbres. Mas, senhores, nessa época já se reuniam os elementos sólidos e sérios que haviam de dar ganho de causa á escola evolutiva, e os seus próprios adversários concorriam para estabelecer-lhe as mais firmes bases, como Cuvier.
Antes de historiar as lutas havidas entre este grande homem e Geoffroy de Saint Hilaire, antes de tratar da influência perniciosa que ele exerceu contra a teoria evolutiva da descendência, rapidamente direi o estado da anatomia com parada e a maneira porque ela também auxiliou a escola da interpretação mecânica da natureza.
A mesma incerteza e o mesmo absurdo de ideias que existiam em relação á paleontologia, dominavam grandemente a anatomia comparada, que talvez não merecesse o título de ciência senão posteriormente a Cuvier.
A verdade positiva e cientifica dos fatos, arrancava todos os dias revelações preciosas de homens eminentes. A ideia, da analogia de estrutura dos organismos animais, derivados de um modelo primitivo e geral, já tinha adeptos entre os representantes da anatomia comparada. Camper demonstrava “a analogia admirável, que se encontra entre a estrutura do corpo humano, e a dós quadrúpedes, dos pássaros e peixes”. Perrault, Daubenton, Belon e outros ofereciam trabalhos parciais de grande importância. Vicq d'Azyr é dominado pela preocupação constante, dos pontos semelhantes entre os esqueletos humanos e de outros animais. Essa preocupação revela-se em todos os seus escritos, sustentando esse sábio “que a natureza procede sempre de acordo com um modelo primitivo e geral, do qual se afasta com dificuldade, e do qual existem vestígios por toda a parte; esses caracteres existem impressos em todos os seres, revelando a constância do tipo e a variedade nas modificações”. Era este o terreno mais ou menos exato em que se achavam as questões cientificas que viam novos horizontes nas descobertas geológicas de Pallas, de Deluc, de Saussure, de Werner e Cuvier.
Que importa que na França, apesar de todos estes materiais preciosos, só dois homens combatessem pela verdade, contra adversários do covado de Cuvier l
Nos trabalhos e nos esforços deste grande homem, contra as ideias de Lamarck e St. Hilaire, se encontram imensas provas em favor delas; e essa convicção será a vossa se lerdes com atenção e critica os trabalhos e a vida, de G. Cuvier.
Inteligência privilegiada, compreendia uma grande esfera de atividade, de sorte que em quase todos os ramos das ciências naturais tinha alcançado um lugar elevado por suas investigações e descobertas.
Em zoologia refundiu a classificação de Linneu, e precisou a natureza de muitos organismos inferiores, em geologia fundou a sua celebre hipótese das criações sucessivas, e das catástrofes periódicas, que durante muito tempo teve domínio exclusivo na ciência morfológica.
Fundando, porém, a paleontologia, veio, com outros princípios por ele demonstrados em anatomia comparada, fornecer os melhores argumentos para Lyell e outros, contra sua ortodoxa hipótese.
A luta travada entre Cuvier e a escola evolutiva foi renhida, graças ao entusiasmo e dedicação de Geoffroy de St. Hilaire, contemporâneo e continuador das ideias monísticas de Lamarck. Afastava-se um pouco deste naturalista na explicação que dava para as modificações orgânicas, as quais fazia depender principalmente dos meios ambientes, como os climas, e sobretudo das variações atmosféricas.
Infelizmente para o progresso da humanidade, a autoridade do nome de Cuvier e o seu prestígio absoluto acabrunhavam todos os talentos, de sorte que por isso demorou por longo tempo a marcha vitoriosa da doutrina evolutiva.
E se ainda fosse mister a demonstração do quanto é pernicioso o poder absoluto, em qualquer ramo do viver social, estava a falar bem alto este fato.
