Conferência Popular da Glória nº 151.2

De Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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Data: 21/11/1875

Orador: Manoel Francisco Correia

Título: Direção do ensino. Importância da instrução nos destinos da humanidade. Convém não esquecer as ciências morais

Aviso, íntegra ou resumo: Íntegra

Texto na íntegra

“Não é sem satisfação que vejo completar-se hoje, com a 151ª, o segundo ano destas conferências, que têm continuado a realizar-se regularmente, graças à honrosa animação de S. M. o Imperador, e do ilustrado público desta opulenta capital.

É explicável minha satisfação diante do fato auspicioso de se ir radicando no Brasil uma instituição de que outros povos colhem tanta vantagem.

Fazem-se atualmente conferências, com proveito dos estudiosos, não só em nossas cidades mais importantes, mas também em outras de menor população

Elas auxiliam poderosamente o notável movimento que se vai operando no glorioso empenho de elevar o nível intelectual do país. Assuntos há que, menos próprios do parlamento, são, entretanto, dignos de ocupar a atenção nacional.

Esta tribuna, e as que semelhantemente se vão levantando no Império, abrem espaço para a oportuna discussão deles. O impulso, uma vez dado, é de presumir que não se extinga. Quando o solo é fecundo a boa semente não se perde.

Não sei por quanto tempo se manterá ainda esta tribuna em torno da qual estamos acostumados a reunir-nos.

Se ela emudecer, é crença minha que aparecerão outras. Poderá não haver a mesma regularidade no trabalho, mas confio que, ao menos, não haverá completa interrupção.

Oradores, que possam utilmente ocupar tribunas destinadas a conferências, nós os possuímos felizmente.

Aquela que agora vos falo foi ocupada, no primeiro ano de sua existência, em  que se realizaram 100 conferências, por 32 oradores, cujos nomes repeti na reunião de 22 de novembro de 1874. A esses nomes reuniram-se outros durante o ano que ora finda. São os seguintes, que apresento na ordem em que falaram:

Carlos Frederico Hartt, José Palmella, Carlos Victor Boisson, João Baptista da Silva Gomes Barata, João da Costa Lima e Castro, Francisco Ignacio de Carvalho Rezende, Antonio Herculano de Souza Bandeira Filho, Antonio José Pereira da Silva Araujo, Manoel Francisco Correia Junior, Galdino Emiliano das Neves, Manoel Hilario Pires Ferrão e Gustavo José Alberto.

Não posso deixar de agradecer o seu concurso a bem de uma causa só própria para merecer o aplauso da nação.

Acompanhando-os, quanto posso, em seu louvável empenho, passo a ocupar-me com um assunto, que me parece digno de vossa meditação.

Disse Leibnitz:

“Dai-me a direção do ensino durante um século e eu mudarei a face do mundo.”

Proposição é esta que desperta o mais refletido exame para se lhe poder medir todo o alcance, e avaliar a exatidão das palavras.

A primeira verdade que ressalta daquela profunda sentença é a importância do ensino relativamente aos destinos da humanidade. Se nada valesse a instrução para a sorte dos homens, como por meio dela se poderia mudar a face do mundo? Mas a muito que as ideias concorrem para o bem-estar individual e geral é ponto fora de questão.

À sua direção obedecem os elementos físicos: de sorte que o maior ou menor aceto e fortaleza das ideias influi no progressivo desenvolvimento ou no atraso da sociedade. Tudo está em relação.

As ideias que dominam em um século explicam o papel histórico desse século. O que foi possível em um, porque deixou de sê-lo em outro? Porque, por exemplo, não podem hoje repetir-se as guerras das cruzadas? Mudou acaso o homem de natureza? Não; mudou de ideias. Se as ideias são boas, se os princípios em que assentão são sólidos, a sociedade progride. Se são falsas as ideias, produto de errôneos e fatais princípios, qualquer que seja o brilhantismo da fôrma que os revista, a sociedade ressente-se, e expõe-se às mais desastrosas consequências. Se um povo adquire ideias novas, tendo por fundamento a verdade, avantaja-se sobre outro que fica estacionário. Ao progresso nas ideias corresponde o progresso nos fatos. Um povo intelligente e laborioso, como o holandês, pode tornar prospero um solo agreste e conquistar ao mar terrenos que se convertem em elementos de civilização. Tristes exemplos opostos aí os estão fornecendo a história antiga e a moderna.

É, portanto, exata a proposição de que o estado da sociedade pode ser mudado no sentido que se imprimir ao ensino das gerações que surgem, e cuja Índole e espírito têm de ser formados no seio da família e nos estabelecimentos de instrução.

