Conferência Popular da Glória nº 181

De Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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Data: 18/06/1876

Orador: José Thomaz da Porciúncula

Título: Organisação e vida

Aviso, íntegra ou resumo: Íntegra

Texto na íntegra

“Minhas senhoras e senhores. - Venho a esta tribuna cumprir um dever; eu não podia deixar de aceder, sem que incorresse em descortesia inqualificável, ao honroso convite que me dirigiu o ilustrado Sr. Dr. Felicio dos Santos, orador que devia cativar hoje a vossa atenção com aquele estilo singelo e despretensioso tão bem ajeitado ao assumpto que vos foi verdadeiramente simpático. Não trago afronte engrinaldada e caminho, qual peregrino em romagem, ao templo da ciência; é lá que irei consultar a Sibylle infalível e procurarei decidir-me a respeito da interessantíssima questão de organização e vida, de que venho ocupar-me. É vasto e complexo o assumpto, por isso relevar-me-eis o desprezo das exigências oratórias, e permitireis que eu entre em matéria.

Aos filósofos naturalistas, meus senhores, competia, estudando os reinos da natureza, distinguir os fenômenos comuns que se passão na matéria d'aqueles que, em particular e exclusivamente, se efetuam quando ela constitui-se em mineral, em vegetal e em animal. Observando, no modo de existir, um característico que diferençava os corpos, a divisão em —-orgânicos e inorgânicos — separou a matéria bruta da que é organizada e tem vida, ficando assim estabelecida a linha que devia marcar os limites precisos entre uma e outras.

Considerando, sem o exame acurado dos métodos científicos de investigação, que, em épocas não muito anteriores à nossa, estavam em atraso lastimável, os naturalistas e médicos não puderam eximir-se da evolução porque passou a humanidade, e os períodos de — imaginação, concepção e ideia — também influirão sobre a compreensão da organização e a explicação da vida.

Diante dos fenômenos da natureza, o homem, indagando-lhes debalde as causas, preferiu referi-los ao sobrenatural á convicção do quanto podia abranger então a inteligência; as criações puramente imaginosas foram a consequência, e d'esses cérebros, que pertencerão àqueles que representam a infância da humanidade, brotarão as mitologias que marcarão e definirão esse período intelectual. Ainda hoje, meus senhores, admiramo-nos do quanto fomos férteis em imaginação!

Seguiu-se naturalmente a juventude, à qual não faltou o cunho próprio que traz essa época de transição; a concepção foi-se manifestando, e o elemento anterior teve de lutar contra a rebelião da inteligência e da razão que o abalou e atirou-o por terra com os templos d'esses deuses caprichosos e obscenos, que cederão o lugar a outros cujas doutrinas estavam mais de acordo com a moral e a ciência.

Chegou, finalmente, o período em que, colhidos em elementos esparsos, a – ideia - se foi constituindo.

Foi já nos tempos modernos, foi quando a ciência já tinha chegado á virilidade que a humanidade exprimiu o pensamento por fórmulas que significam alguma coisa, e, em relação à vida, tereis de reconhecer clara e evidentemente isso se me acompanhardes na análise sucinta e rápida a que vou sujeitar as escolas filosóficas e médicas, que se ocuparam dos fenômenos que se passão nos corpos organizados e que tanto os distinguem aparente e temporariamente da matéria bruta. Sem essa ligeira divagação não poderia encetar o estudo dos fenômenos que caracterizam a vida e expor minha opinião sobre doutrinas a cuja critica me furtara; de outro modo não me atreveria a dizer-vos no que consiste a vida, porque preciso antecipadamente historiar as tendências das escolas antagonistas, nascidas na antiguidade, existentes ainda em nossos dias e de cuja luta origino toda essa confusão e indecisão em que nos achamos; não me privo do desejo d'essa digressão pelo passado, porque dos erros da escola contraria a que adepto é que farei sobressair a verdade. Claude Bernard ocupando-se d'este assumpto fá-lo com método, e eu, tornando-me eco de suas palavras, procurarei ser claro.

