Conferência Popular da Glória nº 160

De Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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Data: 25/01/1876.

Orador: Augusto Cesar de Miranda Azevedo

Título: Águas minerais do Brasil

Aviso, íntegra ou resumo: Íntegra

Texto na íntegra

“Minhas senhoras, meus senhores.

Eis-me de novo nesta tribuna pugnando por um dos assuntos mais interessantes, sob qualquer ponto de vista que o estudemos, para nossa pátria. As águas minerais do Brasil devem constituir hoje o objeto especial da minha conferência, e vos disse que este assumpto era digno de atenção por qualquer lado que o encarássemos, porque pelo lado terapêutico, creio que já na minha primeira conferência, implantei no animo d'aqueles que honraram-me com sua assistência, as "vantagens incontestáveis que resultam desta classe de medicamentos.

Pelo lado econômico ou financeiro os estabelecimentos, destinados à sua administração se constituem centros de todos os movimentos, quer de riqueza, quer de sociedade. Eles levantam-se na Europa, atestando suficientemente pela eloquência dos algarismos os bons resultados que a nossa pátria poderia tirar, da criação de estabelecimentos idênticos sustentados quer pela iniciativa do governo, quer pela iniciativa particular, aproveitando-se para isso dos imensos recursos que a natureza nos outorgou com tão larga mão. Pelo lado da civilização, como meio de atrair imigrantes instruídos, também não se pode duvidar das suas vantagens. Seriam outros tantos focos de luzes levados para o interior de nossas províncias espalhando pelo exemplo a instrução e a civilização.

Eu creio que pelas ideias gerais que vos expus anteriormente ficou no animo de todos que as águas minerais tinham uma ação sobre certas moléstias, e isso não se podia duvidar á vista de factos que vos narrei.

Esbocei rapidamente, para tornar menos fatigante e menos árida a minha exposição, o histórico do emprego das águas minerais na antiguidade, e indiquei o cuidado com que os gregos, e sobretudo os romanos, se entregavam á construção desses edifícios cujas ruinas ainda hoje se admiram.

As escavações feitas, em lugares próximos às fontes termais, têm descoberto muitas inscrições, medalhas e outros utensílios que atestam este facto, e que esclarecem muitas questões concernentes ao uso das águas minerais nas eras remotas da história da humanidade. Mostrei que n'esse ponto eles erão talvez mais cautelosos, sábios e prudentes que os modernos; descrevi todo o processo porque passava o banhista desde antes de sua entrada na água até à sua saída, que não era como acontece hoje repentinamente para o ar exterior; depois citei alguns episódios que constituirão a parte anedótica dessa conferência; porém, esqueceu-me de combater um prejuízo que tem-se enraizado em relação às águas minerais. Hoje me ocuparei com ele.

Como tipo das águas puramente potáveis e dos minerais vos ofereci, entre outras as águas pluviais, e para a segunda espécie as do mar, essa imensa porção de água mineral impregnada de princípios ativos, e cujo uso, principalmente em banhos, com ação tópica é reconhecida por todos, nem pode ser posta em dúvida mesmo por aqueles que querem negar a atividade e ação externa dos medicamentos.

Mas, senhores, quando a química e outras ciências médicas não estavam tão aperfeiçoadas, não tinham atingido ao desenvolvimento que têm chegado hoje, quer na antiguidade, quer na idade média, essas águas minerais, essas fontes cuja composição não podia ser conhecida pelos químicos, eram chamadas e reputadas águas santas e águas virtuosas.

Essas crenças poéticas dos povos nossos antepassados, as virtudes sobrenaturais que atribuíam a fontes minerais, confundidas com outras fabulosas que ora faziam com que desaparecessem os sentimentos do amor, ora faziam com que ele nascesse, e mesmo surgissem outros sentimentos até opostos, qual o ódio, como que revivem hoje sob outra fôrma talvez mais prejudicial.

Esqueceu-me dizer que ainda na atualidade, apesar dos progressos científicos, algumas águas em que a ciência, a química e a razão não podem encontrar propriedades medicinais são tidas como santas e virtuosas por uma parte dos povos, sob o jugo de fanatismo, e propagadas ardentemente por esses obreiros antes da perversão humana, que de uma religião moral, que as proclamam novas panaceias e servem-se delas como meios de especulação, meios verdadeiramente barbares e anti-civilizadores.

Se trato deste assumpto é porque sei que essa mercancia perniciosa já transpôs o oceano, que essa especulação, ganha terreno entre nós, de modo a muitas vezes impedir o médico, e a ciência de pouparem e conservarem vidas preciosas, deixando que a morte, a troco de algum dinheiro, e de um tráfico indigno, roube essas existências; e as vítimas que julgavam-se salvas tomando águas de La Salette e de Lourdes caem feridas por seu grosseiro fanatismo e por uma imoral e perversa traficância.

É contristador que a civilização do século XIX ainda não tenha podido de um modo vitorioso acabar com todos estes prejuízos e superstições dos povos antigos, e que são mantidas em proveito de uma classe tão inimiga do aperfeiçoamento da vida social.

Eu não virei contar aqui todas as maquinações e toda a história vergonhosa que em França provocou um inquérito e um processo que fez desaparecer a santidade da Água de La Salette; nem vos revoltarei narrando os pseudo-milagres que atestam a santidade da água de Lourdes, que ainda é tida como milagrosa, santa e por isso vendida em frasquinhos, e garrafas que nem tem o mérito de serem mais ou menos caprichosamente cinzeladas ou cobertas de desenhos artísticos; essa água comum transportada d'além do oceano, vem para o seio de nossas famílias recomendada por uma classe de gente que é um dos elementos mais perniciosos da sociedade, plantar entre nós diversos abusos e erros todo o homem amante que de seu pais e do século XIX, deve combater com todas as veras de sua inteligência.