Em duas memoráveis sessões da Academia de Ciências lutaram esses gigantes da ciência; Geoffroy de St. Hilaire, sustentou com o maior brilhantismo os golpes dos adversários, e embora a razão e a verdade estivessem de seu Lido, o vencedor do dia foi o Barão de Cuvier!... Essas datas importantes foram 22 de fevereiro e 19 de julho de 1830.
Tinha-se, porém, conseguido um sucesso notável com a publicação das ideias monísticas, e com a difusão pelo povo dos seus princípios; por assim dizer estava ganha a causa da doutrina evolutiva, pois tinha ela a seu favor a força mais poderosa da sociedade, aquela que vence todos os prestígios e assoberba todas as influências — o povo....
Demais, senhores, patenteava-se com toda a evidencia a verdade eloquentemente proferida pelo imortal historiador dos Martyres da liberdade: vencedora ou vencida, sempre caminha a onda da ideia, eis o que salva a humanidade. Assim é que Goethe na Alemanha recebia com maior júbilo e tinha como sucesso de maior importância a revolução cientifica de 1830, do que o movimento político que nesse ano transformou o governo francês.
E ao falar-vos deste astro radiante, cabe-me o dever de contar a parte ativa que assumiu na fundação da doutrina monística e dizer-vos os seus títulos como um dos seus precursores. Goethe não tem a cingir-lhe a fronte só os louros literários, e as flores da poesia, não foram as únicas que o seu engenho cultivou. Compreendeu ele a superioridade dos estudos positivos, e dedicou-se com ardor às ciências naturais; embora não fosse devidamente considerado pelos sábios e seu tempo, hoje a justiça da história cercou o seu nome do prestígio de um grande naturalista. No seu livro Metamovphoses das plantas, Goethe estabelece os germens de suas convicções monísticas que desenvolve mais tarde, e para cujo triunfo concorre com a grande descoberta do osso intermaxilar no homem, que o possui à semelhança de outros mamíferos. Ligado com Geoflroy de St. Hilaire, o seu último escrito ainda foi em prol da doutrina evolutiva; poucos dias antes de morrer Goethe escrevia sobre os princípios de filosofia zoológica, e aí estudando as tendências de Cuvier e de St. Hilaire, resumia e historiava toda a luta havida entre os dois esforçados paladinos.
Goethe não exerceu, contudo, a influência que poderia ter tido; pois embora seguidor das mesmas ideias que seu compatriota Lourenço Oken, nutriam antipatia entre si, de sorte que por essa razão vivendo afastados não puderam prestar os serviços que se podia esperar dos seus estudos e saber.
Antes de Oken, já Gottfried-Treviranus de Bremen sustentava as ideias monísticas da natureza.
Em sua Biologia da natureza viva, dizia que toda “a forma viva pôde ser produzida pelas forças físicas de dois modos, ou originando-se da matéria amorfa, ou modificando-se de uma forma preexistente”. Treviranus dá uma grande importância aos zoophytos, “formas primitivas d'onde provém todos os organismos das classes inferiores por desenvolvimento gradual”. Para este naturalista os indivíduos e as espécies cresciam e morriam, não sendo a morte das espécies mais que a sua degenerescência, ou metamorfose em outras espécies” também combatia as catástrofes diluvianas da geologia.
Pelo que já vos disse a respeito de Buífon, vedes que Treviranus com a sua degenerescência, para explicar a variedade das formas, repetia a doutrina daquele naturalista. Depois de Treviranus e gozando maior celebridade, Oken fundou a sua teoria da substância colloide primitiva, que nada mais é que o protoplasma da ciência atual. Esta substância, chamada urschleim era um composto albuminoide, viscoso que, segundo Oken, adaptava-se a todas as condições e a todos os meios, dando lugar a maior variedade das formas.
Esta substância aparece sub o aspecto de miríadas de pequenas vesículas, e constitui os infusórios, princípio de todos os organismos mais complexos, quer vegetais quer animais. As propriedades destes infusórios e o papel que eles representam na natureza, são em tudo idênticos aos das células da biologia moderna. Abraçando estas ideias, naturalmente Oken, filia-se aos seguidores da doutrina evolucionista, e ele o afirma quando diz “o homem não foi criado, mas desenvolveu-se”.