Sabeis que não são somente as ideias que produzem esta transformação. Pela força também se opera a mudança. É incontestável o influxo dos povos conquistadores sobre os conquistados. Quando a luta era ou é entre exércitos que representam duas civilizações, o choque traz profundas modificações, como as que operam no mesmo país as grandes revoluções provenientes de aspirações novas em frente de uma ordem de cousas decadente ou corrompida, quando as instituições não têm a precisa elasticidade para comportarem a transformação sem as lutas sangrentas que enegrecem a história. Neste ponto, já que cabe aqui uma observação toda nossa, o legislador constitucional do Brasil merece os maiores encomios. Sem ofensa da lei fundamental, e antes realizando no momento oportuno, uma vez que se tomem as precisas cautelas, reformas que ela mesma prévio, podem efetuar-se as modificações que as circunstâncias do tempo forem exigindo para o progresso da nação.

Mas notai a diferença que ha entre a transformação que se opera pelas conquistas do pensamento, e a que se realiza por meio da força.

É a diferença que ha entre a paz e a guerra.

As reformas conseguidas pela força deixam vestígios de sangue, espalham a viuvez e orfandade, e trazem ressentimentos que o tempo custa a apagar e desejos de vingança que não se extinguem facilmente.

As reformas obtidas pelo impulso das ideias, auxiliado pela elasticidade das instituições, podem trazer o descontentamento, mas não a dissolução dos vencidos, porque da lei triunfante passão a ser súditos os vencedores como os vencidos: a lei, igual para todos, a todos obriga da mesma maneira.

A historia contemporânea mostra de modo significativo como se traduz a vitória da ideia, e como se traduz a da força.

Em dois Estados da América existia ainda a instituição da escravidão, um ao norte, outro ao sul. Nos Estados Unidos da América do Norte uma guerra sanguinolenta e das mais porfiadas entenebreceu os horizontes daquele florescente país, e a liberdade dos escravos foi imposta de chofre, pela violência, na ponta da espada, no meio do luto e da tristeza, sem respeito aos profundos abalos da transformação súbita na organizacão do trabalho.

No império sul americano, a indispensável mudança de uma situação dolorosa para outra mais conforme aos ditames da consciência pública e aos generosos sentimentos do coração brasileiro, foi operada pela lei. de modo lento e gradual, exigindo, é verdade, paciência, filantropia, cuidado de todas as horas, benevolência para com os pais, sujeitos a um regime mais duro que o dos filhos; generosidade para com estes, para não lhes ser negado o amparo de que necessitam nos primeiros dias da existência; mas o sangue foi poupado, os abalos na transformação do trabalho são menores; e certos do sistema que ha de reger o futuro, e que ninguém procura embaraçar, todos nos vamos paulatinamente preparando para o dia de amanhã, cuja aurora, com o favor de Deus, ha de raiar festiva para todos.

Sei que há espíritos eminentes que pregão a legitimidade dos meios violentos para impor a povos estranhos melhoramentos que repelem e ainda recentemente, lendo a obra de Renan, Reforma intelectual e moral da França, vi que o distinto escritor, com abuso manifesto da superioridade do talento, baralhando a verdade e o erro, confundindo a colonização com a conquista, sustenta não haver nada de repugnante na sujeição de uma raça inferior por outra mais adiantada que se estabeleça no território daquela para o governar, percebendo ampla retribuição pelo benefício de tal governo.

“A colonização em grande, diz ele, é uma necessidade política de primeira ordem. O homem do povo é quase sempre entre nós um nobre deslocado: sua mão rude foi feita antes para manejar a espada do que a ferramenta servil. Lançai essa devoradora atividade sobre países que, como a China, provocam a conquista: cada um estará no seu papel.”

Não seria mais nobre missão civilizar a China sem escravizá-la? E não são de funesto alcance os sentimentos despertados na classe inferior da França? Quem ali substituiria aos que, pela força das coisas, tem de desempenhar na sociedade penosos misteres?

Embaraçado com os princípios reguladores da propriedade, Renan acrescenta:

“Os economistas enganão-se considerando o trabalho como a origem da propriedade. A origem da propriedade é a conquista e a garantia dada pelo conquistador aos frutos do trabalho em redor dele. Na Europa, foram os normandos os criadores da propriedade, porque no dia seguinte aquele em que esses bandidos possuirão terras estabelecerão para si e para todos sob seu domínio uma ordem social e uma segurança nunca vista até então”.

