Conferência Popular da Glória nº 172
Data: 16/04/1876
Orador: Antonio Felicio dos Santos
Título: Da moda em relação com a hygiene
Aviso, íntegra ou resumo: Íntegra
Texto na íntegra
“Minhas senhoras, meus senhores: -O assumpto de que vou ocupar-me é vasto e complexo, apesar da simplicidade do enunciado.
Tratar da moda em relação com a higiene, é nada menos que analisar todos os nossos hábitos, todo o nosso viver público e privado comparando-o com os princípios da ciência higiotênica. porquanto se o homem, como disse um filósofo, é um animal de hábitos, o homem civilizado é particularmente ungido por leis convencionais, por práticas fixadas pelo capricho do dia, é forçosamente o homem da moda.
Já vedes que compreender n’este leito de Procusto de uma conferência matéria tão vasta é temerária empresa. Devo, pois, aparar todos os detalhes, conter-me em digressões, resumir-me enfim para não olvidar um ou outro ponto que deseje mais propriamente assinalar.
Ora, essa faculdade do resumo falta-me: sabeis que nem ela é muito comum.
E para que se me não acuse de excesso de preocupação, perdendo o tempo enquanto lamento sua escassez, entro já em matéria.
Senhores. Um característico de nossa idade é o caminhar delirante, a agitação febril e impulsiva para a dominação da natureza e satisfação de nossas ambições, de envolta com o gozo de todas as sensualidades. Andando com toda a forca das caldeiras, procuramos obter da máquina humana o máximo da produção sem atendermos às leis da sua conservação. Entretanto o organismo repara-se e poderia ter uma duração quase indefinida, se a vossa existência social não fosse uma conspiração sistemática contra a higiene.
E nunca talvez se tenha faltado tanto na ciência benéfica da conservação do homem. Nunca a higiene foi tão universalmente apregoada e oficialmente reconhecida. É ainda um característico do nosso século que tanto lê e tão pouco
estuda.
Essa ciência estéril, sem aplicação prática, chamava-a o divino Platão - ignorância da pior espécie -. “Com efeito, dizia ele, conhecer o verdadeiro e o belo e rejeitá-lo na prática é viver o homem em antítese consigo mesmo. Os que
assim procedem deveriam ser arredados da direção dos públicos negócios, ainda quando tossem substituídos pelos analfabetos de bom senso, porque como poderá dirigir a república quem está em contradição com sua própria individualidade?”. Conceituosas palavras! Nelas se acha a condenação d’esses ambiciosos céticos, d'esses políticos sem escola, chefes de partido que no poder esquecem os principies da bandeira que os elevou na opinião. (Apoiados)
Só uma coisa, senhores, há superior à vida, é a saúde O lipemaníaco de Genebra, J. J. Rousseau, reconheceu essa verdade dizendo que a higiene é mais do que uma ciência, é uma virtude individual o social A mesma ideia acha-se no testamento de um dos pontífices máximos do positivismo hodierno, nas Confissões do Dr. Strauss. O velho inquisidor dos documentos bíblicos, antes de morrer, quis criar uma moral consentânea com o naturismo, e logicamente fundou-a no prazer: fixou-lhe, porém, um limite – a higiene. N’essa constituição ética reconhece-se a legitimidade de dois tiranos – Cesar e o médico.
Os discípulos de A. Comte, esses, compreendendo a moral na biologia e suas transgressões na patologia, dilataram o horizonte da higiene que tornou-se um ramo da sociologia como divisão da biologia geral.
Deixando de lado tais exagerações, basta para firmar e importância da ciência hígica a seguinte consideração: contra o desprezo dos seus princípios, contra a moléstia, consequência fatal disso só restam-nos as incertezas da medicina, os estouvamentos da cega terapêutica.
A higiene não é mais como na sociedade antiga um simples agregado de preceitos de uso particular.
O que seriam sem a higiene publica as formigueiras humanas as grandes cidades, onde, a par de tantas condições de insalubridade, concorrem para abastardar a raça humana duas causas de efeitos igualmente desastrosos - a miséria e o luxo - doloroso contraste, terrível epigrama da civilização!
A sociedade traz consigo o bem estar e o melhoramento do homem. Infelizmente essas vantagens custam-nos sacrifícios e a civilização tem aberrações que destroem sua própria obra. Alguns dos inconvenientes do progresso são irremediáveis e aceitamos a sociedade porque a soma dos seus bens é superior a dos seus males. Outros porém são acidentais e podem ser removidos. É necessária não mete-los em linha de conta quando julgamos a civilização para não chegarmos à conclusão errônea da escola de Rousseau.
Um d’esses é a moda, verdadeiro ordium da civilização.
A moda na verdade impera despoticamente no mundo civilizado. Não é só nas futilidades que se faz sentir sua influência, as artes, as ciências, os costumes, a política e até a religião, tudo sofre suas metamorfoses brutais. E ai de quem tenta subtrair-se à sua tirania! Ridícula por essência ela pune-o com o ridículo, o mais doloroso dos estigmas.
Por outro lado aos seus pupilos todos os acessos são fáceis e a porta dos sucessos abre-se-lhes de par em par.
Debalde, senhores, trabalharei* com o braço ou com a inteligência, debalde sereis um homem de bem, no rigor da palavra, cimentando todos os vossos atos com a mais escrupulosa consciência, se não fordes um homem da moda ficareis na penumbra, senão na mais completa obscuridade.
Quantos oradores, advogados, naturalistas, médicos, artistas, profissionais de todo o gênero só devem sua importância à moda que os sagrou notabilidade! Eis a sua única legitimidade. Como esses gigantescos cogumelos que erguem-se da terra depois de uma noite de chuva, admira-se a rapidez de sua elevação e pergunta-se donde saíram, como criaram-se essas reputações? (Muito bem.)
Há, senhores, na sociedade duas realezas, a do mérito real e a do capricho, a da razão e a da moda. E esse Taicum e esse Mikado quase nunca estão de acordo. É mister escolher.