Desde então sucedem-se os nomes dos homens notáveis, dos naturalistas conscienciosos que trabalhão em acumular provas a favor da doutrina evolutiva.
Na Alemanha Leopoldo de Buch em geologia, Bôer na zooloogia, Schleiden, ünger em botânica, Carus, Schaaffhau sen e Büehner, em morfologia, antropologia, ou em filosofia natural, Augusto-Schleicher em filologia, são os luzeiros que conduzem a inteligência para a verdade da interpretação mecânica da natureza, a qual tem em E. Haeckel um dos mais ilustrados representantes.
A Inglaterra, porém, foi a pátria do homem que, por assim dizer, reunindo todos os elementos anteriores, por sua inteligência ilustrada comunicou à doutrina evolutiva o cunho científico e positivista que hoje possui, baseada na soma enorme de factos e nas leis que com tanta felicidade descobriu; mais algumas palavras, e me ocuparei com esse grande revolucionário científico. —CARLOS DARWIN.
Neste país, como que todos os elementos se achavam dispostos para o berço do darwinismo; aí estavam homens celebres que tinham combatido com vantagem as ideias teleológicas da escola bíblica, cujo chefe parecia ser Cuvier. Entre todos, avulta Carlos Lyell, que destruiu completamente as hipóteses mosaicas de Cuvier, das criações sucessivas e repetidas catástrofes.
Na época em que parecia mais solida a influência de Cuvier, e que seus entusiastas vitoriavam-no pelo pseudo-triunfo alcançando sobre Geoffroy de St. Hilaire, em 1830 Lyell nos seus Princípios de Geologia, demonstrava os absurdos e erros das ideias aceitas em geologia, e fundava, demonstrando a sua celebre doutrina da evolução natural da terra.
As modificações que ainda hoje se passão a nossos olhos, aquelas que a história da humanidade registra, são suficientes para nos darem ideia de todas as formações das camadas terrestres, desde as altas cadeias de montanhas até os mais profundos vales. Pela disposição das jazidas terrestres, todas elas com os seus fosseis apropriados, pela evolução progressiva do seu aperfeiçoamento, Lyell mostrou o nenhum fundamento das hipóteses de Cuvier.
Deixando as grandes catástrofes, as erupções e terremotos sobrenaturais, apelou para o processo das leis naturais, e fez entrar, com demonstrações positivas, o tempo como um dos fatores indispensáveis para essa criação; desde então o incomensurável dos períodos geológicos foi uma verdade científica que contribuiu grandemente para a marcha da inteligência humana. No terreno morfológico, na geologia estava destruída a interpretação teleológica da natureza, e em bases firmes ostentava-se a doutrina evolutiva.
Agora, senhores, vejamos em uma pequena digressão que papel é que os religiosos, filiados às lições das criações simultâneas e catástrofes repetidas querem fixar para o Criador. É reduzi-lo mais ou menos a um caprichoso omnipotente, que por um brinco, por desfastio forma organismos vegetais e animais, para logo, arrependido de sua obra imperfeita, suprimi-los e destrui-los. Decorrido certo período volta ao seu antigo passatempo, e forma novas espécies, novos indivíduos, conservando, contudo, um ou outro que agradou-lhe por sua elegância ou qualquer outra razão.
Dizei-me, não é amesquinhar esse próprio Ente que querem engrandecer, e em cujo nome combatem a doutrina evolutiva? Ah! senhores, é que esses adversários o que combatem é a civilização e a ciência, não querendo render-se à própria evidência, porque Huxley já demonstrou que a hipótese de Cuvier está em contradição com a Bíblia, o livro sagrado que lhes serve de lábaro.
