Conferência Popular da Glória nº 183
Data: 02/07/1876
Orador: João Manoel Pereira da Silva
Título: Poesia Dramática IV: A Idade Média e os mistérios
Aviso, íntegra ou resumo: Íntegra
Texto na íntegra
“Senhoras e senhores. — A literatura latina, que com tanto brilho florescera em quase todos os seus ramos durante os últimos tempos da república, e do império de Augusto, começou logo depois a definhar, e a língua até a corromper-se. Dos Antoninos em diante tornou-se rápida, geral e visível a sua decadência. O despotismo esmagara o espírito, sufocara a inteligência. Não houve mais poetas, filósofos, historiadores, críticos; apenas uma ou outra voz eloquente ressoou nos escritos e no púlpito, ecoadas por padres da Igreja cristã, que concentrarão, quase únicos, toda a ilustração, toda a ciência, todo o gosto literário da época.
A poesia dramática, posto que não tivesse atingido à altura da épica e da lírica, e nem da história, eloquência e filosofia, mais que os outros diferentes gêneros, porque se manifestam a imaginação, e a razão dos homens, pode-se dizer desaparecera de todo. Tanto os teatros de Roma, como os edifícios para representações cênicas espalhados em Itália, Hespanha, França e África, já não serviam para representar tragédias e comédias, e sim para farsas imundas e indecentes, jogos de arlequins e polichinelos, saltos de histriões e dançarinos, que únicos agradavam e interessavam ao povo, engolfado em todos os vícios da corrupção, que gerara o governo dos Neros, Domicianos e Tiberios.
O cristianismo ia ganhando terreno e importância, afugentando o politeísmo ou paganismo. Os padres da igreja, Cyprianno, Tertulliano e outros levantarão celeuma contra os teatros, e incitarão os fiéis a não concorrerem para essas escolas de imoralidades. O cristianismo que se iniciara classes mais pelas Ínfimas da sociedade, escravos, soldados, homens do campo, e pelas mulheres que se deixavam mais facilmente exaltar pelas suas doutrinas espiritualistas, subira a pouco e pouco, espalhara-se pelas classes médias, e tendia a dominar completamente os ânimos.
Foram os cristãos os primeiros a desertar os teatros, os circos, e os espetáculos horrendos, que serviam tanto ao gosto romano: ficarão os teatros abandonados a viciosos e vadios, que n’eles se recriavam mais com nojentas cenas que com a representação de dramas literários.
No século IV da era de Cristo. ocupou o trono dos Césares Constantino, nascido na Ásia, na Dardania. Esse trono fora possuído por italianos, gregos, africanos, espanhóis, de boa linhagem, e da crápula mais baixa, com revoluções e rebeldias de soldados, com eleições viciadas, e às vezes com regular autoridade do senado, corporação já bastante corrupta também, mas ainda existente e perdurando.
Constantino era um bárbaro, um selvagem, um vicioso: matara sua mulher por suspeitas, assassinara seu filho por denúncias falsas. Constantino resolveu-se a apostatar, abandonando o paganismo pela religião cristã, batizando-se, e entrando para a igreja nova. Constantino, para dar importância ao clero, concedeu honras, bens mundanos, propriedades, imunidade ao bispo de Roma, já então pelos outros bispos reunidos em concílios elevado a chefe da cristandade, bem como a todos os empregados eclesiásticos, tirando assim o clero cristão da situação humilde a que se havia condenado para cumprir sua santa missão, e mostrar a verdade do divino mestre, que proclamara que seu mundo não era o da terra.
Constantino proibiu igualmente por um edito que os cristãos, autoridades e magistrados civis, políticos e militares, frequentassem os teatros, porque os padres da igreja cristã o estigmatizavam constantemente.
A maioria dos habitantes de Roma, porém, não era cristã não abraçara ainda a nova religião. Impressionou-se profundamente contra o Imperador; a nobreza, as classes mais levantadas protestarão por todos os meios, e manifestarão seu descontentamento.
Constantino; ou aterrorizado de residir em Roma, ou para se vingar da cidade, mudou a capital do império para Constantinopla, nas margens do Bósforo, que ele fizera edificar grandiosamente, e a que dera seu nome; abandonou Roma com toda a sua corte e séquito, com grande número de pessoas ricas, que preferiam viver ao pé do trono a residir em uma cidade que se reduzia a colônia ou província.