O mérito real eleva-se lentamente, superando tantas dificuldades, arrostando o ridículo, tropeçando em mil obstáculos, lutando com o desanimo que lhe incute a injustiça e as sugestões dos próprios amigos que sua exaltação é um verdadeiro martirológio. Por isso os charlatães de todo o gênero preferem elevar-se pela moda que em um momento atira-os atônitos nos fastígios da opinião, embora no dia seguinte os sepulte no mais completo olvido.
Sim, que o único corretivo da moda é a sua própria inconstância. Seus Ídolos hoje são tudo, presidem a tudo, amanhã são pobres crinolinas que pendem em uma loja do adélo, fosseis dignos de um Museu!
Não se podem eles queixar; assignaram um pacto mais terrível do que o do Mefistófeles do Fausto, porque a inexorável moda nem espera-lhes a morte: atira-os no limbo mesmo em vida. Quantas celebridades nossas não tendes visto assim despenharem-se da rocha Tarpéa?
E a eterna história do ostracismo ateniense.
Essa lei da inconstância é geral. O teatro, a literatura, a linguagem, a gíria, a pilhéria de hoje, tudo passa. D'aqui a dez anos ninguém entenderá as chocarrices que nos desopilam o baço atualmente. Também a Moda é um termômetro do mérito: o que resiste a ela, pôde-se afirmá-lo, é de bom quilate, e para julgar uma época basta analisar-lhe as modas dominantes. Assim, uma idade, uma sociedade que prefere Offenbach o Mayerbeer, Ponson du Terrail a Victor Hugo, que lê os Dumas Pai e Filho em vez de Proudhom, está julgada.
E, todavia, é no nosso século que os mais terríveis problemas avançam a passo de carga, Epicuristas modernos deitamo-nos na relva, coroados de flores e untados de nardo, bebendo o Falerno enquanto o espiritismo assoma ao norte e o Darwinismo ao sul, o ultramontanismo avulta no ocidente extinguindo o livre exame e achando em frente apenas o Cesarismo que marcha do Oriente! As meias soluções, os regimens concordatários, as federações germânicas, o status quo, os contrapesos internacionais, as monarquias constitucionais, todos os equilíbrios instáveis, todas as geringonças provisórias estalam denunciando o caruncho e exigindo construções definitivas em nome da lógica.
Sabeis, senhores, o que faz a moda? Converte as questões tremendas em comédias, os duelos terríveis do progresso com os interesses opressores em jogo de esgrima de floretes abotoados; e, segundo um dos nossos políticos mais da moda, procura apenas ganhar tempo. Em vez da emancipação do escravo, liberta-se o ventre da escrava, em vez da liberdade de consciência oscila-se entre a opa e a trôlha!
Quereis agora ver o que é a influência da Moda nas ciências?
Para não afastar-me muito do meu principal objetivo vou apenas desenhá-la na medicina. Com efeito um olhar de relance na história da ciência médica mostra-nos as escolas originando-se, sustentando-se e caindo com um homem notável,
de prestígio e fascinação entre os contemporâneos, e cuja influência pouco se estende a posteridade, em vez de assentarem se sobre as grandes conquistas do espírito humano. Galeno, Paracelso, Van Helmont, Stahl, Barthez, Haller, Brówn Thomazini, Rasori, Broussais, Raspail, Hahnemann, etc, e - hoje Litré, Wirchow, Darwin, Spencer e tantos outros mais influirão e influem por suas teorias gratuitas e quase místicas do que pelas observações e descobertas importantes com que enriquecerão a ciência.
As teorias dominantes têm sempre o cunho da Moda, em vez de serem deduções rigorosas de princípios novos e exatos.
Às verdadeiras aquisições da ciência, essas tiveram muita vez de vencer as resistências tenazes dos homens da moda, dos ídolos da opinião. Recordai o que aconteceu à bela descoberta de Harvey. Os Riolan, os Guy Patin com um trocadilho insulso condenam a circulação do sangue: apelidando os sectários de Harvey circuladores (charlatães), e Th. Bartholin com o epitáfio epigramático do fígado detêm nas fronteiras da França por muitos anos as ideias do celebre fisiologista inglês. Na terapêutica, que tem sido um pálido reflexo da ciência médica, é que a influência maligna da moda mais se tem feito sentir: e já de longa data. Em Roma o médico Musa cura com banhos frios o imperial pimpolho
Cesarião Augusto; e ninguém quiz mais outro médico nem outro sistema. Pouco tempo depois morre o simpático Marcello com o mesmo tratamento, e o médico e a hidroterapia caem esmagados pelo ridículo.
Conheces a guerra civil provocada na ciência pelo antimônio. Nem o talento de um Paracelso, e de seus sucessores puderam defendê-lo contra o anátema da Faculdade de Pariz, até que em 1658 o rei Luiz XIV adoece de uma febre tifóide e o Cardeal Mazarino desempata uma conferência médica, incumbindo do tratamento do rei, o celebre Guenaut, que administra o vinho stibiado. O rei cura se com ele ou apesar d'ele, e d'aí em diante o carro triunfal do antimônio não
acha mais obstáculos.
Como médicos e remédios da moda há também moléstias da moda. Quando o espirituoso médico de Napoleão, Corvizart publicou o tratado de moléstias cardíacas todos os parisienses queixavam-se de palpitações: depois dos cumprimentos usuais esse era o assumpto obrigatório da conversação. Era a moda.
Atualmente só se falia em anemias gerais e locais. Há uma d'essas, a grande anemia cerebral, que decididamente é dominante hoje, e infelizmente o ferro, os tônicos, as duchas e a carne crua não bastão para curá-la. Não vos lembrarei o
dentista e o oculista pesados tributos desconhecidos dos nossos maiores. (Risadas.)
A origem da moda, senhores, é a imitação servil das excentricidades dos grandes, que muitas vezes não passão de grandes insensatos. Ora, a imitação é uma faculdade baixa.
