Conferência Popular da Glória nº 159
Data: 16/01/1876
Orador: Affonso Celso Junior
Título: Exposições industriais
Aviso, íntegra ou resumo: Íntegra
Texto na íntegra
“Minhas senhoras, meus senhores.
Lendo há tempos no conceituado jornal o Globo um importante artigo sobre a nossa exposição industrial, que então ia-se abrir, encontrei um trecho em que o autor manifestava a ideia de fazerem-se preleções publicas acerca dos produtos expostos mostrando os proveitos e vantagens que d'ahi poder-se-ia auferir.
Senhores, eu estou na idade em que sendo vivas as crenças o entusiasmo é fácil pelas ideias que se me afiguram cheias de resultados profícuos. Tal me pareceu essa.
Entusiasmei-me por ela, e a cada instante julgava ver surgir um orador analisado possuindo todos os requisitos justamente exigidos para ocupar uma tribuna ilustrada, que, com proficiência, viesse tratar de um assumpto tão importante como as exposições industriais.
lludidas, porém, foram as minhas esperanças: a exposição nacional encerra-se hoje, e nenhum orador apareceu. Tratava-se de assunto não direi de menos importância, mas seguramente de menos atualidade, ao passo que esse era esquecido.
À vista disso, pois, como tivesse feito alguns estudos a esse respeito, depois de muito hesitar, resolvi vir expor o resultado deles.
Assim procedi porque estou convencido de que aquilo que falta neste país é iniciativa, sendo fáceis depois todos os cometimentos; e que, portanto, após mim virão outros que, tratando do mesmo assunto sob o ponto de vista prático, farão esquecer depressa aquele que solicita imerecidamente agora a vossa atenção.
Mas não espereis considerações políticas ou econômicas; cingir-me-ei ao lado histórico. Aquelas além de impróprias e descabidas na minha idade, mesmo que eu mais anos tivesse não me permitiriam fazê-las meus recursos intelectuais.
Portanto, relevai minha ousadia, atendendo à minha intenção—benevolência senhores!
Exposições industriais, tal é o assunto de que vou tratar.
Antes, porém, de fazê-lo vejamos o que seja a indústria, que papel representou ela na história, a fim de que examinando todas as suas fases, possamos bem apreciar as suas exposições.
Sob a denominação de indústria, segundo a definição mais aceita, compreende-se a criação de todos os produtos úteis e sua apropriação aos usos do homem.
Vejamos, agora, rápida, sucinta e ligeiramente o seu papel na história.
A indústria não era totalmente nula na antiguidade. Desde as eras as mais remotas foi a charrua conhecida no Egito, donde a trouxe para a Grécia uma colônia helênica.
Os fenícios aperfeiçoarão a indústria dos tecidos e aplicaram-na à lã.
Dos metais desconheciam bastantes, mas em todo o caso sabiam das ligas, visto como produzirão o bronze.
Quanto aos agentes mecânicos, e os meios de transporte, eram insignificantes, quase nulos.
Demais, os operários formavam uma classe à parte, ciosa de seus segredos, que ocultavam ao povo.
Com a invasão dos bárbaros este estado ainda mais se agravou. Roma conseguira reunir sob seu cetro todo o mundo civilizado, e apesar de seus inconvenientes, essa unidade política e social tinha vantagens incontestáveis.
Ora, os bárbaros fizeram com que o Oriente se separasse do Ocidente, e como a indústria se refugiasse para o Oriente, donde viera, ficou a outra parte do mundo envolta em profundíssimas trevas, no meio das quais brilhavam apenas como fracos luzeiros as cidades de Treves e Strasburgo, com fabricas de metais; Arras com fábrica de panos, Veneza com fábrica de vidros e Amalfi com indústrias navais. Mas nessas mesmas cidades faltavam à indústria dois elementos indispensáveis para o seu desenvolvimento - a ciência e a liberdade.
Os raros operários, quanto à primeira, tinham apenas algumas noções transmitidas pela rotina; quanto à segunda, vós sabeis que em parte nenhuma existia.