Eis ao que arrasta a sustentação de um falso princípio. Eleva-se a usurpação à altura do direito; glorificão-se os atos do usurpador para acautelar-se contra fatos idênticos aos que praticou; e apregoa-se uma doutrina de que se recuaria espavorido se fosse aplicada ao próprio país.

Com mais fundamento quer outro ilustre escritor que os melhoramentos, que os progressos da civilização reclamam, se consigam pelo aperfeiçoamento do mundo moral, e pelo benéfico influxo deste sobre o mundo físico.

É aspiração própria de um grande coração e de um nobre espírito: quando a força impera as paixões se exacerbam, e os instintos selvagens da natureza humana em sua expansão produzem cenas que envergonham a humanidade, pondo em relevo a.sua triste condição.

Mas essa aspiração não pode converter-se em realidade sem que as regiões do mundo moral sejam cultivadas com esmero, sem que nele se radiquem e frutifiquem as ideias que enobrecem a consciência, fortalecem a virtude e abrem espaçoso caminho para o cumprimento do dever.

Como chegar a esse resultado se for má a educação e a instrução dirigida pela falsa ciência que acredita dar realce ao homem separando-o do Criador, e colocando-o no primeiro lugar da matéria organizada, sem que, entretanto, lhe seja dado manter esse organismo que desaparece ao sopro da morte?

Como progredir se, ao influxo deletério de doutrinas errôneas, forem abalados os fundamentos da ordem moral, que protege todos os direitos, reconhece todos os méritos, proclama o valor da consciência e justifica a responsabilidade perante a lei vingadora do crime?

Vede, senhores, com quanta razão assegurava Leibnitz que a direção do ensino durante um século habilita para mudar a face do mundo. Severa lição para os governos que têm a seu cargo essa direção! Olhem eles descuidadamente para o magno assumpto, e não tardará que se façam sentir as funestas consequências de tal abandono. Severa lição para os pais que, tendo de escolher professores para os filhos, não attenderem ás qualidades que os distinguem, aos exemplos que dão!

Quem mais do que o Estado pode ter interesse em formar bons e prestimosos cidadãos? Quem mais do que os pais deve ter o desejo de educar os filhos de modo que perpetuem sua honrada memória? Pois tudo depende das ideias, dos sentimentos que se gravarem na inteligência e no coração da juventude. Ensinai-lhe o bem, e o homem caminhará pela estrada da virtude, devotando-se à família e à pátria. Deixai que nele se afrouxem os laços da moral, e não sejam reprimidas as paixões tempestuosas; dizei-lhe que é vacilante tudo que escapa à ação dos sentidos, que a matéria, se posso assim exprimir-me, é produto de si mesma; e mui diversas serão as consequências.

A direção uniforme do ensino durante um século é bastante para mudar a face. do mundo; mas a mudança pôde ser para o bem ou para o mal; tudo está na moralidade do ensino. Encaminhai-o direitamente; tereis o império da justiça, que é o domínio do espírito, e admirareis o infortúnio imerecido e resignado. Encaminhai-o de outro modo; tereis o império da força, que é o domínio da matéria, e admirareis o vício triunfante e às vezes aplaudido.

Do que tenho exposto parece poder concluir-se com razão:

1.° que muito preferível é procurar melhorar a sorte do mundo pela ideia, abandonando a força; e 2º que, admitida esta conclusão, é da máxima importância que a ideia represente a verdade e o bem. A educação, como já foi dito, é para o espirito o que o alimento é para o corpo. Se o alimento é bom aviventa e vigora o corpo, se mal, o corrompe e destrói.

A melhor direção do ensino é, portanto, uma questão substancial para a prosperidade dos povos. Não pode ser posta em dúvida a superioridade do povo, como a do homem, instruído e bem-educado sobre o que não é.

Se. destas considerações gerais passamos, para tornar a discussão mais proveitosa, a sua aplicação na cidade que habitamos, não temos grandes motivos de contentamento. Tem-se cuidado assaz no desenvolvimento do ensino das ciências físicas e naturais, tem-se cuidado pouco do das ciências sociais e morais. Não é isto indiferente em nenhum caso, e muito menos quando, como entre-nós, o ensino superior tem sido monopólio do Estado.

