Conferência Popular da Glória nº 182
Data: 25/06/1876
Orador: Antonio Limoeiro
Título: Socorros à invalidez e à velhice
Aviso, íntegra ou resumo: Íntegra
Texto na íntegra
“Minhas senhoras, meus senhores[1]. — É tarde!.. Sinto que a timidez, sinto que insuperável acanhamento, sinto que arrependimento triste... mas tardio! ameaça preencher de exordio á peroração o meu discurso. Arrojado contraste! A minha pequenez tão definida e esta tribuna palpitante já de tanta tradição de glorias, arena vasta, que tem sido a tanto assombro de eloquência, a tanto edificante exemplo! Vence-me a comoção! e enfrenta ao triste quadro a imagem do dever! E tarde! Se nada ao meu arrojo, ao arrependimento a vossa complacência. Perdão!
Socorros á invalidez e à velhice é a minha tese! Socorros desde já á inteligência invalida: eu vo-lo suplico.
As grandes revoluções sociais marcam datas memoráveis. Paginando-as a mão do tempo não esquece os vultos grandiosos, que as operarão, e no Panteão da imortalidade, em frente às frontes canonizadas dos S. Francisco e dos S. Thomaz de Aquino, alteia-se o busto grave de Franklin, os vultos colossais dos Galileu e dos Newton. Le monde marche!... O mundo se precipita! O protestantismo, o cristianismo, a revolução francesa são, entre outros, no dizer de Cousin, voos gigantescos d'essa peregrinação eterna! Nas sociedades constituídas ao influxo do cristianismo, os passos que se dão no caminho das ideias salutares são triunfos, que a humanidade proclama como a semente do passado, lançada à gleba feracíssima, ao cuidado de nossos pais, como a arvore do presente que se alevanta soberba, como frutos do futuro, que aplainarão a trilha traçada a nossos filhos. Nas sociedades modernas a arvore das ideias benéficas desenvolve-se e avulta, enfloresce e frutifica, sem que lhe viciem a seiva os erros do passado, sem que lhe envergue o tronco a heresia do réprobo, o sorriso estulto do profano, o sarcasmo gélido do ateu. É que a ciência esteia as revoluções, que de todo o sempre operam as leis eternas. E que o espírito humano vai sendo menos contingente, porque é força que onde uma chispa de luz penetre, se anule um caos de escuridão, onde o saber se assente, recue espavorida a prepotência da ignorância! É força!
Quando o mundo move-se em todos os seus eixos; quando o progresso nos voos da hipérbole limita os espaços, empena o pensamento; quando as distancias se acabam, e o Corcovado e os Andes campeão o Ararat; quando não mais as escolas dos Antístenes e dos Aristipos combatem os domínios platônicos e o Cynosargo respeita os fastos do Liceu e do Pórtico; quando tudo é assim, e o século não dá passagem à ideia aventureira, nem brada — alas — ao charlatanismo, que passa; quando não mais se pôde ser divino como Aretino, por que se o deve ser como Platão, e as glorias dos Bonnet não se ofendem ás pretensões dos Menecrato; quando em uma palavra, Deus é Deus e o homem racional mais d'ele se aproxima, quanto mais a razão se ilustra, as ideias robustas, os pensamentos civilizadores, a cruzada de luz, que fita o bem-estar da humanidade, há de levar caminho desassombrada e pujante, porque é força que a consciência adira, mau grado o preconceito, aos ditames da razão, ás leis severas da necessidade, à tranquilidade do futuro, que é a paz de nossos filhos.
Mas... linha reta á viagem, que é longa. Eu vou caminho do que respeita á solução do vasto problema proposto pela civilização moderna: - a associação! Busco a vereda por onde ela me ensine horizonte ainda não descortinado, páramo ainda não roteado, oculta Canaã.... aos olhos cegos; busco a verdade de um grande princípio, proclamo uma ideia humanitária, chamo-vos á compreensão de um grande problema: socorros á invalidez e à velhice.