No século X ainda mais agravou-se tão triste estado. O terror que inspirava o fatal ano mil, em que, segundo a crença popular, devia acabar o mundo, paralisou o espírito humano, fez quase desaparecer a indústria.
Mas, depois que passou-se o ano temido, e que reconheceu-se quão infundados erão os receios, e deles riu-se, a indústria tomou novo e grande incremento e progrediu como nunca tivera acontecido.
Sem embargo das terríveis predições católicas, marchou desimpedida para novos destinos. Para este resultado muito concorrerão duas circunstâncias—as cruzadas e a emancipação das comunas.
Sabeis que os cruzados partirão da Europa com a convicção de que iam domar bárbaros, mas voltarão civilizados da Palestina.
Os novos processos que observarão, as aventuras porque passarão, a nova natureza que encontrarão, as artes diferentes que viram, deram-lhes uma avultada quantidade de noções cientificas de que aproveitou-se a indústria.
Entre as novidades que então se introduzirão na Europa, nota-se a fundição do ferro, a ciência dos números e a alquimia que produziu a química, porque procurando a pedra filosofal, começaram-se a fazer as análises dos corpos e de suas propriedades, e chegando ao resultado negativo que conhecemos, tinham os alquimistas a juntado todos os materiais destinados a construir o edifício da química moderna.
Do século Xll ao XVI o fato histórico que predominava sobre todos os mais é a luta da indústria contra o feudalismo, que teve por teatro toda a Europa.
Durante esse espaço de tempo tão longo, a indústria permaneceu estacionaria, se é que não retrogradou.
Não entraremos na análise das causas que o motivarão, continuemos somente a recordar a história.
Os reinados de Carlos V, Francisco I e Henrique VIII, marcam época aflitiva na história da indústria.
Esses três reis, absolutos, belicosos, insensatos quase que reviveram os dias do século X.
Mas nessa ocasião novos acontecimentos fizeram com que a balança do progresso pendesse para o lado da indústria.
Depois da queda de Constantinopla as artes tinham refluído do Ocidente para o Oriente.
Inventou-se a imprensa, descobriu-se novos mundos, campo mui vasto para a atividade humana, e para os quais corria a imigração, atraída pelo maravilhoso e pelo desconhecido.
Depois, por causa de uma questão de indulgência, o livro exame rompeu os derradeiros diques e penetrou no santuário religioso.
Caiu o velho edifício social, e outro, tendo por base a liberdade, e no qual a indústria ocupava largo espaço, começou a elevar-se.
Progrediu a ciência e conseguintemente a indústria que sempre segue seus passos.
Passaram-se, porém, ainda dois séculos antes que os progressos da química, física e mecânica coincidindo com outra revolução social, viessem dar à indústria os instrumentos que ela hoje possui.
Durante esse longo intervalo, posto que cada dia assinalasse um novo progresso, reinava ainda na indústria uma como que atonia que só a comoção imensa do século XVlIl podia remover.
Realizou-se nesse século a grande revolução francesa.
Baquearam os últimos preconceitos, desapareceram os derradeiros prejuízos.
A indústria estava livre.
Organizou-se o mundo novo, no qual ela ocupa um alto grau na hierarquia social, lugar esse legitimamente conquistado pelos seus trabalhos e vicissitudes.
Foi então que apareceram as exposições industriais, quando as últimas nevoas que empanavam o brilho da indústria acabavam de dissipar-se.
Vejamos quais as suas causas originais.
A transformação social de 1789 trouxe consigo uma necessidade imperiosa de permutar ideias e objetos, de compará-los para melhor chegar ao seu aperfeiçoamento, que tornou-se em breve parte integrante da vida dos povos.
Os progressos que, além disso, haviam feito a química, a física e a mecânica, nos últimos anos do século passado, de tal forma tinham modificado as necessidades e facilitado as locomoções, que não era mui penoso reunirem em um mesmo ponto os produtos dos países os mais remotos e de interesses os mais diversos.
Governava a França o Diretório.
Este governo vendo-se sem o auxílio da nação, sem raízes no coração do povo, tratava de por todos os meios angariar as simpatias dos manufatureiros e industriais, essa nova aristocracia que então erguia-se e tratava de constituir-se.
