Conferência Popular da Glória nº 170
Data: 02/04/1876
Orador: Nuno Ferreira de Andrade
Título: O acclimatamento dos europeus nos paizes quentes
Aviso, íntegra ou resumo: Íntegra
Texto na íntegra
“Minhas senhoras, meus senhores.
-Todas as vezes trata de um que se problema como este que faz matéria da presente conferência, e de cuja solução se pode tirar alguma indicação pratica, ou que se pode constituir em fonte de preceitos positivos, luta-se com uma dificuldade extraordinária, e que nasce sempre da conjuntura em que se vê o orador de ou concordar com a maioria, e n'este caso limitar-se á afirmação de cousas banais e já sobremodo sabidas, ou apresentar francamente as suas opiniões individuais.
Vejo-me obrigado a seguir o último expediente; mas, n'este caso, como se atende sempre à humildade da procedência, minhas opiniões não serão acatadas, e não frutificarão de modo algum. Isto, entretanto, tem acontecido com muitos outros, e procura-se explicar o facto pela já confessada omnisciência governamental que entre nós existe, e que faz com que todas as inteligências facilmente se amoldem aos mais variados estudos, ainda mesmo aqueles que mais alheios são às aptidões profissionais.
Clama-se, com efeito, de todos os pontos do Império que o governo tem sido indiferente ao grande problema da imigração; e ainda que eu negue com muito empenho o facto intencional, reservo-me. contudo, o direito de contestar ou afirmar o facto real.
Sabe-se perfeitamente, que os esforços envidados têm sido muitos, e que eles não têm dado os frutos que se esperavam. Esta insuficiência de êxito bem se explica pelos poucos estudos que têm merecido as nossas condições especiais para atrair a imigração do estrangeiro., E quando se trata do aclimamento dos europeus, problema que deve de merecer a maior atenção, e ser objeto dos mais estremecidos cuidados, os nossos homens, que têm o dever de tornar efetiva a grande ideia da imigração, limitam-se a dizer que, desde que as leis sejam modificadas n'este ou n'aquele sentido, com certas condições de liberalidade, desde que as instituições sejam reformadas segundo um novo plano, a imigração, e, o que e mais, a imigração espontânea não tardará a se estabelecer. E entretanto, senhores, se esquecem de consultar, para a destruição das dúvidas que todos apresentam, a corporação que pelos seus estudos especiais, pelos seus trabalhos próprios, e por força da profissão que exerce, acha-se inteiramente interessada na resolução de todos estes problemas, e pode sem dúvida alguma favorecer ao governo meios de ação pronta e regular; refiro-me à corporação médica.
Todos sabemos perfeitamente o que vale entre nós a opinião dos médicos; ela é unicamente considerada profícua quando se trata de obviar dificuldades higiênicas atuais mas quando se trata da construção de um plano que possa trazer vantagens futuras.
E com relação à questão do aclimamento dos europeus nos países quentes, a medicina muito tem feito, resultando de seus trabalhos, estudos e investigações que poderão servir de grande auxílio aos legisladores.
Não está inteiramente resolvida a questão, senhores e esta falta de solução depende em grande parte das teorias que até agora têm remado em relação ao aclimamento dos europeus nos países quentes, teorias estas que partindo todas de um sistema preconcebido não podem ter uma aceitação absoluta.
Tem-se dito que a elevação de temperatura trazendo a rarefação do ar atmosférico, e por conseguinte diminuindo-lhe a pressão e tornando relativamente menor a quantidade de oxigênio respirável, deve naturalmente influir sobre estrangeiros que, vindos de países menos quentes, e, portanto, dotados de uma constituição forte e de temperamento sanguíneo, não encontrão condições necessárias para a ventilação franca e para as acentuadas exigências dos pulmões. D'aí pretendem alguns inferir a predisposição que o clima incute para grande numero de moléstias do aparelho pulmonar como uma das principais causas da escassez da imigração para os países quentes.
Isto porém, senhores, de modo algum pode ser considerado como exato. Em primeiro lugar, seja dito para felicidade nossa, estas afecções nos países quentes nunca assumem a forma grave e a marcha lenta que na Europa costumam afetar; a pneumonia, que entre nós pode-se resolver em seis ou sete dias, em alguns lugares da Europa resolve-se de modo muitas vezes funesto no fim de um ano, dezesseis e vinte meses.