Meus senhores. Se desde a antiguidade houve sempre tendências em definir-se a vida, privilégio dos reinos organizados, como sendo dependente de um princípio de emanação superior, não menos verdade é que filósofos e médicos dos mais celebres e preponderantes esforçaram-se também, desde essas épocas remotas, por dar á matéria a propriedade de formar por si nem só os corpos brutos, como ainda aqueles que sentem, pensão e são livres; se desde a infância  da humanidade, com Pitágoras, Aristóteles, Hipócrates e Platão, acreditou-se que a vida não dependia da matéria; se essas doutrinas tiveram apóstolos na idade média secundadas pelos místicos e escolásticos; e se no século XVIII adquiriram elas importância considerável em favor e sob a influência de Stahl, que as legou á nossa época por intermédio da escola de Montpelier asseguro-vos que Demócrito e Epicuro explicaram pelo atomismo a vida e exerceram pelo influencia também demasiada, a qual foi sendo de sumo proveito quando a ciência se esclareceu pela observação. Foi então que os próprios filósofos espiritualistas tiveram de curvar-se à verdade e dar novas fórmulas às concepções engenhosas que erigiam em doutrinas; foi então que o cartesianismo se criou por imposição da ciência, que o vitalismo e o animismo apareceram em oposição a Descartes; foi então que a escola das propriedades vitais teve aceitação e foi defendida em Montpellier, não obstante os absurdos sobre que se baseava, absurdos reconhecidamente considerados tais pelos progressos da ciência.

Se tomarmos a escola materialista em sua origem, nós vê-la-emos obrigar o espiritualismo a harmonizar-se com os conhecimentos que iam sendo adquiridos, a separar, portanto, a alma do corpo, e a considerar com Descartes que a vida não é mais do que um efeito das leis da mecânica e a alma um princípio de emanação superior, cuja manifestação é o pensamento. Distinguindo a alma e o corpo, o cartesianismo só a ela define metafisicamente, e em que pese à harmonia preestabelecida, o próprio Leibnitz diz: “o corpo se desenvolve mecanicamente e as leis da mecânica não são violadas; na alma tudo se passa como se não houvera corpo, e n'este tudo é independente da alma”.

Esta tendência dos ontologistas não se deu espontaneamente e tanto é verdade que ela foi originada pelo impulso que ao materialismo imprimirão os iatro-químicos, como Sylvios e Willis, que obrigando-os a reconstituírem as teorias especulativas que adotaram, forçaram-nos a porem-se de acordo com a ciência.

Dominavam as ideias de Descartes quando apareceu Stahl que discordou do modo de considerar-se a vida e de compreender as relações da alma com o corpo, do qual ele a acreditava independente admitindo, porém, que para haver vida e harmonia na organização era necessária a existência de um princípio vital em oposição às forças físicas e químicas, destinadas a destrui-la. D'esta ideia de princípio vital, como endo condição essencial à vida, nasceu o vitalismo transformado mais tarde pelo próprio Stahl, sempre em luta contra a iatro-química que reduzia a vida a um resultado de fermentações, alcalinidade, acidez e efervescência, no animismo, doutrina que considera o princípio vital como dotado de inteligência e vontade, e, portanto, não distinto da alma.

Stahl com o animismo fez renascer a interessante doutrina dos Archeus, e, simplificando-a embora, ele reconheceu como aceitáveis essas extravagâncias e desvarios de Basilio Valentin, Paracelso e Van-Helmont, que acreditavam haver nos seres organizados uma alma imortal e inteligente dirigindo outra mortal e sensível, a qual por sua vez tinha a si subordinadas outras, de menos honras e importância, que constituirão um esquadrão verdadeiro.

Felizmente a ciência não encarou seriamente essa doutrina que sujeitava as funções, reconhecidas independentes da vontade, como a respiração, a circulação, etc, aos caprichos de uma consciência ignorante, como diz um fisiologista, e Stahl viu suas ideias serem batidas pela crítica.

Além dos médicos químicos, preponderaram também os iatro-mecânicos, que travaram-se de luta contra as seitas espiritualistas: Boerhaave, Lavoisier e Laplace provarão que a mecânica era uma e a mesma, tanto para os corpos inorgânicos como para os organizados, que a química não era especial para uns e para outros, e que a respiração e a produção de calor, como consequência, erão fenômenos idênticos aos que se passavam durante a calcinação dos metais.

A escola de Montpellier, aceitando as ideias de Stahl, teve de modificá-las: concordou com a primeira parte da doutrina do mestre, com o vitalismo, e rejeitou o animismo, concedendo somente, portanto, assentimento ao princípio vital como independente da alma.

Estavam assim dispostos os elementos de que dispunham os homens da ciência, quando aquela das doutrinas que ainda estava sob o domínio da imaginação foi trazida para o da observação.