Nesse desejo, porém, de auxiliar a indústria ia também uma questão de nacionalidade.
Em luta com a Inglaterra a França já não queria somente vencê-la pelas armas, almejava também rivalizar com ela, suplantá-la se possível fosse, nos certames industriais.
Ora, para preencher todas essas condições nada melhor se afigurava do que a emulação, isto é, a reunião de todos os produtos em um mesmo ponto, a análise deles, e após esta prêmios e distinções aos que mais se avantajassem.
Na verdade, essa ideia parecia corresponder a todos os requisitos.
Estava em harmonia com as novas ideias do século, satisfazia os produtores, fazia com que a Inglaterra não se considerasse mais a única potência que propusera prêmios às artes, como fizera em 1756, e finalmente devia dar grande impulso á indústria francesa, porque a crítica dos artistas, o incentivo do prêmio, o desejo de aparecer erão poderosos estímulos que não podiam deixar de produzir os desejados efeitos.
Sendo, pois, ministro Francisco Neuf-Chateau, no ano VII da república francesa, levou-se ao cabo a realização da ideia.
Entre as festas que se celebrarão por essa ocasião, teve lugar a da indústria no Campo de Marte, onde elevava-se o seu primeiro palácio.
Modesto foi este ensaio.
Somente 110 expositores concorreram e 26 medalhas foram conferidas; e, entretanto, foi um resultado brilhante se considerarmos as condições anormais em que se achava a França. A sociedade ressentia-se ainda do grande abalo porque passara; dentro a guerra civil, fora a guerra europeia sem tréguas; não havia ainda leis que bem garantissem o trabalho, que, apenas dez anos antes tinha sido libertado; estava-se na época em que era mais preciso lutar, que trabalhar!
Portanto, Senhores, inquestionavelmente, esse resultado foi brilhante!
Demais, era uma coisa nova.
Somente os homens arrojados e inteligentes nela tomaram parte, e, vós sabeis, que são as mediocridades que abundam! ...
Quanto à momentaneidade da ideia, alguns não a reconheciam.
Anthenes, um escritor grego do século II, narra que Ptolomêo Phelemetor fizera reunir na soberba Alexandria tudo quanto a indústria de Thebas, Memphis e Egypto produzia então de mais aprimorado; demais, pretendem certos autores que as feiras da idade média não erão mais que exposições em miniatura.
Nesses fatos estribavam-se os objetores e afirmavam que a ideia tinha tido precedentes, não passando de uma imitação.
O simples bom senso está nos mostrando que essas tentativas isoladas, em épocas remotas, nas quais a indústria estava
em gérmen, não podem ser consideradas como precedentes das exposições que agora observamos.
Na frase de um ilustre escritor baiano — o fato da concorrência, estimulando as lucubrações do artista e dispensando foros de nobreza a inteligência, que supera obstáculos e alarga os horizontes do espírito humano, era totalmente desconhecido, e, se porventura o desejo despertasse em algum cérebro privilegiado, seria sem piedade esmagado pela intolerância de crenças e fatalidade de costumes que então dominavam!
Cabem ao Diretório pois, as honras da inovação.
Entretanto, estava dado o impulso.
O começo, esse grande obstáculo com que lutam todas as empresas, estava superado, só restava prosseguir.
Tencionava o Diretório renovar todos os anos a festa da indústria; mas só permitiram as circunstâncias que ela tivesse lugar pela segunda vez no ano IX, quando já governava o Consulado.
Foi duplo o número dos expositores; apresentaram-se 229.
Fez-se tudo em maior escala, devendo-se em parte esse resultado satisfatório ao primeiro Cônsul, que mostrava grande interesse em indagar de tudo, em tudo conhecer.
Logo após esta veio a terceira exposição, no ano seguinte, na qual já figuravam 540 expositores. Assim cada ano aumentando radicava se a inovação.
Onze vezes renovou a França as suas exposições, sem que o resto da Europa pensasse nas vantagens que delas se poderia colher. Em cada nova exposição notava-se o aumento no número dos expositores, porque o trabalho livre dava grande impulso à criação dos produtos.