Pondo de parte a tísica pulmonar, que pôde existir em os países, e que reconhece quase sempre como causa ocasional a hereditariedade, as moléstias do aparelho respiratório jamais poderão servir de argumento para impedir os emigrantes de procurarem um país quente, quando muito frequentemente em sua procedência, na terra natal, encontrão condições para o aparecimento de lesões do aparelho pulmonar de muito mais difícil cura.
Tem-se considerado também a extrema umidade como um inconveniente serio dos países intertropicais, e diz-se que todas as vezes que a elevação de temperatura coincide com o excesso de água na atmosfera, o ar naturalmente se vicia, e como consequência d'este facto meteorológico aparecem o reumatismo, as escrófulas, o escorbuto, certas lesões caracterizadas por um estado de fraqueza geral, pela adinamia; e que no correr do tempo este estado se vai acentuando mais e mais, de modo que no fim de alguns anos o europeu
não apresenta mais os caracteres primitivos de sua raça, e acha-se inteiramente modificado.
Ora, isto é ainda absolutamente improducente; porque, se é verdade que a elevação da temperatura com o excesso de humidade predispõe para grande número de moléstias, não é menos verdade que essas mesmas condições podem também servir de preservativo de outras moléstias muito mais graves ainda.
E demais, quando se trata do excesso da umidade não se deve considerar tal facto como se manifestando com as proporções das chuvas ou do orvalho; e os inconvenientes que ele ocasiona podem ser combatidos com o trabalho e com os recursos higiênicos.
Tem-se denominado país quente, senhores, a zona da terra compreendida entre 30 graus de latitude Norte e 30 graus de latitude Sul. D'essa igualdade de condições termométricas é que se tem constituído o que se costuma chamar um clima quente.
Neste particular nada existe de absoluto. Todos sabemos que os climas variam segundo a proximidade do mar, segundo a altura em que se acha colocado o país, segundo o afastamento de um certo número de graus para o Norte ou para o Sul; de sorte que se dissermos que um clima quente rema nas proximidades do equador também poderemos dizer que existe ele a 28 graus de latitude Sul Norte
Cometeríamos um erro crasso, que de modo algum pôde ser aceito hoje pela ciência-, se supuséssemos unicamente como de climas quentes a zona compreendida soba ação dos trópicos; assim incorreríamos no erro grave de confundir condições termométricas diversas.
Não podemos, pois, considerar a situação do território em relação ao equador como positivo critério dos climas.
Na zona denominada de quente encontramos em diversos pontos condições não só de temperatura diferente, mas de sanidade inteiramente diversa; e isto, senhores, até certo ponto mostra que não teve razão Boudin quando afirmou que a salubridade dos países quentes ia diminuindo segundo uma linha ideal que partindo de 30º de latitude austral e começando no Pacífico, fosse acabar no atlântico, a 30° de latitude boreal.
Pretendia o sábio higienista francês justificar sua opinião afirmando ainda que o excesso de pântanos que existem no hemisfério boreal determinava condições de impaludismo, que não erão tão frequentes no hemisfério austral. Citava ele
como exemplo o Rio do Janeiro, incontestavelmente muito mais salubre do que certas regiões do hemisfério boreal, como, por exemplo, o Egito e a Arábia, considerados universalmente como as terras mais insalubres do mundo para os emigrantes europeus
De modo que tira Boudin d'aí a conclusão que para se aquilatar da sanidade dos países quentes devemos respeitar essa linha ideal, na certeza de que, á proporção que a imigração caminhar para o Norte ela encontrará sempre crescentes elementos de destruição.
Ora, senhores, a crítica que se aplica a algumas teorias apresentadas, e que já vos expus, pode igualmente ser referida à teoria de Boudin.
Em matéria de higiene, e sobretudo quando se trata da resolução de certos problemas, não se pode formular princípio algum absoluto; e se é verdade que encontramos no hemisfério boreal, o Egito e a Arábia, que são verdadeiramente
os países mais insalubres do mundo, é também incontestado que a nesga de terra que ligou esses dois países, e que se chamou Istmo de Suez, foi uma das localidades mais saudáveis; tanto que, apesar das grandes escavações e reviramentos do solo a que ultimamente esteve sujeito, em 55.830 indígenas e em 1.250 europeus que trabalharão na abertura do Canal, notou-se apenas uma mortalidade geral de dezesseis por mil, segundo diz Aubert Roche, que foi o médico encarregado pela Companhia de prestar os seus cuidados a esses trabalhadores.