“Basta saber até que ponto um povo é imitador, diz Fleury, para tirar-lhe o horóscopo e determinar a sua parte no progresso”. “Um povo imitador, diz Rousseau, é um povo menino”.
A única imitação digna de cultivo é a da Natureza e essa mesma precisa de ser fecundada pelo gênio e inspirada pelo ideal para criar os prodígios da escultura e da pintura.
A imitação inconsciente, pueril, é uma concepção elementar, rudimentária.
O celebre Darwin, nos últimos desenvolvimentos da teoria evolutiva, estabelecendo a descendência do homem por transmorfismos de tipos animais extintos, dá-nos um ascendente próximo comum com os símios. Em um dos seus
últimos livros, a Expressão das Emoções, mostra engenhosamente o nosso parentesco com o nosso primo o macaco atual, menos pela igualdade de conformação orgânica do que pela analogia das funções cerebrais, e sobretudo pela imitação. Sem fazer-me cargo de defender semelhante teoria, não posso
deixar de concordar que esse é um dos argumentos mais especiosos em prol da hipótese do Símio Antropoide de Haeckel.
A imitação é uma degradação no sentido científico da palavra. “Ela é peculiar à ignorância e incuriosidade, digno travesseiro em que repousam as cabeças bem penteadas, disse-o Montaigne”.
A todo individuo, a todo coletivo social é necessária a originalidade, sem a qual não há autonomia nem verdadeira nacionalidade. Como há de um povo imitador concorrer para o progresso e melhoramento da espécie humana?
Essas reflexões aplicam-se, senhores, perfeitamente ao nosso país, imitador pueril, sem critério, das velhas sociedades da Europa. Em uma discussão política eu disse e tive a felicidade de ser aplaudido, ao menos fora do país, que o Brasil
encarado por seu sistema administrativo e ético parece um território europeu destacado por um cataclismo e adaptado à força no continente americano. Em país como este não admira que as modas francesas tenham tão caloroso acolhimento.
Nenhum critério, porém, preside a essa transplantação: viajantes ilustrados o têm dito e não podemos desconhecê-lo. Em 1871 reinou entre nós o gosto dos vestuários negros, dos vidrilhos pretos, dos azeviches e arrebiques de borracha vulcanizada. Adereços, colares, broches, pulseiras, cintas, e até as medalhas das cadeias de relógio dos homens, tudo era negro. Impressionado com esse gosto funerário, busquei-lhe a origem e descobri-a. Conheceis as grandes catástrofes da França n'esse ano de guerra e invasão germânica: os franceses com muito bom senso escolherão o luto para moda, luto pelas desgraças da pátria e pelas vítimas da defesa do país. Havia sobretudo uma ideia política, ocultar d'essa arte o número de mortos que o luto das respectivas famílias denunciaria. Pois bem, senhores, nós irrefletidamente adoptámos o luto da França: chorámos sem sermos da freguesia, (Hilaridade) E o que é pior: chorámos sem saber o que fazíamos. (Hilaridade.)
N'esse tempo também era de uso geral entre as senhoras uma capa ou cousa que o valha denominada peplon: sabeis o que era? Achei-o em um jornal de modas do tempo. Era o peplum dos romanos adoptado em um momento de entusiasmo histórico, como a primeira republicana os tivera quando introduziu as modas gregas e romanas. Nós, não satisfeitos em estropiar a língua com os neologismos franceses da moda, pronunciávamos o latim em francês! (Hilaridade).
Isso é apenas ridículo. O que porém é altamente incompatível com as leis higiênicas, além de ridículo, é trajarem-se as nossas elegantes segundo as modas do verão no inverno e vice-versa.
A facilidade e rapidez das comunicações transatlânticas trouxe-nos essa inconveniência. A diferença de hemisférios dá-nos desgraçadamente estações opostas às da França: os indiscretos paquetes trazem-nos as modas e os elegantes figurinos vivos em oposição com a atmosfera. Em junho chegam-nos os vestuários de gases e filós, as cambraias e cassas, e as nossas mulheres aí estão tiritando de frio, hirtas, geladas, contraindo bronquites, pneumonias e anginas, mas certas de estarem vestidas conforme a última moda de Paris que a baronesa de tal trouxe no último paquete! (Hilaridade.)
Em janeiro o mundo elegante muda de aspecto: as infelizes senhoras suam e tressuam, arquejam, debilitam-se em profusa transpiração, ganhão anemias, vertigens, e tuberculoses sob as pelúcias, cachemiras, arminhos e paletós de inverno: mas estão no rigor da moda e isso compensa tudo. (Risadas)
Ah! senhores, se eu tivera algum valor na sociedade elegante, pediria às suas autocratas que decretem um adiamento de seis meses para cada moda nova.
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Quereis agora procurar comigo a pátria das modas?
O imortal cantor do Hissope diz comicamente:
Nos vastos intermúndios de Epicuro
O gran país se entende das quimeras
Que habita imenso povo diferente
Nos costumes, no gosto e na linguagem
Aqui nasceu a moda e d'aqui manda
Aos vaidosos mortais as várias formas
De seges, de vestidos, de toucados,
De jogos, de banquetes, de palavras;
Único emprego de cabeças ocas.
Tal país não é, senhores, um território fixo; a história mostra-o acompanhando as caravanas migratórias do progresso. As metrópoles da moda são os centros fatais da civilização, onde á par da espuma brilhante do progresso deparam-se as fezes da humanidade. Esses focos de luz e ao mesmo tempo criptas infectas, cérebros e intestinos dos povos, chamaram-se sucessivamente Ninive, Babylonia, Suza e Persepolis, Athenas, Roma, Veneza, e hoje Paris.
Deixemos os mitos orientais, partamos da Grécia cuja história mais conhecemos.