Mas, senhores, esses vestígios das ideias religiosas e das virtudes santas atribuídas às águas minerais ainda existem em nossa pátria, e d'aí vem os títulos de santas e virtuosas crismando águas que a química demonstrou a composição, e, portanto, deu a razão de ser de suas propriedades terapêuticas.

Precisa-se principalmente daqueles que tem alguma ilustração para a propaganda, contra os nomes falsos, contra esses rótulos enganadores que podem incutir no ânimo do povo, no ânimo dos menos instruídos, uma ideia de virtude sobrenatural que não existe nessas águas. E não se diga que é simplesmente uma propaganda a favor da civilização não; há aí também o sentimento de brasileiro; e na qualidade de médico eu me pronuncio fortemente contra essa ideia de maravilhoso dado às águas minerais. Assim nós vemos' senhores, que iludidos com o título de santas ou virtuosas recorrem a elas, doentes cujas afecções não podem encontrar indicação terapêutica nem cientifica. Em uma estatística anexa ao relatório de um presidente da província de Minas vejo que entre aqueles que recorrerão às águas minerais de Baependy se acham doentes de catarata, de loucura e de outras afecções que seria ridículo aconselhar o tratamento por tal agente.

Este expediente é adotado por aqueles que, não compreendendo os recursos fornecidos pela ciência, procuram um alívio nesses e outros meios, porque julgam sobrenaturais e milagrosas, as águas santas.

Eu podia fazer uma comparação e dizer que esses conselhos dados aos doentes de catarata só pôde comparar-se á cura desta moléstia anunciada pela homeopatia. Mas enfim nem o auditório estaria disposto a ouvir doutrinas puramente científicas e talvez áridas, nem o lugar é próprio para isso mas sempre direi que a simples ideia da catarata, destrói completamente a crença de curas pelo simples tratamento interno da homeopatia e, portanto, das águas minerais

Mas, senhores, feito este protesto contra o rotulo enganador de águas santas ou virtuosas, não pretendendo repetir as generalidades que já vos disse na precedente conferência, devo entrar no assumpto mais especial, qual o das águas minerais do Brasil. Antes, porém, de entrar no estudo dessa riqueza imensa que ainda um dia ha de ser tão profícua para o país, permiti, que sinta, que lamente profundamente o desprezo em que são tidas as nossas águas minerais. O uso e aplicação das águas minerais na Europa nem sempre eram tão aconselhadas quanto devia, ser, e por um simples motivo, porque a ignorância, que existia na classe médica a respeito das suas composições e propriedades terapêuticas, era geral; esta verdade para a Europa foi denunciada por hidrologistas distintos: referindo-me ao Brasil que direi? - Há a mesma ignorância em geral a respeito da hidrologia, ignorância da qual eu partilho. Não quero cair na mesma censura que já incorri quando tratei do darwinismo, pois se disse que eu me apresentava como único sabedor dessa doutrina, por essa razão, confesso que não sou o mais habilitado na hidrologia médica. Continuando, direi que esta ignorância, que temos todos deste ramo de conhecimentos médicos, ainda se torna mais lamentável a respeito da hidrologia brasileira.

Procurai com afinco, perguntai aos homens que entre nós passam o seu tempo nos gabinetes, nas bibliotecas a procurar informações sobre o Brasil, quantas obras, quantos livros quantos trabalhos, quantas linhas há escritas sobre as nossas águas minerais eles vos responderão que nada ou quase nada.

Assim, ainda hoje é muito sem interesse o trabalho que vai representar o Brasil na exposição de Philadelphia, esse trabalho que esteve na Exposição Nacional, e que compulsei ali tanto quanto era suficiente para ver que n’esse ponto não era mais que a repetição do livro que foi representar o Brasil em Vienna.

Essa parte do livro é muito deficiente; nada de positivo nada de preciso diz sobre as águas minerais do Brasil e omite ainda até os nomes de algumas das mais conhecidas de todos e já de a muito experimentadas. Por exemplo, não vereis nem sequer a menção das águas de Lage de Santos na província de S. Paulo tão conhecidas como recurso terapêutico, ainda vereis esta omissão em relação a muitas outras. E sabeis a razão, senhores? É porque eles foram tirar essas informações por assim dizer, quase ipsis verbis de um livro escrito em 1844, do qual já vos tenho falado, é o livro do Dr. Sigaud sobre Clima e moléstia do Brasil. De sorte que temos a lamentar que trinta anos depois nem o governo, nem a iniciativa individual possam ter dado maior cunho científico ao estudo dessas águas só então estudadas, e ainda vemos muitos erros grosseiros subsistirem na crença e na opinião não só do povo, mas até de profissionais. Esses erros têm curso forçado pelas próprias publicações oficiais, livro pois no para Philadelphia vereis classificadas em grupos a que não pertencem águas minerais, que não são sulfurosas, e outras faltas mais censuráveis ainda se depara aí.

Essa mentira que enviamos para o certâmen industrial dos povos livres e civilizados devia de nos envergonhar e servir de incentivo para mais circunspecção já no estudo das águas minerais e de outros pontos, como também na confecção de escritos destinados a oferecerem informações acerca do Brasil. Não quero incorrer em outras faltas que tenho denunciado por isso para não classificar indebitamente águas minerais em grupos a que não pertençam, e assinalar propriedades que não possuam, deixarei de seguir uma classificação rigorosa- mente cientifica na descrição das fontes minerais brasileiras.

Para evitar esse inconveniente, seguirei a divisão por circunscripções geográficas, caminhando de norte para sul; tenho em favor deste meu proceder as autoridades do Dr. Constantino James e de Rotureau, ambos hidrologistas notáveis e considerados.

