Conferência Popular da Glória nº 158
Data: 09/01/1876
Orador: Augusto Cesar de Miranda Azevedo
Título: Águas minerais em geral
Aviso, íntegra ou resumo: Íntegra
Texto na íntegra
“Minhas senhoras, e meus senhores.
Só em obediência ao cumprimento de uma palavra dada de antemão e no desempenho de um compromisso honroso compareço eu hoje n'esta tribuna, onde outro mais vigoroso na inteligência e mais brilhante na palavra deveria ocupar a vossa atenção ilustrada.
O estado de minha saúde não permitiria talvez que sem esses motivos, para mim imperativos viesse abusar da vossa benevolência; por isso desde já para esta como para todas as conferências que tenho tido a honra de dirigir desta tribuna, eu peço indulgências que não deixareis de dispensar-me.
Vejo com alguma tristeza que em um assunto de tanta importância, um assumpto de interesse tão vital para todas as classes sociais, o auditório, se é seleto na ilustração e inteligência é tão diminuto em número. Penso, porém, que ele está em relação perfeita com a humildade do orador, que não pode aspirar despertar e merecer uma concorrência igual à que têm os possuidores da eloquência; não me queixo, por tanto, e nem censuro pois quero evitar a crítica que um homem notável, uma inteligência mais vigorosa e ilustrada sofreu há pouco; não quero que se diga que dou um excelente assunto para comedia, qual a de um orador que vem chorar e censurar a exiguidade do seu auditório. Não, senhores, não estranharei esse facto porque conheço a minha fraqueza distingo n'este auditório inteligências brilhantes, e sei que circunstantes há, que aqui vieram movidos pelo interesse de colherem algumas informações sobre as águas minerais em geral e querem saber o que há a esse respeito sobre as nossas águas minerais.
Não há dúvida, meus senhores, que o assumpto da conferência de hoje parece à primeira vista por si pouco atrativo. Conhecida a Índole destas conferências de antemão os clínicos e professionais desta capital, que talvez tivessem mais interesse em ouvir discutir este assumpto, de certo julgarão que não podia ser ele tratado muito convenientemente, não acreditarão que aqui se agitassem todas essas questões, desde a minudencia da análise química com todo o seu positivismo até as indicações e contraindicações terapêuticas, que o médico deve de atender para com os seus doentes em relação às águas minerais. De mais eles também sabiam que o médico que vinha ocupar a tribuna era muito moço, e, portanto, incompetente para lhes dizer qualquer cousa que já não fosse de a muito sabida por esses venerandos e ilustrados filhos de Escapulário.
Mas, senhores, não querendo outro mais habilitado encarregar-se de uma conferência sobre este ponto, animou-me a vir tratar desse assumpto em primeiro lugar o honroso convite que por vezes recebi do diretor destas conferências para discutir e expor esta matéria; depois, tendo de há muito estudado estas questões de hidrologia médica e tendo visto que o uso e as propriedades das águas minerais são, em geral, muito pouco conhecidas e apreciadas, quer na Europa, quer em outros países, segundo a queixa de todos os hidrologistas, julguei de alguma utilidade o serviço que porventura prestasse vindo a esta tribuna para estudar particularmente as águas minerais brasileiras.
A natureza esmerou-se em dotar este país com riquíssimas fontes de águas minerais; mas poucos e incompletos são os estudos que possuímos acerca de suas propriedades e composição; neste ponto tem o patriotismo brasileiro sido falho, pois não tem curado como devia dessa matéria.
Antes, porém, de alongar-me em considerações que têm mais cabida em outra parte desta conferência, é justo que diga o que a ciência entende por água mineral, e exponha, bem que muito pela rama, os tópicos mais importantes que se prendem a essa questão.
Por isso, senhores, eu dividirei a minha conferência em duas partes, como foi anunciada, em primeiro lugar falarei das águas minerais em geral, e em segundo lugar me ocuparei com as águas minerais do Brasil em particular; talvez pela extensão pela importância do assunto, seja conveniente e mesmo necessário, outra conferência para a qual estarei pronto se me julgarem digno de fazê-la, o público e o diretor desta instituição.
Mas tratar das águas minerais em geral sem demorarmos por um momento a atenção a respeito desse elemento que representa no universo uma parte tão importante, que forma mais de três partes do globo seria talvez pouco metódico. Não aludir se quer aos estudos a que os hidrologistas se têm dado em relação à água, a esse composto que é indispensável para a vida dos organismos, e que às vezes por si só quase os constitui, seria talvez uma lacuna indesculpável da minha conferência.
Assim pensando, direi rapidamente alguns factos que demonstram a importância da hidrologia, que, segundo Emilio Delacroix, ocuparia a vida inteira de um homem sem esgotá-la se quisesse encará-la, sob todos os pontos de vista.
Desde a mais alta antiguidade a água foi considerada como um dos quatro elementos simples da natureza, e essenciais à manutenção da vida. Mais tarde, muito mais tarde, com os progressos da química, se descobriu, e o imortal Lavoisier demonstrou, que a água não era uma substância simples e sim um composto de diversos corpos; a sua importância porém não diminuiu. antes pelo contrário, com os aperfeiçoamentos da civilização, ela aumentou e como que cresce de dia para dia.
Sabeis, como o gênio da mecânica e da engenharia tem sabido aproveitar esse primeiro motor do globo, sujeitando-o para variados e infinitos misteres industriais e agrícolas. O domínio que Xerxes procurou lançar ao oceano, como que se acha hoje realizado pela civilização deste século, a hidráulica moderna obriga o oceano a chegar ou a afastar-se dos pontos que julga conveniente, os canais que abre fertiliza os terrenos áridos e marinhos, salubrificando as regiões pantanosas e inabitáveis. Não ha, por assim dizer, mais mistérios no oceano, pois por meio do sino dos mergulhadores do escafandro e de sondas aperfeiçoadas o homem devassa-lhe as profundidades, enquanto percorre-lhe a superfície impune, não em leviatãs, mas em simples pontos perceptíveis, como Boyton, por meio dos seus engenhosos aparelhos.
As maravilhas produzidas no seio das águas, pertencem já ao domínio da ciência; assim o mundo de animaculos e organismos microscópicos que se agitam em suas massas, são descobertas pelo microscópio, e podem entrar em objeto de cálculo; assim é que sabe-se que a massa de infusórios que o Ganges transporta em um ano ultrapassa seis vezes o volume da maior pirâmide do Egypto!... Mas para que levar-vos para esse terreno, se para contar-vos as maravilhas da água, basta que vos cite a cachoeira de Paulo Affonso, esse gigante das águas, ou vos lembre as belezas das cascatas da Tijuca, Teresópolis e tantas outros, ou vos narre o horror e a majestade das trombas, a imponência das pororocas do Amazonas, ou.... seria um nunca terminar se me deixasse levar pelo interessante destas considerações.