Os antigos gregos erão sóbrios, severos e símplices nos costumes. Depois de Salamina e Marathonia os Persas vencidos vingaram-se deixando aos vencedores o luxo e as modas orientais, como um icheumon daninho deixa sob a epiderme da lagarta processionaria o gérmen que há de devorá-la.
O mesmo aconteceu em Roma.
Depois da conquista da Síria, os rudes vencedores de Annibal converteram-se em histriões ridículos, crapulosos, infames, escravos do luxo, origem de todos os crimes.
Ouvi o que dizia Juvenal:
Peregrina ignotaque nobis
Ad scelus atque nefas quodcumque est
Purpura ducit....
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.............................................Ssevior armis
Luxuiia incubuit, victümque ulcisoitur orbem
Nullum crimen abest facmusque libidiais ex quo
Paupertas Romana perit.
O ilustre Erasmo, senhores, atribui com razão à loucura o furor das modas. Da mesma opinião é o nosso padre Vieira quando descreve essa nau de alto bordo, esquipada e empavesada, de que é tributário o mundo inteiro, e que chama-se a mulher da moda.
O assumpto que nos ocupa tem duas faces distintas e ambas importantes—o lado econômico e o lado higiênico. Quanto ao primeiro declaro-me já incompetente.
Assim apenas lembrarei que, no inquérito ultimamente feito em Londres acerca das periódicas crises comerciais, indigitou-se como uma das causas principais do mal o luxo das mulheres, as condescendências dos pais e maridos, e a ignorância em que vivem elas da exata situação econômica d'estes.
A causa primordial, porém, é evidentemente a má educação da mulher.
Com efeito, senhores, parece que o homem, para mais assegurar a submissão da mulher e evitar a sua emancipação intelectual, embriaga-a com o luxo e a moda. ([1])
Nenhum regimen colonial é na verdade mais detestável do que o estado de degradação social da mulher.
Fazemos d'ela apenas o jogral do homem, para distraí-lo das preocupações da existência. Em vez da companheira dos trabalhos ela é um traste de luxo e de divertimento ocioso. Há outra ideia mais natural, porém não menos odiosa. E o
velho Montaigne quem vai expô-la:
“Nós aparelhamos a mulher desde a infância para as tramas do amor; as graças, os ademanes, a ciência, a palavra, toda a instrução d'ela cifra-se n'isso”.
Eis como ela é criada, senhores, sua existência rola sobre dois eixos, enfeitar-se e cismar vagamente.
Nenhum trabalho muscular, nenhuma preocupação seria da inteligência. Em vez de elevar-lhe o espírito às altas cogitações da ciência, deixa-se-lhe sem peias a imaginação que, ha de tender por força para onde leva-a a educação viciosa.
Um filho é uma esperança risonha, um colaborador do nosso edifício social, um prolongamento de nós mesmos no futuro; unia filha é um parasita incomodo, um fardo de que procuramos nos libertar o mais depressa possível.
É a nossa sociedade. O Korão em lugar do Evangelho!
O homem supõe na mulher uma inferioridade intelectual, uma debilidade tal que só incute-lhe no animo frivolidades e vaidade. Ora, n'essas mesmas ninharias ela mostra sua capacidade. Deixaram-lhe a moda e a mulher elevou-a ao mais alto grau de desenvolvimento, transformando-a em uma arte com que nos domina por sua vez. Lembrais-vos do naturalista Latreille'? Passou anos em um cárcere, e convertendo as longas horas de tédio no estudo de um único inseto, descobriu as mais curiosas leis da ontologia.
Eis o que faz a mulher. Qual de nós entende ao menos o vocabulário da sua ciência das bugigangas da moda?
Se essa atividade fosse dirigida para coisas úteis, se esse tempo fosse empregado no estudo de qualquer ciência ou arte, quanto ganharia a sociedade! Faça-se essa reforma e teremos logo milhares de braços produtivos, de inteligências ativas, para transformar-se um país que ainda não resolveu o problema da colonização.
Fora do culto da moda a mulher pode ser uma Mme de Staêl, uma Sevigné, uma Mlle Royer Collard, uma George Sand. Todas as virtudes varonis podem ser igualmente postas em pratica por essas naturezas sensíveis, entusiastas, que possuídas de uma ideia tornam-se uma Arria, uma Porcia no meio das dissoluções de Roma. Lucrecia, Valentina de Milão, Izabel de Castella, Maria Thereza, M™ Rolland, contrapésão bem uma Cleopatra ou uma Lolia Paulina, e uma Aspasia reunindo os dois tipos é quase capaz de tornar admirável a mulher perdida.
A moda hoje, senhores, não tem razão de ser. Pelo lado do luxo não se poderá jamais atingir a opulência do império romano. Se o tempo permitisse eu vos leria algumas notas que aqui tenho sobre isso. Verieis que as memoráveis ceias de Crasso e Lucullo não valiam o leque, véu e espelho de Cleópatra, os anéis de Faustina e Domicia, os braceletes de Cesonia, os brincos e o vaso noturno de Poppéa e Calpurnia, os espelhos e diademas de Sabina e Lolia Paulina; só essa
mulher de Calígula tinha quarenta milhões de joias, herança de seu avô Lolio, o celebre governador do Oriente, que acumulara tesouros fabulosos com as mais escandalosas rapinas. Cada um d'aqueles objetos de luxo custou milhões, como os vestidos, em que trabalharão gerações de operárias, denominado por Seneca, Plínio e Varrão, vestidos de vidro e de vento, para significarem a sua delicada textura.
Cesses autores, nas obras de Junio Paulino e dos satíricos atinos, podereis ler a descrição da vida intima de uma patrícia romana. Vendo a legião de escravas, artistas e modistas que serviam a cada uma, os ofícios extravagantes d'elas, as peças do vestuário, os perfumes, cosméticos, etc, não nos parecem exageradas as imprecações de S. João Chrysostomo e S. Clemente de Alexandria contra essas terríveis damas romanas e galo-romanas.
Debalde a lei Oppia quis refrear o luxo, debalde clamou Seneca que todas as pensões das viúvas de generais mortos em defesa do país não montavam a cifra de uma só das joias de uma patrícia!