Bichat, meus senhores, aparecendo como um astro esplendoroso, iluminou os horizontes da ciência; foi ele quem teve a glória, diz C. Bernard, de achar a fórmula as concepções flutuantes para de seu tempo; foi ele quem, com a doutrina das propriedades vitais, causou uma verdadeira revolução, dizendo que na fisiologia, do mesmo modo que na física, a relação das propriedades é a causa e os fenômenos são os efeitos; foi Bichat quem, fazendo as manifestações da vida dependerem das propriedades dos tecidos que constituem a organização, tornou evidente a improficuidade dos esforços da metafísica com o fim de explicar um fenômeno puramente material.

A doutrina das propriedades vitais deveria ter aparecido muito antes de Bichat, porque a irritabilidade da fibra viva já tinha no século XVII preocupado a Glysson, e Haller já havia celebrizado seu nome tornando-a experimentalmente conhecida. Tornou-se necessário, porém, que aparecesse um homem de cujo gênio a ciência se aproveitasse para que dos conhecimentos anteriormente adquiridos fossem tiradas as deduções lógicas e irrecusáveis; isto só se deu quando Bichat, procurando interpretar os fenômenos que se sucedem nos seres organizados, reconheceu que a vida dependia da matéria.

No entretanto, meus senhores, não penseis que Bichat explicou-a materialmente; ele não pôde subtrair-se a influência das ideias dominantes de sua época, sofreu o jugo das opiniões de seus contemporâneos, e, portanto, longe de enfi- leirar-se entre os combatentes da escola oposta ao vitalismo, continuou a reputar verdadeiras as ideias mantidas em Montpellier, e errou com essa escola. Bichat entendeu que as propriedades vitais erão torças em oposição às físicas e químicas que tendiam a aniquilar o organismo, e por isso, em ver na própria matéria a causa d'elas, deixou-lhes a origem permanecer no obscuro, no vago e no indeterminado da metafísica.

No entretanto, das ideias do organizador, da anatomia patológica nasceu a escola anatômica, que ligando à matéria o fato da vida, resolveu esse problema antigo, debatido e vacilante, e afirma e o provará que os estados hígido e mórbido dependem das manifestações das propriedades vitais dos tecidos sãos, lesados ou alterados, quer na textura, quer na estrutura.

Com Bichat definiram-se claramente essas duas tendências antagônicas, vitalismo e escola materialista, constituída sob a denominação significativa de organicismo, mas a questão não variou, e ainda hoje se procura saber qual das duas tem por si a razão, se a que nasceu com os primeiros espiritualistas, ou se aquela que vem desde épocas muito afastadas de nós e sempre em oposição a ela.

Eu acredito, senhores, que hoje não se pôde admitir como verdadeiras as doutrinas que fazem a vida depender de uma força de origem não material, que não se compreende, e só acha defesa n'aqueles que desprezão as conquistas cientificas ; eu penso que o vitalismo, baseado na teoria das propriedades vitais, é uma concepção grandiosa, mas que só deve receber honras como tal, e tão convencido estou d'isto, que entendo que o organicismo marcou o período de ideia, o qual vingará, se todas as vistas forem encaminhadas para o terreno não enganador da demonstração científica.

Eu creio que se terminou esta luta mais velha que o celebre canapé do sátiro poeta, lusitano, e o creio porque a escola vitalista hoje não resiste à análise, e o organicismo apura-se e aperfeiçoa-se pelo rigorismo da experimentação e da prova material.

Sim, meus senhores, a doutrina das propriedades vitais e anticientífica; Bichat definindo a vida como sendo, o conjunto das funções que resistem à morte, assevera, como diz C. Bernard, que a vida é o conjunto das propriedades vitais que resistem ás propriedades físicas, e determina assim a diferença entre corpos brutos e organizados, separação que a ciência não reconhece como absoluta, e que nunca pode autorizar a divisão das ciências em vitais e não vitais, como entendia Bichat, a que negava qualquer auxilio mutuo porque o objeto de uma era distinto e sem relações com o das outras.