Sem, portanto, me demorar mais nestas divagações, e deixando de parte as descrições das poéticas grutas de estalactites, produto d'agua, vos faltarei delia como elemento indispensável à vida, e a sua parte na composição dos organismos.
Boussingault diz com razão, que todos os fenômenos fisiológicos - quer vegetais quer animais, não podem exercer-se sem que a água represente um papel importante. Desde o ar, que completamente seco seria impróprio a vida, até a substância nutritiva que carece ser dissolvida para depois ser assimilada, tudo revela e denuncia a influência da água e justifica a proposição de Girardin quando afirma que se. a água desaparecesse repentinamente da superfície do globo a vida se extinguindo, novo caos misterioso se manifestaria. Quanto ao reino animal, segundo as experiências de Chausser e outros, constitui cerca de nove décimos do corpo humano; assumindo a proporção de 99 para 100 nos acalephos, nesses organismos que o povo em sua linguagem poética chama de água-viva!... Mais ainda se manifesta o seu poder vivificador quando ressuscita cadáveres já secos, só por sua penetração nesses organismos, como sucede com os rotíferos e tardígrados.
Interessa-nos, porém, mais para a prática social e positivista estudá-la em relação ao homem, é o que vou fazer em seguida.
Essencial para a vida humana, ela não só tem uma ação fisiológica, como outra terapêutica sobre a nossa economia e d'aí provém o interesse com que é a água estudada.
Dessa dupla ação da água, como elemento essencial à manutenção da vida das sociedades, e como um precioso medicamento em muitas afecções resulta ser objeto de uma parte da higiene social e constituir por outro lado um dos ramos da terapêutica.
Os governos de todos os países civilizados, os estadistas mais distintos de todas as nações, de acordo com os higienistas, curam com afinco de resolver o problema de abastecimento de água às grandes e pequenas populações, e pena é que em nossa pátria, seja essa questão ainda uma dessas faltas, que, como vedes atualmente, assume as proporções de calamidade pública e de crime de todos os nossos governos.
Não compete a esta conferência vir aqui expor as virtudes curativas da água, e recomendá-la, a exemplo de Hoffman, como remédio universal, ou proclamai-a o melhor febrífugo como Hancocke. Deixemos essas maravilhas a esses confeccionadores de estatísticas comerciais que por elas anunciam a cura de tuberculose pulmonar no último período... conduzindo-os ao túmulo, e mostram que é menor a mortalidade entre os doentes de seus hospitais, do que entre os habitantes sadios dos lugares mais salubres da terra!...
Demais o sistema curativo pela água acha-se introduzido entre nós, cabendo a glória de primeiro estudá-lo no Brasil ao distinto médico, uma das inteligências mais ilustradas da classe, o Sr. Dr. Rocha Lima, que escreveu uma excelente monografia sobre esse assumpto.
As condições de potabilidade são muito complexas e variam em extremo, de sorte que está ainda incompleta esta parte da química e higiene social; contudo para premunir-vos contra qualquer engano será conveniente terdes em vista a opinião de grande maioria de hidrologistas formulada por Poggiale na seguinte proposição— é um erro que se deve combater o dizer-se que as agitas mais puras são as melhores e as mais salubres.
Nenhum desses caracteres puramente físicos, ou químicos servem-lhe para mostrar a sua potabilidade, pois temos águas vinhosas como as de ltajurú em Cabo-Frio, excelentes para a saúde, enquanto que outras claras e sem a menor turvação silo más para o uso.
A ciência apesar das opiniões de Grimaúd, Fonssagrives e outros, estabeleceu também que o tipo da água pura, a destilada, não é a mais própria para a vida, pois para as necessidades fisiológicas, elas devem de conter em dissolução ar e uma certa proporção de sais, aproveitados e assimilados pela economia animal, como se conhece das belas experiencias de Boussingault sobre a ossificação do porco.
Para não entrar nestas discussões que tomariam muito tempo e que não constituem objeto de minha exposição de hoje, e para não entrar em outros pontos como seja classificaçãode águas potáveis, e a sua distinção) de águas minerais, direi que devemos entender por água potáveis, aquelas que fornecidas pelas chuvas, pelas fontes, ou por quaisquer outros meios são usadas diariamente pelo homem como bebida habitual sem inconveniente a saúde e indispensável para a vida.
Não é uma definição, pois não intento fazer aquilo que outros mais habilitados tem tentado debalde, é um simples modo prático de vencer a dificuldade que para melhor explicar, lembrarei unia engenhosa comparação, que me sugeriu a conversa com o ilustrado Sr. Dr. Rocha Lima.
Podemos tomar para tipo das águas simplesmente potáveis as provenientes das chuvas e das fontes, etc, e, minerais as do oceano.
Chegamos a nova dificuldade qual seja a de dizer o que entendemos por águas minerais.
Falando-vos da grande dificuldade em defini-las, diremos com H. Büignet que sob esse nome são designadas as águas potáveis, que em seu percurso subterrâneo, perdendo suas propriedades econômicas, adquirem outras medicinais, aproveitadas pela terapêutica. Essas novas propriedades ou são devidas á elevação de temperatura ou à dissolução e combinação de matérias que não continham anteriormente, e que as separam do tipo d'agua potável.
Ditas estas palavras, como que vejo muitos de vós julgar vencida uma dificuldade, que só imaginariamente existia para o orador. Mas suspendei por um momento o vosso juízo e fazei a aplicação prática; comparai, por exemplo, a nossa água da carioca cujo coeficiente de calcáreos é menor do que a proporção desses sais existentes em todas as outras águas potáveis, e dizei-me se não classificareis, por exemplo, as águas selenitozas dos poços parisienses entre as minerais!
Aqui, como sempre, que a ciência convencional do homem procura bem precisar limites que não existem na natureza, surgem como aqui os maiores obstáculos práticos, para os próprios hidrologistas como Rotureau.
Como já disse um autor, as águas minerais podem ser consideradas como grandes dissoluções de princípios medicamentosos preparados no grande laboratório da natureza, e determinam efeitos muito pronunciados sobre a economia, quer no estado hígido, quer patológico.
Para melhor estudar esses efeitos e conhecer-se as propriedades, diversas classificações têm sido propostas; antes, porém, de discutir esse tópico, julgo mais acertado traçar-vos um quadro geral das propriedades físicas e organolépticas das águas minerais.