Dir-se-ia que Constantino compreendera que Roma como era não podia ser cristã, porque do capitólio e de todos os seus edifícios, palácios, termas e arcos triunfais repercutia a reminiscência das glorias passadas do politeísmo, falando ás almas e aos corações; porque das águas do próprio Tibre como que uma voz se levantava, apregoando as grandezas de outrora; condenou, portanto, Roma, ao abandono da corte e governo supremo do Império, e à decadência e ruína, que devia ser sua natural consequência.
Constantinopla adaptava-se mais ao caráter e instintos de um monarca asiático. Prestava-se a títulos honoríficos de Duques e Condes, e a tratamentos de sereníssimo, altíssimo, nobilíssimo concedidos pelo soberano à nobreza que instituirá. Roma ainda conservava senadores, aristocracia real, povo, com ideias antigas da república, com elementos democráticos infiltrados em toda a sociedade, bem que minada por enorme corrupção, estragada por toda a espécie de vícios.
Durou em Constantinopla a sede do Império, ainda denominado Romano, por ser ainda um só e dominador de todo o universo conhecido, sessenta e cinco anos, quando, por morte de Theodosio, dois de seus filhos resolverão dividi-lo entre si e cada um governar a parte que lhe cabia. Partilhou-se o império em 365, um em Constantinopla estendendo o seu domínio sobre a Grécia, Dalmacia, Pérsia, Macedônia, Egito, Palestina e chamando-se do Oriente; outro em Roma sob o governo do imperador Honorio, abrangendo as possessões da Itália, Galhas, Alemanha, Hespanha e África, e denominando-se do Ocidente.
Era, porém, chegada a hora de pagar Roma seus grandes crimes e usurpações, morrendo a seu turno, como sucede a todas as nações. Ao começar o século V foram descendo do norte da Europa hordas e hordas de tribos e povos bárbaros, e apoderando-se das possessões romanas, depois de derrotarem suas legiões, escravizarem seus súditos, arrasarem suas cidades, incendiarem seus aquedutos e monumentos, e fazerem desaparecer os vestígios de sua antiga majestade.
Sabe-se que da Ásia saíram as raças que povoarão a Europa, tanto que em todas as línguas antigas e modernas se descobrem provas de tirarem sua origem do sânscrito do ariano. Pela Escandinávia e países do norte da Europa se espalharam tribos ferozes. Os romanos algumas tinham encontrado, vencido, curvado ou afugentado, estendendo os domínios da cidade de Romulo e dos Césares.
A seu turno sobre povos de Roma se precipitarão essas tribos e novas que foram aparecendo. Da Inglaterra se assenhorearam os Saxoes e Arglos, da França Septentrional os Francos, Burgonhezes e Normandos, da França Meridional, das Espanhas e das cidades africanas do Mediterrâneo, os Godos, Vândalos, Suecos, Alanos. Os Lombardos, da raça goda, passarão os Alpes, e postaram-se no norte da Itália, semelhando todas catadupas que se despenham dos rochedos, e caminham, caminham sempre, alagando e arruinando o que encontram.
Alarico, chefe da tribo goda que penetrara na Itália, marcha sobre Roma, derrota o Imperador Honorio que se refugia em Ravenna. Três vezes assolou Roma, saqueando-a, arruinando-a, derribando-a, incendiando-a. Abandonada enfim por ele, para se estabelecer em localidades do norte da Itália, onde formou um reino particular, Honorio não quis mais volver a Roma, convocou a sede do seu império em Ravenna, fez governar Roma por delegados.
Após Alarico, lá vem diretamente do fundo da Ásia o terrível Atila com seus ferozes soldados hunos. E a tempestade que destrói tudo quanto avista e encontra. Dirigiu-se a Roma, e posto ceda a rogos do Papa que lhe foi ao encontro implorar misericórdia, e deixou de penetrar na cidade, devastara-lhe todos os arredores, e recuara carregado de despojos.
Eis que de África vem igualmente o estrago. Genserico com seus Vândalos toma Roma à ponta da espada, e não poupa nem edifícios, nem homens. Odeacre após ele se apossa de Roma, e declara extinto o império do ocidente, cujo uúltimo representante, Angustulo, se finara em Ravenna. Totila, chefe de novas raças, completa os destroços de tantos bárbaros.