Esta heresia cientifica foi aceita por muitos sábios coevos e por outros posteriores a Bichat, e da influência d'elas temos um exemplo em Cuvier, que deixa-a palpável em um belíssimo quadro em que ele nos pinta uma jovem na manhã da vida, esplendida de mocidade e beleza, despedindo dos olhos sedutores raios que penetravam mais do que os raios do sol, que tinha nas faces as cores de um céu em aurora, nos lábios sorrisos de meiguice e encantos, nas fôrmas a correção de uma estátua de Vênus, enfim que era uma criação capaz de alucinar, e que se tornou um corpo inerte e repugnante, perdendo toda a beleza, seduções e encantos, transformadas as fôrmas arredondadas e cetinosas m saliências angulosas, as cores da pétala da rosa em uma tinta azulada, verde e negra por fim, os perfumes agradáveis que exalava em miasmas infectos que se elevavam da sanie pútrida, e tudo isso, e toda essa desorganização só porque faltou o princípio que mantinha as propriedades vitais em oposição às forças físicas e químicas que aniquilarão a matéria!

Tal foi a influência que Bichat exerceu ainda mesmo sobre os espíritos mais esclarecidos de sua época, que sendo suas ideias trazidas até nossos dias, ainda a ciência não conseguiu convencer aos adeptos da doutrina das propriedades vitais da contradição em que estão com a verdade.

Por isso, meus senhores, eu recuso submissão aos sectários das teorias que adopta a escola de Montpellier, que unicamente com elas conseguirá embaraçar os progressos da medicina; por isso eu sou propenso ao organicismo, o qual vai caminhando em harmonia com o adiantamento de nossos conhecimentos, e certamente se depurará e perderá esse resto de metafísica que herdou como seita materialista.

Bichat estabelecendo que as propriedades físicas e químicas são as únicas de que gozão os corpos brutos, foi até o extremo: negou-lhes o caráter evolutivo; dizendo que as propriedades vitais erão exclusivas da organização que possuía inerentes à matéria as físico-químicas também, fez a vida depender da oposição entre uma e outras, e assinalou uma origem metafísica às primeiras.

A evidencia, isto é, demonstrado quando ele nos diz: “Prometeu formou algumas estatuas de homens e roubou do céu o fogo para animá-las; este fogo é o emblema das propriedades vitais; enquanto ele queima a vida é mantida; é ele aniquilado a vida extingue-se”.

A inalterabilidade da matéria bruta é um absurdo; a oposição entre propriedades vitais e físico-químicas é incontestável hoje, como o é a diferença entre corpos brutos e organizados do modo porque entendeu Bichat.

Sim, meus senhores, hoje protesta a astronomia contra o axioma que dominou na ciência: materiam coeli esse inalterabilem; hoje protesta a química em favor da alterabilidade que se quer negar à matéria bruta. A descoberta do telescópio mostrou com o aparecimento de uma estrela na constelação da Serpentaria, que “os astros, como diz Faye, não existirão sempre que eles têm um período de formação, igualmente um de declinação seguido de extinção final”; provou que era absurda e simplesmente imaginosa a doutrina das forças siderais aceita pelo grande Kepler que admitia um espirito rector sideral por influência do qual “os planetas seguem no espaço curvas sabias sem tocar nos astros que seguem outra carreira, sem perturbarem a harmonia estabelecida pelo sábio geômetra”. (cit. de C. Bernard.)

A química demonstrou por sua vez que os corpos brutos são capazes de reintegração, regeneração, como os organizados. A experiência de Pasteur a este respeito é evidente: mutilado um cristal e colocado na água mãe, imediatamente na parte destruída há um movimento tão ativo que em pouco o cristal regenera-se e volta ao estado primitivo, segundo as leis de sua morfologia.

Como, pois, senhores, dizer-se que a matéria bruta é inalterável?

Também o antagonismo entre propriedades vitais e forças físico-químicas é um absurdo; a ciência demonstra que a vida depende de fenômenos químicos, com os quais todas as manifestações vitais estão em paralelo.

O oxigênio, agente comburente, produz as combustões que, exageradas ou diminuídas em proporção direta com a quantidade de gás introduzido no organismo, dão em resultado manifestações proporcionais de vida. A morte por congelação é a prova a mais evidente d'isto: quando, lá nos campos da Rússia os bravos, que seguiam o mais sublime déspota do século XIX, caiam enregelados, viam os movimentos tornarem-se impossíveis, enfraquecer-se-lhes a inteligência, desaparecer a sensibilidade e assim morriam, chorando pela pátria adorada e curtindo saudades, é que n’eles o abaixamento da temperatura tornara impossível a combustão, e faltava-lhes esse elemento para os fenômenos da vida.