Mas, senhores, antes de entrar na exposição propriamente dita sobre as nossas águas minerais, ha ainda um outro fato que eu quero lamentar, não só como brasileiro, mas especialmente como médico.

Novel na carreira, sem grande experiência clínica, e por- tanto sem poder aduzir em favor das minhas proposições factos clínicos próprios, procurei ainda uma vez, devendo estar já desiludido, o recurso e o conselho dos mais velhos, dos mais instruídos e sabidos do que eu; e julgo tanto mais instruídos e sabidos que vede que se trata de uma questão de águas minerais e nenhum dos colegas, nem um dos membros da comissão, e que foram os primeiros convidados para fazer estas conferências, dignou-se de vir esclarecer-me com o seu conselho, nem ao menos para, auxiliar com a sua crítica mais instruída o orador que vos falia. Dirigi pedidos por escrito, espécie de circulares, que por não serem eleitorais não foram atendidas, a alguns colegas, por saber que estavam em lugar apropriado para isso e tinham ilustração suficiente para me esclarecerem, fui ainda autorizado por algumas relações de amizade ou conhecimento que me indicarão esse proceder. Pois, senhores, desses apenas obtive uma resposta, e devo dizer esse nome que é o de um dos médicos mais distintos que conheço, faço-o e ainda por gratidão, quando não fosse por justiça, devida à sua inteligência e vasta instrução; refiro-me ao Sr. Dr. Luiz de Mello Brandão, que na província de Minas foi o único que dignou-se responder. É verdade que um ou outro médico distinto desta capital deu-me algumas informações verbais, e outros prometeram observações mais completas; fique consignado que lhes dedico aqui o voto de gratidão, porém, e principalmente ao Dr. Mello Brandão, que foi o único, como disse, que respondeu com uma exposição longa e minuciosa, a qual infelizmente chegou um pouco tarde, de sorte que delia não pude colher todo o benefício que devia ter de suas preciosas informações, graças à irregularidade proverbial do nosso correio, que pôde ser considerado o tipo do descuido e pouco escrúpulo de uma repartição deste gênero.

Portanto, senhores, depois de feitas estas considerações gerais, estas queixas de família, entrarei no assunto.

As províncias do Brasil, quanto ao assumpto que tratamos, dividem-se naturalmente em dois grupos; um constituído pelas que contém em seu território grande nu- mero de fontes de gêneros diferentes, como as de Minas Geraes, S. Paulo, Bahia, etc.; outras pouco favorecidas nesta riqueza e possuindo raras fontes minerais, ou de uma só espécie como as províncias do Rio de Janeiro, Maranhão, rara, etc.

Pode-se afirmar como proposição geral e oferecendo muito pouca excepção o seguinte: que tanto mais rica é uma província em fontes minerais, quanto mais abundantes é em princípios mineralizadores o seu solo. Esta verdade decorrerá naturalmente da minha exposição acerca do Brasil, como já tem aparecido do estudo dos hidrologistas em referência a outros países.

Entremos nesse estudo.

Até hoje, que eu saiba, não falam os autores em fontes minerais nas províncias mais setentrionais do Brasil, que esperam ainda um Colombo que as descubra.

Talvez perdidas nos nossos relatórios oficiais de presidentes ou ministros se achem algumas breves notícias a esse respeito; mas para a turba do povo e dos deserdados nada consta.

Oficialmente portanto a província do Amazonas e Pará não possuem fontes minerais.

Procurando, porém, ir até onde não foi o governo, a esse respeito posso noticiar pelo menos a existência de uma interessante fonte de águas termais na província do Pará, que foi até visitada por pessoa de mérito científico, que graciosamente ministrou-me ligeira notícia sobre ela.

Devo o seu conhecimento á informação do Sr. Dr. Silva Coutinho, distinto engenheiro, cujo nome é conhecido por todos quantos prezam as glorias do país. Esta fonte foi estudada por ele na província do Pará. Fica na comarca de Santarém perto da vila de Monte-Alegre, município deste nome: portanto próximo à lagoa do mesmo nome e do rio das Amazonas. Segundo ainda esse distinto engenheiro, a temperatura dessa fonte é de 35° cent., e essas águas são sulfurosas.

Ora, senhores, é incontestável a vantagem que se pode auferir dista fonte mineral de Monte-Alegre, porque a simples noção geográfica do Brasil nos mostra que zona imensa com grande população está carecendo de aproveitar os benefícios dessa água, indicada em muitas moléstias próprias dessas regiões tropicais. E até me atreverei a indicá-la pela primeira vez em uma moléstia que reina atualmente em alguns pontos do norte do Brasil, o beriberi.

Bem que sobre este assumpto haja muito pouco escrito, pertenço aqueles que o têm melhor estudado; portanto, com razão posso apresentar uma opinião nessa matéria.

O beriberi  é tido como muito grava; poderá colher grandes benefícios e grandes vantagens com o uso dessas águas termais, com muito mais comodidade para os habitantes dessas regiões, evitando assim um transporte para a Europa ou para outra província mais meridional do Brasil.

Também essas aguas, contra o reumatismo crônico , se encontra as moléstias constituídas por catarros antigos serão um belo recurso, bem como já disse, contra o beriberi, que é caracterizado pelo enfraquecimento geral, e quase sempre pela forma paralítica.

Seguindo do norte ao sul, na província do Maranhão, encontro notícia de fontes minerais sem determinação de natureza, e, portanto, de uso terapêutico, nas comarcas da Chapada e da Carolina, estando próximas da vila da Chapada e da Carolina.