Passaram-se anos, mas afinal reconheceu toda a Europa a
vantagem das festas industriais, e elas começarão a ser celebradas
por toda a parte.
Piemonte, Florença, Lucques, Madrid, Valença, até mesmo Washington na América do Norte, acompanharam a inovação.
Só a sobranceira Inglaterra, como que segura da sua importância industrial, desdenhava adotar medidas para fazê-la progredir.
Ou esperava, talvez, ocasião para fazer a sua estreia de um modo brilhante, como efetivamente fez, isto é, celebrar a sua festa industrial de uma maneira mais completa, mais nova, mais perfeita que todas as antecedentes.
Como já dissemos, as exposições cada vez revestiam novo caráter e adquiriam brilho maior.
Primeiro a agricultura, depois pouco a pouco as artes nelas
foram figurando. Surgiam invenções fecundas a cada instante,
e iam tomar parte nas exposições.
Assim, de reunião de produtos de um país que eram, passaram a ser revistas das forças, recursos e riquezas de uma nação.
Desde que atingiram a esse ponto, concebeu-se uma ideia mais larga e mais gigantesca: a reunião de todos os produtos do globo no mesmo ponto.
Apareceram as exposições universais.
Foi na Inglaterra, nesse país em que pode tanto a iniciativa, que realizou-se o primeiro ensaio dessas revistas das forças produtivas do globo.
A Sociedade das Ciências e Artes tomou a peito tão grande cometimento e dirigiu um manifesto ou convite a todas as nações civilizadas.
Quase todas acudiram ao apelo da Grã-Bretanha, e o palácio de Cristal viu reunir-se nos seus salões os produtos de todo o mundo. Concorrerão 17,062 expositores.
Dessa data veem todas as modificações, o caráter novo e completo dessas solenidades.
Não eram então, como já dissemos, senão o inventario mais ou menos exato das forças produtivas de um lugar, mas desde o momento em que todas as nações foram convidadas, e que pôde-se abranger com um só olhar as produções de todo o globo, cotejaram-nos, indagaram da sua origem e qualidades, e até mesmo estudarão o gênio e o caráter dos povos, pelos produtos que expuseram.
Pôde-se conhecer, diz Augusto Blanqui, que não há segredos industriais no mundo, que os processos da mecânica são os mesmos em toda a parte, que o melhor meio de provocar o consumo é aperfeiçoar os produtos e abaixar o preço. Muitas verdades apareceram e elas forno conquistas, não dos homens que lá iam unicamente com o intento de assistirem a um grande espetáculo, mas daqueles que iam com os olhos do corpo para ver e com a razão para pesar e julgar.
As exposições universais vieram mostrar que eram mal fundados os receios de emulação industrial, que todas as nações, longe de serem fatal e exclusivamente rivais, são altamente ligadas por seus interesses comuns, que umas não podem passar sem as outras sem dano e prejuízo recíproco, que todas estão dependentes umas das outras, que o sistema de guerra e de opressão não se inflinge a uma sem que outra se ressinta, resultando de tudo isso que o maquiavelismo político é de todos os sistemas o mais funesto e pernicioso.
Depois da exposição universal inglesa de 1851, Dublin, ciosa sem dúvida das glorias da metrópole, quiz fazer a sua exposição universal em 1853,
Mas como só aconteceu aos ambiciosos que muito pretendem, foram malogradas as suas esperanças de sucesso.
Apenas 3,300 expositores lá concorrerão.
No mesmo ano Nova York tentou também fazer o mesmo, mas o grande obstáculo de um oceano a transpor tornou pouco concorrida a festa industrial americana.
Dois anos depois, em 1855, fez Paris a sua primeira exposição universal, á qual concorrerão 27.779 expositores.
Em 1861 fez Florença a sua, e em 1862 renovou Londres o grande espetáculo de 1851.
Portanto, as exposições foram passando para os hábitos dos povos.
Milão teve duas, Nápoles uma em 1853, Gênova, Munique, Copenhague, Christiania, Bruxelas tiveram as suas, e até Santiago do Chile uma em 18M, e Roma em 1856.