E como sustentar-se oposição entre propriedades que dizem pertencer aos seres organizados e propriedades que só existem nos corpos brutos, quando a ciência prova que a matéria é uma e única, e que o homem, animal o mais perfeito e complexo, é constituído por quatorze elementos minerais. Quando se sabe positivamente que a matéria por si pôde e é capaz de dar origem a todos os fenômenos vitais, ainda mesmo aqueles que se denominam psíquicos .... Quando se sabe que o mineral, o animal e o vegetal são, em última análise, constituídos pelos mesmos elementos distribuídos diversamente e sofrendo transformações pelas combinações a que se sujeita a matéria até voltar ao estado primitivo?

Vedes, senhores, que a escola vitalista é anticientífica, e que não nos poderá explicar ávida; consegui-lo-á o organismo? Ávida, diz o materialismo, é essencialmente caracterizada pela nutrição; o vegetal tira do solo os elementos indispensáveis à sua existência, o animal colhe do meio cósmico ambiente o que precisa para viver, e por sua vez rejeita o que pode ser nocivo e é inútil ao seu organismo. Sob a forma de água, carbono, amoníaco e sais minerais, os resíduos da alimentação passão para o solo, sofrem alterações, são absorvidos pela planta, que constantemente cede, sob a influência dos raios solares, aos animais o oxigênio em troca do carbono e eles fornecem-lhes. A este círculo material de troca é que prendem-se os fenômenos de vida do vegetal e do animal, e a que está ligado o movimento incessante e geral que se passa em suas organizações e ao qual Cuvier chamou turbilhão vital. Esse movimento é dependente da nutrição, origem das manifestações vitais.

Mas, como tira o organicismo partido da nutrição para fazer compreender a vida?

Meus senhores. Na nutrição há duas operações: a de assimilação, pela qual a matéria subtraída ao meio cósmico exterior, passa a fazer parte dos tecidos organizados, e a desassimilação, ato que se traduz pelo abandono para o exterior da matéria que não pôde prestar benefício ao organismo, e que pôde ser nociva.

D'estes dois atos da nutrição, o segundo, a desorganização, se dá como qualquer fenômeno puramente químico de desagregação nós podemos formular leis exatas baseadas na proporcionalidade da atividade das funções orgânicas, e considerar como um axioma fisiológico a proposição seguinte: “toda a manifestação de um fenômeno em um ser vivo está necessariamente ligada a uma destruição orgânica. - (C. Bernard).

“O gasto molecular, afirma o sábio professor do Collegio de França, é sempre proporcional à intensidade das manifestações vitais; a alteração material é tanto mais profunda ou considerável, quanto a vida se mostra mais ativa; a desassimilação rejeita das profundidades do organismo as substâncias tanto mais oxidadas pela combustão vital funcionamento dos órgãos foi mais enérgico; estas oxidações ou combustões originam o calor animal dão nascimento ao ácido carbônico que se exala pelo pulmão, e a diferente produtos que se eliminam pelos diversos emunctorios da economia”.

A assimilação, porém, requer para ser elucidada atenção: nós vemos alguma os alimentos serem introduzidos „! organismo, presenciamos a sua retirada, sofridas as alterações a que estavam sujeitos; os factos intermediários, no entretanto se passão secretamente. Porém, não obstante essa circunstância, podemos ajuizar d'eles, porque vemos as resultantes: constitui-se a organização, é reparada a perda que sofre e conservada segundo a morfologia própria. Para isso a matéria inorgânica vai constituir os princípios nutritivos que serão distribuídos nos tecidos, e a assimilação será imediata ou imediata. Assim compreendida é fácil concluir que a assimilação é sempre reclamada e precedida da desorganização; que quando, por impossibilidade de funcionalismo a renovação cessar, a desorganização completa, será o termo fatal da vida dos vegetais e animais. Sim, meus senhores, porque se na nutrição estão incluídos os fenômenos de gasto ou funcionais e os de concentração vital ou orgânicos, é preciso que os diferenceis, e a cada um deis o verdadeiro valor, é necessário que conheçais claramente que “a vida se mantém per duas ordens de fenômenos opostos em sua natureza: a combustão desassimiladora que gasta a matéria nos órgãos em facção e a síntese assimiladora que regenera os tecidos n órgãos em repouso”. (C. Bernard.) Somente por estes dois fenômenos conexos e inseparáveis é que podeis calcular qual será a atividade se anormal ou proporcional, e qual o estado consecutivo, se hígido ou mórbido.