Quanto à cor, em geral elas emergem da terra límpidas, transparentes e incolores muito por excepção oferecem o fenômeno das águas sulfurosas de Cadéac; que jorram esverdeadas em sua origem, graças às reações químicas feitas nas camadas profundas que percorrerão. Fenômenos próprios de óptica explicam também o porquê vistas em massa oferecem o colorido esverdeado; da mesma maneira que as alterações que sofrem os seus princípios mineralizadores e a natureza destes, fá-las afetar cores variadas, desde o branco opalino até o avermelhado argiloso. Pode-se afirmar quase como princípio geral que são límpidas as águas originadas nas rochas primitivas, sendo turvas aquelas que provém das jazidas secundarias ou terciarias. Quanto ao paladar, o gosto varia em extremo, o que é fácil de compreender-se, visto como este depende da sensação produzida pelo grande número de princípios diferentes existentes nessas águas. São elas salgadas, ácidas, amargas, alcalinas, stypticas, hepáticas, ou atramentárias, conforme contém como estas últimas, ferro ou enxofre, que comunicam, ainda em pequena quantidade o sabor mais característico.
O cheiro é talvez de todas as propriedades organolépticas, o que desperta primeiro a atenção em certas águas como nas sulfurosas; a distância sente-se logo o cheiro de ovos podres, devido ao ácido sulfídrico, que existe em dissolução, ou que se fôrma pela alteração de sulfuretos em contato com o ar. O cheiro sulfuroso em muitas fontes é fugaz, e em algumas embora a, análise não denuncie existência de enxofre; segundo muitos hidrologistas notáveis esse cheiro é devido á decomposição de sulfatos em contato com matérias orgânicas; deve, pois, ser cauteloso o médico, e não se deixar iludir por esse fenômeno enganador. Ao tato apresentam-se ora untuosas, ora sem a menor diferença da água potável, oferecendo de curioso ainda a temperatura que serve de base para uma das mais antigas de suas divisões.
A sua densidade varia desde o número que mostra ser muitas vezes inferior á água potável até os limites das dos lagos Asphaltite ou Mar-Morto, que oferecem o mais elevado algarismo denotando para específico segundo Boussingault.
O ar atmosférico tem ação sobre estas águas, produzindo pelo oxigênio e ácido carbônico, combinações químicas que alteram sua primeira composição. Os agentes físicos como luz, calor e eletricidade manifestam de maneira positiva a sua influência, e às vezes especial, como dá-se com a eletricidade, que por experiências feitas em Enghien e Gastein, decompõe mais rapidamente estas águas cujas proporções de hidrogênio e oxigênio não são iguais ás da água comum.
Scoutetten de Metz em trabalhos interessantes sustentou que a principal ação das águas minerais, era devida a eletricidade que elas contêm em estado natural. Sem contestar em absoluto esta opinião, penso que ela é por demais exclusiva, bem como a de outros que explicam todas as suas propriedades curativas pela termalidade.
As águas termais, aquelas cuja temperatura é superior alguns graus ao ambiente, chamarão a atenção dos povos desde a mais alta antiguidade, e Hipócrates as conhecia, sendo Aristóteles o primeiro que procurou explicar esse calor dependente da ação do sol e da penetração de seus raios até a origem delas. Várias hipóteses mais têm sido propostas para essa explicação, registrando a hidroliquia médica desde aquelas que subordina esse calórico a temperatura interior da terra até as opiniões de Laplace e Berzelius, das águas pluviais de Anglada e Fodéré pela ação eletromotora das rochas centrais, a de Bianconi pelo atrito das águas em seu percurso ascendente, de Becker e outras pelas reações químicas.
O limite inferior para ser classificada uma água de termal ainda não está completamente decidido, podendo sê-lo segundo Wurtz desde 15° ou 25° para cima, conforme Rotureau.
Segundo os trabalhos de Herpin a fonte termal conhecida mais quente é a do Grande Geysser da Islândia, que, segundo observou Bunssen, atinge 127° a 65 pés de profundidade, depois segue-se a de Malka em Kamtchatka, que chega a 100°, a de Pedro Botelho, na Ilha de S. Miguel, que chega a 93°,5, as de Ischia na Itália, que vão de 99° a 98°, as de Çhaudes Aigues em França, que chegam a 81°, e muitas outras que depois vão em escala descendente. No Brasil possuímos as importantes Caldas do Cubatão, Tubarão, etc, na Provincia de Santa Catarina, as de Caldas e Lagoa Santa em Minas Geraes, as de Caldas novas em Goiás, as de Itapicarú na Bahia, e agora descobriu-se uma que promete ser muito interessante, em Tatuhy, na Provincia de S Paulo.
Levados por ideias errôneas atribuiram por muito tempo um cunho particular ao calor das águas minerais, que julgaram diferente em sua ação ao das águas potáveis; e para como amenizar esta conferência vos citarei um facto de Mme Sevigné que assim pensava, e que parece à primeira vista dar ganho de causa a este modo de pensar.
Esta celebre escritora francesa submeteu para experiencia uma rosa á fonte termal de Vichy, e retirou-a como se a tivesse colhido naquele instante, enquanto que lançando-a em um pouco d'agua ordinária em ebulição viu aquela murchar e destruir-se, d'aí concluiu a diversidade do calor. A explicação, porém, é" simples, se atendermos que a fonte de Vichy chega apenas a 40º, enquanto a água em ebulição deve estar a 100°. As experiências de Longchamps, Anglada e Lefort destroem, porém, completamente essas crenças absurdas. O que é fato, porém, consignado na ciência, é a temperatura servindo para a classificação das águas em frias, tépidas e quentes, classificação esta clássica, mas que não corresponde às exigências da ciência atual; e o mesmo se pode dizer da de Rotureau. Este hidrologista divide a água da seguinte maneira em relação à temperatura: Atermais inferiores a 15°; Prototermais, entre 15° e 25°; Hipotermais, entre 25° e 33°; Mesotermais, de 33°,8; Hipertermais, de 35° para cima.
Esta classificação não é seguida geralmente. Para mim uma das melhores classificações é a de Alexandre Brogniart que procura dispor as águas minerais segundo as suas origens geológicas, dividindo-as em cinco grupos: 1º, Águas minerais dos terrenos primitivos. São geralmente termais, contém ácido carbônico, sulfídrico, silícico, sais de soda, e quase não tem sais calcáreos e ferruginosos. 2°, Águas minerais dos terrenos inferiores de sedimento. Semelhantes às precedentes menor temperatura e sempre sulfatos calcáreos. 3º, Aguas minerais dos terrenos superiores de sedimento. São frias, pobres em ácido carbônico, predominam os sais calcáreos, de magnésia de ferro. 4°, Águas minerais dos terrenos de transição Contêm os compostos dos três grupos precedentes em junções variadas. 5°, Águas minerais dos terrenos de arachytes antigos e vulcânicos modernos. Muito semelhantes às do 1° grupo, podem ser quentes ou frias, contêm, porém, sulfatos calcáreos, sais de ferro e de magnésia.