Pelo lado da variedade também pode-se dizer que todas as combinações estão esgotadas.
Pretendia provar-vos essa proposição com uma rápida resenha da historia da moda em França, a partir dos reinados de Felippe Augusto e dos Luizes VIl e VllI, quando começou, até nossos dias. Queria mostrar-vos que já S. Luiz foi obrigado a restringir o luxo; que no tempo de Felippe, o Belo, Felippe de Valois e Carlos VI a moda fazia furor, e os penteados monstruosos d'esse tempo excitavam as iras dos pregadores, enquanto os cornos de enfeite, as caudas e os bonets pontiagudos erão fulminados pelo Vaticano; que as modas itálicas de Francisco I, Henrique II trouxeram os vertugadins [saias-balão] as colmeias, as anquinhas e logo após, no reinado de Henrique IV, a quase nudez das mulheres com os decotados e saias curtas que determinarão bulas de Inocêncio XI, mandando que as mulheres se vestissem; que tudo isso foi reproduzido, e aumentado nos reinados dos últimos Luizes, e sobretudo no de Luiz XVI, em que a moda alterava-se ao menor capricho da bela e faceira Maria Antonieta.
Com particularidade lamento a falta do tempo para mostrar-vos o enorme benefício da Revolução de 1789 passando como uma Corrente sobre todas as futilidades das modas do último reinado, e estabelecendo os mais higiênicos vestuários para ambos os sexos. Na verdade, os largos, cômodos e elegantes
vestidos gregos do século de Péricles e da república romana suprimiram as extravagâncias de Maria Antonieta, e M™ de Talien reformou a moda sob os mesmos princípios simplices, sensatos que a Convenção adoptou na administração.
Passemos a outra matéria. A Moda, senhores, é um dos maiores inimigos da higiene. Cambiante por natureza, obedecendo só ao capricho, não pôde harmonizar-se com a ciência cujos princípios são fixos. Pode ela uma ou outra
vez na sua estonteada carreira coincidir com a higiene, mas é para mudar logo. E suas mudanças infelizmente fazem-se por saltos e contrastes, de sorte que o organismo não pode gradualmente a elas afazer-se. Parece mesmo que são as antíteses o chic a essência da Moda.
Nesgados, depois dos balões, e em seguida as couraças, anquinhas e poufs.
Depois das cinturas apertadas, as túnicas amplas.
Depois da mulher maribondo, a mulher comprida e chata como a espada de Carlos Magno. (Risadas.)
Pode-se prever sempre que a moda subsequente será o negativo da atual. Assim, estes penteados de hoje, capazes de esconder o colchão do soneto de Tolentino, serão talvez substituídos pela completa calvície.
Preparem-se as elegantes.
Deveria merecer atenção dos sectários das modas a seguinte consideração:
Todas elas tiveram origem ridícula ou foram inventadas por pessoas que tinham defeitos físicos a ocultar ou vantagens plásticas a ostentar.
Uma senhora de bom gosto sabe tirar partido de tais vantagens ou encobrir com arte um senão. Vêm depois outras e desastradamente imitam-a; mas, não podendo copiar o modelo, tornam-se horríveis caricaturas. Assim um vestido decotado e conchegado ao corpo realça um tronco e membros artísticos; mas quem poderia sem a cegueira da moda tolerai-o em uma pobre senhora de peito descarnado, de espaduas cavalgadas e cadeiras bovinas? (Risadas.) Maria, segunda mulher de Felippe lll, de França, tinha um verdadeiro pescoço de avestruz, adoptou os colarinhos.
Outras mais tarde encobrirão igual defeito com a gravata que tomarão de um regimento de Croatas então acampados em Paria.
Margarida, mulher de Luiz X, dotada de um colo divino e de costumes licenciosos, introduziu o uso dos decotados.
Anna de Bretanha rasgou as mangas e encurtou o vestido para mostrar os mais belos braços e pernas da França.
A celebre Catharina de Medicis degolou o corpinho do vestido, fazendo-lhe uma larga chanfradura por detrás, para fazer realçar as magníficas espaduas que tinha.
Os vertugadins (depois renascidos cpmo crinolines) foram usados por fidalgas da corte de Luiz XIV até á Regência para encobrirem a gravidez.
Os fidalgos obesos do tempo de Francisco II inventaram os ventres postiços, e as anquinhas.
Na corte de Henrique II havia algumas princesas escrofulosas... (apesar do condão que têm os Bourbons de curarem as alporcas pela simples imposição das mãos), inventaram os tuyotés, renascidos mais tarde com o nome de Ruy-Blas.
Os braços fusiformes criaram as mangas de fofos, como os Cupidos velhos o cabelo empoado, as mulheres pequenas os saltos grandes e as achatadas as anquinhas e pouffs.
Maria Antonieta adoptou a touca por ter perdido os cabelos etc, etc. Ora, nessa dificuldade de conciliar a variedade plástica com a uniformidade da moda, seria melhor seguir os preceitos da higiene.
Os antigos exigiam a beleza para a saúde perfeita. Não somos hoje tão rigoristas, mas, cumpre reconhecê-lo, a saúde é um atributo da beleza, e pois a melhor moda deveria ser a higiene. A verdadeira beleza não pode ser essa caquexia das supliciadas pelos vestuários e práticas do chamado mundo elegante.
A moda com efeito desculpa todas as excentricidades com prejuízo da plástica natural e da saúde. É ela que estrangula o pé, o peito e o ventre, arriscando até a sorte das gerações futuras, arranca os cabelos com os penteados, amesquinha
as fôrmas, e torna a mulher um mártir digno de melhor causa.
Sinto, senhores, que a escassez do tempo não permita-me entrar em algumas considerações acerca de várias praticas anti-higiênicas impostas pela moda: deixo de parte os inconvenientes das nossas habitações, da falta de exercício, os abusos da vectação, da troca da noite pelo dia quanto a divertimentos, da falta de insolação, etc. Devo porém dizer de preferência alguma coisa sobre o vestuário especialmente.