Continuando no assumpto de minha conferência, direi que desde então multiplicaram-se as investigações em todos os sentidos, vieram as escavações geológicas na Europa e na América, e surgirão milhões de provas a favor da doutrina darwinista.
Nomes dos mais gloriosos apareceram a favor da doutrina que todos os dias ganha terreno, Naudin, Lecoq, Omalius d'Halloy, Forbes, W. Herbert, Grant, Freke, Hooker, Huxley, Herbert Spencer e tantos outros, por obras imortais fundaram definitivamente a nova era cientifica, que é dominada pela grande figura de C. Darwin, e creio que julgareis como eu, senhores, interessante um rápido esboço biográfico do grande naturalista cuja teoria vamos examinar.
Carlos Robereo Darwin nasceu a 12 de fevereiro de 1809, em Shrewsbury, e tem hoje 65 anos. Tendo 17 anos de idade encetava sua carreira universitária em Edimburgo, passando logo depois para Cambridge. Em 1831, tendo 22 anos, fazia parte de uma expedição científica enviada para estudar a América do Sul. Durante 5 anos C. Darwin observou o novo continente, e a relação de sua viagem a bordo do Beagle é de uma leitura muito atrativa e interessante sob o ponto de vista puramente científico; por aí como que se vê a marcha da inteligência de Darwin para a fundação de sua doutrina. A formação dos recifes de coral e a sua origem, a vida dos cirrhipedos e outros muitos pontos receberão dos estudos de Darwin viva luz, e a interpretação dos factos foi sempre de acordo com as leis naturais.
Na América, três grandes fenômenos impressionaram principalmente Darwin:—a sucessão e substituição de espécies muito vizinhas, à medida que vai-se do norte para o sul, — o parentesco e semelhança das espécies que habitam o continente e as ilhas do litoral, bem como a variedade das do arquipélago de Galápagos, e finalmente os estreitos vínculos de relação existentes entre os mamíferos edentados e roedores contemporâneos, com os fosseis das mesmas famílias. “Nunca se esquecerá, diz ele, da surpresa que teve ao desenterrar os destroços do tatu gigantesco análogo ao tatu vivo”.
De volta à pátria sentia sua saúde alquebrada por tantos esforços, e, felizmente para a ciência e para a humanidade, pôde Darwin retirar-se da vida de Londres e ir viver em sua propriedade de Down, no condado de Kent. Aí, recuperando a saúde, entregou-se à série de suas meditações, e a um cogitar seguido e interrompido nas leis naturais, acumulando uma soma extraordinária de factos em favor de sua doutrina já esboçada bem que inédita. Talvez ainda delongasse a sua publicação se não fosse o facto decorrido com outro naturalista inglês Alfredo Wallace. Como todos os iniciadores de uma nova seita científica ou religiosa, se retirara Darwin para a solidão, onde vivia a aperfeiçoar sua doutrina; aí foi interrompê-lo Alfredo Wallace seu compatriota, e que também se impressionara menos criaturas novos por fenômenos que presenciara nas ilhas do arquipélago da Sonda.
Tendo quase que as mesmas ideias que Darwin. pedia-lhe que enviasse a Lyell a comunicação de suas opiniões para serem publicadas; passava-se isto em 1858.
Caráter elevado e honesto como soem ser todos os sábios Darwin tratou de dar publicidade aos trabalhos de Wallace' embora tivesse escrito desde 1814 as mesmas considerações que por um escrúpulo de modéstia reservara inédito. Lyell e Hooker, porém, tenham ciência das opiniões do grande Darwin, e aconselharam-no para que conjuntamente com o trabalho de Wallace publicasse em resumo há sua doutrina o que deu-se nesse mesmo ano, aparecendo no ano seguinte a monumental obra da Origem das espécies, traduzida para todas as línguas, exceto para a nossa.
Senhores, lamentemos esse fato; enquanto o romance escandaloso e absurdo ainda não saiu dos prelos europeus e já conta mil traduções e versões portuguesas, um livro sério, uma obra do valor desta, não tem sequer uma tentativa de tradução!...
