Conferência Popular da Glória nº 176
Data: 14/05/1876
Orador: João Manoel Pereira da Silva
Título: Poesia dramática I. Sua origem e desenvolvimento
Aviso, íntegra ou resumo: Íntegra
Texto na íntegra
“As principais espécies da poesia são, minhas senhoras e senhores, a épica, a dramática e a lírica. A elegia, o hino, todas as variedades de cânticos e poemas descritivos, alegres, bucólicos, satíricos, ditirambos, églogas, incluem-se n'aquelas três espécies, são partes modificadas d'elas, d'elas se devem considerar procedentes.
Já em várias conferências vos fiz apreciar a origem, essência, importância e valor da poesia épica. Hoje começarei umas preleções acerca da dramática. Talvez mais tarde ousarei falar da lírica.
A poesia épica é a mais sublime e difícil. Por isso grandes gênios épicos só encontramos seis, desde que se conhece o mundo, um grego, Homero; um romano, Virgílio; dois italianos, Dante e Tasso; um português, Camões; um inglês, Milton.
A dramática, posto que não tão difícil, todavia segue logo á épica em nobreza, magnificência e necessidade de imaginação poderosa do autor, de estudos sérios de história; carece ainda de conhecimento cuidadoso e perfeito dos afetos e paixões humanas, porque a poesia épica descreve-as, mas a dramática tem por missão apresenta-las ao natural, ao vivo, descendo do ideal à realidade, convertendo as figuras em entes animados e presentes, movendo-as à vista, fazendo-as falar como se persistissem no mundo, e se encontrassem nas situações melindrosas em que são pintadas.
Ha, portanto, de poetas dramáticos superiores, de que se honram muitas nações, maior número do que poetas épicos. A Grécia oferece-nos pelo menos três, que são os de que conhecemos obras. Roma, França, Inglaterra, Espanha, Itália, Alemanha, brilham com muitos, se não todos de primeira ordem, a maior parte de segunda e terceira. A China, a Intua, Portugal, Holanda, Suécia, Dinamarca, Rússia, posto que os não contêm entre seus escritores nacionais como gênios dignos da admiração do mundo, um ou outro poeta dramático nos lembram que se tornou notável e digno de menção particular, ainda que não geral.
Não tenho por fim tratar de todos, e nem de todas as nações. Meu propósito é geral, não especial: refere-se ao conhecimento e apreciação da poesia dramática, e não á análise de escritores. Escolherei as nações que por seus filhos imprimirão a suas poesias dramáticas um cunho de originalidade, de autonomia, de nacionalidade, de sublimidade, que é o característico do gênio. Assim só Grécia, Espanha, Inglaterra e França chamarão minha atenção particular, pois que são as quatro nações que possuem gênios dramáticos da primeira ordem, altivos, sublimes, grandiosos, originais: os outros povos serão rapidamente mencionados em um ou outro poeta seu, que se não atingiu à altura dos das quatro nações de que falei, tornou-se, todavia, merecedor de ser notado.
Seguirei o mesmo sistema que tracei ao empreender o estudo da poesia épica.
Quanto à poesia lírica que se traduz em arroubos, entusiasmos, gemidos, êxtases, lagrimas, cânticos, suspiros, alegrias, ou tristezas, que é a expressão harmoniosa dos movimentos d'alma, essa todos os povos antigos possuirão, todas as nações presentes a cultivam. Os próprios selvagens dos desertos a fazem ressoar em seus folgares, porque ela é natural, espontânea, nasce do coração do homem, do sentimento íntimo da alma, do cismar do espírito. Escapa como a brisa através das folhas das arvores; brota como a flor da planta que por si nasceu da terra. (Aplausos.) A quantidade dos poetas líricos de todas as nações é enorme, quase que se não pôde escolher entre tantos e tão numerosos. Quem não se deixa às vezes inspirar pela musa lírica? Quem não ousa escrever e publicar poesias, que pela maior parte vivem um dia como a rosa, que logo murcha, e esquece-se apenas desaparece?