Oh! a associação! sublime consubstanciação de um tanto de todas as cabeças, de um tanto de todos os corações, pensando por cada um e por todos, sentindo por todos e por cada um! Hercules indomável de todas as lutas! Débora libertadora de todas as escravidões! Espoliadora sublime, roubando aqui e ali a ideia no crânio de cada um para espiritualizar uma cabeça divina -a sociedade! Alli e aqui tirando um tanto do sentimento de todas as almas, um tanto do sentimento de todos os corações, para expansão e harmonia de uma grande alma – a caridade! para esteio e vitalidade eterna do musculo gigante de todas as nacionalidades—a civilização.
Minhas senhoras! Meus senhores! É dessa, heroína de todos os tempos é dessa progenitora excelsa de risos e proventos, de condolências e balsamos, de arrimos e seguranças; é dessa arvore de ramos e raízes infinitas, que estende a sua coma imensa por sobre todas as cabeças descobertas, por sobre todas as almas sem crença, por onde a desilusão, após o fogo do trabalho, estende lençóis de neve nos leitos friorentos do descanso; é dessa arvore frondosa como a arvore da caridade, —a associação—que eu destacarei um ramo—as associações de , seguro—e desse colhendo o fruto, que simboliza os seguros sobre vida, exporei a vossa apreciação, especializando, os seguros em casos de invalidez e de velhice.
As associações de seguros são luminares que o progresso sanciona como elementos incontestáveis de adiantamento e de civilização. L’assurance sur la vie est la fortune de ceux qui n’en n’ont pas! C’est la seule garantie efficace des enfants et des veuves contre la pauvreté. O seguro é o aniquilamento do capricho do acaso; é a estrela que tremeluz ao longe; nos infinitos da vacilação e do negrume é o átomo, que alumia e que salva; é a garantia de um risco, que se corre, no dizer de Courcy; é sobre o acaso, que manda, a Sibila, que domina, esmagando-lhe a força, aniquilando a escravidão a que sujeita a fortuna, a felicidade, o bem-estar e a vida!
O acaso teve também o seu reinado de domínio absoluto, e a filosofia dos primeiros tempos consagra-o nas aberrações das eras do obscurantismo! A geometria do acaso de Laplace se positiva sondou-lhe os términos, não lhe teria negado elevado domínio, e embora que ao princípio o acaso governa o mundo se opusesse de frente o preceito pitagórico mundum regunt numeri, a sua força misteriosa fere incontestável os cometimentos humanos! Le hasard a son droit imprescriptible sur toutes nos possessions, sa part fatale dans toutes nos entreprises. S’assurer, c’est lui racheter son droit.
O seguro é, meus senhores, a salvação nos oceanos do acaso, é a tranquilidade nos vaivéns da contingência mundana; é a sentinela avançada às nossas desventuras; o asilo das nossas aflições e tormentas. Ele tem por esteio o granito inquebrável do cálculo, por esplendorosa cúpula os sãos preceitos da filosofia cristã, as verdades inconcussas do socialismo moderno!
De todos os ramos de seguros, é sem dúvida, o que mais interessa a humanidade, o mais fecundo, o seguro sobre vida. De todas as suas combinações, o seguro em caso de morte é o que toca mais de perto as fibras do coração humano.
Deixarei de lado essas espécies de seguros, que não servem de assumpto a minha tese; não entrarei em detalhes: sigo com pressa a trilha, que me tem de levar ao alvo que fito!
As associações de seguros se estendem por todo o mundo!
Se muito tiveram que arcar, ao nascer, com a ignorância, a incredulidade e o preconceito, — veneno que corrói, consome e mata, tiveram em tempo o concurso de espíritos esclarecidos, a proteção dos povos ilustrados, o acolhimento dos governos sábios, a sanção unanime dos tempos e da civilização.