Embora queiram alguns que C. Darwin não expusesse aí claramente a sua teoria, a verdade que ressalta da leitura atenta que fiz é contrária a esse pensar, e a doutrina da seleção ficou perfeitamente fundada; às obras posteriores foram o desenvolvimento, o maior número de fatos a favor, e final- mente a conclusão; porém a doutrina, essa existiu, e foi uma data gloriosa para a ciência humana essa do primeiro livro de Darwin.
As conclusões, aplicadas ao homem foram calculadas e prudentemente deixadas para mais tarde, e só em 1871 apareceram formuladas por Darwin na sua obra a Descendência do homem.
Quisera ser mais minucioso e demorar-me-ia com prazer sobre estas questões da vida de um dos maiores vultos da ciência humana, o tempo porém, corre e não quero mais abusar do auditório, por isso tratarei de outros tópicos no desenvolvimento das leis darwinistas.
Darwin foi no terreno zoológico e botânico o revolucionário que produziu a mesma reforma que Lyell na geologia, assim baqueou nas ciências naturais a absurda hipótese teleológica sustentada por Cuvier e ultimamente por Luiz Agassiz.
Desde que a doutrina de Darwin foi conhecida, desde que os fatos por ele interpretados aparecerão explicados pela luz de uma crítica positiva, levantou-se grande celeuma, grande alarido no campo contrário, os homens da autoridade, do tradicionalismo levantaram-se contra a nova teoria. As duas doutrinas se extremarão e ferirão lutas tremendas; de um lado estava a escola teleológica, dualística que sustentava a fixidez das espécies, a criação simultânea e destruição sucessiva das gerações, tendo à sua frente L. Agassiz; de outra parte estava a maioria dos naturalistas com Darwin, que ensinava o como e o porque os organismos descendiam de um pequeno número de tipos universais antepassados, por meio da seleção natural. Darwin procurou basear a sua doutrina em fatos positivos, e aproveitou quer os observados por si próprio, quer os sabidos por todos, que adaptou à sua teoria; assim destruí a acusação daqueles que lhe diziam que sua doutrina seria uma hipótese engenhosa, porém nunca uma opinião com o cunho científico da verdade.
Sim, senhores, esbocemos as suas quatro leis que sintetizam e concretam toda a teoria darwinista, como vos disse ha pouco.
A primeira lei, aquela que por sua maior extensão talvez, e por sua ininterrompida execução nos desperta logo a inteligência é a luta pela existência, struggle for life como expressivamente chamou Darwin.
Acompanhai-me, vede este espetáculo que se apresenta tão calmo na aparência, onde a paz, a suavidade e a harmonia parecem ter seu domínio; pois bem, a mais tremenda luta se ostenta aí de mil variadas formas! Os combates que aí se ferem, as dilacerações terríveis que aí se passam, só podem ser contados pelo número de organismos vivos que aí existem.
É o vegetal que procura aniquilar o outro que lhe fica ao pé; para medrar um é necessário que definhe outro este subtrai aquele uma quantidade de calórico, de luz de humidade, de azoto ou carbono, por isso este nutre-se enquanto aquele decompõe-se. Mais adiante é o animáculo devorado e preza de outro que precisa de seu elemento para viver; subi sempre em escala progressiva, do verme ao pássaro, deste a ave de rapina, generalizai e vede essa luta propagando-se entre todos os seres organizados até o homem, o rei da criação, que propaga e continua essa concorrência vital até seus semelhantes.
Falando sobre este ponto, consenti que repita as eloquentes palavras com que Büchner começou uma de suas conferências sobre o Darwinismo: “O solo sobre que estamos, diz ele, e no qual pisamos, nada mais é que o pó de milhares e milhares de gerações que nos precederão, e das quais descendemos”. Reconhecida e demonstrada a verdade desta lei esta por si explicado como naturalmente, e sem catástrofes, desaparecem e sucedem-se as gerações animais e vegetais.