Mas os imperadores de Constantinopla reclamam o domínio de Roma, e por seus generais a fazem governar, instituindo-se então na Itália, em vez de um império do ocidente, desaparecera com a que perda das mais vastas porções do território, um Exarcado dependente do império do oriente, com sede em Ravenna.
Continuou Roma a estorcer-se na agonia, foi morrendo a pouco e pouco. Derriba-se paulatinamente toda a cidade antiga; sobre suas ruinas se vai levantando nova cidade. Desapareceu assim a capital dos Césares; muitos dos seus palácios e edifícios fornecerão pedras e materiais para novas construções; a maior parte ficou enterrada embaixo do solo; e uma nova Roma se erigiu em cima dos ossos, do esqueleto da capital de Romulo.
No século VIII desesperaram-se os moradores da já, por assim melhor dizer, nova Roma que vestígios da velha: os governadores em nome dos Exarcas de Ravenna lhe sorviam todo o sangue; os bárbaros a insultavam e arruinavam a todo o instante. Lembraram-se então de que ali houvera uma república poderosa e independente, que fora senhora do mundo. Como subordinar-se a delegados de Ravenna e Constantinopla?
Revoltam-se os moradores de Roma, proclamam república independente, e para presidente do novo Estado e governo quem mais habilitado que o chefe da religião cristã, que já se tornara geral, extinto com o tempo o politeísmo? Não se dividira já a igreja cristã em duas, a grega em Constantinopla, a romana em Roma? Não era já o bispo de Roma chefe de todos os bispos do ocidente. O dominador das almas e das consciências dos homens da Europa, ao oeste de Roma Assim pela primeira vez entrou o Papa a exercer poder temporal, no ano de 728 da era cristã.
O Exarcado de Revena, em nome do Imperador de Constantinopla, tratou logo de derribar a nova república, mas Pepino, chefe dos Francos, acudiu-lhe em socorro, e concordou com o Papa considerá-lo e sustentá-lo como governo de
Roma, sagrando-o o Pontífice a seu turno como rei dos Francos. Continuando as lutas na Itália, Carlos Magno, filho de Pepino, atravessou os Alpes, derrotou os Lombardos e os representantes do Exarcado Oriental, concedeu ao Papa as honras de soberano temporal de Roma e territórios adjacentes que lhe fixara, com a declaração de sua suserania, porque ele Carlos Magno se proclamou Imperador do Ocidente, restaurado assim o título que finalizara com Angustulo.
Aqui, minhas senhoras e senhores, torna-se curioso estudar a situação do mundo na época de Carlos Magno.
Tudo estava mudado. O grande império romano se desmoronara, e sobre seus destroços e posses se haviam instituído novas nações, nas Galhas, na Alemanha, na Inglaterra, nas Espanhas, na África, e até na Itália. Quanto ao oriente, reduzidíssimo estava já igualmente em território o império de Constantinopla.
Enquanto no ocidente da Europa se ergue uma poderosa nação, sob o cetro de Carlos Magno, que avassala França, Alemanha, Países Baixos e Itália, com essas raças novas do norte, que têm por base os Francos, um outro denodado e audacioso povo se levantara no século VI no oriente. Maomé torna a raça árabe dominadora da Pérsia, Ásia Menor, Bagdá, Medina, Meca, Egito e África. Exaltados pela nova religião que Maomé inventara como continuação da de Cristo, os Árabes se atirarão, em 710, sobre Hespanha, a conquistarão aos Godos, chegando até as margens do rio Loire em França. Carlos Martel, Carlos Magno depois, os fizeram retroceder para Hespanha, salvando a Europa do islamismo. Constantinopla era, no entanto, constantemente ameaçada pelos Árabes, e devia sua salvação a cessões de territórios, de livros preciosos, de objetos de valor estimado, que os chefes árabes muito apreciavam, conservando sempre uma civilização superior á dos outros contemporâneos.