A ciência e a fé, em face às contingências da vida, recorreram à filantropia e à caridade, enquanto não bastarão a inteligência e a luz meridiana dos factos ao desenvolvimento da sacrossanta ideia! Uns, com cedo abrirão os olhos à luz: feriu-lhes de frente a evidência; outros, aferrados às práticas retrogradas, ao preconceito insensato, repeliram os braços abertos, que os incitava à segurança, ao bem-estar e à vida! Em França por muito tempo a simples noção de seguro sobre a vida despertou invencível desconfiança, pertinaz repugnância, devido isso muito em parte ao egoísmo e ao charlatanismo, que tomarão sobre si o exordio da propaganda, aos abusos das tontinas, com as quais se a confundiu, à ignorância das próprias leis da probabilidade daqueles que se abalançaram afoitos á organização de tais instituições, em que com efeito mais a voz ambiciosa do interesse e da especulação ditava normas na ganância e na usura. O preconceito era barrara insuperável! “Era imoral que se assentassem cálculos de transações sobre a vida do homem; a vida não podia ser objeto de estimação; a morte não podia servir de bases á especulação”. E assim a ignorância afrontava o bom senso! Viu-se nos seguros de vida um jogo de interesse sórdido, uma rede infamante de especulação! e banirão n'os da estrada larga do progresso, como a ciência postergada pela escuridão do ateísmo! Era jogo.... e prescreveu-se-o! Era especulação.... e condenou-se-a! Mas não se proscreveu a bruteza do preconceito contra a verdade! Mas não se condenou a estultícia da ignorância contra a ciência! E assim, entregue, atirada à indiferença, á execração pública e à condenação dos governos, vagou esmolando luz a ideia bendita, como a sombra proscrita do passado um raio do futuro!
A França não provou então o pretenso axioma: — Só na cabeça de um francês coloca Deus uma ideia quando quer que ela progrida! De todos os países adiantados foi ela o terreno em que mais custou a germinar, a vingar o pensamento civilizador — alma sublime dos séculos de luz! Mas.... tempo veio em que a ciência, inimiga legitima do preconceito e da cegueira, afastou do caminho os falsos benfeitores, e a ideia vingou para a confusão dos incrédulos e fortuna da humanidade!
Longe vão os tempos em que Philippe II, estigmatizava como ofensivas a religião e à moral as associações de seguros sobre vida! Passadas, longe vão as eras em que os reis de Richelieu e de Colbert, decretavam imperiosos contra a criação d*esses focos de arrimo e de proteção! Longe vão esses tempos.... mas também, só muito ao depois, após séculos e gerações extintas, foi que o país, — vanguarda da civilização, de mãos dadas com a ciência pregada pelos economistas modernos, aceitou a verdade inconcussa das associações de seguros, e o fiat atirou á sanção da humanidade o verbo edificante das previsões sociais.
Benditas associações! Instituições que se dirigem às artérias mais vitais de nossa organização contingente: os nossos interesses e as nossas afeições! Institutions merveilleuses dont Valgebre a posé les bases et dont Ia morale forme le couronnement!
Muito tempo custou que em França as associações de socorros rompessem decidida cruzada; mas ao fiat lux respondeu o arroubamento da paixão, e ao time is money opôs o espírito francês a edificante máxima: S’assurer est èpargner! Eugène Reboul, Clément Duvernois, Courcy, Victor Borie, Edmont About são, entre outros, os eremitas entusiastas, que trouxeram o lábaro sacrossanto de uma revolução bendita à terra santa do bem-estar social.
Na Inglaterra as associações de seguros acharão sólido terreno, fizeram rápidos progressos; e esse povo da prática, e esse povo, que tonto pensa, que tanto reflete e resolve, mas resolve pela força da firmeza e da convicção, de dia em dia curou de fortalecer as bases, os esteios, a organização das associações mutuadas, e hoje apresenta à contemplação de todas as nacionalidades enormes colossos, que simbolizam a cantaria e a ideia, o ferro e a força.