Mas estas exposições imitando a de Londres não tiveram traço algum característico que fizesse distingui-las das outra; e que lhes desse importância verdadeira.
Checamos finalmente a grande exposição universal francesa em 1867.
A 22 de Junho de 1863 foi promulgado o decreto imperial relativo à sua organização.
Nomeou-se uma comissão de quarenta e um membros para discutir o lugar em que devia elevar-se o edifício, que depois de muitas dúvidas foi construído definitivamente no campo de Marte.
Durarão os trabalhos 6 meses, sendo chefe dos engenheiros o Sr. Krantz.
O Sr. Kaempfen, um escritor alemão, assim descreve o resultado deles: O campo de Marte não é mais do que uma recordação e um nome.
O deserto tornou-se o lugar mais habitado do mundo ou mesmo o mundo inteiro, porque a Europa, a Ásia, a África, a América e a Oceania com seus tipos humanos, seus animais, suas plantas, seus minerais, seus produtos naturais, sua ciência, suas bellas-artes estão naqueles 40 hectares. Um número prodigioso de edifícios, de todas as formas, de todos os estilos e de todas as épocas se ergue do meio das arvores. Os zimbórios, os campanários, as chaminés, as torres, os faróis destacam-se no céu.
No centro dessa confusão o arco de uma imensa elipse. É isso que se vê agora de longe no lugar onde outrora existia o campo de Marte.
Esse todo, esse conjunto, tão estranhamente diverso, essa Meca da peregrinação de todos os povos da terra é a Exposição Universal Francesa de 1867.
O palácio da exposição ocupava um espaço de 151,000 metros, e nele figuravam 42,217 expositores, dos quais 1,037 do Brasil. Mas os que guiando-se pelo nome do palácio, julgavam encontrar no campo de Marte, um edifício imponente, com severas linhas arquiteturais, que justificassem o título, sentiam grande surpresa, porque na verdade, com seus toldos de zinco, suas pilastras de ferro, suas claraboias de vidro, assemelhava-se mais o edifício a um imenso gasômetro.
Uma das grandes dificuldades com que lutou a comissão foi a classificação dos objetos.
Nesse ponto realizou se uma inovação já proclamada pelo príncipe Napoleão em 1855.
O edifício foi dividido em galerias concêntricas paralelas, onde eram colocados os produtos análogos.
Outros raios partindo de um jardim central, marcavam com a sua intersecção nas concêntricas o espaço ocupado por cada país.
Quanto aos objetos foram divididos em grupos e subdivididos em classes. Erão 95 as classes e 10 os grupos, os quais vou relatar-vos:
1° grupo: Compreendia obras de arte.
2° grupo: Materiais e aplicações das artes liberais.
3º grupo: Moveis e outros objetos de casas.
4° grupo: Roupas, tecidos e objetos de uso pessoal
5º grupo: Matérias primas, isto é, produtos de indústrias extrativas.
6º grupo: Instrumentos e processos das artes usuais.
7º grupo: Alimentos.
8º grupo: Produtos vivos e espécimens de estabelecimentos de agricultura.
9º grupo: Produtos de estabelecimentos de horticultura.
10° grupo: Objetos expostos com o fim de melhorar a condição física e moral da população.
Diziam que havia uma ideia filosófica nesta classificação.
No centro a inteligência, o espírito nas suas mais altas manifestações, verdadeiro sol, calor e luz intelectuais.
Depois, pouco a pouco, ao passo que ia-se afastando das primeiras galerias ia-se também encontrando a matéria, até que por fim encontrava-se na galeria n. 7 os alimentos, nos quais estava expressadas mais fortes necessidades físicas do homem.
Refere, porém, um escritor francês - que visitou a Exposição e confessa ter achado tanta filosofia ao grupo 2°, onde figuravam dentaduras, banheiros, etc, como no grupo 7°, onde saborosos licores eram às vezes servidos pelas mais graciosas mãos.
Nesse grupo 7º existia a mais curiosa linha de restaurantes que jamais se viu.