Segundo afirma esse médico, nem uma só febre perniciosa se manifestou!
Vedes, pois, que a proximidade de lugares extremamente insalubres não indica que as terras que imediatamente se lhes seguem devam ser também insalubres; e portanto, a teoria de Boudin já encontraria, n'este exemplo, uma excepção ao seu caráter de absolutismo.
É sabido que Santa Maria, Madagascar e Mayotte são lugares em que se verificam todas as condições de insalubridade nos pontos baixos, ao passo que, nas regiões mais elevadas se encontram elementos mais favoráveis para a emigração aptos para consentir o desenvolvimento dos europeus. Na Oceania
temos os mesmos inconvenientes, e a despeito d’eles em Nova Caledônia os colonos prosperam, ao passo que nas suas proximidades existem as Novas-Hébridas que têm sido sepulcro de todos os imigrantes.
E geralmente conhecida a letalidade do clima de Java, e na própria Austrália, ao lado de costas que apresentam condições de sanidade invejáveis, encontra-se a Victoria, que teve de ser abandonada pelos Ingleses por virtude de seu clima mortífero.
Sobre a mesma linha isotérmica encontram-se condições de temperatura e clima muito diferentes, e, portanto, o médico higienista não pôde afirmar que se o europeu fôr para tal país, aí encontrará condições de prosperidade para si e sua descendência; e que se pelo contrário fôr ocupar uma outra localidade, só achará a insalubridade e o infortúnio
Nada de exato, se pôde dizer de antemão. Só a higiene baseada na observação e experiência de todos os dias conseguira afirmar alguma coisa de positivo em relação aos diferentes países pelo estudo que tiver de suas condições termométricas, e da influência dos meios sobre o organismo
Dizem os higienistas que todas as vezes que um indivíduo, transportado de um lugar para outro, vai encontrar um clima muito diferente d'aquele d'onde partiu, seu organismo pouco a pouco se vai afeiçoando ao clima, se a resistência vital e considerável, isto se manifesta sempre que se tem de apreciar dois termos tão importantes como vêm a ser o organismo humano capaz de resistência e as circunstâncias mesológicas capazes da anular essa resistência.
Compreende-se perfeitamente que d'aqui deve nascer naturalmente um dilema pratico; ou o imigrante se amolda ao clima, as condições que encontra, ou ele é completamente combatido por estes meios. No primeiro caso temos realizado o aclimamento; no segundo, a sua impossibilidade se verifica.
Na primeira hipótese, porém, a influência do clima de- termina sempre, dizem alguns, a diminuição da natalidade entre os emigrantes e o aumento da mortalidade; porque a faculdade procriativa fenece sob a influência de condições cósmicas tão diferentes dos que erão peculiares na terra donde partiram.
Isto, senhores, ainda não pode ser figurado como princípio absoluto; e para comprová-lo peço-vos permissão para tirar um exemplo do que aconteceu com os espanhóis em Alger.
Em 1856, em 42.394 espanhóis que emigrarão para Alger notou-se um excesso de natalidade de 16 sobre a mortalidade de mil, cujo coeficiente foi 30; o que significa que no fim de um ano encontrou-se de mais - 46 — e de menos —30—por mil.
Isto quer dizer que em Alger a colônia espanhola encontrou condições de desenvolvimento como em seu próprio país não teria possuído; porquanto na Hespanha o coeficiente de natalidade é 37.1000 e o cie mortalidade ó 30.1000,
Com a emigração italiana facto análogo se deu: em 9.287 italianos, no mesmo anno de 1856 o coeficiente de natalidade foi 39 e o de mortalidade 23:1000; de modo que se prova perfeitamente que os italianos que foram para Alger encontrarão condições de progresso que não teriam na Itália.
Ora, o clima de Alger é bastante diferente do clima do norte de Itália e principalmente do Oeste de Espanha.