Nos arrabaldes da capital dessa província existem algumas fontes apreciadas de águas férreas; nos lugares denominados Ilha da Capital e da Gamboa, se encontram pequenos riachos de aguas férreas, das quais não existem análises científicas qualitativas ou quantitativas.

Segue-se lhe a província de Piauí, que apenas contém no seu solo fontes conhecidas de águas férreas nas comarcas e municípios de Paranaguá e do Principe Imperial; quanto a estudos, direi sempre o mesmo: nada de preciso ou de positivo.

No Ceará existem na mesma latitude, a ser exato o Atlas do Brasil do Sr. Candido Mendes, importantes fontes minerais junto das vilas de Tamboril e Santa Quitéria, esta na comarca do Sobral e aquela na do Ipú; mais ao Sul na comarca do Crato, e junto dessa cidade, existe uma outra fonte mineral como as antecedentes classificada entre as sulfurosas por uns e por outros de salinas!

Na dúvida que procede desta falta de estudos sérios, limito=me a assinala-as simplesmente, e esperar que algum futuro ministro ou mesmo presidente, por moléstia própria, careça de saber ao certo as suas propriedades.

Esta província ainda possui a alguma distância de capital Fortaleza sua uma fonte termal que tem por temperatura 34º a 35º, em um local conhecido por Pagé. Corre ainda o boato de que essa fonte é sulfurosa.

Não vos impacienteis, senhores, pela ignorância e falta de estudos que sempre tenha a denunciar-vos quando referir-me a maior parte das nossas fontes minerais; façamos todos os esforços para que dessa indignação nasça alguma coisa do útil e sério qual o seu estudo o exame por pessoas habilitadas e competentes.

Nas comarcas do Mossoró e do Seridó, na província do Rio-Grande do Norte, também se encontrão fontes termais sendo uma perto da vila do Apody e outra a poucas léguas da vila do Principe. Dizem que são sulfurosas, sendo a de Apody frequentada por indivíduos que sofrem de moléstias cutâneas, que às vezes conseguem excelentes curas.

Que resultados de riqueza e colonização não colheriam estes dois pontos de uma das províncias menos desenvolvidas do Brasil se o governo provincial ou o geral procurasse fundar estabelecimentos balneários que chamassem para aí a concorrência e a vida atraídas pela esperança da cura e tantas moléstias que termo no seu emprego o lenitivo?!

A bela província do Pernambuco, embora possua muitas fontes minerais em seu seio, não tem cuidado em mandar proceder a um estudo e análise regular sobre a composição e indicações terapêuticas, e nem o Sr. João Alfredo lembrou-se de ver as águas de sua província natal podiam servir para mitigar-lhe os sofrimentos.

Contém esta província diversas fontes ferruginosas perto das cidades de Recife e de Olinda, três perto desta última, e outras, como sejam em Morteiros, e uma em Epipucas.

No município de Pajeú das Flores existem abundantes fontes minerais, algumas das quais tem composição química e propriedades terapêuticas semelhantes às das fontes de Caxambú e Campanha, que serão estudadas mais tarde.

Finalmente vou regozijar-vos um momento com a notícia das fontes minerais da Bahia que oferecem alguma coisa de mais positivo e menos vago.

Assim, há algumas análises, e eu sei que há estudos feitos, mas não conheço os resultados positivos porque não obtive nem indicação do lugar onde foram publicados esses estudos nem ainda onde podem eles ser encontrados. Assim, dizem que os Drs. Silva Maia, Ferreira França e outros, a investigações procederão interessantes sobre as águas de Itapicurú; a única informação que tenho desse facto é a fornecida pelo Dr. Sigaud.

Peço ao auditório que tome nota das datas em que se fez esse estudo por ordem da assembleia provincial da Bahia.

Em 1843 foi uma comissão composta do Dr. Eduardo Ferreira França, do farmacêutico Rodrigues, e de outros cujos nomes me não recordo, examinar e analisar cientificamente a composição e as propriedades das águas do Itapicurú,

que, segundo dizem, são termais e sulfurosas, muito boas para as moléstias cutâneas.

Creio que, à vista dessa análise feita em 1843, espalhou-se a crença e opinião de serem essas fontes de águas termais e sulfurosas; porém esta classificação não sei em que bases se sustenta e quais os dados científicos que existem a seu favor, abstenho-me, portanto, de aceitá-los em absoluto até possuir a esse respeito factos mais positivos.

Vejamos, segundo o relatório do Ministério do Império do ano passado, o número de fontes que existem nessa província, e o ponto geográfico em que estão situadas:

“Há na comarca de Itapicurú diversas fontes de águas termais, das quais uma está situada na vila; as outras denominam-se: do Cipó, do Musquete, Rio-Quente, Ferventinha do Sabia, Talhada, Olho d'água e Fonte da Lage. As três primeiras são as mais importantes, e só sobre elas se tem uma análise cientifica. Na do Sipó a administração provincial mandou construir três pequenas casas para acomodação dos enfermos, e mantém um diretor que percebe a gratificação anual de 600$. A vertente da Mãe d'Agua do Sipó dista três a quatro léguas da vila do Soure. A água de saber incolor e inodora, salino sua temperatura é de 39 cent. Desprendem-se dela bolhas de gás que reconheceu-se ser ar atmosférico. A vertente da vila de Itapicurú dista cerca de um quarto de légua da mesma vila. Água límpida, transparente inodora e de sabor francamente salino. Temperatura 31 graus cent. A vertente do Musquete dista cinco léguas da vila de ltapicuru, na margem esquerda do rio. Água límpida e transparente, inodora e sem sabor, temperatura 30 grãos centígrados.

A temperatura das diferentes fontes varia entre 35º e 41º. Contém, segundo o Império do Brasil em Philadelphia, ácido carbônico, sulfato de soda, bicarbonato de soda, clorureto de sódio, de cálcio e magnésia, ácido silicico, carbonato de cal e de magnesia, e peróxido de ferro em pequenas quantidades.