Eram de toda a espécie e qualidade, podendo, portanto, os consumidores fartar-se á vontade.
Vinham primeiramente três imensos restaurantes franceses.
Depois o Café de Alger, em que se era servido á Africana,
O Café Holandês, no qual encontrava-se magnífico Curaçao.
O Café Espanhol, servido por lindas Andaluzas de mantilha.
O Café Dinamarquês, onde encontravam os apreciadores excelente kümel.
O Café Sueco, servido pelas louras filhas de Stockholmo.
O Restaurante Russo, curioso por causa de seus serventes cossacos.
O Café Inglês, notável pela gravidade que nele todos revestiam.
O Café Americano, notável pela limpeza e regularidade no serviço, etc, etc, etc.
Além destas curiosidades, outras de não menos valia, encerrava a Exposição.
Tinha galerias de história e de trabalhos, onde via-se magníficos museus e grandes coleções; Galerias de obras de arte; Galeria de mobílias; Galeria de roupas; Galeria
de pinturas; de máquinas, onde via-se o progresso que tinha feito o homem domando as forças da natureza.
No parque via-se edifícios de todos os gêneros arquiteturais, sobressaindo um pavilhão chinês, construído segundo esse estilo que dá aspecto tão estranho às cidades do celeste império.
Havia aí monitores, wagons, carrilhões, máquinas de Friedland, mergulhadores, enfim, tudo quanto pode ser considerado como curiosidade.
Tal foi, senhores, a magnífica exposição Francesa de 1867.
Um escritor francês no seu entusiasmo um pouco exagerado, como soe ser o de todos os franceses no que respeita a sua pátria, diz- que da mesma maneira que a Reforma de Luthero, pela sua importância e pelo muito que se distancia de todas as que tem havido é conhecida na história unicamente pelo nome de Reforma, sem qualificativo, que da mesma sorte que a revolução de 1789, pelas mesmas razões é conhecida pelo nome de Revolução sem mais nada, a exposição de 1867 deve ser designada pelo simples nome de Exposição.
Depois da exposição de 1887, coube a vez a capital da Áustria de dar ao mundo o grande espetáculo de uma exposição universal em 1873.
Concorreram cerca de 50,000 expositores, e a Paris do centro da Europa viu reunirem-se no Prater os soberanos de quase todas as potências europeias, notando-se também o famoso Schah da Pérsia, que tão celebre se tornou.
A exposição foi inaugurada em maio e encerrada em novembro, sendo visitada nesse espaço de tempo por uma quantidade extraordinária de pessoas que produzirão avultada receita.
Dizem que a exposição de Vienna rivalizou em brilho com a de Paris de 1867; mas eu sou tentado a afirmar que não, à vista das circunstâncias anormais em que então se achava a Europa.
Travara-se uma luta de morte entre duas das suas mais importantes potências, e os franceses, apesar do seu heroísmo e coragem, tiveram de recuar diante das disciplinadas e aguerridas falanges d'além Rheno.
Praças de imensa importância industrial foram saqueadas, destruídas, bombardeadas. Sofreu a indústria enormemente, e a França, que tão brilhante papel representara nas outras exposições, empregando então todos os seus esforços para o pagamento da dívida de honra, não pôde concorrer senão com fraco contingente para a festa industrial de Vienna.
Por outro lado, a Alemanha, conquanto vitoriosa, no meio do reboliço das armas e das agitações militares, não também cuidar pôde na indústria como fizera nas antecedentes exposições.
Demais, no próprio ano da exposição passou Vienna por uma grande crise que certamente influiu na indústria.
Os produtos brasileiros foram muito apreciados nessa exposição, contemplando todos com admiração e entusiasmo as riquezas e recursos da nossa pátria.
O Brasil, que em Londres tinha obtido 96 medalhas, e 47 em Paris, alcançou aí 204, sem contar menções, diplomas de bom gosto etc..., etc...,
Um desses diplomas fez mesmo que se reabilitasse nos mercados europeus o nosso café que achava-se em crise.