Em 1836, quando na Inglaterra os estudos sobre os seguros de vida apresentava», por assim dizer, um aspecto clássico, estando ao corrente a obra memorável de Francis Baily - Théorie des annuités viagères et des assurances sur la vie – em França Alfredo Courcy lastimava o atraso, a indiferença geral para assunto de tão elevada monta, e que tão pouco incentivo até então encontrava nas próprias lições da experiencia, que com tanta abundância fornecia a pratica da, outras nações coirmãs no progresso e no estudo da fortuna dos povos. Por muito abafou-se o grito revolucionário de tão utilitárias concepções, ao ponto que em 1861, o notável economista francês, que tanto celebrizou seu nome na cruzada humanitária das previsões sociais, escrevia em protesto solene diante do grande movimento de progresso, que levavam então as ciências econômicas em França: Les assurances sur la vie ne sont pas entrées dans nos moeurs!
Nos Estados-Unidos, na Alemanha, como na Inglaterra onde os negócios de seguros são os mais seguros, entrara essas instituições a fazer parte dos costumes do povo e mais iluminados publicistas e os mais adiantados economistas desses países gigantes, com a ciência em punho e a consciência no trono da humanidade, como dizia Kant, asseguraram-lhes brilhante sucedimento! Para eles, para todos, como para nós, é evidente a verdade de que essas associações são garantias de força para o indivíduo, para a sociedade e para o Estado.
Entre nós... tende tudo diante dos olhos, — nada vos poderei acrescentar, mas.... SOCCORROS A INVALIDEZ E Á VELHICE é a minha tese! e uma originalidade brilhante, joia de muito preço, pérola de subido valor, chama-me ao campo prático da questão, para clamar com todas as forças: “utopistas, sonhadores, filósofos, matemáticos, espirites adiantados no caminho das luzes, o vasto problema da civilização moderna conta mais uma, resolução sublime. O Brasil tem a glória de ter criado, o primeiro, de ter organizado sobre bases sólidas de cálculo e princípios inconcussos de moral a primeira associação, que o mundo vê, de socorros á invalidez e á velhice. — A invalidez!... O homem meio-homem! O homem-fracção! O homem-dúvida! O homem-vida e morte!... e a PREVIDÊNCIA a sustê-lo! A velhice! A fronte sobre a terra! O coração sobre os filhos! A razão muda sobre... o nada!... e a Previdência a ampará-lo! Pensamento de Deus no molde das resoluções mundanas! Pedaço da religião encravado na contingência da humanidade! Gloria ao seu criador!
Minhas senhoras, meus senhores! A PREVIDÊNCIA, associação de socorros á invalidez e à velhice, de cujas grandiosas vistas, a minha insuficiência infelizmente só vos dar pálido reflexo, ingrato desenvolvimento, não é uma associação que, ides ver, nascesse irresolutamente do acaso, que tivesse berço nos moldes ilegítimos, mas sempre vastos da especulação, que vise fins indiretos, que dê a quem per que seja interesses menos confessáveis, que se quer assegure aos seus fundadores um seitil mas que o quanto de extraordinário e sublime pode obter qualquer associado.
Ella, é filha da ciência positiva do cálculo, inspirada na contemplação dos azares e riscos a que pôde a desgraça levar a família! Ela é filha de uma resolução bendita, visa um fim humanitário e civilizador; dimana da fonte do estudo, - fruto de um trabalho aturado de mais de cinco anos! E dizer que o mineiro d'este tesouro, que o lapidário d'esta gema, que o organizador d'este arrimo da humanidade foi Benjamim Constant Botelho de Magalhães, dizer que Evaristo Xavier da Veiga, Almeida Valle, Cursino do Amarante e outros exceção feita d’esta nulidade ajudarão na realização da ideia, é garantir que só a ciência em mão de quem a sabe aplicar com proverbial competência, só a honestidade, só a compreensão do que vale a família, só o amor de ser útil à humanidade a poderia conceber a poderia fundar. E, senhores, o que ainda é muito: dizer que Jeronymo José Teixeira, o propugnador valente da emancipação do escravo a dirige com suas luzes imensamente reconhecidas, independência de caráter e venerável honradez, é sancionar a evidência de quanto vos tenho avançado; porque seria muito, quase dispensam o meu discurso, se vos continuasse a apontar nomes, como o de Manoel Francisco Correia, que à sua frente está entusiasta, como sempre se vê à frente de todo o cometimento nobre, de todo o movimento civilizador!