Assim, há duas nações poderosas e novas: Francos e Árabes. Felizmente os bárbaros que invadirão as conquistas e territórios do império, e o avassalaram á seu jugo com todos os seus habitantes, adotaram a religião cristã, tornaram-se fiéis à Igreja de Roma. Os Godos, que últimos possuirão Hespanha, os Francos, os Normandos, os Saxões, se converterão todos ao cristianismo, abandonando suas antigas crenças religiosas
Pelo oriente foi o culto de Maomé que se derramou por toda a parte, a que se foram alargando os Árabes.
A luta devia, pois, aparecer entre os dois grandes impérios novos, entre as duas novas religiões.
Foi a religião cristã que salvou os povos do ocidente, porque o império de Carlos Magno com ele desceu ao sepulcro. Fora este imperador superior á seu século pelas luzes, pelas vistas grandiosas políticas; criara escolas da língua teutônica, que era a sua língua, porque nascera na Alemanha, e precedia da raça germânica; do idioma latino, que adotara para a sua corte, e que era o de que se servia exclusivamente a igreja cristã, de estudos secundários, e até superiores. Ansiara civilizar de um jato todos esses bárbaros que governava, e legar uma grande nação ao mundo.
Apenas, porém, baixou ao sepulcro, seu império se desmoronou, dividindo-se por seus filhos e descendentes. Acabou o império dos Francos, posto que a dinastia Carlovigia continuasse a governar, ainda por algum tempo partes dispersas d'ele.
Na própria Itália novos Estados se criaram independentes, ainda que pequenos. O Papa tornou-se emancipado e senhor temporal, e d'aí por diante, como todos os reis, tratou de aumentar progressivamente seus domínios, usando de meios espirituais com que curvasse as consciências, e das armas da guerra, com que submetesse as vontades e pessoas.
Mas a religião cristã salvou os povos do ocidente porque os ligou pela fé e pelas crenças, e formou, por assim dizer, um império geral, quando o mundo temporal pertencia a tantos mandões e déspotas da época denominada média idade.
É um erro imputar-se a liberdade os horrores da anarquia; não é menor erro imputar-se a religião os vícios, excessos e crimes dos representantes da igreja.
Foi a religião cristã que reuniu os Cruzados de todas as nações ocidentais para opor barreiras às invasões dos Árabes. Foi a religião cristã que levou os Godos espanhóis a expelir do seu solo natal os adoradores do islamismo. Foi a religião cristã que moralizou os Francos, Borgonheses, Godos, Normandos, Saxões, Vândalos, Alanos: aceitarão eles a religião, e com a religião cristã a língua latiria, que era o idioma em que ela se exprimia. Assim se introduzirão entre eles os princípios sãos espiritualistas, a filosofia e moral, ao passo que as raças romanas e gálicas conquistadas receberam costumes mais regrados, ideias nobres e cavalheirosas, que deram novo sangue e nova vida às raças carcomidas e estragadas, oriundas dos antigos romanos.
Desapareceu, é verdade, a literatura, desapareceram as ciências, desapareceram as artes de uma civilização finda. Os bárbaros invasores derrubaram circos, teatros, arcos triunfais, obras maravilhosas de arquitetura, deixarão só de pé os templos, as igrejas.
Começou o caos. Sombras de noite escura cobrirão os horizontes do ocidente, enquanto os árabes ilustrados, que tinham herdado dos antigos os tesouros literários e científicos, pareciam a única luz que brilhava no mundo.
Assim andou a Europa até o ano de 1500, em que acaba a idade média, e começa a da renascença com novas ideias e novos elementos, que depois se desenvolverão para constituir a civilização moderna.
Como achar literatura, poesia dramática no meio da ruína geral das letras e ciências?
Ainda nos conventos se conservava o culto das letras, dentro de trevas, no meio das solidões ascéticas. Ainda um ou outro padre da igreja, ou grega ou católica, como se denominou a de Roma, dedicava-se ao estudo da antiguidade, escrevia em latim uma ou outra dissertação filosófica ou teológica. Ainda nas chamadas universidades, que todas se aplicavam ao ensino eclesiástico, do dogma, e das controvérsias religiosas, se apurava às vezes o gosto para não deixar morrer de todo o conhecimento das literaturas clássicas da Grécia e Roma.
Todos os atos oficiais dos governos, todas as cerimonias da igreja, toda a linguagem das classes elevadas, todos os escritos, enfim, eram em latim, posto que este já se houvesse corrompido, e não se assemelhasse mais ao de lito Livio, Cicero e Salustio.