Como vedes, esta classificação tem a vantagem de pelo simples enunciado, não só conhecer-se, por assim dizer, a temperatura, como quase também a composição química de uma água, e, portanto, as suas propriedades. Em consequência da dificuldade prática, e dos inconvenientes de reunir às vezes fontes muito distantes no mesmo grupo não têm sido geralmente adotada esta divisão.
Outros fatos têm sido oferecidos para bases de classificação, como seja ação fisiológica e terapêutica, as circunscrições geográficas como quer o Dr. Constantino James, etc. Geralmente, porém, estão todos os hidrologistas e médicos de acordo que a melhor classificação é a que baseia-se no conhecimento da composição e propriedades químicas, por ser a parte mais positiva e menos sujeita a variações. Vos digo menos sujeita, porque tem acontecido que análises feitas por homens eminentes e especialistas têm dado sobre as mesmas fontes resultados muito diferentes, como, por exemplo, nas águas de Cransac Blondeau apenas descobriu traços de manganês e classificou-as de simplesmente ferruginosas, enquanto que Ossian Henry quase na mesma época disse que eram elas muito ferruginosas, e principalmente magnesianas. Sobre as águas do Mar Morto, ha o seguinte: Boussingault afirma que são o tipo das bromuretadas, e Boutron e Ossian Henry sustentam que aí apenas encontrarão traços desse metalóide.
Não se pôde nem se deve atribuir essas divergências a simples erros de análise ou de apreciação, pois os menos fenômenos terrestres como terremotos, erupções vulcânicas, etc., exercem grande influência, quer sobre a composição quer sobre a temperatura das fontes, como aconteceu com as de Toeplitz, de Neris e Bourbon-l'Archambault por ocasião do terremoto de Lisboa em 1755, ou com as de Carlsbad era 1805, ou ainda são modificadas, como em Cachambú, pelas cheias dos rios, ou pelas águas metereologicas, ou variam sob a influência das estações como as de Pyrmoht que alcalinas no verão perdem essas propriedades no inverno, conforme observou Struve. Mas seria muito longo vos narrar todas as modificações de intermitência e outras que oferecem as águas minerais, nem seria cabido aqui, nem teria eu tempo para tanto. Por isso vou apresentar-vos a classificação, referida no Annuario das águas de França, que é a geralmente aceita com mais ou menos modificações, servindo para caracterizar esses grupos o elemento químico predominante. Assim há três classes: 1ª classe – Carbonadas, tendo dois gêneros: — 1º C. de base sódica (termais ou frias); 2º C. de base terrosas, férreas ou não, todas frias.
2ª classe.— Sulfuradas e sulfatadas, com os seguintes gêneros: 1° S. de base sódica que são sulfurosas propriamente ditas e todas termais, e sulfatadas ou degeneradas, que são termais ou não; 2º S. de bases caláreas sulfatadas simplesmente ou também sulfurosas que são frias ou termais; 3º S. de bases magnesianas simplesmente sulfatadas, termais ou frias, 4º S de bases férreas sulfatadas, todas frias.
3ª classe .— Cloruretadas. Todas de base sódica, frias ou termais com duas variedades, uma simples e outra de iodobromuretada, entre as quais estão as águas do mar.
Senhores, como acabais de ver, não está também esta classificação a coberto de todas as censuras, por isso Lefort, Durand- Fardel e Lebret achando-a muito exclusiva propuseram judiciosas modificações para obviar o inconveniente de estarem no mesmo grupo águas de composição diferente e de ação terapêutica muito diversa.
Se não temesse abusar de vossa benevolência e fosse esta uma conferência exclusiva destinada a profissionais eu reproduziria as considerações daqueles ilustrados médicos e vos daria minuciosamente lambem a classificação proposta pelos Srs. Ossian Henry pai e filho.
Estes eminentes hidrologistas dividem as águas em cinco classes:
1ª SALINAS, com quatro gêneros e seis espécies.
2ª ACIDULAS CARBONADAS OU BICABORNADAS, com quatro gêneros.
3ª ALCALINAS, com três gêneros.
4ª SULFURADAS OU SULFUROSAS, com dois gêneros e duas espécies.
5ª FERRUGINOSAS, com quatro gêneros e quatro espécies.
Assim limitar-me-ei a expor agora a classificação geralmente aceita por todos, que, se não é a mais rigorosa, é a mais simples e justamente a melhor para a prática, e seguida por eminentes terapeutistas como Pereira. Por ela ficam divididas todas as águas nos seguintes grupos:
1º ÁGUAS ACIDULAS GAZOSAS.
2° ÁGUAS ALCALINAS,
3° ÁGUAS SALINAS.
4° ÁGUAS SULFUROSAS.
5° ÁGUAS FERRUGINOSAS.
Agora entrarei em algumas considerações muito resumidas sobre estes grupos, procurando dar exemplos bem conhecidos de cada um e fazel-o principalmente em relação ao Brasil.
O que caracteriza o primeiro grupo é a presença do ácidocarbônico livre que as torna efervescentes e lhes comunica o gosto picante e acidulo que é tão conhecido. Temos para exemplo desta classe as águas da Campanha, especialmente as da Fonte Gazosa, que podem ser consideradas superiores às de Seltz, de Soultzmatt e outras. Além deste estado livre, ainda o ácido carbônico existe em diversas proporções sempre quase combinado com bases calcáreas ou magnesianas porém se a base é alcalina ou férrea as águas que o contém nessa modalidade são classificadas entre as férreas ou alcalinas, como as de Vichy.
O 2° GRUPO DE ÁGUAS ALCALINAS tem por principal tipo a combinação dos metais alcalinos e terrosos com ácidos pouco enérgicos como o silícico e o carbônico; este ultimo existe quase sempre em excesso, que é a garantia para a solubilidade dos carbonates terrosos, pois assim perde-se esse excesso e eles depositam-se.
Entre as águas alcalinas mais celebres da Europa estão as de Vichy, e podemos citar para exemplo das desta espécie, silicatadas, as da fonte do Atterrado em Minas Geraes, ultimamente estudadas pelo ilustrado Sr. Dr. Manoel Vieira da Fonseca, um dos médicos brasileiros que com mais proveito tem-se entregue aos estudos de hidrologia médica.