Mas, senhores, eu vou me comprometendo. É demais o amor que leva o indivíduo a trair-se.... mas tenho o direito de diversos. Nunca o meu nome assinou laudatórios a quem quer se seja! Só as agruras do estudo e os sacrifícios do campo de batalha projetam tênue réstia de entidade definida à obscura individualidade, que tão incompetentemente ocupa esta tribuna. E como não citá-los se estou convencido de que eles suprem a mesquinhez do meu discurso; e como citá-los se eles são de certo, garantia segura, alicerces vigorosos de tão grandioso edifício. E como não citá-los.
Eu entro a tratar da associação. Se a instrução é a pedra angular do monumento da civilização de um povo, não menos provas são de seu adiantamento moral, do grau de prosperidade em que se acham, os corpos coletivos que se empenham por assegurar o bem-estar dos cidadãos, a tranquilidade, o arrimo do presente e futuro da família. São os montepios e as associações de socorros mútuos, que preenchem esse desiderato, fazendo com que o chefe de família entre com suas economias em comum, afim de garantir, por mútua solidariedade, o sossego e a segurança de suas famílias; prevenindo as eventualidades da sorte e a miséria que assaltem a seus filhos, quando órfãos, forçando-os muitas vezes, pela crueza da desgraça, a tomar a trilha negra da perdição e do crime! O pai desvelado, o Deus do templo da família sabe que sua existência terá termo, que suas forças se esgotarão, que não mais santificará o trabalho a gota de suor, que é o pão velado da família, ria hora em que o coração, perdendo a vida, luta por deixar-se em obras eterno entre a família, e o amparo, que a economia lhe lega é quase um tanto do coração, que não morreu. Então o sangue cessou, mas o suor, como a arvore da lenda oriental, goteja sempre, garantindo a subsistência da mulher e dos filhos, que lhe bendizem o nome! Que edificante! Que solene testemunho das lições irradiadas do Golgotha!... Mas a rede do infortúnio vai tão longe!... tanto distende o destino as malhas da desgraça, que para as eventualidades, que perseguem o homem, muito aquém ficam esses esteios para assegurar o descanso da família, o sossego do próprio chefe! E.... na verdade, se no meio do luto que a dor derrama, se entre as tristuras e o desespero com que fulmina a morte é eloquentemente sublime o exemplo do pai, que morre, e deixa á família o montepio, que a amparará; quanto cruciante não será para o pai que geme e se estorce no pétreo leito da moléstia, ver, quem sabe por que tempo, a família privada do seu trabalho, que é d’ela o sustentáculo, privado pois do pão quotidiano, privado ele do caldo da dieta, dos auxílios que a moléstia reclama, da tranquilidade d'alma, que é sempre requisito à cura, tendo aberto antes do Evangelho, um livro de duas laudas negras: a miséria em que se fina e a quase necessidade de morrer! Oh! dor! Estás fora das forças do sofrimento humano!
O que garante até aí o montepio? Que esperança alimentara até aí o desditado chefe? Morrer, para então ter pão a família? Ele, estorvo à manutenção dos seus, ao saciar da fome dos filhos que cercam-lhe o leito, a suspirarem por pão! O que resta? Morrer? Oh! pensamento assassino, (necessidade negra!) que a família repele como o punhal que ameaçasse extravasar-lhe o sangue! Oh! é muito grande, é imensa a garantia do montepio, mas bem vedes: antes d'essa consecução, este quadro vos clama bem alto! bem alto! Pois bem; como a lua rompendo a negrura do nevoeiro, como a cruz alumiando derradeiro um cérebro impenitente, como o madeiro alcançando o naufrago desesperado nas fúrias do infinito, a cabeceira d'esse leito vede surgindo um anjo tutelar a bradar: sustem-te, alma tranquila no corpo enfermo! Paralítico, entrevado, vossa família, vós, nunca curtireis o desespero da fome, nunca vos faltará o alento; a vossos filhos o pão! É a Previdência que vela-lhe à cabeceira! Foi a contemplação da hediondez d'este quadro que deu-lhe nascimento! Ella é sincera! Ela é filha da contemplação da desgraça fortuita, que é a desgraça— que pôde assaltar a cada um de nós! Ela garante os meios de subsistência, no caso de moléstia ou acidente que invalide temporária ou perpetuamente, a todos aqueles que por si ou por outrem se habilitarem, na fôrma prescrita em seus estatutos, para terem direito a uma pensão mensal, que julguem suficiente àquele fim.