Já vedes, pois, que quando se trata da resolução de quaisquer d'estes difíceis problemas não se pode ter o espírito prevenido e nem tão pouco se pode dizer de antemão qual a doutrina exata. Só a observação minuciosa dos lugares que
recebem a emigração e de suas condições telúricas e atmosféricas, só o conhecimento inteiro de sua patologia especial, poderão auxiliar o estabelecimento das grandes correntes de colonização.
Senhores, como critério dos países quentes e como síntese das condições que impedem a livre emigração para eles, apresenta Simonot o elemento palustre; e com efeito poder-se-hia estabelecer como geral que todos os países em que as condições de temperatura e de higrometria forem notáveis devem apresentar pântanos mais ou menos ativos. Não me parece, porém, que a opinião de Simonot deva de ser aceita sem restrições. Já vos citei, a propósito da lei de Boudin, exemplos de países, cujas condições gerais favorecem claramente o aclimamento dos europeus. Aí os pântanos existem; entretanto sua influência carece de energia bastante para impossibilitar a adaptação dos organismos exóticos aos meios especiais que encontram.
Parece, portanto determinado que, mesmo reconhecido o caráter que dá Simonot aos países quentes, a fórmula de uma lei geral torna-se difícil; porque se é verdade que o elemento palustre pode até certo ponto servir par sufocar todas as forças, os fatos têm-se encarregado também de demonstrar que em muitas situações se encontra o elemento palustre com grau extraordinário de desenvolvimento e, entretanto, este elemento não exerce influência alguma sobre os terrenos que lhe ficam contíguos.
Esta última consideração indica que só o pântano não é suficiente para constituir-se em critério dos países quentes; porque Suez que se acha entre os pontos mais paludosos do mundo – Egito e Arábia – e que também é paludoso, apresenta invejáveis condições de salubridade.
Tratemos agora especialmente do nosso país.
Senhores, entre nós, mais do que o elemento palustre, mais do que a indolência dos homens, que seja dito de passagem, é notável mais do que a indiferença de todos, e do que a pobreza dos imigrantes enquanto não for sufocado; é a febre amarela. Nos países quentes onde o miasma palustre se apresenta de uma maneira pavorosa fazendo todos os anos inúmeras vítimas o que dificulta a imigração não é o elemento paludoso propriamente, mas são as diversas relações que existem entre as causas que atuam sobre o indivíduo. Não é o miasma saído da terra; mas é este miasma modificado pelo sol e pela umidade; não é o pântano que ali se acha que pode exercer uma influência sobre o imigrante: são as relações do pântano com os meios gerais que constituem as principais causas de moléstias.
A febre amarela é uma consequência d’essas causas gerais e de ação simultânea. Quem quisesse afirmar à priori que a febre amarela procedia do mar ou da terra cometeria um grave erro de observação e de doutrina; porque esse mal aparece, às vezes, contrariar, com sua marcha imprevista, as mais fundadas teorias e zombar das mais prudentes medidas, ora irrompendo em terra, ora fazendo suas primeiras vítimas no mar O que, em relação a essa moléstia se sabe, é que ela é eminentemente infecto-contagiosa, notando-se, em sua esfera de atividade, as mesmas leis que regem e dominam a energia de irradiação do miasma palustre.
No propósito de vos convencer d'esta verdade, senhores, peço-vos licença para vos narrar dois fatos, que me parecem de grande alcance.
Em 1857 chegou a Fort- de-France uma balieira francesa - a Pallas-. A febre amarela grassava na cidade com uma intensidade medíocre e enquanto a tripulação da Pallas não comunicou com o litoral, isto é, durante 15 dias, nem um só caso de febre amarela se manifestou a bordo. Depois, porém, que a comunicação se estabeleceu, por intermédio de outro navio - a Celestina - que atracou à Pallas para receber-lhe o carregamento, os casos a bordo da balieira foram tantos que houve necessidade de engajar-se tripulação, para o navio poder seguir viagem.
Observando que os casos de febre amarela tinham aparecido no primeiro navio depois que houve comunicação com a terra, o almirante Gueydon que comandava então a divisão francesa, mandou suspender ancora, e fez-se ao largo.