Uma questão, senhores, de difícil solução, como todas as que se prendem á origem do homem, é determinar se o vestuário foi inventado com o fim de resguardar das intempéries, ou para encobrir a nudez conforme a Bíblia-, ou para fins de simples ostentação. Foi a vaidade ou a necessidade?
É curioso o acordo do velho Montaigne com os Darwinistas em admitirem a vaidade como único móvel na adoção dos vestidos, aquele baseado em argumentos teológicos, e estes na teoria evolutiva.
A controvérsia hoje pouco vale: o homem civilizado já se constituiu uma crucífera amolecida, incapaz de lutar pela existência sem os conchegos da sociedade. A mulher, essa então é uma bombyx serica que morreria desde que a tirassem da estufa atual.
O vestuário é, portanto, uma necessidade higiênica para preservar-nos de ação direta de certos modificadores cósmicos. Regê-lo pelo capricho é desnaturá-lo com grave detrimento da saúde.
O vestuário do homem hoje é mais higiênico: aparte certas exagerações e excentricidades, pouco haveria a censurar.... se habitássemos um clima frio. Essas vestes pesadas e negras trajadas as mesmas no verão e inverno são um dislate inqualificável.
O chapéu alto de nosso uso é uma calamidade. Os higienistas da Europa têm-no como coisa detestável: dizem que ele não abriga nem do frio, nem do calor, nem da luz, nem do sol, nem da chuva, e além disso aquece sobremodo uma
parte do crânio, a comprime e embaraça a circulação de retorno, produzindo perigosas estases sanguíneas na cabeça. Os autores europeus dizem que nos climas quentes tal chapéu não poderia ser suportado... eles ignoram até que ponto somos macacos. (Risadas)
Senhores, as menores causas, com a diuturnidade de sua ação, podem produzir efeitos gravíssimos. Quem sabe quantas exaltações cerebrais, quantas loucuras de nossa idade não terá causado esse desastroso chapéu tubular? (Risadas.)
Por precaução seria conveniente que ao menos os nossos homens políticos usassem dos chapéus de palha que os Becquerel e os Fleury supõem adoptados pelos habitantes dos climas quentes.
Não preciso assinalar mais os inconvenientes de um chapéu que não satisfaz a nenhuma das condições requeridas. Nos países quentes acresce a transpiração exagerada da cabeça com todos os perigos da sua supressão. Da mesma crítica são passíveis os gorros, e outros semelhantes apetrechos de cobrir a cabeça em casa.
O chapéu quase desapareceu já do vestuário feminino. Resta um caramujo quatro vezes menor do que a cabeça e uma atadura para conter os enormes postiços, fazendo renascer as monstruosas fontanges do reinado de Luiz XV.
Os penteados atuais ainda são mais inconvenientes do que o chapéu redondo dos homens. Conta-se que El-rey Luiz XIV, na sua adolescência, tivera uma febre cerebral em um acampamento. Um médico de província, ignorante da etiqueta, chamado em conferência, apenas aproximou-se do doente arrancou-lhe a cabeleira dizendo: “Senhores, a causa da moléstia d'este rapaz são estas quatro libras de cabelo”. O certo é que a febre desapareceu como por encanto! O que
diria esse colega se visse as nossas mulheres com dois a três quilos de cabelos postiços, afora os naturais, flores, chapéu, grampas, e o mais acessório? (Risadas.)
Quando os postiços são de cabelo natural, que a miséria de umas cede á vaidade de outras, ainda há outro perigo sério: a transmissão de moléstias contagiosas. Eis um caso:
Fui consultado por uma senhora acerca de uma peladura que lhe aparecera na cabeça, sendo o cabelo natural substituído por delgados e curtos fios de lã branca. Sabeis o que era! Nada menos do que um caso de herpes tonsurans, moléstia cuja terminação fatal é a completa queda de todos os pelos do corpo, nem ficando ao menos a lã branca que os substitui no primeiro período. É uma linha excessivamente contagiosa pela disseminação dos espórulos do tricophyton parasita vegetal que a determina. Tal moléstia é rara entre nós, mas
comum na Europa. Suspeitei logo uma trança postiça e verifiquei que não me enganara, porque uma amiga da minha doente, que usava da mesma trança, tinha já quatorze peladuras iguais!
Quereis saber o que tive de fazer? Depois de ouvir o meu amigo Dr. Silvino, aqui presente, cortei as belas tranças naturais das doentes, mandei raspar-lhes as cabeças, e submeti-as repetidas vezes ao suplício da epilação, o arrancamento
dos cabelos um por um, ao redor das peladuras, até destruir o formidável parasita!
Justo castigo de uma prática anti-higiênica!
O uso da flanela sobre a pele, como o dos cache-nez, mantas, etc, é também prejudicial. Excitando transpirações locais, expõe-nos a graves moléstias resultantes de sua supressão.
Felizmente a propagação da hidroterapia tem feito reconhecer que nada preserva mais a pele do que as loções de água Iria. As flanelas são tão úteis aos doentes como prejudiciais aos sãos.
As senhoras ora trazem o pescoço e peito muito cobertos, ora os expõem sem recato aos olhos, e sem prudência ao ar frio.
Nada é senhores, mais prejudicial do que os tais decotados. Essa moda, diz um autor, por si só tem produzido mais anginas, bronquites, pleurites e pneumonias do que todas as vicissitudes atmosféricas. E é justamente nas mais perigosas
ocasiões, nos bailes e teatros que se ostentam os colos nus das senhoras! Os chalés e mantas usados na entrada e saída ainda são piores: exageram a transpiração de uma parte que vai ser logo descoberta. Os movimentos da dança, a atmosfera quente dos salões, tudo concorre para o aumento do suor: basta um golpe de ar frio sobre o peito nu para se produzirem acidentes graves.