Como e onde nasceu, teve sua origem e seu berço a poesia dramática, qual o seu desenvolvimento e marcha? Que importância, valor, influência conseguiu? Qual sua natureza e fim?
Eis o assumpto d'esta primeira conferência, reservando para as seguintes a particularização e apreciação das belezas e característicos dos vários autores de que tratar.
Percorrendo os anais dos povos antigos encontraremos os Hebreus, que apenas nos legarão a Bíblia. É um monumento literário e poético que basta para glória eterna de um povo. Mas a Bíblia é poema lírico propriamente, não é épico, não é dramático.
Depois aparecem os Persas, que brilham pelas poesias descritivas, pastoris, apaixonadas como a sua natureza própria. Não nos deixarão, todavia, vestígios de que conhecessem a poesia dramática.
Menos ainda os Árabes, que nunca admitiram, sob seu domínio, edificação de teatros ou salas de espetáculos públicos, que não consentirão jamais, mesmo depois de conhecida a poesia dramática dos Gregos, que fosse ela aclimatada em suas possessões. Contentaram-se com a poesia lírica, extasiaram-se com suas parábolas poéticas, que são verdadeiras fabulas, com seus contos romanescos, com seu poema descritivo de Antar, e seus cantares elegíacos e melancólicos.
Os povos da Índia, segundo as tradições restantes, bem como os da China, com uma civilização anterior à grega, à persa e á árabe, civilização que parou, e ficou estacionaria, possuem literatura vasta, e a possuirão sempre em tempos imemoriais; mas o que d'eles sabemos nem tem data, nem nos é permitido presumir a que época pertencerão. Os viajantes ingleses, que têm sido os mais curiosos investigadores dos tesouros literários d'estes dois povos, encontrarão várias peças dramáticas em ambos os países, solenidades teatrais mais ou menos originais, mais ou menos aproximadas às nossas: não puderam, porém, descobrir a que época ou período histórico pertencerão, ou se são de tempos aproximados a nossos dias, como conjecturam, talvez com mais razão.
Assim, pois, de todos os estudos verificados, de todos os documentos existentes, de todos os exames procedidos, resulta que a poesia dramática nasceu na Grécia, teve sua origem e berço na Grécia, ali desenvolveu-se e floresceu espantosamente.
Assim a Grécia criou a poesia dramática, como criou a poesia épica. A Grécia nestes ramos da literatura, bem como em outros muitos, é a mãe intelectual dos povos do seu tempo, é ainda a mãe intelectual das nações que vieram após ela, e de todas as nações modernas da Europa e América.
Ou fossem seus povos autônomos, como muitos escritores gregos pretendem, ou descendentes de colônias egípcias que para seu solo se transplantarão, e se misturarão e mesclarão com os indígenas, o certo é que à Grécia cabe a glória de ter criado uma nacionalidade própria, uma autonomia própria, uma religião própria, uma vida política e civil própria, uma língua própria, distinguindo-se quase desde os tempos primitivos que conhecemos, sob todos os pontos, dos outros povos contemporâneos.
A raça grega ocupando aquele belo e admirável território, banhado pelo mar, bafejado por uma atmosfera diáfana, aformoseado por outeiros pitorescos como o Helicon, o Pindo e o Parnaso, e que se estende do Adriático ao Bósforo, ocupando quase todas as ilhas próximas, com o tempo avassalaram igualmente as costas ocidentais da Ásia por um lado, e por outro lado criaram colônias próprias na Sicília e Itália, estabelecendo o comércio, desenvolvendo a navegação, aperfeiçoando a agricultura, fundando industrias, e entregando-se ao estudo das ciências, e ao cultivo das letras humanas e das belas artes.