Depois da exposição de 1873, nenhuma outra se realizou que tivesse importância verdadeira. Fazem-se, porém, grandes preparativos para a que tem de efetuar-se em Philadelphia no corrente ano
Desejando comemorar dignamente o aniversário secular da grande república, resolveu o congresso que se celebrasse naquela cidade uma exposição universal, tão grande, completa e perfeita, que delia as antecedentes não são mais que simples ensaios.
Revela-se aí ainda uma vez o espírito dos americanos, que não acham nada melhor para celebrar a sua independência, do que uma festa que possa influir a bem de sua indústria.
Não é essa entretanto, a primeira exposição universal americana.
New York já teve a sua em 1853, que, como já disse, foi pouco concorrida.
Além dessa, outras exposições de pequena importância têm tido lugar nas cidades da União. — Tais são, senhores, as festas industriais que se têm celebrado no velho continente e na América Setentrional; vejamos agora as da América do Sul. Das repúblicas de origem espanhola, é o Chile a única que tem tido exposições industriais, contando já Santiago duas internacionais, uma em 1856 e outra em 1875. Os outros pequenos estados, sempre ocupados com a política e dilacerados por guerras civis e discórdias intestinas, não têm tido tempo de cuidar na indústria.
As exposições de Santiago têm sido modestas e pouco concorridas, mas em todo o caso cabe-lhe a glória de ser a única cidade da América do Sul que realizou exposições internacionais.
Quanto ao Brasil, a primeira exposição que concorreu foi a de Londres, figurando depois em todas as mais.
Mas, foi mais tarde, quando a ideia já era vantajosamente conhecida em todos os países, que ele empreendeu realizá-la.
A assembleia provincial mineira de 1860, foi a primeira que decretou uma exposição que teve lugar em Ouro-Preto nesse ano Depois destas algumas províncias têm seguido o exemplo. Já realizámos quatro exposições gerais: uma em 1861, outra em 1866, outra em 1873, e finalmente a que encerra-se hoje.
Essas exposições, porém, apesar da atividade particular que, cumpre confessar, tem auxiliado os esforços do governo, e dos trabalhos relevantes da digna comissão, de que vejo presente um dos membros mais distintos o Sr. Conselheiro Homem de Mello, não têm exibido todas as nossas riquezas, têm sido pobres de nossos produtos.
O estrangeiro que não conhece todos os nossos recursos, ao ver os que figurão na exposição, sente-se cheio de admiração, e dos lábios desprende-se-lhe um grito de entusiasmo; mas nós brasileiros que sabemos quanto a mão da Providência foi pródiga para conosco, que temos consciência de nossas forças, devemos confessar que os produtos que tão ricos se afiguram aos outros, são tristes e fracas amostras dos tesouros que possuímos. A indústria acha-se atrasadíssima entre nós e disso vou dar-vos uma prova.
Conheço nesta corte um distinto alemão que estabelecendo uma fábrica de sabão e de sabonetes, desejava que todas as matérias primas para o fabrico do seu produto fossem fornecidas pelo país.
Tensionava, por isso, mandar vir da Bahia o azeite de coco. Sabeis que resposta teve? Não só todo o azeite de coco que produz a Bahia não era suficiente para manter a sua fábrica durante seis meses, como ficava-lhe pelo dobro do preço do que mandava vir da Europa, proveniente da Índia. E todos sabem quanta abundância de coqueiros há na Bahia, e que grandes vantagens haveria se a indústria deles se aproveitasse.
O Brasil prepara-se também para figurar em Philadelphia, onde sem dúvida, seus produtos representarão conspícuo papel entre os das outras nações.
Tal é, senhores, o resumo imperfeito e tosco das principais festas industriais que têm sido celebradas.
Como acontece a todas as inovações, contestarão os críticos a utilidade destas solenidades; censuraram-lhes não ser mais do que a vã ostentação de forças inutilmente consumidas, um luxo industrial, uma festa feita unicamente para satisfazer a vaidade nacional.
Tomarão os efeitos pelas causas.
Em princípio, diz Ulément Royer, as exposições não podem ser atacadas seriamente.