“São laxativas, e têm sido empregadas, internamente, na nos cálculos biliares, e outras enfermidades e em banhos, nas paralisias, reumatismos crônicos, dartros e moléstias cutâneas em geral”.

Senhores, se na realidade essas águas são tão importantes como nos dizem, é muito para lamentar que não tenha-se vulgarizado o seu uso; e mais ainda que os médicos baianos que contam entre si tão avultado número de práticos distintos, nada tenham feito a favor do estudo e emprego de tão rico tesouro natural.

Assim, não acho desculpa em não terem eles procurado aplicar tão poderoso recurso terapêutico, e não terem dado conta dos seus resultados clínicos, nada escrevendo acerca de assumpto tão interessante.

Há falta completa de informações em todos os escritos dos mais distintos médicos baianos; nenhum deles diz uma palavra a respeito das águas minerais da Bahia, e por isso sou levado a acreditar que as análises e estudos citados pelo mundo oficial, ou não existem realmente, ou são muito deficientes. Em todo o caso, hoje que se acha á testa do nosso governo um baiano distinto, o Sr. Barão de Cotegipe, animo-me a pedir-lhe deste lugar, que quando não seja senão pelo espírito de provincialismo, que tão pronunciado é em seus comprovincianos, olhe com seriedade para esses recursos naturais da sua província natal, e providencie para

que sejam aproveitados em benefício da humanidade e dos habitantes dessa parte do Brasil em particular.

Mas, senhores, depois da província da Bahia encontramos informações de existência de fontes minerais na província do Espírito Santo; ainda o Dr. Sigaud refere no seu livro a existência de águas acidulas perto da cidade da Victoria, e de outras termais-sulfurosas, junto de Benevente. Não há notícias, porém, do seu emprego nem mesmo de sua verdadeira composição química. O que leio em um trabalho sobre esta província, escrito pelo Sr. J. Marcellino P. de Vasconcellos, é que “na freguesia do Vianna, e nas terras de Jucutuguára, existem águas férreas; e no município de Benevente existe um rio denominado Salinas, em que se formão depósitos salinos de grande extensão, de que se servem os moradores circunvizinhos para usos domésticos”.

Solicitei informações acerca das águas minerais desta província, e até hoje espero pro- resposta!

Finalmente, chegamos à província do Rio de Janeiro e Município Neutro.

Sobre a análise e composição das águas da capital há alguma cousa tirada da tese do Sr. Dr. Miranda Castro em 1841.

Mas, senhores, estas análises do Sr. Dr. Miranda Castro sobre as fontes férreas da capital, além de serem ás vezes incompletas, ressentem-se também de um outro inconvemente, não exprimirem mais a verdade para algumas dessas águas, como, por exemplo, as águas férreas da Tijuca, contém menos quantidade de principios marciais que na ocasião em que o Dr. Miranda Castro procedeu à análise publicada em sua tese; a explicação plausível desse facto está nas alterações que sofrem essa fonte mineral, já de natureza geológica, já em consequência de aterros e escavações feitas em suas vizinhanças.

Além desse trabalho do Sr. Dr. Miranda Castro, e de uma outra tese, nada mais se fez; essas análises não foram repetidas, e todos que têm tratado desse assumpto limitam-se a copiar aquele trabalho.

Em um artigo publicado em 1860, na Revista Popular, ainda se repetem esses trabalhos, e nenhum autor brasileiro por ora foi além.

O ilustrado professor de química inorgânica o Sr. Dr. Moraes  e Valle, que em sua obra de Chimica Medica tão minucioso é nas análises das águas minerais dos países Europeus, n'esse livro tão recomendável debaixo de tantos pontos de vista, é o meu respeitável mestre incompleto e deficiente acerca das nossas águas minerais, é de lamentar que se limite apenas a falar das águas férreas de Matta-cavalos; o mesmo também se aplica ao Sr. A. Alves Ferreira, que não é brasileiro, mas que residindo entre nós, não achou senão essas mesmas águas para analisar e mencionar no seu volumoso tratado de Hydrologia geral, excelente monografia sobre estas questões. Mas a tese do Dr. Miranda Castro nos indica as fontes da capital e alguns pontos da província do Rio de Janeiro onde existem fontes ferruginosas; passarei a enumerá-las.

Numerosas são as fontes de águas férreas, todas situadas aqui no seio desta cidade. Algumas como as de Riachuelo (antigo Mata-Cavalos), Laranjeiras, Jardim Botânico, são muito apreciadas e empregadas por médicos da capital, e principalmente pelo povo. As águas ferruginosas de Andaraí descobertas em 1824 por D. Pedro 1, hoje não são procuradas como antigamente, em consequência de terem perdido princípios mineralizadores que continham devido isto ao pouco cuidado, que tiveram em escavações e outras obras praticadas em sua vizinhança. As análises do Dr. Miranda Castro e a do Sr. Alves Ferreira são por assim dizer as únicas que existem sobre a composição destas águas. Em outros pontos da cidade tais como Botafogo, rua do Silva Manoel, largo do Machado, Rio Comprido, etc, também existem fontes desta natureza, mais ou menos frequentadas, sendo algumas públicas e outras particulares.

Penso, porém, que os médicos não têm sabido empregar e aproveitar-se quanto deviam esses valiosos recursos terapêuticos; poucas vezes aconselham aos doentes o seu uso. No entanto os Drs. Miranda Castro e Sigaud falam de vantagens do seu emprego obtidas na clínica em casos de “anemia, caquexias, chlorose, engorgitamentos crônicos do ligado, do baço, e nas convalescenças das febres intermitentes”.