Quando, meus senhores, Cuvier apelou para as propriedades vitais, vencidas pelas forças físico-químicas, com o fim de explicar a morte e a destruição do corpo angélico que nos pintara, ele errou com Bichat e com os vitalistas, porque preferiu uma hipótese a um fato de observação, e não quis ver na desassimilação a origem de todas as manifestações vitais.

Sabendo que a nutrição é essencial à vida e no que ela —, não posso concordar com a opinião do ilustrado professor de Patologia geral da faculdade de medicina, porque a argumentação reproduzida por ele incorre nas faltas e erros da escola de Montpellier que adopta.

Antes que entre na definição de vida, deixai-me dizer-vos que os agentes da organização e os da desorganização, assim como as condições, são diversos: o oxigênio é o princípio que atua como desassimilador, ao passo que o gérmen, no embrião nutrindo-se à custa do vitellus, o núcleo na célula e os nucléolos, são os agentes da assimilação, A unidade harmônica e a separação das partes essenciais do todo organizado favorecem ou impossibilitam o funcionalismo e as manifestações vitais.

Eis-me, meus senhores, chegado à parte mais melindrosa do assumpto de minha dissertação: quero falar-vos na definição da vida. Incontestavelmente conhecemos aquilo que essencialmente a caracteriza, mas, poderemos dizer o que é a vida?

Só vive o que há de morrer; morre o que já viveu, diz C. Bernard; mas, d'estas palavras tiramos ideia exata e de proveito?

Meus senhores. Em um belíssimo artigo publicado sob o título - definição da vida —, Claude Bernard, procurando na nutrição os elementos para dizer-nos o que é este fenômeno que envolve de mistérios os seres organizados, separa os atos nutritivos e, por um d’eles de per si e por ambos, analisa as definições apresentadas e recusa-as por incompletas e imperfeitas. Assim Buffon nada afirma quando, encarando as combustões orgânicas como causa das funções vitais diz: vida é um Minotauro, ela devora o organismo; assim nada adiantaríamos se somente levássemos em conta para a definição a regeneração, porque então teríamos como consequência uma criação à custa da matéria inorgânica, que não dissipava as trevas de que se acerca o fenômeno. Também, se conjuntamente encaramos as duas operações da nutrição, ainda assim não poderemos definir a vida, e porque? E que nos falta alguma cousa a atender, reserva sem a qual cairemos nos erros de Beclard, de Dugès e outros, cujas definições não têm os requisitos exigidos pela lógica: “a vida é a organização em ação”, “é a atividade especial dos seres organizados”.

Eu acredito, meus senhores, que a fisiologia moderna nem mesmo à posteriori, poderá dizer o que é a vida; nós conhecemos suficientemente bem a nutrição, e sabemos que d'ela dependem todos os períodos ou idades da existência dos corpos organizados; não ignoramos que no embrião a mancha germinativa aparece depois do vitellus, que a nutre que concorre para seu desenvolvimento; tudo isso é já do domínio da ciência, e, em relação à vida, a observação tem ido até onde lhe é permitida a vassalagem. Há, porém, o guid proprium da vida que é o ponto obscuro do problema e a arma de defesa do vitalismo; mas, compete às atribuições da ciência a investigação d'esse desconhecido?

Se há preceito, senhores, que deve ser atendido, seguramente é esse que impede-nos de averiguar a essência do que quer que seja; a fisiologia perderia de sua importância como ciência se fosse indagar a razão pela qual o gérmen invariavelmente produzirá uma espécie ou um ser semelhante aquele que deu origem ao óvulo ou à semente, e que certamente não vêm ex nihilo; a química nos diz o que é a afinidade? Pôde o ontologista dizer-nos o que é o pensamento em sua essência?