Povo ativo, inteligente, trabalhador, imaginoso, audaz, poético em summo grau, ao princípio deixou-se governar por monarcas, como os seus contemporâneos. Mas cada pequeno território, cada cidade tinha um rei, independente dos outros, ou aluados e amigos, ou adversos e rivais. Quando rebentou a guerra de Troia, uniram-se todos em um só pensamento e ambição. Tempos depois cansaram-se os povos da Grécia de ter reis, e fazendo-os descer dos tronos, constituíram-se em repúblicas, governando-se por si mesmos, elegendo nas praças públicas seus magistrados e autoridades, e formando o sistema político do povo pelo povo. Ainda sob este ponto de vista se distinguirão dos seus contemporâneos.
Mais que nenhuma república grega ou estado grego dominou Atenas já pela força, já pela riqueza, já pelo desenvolvimento da indústria e comércio, já pelas letras, ciências e artes, que cultivou com esmero e entusiasmo, e que tornou enquanto existiu livre em seu monopólio peculiar.
A religião na Grécia era civil, política, social; estado e religião quase que constituíam um só facto. A religião dos gregos, geralmente chamada mitologia ou politeísmo, posto que com traços espiritualistas, porque acreditavam na imortalidade da alma, nos prêmios e castigos depois da morte, e na existência de potestades superiores, ou Deus, tinha, porém, por base objetos visíveis, que lhe davam todos os sintomas de materialismo.
Imaginaram os Entes ou Ente Supremo como emblema superior do homem, e este à sua imagem, e d'ele procedente. Do amor ou consórcio da terra com o Céu procedeu Saturno, que distribuiu a seus três filhos, Júpiter o reino do Céu, Netuno o dos mares, e Plutão o do inferno, a um a vida da alma, ao outro a do corpo, e ao terceiro a morte. Em torno d'estes três Deuses principais que quantidade de pequenos deuses, d'eles procedentes, que desciam às vezes à terra, entretinham relações com os homens, intrometiam-se em seus negócios, tomavam parte n'eles, protegiam ou guerreavam os que amavam ou aborreciam! Ali Juno por sua altivez, Minerva por sua sabedoria, Vênus por sua formosura, Diana pela sua castidade, como brilhavam e erão adoradas pelos deuses e pelos homens! E depois Apollo, Vulcano, Marte, Mercúrio, e outros deuses, que parece mais se ocupavam com os interesses da terra que com os do Céu, que vinham às vezes divertir-se em fazer travessuras no mundo dos homens! (Risadas.)
Verdadeiro poema essa religião, que exprime a imaginação do povo que a fantasia, pratica e cultiva, viva; alegre, folgazona, espirituosa, ligeira, zombeteira, e ao mesmo tempo grave e grandiosa! É a história da humanidade embelezada, poetizada, e que se coloca nos Céus! Um Deus para o bem, um Deus para o mal, um Deus para a guerra, um Deus para a paz, um Deus para as paixões!
D'aí procedia que do Céu partia a direção do mundo, dos deuses as ordens, e, portanto, o destino dos homens. Estes não passavam assim de instrumentos dos deuses porque eram influídos por eles em todos os seus interesses e atos. O destino, a fatalidade predominavam. D'aí esse fatalismo grego, que tudo governava. Crimes, virtudes, vitórias, derrotas, dores, felicidades, erão resultados inevitáveis da vontade dos Deuses; o homem devia sujeitar-se e cumprir o que lhe estava predestinado.
Athenas, principal república da Grécia, e ao mesmo tempo a única quase, como já vos disse, que monopolizava o cultivo das ciências, das letras e das artes, primava ainda pelo comércio e pelas suas festas.
As festas atenienses erão celebradas sempre em honra dos Deuses. Entre eles estimava-se particularmente Baco, porque presenteara o homem com a uva, e a uva produzia o licor precioso, chamado vinho, que dava alegria, delícias e prazeres ao homem. Baco era, portanto, especializado nos festejos, e durante o ano três grandes festas se celebravam em honra de Baco, e elas duravam muitos dias de folguedos.
Pois nas festas de Baco, minhas senhoras e senhores, é que teve sua origem a poesia dramática! (Risadas.)
Três épocas diferentes se compreendem na história especialmente de Atenas, desde seus tempos primitivos até que a Grécia toda se curvou à Macedônia, e depois aos Romanos.