Até agora não consta que existam fontes de outra natureza no Rio de Janeiro: Vi, porém, em uma das salas destinadas aos produtos do Município Neutro, na última exposição, garrafas de água cristalina, tendo simples rotulo - Água mineral descoberta por J. F. Oliveira Mendes -; nada pude obter quanto a informações de sua composição química e propriedades terapêuticas. Consegui da cortesia e generosidade do cavalheiro encarregado de expor este objeto, duas garrafas para proceder à análise. Ainda não cheguei a um resultado final e definitivo, porém não temo dizer que são pouco mineralizadas, tendo em dissolução sais alcalinos, terrosos como o cal e o magnésio, não tem cheiro, o sabor é ligeiramente salino.

Procedo atualmente a uma análise qualitativa mais rigorosa, e então poderei afirmar os princípios aí existentes penso, porém, que não devo ser precipitado e a priori concluir o que só pode ser concluído a posteriori. Quanto ao local em que foram descobertas, não pude conhecê-lo, pois, seu proprietário não queria divulgar esse segredo porque temia que o governo se apropriasse do terreno, e, portanto, estava resolvido a proceder desse modo, pelo menos enquanto não obtivesse um título qualquer pelo qual o governo não pudesse espoliá-lo da propriedade.

De sorte, senhores, que a desídia do governo em não estudar as nossas águas minerais, e a falta de uma legislação sabia e prudente e este respeito, produzem até d'estes efeitos. Quanto a outros pontos do Município Neutro e Províncias do Rio de Janeiro me limitarei quase que a apontar os lugares em que existem fontes de origem mineral.

Em Niterói, no morro de S. Lourenço, em S. Gonçalo, na vila de Iguaçu, na cidade de Vassouras, em Rezende, no Paty do Alferes, na Serra dos Botaes, na Parahyba do Sul, na Serra de Sant’Anna, e em muitas outras localidades d’esta província, tem sido descobertas fontes mais ou menos ricas de águas marciais, sendo pela maior parte de propriedade particular.

É, porém, vergonhoso consignar que ainda não existe d'elas análises cientificas, e, portanto, muito menos uma classificação própria que marcando-lhes os grupos em que devem ficar mostre as suas propriedades terapêuticas e nos dê as suas aplicações clínicas.

Contêm porventura princípios arsenicais? São carbonadas crenatadas, ou sulfatadas? Estas legitimas interrogações dê um médico consciencioso, ficam e ficaram talvez por muito tempo sem uma resposta satisfatória; em outra conferência apresentarei um bom meio prático de possuir-se estas análises.

Naturalmente devo ocupar-me agora com as águas minerais da rica e importante província de S. Paulo. Esta heróica província, que tanto tem-se distinguindo no desenvolvimento moral de seus filhos e no progresso material de suas riquezas so por iniciativa particular e por esforços independentes do governo, tem descuidado uni tanto esta parte dos seus interesses e não possui estudo e classificação das águas minerais que ir- rompem do seu solo. No entanto logo na barra de sua primeira cidade comercial, Santos, existe um manancial de águas minerais, a fonte da Lage de Santos. De há muito conhecidas e empregadas, não explico o porque ainda não possui análises qualitativas e quantitativas dos princípios mineralizadores que dção-lhe preciosas propriedades terapêuticas. Em certas afecções de fundo anêmico são empregadas com grande resultado e segundo noticiou-me o Sr. Dr. Ribeiro de Almeida, colheu bom efeito de seu uso, em consequência de fraqueza resultante de acessos fortes de hematuria chylosa do Brasil. Consta-me que é usada em certos incomodos do aparelho tricô e das vias urinarias; gás- não sei porém o fundamento científico d'essa indicação. Sei que o Sr. Dr. A, Ferreira dos Santos e Theodoro Peckolt fizeram ligeira análise qualitativa chegando a descobrir ácido clorídrico livre, cloridrato de ferro, albumina, e outros corpos. De minha parte procedi a uma ligeira investigação, não tendo ainda aparelhos apropriados, limitei-me a verificar a existência de ácido clorídrico livre, o que por si só é mais que suficiente para torná-la dignada mais seria atenção, como raríssima n'esse sentido. Espero oportunamente oferecer um estudo mais demorado e positivo acerca de sua composição e propriedades No entanto nem o escrito do Sr. senador Godoy sobre as províncias de S. Paulo, nem o livro oficial para Exposição de Philadelphia mencionam esta fonte.

Na base do monte Monserrat, ao sul d'esta mesma cidade há uma fonte ferruginosa cuja análise, segundo o Dr. Sigaud foi feita pelo farmacêutico Antônio da Costa.

No município de Cunha, o melhor clima do mundo o paraíso para os tuberculosos e doentes de outras moléstias, também se encontra algumas fontes férreas, cuja subdivisão, porém, não está ainda determinada. Uma fonte termal sulfurosa promissora de grande futuro se for convenientemente tratada, existe na vertente paulista da serra de Caldas de Minas Gerais.

“Existe efetivamente em Monte Sião, diz o Sr Dr P. Barreto, na fronteira das duas províncias, mas em terreno paulista uma fonte termal volumosa e da mesma temperatura, composição e virtudes que as do município de Caldas. Esta fonte jorra a uma altura de 5,000 pés acima do nível do mar do próprio Monte Sião para o lado que olha para a província de São Paulo”.

Ultimamente anunciaram os jornais a descoberta nova fonte termal sulfurosa de uma nesta província. Entre cidades de Tatuí e Itapetininga na comarca deste nome no Sítio do Serrito apareceu este rico manancial. Próximo a este sítio existem minas de carvão de pedra; e o proprietário do Serrito o Sr. Valladão já tem auferido não pequena renda dos indivíduos que vão procurar as virtudes d'estas águas.