O povo falava como podia. Haviam quase tantos dialetos quantas cidades, quantas vilas; o latim era a base, mas já um latim tão descorado e modificado, que mal se lhe podia descobrir a origem.
A primeira língua literária da Europa foi a de Proença, falada no sul todo da França, em alguns pontos de Espanha e Norte da Itália. Teve poetas em vários gêneros, lírico, descritivo, elegíaco, satírico. Os trovadores de Proença criaram uma poesia langorosa; mole, apaixonada, e ao mesmo tempo excitante do cavalheirismo e generosidade, rendendo preito às belezas, honrando as damas, recontando torneios, festas e proezas; pode-se dizer que receberão a inspiração dos árabes vizinhos de Hespanha, com os quais se achavam em contacto.
Logo após a língua wallon do Norte da França iniciou-se literariamente com fábulas, romances de Carlos Magno e doze pares, Rei Arthur, Távola redonda, e se foi desenvolvendo de modo que com a unidade da França em um só Estado se tornou a língua atual francesa.
A italiana foi empregada por Dante no seu imortal poema, e seu exemplo encontrou imitadores que abandonarão o latim, ainda que Petrarcha e seus contemporâneos cultivassem ainda muito este velho idioma.
A castelhana, que se converteu em língua espanhola, no tempo de Fernando e Izabel, deixadas a parte a catalã, aragoneza e galega; a portuguesa, que originada da galega se foi latinizando e fazendo própria e autônoma com a independência
do remo e pelos trabalhos dos literatos, e que no reinado de D. João I recebeu sua carta de alforria para entrar na redação dos atos públicos e oficiais, abandonado o uso do latim; a inglesa, que se formou sobre a saxônica e a normanda, ou wallon; a alemã, que mais ou menos conservou sua origem e organização, pouco se apurando com a contato da latina; nem uma d'essas últimas línguas erão ainda literárias.
Era esta a situação da Europa no século XII a XIII, quando peregrinos vindos das cruzadas e do oriente contarão que em Constantinopla tinham assistido a representações cênicas nos templos, a respeito dos mistérios do cristianismo.
O clero conventual e secular do ocidente abraçou a notícia com fervor e alegria. Alguns bispos descobrirão logo um novo meio de propagar as lições da religião por entre seus rebanhos. Começaram-se a escrever em latim mistérios, isto é, cenas dialogadas acerca de assumptos da Escritura Sagrada, e bem assim sobre factos da vida de Jesus Cristo, e depois da missa e do sermão erão eles representados dentro dos próprios templos, em tablados ali improvisados, por eclesiásticos, que assim procuravam instruir e entusiasmar o povo, falando-lhes a todos os sentidos, e a alma e à consciência.
Uma freira alemã, Horswitha, instruída na latinidade, escreveu cerca de seis mistérios, um dos quais com o título de—Milagres de S. Galicano—, e obtidas as licenças do respectivo prelado, ela e suas companheiras, umas vestidas de homem, e outras segundo o uso de seu sexo, os representavam no convento de Gandersheim. produzindo imensa sensação, e chamando a ouvi-los os povos dos arredores. São os primeiros mistérios de que temos notícia, redigidos na língua latina e em versos.
Não tardou em Inglaterra a adoptar-se o uso; o abade de Santo-Albans fez representar mistérios na sua igreja, e d'aí se espalharão eles por toda a ilha. Um muito curioso apresentando o Presépio, Jesus Cristo adorado pelos reis Magos, a estreita que se levanta para anunciar a vinda do Messias, faz vir Virgílio adorar o filho de Deus, Virgílio, pagão, e que nascera e morrera antes de Jesus-Cristo! (Risadas.) Outro lá mostrava a Burra de Balaan, cantando-se lhe hinos em honra, e prometendo-se-lhe, se ela falasse, de ter boa areia e palha. (Hilaridade.)
Em França reproduzia-se igualmente o mesmo espetáculo. Do latim passou em breve a linguagem para a língua wallon, ou popular, para ser o drama bem compreendido. No tempo de S. Luiz um muito importante agradou sobremaneira, e representou-se em várias catedrais e conventos, com o título de Jogo de S. Nicolau.