A época de Solon, notável pelos seus trabalhos de legislação e política, que organizou o Estado. A de Temístocles, que brilhou pelas guerras contra os Persas, pelas grandiosas vitórias de Salamina, Platéa e Marathon. A de Péricles, que fulgurou nas ciências, letras e artes de uma maneira tão estrondosa, que nenhuma nação moderna ou antiga apresenta um período igual tão resplandecente de glória literária, científica e artística.
Os romanos foram conquistadores, os gregos colonizadores; os romanos dominarão o mundo pelas armas, os gregos pela inteligência. Onde em Roma e em todas as nações modernas da Europa se encontrão oradores superiores a Demósthenes; poetas a Ésquilo, Homero, Sófocles; filósofos a Platão, Sócrates; historiadores a Thucydides; artistas a Phidias, Appelles, Praxiteles, Zeuxis; médicos a Hipócrates; sábios Aristóteles, a Anaxagoras e ao astrônomo Meton; políticos a Péricles; mulheres ilustradas a Aspásia?
No tempo de Solon nasceu a poesia dramática: aperfeiçoou-se na época de Péricles.
As festas de Baco reunião em Athenas os povos dos arredores, eram um verdadeiro carnaval. Levantava-se ao princípio nas portas de Athenas um grande tablado, onde se aglomeravam coros com máscaras cantando, ao som de orquestras musicais, ditirambos e hinos a Baco. O povo de fora, ao ar, assistia e aplaudia. Ao lado dos coros, músicos e cantores, apareciam faunos, sátiros, e pessoas com vestimentas grotescas. Dias e dias se passavam assim em folguedos.
As despesas erão feitas por subscrições entre particulares depois como foram pesadas, o Estado as tomou a seu cargo, e destinou anualmente as somas precisas.
Um diretor dos coros, por nome Thespis, lembrou-se de introduzir na cena, suspendendo-a, uma personagem recitando versos em honra dos Deuses, e recontando façanhas de heróis gregos. Assim se admitiu o monólogo, que foi logo muito apreciado, posto que já retirasse do culto e louvor de Baco grande parte do interesse da festa
Apareceu Ésquilo, poeta admirável lírico, e entendeu que devia reunir em cena duas personagens, e formar o diálogo. Em vez de um só diálogo inventou muitos ligados, e desenvolvendo-se uns aos outros por meio de uma ação que se representava. Eis o drama criado!
Ésquilo chamou-se, assim, o pai da tragédia, porque só escreveu dramas trágicos, isto é, traçou cenas de um acontecimento e o desenvolveu em diálogos.
Após Ésquilo acrescentou Sófocles terceira e quarta personagem. O coro, que já perdera muito der sua importância nas composições de Ésquilo, mais ainda decaiu nas de Sófocles, porque se reduziu a exprimir o sentimento, a consciência do povo sobre o espetáculo, a moralizá-lo e acompanhá-lo.
A Sófocles sucedeu Euripedes no drama trágico, e este modificou a ação, tornando-a mais humana, mais apaixonada, mais interessante, mais dramática mesmo, pelos afetos íntimos da alma e do coração: o coro quase perdeu de todo sua importância, posto que continuasse apenas como ornamento ou episódio de entretenimento.
Ao mesmo tempo Menandro pintava a vida doméstica, as aventuras particulares, os caracteres dos homens, no drama cômico, que imaginara; e Aristófanes criava o drama satírico, ridicularizando todos os homens notáveis, políticos, filósofos, oradores, artistas, poetas, apresentando-os no tablado com seus próprios nomes e vestes, e tornando-os zombaria do povo ateniense, que, jovial e ligeiro como era, aplaudia com entusiasmo.
As representações dramáticas foram regularizadas. Péricles fez construir um grande teatro, tendo diante de si um espaço aberto e franco para conter povo imenso: os atores usavam de máscaras para serem por todos ouvidos, e de coturnos para parecerem mais altos. Em cada festa se representavam novos dramas. Três arcontes recebiam antes os que deviam ser representados, e os escolhiam, recusando os que lhes pareciam não merecerem as honras do espetáculo. Em cada dia que durava a festa davam-se três e quatro dramas de diversos autores, e no fim se proclamava o melhor, e os arcontes ofereciam ao vencedor uma coroa de ouro e louros.