Por isso, e por outras infracções da higiene, calculo, e sem medo de exagerar, em 40% o número das senhoras que adoecem logo depois de um grande baile.
Não podendo prosseguir na análise de outras peças do vestuário, sobre que aliás há muito a notar, passarei a dizer alguma cousa sobre a constricção dos vestidos.
Senhores, nada há mais prejudicial, a meu ver, do que as torturas impostas ao homem e à mulher civilizados pelo aperto de várias partes do corpo. Desde a cabeça até os pés quase nenhuma região escapa a ele. Os inconvenientes de tal abuso são imensos, engorgitamento e inflamações de órgãos internos, caquexias, edemas, inchações, hipertrofias e atrofias consecutivas, contusões, degenerescências, varizes, reflexões simpáticas do sistema nervoso, paralisias, perturbações diversas de inervação, e até físicas. Quase todas as moléstias podem ter origem na constricção exagerada e aturada.
O espartilho é o tipo das torniquetes da moda. Os nossos vindouros, descobrindo um colete de barbatanas em alguma ruma, suporam antes ter sido um instrumento de suplicio do que um arreio feminino da moda....
Também o espartilho é, de todas as bugigangas da moda, a que mais e mais ilustres imprecações há merecido. Platner, Winslow, Van-Swieten, Camper, Soemmering, Buffon, Rousseau, Ambrosio Pare, Castro, Spigel, Cuvier, Serres, etc, médicos, naturalistas, filósofos, todos têm clamado em vão contra essa camisola de força das nossas elegantes. O que poderia acrescentar às reflexões, d'esses sábios e às de todos os higienistas modernos?
Esse estojo em que vive a maior parte do tempo a mulher não tem uma única vantagem. Prolongar a mocidade, fingindo elasticidade e rigidez de certos órgãos. Baldado intento!
Pelo lado da plástica o colete é um verdadeiro desaso. Ele destrói essas curvas tão graciosas laterais e anterior da mulher convertendo-a em ridícula ampulheta. (Hilaridade.)
Vede as estatuas gregas, os quadros dos pintores celebres, as Vênus, a Niobe, as Graças, a Eva, as Virgens: todas as curvas naturais desenham-se suaves, belas, sem as deformações do tronco produzidas pelo colete. Figurai-as com as
cinturas apertadas atuais e transformareis em caricaturas as obras primas dos grandes mestres do belo, do ideal.
As Circassianas, as Abissínias, as Albanesas, as mais belas mulheres do mundo, ainda não adotaram o espartilho.
A celebre Mme de Tallien, a Vênus da República de 1792, dizia aos que admiravam a sua beleza e vigor em idade madura que o seu segredo era nunca ter usado de colete de barbatanas.
Só a grande revolução francesa pôde abolir o colete, que fora generalizado em França e na Europa inteira por Catharina de Medicis; infelizmente desde o Consulado começou a voltar a brutal moda, a despeito das imprecações de Napoleão.
Os fidalgos fosseis de Luiz XVIII tentaram renovar os vestuários do tempo da monarquia absoluta. Não o conseguirão; não puderam resistir às vaias com que os receberão, mas o espartilho foi restaurado e exagerado por tal forma, que no beato reinado de Carlos X calcula-se terem morrido, só no ano de 1828, 40,000 mulheres na França vítimas da horrível cintura de maribondo.
Já Galeno clamava contra as fachas com que as raparigas romanas constringiam a base do peito. Com efeito, se as senhoras elegantes estudassem o esqueleto do tórax, veriam que ele é uma pirâmide trancada da base inferior e ápice superior. Assim o fez a natureza e só a cegueira da moda poderá desconhecer os evidentes perigos de invertê-lo de maneira a o ficar o vértice da pirâmide para baixo.
Esses inconvenientes quem vai apontá-los é um dos raros higienistas indulgentes para com o colete, e que pede apenas modificações. Como se, pondera Fleury, fosse melhor evitar o abuso de um instrumento perigoso e inútil em vez de suprimi-lo de todo, e quando tantas são as tendências para o abuso. Pela minha parte acho difícil tornar inteiramente inofensivo um colete de barbatanas.
Eis a lista dos perigos do espartilho segundo Bouvier, cujas condescendências ao belo sexo são patentes:
“Escoriações nas axilas, perturbações da circulação venosa dos membros superiores, acidentes por compressão do plexo braquial, achatamento e contusão dos seios, moléstias dos gânglios linfáticos e das mamas até o cancro, disformidades e moléstias dos mamelões, dificuldade de movimentos, atrofias de músculos comprimidos e inativos, abaixamento e aproximações forçadas das costelas, estreitamento e reduções das cavidades do tórax e abdômen, recalcamento do diafragma, compressões dos pulmões, coração, estômago, fígado e intestinos, sobretudo depois de comer (também muitas não comem quando põem o colete no máximo), dificuldade de respirar e falar, agravação dos sofrimentos pulmonares e cardíacos, hemoptises, palpitações, síncopes por embaraço de circulação de retorno do tronco, pernas e cabeça, congestões, lesões das funções digestivas, gastralgias, náuseas, vômitos, redução do estômago, interrupções e lentidão no curso das matérias intestinais, constipação de ventre, deformação e deslocamento do fígado aumentado no diâmetro vertical
e depreciado nos outros, recalcado para a fossa ilíaca além de moldarem-se sobre ele as costelas, abaixamento e outras deslocações do útero, perturbações de suas funções, não falando nos perigos intuitivos para a gestação e para o feto”.
Por muito longa que seja essa lista, senhores, ainda não está completa. Falta, por exemplo, o seguinte:
Pouco depois de formado em Medicina, vi uma senhora que tinha no ventre um tumor flutuante cuja natureza vários médicos desconhecerão: cada um formulando uma hipótese submetia a doente a tratamentos variados e alguns mesmo bárbaros. Tive a fortuna de reconhecer que o enigmático tumor era simplesmente o rim direito deslocado pelo abuso do colete! O fígado comprimido é quem n'esses casos expele o rim do seu encaixe natural. Mais três casos semelhantes observei, e o último aqui na corte foi visto pelos Drs. Werneck e Pertence.