Reinando Carlos VI, concedeu-se a uma irmandade o direito de levantar palcos fora das igrejas e em toda a França, e a representar os mistérios para moralização e instrução do povo.
Essa irmandade, entre outros dramas, apresentou com enorme sucesso e aplauso a Paixão de Jesus Cristo, em Pariz e em muitas cidades que percorria formava um grande tablado em um campo às portas da povoação. Dividia-se em oito, dez e mais andares. O primeiro e mais elevado, chamado o Céu ou Paraíso, mostrava Deus Padre cercado dos santos e dos anjos. O mais baixo e último apresentava o inferno, os diabos, e os fornos repletos de fogo. (Risadas.) Os outros se deviam considerar as várias localidades em que a cena se passava, Palestina, Jerusalém, Mar morto, Egypto, Jerico, Belém, etc. Ocupavam os atores a cena respectiva conforme a figuravam. O povo ficava de fora, ao ar. Nos domingos depois da missa para ali os fiéis concorriam. Durava o mistério dez ou doze domingos, representando-se em cada um uma parte que se intitulava jornada, nome que os espanhóis guardarão para o seu teatro.
O povo aplaudia com fervor a representação, tomava tanta parte n'ela que queria ao vivo todos os movimentos e gestos dos personagens. Se se devia dar uma bofetada ou uma paulada, devia ser dada realmente, e não como hoje se prática nos teatros. (Risadas.) Ai do ator que não tomava ao sério o seu papel, o povo ensinava-o e castigava-o! (Risadas) Conta-se que um pobre frade em Metz imitou tão ao vivo a parte de Judas, que o povo pensou que era o próprio Judas que ali estava, atirou-se sobre o frade, maltratou-o, matou-o. (Risadas.)
A Irmandade da Paixão, que continha mais de sessenta sócios para representarem os seus mistérios, e figurarem Cristo, Herodes, Pilatos, Nossa Senhora, Maria Magdalena, Judas, Caifás, etc, que todos apareciam em cena, seguiu-se outra companhia não já de eclesiásticos, como aquela fora, mas de leigos, com o título de Clercs de Ia Bazoche. Até ali se apresentavam mistérios, tirados da escritura santa e do Evangelho. A nova associação criou o milagre, outra espécie de drama extraído da vida dos santos. S. Pedro Crucificado por ordem de Nero, S. Paulo decapitado, e muitos outros santos da igreja foram os protagonistas, cometendo milagres e provando a excelência da religião cristã. Imaginou ainda outro diálogo cênico, foi o denominado moralidades, todo alegórico, figurando as Virtudes, a Fé, a Esperança, a Verdade, a Caridade, etc.
Não se passou muito tempo sem se espalhar o gosto pelas representações cênicas. Uma associação crismada com o nome de—Rapazes sem cuidados—passou o teatro para farsas, e sátiras sobre cousas e assumptos mundanos e contemporâneos, atacando o clero, as autoridades, ridicularizando tudo. Levou seu excesso a ponto que o parlamento francês proibiu os teatros e representações cênicas. A farsa — Mestre Pathelin — que obteve extensa celebridade em França, pertence a esta última associação teatral.
Itália ao princípio aceitou os mistérios, mas o povo se deixava levar mais de paixão pelas representações profanas dos Polichinelos e Arlequins. Os mistérios pouca dura aí tiveram, porque as pessoas ilustradas que em maior número existiam em Itália n'aquelas eras, descobrindo comédias de Terêncio e Plauto, preferirão fazei-as representar em latim, ou mesmo traduzidas em vulgar, diante de assembleias de príncipes e de cortes, que muitas se espalharão pela Itália, dividida em diversos e variados governos, cujo principal era o do Papa, já pela sua posição religiosa, já mesmo pela extensão de território de que se tornara soberano temporal, e pela força militar de que dispunha, maximè" depois que Gregório VII, grande gênio e enérgico político, fez conter as preterições dos imperadores da Alemanha, que pretextavam ser imperadores do ocidente como sucessores da raça franca dos Carlovingios, e elevou acima dos reis, como o primeiro, o representante da igreja católica, e sucessor de S. Pedro.