Já escrevi para Sorocaba, a pessoa a quem estou ligado por laços de sangue, para que me enviasse informações mais minuciosas acerca da topografia em que está essa fonte, e ao mesmo tempo me mandasse algumas garrafas bem acondicionadas da água do Serrito pura proceder a m estudo científico, e conhecer a temperatura exata d'elas.

O futuro d'esta localidade e d'esta fonte, se fôr exato o que dizem os jornais, é imenso e prometedor de grandes riquezas e desenvolvimento material que poderá prestar à humanidade

Confio no espírito de iniciativa de meus comprovincianos e creio que dentro em pouco darão o exemplo n'esta matéria' como em outras, do que é capuz a atividade paulista na exploração e aproveitamento de tão grande riqueza natural.

A província do Paraná, tão importante pela fertilidade de seu solo e amenidade de clima, em tudo semelhante à província de S. Paulo, da qual foi por tanto tempo parte integrante, possui abundantes fontes termais na comarca de Guarapuava, e é de crer que a continuar a desenvolver-se na escala em que progride e a seguir o exemplo de S. Paulo, em breve possa auferir todas as vantagens dessas águas hoje pouco conhecidas por falta de vias de comunicação.

A província de Santa Catharina possui diversas fontes termais conhecidas desde ha muitos anos, e frequentadas já no tempo de D. João VI que por decreto de 28 de março de 1818 autorizou a edificação de um estabelecimento que beneficiasse as fontes que distam cerca do seis léguas da cidade do Desterro pouco adiante da cidade de S. José. Existe um intitulado Hospital das Caldas da Imperatriz, que nada mais e que um rancho em ruínas, com poucos quartos que por toda a mobília possui uma cama e um fogareiro, e mais um rancho coberto de sapê, habitação do chamado diretor do estabelecimento.

Estas informações colhi de uma testemunha ocular que ha pouco esteve aí em uso das águas. Estas são, depois de frias, boas para todos os misteres, gozando de todas as propriedades da água potável, e segundo sou informado são apenas ligeiramente ferruginosas com a temperatura de 37° centígrados. Empregadas com vantagem em afecções cutâneas em começo, é excelente em bronquites, catarros vesicais e em alguns casos de reumatismo; produzem copiosa diaforese e são geralmente usadas em banhos.

As fontes mais conhecidas são as seguintes: — Caldas de Bittencourt com a temperatura de 35°, 5. Caldas do Norte de Cubatão com 36°. Caldas do Tubarão; e finalmente as Caldas do Sul do Cubatão que têm uma temperatura de 45º.

Sempre tenho denunciado a falta absoluta de estudos desta matéria; devo agora confessar que consta-me existirem alguns ensaios acerca das fontes desta província, mas apesar da pesquisa a que procedi e da boa vontade que tive nada pude obter. Sei apenas que há uns trinta anos atrás o Sr. Dr. Jobim procedeu à análise destas fontes, porém não merecem confiança as conclusões que tirou o mesmo Sr. Dr. Jobim; não pude obter a importante carta topográfica das águas minerais desta província traçada pelo Sr. Jeronymo F. Coelho, creio, portanto, que possuirmos esses documentos ou nada possuir é uma e a mesma coisa; seria mais acertado em vez de certos trabalhos oficiais para inglês ver, que o governo procurasse divulgar esse e outros escritos de igual valor.

Lamento profundamente, senhores, que as Caldas da província de Santa Catharina sejam tão pouco conhecidas no Brasil, de sorte que nossos médicos indiquem de preferência viagens para Europa longas e dispendiosas à procura de um recurso, que com pouco dinheiro e atenção do governo, se tornaria mais acessível a todas as fortunas entrando ao mesmo tempo grande parte de receita para os cofres públicos. Logo que fossem conhecidas as comodidades que aí se encontram uma corrente de emigração se estabeleceria levando esses para pontos a vida e o capital necessário para prosperidade dos estabelecimentos e compensação de qualquer gasto ou! tivesse sido feito anteriormente.

Porque razão os representantes da província de Santa Catarina nem sequer ousam propor na Assembleia Geral medidas a este respeito? Deixemos essa interrogação e apelemos para o futuro.

Na província do Rio-Grande do Sul, segundo noticiaram os jornais, descobriu-se ultimamente uma fonte importante de águas minerais em S. Gabriel, hoje muito frequentada, sendo explorada pelos Srs. Constancio Sosephson e E. von-Koettertz, seus descobridores. Vi uma análise que dizem ser exata, feita polo ilustrado médico Max Happel; e se não possuo dados exatos para uma apreciação segura, se algumas inexatidões aí existentes podem ser levadas em conta da tipografia, contudo julgo dever de oferecer uma ou outra reflexão acerca da análise do ilustre colega.

Eis o resultado publicado pelo Commercial do Rio Grande do Sul e transcrito pela Reforma desta cidade.

“Em dez garrafas de água contendo 7.200,000 gramas achou o referido doutor:

Oxido de ferro unido a Co2.......................... 4.600 gr.

Iodo puro unido a Fe.....................................0.860

Magnésia unida a So3...................................1.240

Alumínio unido a So3.....................................0.470

Sulfur unido a O.............................................0.740

Partes de ferro unido a ?................................0.640

Cloro unido a (vestígios) ................................______

8,550

Omitindo outras palavras do referido jornal, farei reparo quanto a dois pontos que reputo simples lapsos tipográficos, ao algarismo de 7.200,000, que creio infiel e exagerado para a capacidade de dez garrafas ordinárias, e a palavra alumínio, que para quem tiver menor noção da formação química dos sais dirá alumina.