O 3º GRUPO DAS ÁGUAS SALINAS, talvez o maior, subdivide-se em três subgrupos segundo Wurtz:
1º Águas chloruretadas, que são aquelas que contém os chloruretos de sódio, magnésio, ou cálcio; além da água do mar, há entre outras a fonte de Kissingen, e entre nós grande número de mananciais ao longo da restinga da lagoa de Araruama, cujas águas são talvez mais chloruretadas que as do próprio oceano.
2º Aguas sulphatadas, contendo ainda três espécies conforme a base é sódica, magnesiana ou calcárea; para exemplo nós citaremos Carlsbad, Püllna e Cnstrexéville. Nós possuímos fontes que devem ser semelhantes quer nos efeitos às primeiras, quer na natureza de seus elementos às ultimas, como as de Cachambú.
3º Águas bromo-ioduradas, que encerram em estado de combinação principalmente o sódio, o magnésio e o cálcio, sendo muito proveitosas para banhos ou escrófulas.
As ÁGUAS SULFUROSAS constituem o quarto grupo e são assim classificadas sempre que o princípio mineralizante é o ácido sulfídrico ou um sulfureto alcalino, tem cheiro característico de ovos podres e sabor hepático; e dividem-se em naturais e acidentes. As primeiras são incolores e límpidas no seu ponto de emergência, quase sempre termais, e pouco mineralizadas; as acidentais são formadas pela decomposição do sulfato de cal atravessando matérias orgânicas que o reduzem e decompõe, são muito mineralizadas e quase sempre férreas.
Sem entrarmos em outras particularidades químicas diremos, segundo os melhores hidrologistas que o gás que se desprende das águas sulfurosas nada tem de ácido carbônico, e a análise demonstra ser uma mistura de azoto e vestígios de hidrogênio sulfurado.
Nas águas sulfurosas de Barèges descobriu-se uma matéria orgânica azotada a baregina que existe em outras fontes; sobre elas falarei daqui a pouco. Podem ser tipos de águas sulfurosas naturais as dos Perineus em França.
As águas sulfurosas termais de ltapicurú na Bahia pertencem, segundo creio ao primeiro grupo, enquanto que outras como as que acabam de descobrir-se agora em Tatuhy na província de S. Paulo, segundo as informações que tenho do terreno em que elas apareceram, devem pertencer às da segunda espécie; sobre uma e outra, porém, não emito juízo definitivo, pela simples razão de não existirem estudos necessários.
As ÁGUAS FÉRREAS OU FERRUGÍNOSAS constituem o quinto grupo desta classificação, e são assim chamadas sempre que a análise química demonstra a existência dos sais marciais em proporção para comunicar-lhe as propriedades que são-lhe próprias.
Assim além de seu gosto atramentario, semelhante á tinta de escrever, dos depósitos avermelhados que têm nas fontes em contado com o ar, e dos precipitados que lhe são próprios, oferece o caráter de athermalidade para todas elas.
É verdade que uma única conhecida, a de Luxeuil, oferece exceção, mas essa mesma, se me não engano, está no limite que vos tracei para a distinção de águas frias ou quentes, pois a sua temperatura é de 35 As águas graus. férreas subdividem-se em três gêneros que são:
1º Águas férreas carbonadas, as mais abundantes graças ao excesso de ácido carbônico; elas modificam o seu gosto atramentario e conservam em dissolução um sal insolúvel como o carbonato calcáreo. Todas aguas férreas desta cidade pertencem a este gênero.
2ª Águas férreas crenatadas, são formadas pela combinação dos sais marciais com dos ácidos particulares desçobertos por Berzelius, nas águas de Porla na Suécia, os acidos crenico e apocrenico; até hoje não me consta que se tenham encontrado desta espécie no Brasil.
3º Águas férreas sulfatadas, contêm maior quantidade de minerais, visto os terrenos que atravessam em seu percurso; são porém em geral pesadas e desagradáveis; daí o serem preferidas pelas precedentes.
Tal é a classificação geralmente seguida, que como vedes não é extreme de defeitos.
Agora, senhores, deixai-me vos dizer que as analises das águas minerais são em extremo difíceis, pois não basta conhecer nelas certos princípios mineralizadores, convém demonstrar a sua proporção, conhecer e determinar não só a natureza, mas também a quantidade de gazes que contêm dissolvidos, e atender às modificações e alterações que podem sofrer durante as reações químicas e os próprios processos requeridos pela análise, e isso sem vos falar da alteração produzida pelo ar atmosférico.
Para o reconhecimento de cada princípio há processos muito especiais e seguros, como o de Dupasquier, para as águas sulfurosas, o aparelho de Bouquet para determinação dos gases e outros.
Por assim dizer, todos os minerais têm sido encontrados nas águas medicinais, que até têm servido para descoberta de alguns metais novos como o cerio e o rubidio por Kirchoff e Bunsen nas águas de Dürckeim; o arsênico foi reconhecido por Tripier na Algeria em águas férreas e Walchnaer mais tarde é que confirmou este achado hoje aceito por todos, bem como a presença do cobre verificado por Chatin, Keler, Will, Liebig, Marchand, Filhol e outros.
Além destes princípios ha as matérias orgânicas que têm por força um papel muito importante na ação fisiológica e terapêutica das águas minerais. As principais são a baregina composto azotado e a glairina que difere um pouco daquela em depositar-se e formar-se só um pouco distante do ponto de emergência da fonte o que parece demonstrar necessário para sua formação o contado do ar; Fontan encontrou a sulfurária, espécie da familia das algas, que como muitas outras variedades, bem como, oscilarias, etc, exercem influência quer sobre a composição das águas, quer sobre a sua ação.
As analises quimicas das águas minerais ainda não estão aperfeiçoadas, pois tem até hoje faltado a síntese científica para completá-las; por isso Filhol diz com razão que é esse um dos problemas de solução mais difícil para o químico, e Chaptal profere esta profunda verdade: “quando se analisa as águas minerais, apenas deseca-se-lhes os cadáveres!”
Mas, senhores, esboçadas ligeiramente essas ideias sobre águas minerais, dita a sua classificação, a sua temperatura e propriedade em geral, cumpre mesmo, para não tornar tão árida esta conferência, evocarmos um pouco as reminiscências históricas deste assunto, e ver a sua importância entre os antigos, e dizer o papel considerável que vai assumindo na medicina moderna.