Das tradições consta que muitos poetas foram coroados, além de Ésquilo, Sófocles, Euripedes e Menandro. Aristófanes nunca recebeu coroas, e até, permitindo os arcontes que seus dramas fossem representados, proibiram que o belo sexo comparecesse a eles, pela indecência e cinismo de sua linguagem. (Risadas.)
Com muitas tradições civilizadoras que a Grécia sem dúvida recebera do Oriente, de onde, nos tempos anteriores à vinda de Jesus Cristo, partira toda a luz, recolhera a Grécia a escrita, levada a seu solo abençoado e fertilíssimo pelos Egípcios, com os quais entretinham maiores relações de comércio e intimidade, já diretamente, já pelas colônias gregas das margens ocidentais da Ásia e vizinhas do Egypto.
Os Orientais que inventarão a escrita começarão a gravar com estiletes de ferro ou ossos de animais as suas composições na pedra. Admitiu-se depois o uso de lâminas de bronze, cobre, estanho e madeira. Os Egípcios inventarão o papiro, extraído da casca de arvores, ao mesmo tempo que se empregavam igualmente o pergaminho, que se conseguiu com uma amálgama de vegetais, e as peles de animais que se preparavam de propósito pra receberem a escrita.
Petrarca nos conta que vira parte da ilíada de Homero gravada em peles de serpentes. O papel só foi introduzido pelos Árabes de Hespanha no século XII; eles o fabricaram com o algodão, fundando grandes maquinismos, e mandando para a Europa os seus produtos. A imprensa veio depois facilitar a multiplicação das composições científicas e literárias.
Assim, portanto, tiravam-se nos tempos gregos e antigos copias das melhores obras que se vendiam e por preços hoje fabulosos; só pessoas muito ricas as podiam alcançar e possuir.
Em Atenas, desde o governo de Pisístrato, que fez copiar e reunir em papiros, pergaminhos e peles de animais os poemas de Homero e Hesíodo, se estabeleceu o costume de depositar os exemplares das obras dos grandes escritores no tesouro público, que se converteu assim em arquivo científico e literário. Sabemos que as composições de Homero, Hesíodo, Ésquilo, Menandro, Sófocles, Eurípedes, Píndaro, Heródoto, Thucydides, e outros autores se guardavam cuidadosamente no tesouro público de Atenas, havendo também exemplares dispersos em casas particulares pela Macedônia, Corinto, Tebas e outras povoações importantes.
Tal era o apreço que se lhes dava, que durante uma peste e fome que assolou Athenas, o rei do Egypto Ptolomeu conseguiu tirar copias de obras dos poetas trágicos atenienses mediante todo o trigo, que lhes ofereceu, e com que foi abastecida a Grécia durante o período da calamidade.
Este Ptolomeu é o criador da primeira biblioteca conhecida. Levantou um grande monumento com o dístico de alimentação da alma, em letras de bronze gravadas na entrada principal. Alli começou a reunir copias de autores gregos, persas, índios, árabes, fazendo enrolá-las regularmente e guardar com sumo cuidado, tendo cada rolo a declaração do que continha.
Os Romanos, depois adquirindo conhecimentos do mundo pelas conquistas de países longínquos, que curvarão a seu jugo, começarão a aperfeiçoar-se nas letras gregas. Nenhum romano de educação fina deixou de aprender a língua grega, para estudar as obras dos grandes gênios de Athenas. Como os gregos deram eles grande valor às composições filosóficas, poéticas e cientificas. A poesia dramática foi abraçada com admiração e entusiasmo, as peças gregas traduzidas em latim, e representadas nos teatros que se levantaram em Roma; Compreenderam os senhores do mundo quanto valia a poesia dramática sob o ponto de vista de comover, agradar, entreter, ilustrar e moralizar o povo, apresentando à vista e ao vivo os grandes acontecimentos, os grandes homens, as grandes cenas, os grandes afetos. Assim, a poesia dramática revivendo vultos antigos, colorindo factos passados, evocando do túmulo os grandes celerados, e os homens valorosos, é uma verdadeira escola de moral porque julga, condena, premeia e incita o horror do vicio, mostra as misérias e perigos das paixões, e proclama o triunfo da virtude.