Entrando em outra ordem de considerações mais importantes, julgo uma falta grave o não estarem determinadas as quantidades de certos corpos aí existentes e o modo de combinação entre si; de sorte que principalmente para as pessoas que não forem muito lidas em química, grandes enganos serão cometidos com poderem acreditar que o cloro existe livre, que o enxofre está em um grau menor de oxidação do que existe realmente, bem como o ferro cuja união com o iodo também não está determinada.

Não querendo continuar n'estas reflexões, para as quais não sou o mais habilitado, nem este auditório o mais apropriado, sempre direi que esta água, a ser exato o que afirmam a respeito de sua riqueza em carbonatos ferrosos e ioduretos do mesmo metal, vem a ser a primeira do mundo conhecida por suas propriedades altamente terapêuticas e aproveitáveis nas múltiplas manifestações de escrofulose, nos indivíduos linfáticos, e ainda em um sem número de moléstias e constituições mórbidas graves. A própria água de Saxon na Suíça ficará a perder de vista comparada com esta; oxalá estudos definitivos consigam fixar a verdadeira composição química desta água, e, portanto, a nos dar as suas indicações terapêuticas. Se das minhas rápidas palavras resultar esse fato estará preenchida toda a minha ambição.

Considerando a quase desconhecida região que constitui a província do Mato Grosso, colhi vagas notícias de suas importantes fontes termais em Palmeiras e as do Frade. Suas águas salobras e constantemente tépidas promovem copiosa transpiração.

Por esta simples indicação vê-se os valiosos serviç9os que podem elas prestar em um sem número de moléstias.

Deixemos estas regiões e passemos para a província de Goiás, quase tão desconhecida como a precedente, porém que teve a fortuna de contar outrora com um presidente, o Sr. Senador Lopes Gama, que atendeu para essa matéria; e em 1839 o médico italiano Vicente Moretti Foggia estudou diferentes fontes termais por ordem do Sr. D. José de Assis Mascarenhas, então presidente da província de Goiás. Este médico enviou à Academia de Medicina do Rio de Janeiro uma memória sobre estas águas termais, e falou preconizando 2 suas virtudes terapêuticas na elefantíase dos gregos ou morfeia. Essas águas, segundo o Sr. Foggia, são termo-gasosas, com qualidades salinas e alcalinas, nada têm de sulfurosas ou férreas. O princípio que lhes dá, porém, as preciosas virtudes contra a lepra, segundo o médico italiano, é o oxigênio que aí existe em grande excesso.

Não inspirando confiança inteira esta análise, em 1842, foram estas fontes examinadas pelo Dr. M. Faivre, e da notícia deste ilustrado pratico colhi os dados que ora constituem base da. minha exposição.

Chamam-se essas fontes Caldas- Novas, Caldas Velhas e Caldas do Piratininga, e nascem próximas da serra de Caldas, rocha chistosa muito elevada, na comarca de Santa Cruz, estando as primeiras na cidade deste nome. O córrego das Lavras tem cerca de 14 mananciais em suas margens, sendo quase todas utilizadas para banhos. As caldas de Piratininga convergem e misturam suas águas, de sorte que formam uma lagoa de 33 metros de cumprimento sobre 4 a 4 de largura. A temperatura desta lagoa é bastante elevada, atingindo em alguns pontos a 48º; a temperatura, porém, de quase todas as outras nascentes varia de 30º a 43º. Provém de rochas quartzosas e auríferas a maior parte das fontes de Caldas Velhas, de sorte que se acham em um ribeirão.

O Dr. Faivre encontrou na análise “os gases azoto, oxigênio, três ácidos: clórico, carbônico e silícico, tendo por bases, sais de potassa, soda, cal, magnésia e alumínio. A sua ação, diz o mesmo, medicinal é nula contra a lepra. Curam, porém, as afecções herpéticas, reumáticas e úlceras de natureza escrofulosa”.

Tais são, senhores, os dados que vos posso fornecer acerca de nossas ricas e preciosas águas minerais, tão desprezadas e desconhecidas do povo e do governo brasileiro. Vistes que sempre que tinha de referir-me a estas questões, Jeremias obrigado, não podia calar as minhas lamentações sobre o estado deplorável em que elas jazem, assinalava-as e ao mesmo tempo um fato curioso e digno de reflexão, qual o seguinte: todos os estudos leitos sobre estas fontes eram anteriores a 1850, e os posteriores só datavam de algum incômodo de membro do governo, ou da visita a esses lugares da família imperial, como sucedeu com as águas de Caxambú em Minas Gerais.

Sobre as fontes d'esta província falarei na próxima conferência, onde me estenderei sobre as suas riquezas me ocupando com as análises de relatórios existentes sobre elas; por agora não quero abusar mais da benevolência de tão conspícuo auditório.

Senhores, terminarei pedindo que cada um se esforce no limite de sua influência para que se levante a indiferença, e desapareça a ignorância que existe sobre as nossas águas minerais, que em futuro próximo em vez das palavras abandono e indiferença que ora devem de se inscrever sobre cada uma d'estas fontes minerais, possamos gravar nas fachadas de importantes estabelecimentos termais — Prosperidade e Progresso.

Tais são os votos sinceros do obscuro orador que tem muita confiança no espírito poderoso de iniciativa individual, talvez o único capaz de dotar o Brasil com todas as vantagens d’esta ordem de riqueza natural.

(Aplausos gerais.)

Localização

- Conferências Populares, Rio de Janeiro, nº2, fev.1876, pp 109-132. (na integra). Capturado em 29 set. 2025. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/DocReader/278556/220

Ficha técnica

- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.

- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca. 

Forma de citação

Conferência Popular da Glória nº 160. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 2 fev.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=743

 


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