Mas, senhores, já prevejo a objecção natural, que levanta- reis baseados na própria luta da existência, contra o darwinismo; formulareis a pergunta do porque em um momento dado não desaparece a vida, e não se aniquilam todos os organismos?
Para destruir e responder categoricamente a essa dúvida aí estão as outras leis darwinistas, tão positivas e gerais como a precedente, está o princípio da variabilidade das espécies, da hereditariedade e da seleção natural.
Senhores, esqueci-me de dizer há pouco, da palavra espécie, e de sua interpretação decorrem as discussões e nasceu a linha divisória das duas escolas, a teleológica e a darwinista. Sustentam os primeiros a imutabilidade das espécies e ainda é seu axioma o principio de Linneo - Species tot sunt diversa, quot diversas formas ab initio creavit inânitum ens, enquanto os partidários da evolução e do darwinismo, sem se ocuparem com as distinções escolásticas do que é uma espécie boa ou má, estudam e consideram os indivíduos, e pouco se importam com essas convenções artificiais.
Mas o próprio Linneu ensina que dois seres de espécies diferentes produzem um outro fecundo que não lhe é interior; Buffon pensa da mesma maneira, e atualmente sabe-se que híbridos provenientes do carneiro e da cabra e de outros demonstram a perfeita fecundidade destes organismos, e, portanto, a variedade das espécies; a fecundidade dos híbridos vegetais indefinidamente tem a sanção dos factos e a autoridade do nome de W. Spencer. Por essa propriedade de variarem as espécies, e pelas leis que decorrem também do estudo do darwinismo como a da adaptação aos meios, compreende-se como de um pequeno número de formas ou tipos antepassados provém por descendência toda a variedade de espécies que hoje possuímos. A lei da hereditariedade, a cada momento verificada pelo médico, nas heranças mórbidas, reconhecida e aceita pela crença popular que vê transmitirem os progenitores, as suas feições físicas, o seu caráter, e até as tendências aos seus descendentes, dá-nos a razão porque se transmitem essas variedades de tipos, que cada vez mais se acentuam e se afastam da origem primeira. Demais, o darwinismo estabeleceu o princípio que os indivíduos não produzem um ser seu igual, mas que produzem um organismo que lhe é análogo. Agora, senhores, cumpre-me tratar do princípio da seleção natural, o mais glorioso título de Darwin, que acentua e caracteriza a sua doutrina, que completa e explica satisfatoriamente a teoria evolutiva da descendência, já prevista e fundada por outros. E interessante saber que Darwin meditando profundamente nas suas opiniões, leu o livro admirável de Malthus, e impressionou-se com a lei que estabelece esse sábio do desenvolvimento das populações em proporção geométrica, e a proporção aritmética do desenvolvimento das substâncias próprias para a alimentação humana.
As lutas e as guerras que sucedem deste desequilíbrio, foram aplicadas à natureza em geral, e do poder modificador dessa concorrência vital proveio a lei da seleção natural de Darwin. Assim, diz ele, entre indivíduos da mesma espécie, oferece mais garantias de vitória, e, portanto, de vida, os que têm melhores recursos de adaptação ao meio em que vivem. Em um terreno árido e seco, de duas plantas do mesmo gênero, sucumbirá logo a que não tiver elementos para conservar a humidade, enquanto que viverá aquela cujas folhas forem ou mais rugosas ou revestidas dos apêndices apropriados para esta função. D'aí a vitória do exemplar mais perfeito, que depois cada vez separa-se mais do seu tipo primitivo e constitui, para os da escola dualística uma espécie nova, e para os darwinistas um indivíduo naturalmente filiado aos seus antepassados, e modificado, graças às leis e às condições que vos tenho rapidamente exposto.