Não posso deixar de dizer ainda duas palavras sobre uma moda perniciosa hoje geralmente adoptada:
Já vos falei na anemia das grandes cidades. Essa caquexia procede de várias transgressões higiênicas, mas sobretudo da falta de insolação e do exercício ao ar livre e puro. Os movimentos ativos estimulam as oxidações (combustões) internas, as reparações orgânicas, todos os atos nutritivos em uma palavra. Pois bem: em vez da ginastica e dos passeios a pé, tão convenientes a elas, as senhoras adotaram as saias presas e o salto de um decímetro nas botinas, que vieram prejudicar completamente a sua função ambulatória!
A base da estação vertical acha-se em um triângulo cujo vértice é o calcâneo e os outros ângulos as extremidades do 1º e 5º metatarsianos nas suas articulações com os artelhos correspondentes: esse triângulo termina a abóbada formada pelos ossos do tarso. Ora, é justamente no meio do triângulo, no ponto correspondente à concavidade da abóbada que se coloca o salto da botina da moda, eliminando o ponto de apoio do calcâneo o mais importante dos três. Tal inversão completa das leis da estática do esqueleto, senhores, esse abominável
talon Luiz X V, obriga a mulher a contorções de volantim que me surpreendem. (Hilaridade.)
Para manter um equilíbrio tão instável a mulher é obrigada a inclinar o corpo para diante, deslocando o centro de gravidade, o que produz o mais desgracioso andar. Ora, senhores, o andar é um estilo: perde-se sempre que se deixe pelo artificial o natural por pior que seja Todo o disfarce é uma falsificação.
Tão intuitivos são os inconvenientes da botina moderna que julgo-me dispensado de enumerá-los. Nossas mais em ti es gerações deformadas pelo espartilho legaram-nos o abastardamento do tipo feminino, e especialmente as variadas moléstias de útero, desconhecidas quase de nossas avós; nossas mulheres, com o terrível talon Luiz XV, transmitirão às filhas e netas vícios de conformação da bacia, pernas e coluna vertebral, que hão de prejudicar completamente as gerações futuras, obrigando talvez a sociedade a recolonizar-se com as mulheres selvagens, para melhorar a raça humana. É isso pouco mais ou menos o que diz Fleury.
Ainda tenho um requerimento a fazer. Pedirei a isenção do serviço ativo das modas para as pobres crianças quase tão torturadas como as senhoras. É uma verdadeira barbaridade deformar esses organismos ainda não desenvolvidos e nos quais a impressão dos arreios do vestuário fica indelével.
Peço para as crianças calçado largo e sem salto, e vestidos amplos que deixem desenvolver sem peias a constituição.
Se fosse possível deixarmos estas vestes pretas de lã, reprovadas no verão mesmo na Europa.... A cor negra retém mais o calor do que qualquer outra, e em nosso país isso é de grave inconveniente.
A vida humana, senhores, nos climas tropicais, mantém-se à custa de artifícios fisiológicos, que só a aclimação por séculos pode tornar fáceis. As oxidações internas do ato nutritivo, os movimentos da vida de relação e fibrilares, as ações químicas vitais, a combustão do açúcar do fígado no pulmão, o trabalho celular, os fenômenos nervosos, o próprio pensamento desenvolvem uma quantidade de calor que não pode ser exatamente determinada, mas tão elevada que permite ao homem manter o calor do seu sangue sempre a 37° centígrados em todos os climas, apesar da irradiação, mesmo em uma atmosfera glacial. Ora, temos um verão de 30 e 35° cent.: devemos ter o sangue aos 37° indispensáveis á vida e à saúde, e não podemos dispensar os atos nutritivos termogenos.
É a evaporação da água pela transpiração da pele e perspiração pulmonar que rouba o excesso de calor. Ha de o pulmão pois converter-se em órgão refrigerador passando parte das suas funções de hematose, descarbonização do sangue, ao fígado: d'ahi a hypercrinia d'este órgão da frequência de suas lesões nos climas equatoriais, d'aí também o perigo de sua compressão.
É nu e a sombra que o homem se acha em melhores condições para viver nos climas quentes. A experiência o demonstrou a todos os selvagens da zona tórrida. Deveria, portanto, o nosso vestuário ser o mais leve e amplo possível.
Um bom tratado de higiene intertropical, e especialmente da respectiva vestimentaria e bromatologia, é uma lacuna ainda não preenchida. A nós, que tanto falíamos na necessidade de colonização, incumbe essa tarefa. Sem a aclimação toda a colonização é perdida.
O tempo obriga-me a parar aqui. Resumamos em duas proposições a matéria da nossa conferência;
1ª: a Moda deve ser verdadeiramente progressiva melhorando sempre.
2ª: a Moda deve andar de harmonia com as leis higiênicas.
Peço desculpa de ter por tanto tempo roubado a vossa atenção desenvolvendo tão mal um assumpto digno de melhor orador (muitos não apoiados), e permiti que, se tiver tempo, complete estas observações em uma outra ocasião.
(Aplausos gerais do auditório).”
[1] É o systema da Companhia de Jesus. Com as festas idolatras da China e Índia, com os candomblés, reinados do Rosário (congados), marujadas, etc , mantinham o domínio espiritual sobre os povos bárbaros do Oriente, os indígenas da América, e os africanos escravos, que n'essas bugigangas esqueciam a servidão a eles imposta. (Nota do Orador.)
Localização
- Conferências Populares, Rio de Janeiro, nº3, mar.1 876, pp 103-127. (na integra). Capturado em 12 nov. 2025. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/docreader/278556/343
Ficha técnica
- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.
- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.
Forma de citação
Conferência Popular da Glória nº 172. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 2 fev.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=754
Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz – (http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br)