As Espanhas acompanharão o movimento da época, adoptando os mistérios pela mesma forma, mas dando-lhes o título de autos sacramentais, nacionalizando-os de todo, e revestindo-os dos caracteres distintivos dos espanhóis. Assim os autos sacramentais são como obras literárias muito superiores aos mistérios, milagres e moralidades de todas as demais nações» Constituem mesmo obras de valor intrínseco, de verdadeira poesia. Logo que foram admitidos passarão do sagrado para o profano: dos autos sacramentais saiu o drama espanhol com suas riquezas, esplendores, e paixões ardentes. Gil Vicente, português, deve ser considerado o criador do teatro das Espanhas, porque foi o primeiro que em português e em castelhano, às vezes em ambos os idiomas no mesmo drama, escreveu comédias geralmente aplaudidas. Encina, Huerta e outros só depois d'ele se mostrarão. Calderon, Lope da Vega o excederão em poesia, em gênio, em mérito artístico, quer na composição de mistérios, ou dramas sagrados, quer em peças de intriga e paixões, mas não lhe são superiores no gênero satírico e na ironia. Gil Vicente escreveu autos sacramentais de valor, e comédias de interesse e costumes.
Na Alemanha a poesia dramática não se desenvolveu até os fins do século XVIII. Na Itália foi toda de imitação clássica, e sem originalidade. O que se pode apelidar criação italiana é a opera, isto é, a reunião do canto e da música, porque nenhum povo é e foi nunca mais artista que o italiano. A opera dividiu-se em grande opera, opera cômica, opera buffa, como a composição dramática se partilhou em tragédia, imitação dos Gregos, comedia de costumes, caracteres e intrigas, comedia satírica, também de origem grega, e por fim farsas, e um gênero a parte misto, moderno, o drama propriamente, que é exclusivo de espanhóis e ingleses, e que encerra tudo, o grandioso e o ridículo, as lagrimas e o riso.
A França quando acordou e se dedicou à literatura dramática, começou por imitar o teatro espanhol, que era já o mais geral e apreciado da época. Mas o estudo das literaturas clássicas, o contacto com Itália, causou mudança nas tendencias; converteu-se a poesia dramática francesa em imitadora da grega e latina. Suas principais e mais importantes composições são de uma regularidade inteiramente clássica.
Inglaterra, pelo contrário, como Hespanha, dos mistérios tirou sua poesia dramática, e essa foi toda espontânea, nacional, própria, autônoma. Teatros originais inteiramente formaram-se, pois, os dois, espanhol e inglês, que atingiram às maiores galas e sublimidade. que derramarão a mais brilhante luz, e ainda hoje entusiasmam e eletrizam, apesar de suas irregularidades, às vezes extravagâncias e excentricidades. Cada um d'eles explica, ensina, pinta ao vivo sua nação, seu povo, seus costumes, suas tradições, suas crenças e fé, suas tendências. Diferem, todavia, muito entre si, porque são duas nações opostas em caráter e usos, em história e origem.
Porque Espanha, Itália, e mesmo o sul da França não se apaixonarão tanto pelos mistérios ou dramas sacros representados nas igrejas, como o norte de França, Inglaterra e Alemanha, onde o uso se conservou por mais tempo, e mais concorria para as representações o povo entusiasmado? Porque é que em Hespanha tornou-se logo drama, quando tanto tempo levou para tomar essa fôrma nas outras nações? Já sabemos que Itália se dedicou aos estudos das literaturas clássicas, e estes a levarão a abandonar os mistérios. No sul da França a proporção que a língua provençal era substituída pela wallon ou francesa, as feições do norte foram sendo admitidos em todo o território quando já o uso dos mistérios se tinha extinguido.
É que o drama representado em uma igreja de arquitetura gótica aparece muito diverso sob os vários pontos de vista e aspectos exteriores que muito concorrem para a impressão moral dos espíritos.