Além disso, a anatomia e a fisiologia comparada fornecendo ao darwinismo luzes poderosas, davam-lhe a chave da explicação dos órgãos rudimentares em certos organismos; tão absurdamente interpretados pela escola dualística. Ainda outros raios brilhantes de luz são fornecidos ao darwinismo pela teratologia a ciência das monstruosidades, e a embriologia que demonstrando a identidade de origem e metamorfose de todos os animais, nos mostra o mais perfeito da escola zoológica passando por todas as formas inferiores que a doutrina da evolução assinala para antecessores do homem. E o que é mais admirável, é que esses fatos são em grande parte revelados por um dos mais sérios adversários do darwinismo, o Sr. Agassiz, que, contudo, arrastado pela verdade, deixa escapar a seguinte confissão: “É impossível distinguir-se e dizer-se se este crânio é de uma criança ou de um pequeno chimpanzé”! ...
De todos estes elementos expostos nasceu e ficou definitivamente fundado o darwinismo, que, como vos tenho dito, com Haeckel, é a coroação desse monumento admirável da escola evolucionista, e também ressalta o mérito do sábio inglês que generalizando e demonstrando com experiências os e observações fatos já expostos, por assim dizer a priori, por Lamarck e outros, deu um cunho positivista e científico a esta doutrina.
Assim ficou esboçado bem, que incompletamente, o passado histórico da doutrina evolucionista que pode ser considerado o passado do darwinismo, sabeis agora o seu estado atual vitorioso em toda a parte, e naturalmente profetizareis comigo o seu futuro qual seja a única doutrina positivista dos filhos do século XIX.
Mas, como vos ia dizendo, antes de deixar esta tribuna eu devo apontar uma das consequências práticas da teoria de Darwin que muito ha de interessar aos mais patrióticos e encanecidos estadistas.
Todo mundo grita que o gênero humano decai, que o homem de hoje não é o homem atlético e possante das eras passadas. Sabeis a razão disto? É pela aplicação da teoria de Darwin que a percebemos. Por todo mundo civilizado atualmente está grassando a preocupação do predomínio militar; e qual a causa dessa preocupação? A ignorância das leis de Darwin, na maneira por que são confeccionadas as legislações militares. Procuram para o exército os entes sadios, fortes, vigorosos e desprezam, deixam para constituir a família, para organizar a sociedade aqueles que têm alguns defeitos, que são fracos fisicamente. Qual a consequência desse fato? A consequência lógica e imediata de uma lei de Darwin da hereditariedade. Todos aqueles que forem robustos e sadios não podem constituir a família, porque as leis militares os roubam de seus lares para deixarem o sangue mais generoso e forte do pais nos campos de batalha, e são precisamente os débeis, o que tem defeitos físicos que hão de constituir famílias, e assim transmitirem a seus filhos, à sua descendência os germens desse raquitismo, dessa degeneração que todos os estadistas proclamam.
Pois não é muito mais sábio, muito mais prudente que em lugar de procurarmos por um labor constante dessas glórias militares que nada valem, que para nada servem, tratemos de formar o cidadão, uma sociedade forte, vigorosa e sadia, que nas horas de perigo toda ela será válida contra o inimigo de nossas liberdades? Não será muito mais vantajoso conformarmo-nos às consequências das teorias de Darwin do formularmos odiosas leis militares que que só servem para armar o despotismo e o capricho dos que governam?
Mas porque trago aqui, à barra de tão ilustrado auditório a seleção das espécies, a hereditariedade e todos esses fatos que parecem de pura especulação científica? É que no nosso viver prático, na nossa vida social, têm consequente e imediata aplicação bem como no estudo de todas as ciências naturais.
Eu desejava, se o tempo me não fosse tão escasso, apresentar-vos uma massa considerável de argumentos, não meus porque sou novel na ciência, porém dos sábios, na demonstração de cada uma dessas quatro leis. Cada uma delas é assumpto mais que suficiente para uma longa e profunda conferência de mestre. Se aqui venho fazer uma exposição tão rápida e imperfeita dessa doutrina; é porque além de me falharem os conhecimentos necessários, o gênero próprio destas conferências, a natureza mesmo delas estão me ensinando a trilha em que tenho marchado.