Os romanos ricos possuíam exemplares das obras gregas; Paulo Emilo destruindo a Macedônia trouxe numerosas copias que lá encontrou, e ofereceu-as ao senado romano, que mandou formar uma biblioteca ou deposito de manuscritos. Sylla avassalando toda a Grécia levou do tesouro público de Atenas todas as preciosidades que ele continha, e aumentou a biblioteca fundada em Roma pelo Estado.
Assim, pois, Roma formou a segunda biblioteca conhecida.
Quando o império romano se partilhou, e Constantino - mudou a capital então do mundo para Constantinopla, estabeleceu biblioteca na sua nova cidade, passando de Roma numerosa cópia de obras e tesouros literários, que ali se acumulavam. Constantinopla possuiu então a maior cópia de manuscritos científicos e literários da época.
Com tais depósitos deveriam, entretanto, chegar a nós todas essas obras. Desgraçadamente, porém, isto se não realizou. Raro é o autor antigo grego, e até latino, cujas composições completas possuímos. A maior parte chegou-nos mutilada; numerosa cópia se perdeu, de modo que apenas sabemos o nome dos autores conservado nas tradições, ou citado em um ou outro escrito.
Como se verificou este evento malfadado? Á civilização grega e romana seguiu-se o caos, a noite horrível da invasão dos bárbaros, do feudalismo, da época chamada idade média. A civilização que apareceu depois, e que cada vez mais se desenvolve no mundo, é a aurora propicia e brilhante que veio após trevas tormentosas, que nos roubarão preciosíssimos documentos da civilização antiga.
Os bárbaros de Atila, Genserico, e outros chefes brutos do Norte avassalando a Itália, reduzirão Roma a cinzas, estragaram seus monumentos, mutilaram suas obras de arte, queimaram seus ricos depósitos de preciosidades literárias, científicas e artísticas. Assim tudo o que Roma possuía de copias de autores gregos e latinos se dispersou, se destruiu, se queimou.
Amrou, general dos Muçulmanos, submetendo Alexandria, capital do Egito, encontrou a biblioteca, posto que já muito reduzida por destroços anteriores. Perguntou a Omar, chefe dos árabes, o que devia fazer d’aqueles livros e pergaminhos. Omar respondeu-lhe que se eles diziam o mesmo que o Alcorão se tornavam inúteis, porque o Alcorão continha tudo quanto se devia saber; se outras coisas proclamavam erão perniciosos, e, portanto, tudo queimasse. Cerca de setenta mil exemplares de obras gregas, latinas, persas, índias, hebreas, árabes foram condenadas ao fogo, e servirão fogueiras, para que duraram seis meses ardendo em Alexandria com o edifício que as continha!
Eis o que nos contam historiadores árabes, e os devemos acreditar, porque as presunções em contrário, e que se deparam em alguns escritos modernos, não bastão para destruir testemunho de árabes contemporâneos, que censuram atos de seus naturais, correligionários e chefes!
Quanto à biblioteca de Constantinopla, que única publica restava, não a pouparão bárbaros e selvagens, cristãos infelizmente, tão ignorantes e fanáticos como os árabes que haviam estragado a de Alexandria! Baldoino, conde de Flandres, no princípio do século XIII, à testa dos Cruzados que corriam a salvar o túmulo de Jesus Cristo e libertar os lugares santos, assolou, incendiou, destruiu Constantinopla. Não poupou a biblioteca, dizendo que ela conservava obras de pagãos contrarias ao cristianismo, e convinha fazê-las inteiramente desaparecer, para não contaminarem a verdadeira religião!