Os Gregos e os Romanos principalmente ligavam muita importância às águas minerais, e ainda hoje existem atestados dessa consideração que davam às fontes minerais. Hipocrates, Aristóteles e outros autores, falam do seu uso e emprego medicinal. Não quero apresentar-me qual gralha com penas de pavão, por isso vos direi que lendo o velho Hipócrates achei muito ligeira menção de águas minerais; quanto a outros autores vos refiro de citação vários trabalhos modernos que falam desta matéria. Mas aqueles autores não tinham ideia perfeita do que erão águas minerais; pois parece que se limitavam a empregá-las quase que só as águas termais. Em compensação os banhos como medida higiênica assumirão proporções, e adiantamento tal que ainda hoje não tem entre os povos civilizados. Os Romanos principalmente nos legarão atestados imponentes do cuidado que prestavam a essa necessidade pública e social. Por toda parte por onde chegavam suas legiões vencedoras, se levantavam grandes edifícios destinados a este mister, e se havia perto alguma fome medicinal era logo aproveitada com interesse.
Senhores, era verdadeiramente com grande critério é inteligencia que eles dividiam a casa do banho em diversos compartimentos dos quais temos as completas descrições de Vitruvio. O banhista não entrava por assim dizer do exterior do ar livre, para o banho: diversas salas destinadas para misteres especiais se encontravam nesses estabelecimentos. Assim havia o apodypterio, lugar onde o banhista deixava a roupa. D'aí passa; a para o unctuario, onde escravos unctavão-lhe o corpo com óleo ou essências; penetrava então na sala de ginástica, onde fazia exercícios ginásticos e musculares próprios para produzirem a transpiração; daí ia para o caldário, grandes banheiros de água quente; era então sujeito a fricções, atravessava a estava úmida ou trepidário e só depois é que entrava no banho frio ou no frigidário, onde podia nadar, e do qual sabia com idênticas precauções.
A saída do banho, os cuidados que os escravos e outras pessoas davam aos banhistas, erão muito diferentes daqueles que nós hoje vemos, conquanto nos digamos mais adiantados em ciência e civilização.
Mais tarde, principalmente pela queda do império Romano, foram as termas quase que abandonadas. Apenas uma ou outra fonte era aproveitada, e essa por um pequeno número de pessoas e cm uma região quase que só restrita ao lugar em que havia a fonte, entretanto a ideia das virtudes maravilhosas das fontes das águas de modo nenhum se abalou, e existem numerosas provas para mim, disto, e segundo penso, estas ideias longe de se desvanecerem tomarão muito maior incremento na idade média.
Assim todos os povos atribuirão qualidades maravilhosas às águas minerais.
Mais tarde, já no princípio da idade moderna e principalmente nos reinados de Luiz XIV e Luiz XV, por assim dizer a época para a França de maior esplendor, despotismo e desmoralização, as águas minerais eram procuradas em certas estações do ano, como hoje pela corte e a parte mais distinta da sociedade. E coisa notável, as águas que eles escolhiam, as de Bourbon-l'Archambault não eram por certo as melhores, hoje estão quase abandonadas, comparadas com o seu antigo apreço, apesar de ter sido um lugar honrado com a presença do maior rei da França, o que demonstra que nem sempre o capricho dos reis resiste ao direito e á verdade dos fatos.
Mas nesse tempo as águas medicinais não eram tomadas sem diversas precauções, e precauções que ainda hoje são recomendadas pelos médicos; mas o que se nota é que não erão perfeitamente conhecidas as suas propriedades físicas e químicas. E era um tratamento bárbaro aquele, porque passavam os doentes, segundo nos referem os historiadores da época, e cujo resumo pode ser lido na bela obra do Dr. Constantino James. Eles reduziam o o pobre doente a proporções de um verdadeiro mártir.
Assim Boileau nos dá nas suas cartas a Racine notícias desses sofrimentos de que foi vítima como todos os que tomavam águas nesse tempo; diz ele “que só preenchendo as formalidades necessárias, depois de sangrado e de purgado, foi julgado apto para encetar a grande obra, isto é, tomar as águas”. Os tormentos que sofreu em seguida são atrozes, pois a prescrição principal do médico era não ter um só momento de sono, e fazer tudo que o não deixasse dormir um só instante; já enfraquecido pelo tratamento dos médicos daquele tempo, admira como pôde Boileau escapar da cura dessas águas minerais de Bourbon.
Vemos por este facto que uma das recomendações que hoje fariam quase todos os médicos naquele tempo era perniciosa; e daí pôde se concluir o quão diferentes e incompletos eram os conhecimentos sobre águas minerais, e tudo que lhe era concernente.
Principalmente quanto à legislação e, portanto, a inspeção cientifica e administrativa, só depois da gloriosa revolução francesa de 1789, se fez alguma cousa, e esses imortais legisladores do mundo que, contudo, se ocuparam em 1790 regularam sobre esse ramo de negócio público.
Mais tarde é que se foram fazendo estudos e ornando medidas julgadas preventivas para as pessoas que iam usar das águas. Hoje a ciência recomenda com muito critério que antes de qualquer individuo sujeitar-se ao tratamento das águas minerais tenha unia espécie de regímen preparatório. Mas vejamos qual é o costume das pessoas que se dirigem, especialmente na Europa, para as águas, e se esses conselhos dados pela ciência são observados?
Aconselham a ciência e os especialistas, que ao menos, um mês ou vinte dias antes de se fazer uso das águas deve se ter uma vida mais sossegada, uniforme e regular. Como, porém, cumprem essas judiciosas recomendações? Quase sempre em sentido contrário: vemos que o essa a ocasião dos bailes, dos grandes passeios e de todas as grandes festas. Este costume está inveterado principalmente nas sociedades em que é moda a estação das águas, é a ocasião das despedidas, das festas das cidades, e sempre mais como pretexto para bailes e concertos, espetáculos e toda a espécie de passatempos que obrigam vigílias forçadas.
Este modo de proceder pode ter funestos resultados, já enfraquecendo o organismo, já dando-lhe menor aptidão para suportar, quer a ação da água mineral, quer mesmo para resistir á sua reação, esse fenômeno tão conhecido pelo nome de febre termal; d’aí resulta também que as águas minerais que podiam ser muito proveitosas, sejam senão perniciosas, ao menos indiferentes e inertes.
Por isso deve o doente, aquele que fôr com firme tensão de aproveitar-lhe as propriedades curativas, porque a moléstia o obriga a ir a esse ponto e que não vai por simples passatempo, aconselhar-se com o seu médico e ver por quanto tempo pode e deve suportar a água mineral que vai tomar, qual das diversas fontes vai melhor com o seu organismo e com a afecção que o consome, e depois seguir os conselhos da ciência, levar uma vida regrada e uniforme, e ter um regime dietetico e calmo próprio para aproveitar todo o benefício do medicamento a que vai submeter-se, e seguir ainda as indicações quanto aos seus meios de administração.