Será mister provar-vos a sua utilidade? Mostrar-vos as vantagens transcendentes, a importância de uma associação, que tem por fim amparar o braço inutilizado pela moléstia, a cabeça quebrantada pelo gelo das cans? Por certo que me dispensais. Seria pouco confiar de vosso elevado critério em assumpto de tão simples intuição, a menos que fosseis capaz de objetar em contrário, a menos que houvesse quem pretendesse provar que ao deserdado da sorte, ao desprovido da fortuna atirado ao leito da doença, o recurso acautelado que lhe garantisse o sossego, que lhe suavizasse os transes, que lhe facilitasse a cura e mantivesse a família acobertada da miséria era um travo, um embaraço, um meio prejudicial, sequer mesmo dispensável. Não! não há inteligência, não há alma que alimente tal desvario!
E ainda uma consideração, frisante consideração que de tanto peso é, que cremos, ao mais incrédulo não deixará pairar a mais leve interrogação, a menos lisonjeira apóstrofe á providencial utilidade desta associação! Descrevi-vos o quadro tormentoso, as tempestades d'alma do infeliz que, prostrado ao leito, vê-se privado de todos os recursos, sem o necessário sustento à família. Prometeu atado ao Cáucaso da miséria, ele vê distante de si o marco do caminho da desgraça que tem a percorrer, até deixar, se instituiu montepio, a pensão garantidora do futuro da família. E... se o infeliz não conseguiu remir a pensão instituída, se ficou em atraso no pagamento das anuidades.... Oh! eu não exagero!... eu não aumentarei a enormidade do mal! Vós todos podeis imaginá-lo!... Se à cabeceira a cruz aponta-lhe a resignação do Cristo, aos pês do leito quantas vezes esvoaça medonho o espectro negro do suicídio! Eu não exagero! E a realidade quem fala! Virá a febre, o estertor da agonia, o desespero que recorta, considerando além da presente miséria, a futura em que ficará a família, a viúva, os filhos, que tanto procurou amparar, mas que ficam ao desamparo, herdando-lhe a miséria em vez do suor tão poupado, porque ele tem inevitavelmente de perder o resultado, o fruto de suas economias! E que economias! compradas a custo de quanta lagrima! a peso de quanto cansaço! em troca de quanto sacrifício!
Mas hoje, hoje esse transe horroroso não surpreenderá mais o cautelado, porque entre a resignação da cruz e o espectro do suicídio surge velando o anjo tutelar. A Previdência dá-lhe os recursos com que ele sobre estará a crise, porque a pensão que com uma quota insignificantíssima pode instituir o mais necessitado poderá ser, sem sacrifício, superior aos próprios recursos, com que conta quando são, quando apto para o trabalho, vindo o instituído juntamente quando de mais carece a dispor de superior vencimento! Vencimento de um direito, vencimento do trabalho, que resguardou previdente o fruto da economia.
Bendita associação! Filha dos céus, dos anjos e das virgens, que assim, a troco de reais, enxuga lagrimas de sangue, dilata corações opressos consola dando o pão ao infeliz desprovido, socorre sacrossanta a invalidez e a velhice! Ei-la por toda parte, ela vos está estendendo os braços!