O que se salvou, pois, de manuscritos e obras antigas foi devido a literatos que as guardarão e esconderam à padres excelsos da igreja cristã, como S. Bazilio, Santo Atanazio, e S. João Chrysostomo, a alguns monges que fizeram dos conventos seus asilos, e as transmitiram á posteridade!
Não admira, portanto, que se perdesse a maior parte delas, que chegassem a nós mutiladas muitas das que lograrão escapar no meio da barbaria e escuridão dos tempos! Foi perda imensa para a humanidade, porque elas valem mais como tesouros primorosos, que muitos bens materiais que hoje possuímos. (Aplausos.)
Dos poetas dramáticos gregos só quatro, portanto, podem por nós ser assim apreciados, e todos incompletamente, porque Ésquilo, Sófocles, Eurípedes, Aristófanes compuseram mais de quatrocentos dramas, e apenas uns trinta logramos possuir. De todos os outros nada mais!
E o que ê curioso, de Aristófanes, do poeta licencioso e cínico, do grande satírico, do gênio por excelência sarcástico, mas admirável, quem salvou as obras que nos restam, quem as espalhou por copias, que mandou extrair, e espargir por conventos, foi um padre, um santo da igreja, S. João Chrysostomo,
quando as obras serias, graves, filosóficas e cientificas, de sublime poesia, depositadas nas bibliotecas, o fanatismo religioso estragou, destruiu, nulificou!
Eis a diferença entre o verdadeiro religioso, do santo de virtudes excelentes, de inteligência superior, de gosto literário, de instrução notável; e esses homens ignorantes, fanáticos, supersticiosos, que não creem sinceramente na religião católica, mas que fingem adorá-la, desprezando, destruindo, queimando as grandes composições dos que se chamam pagãos! (Aplausos), condenando às fogueiras da inquisição as composições sublimes da razão e da imaginação, só porque foram escritas por gregos ou romanos, que adoravam outro Deus, consagravam culto a outras religiões! (Aplausos.)
Assim, minhas senhoras e senhores, foi na Grécia que nasceu a poesia dramática; ali foi ela admiravelmente cultivada; ali floresceu, ao lado de suas irmãs a lírica e a épica, de que brotarão igualmente tão saborosos frutos; ao lado da eloquência, da filosofia, da história, das ciências matemáticas e médicas, da arquitetura, da escultura, da pintura, da música; no meio de uma democracia turbulenta como era a de Atenas; em um solo onde Sparta, Corintho, Tebas, fulguravam sob vários aspectos; apesar das guerras internas e externas, que a todos os Estados em que se dividia a Grécia assolavam e danificavam!
Ha tempos, em outras conferências, descrevi a apreciação das obras que chegarão a nosso tempo, e que provão o engenho dos grandes poetas gregos; por hoje concluirei esta já longa preleção, dizendo que a Grécia foi acurvada pela Macedônia, depois pela república invasora de Roma, reunida ao Império do Oriente, e por fim avassalada no século XV pelos Turcos de Maomé. Está libertada de novo há cinquenta anos, fôrma de novo uma nacionalidade própria, um reino independente. Mas que é da raça, da língua, dos costumes da imaginação, da inteligência, do gênio criador e enciclopédico, da religião enfim da antiga Grécia.
Tudo desapareceu: resta-nos apenas a história. Nada ficou da herança, dir-se-á que hoje é outro povo, muito diverso sob todos os pontos de vista, que habita aquele solo abençoado.
Nas futuras conferências ocuparei, em continuação do assumpto que encetamos, a vossa benévola atenção.
(Muitos aplausos e repetidos se ouvem de todos os pontos.)
Localização
- Conferências Populares, Rio de Janeiro, nº5, mai. 1876, p. 03 - 17. (na integra). Capturado em 10 dez. 2025. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/docreader/278556/482
Ficha técnica
- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.
- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.
Forma de citação
Conferência Popular da Glória nº 176. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 2 fev.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=758
Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz – (http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br)