A aplicação da inteligência a ramos especiais dos conhecimentos humanos que se prendem ao estudo da matéria, com quase completa exclusão dos outros que se destinam a aprofundar a parte racional do homem, tem mais vastas e delicadas consequências do que pôde parecer a um exame superficial. As tendências para a aceitação absoluta do materialismo crescem. O ânimo dos alunos predispõe-se insensivelmente para receber como verdadeiros princípios em que buscam justificação doutrinas que vão muito além do que a exata apreciação das cousas lógica e razoavelmente autoriza. Outra, porém, e mais feliz é a predisposição do seu animo se o ensino abrange um circulo mais extenso e complexo, compreendendo tanto as ciências que apreciam a matéria, como as que se ocupam cem o espirito, que é o que pôde indicar vereda segura para o descobrimento da verdade, alvo procurado pela mente desprevenida e pela consciência reta. Convém completar o systema geral dos cursos superiores. É do confronto das doutrinas de escolas opostas que sai a luz para esclarecer o domínio interior do espirito, como do embate das eletricidades contrarias surge a centelha que ilumina a região exterior do espaço.

Se, abolido o monopólio do Estado, quando pode opor-se à escola a escola, á doutrina a doutrina, a situação a que me refiro, do predomínio dos estudos que entendem com a matéria, é o produto da atividade e energia de uns e da indiferença e fraqueza de outros, ainda assim o facto é grave, porque as consequências, em futuro mais ou menos próximo, recaem sobre toda a sociedade que sofre com o abalo, quanto mais com o aniquilamento dos elementos morais que a constituem; tal situação é ainda mais própria para excitar atenção se provém de atos dos poderes públicos.

A preferência por eles dada a uma parte do ensino superior a seu cargo pôde ser apreciada como um juízo que aponta o caminho da verdade no meio de doutrinas que aliás, quando exatas, não se repelem, antes se combinam na superior harmonia do legislador divino.

Considerados assim os factos por aqueles, e são muitos, que não costumam entrar no âmago das questões, não será de estranhar que a geração desta arte preparada procure em tempo traduzir os princípios que a dominam em atos da vida real; e a responsabilidade caberá não a essa geração, mas aquela que a formou.

Compreendeis, senhores, o alcance destas palavras.

Reconheço que essa preferência não é senão casual. Mas por isso não deixam de ser menos danosas as consequências que dela resultam. Uma nação, na qual a mocidade que cursa as aulas superiores, e é aquela que tem de encarregar-se um dia da direção dos públicos negócios, se deixa influenciar pelo materialismo intransigente, quanto mais pelo ateísmo, não por espirito de novidade e amor da polemica, mas por abraçar uma opinião convencida, vai em passo acelerado por um declive fatal. É impossível ter essa opinião convencida? Antes assim fora.

Para nós outros que vemos tanto na grandeza do universo e nas inalteráveis leis que o regem, como em pontos de relativa inferioridade, mas de inexcedível perfeição, a onisciência do Ente Supremo, o ateísmo é uma aberração. Porque não conhecemos a Deus senão em seus atributos; não negamos a sua existência. Porque não nos é dado apreciar a sua constituição não nos curvamos com menos reverencia diante de sua onipotência. Porque sofremos a dor, que faz apreciar a saúde e inspira o desejo de conservá-la, não nos reputamos vitimas da tirania, antes agradecemos a misericórdia que nos adverte para poupar-nos maior mal, e que abre ao coração humano os tesouros da caridade. Porque não somos deuses, como se a criatura pudesse ser igual ao Criador, não nos revoltamos contra o ato da criação, antes somos reconhecidos ao amor que nos permitiu a vida comum, concedendo-nos o prazer inefável de contribuir, à semelhança de Deus, embora imperfeitamente, para a felicidade de outros.

Combatemos também o materialismo ignaro e irrefletido como um produto falsificado da faculdade de pensar. Proclamamos a superioridade do entendimento sobre a força, e o império das ideias do bem e da justiça, da virtude e do dever, que dão leis, não à matéria, mas à consciência, leis tão obrigatórias que não permitem levantar o braço homicida ainda contra aquele que nos ofende e ultraja.

Mas ha quem explique tudo diferentemente, e é contra a generalização desses, a qual pôde ser favorecida pela direção que tiver o ensino, que protestamos. Damos o brado da sentinela vigilante em presença do perigo que pode crescer.

Por minha parte acredito cumprir um rigoroso dever: diz-me a consciência que procedo lealmente no interesse do futuro do Brasil. Se de minhas palavras se colher alguma coisa aproveitável, dar-me-ei por muito recompensado se não tardarem atos, do governo ou do povo, que removam as causas do mal que assinalei.”.

Localização

- Conferências Populares, Rio de Janeiro, n.1, jan.1876, p. 17-26. (na integra). Capturado em 17 set. 2025. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/docreader/278556/21   

Ficha técnica

- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.

- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.

Forma de citação

Conferência Popular da Glória nº 151.2. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 14 mar.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=734

 


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