Minhas senhoras, meus senhores. - Há uma raça deserdada, que não tem pátria, nem berço! Ha uma comunhão maldita da fortuna, que vive nas profundezas da dor, que liba o fel amargo da miséria, e sustenta-se do pão sem fermento da esmola*, é a mendicidade, é a indigência! Cancro, que, como que parece ter quase uma razão de ser, que como que se legitima, e progride nas próprias sociedades constituídas; cancro que a civilização ainda não pôde extirpar! A mendicidade é uma das úlceras mais infectas, que pôde levar a gangrena a uma sociedade qualquer! A invalidez e a velhice são fontes das mais fecundas ao desenvolvimento do vírus! Não há país civilizado que não tenha procurado por todos os meios combatê-la. Debalde! Hidra que não se ataca de frente! Salamandra, que resiste às labaredas do incêndio! Oh! a civilização tem-se mostrado impotente diante da mendicidade!
A Franca ergueu por toda a parte as associações protetoras da fome dos indigentes., mas pensando destruir a hedionda chaga, criou, sem o esperar, a indústria da mendicidade. Os pseudo-mendigos abundarão e o pauperismo avultou na proporção dos asilos!
Não! Não fica à caridade consumir esse inimigo, que acompanha traidor a civilização dos povos. A ciência econômica cedeu de forças na realização desse intento, e a caridade e tão boa de mais para ser iludida, para se deixar cegar em sua boa fé!
A esmola, se consegue enxugar o pranto da miséria honrada, saciar a indigência, que lota com os reclamos do amor-próprio e do orgulho legitimo, por outro lado a experiencia tem mostrado, que ela incita a hipocrisia, aumenta a mendicidade, dá largas ao pauperismo! Além de que, a esmola é o socorro, que ofende, que insulta o amor-próprio, auxílio que abate e que humilha, que o progresso da moral repele! A caridade, que prega a esmola, cria inocente, quantas vezes um vício, pensando estancar uma lagrima! Não! não é criando asilos, não é instituindo a esmola! Não! Seque-se a fonte, aniquile-se o gérmen morbífico. Proibi-la?... É um impossível A indigência pode ser honrada, e não se proíbe que se tenha fome, e não se vida aos filhos que chorem, porque lhe falta pão. Não! Feche-se a estrada tétrica por onde o mendigo é muitas vezes forçado a entrar na sociedade. Oh! A invalidez e a velhice são tão larga estrada!
Meus senhores. A PREVIDÊNCIA é um passo gigante, voo arrojado do condor da ideia na amplidão infinita dos transes da humanidade sofredora. Ela completa o pensamento edificante e sublime da salvaguarda dos riscos do futuro. Ela recebe hoje migalhas, para amanhã distribuir abundancias, e se todos tendes hoje, refleti no acaso, refleti no destino, pensai no dia de amanhã! Hoje pode bem ser o riso nos lábios, as flores pela fronte, os balsamos no coração! Hoje pode ser a abastança, a messe reflorida e opípara, a lauta mesa do festim, os coros da harmonia, os troféus resplendentes das lutas salutares e pacíficas! Hoje pode bem ser a alegria, o brilhantismo, a mocidade, a primavera, o sol ao meio-dia, e a lua no azul dos céus! Amanhã.... será — quem sabe — a lagrima, a rorejar a pálpebra, os galhos do cipreste, o pranto entrecortado e o coração em torturas! Amanhã será a privação e o apuro, a migalha disputada, as flores estioladas da descrença, a noite carregada do caos. Amanhã será o cortejo lutulento da miséria, a sede e a fome, a esposa inconsolável e os filhos a pedirem pão! Amanhã será a dor que não se abranda, e o desespero que não se alivia, e as forças prostradas, e a invalidez e a velhice! Amanhã!... Meus senhores.
(Aplausos gerais. O orador é felicitado por muitas pessoas presentes)
[1] O orador começou lendo uma carta do Exm. Sr. Conselheiro Correia, a qual recebeu na sexta-feira e que lhe impunha subir à tribuna n’esse domingo por impedimento do Exm. Sr. Conselheiro Pereira da Silva.
Localização
- Conferências Populares, Rio de Janeiro, nº6, jun. 1876, p. 47-60 (na integra). Capturado em 10 dez. 2024. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/docreader/278556/642
Ficha técnica
- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.
- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.
Forma de citação
Conferência Popular da Glória nº 182. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 2 fev.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=764
Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz – (http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br)