Se provado está que a matéria goza temporariamente da Vida, e que ela depois de voltar ao estado primitivo de novo se organizará, como aceitar a doutrina vitalista, que fazendo carga ao ponto obscuro da lei evolutiva, diz ser impossível achar na matéria a explicação dos únicos fenômenos psicológicos, únicos que que autorizam ao homem ao primeiro lugar na escala dos seres organizados? A matéria sofre evoluções, é incontestável isso; os espiritualistas os mais convencidos da existência de Deus e da alma, que pretendem caminhar com a ciência no-lo afirmam, e para só citar-vos um, eu apresento Flammarion, que nos diz poeticamente: o átomo de carbono que se queima atualmente em vosso pulmão é talvez o mesmo que se queimou outrora na lanterna que servia a Newton para suas experiências de ótica; o fosforo, que formava as fibras mais preciosas do cérebro de Newton, jaz presentemente na concha de algum molusco, ou em um d'esses milhares de animalculos que for mão o mar fosforescente, o átomo de carbono que se escapa atualmente do charuto precioso do fidalgo sybarita saiu, talvez, do túmulo de Christovão Colombo, que lá dorme na catedral da Havana. Se, portanto, a matéria é uma, se ela por si transforma-se, combina-se e organiza-se produzindo vegetais e animais, como e porque não será ela capaz de produzir o pensamento, e querer que ele seja, como diz Flammarion, o que nos constitui verdadeira e imutavelmente? ...

Prossigo, meus senhores, nas ideias que encaminhei para o terreno da ciência porque não quero perder-me no labirinto da metafísica, onde o pensamento não tem para guiá-lo a luz da verdade; prossigo e terminantemente vos digo que o vitalismo há de converter-se e abandonar as heresias que professa; ele já viu a química orgânica fabricar no laboratório os corpos orgânicos que constituem o homem, com exceção das matérias azotadas e albumoides, o que ela, que apenas está na infância em relação ás outras ciências, conseguira com o tempo; o vitalismo viu a fisiologia explicar a vida sem auxilio de hipóteses prejudiciais, e a verá elucidar a questão da evolução dos seres e das espécies segundo a morfologia dos progenitores, como um facto dependente da matéria, e nunca de princípio vital, archeu, ou pscyheu, expressões que só tem valor para acentuar os períodos em que só a imaginação dominou e a verdade cientifica não foi reconhecida.

Possuindo estas ideias, eu não aceito in totum as conclusas de Claude Bernard, que as patenteia na definição da vida; dizendo “vida é a força evolutiva, - ele é incompleto e mesmo confessa que exprime uma unidade no todo morfológico e químico efetuadas pelo gérmen desde sua origem até o fim da vida; dizendo: - vida é a força evolutiva do ser”, ele declara que a podemos definir como o socorro de uma concepção metafísica especial, e dá ás forças físicas, químicas e mecânicas o caráter de agentes efetivos do organismo vivo, parecendo assim excluí-las da reprodução harmônica das espécies e da produção dos fenômenos chamados psíquicos.

Eu não combino bem as ideias de C. Bernard com os progressos da antropologia, e creio que quem diz com Descartes: “pensa-se metafisicamente e vive-se fisicamente”, não devia ser quem diz, no livro a que chamou Physiologia geral, “quando a sensibilidade é consciente há entre a sensação ê o fenômeno motor voluntário outros fenômenos nervosos de ordem superior que tem suas considerações de manifestação em elementos nervosos especiais”.

Não aceito a conclusão de Claude Bernard, porque teríamos então de ver aparecer de novo o absolutismo do absurdo do determinado e da hipótese extravagante atrasando a ciência; e concluo dizendo-vos que uma definição de vida será impossível, se n’ela quisermos incluir o quid proprium, que escapa à observação, e que está fora do domínio de Fisiologia, que não pôde criar doutrinas especulativas.

Eis, meus senhores, o que acreditei de minha competência expor-vos a respeito de - organização e vida -; não sei se fui claro e metódico, requisitos difíceis de serem exigidos em um orador não familiarizado com os hábitos da tribuna, e sem os talentos que requer uma dissertação científica; sei, porém, que me fareis a justiça de acreditar que, em um assunto tão importante como o de que constou esta conferencia, para não compromete-lo, fui colher todas as ideias e até palavras nos Fisiologistas mais notáveis e respeitados, e principalmente em Claude Bernard que, frase expressiva do Dr. Felicio dos Santos, é o Colombo da Fisiologia”.

(Muito bem! Muito bem!)

(Ao concluir o orador foi aplaudido e felicitado pelo auditório)

Localização

- Conferências Populares, Rio de Janeiro, nº6, jun. 1876, p 31-46 (na integra). Capturado em 10 dez. 2025. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/docreader/278556/626

Ficha técnica

- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.

- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.

Forma de citação

Conferência Popular da Glória nº 181. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 2 fev.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=763

 


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