A febre amarela continuou a fazer devastações no litoral a atacar os navios que vinham de fora e que comunicavam com a terra; entretanto que a divisão conservou-se durante toda a estação epidêmica inteiramente livre, e nem um só fato apareceu que pudesse explicar este miasma marítimo.
Este facto seria suficiente para afirmar que a opinião da procedência marítima do miasma não pôde ser aceita por ser extremamente absoluta.
O outro facto, senhores, não diz respeito à febre amarela; mas a febres palustres. Eu vol-o cito para que possais julgar da similitude de condições que se nota na irradiação de ambas as moléstias.
Em dezembro de 1842 a canhoneira La Malouine partia de Goréa, com uma equipagem válida de 72 homens, há dois anos residentes na Colônia. As exigências do serviço obrigaram o navio a penetrar no rio Nunes, do qual saiu tão infeccionado que quinze dias depois de sua partida entrava em Goréa com sete homens de menos e com a tripulação em tal estado que já não havia pessoal válido para as manobras
Em fevereiro de 1843, na mesma estação, portanto, o navio Vigie teve que empreender a mesma viagem. Houve cuidado de impedir a demora dos tripulantes em terra e desinfetá-los quando chegados a bordo.
Nem um só acesso se manifestou.
Cotejai este facto com o precedente, e vossa conclusão será favorável á minha opinião, espero.
Parece-me, pois, dever inferir, do que vos tenho exposto que tinha razão Cornilhac quando afirmava que a atmosfera marítima não era bom veículo dos miasmas da febre amarela; mas que concorria para a duração do mal, porque o
princípio infeccioso dessa moléstia é dependente das relações que existem entre o miasma palustre e os meios gerais.
Há ainda um fato muito frisante a esse respeito. A cidade de New York, antes de empreender os grandes trabalhos que efetuou para o saneamento de seu solo, era infestada anualmente pela febre amarela, que fazia numerosas vítimas.
Conservando-se em um certo estádio de pujança durante todo o verão, a proporção que o inverno ia se aproximando, a febre amarela ia recrudescendo; mas todas as vezes que' o inverno se confirmava, a febre amarela deixava de existir inteiramente, desaparecia de todo, para no próximo verão, independente
de qualquer importação, fazer novos e maiores estragos. Isto significa que os miasmas se conservavam no gelo com toda a sua energia latente, e que quando estes miasmas encontravam fácil saída, condições aptas para sua nova explosão, eles se revelavam independente de qualquer importação.
Parece-me que todos estes factos bem claramente demonstram que não são as condições do local unicamente que originam a epidemia da febre amarela; mas que deve ser considerada esta epidemia como resultado patológico do concurso de causas múltiplas que atuam em direções diferentes, mas que todas levam ao mesmo resultado.
Já se vê, portanto, que teremos sempre como condição adversa ao aclimamento dos europeus nos países quentes o elemento palustre, quer considerado em si determinando febres intermitentes, perniciosas, disenterias graves, um estado de anemia, etc, quer considerado em suas relações com os meios comuns determinando moléstias infectocontagiosas.
O que devemos, portanto, fazer quando se trata de atrair a imigração em grande escala? Tratar de reformar as condições higiênicas, cuidar em modificar as condições de insalubridade. Não é preciso reformar ou modificar uma instituição
qualquer, nem criar novas leis. Estas, é verdade, servem de muito; mas o principal é combater as influências naturais porque a verdadeira causa que impede a imigração para o Brasil é a febre amarela, é o miasma palustre que imprime no imigrante um cunho especial de anemia, e que, se consente no aclimamento individual, se permite que o indivíduo zombe, até certo ponto, de sua influência, não lhe concede o poder de garantir a sua descendência da fraqueza, do depauperamento e do abastardamento da raça.
Vêm a ser as influências gerais que impedem a imigração; não é o espírito das leis; e se o fosse em todos os países em que não existisse uma legislação harmônica com a das nações d'onde procede a imigração esta não existiria; entretanto que, por exemplo, para os Estados-Unidos a imigração corre sempre, e as leis de lá são muito diferentes das leis da Europa!
Quereis um exemplo nosso? Vede os Alemães no Rio Grande do Sul.