Quiz hoje convencer parte do meu auditório, aqueles que nunca ouvirão falar no darwinismo, que esta é uma matéria que nada tem de assustadora, de revolucionária ou de anti-religiosa, porém que é um ponto científico de história natural, que merece sério e refletido estudo de todos aqueles que amam o progresso do seu país.
Deveria deixar-vos com a convicção dessa verdade ou ao menos chamar a vossa atenção para tão importante assunto, fiz apenas o que cabia na minha fraca palavra para provar-vos que não há razão para que no ensino oficial de nossas academias seja banida do programa a teoria darwinista.
No Brasil, na América, quantos factos isolados, quantos fatos brilhantes estão ã espera de um Darwin para vir colecioná-los e registrá-los em favor dessa doutrina? Ainda o outro dia não nos ensinava Gerber que o Brasil era a parte mais antiga de todo o mundo, simplesmente pela aplicação das teorias geológicas de E. Beaumont que toda a Europa conhece? Não temos nós geólogos distintos que poderiam ter feito esse descobrimento? E se assim é, se o Brasil, principalmente o centro de Minas, é a parte mais antiga do mundo, por que razão nas explorações, no estudo da nossa natureza, não encontraríamos factos que de uma maneira esmagadora provassem a verdade do darwinismo?
Portanto, dizia eu, do próprio estudo das leis de Darwin ainda se pode tirar outras consequências para a educação da mocidade e para a felicidade dos povos. Nós sabemos que pela seleção natural e pelas outras leis de Darwin mais se aperfeiçoam quanto mais exercitados; um órgão ou uma faculdade; a história está cheia desses factos, que nos contão, que no Egito, onde a concentração de talentos, da habilidade e da ciência, em uma casta produziu um país, preza do despotismo e das classes privilegiadas, esse facto ainda repetido, em outros países e outras épocas, nos oferecem lição proveitosa quanto à divisão do trabalho e difusão de luzes por toda a população.
Vede, pois, quanto é grandioso e cheio de brilhantes resultados o estudo meditado dessas leis. Assim, a doutrina que muito superficialmente expus, deve ser a cogitação constante das nossas academias, do médico, do engenheiro, do jurisconsulto e até do teólogo, para que por ela possa talvez formar uma ideia mais majestosa da divindade.
Reconheço que expus francamente essa teoria. Se a vossa benevolência, se o critério de quem dirige estas conferências julgar conveniente maior desenvolvimento delia, se acreditar na utilidade prática, para a nossa mocidade, para o nosso povo o complemento dessa exposição e não encontrar quem queira de uma maneira mais brilhante se incumbir dessa tarefa, encontrar-me-eis de novo nesta tribuna, voltarei a ela para vos dizer aquilo que leio, aquilo que aproveito do estudo das obras dos mestres.
Como Newton, bem que eclipsado perante sua sabedoria, e sem querer comparar-me com aquele grande sábio, eu vos darei como ele aos que elogiavam suas obras: “Só apresento o resultado do estudo, sou como as crianças; nada mais fiz do que, ao pé de um oceano admirável, imenso, apanhar pequenas conchas; as mais preciosas, as mais custosas gemas essas lá estão no fundo desse oceano”.
Vinde, representantes da ciência, vinde colher essas gemas preciosas!
(Muito bem; muito bem. Aplausos prolongados.)
Localização
- Conferências Populares, Rio de Janeiro, nº 1, jan. 1876, p. 41-63. (na integra). Capturado em 1 set. 2025. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/docreader/278556/44
Ficha técnica
- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.
- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.
Forma de citação
Conferência Popular da Glória nº 121. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 3 jan.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=702
Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz – (http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br)