Os bárbaros invasores do império romano amalgamaram-se com os conquistados em língua, religião e raça; mas guardarão certas originalidades e particulares próprios. O feudalismo, sistema político, é oriundo dos bárbaros. A cavalaria mais dos árabes. O devotamento de homens para homens, a altivez do caráter, o respeito, o culto à mulher, nascem dos bárbaros. Saídos do seio de florestas espessas e quase inaccessíveis, em cujo centro procediam a suas cerimônias, porque a religião é inata com o homem, por mais bárbaro e selvagem, e é impossível que abrindo os olhos, estendendo-os pelo espaço, ouvindo o que o espírito e a consciência lhe falam, não tenha religião (aplausos), saídos de suas florestas, deram à construção de seus templos a fôrma de florestas, como reminiscências; a arquitetura gótica tem por base principal a arvore e as folhas. D'aí esse montão de torrinhas, de ogivas, de tolhas, que se assemelham a florestas. D'aí essa escuridão interior, que mais sombria se torna com os vidros multicores e variados, por onde a luz côa opaca e como que forçadamente, separando raios diversos, e por essa cópia de figuras grotescas, e animais selvagens, que o ornam interior e exteriormente.
Entrai numa catedral gótica, tudo vos comove e enternece. Sois obrigados a descer ao fundo de vossa alma, a receber uma impressão melancólica, a conservar-vos respeitosos, reverentes, até humildes diante da ideia grandiosa e tristonha que parece ressaltar de todas as partes do templo. É como uma linguagem simbólica que todos os objetos exprimem.
Que efeito diverso o do templo romano! Luz por toda a parte e clara e brilhante; anjinhos a rir-se, alegria nos mármores, nos ornatos, na organização toda. Pode ser um templo, mas assemelha-se a um palácio vistoso, agradável.
Assistir á representação de um drama ou mistério na catedral não devia ser o mesmo que em um templo romano.
Os ânimos dos povos do Norte mais se deviam, portanto, impressionar, comover, eletrizar. O efeito é superior. Entre os povos do sul dir-se-ia um divertimento cômico, ao ar, ao sol, ao dia, n’uma sala particular. (Aplausos.)
Se apreciardes os mistérios pelo seu mérito literário, só os de Espanha já meio profanos poderão ser aceitos pelo gosto. Mas o valor dos mistérios não estava no papel, na composição do poeta: estava na alma do espectador, nas suas paixões, nas suas crenças religiosas, nas suas superstições mesmo; e sob este aspecto quanto deviam agradar e popularizar-se? Quanto produza benefícios á moral, aos costumes as famílias às sociedades, à religião, que melhor se aprendera e se apurava com a vista de santos em ação, de Deus visível, de Jesus Cristo sobre a cruz, de Magdalena prostrada? Como devia eletrizar o espectador a Instaria de Eva e Adão Caim e Abel traduzida ao vivo, em ação, em facto visível?
Sob este ponto de vista é não só interessante o estudo dos mistérios, como é importante o seu fim, todo moralizador e religioso. Deixe-se a parte o seu mérito literário; compreenda-se a situação dos povos na média idade. Curvados política e civilmente ao jugo de potentados, ao princípio senhores feudais, depois monarcas absolutos, chefes déspotas e tirânicos; despidos de luzes, de instrução de sociedades agradáveis. Só lhes restava a religião para conforto das almas, para elevação do espírito. Era a fé o balsamo que os aliviava e interessava nas suas dores e sofrimentos, e a religião católica com suas pompas exteriores lhes sorria aprazível espantar-nos mente. Como de que ele se entusiasmasse e eletrizasse com os mistérios, bem que hoje por nós lidos não passem de insipidas composições?
Todavia, dos mistérios da idade média saiu a poesia dramático moderna toda, como do pequeno veio d’agua respingando do rochedo sai o rio caudaloso e magnificente.
Se dois povos alcançarão únicos poesia inteiramente original, sem quase a menor mescla com a dos antigos povos outros, a seu turno, com quanto não brilhem sob este aspecto, se gloriam, todavia, com tesouros dramáticos igualmente apreciáveis, bem que na essência e nas fórmulas acreditassem dever aceitar as regras e princípios dos gregos e romanos.
Com a continuação d'estas conferências conseguiremos amplos esclarecimentos a este respeito. No entanto, por hoje basta o assumpto de que tive a honra de ocupar-me.
(O orador é muito felicitado e aplaudido ao descer da tribuna.)
Localização
- Conferências Populares, Rio de Janeiro, nº7, jul. 1876, p. 03-20 (na integra). Capturado em 10 dez. 2024. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/docreader/278556/719
Ficha técnica
- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.
- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.
Forma de citação
Conferência Popular da Glória nº 183. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 2 fev.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=765
Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz – (http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br)