Depois de tomadas essas precauções não são indiferentes a escolha das águas. Só o critério dos médicos cientificamente falando é que pode indicar a água que mas convém ao seu doente. Naturalmente outras condições como as pecuniárias e as condições de comodidade, devem ser atendidas. Assim sabemos que as águas não têm todas ações idênticas; como pensava L, Marcliant, não são todas excitantes; ha águas minerais verdadeiramente calmantes como vos falarei d'aqui a pouco.
Às vezes na mesma cordilheira de fontes nós encontramos água. que são excitantes como a de Luchon, e outras que são perfeitamente calmantes como as de St. Sauveur. Portanto, já vedes que não é indiferente a escolha das águas, porque ainda se observa que nem sempre as propriedades terapêuticas das fontes estão em relação com os princípios que a química demonstra.
Antes porém de estudar a ação das águas minerais cumpre dizer qual o seu meio de administração, que pode ser externa ou interna, havendo algumas fontes que só podem ser aproveitadas para uso externo, enquanto que outras são administradas por todos os processos.
O uso interno das águas, em bebidas, tem um método que varia conforme a tolerância dos doentes e os efeitos que se quer obter. São elas administradas quase sempre entre os 20° e 30° e raramente excede para mais ou para menos esta temperatura. Empregadas geralmente em jejum em copos ou meios copos de meia em meia hora, só para fins especiais, como ativar a digestão, etc, são dadas á tarde.
Externamente o método mais empregado é o dos banhos que exercem principalmente uma influencia pela temperatura que quando elevada é excitante, podendo ser sedativa em outros casos.
A este respeito citar-vos-ei o que diz Fontan, que compromete-se a acalmar a susceptibilidade nervosa da mais delicada moça em um banho dá gruta de Bagnères-de-Luehon, com 32° a 33°, e a excitar um Hércules com outro da fonte de la-Preste com 44° ou 47°, o limite do banho agradável é de 32º a 36°. Os banhos são tomados em banheira ou em piscina, cujos efeitos, segundo a maior parte dos hidrologistas, são muito mais eficazes; aí, entre outras vantagens, estão a de se poderem mover os doentes, e de ter sempre a água na mesma temperatura. A duração do banho varia desde uma hora até muitas horas, como sucede aos reumáticos.
As duchas constituem outro meio de administração externa das águas, e sua ação resolutiva ou revulsiva encontra diversos meios de atuar também internamente nas duchas ascendentes. Sales Giivms generalizou para todas as estações de águas minerais o método de pulverização que foi o primeiro a empregar por meio de um aparelho por ele imaginado; a exalação dos vapores e de outros princípios minerais por meio do pulverizador tem dado grandes vantagens, em moléstias pulmonares e das vias aéreas. Além deste método ha um outro geralmente abandonado, qual seja o dos banhos de sedimentos minerais (bove), que é anda usado em Toeplitz e outras poucas estações termais.
Agora, senhores, naturalmente vem a questão do modo de atuar das águas minerais sobre os organismos, e deve-se discutir aqui a opinião daqueles que atribuem a sua ação benéfica unicamente ao regime higiênico a que submetem-se os doentes, que também auferem vantagens da mudança de clima e de local.
Sem negar esse complexo de condições muito salutares e benéficas como adjuvantes da cura, diremos como M. Bertrand que - nunca as belezas de um local curarão o reumatismo, nem a mudança de ar já sarou as consequências de um ferimento de arma de fogo, ou só os encantos de uma boa sociedade fizeram abandonar as “muletas a um enfermo”. Borden dizia com razão que o uso das águas minerais é um concerto geral, e afirmava Hofman que as moléstias crônicas que resistem ao emprego deste poderoso agente terapêutico, devem ser consideradas incuráveis. Sem querer amontoar citações em favor de suas virtudes, e demonstrar com o Dr. Constantino James que a água mineral é um medicamento, vos referirei as seguintes palavras de um distinto hidrologista francês; Patissier diz com muita razão que “as águas minerais curam algumas vezes, melhoram frequentemente e consolam sempre”.
Julgo portanto, que sem elevar por demais as águas minerais, proclamando-as panacéias, devo aceitar como fato positivo a sua ação sobre infinidade de moléstias. As vezes a energia terapêutica não está de acordo com os princípios minerais contidos nessas águas, como as de Gastein, Plombieres, Cunbridge, etc, mas os seus resultados são visíveis e materiais. Daí segue-se que a ação das águas minerais não se acha definitivamente explicada, e julgo talvez que pela descoberta de novos princípios ainda desconhecidos pelos hidrologistas, pelo estudo microscópico e analítico dos organismos vegetais e animais existentes em seu seio, achará a ciência a chave do enigma. Daí têm nascido as hipóteses sustentadas por alguns autores que o seu papel limita-se a ser o veículo do calórico, e a opinião de Scoutteten, que sustenta que o seu estado elétrico è a causa principal da atividade; Becquerel e Lambron, tirando o caráter exclusivo desta proposição confirmam, porém, a parte que este estado tem na cura das moléstias. A ação das águas minerais revela-se nas fontes pelos fenômenos de incremento de todos os fenômenos mórbidos, e mesmo do reaparecimento de certos sintomas que já não afligiam o doente que procura agora o lenitivo de seus males. O mal-estar, a inapetência, a insônia, as dores marcam os primeiros dias de sua estada nas fontes minerais, e constituem & febre termal; pouco depois esta dissipa-se completamente, e o doente ou no progride caminho das melhoras, ou fica completamente livre e entra em convalescença terminada ela. É claro, senhores, que conforme a composição das águas minerais, terá a sua ação, por exemplo as águas sulfurosas sódicas ou magnesianas, atuam geralmente sobre as funções hepáticas e intestinais, etc, e quando termais externamente, são excitantes; as águas ferruginosas combatem todas as moléstias de fundo cloroanêmico e escrofuloso, sendo os doentes de escrofulose muito beneficiados pelas águas iodo-bromadas.
Terminarei este assumpto dando-vos a sinopse da ação das águas minerais feita por Arronsohn, sem entrar nas particularidades a que desce este distinto médico; ele reconhece as seguintes ações:
1ª. Ação dinâmica, subdividida em duas, estimulante e sedativa.
2ª. Ação alterante, manifestando-se de três formas, ou como diluente, reconstituinte ou específica.
3ª. Ação eliminadora.
4ª. Ação revulsiva.