Não acontece o mesmo com a apuração, porque toda a prática de uma teoria excelente pode ser má, segundo o espírito ou a mão que a dirige. Não entraremos na análise desse ponto. Mas quanto à ideia das exposições universais, é incontestável que é grande, fecunda, gloriosa, porque ao lado de um fim útil, de resultados científicos e industriais, de pontos essencialmente práticos, que delia fazem poderoso instrumento de civilização e progresso econômicos, tem lados generosos e desinteressados que fazem delia um instrumento de progresso moral e humanitário.
Na organização das exposições, atacarão os críticos de preferência a instituição do júri, por causa das distinções imerecidas e decisões errôneas por ele proferidas. Mas se eles querem perfeição, baquearão necessariamente, se querem suprimir as recompensas por causa dos abusos, voltarão ao antigo sistema, empregado antes de 1789.
Para prevenir um mal encontrarão outro maior.
Não! É preciso não limitar-se o horizonte aos que trabalham unicamente aos proveitos materiais. É mister que eles possam obter também uma recompensa para seus trabalhos que não somente lisonjeia, mas eleva o espírito. A honra de uma distinção militar faz bater alvoroçado e contente o coração do soldado e serve-lhe de incentivo para novos fritos.
O mesmo acontece com os soldados das imensas revistas industriais, que nosso século tem apresentado.
Porque, pois, tornar essa honra privilégio de certos serviços e carreiras? Por que não fazer dela a alma da indústria?
Transforme-se o júri, realize-se a ideia do príncipe Napoleão, que dizia: “O fim principal do júri deve ser assinalar aos produtores os aperfeiçoamentos e chamar a sua atenção para os pontos em que há a desejar.”
Torne-se o júri de recompensas em júri de estudos, mas não supprimão-n'0 que suas vantagens são incontestáveis!
Apesar, porém, desses e de outros ataques, a ideia das exposições tem sido acolhida por todos os povos e tem-se radicado no espírito de todos.
Cada época e cada século tem a sua feição característica que o distingue dos outros.
A do século XIX é a exposição industrial, que substituiu as liças e torneios das eras passadas.
Por enquanto só a velha Europa e a América do Norte têm dado ao mundo esses grandes espetáculos, mas em breve todos os povos e todas as cidades quererão ter as suas exposições universais, acontecendo com elas o mesmo que com as feiras da idade média, que foram-se radicando cada vez mais, até que por fim realizavam-se periodicamente em lugares determinados.
O Brasil mui breve poderá imitar o nobre exemplo das outras nações, se auxiliar, aumentar e desenvolver a sua indústria.
Mas, para alcançar esse resultado é preciso que os produtores tenham mais perseverança e os consumidores mais patriotismo.
É mister que os primeiros se convenção que todas as empresas, por mais auspiciosas que sejam, têm de lutar no começo com milhares de obstáculos, e contrariedades, diante dos quais não se deve desanimar.
Primeiro vêm espinhos, após flores!
Primeiro a procela, após a bonança!
Os segundos devem convencer-se também que os produtos estrangeiros não são os únicos perfeitos.
Considerem os nacionais com os olhos da benevolência e não com os do desdém e da má vontade, que todos os seus defeitos desaparecerão por encanto.
Propaguem-se estas verdades, povoem-se todos os nossos rios de embarcações destinadas a trazer do interior os nossos produtos, cubram-se de estradas de ferro os nossos sertões, espalhe-se a instrução por todas as classes sociais, fazendo desaparecer os preconceitos, e em breve, senhores, n'uma cidade populosa e rica se elevará um edifício grandioso, onde se reunirão representantes de todas as nações da terra, atônitos das riquezas e tesouros aí exibidos, e sobre ele tremulará ovante aos ventos a bandeira auri-verde, que será então o símbolo augusto do progresso — o estandarte da civilização!
(Aplausos. Muito bem! Muito bem!)
Localização
- Conferências Populares, Rio de Janeiro, nº1, jan.1876, p. 65-83. (na integra). Capturado em 29 set. 2025. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/DocReader/278556/67
Ficha técnica
- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.
- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.
Forma de citação
Conferência Popular da Glória nº 159. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 2 fev.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=742
Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz – (http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br)