Senhores, é necessário matar-se os pântanos, é necessário impedir-se a todo o transe que o miasma palustre continue a fazer devastações; é necessário que os morros que existem no centro da cidade sejam arrasados, porque de suas vertentes derivam-se sempre águas que determinam pântanos; é necessário que a cidade seja perfeitamente irrigada, que as ruas não sejam estreitas, que não haja cortiços em tão grande quantidade, e que os que existem sejam melhorados, já que não podemos acabar com os cortiços, porque quando o imigrante chega ao Brasil, tem dois inimigos a combater: a pobreza que traz e o miasma que encontra. O cortiço deve e há de existir.
Querer-se que a pobreza possa habitar casas dotadas de todas as condições de conforto é querer um impossível. Não podemos acabar com os cortiços, o que podemos é melhorá-los e fazer com que eles sejam construídos sob novos planos em que se respeitem as condições higiênicas; e se me fosse permitido apresentar uma opinião, eu diria que era necessário que a junta de higiene se encarregasse exclusivamente d'isto, e não tivesse de consultar ninguém, ninguém, absolutamente' ninguém; porque se é verdade que o executivo não pode invadir as atribuições das municipalidades, é também verdade que ambos, executivo e municipalidade, podem ser fracos.
A saúde pública precisa de um Argus, e este não pode ser míope.
Não sei como ainda ninguém se lembrou de pedir aos comandantes de navios que trazem para cá imigrantes, que depois da leitura do Evangelho, fizessem também a leitura de certos preceitos higiênicos que o imigrante devia respeitar.
Isto seria uma cousa inocente, e que poderia fazer muito bem; pois que os imigrantes ordinariamente desconhecem as precauções (pie devem de ter, e querem continuar aqui com os hábitos da Europa. Frequentemente esses indivíduos, sofrendo ainda a fadiga da viagem, e ainda não acomodados ás nossas condições naturais, praticam todos os excessos possíveis, tendo de um lado Vênus e do outro Baco.
D'este modo, hão de naturalmente apresentar os emigrantes todas as condições necessárias para contrair a febre amarela, ainda mesmo que a febre amarela fosse uma dama muito bem educada, e que recebesse cortesmente os seus hospedes.
Debaixo do ponto de vista higiênico é necessário que nos convençamos serem precisos muitos sacrifícios, de dinheiro e de tempo, e uma dedicação extraordinária. Não se hesite; porque um país novo que vacilar no emprego dos meios necessários para garantir a sua própria existência não pôde ter esperança alguma em seu desenvolvimento futuro. É necessário também que os médicos intervenham na resolução dos problemas da imigração e colonização.
Senhores, há uma corporação muito distinta entre nós, que tem concentrado em si todas as atribuições das outras classes. É muito distinta é verdade, é muito ilustrada, é ela que tem dado os nossos legisladores, os nossos homens de Estado em maior cópia, mas é necessário que conheçam que - non omnes omnia possumus.
(Pausa).
Senhores, havia na antiguidade um princípio escrito em um templo, que aconselhava ao homem o conhecimento de si.
Ele trabalhou no cultivo da sua inteligência, e o conseguiu até certo ponto. Depois reconheceu que precisava empregar a sua atividade; e pondo em jogo todas as forças que Deus lhe deu obteve abreviar as distancias.
Assim como pôde abreviar as distancias, que são, talvez, a cousa mais fixa do mundo, não poderá também modificar o clima?
E nós somos um país novo, podemos perfeitamente seguir os exemplos dos Estados-Unidos que sanearam New-York; dos Ingleses que sanearão a Escócia, estabelecendo o sistema de canalização subterrânea, a drenagem. Trabalhemos, e nada de desanimar.
Bem sei que não se pode transformar um país de um momento para outro, que tudo isto exige tempo, muitos sacrifícios, muita coragem; mas quando o amor acrisolado da pátria inspira as boas intenções e guia as decididas vontades, no fim de um tempo mais ou menos longo, resultados satisfatórios vêm sempre coroar os esforços e a perseverança. [Aplausos gerais].
(O orador é felicitado).
.___.”
Localização
- Conferências Populares, Rio de Janeiro, nº3, mar.1876, pp 79-92. (na integra). Capturado em 12 nov. 2025. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/docreader/278556/319
Ficha técnica
- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.
- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.
Forma de citação
Conferência Popular da Glória nº 170. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 2 fev.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=752
Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz – (http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br)