Pretendo, senhores, tratar da ação especial das águas, quando estudar as nossas diversas fontes. Urge o tempo e devo concluir esta conferência, mas antes de fazê-lo desejo lançar as vistas sobre nossa pátria. A classe médica não compreende ainda todo o resultado que pôde tirar das águas minerais, nem lhe conhece a diferença da indicação e da análise química, que é a razão porque muitas vezes deixa de aplicá-la.
Isto tem referência à classe médica de todos os países; mas especialmente quanto ao nosso país, devo dizer que é de lamentar, é triste o pouco caso, o descuido que tem havido neste assunto, porque o Brasil, como em geral todos os países do mundo, tem fontes de águas minerais e fontes riquíssimas. Todas as nações têm-se ocupado deste assumpto; aqueles que querem ter foros de civilizados, possuem estudos de quase todas, senão de todas as suas águas minerais, o Brasil quase que não conhece as suas; raríssimos são os escritos que se ocupam com elas, e mesmo esses muito deficientes.
O mais antigo trabalho aqui publicado com cunho científico é uma tese do Dr. Miranda em 1841, que dá uma ideia muito incompleta das águas minerais do Brasil, e só refere com mais cuidado e exatidão as fontes ferruginosas desta cidade, registrando sua composição química, resultado dos estudos feitos por esse distinto médico, que tem a glória de ter sido o primeiro que escreveu sobre águas minerais brasileiras; e mais tarde o Dr. Sigaud no seu livro sobre o clima e as moléstias do Brasil faz um resumo dessa tese. Daí por diante pouco ou nada mais ha, a não ser os incompletos resumos dos Drs. Chernoviz e Langgaard nos seus formulários. O livro oficial que foi para a exposição de Vienna apenas traduz o que diz o Dr. Sigaud e o novo escrito que vai representar o Brasil na exposição de Philadelphia nada mais adianta, é o mesmo descuido, a mesma falta de informações novas e científicas de sua primeira edição.
Estamos em um país em que se deve desejar mal aos membros do governo, afim de que algum deles precise de certos remédios, e dê providencias para o seu estudo; acredito que se não fosse o incômodo do Sr. Conselheiro João Alfredo, ex-ministro do Império e a ideia que ele teve de ir às fontes de Cachambú, e se este lugar não tivesse a honra de receber a família imperial, as suas águas não teriam tido até hoje uma análise completa, pois só foi feita depois da ida da família imperial, que lá deixou até a recordação dos nomes que deu a seis fontes o baptismo gracioso de um médico de sua comitiva.
Cumpre fazer justiça principalmente a alguns presidentes de Minas, que prestarão serviços neste sentido, pois seus nomes devem de ser conhecidos de todos os Brasileiros amantes dos progressos nacionais.
Entre eles citarei os nomes dos Srs. Drs. Fidelis de Andrade Botelho, Joaquim Saldanha Marinho e José da Costa Machado, que ocuparam-se com muito desvelo e cuidado de todas as águas minerais provinciais, e todos os serviços que estavam ao seu alcance foram feitos.
Mais tarde o distinto medico o Sr. Dr. J. F. Godoy quando presidente também se ocupou deste assumpto, firmando um contrato com o Sr. Dr. Antônio Pereira Pinto e outros em relação às águas de Baependy, e na mesma data um outro com o Sr. Dr. J. Caetano dos Santos para as de Caldas.
Disse a pouco, que estamos em um país, onde às vezes é preciso desejar não um mal sério, mas um incômodo ligeiro que traga bom resultado, como foi o do ex-ministro do Império para as águas de Cachambú, Campanha e Caldas, que hoje possuem uma análise química feita por três especialistas muito habilitados, os Srs. Drs. Ezequiel Correia dos Santos, Agostinho de Souza Lima, e J. Borges da Costa. Os relatórios desses estudos, porém, não satisfazem completamente, como demonstraremos mais tarde.
Senhores, esta ignorância sobre nossas águas minerais é até prejudicial às finanças e riqueza pública do Brasil.
Por toda a parte compreendem as vantagens pecuniárias que resultam das estações termais, e muitos países europeus explorão em grande escala esta riqueza e auferem grandes receitas, como acontece com a Alemanha. Porque não imitamos esses países em beneficiar as nossas fontes minerais, quando não fosse senão por esse lado?
Em outra conferência procurarei, com mágoa, porém com verdade denunciar o estado lastimoso em que jaz entre nós tudo que diz respeito a águas minerais; exporei em toda sua nudez esta questão, desde a nossa defeituosa legislação sobre essa matéria, até o pouco apreço que os governos lhe tem dado.
Por isso peço vossa meditação e vossa proteção para este assunto, e não o julgueis pela importância do orador que vos falia, mas considerai-o pela importância própria do assumpto, não imitando o descuido do mundo oficial sobre esse ponto.
Para que não pareça sem fundamento esta minha acusação aos governos, chamo vossa atenção para o que se dá atualmente; enquanto nas exposições nacionais se apresentam atestados de habilidade, que eu direi de estultice, indivíduos que gastam anos fazendo uma bengala com canivete, enquanto expõem objetos de fabricas e indústria estrangeira, como pode-se verificar, nada se expõe relativamente às nossas águas minerais.
Ainda mais, para a exposição de Philadelphia vai o governo mandar um livro de informações mais ou menos exatas sobre o Brasil e outros escritos pouco verdadeiros, ao passo que sobre as águas minerais não envia uma palavra que tenha valor científico, ou que adiante notícia aproveitável. Todos os países estudam suas águas minerais, o próprio Portugal de quem nós tomamos os exemplos, têm-se ocupado com muito proveito deste ramo de riqueza pública. E o Brasil??... Esse possui inúmeras fontes dessas águas e em uma conferência especial eu mostrarei o que... não há feito e o que se poderia fazer para assim mostrar quanto poderia auferir dos recursos que a natureza foi tão prodiga em outorgar-lhe. Oxalá possa a minha voz desautorizada ser atendida, e não sejam estas conferências estéreis e improfícuas declamações, como muitos as qualificam. (Aplausos. Muito bem! Muito bem!)
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Para não retardar a distribuição deste volume deixa de ser nele incluída a conferência do Sr. Dr. A. C. de Miranda Azevedo, sobre ÁGUAS MINERAIS DO BRASIL, a qual ainda não foi revista pelo Orador. Nem há nisso inconveniente porque será publicada conjuntamente com a segunda que o orador fez sobre o mesmo assunto.
Localização
- Conferências Populares, Rio de Janeiro, nº1, jan.1876, pp. 85-112. (na integra). Capturado em 22 set. 2025. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/DocReader/278556/86
Ficha técnica
- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.
- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.
Forma de citação
Conferência Popular da Glória nº 158. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 2 fev.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=741
Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz – (http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br)