Conferência Popular da Glória nº 184
Data: 09/07/1876
Orador: Francisco Ignácio de Carvalho Rezende
Título: A mulher perante o evangelho
Aviso, íntegra ou resumo: Íntegra
Texto na íntegra
“Exmas. Senhoras, meus Senhores. — O ano passado, n'este recinto, discutindo eu a tese — Influencia da família na formação do caráter, lembro-me de haver estabelecido, socorrendo-me da história, que fora do Evangelho jamais encontraríamos a família como deve ser—marido e mulher, presos por um laço indissolúvel, formando uma unidade, perpetuando-se nos filhos, tendo uma responsabilidade coletiva.
Se isto é verdade, se não é menos verdade que a mulher é o princípio da vida, o elemento essencial de felicidade na sociedade doméstica, claro é que ao cristianismo deve ela o ser hoje considerada-não escrava, não cousa, não mero objeto de luxo, mas a companheira do homem e sua igual, seu auxílio e sustentáculo n’este mundo.
Qual era a miséria condição da mulher antes da vinda de Cristo; o que ainda é nos países onde não tem penetrado a luz do Evangelho, vós o sabeis pela história, e o padre Ventura o expõe com toda a verdade na sua obra a mulher católica.
Na China é a poligamia autorizada e praticada em larga escala; permite-se que se vendam os filhos, exponham-se os recém-nascidos, afoguem-se as filhas.
Na índia é também praticada a poligamia; efetuam-se debaixo do teto conjugal as mais torpes transações, e nem é isso de estranhar quando as leis de Manou consagram de modo positivo o desprezo das mulheres: “Está no caráter do sexo feminino procurar corromper o homem n'este mundo”, dizem essas leis.
Na Tracia, em Babilônia, na Fenícia forçava-se a mulher à prostituição como o homem ao serviço militar.
Na Tartária a mulher com um pesado grilhão de ferro vive constantemente presa como um mastim, e o motivo d'isso não serei eu que repita perante este auditório.
Na Parthia matava-se mulher, filha ou irmã com a mesma indiferença com que se matava uma caça.
Na Armênia erão as moças consagradas a uma certa deusa, e encerradas em templos convertidos em prostíbulos, d'onde não podiam sair senão depois de certo número de anos.
Na Arábia, quando uma tribo tinha o número suficiente de mulheres, matava quantas nasciam excedentes d’esse número enterrando-as em fossos públicos destinados para esse fim.
No Egito pesava exclusivamente sobre as filhas o encargo de sustentar os pais decrépitos, o que as mais das vezes só podiam conseguir pondo a honra em almoeda.
Em Carthago basta nomear Moloch e Astartés para se conhecer o que devia ser aí a família, e por conseguinte a mulher.
Na Gália e na Germânia era a mulher obrigada a trabalhar para o marido, enquanto vivo, e, morto ele, a superstição arrastava-a a trucidar-se sobre o seu sepulcro para ir servi-lo no outro mundo.
Na Grécia, na culta Grécia, as leis prescreviam e a própria religião consagrava a prostituição pública. Para demonstrá-lo basta recordar o Olimpo, onde, na frase de Gasparin, cada vicio tinha o seu representante, onde cada monstruosidade encontrava sua justificação; basta recordar o templo de Vênus em Corintho; basta recordar o modo porque erão celebradas as hetairas; basta recordar as Aspasias, as Laís e as Phrynés, diante das quais se curvavam os homens os mais notáveis da época, ao passo que a esposa recatada e virtuosa era em tudo e por tudo equiparada á escrava. Na Grécia não se conhecia a vida do lar, não havia educação doméstica, não havia intimidade conjugai, e, portanto, nem vestígio da família. Não admira, pois, que o pai e o marido no leito de morte pudessem dispor da filha e da mulher em testamento, designando o indivíduo que deveriam desposar.
Em Roma, como na Grécia, também não existia a família. Pura criação do direito, a associação a que se dava esse nome não tinha na menor conta os laços de sangue, os laços produzidos pelo casamento e pela geração. Aí era tudo a agnação, o parentesco civil; de nada valia a cognação, o parentesco natural. A esposa não era compreendida na família pelo só fato do casamento; os próprios filhos podiam ser considerados como estranhos, entretanto que podiam fazer parte d'ela os estranhos pelo sangue. Em Roma a família resumia-se no chefe, tendo sobre a mulher e filhos o direito de vida e de morte. A mesma celibatária, governada por seus tutores, era condenada a vegetar n'uma dependência eterna, n'uma eterna minoridade.
Apesar de tudo isto, Roma sustentou-se enquanto se conservaram puros os costumes. Quando, porém, no dizer de uma testemunha ocular mais perigosa do que a espada, a luxuria apoderou-se de Roma e a vingança do mundo vencido foram os vícios que lhe transmitiu; quando esquecido das antigas tradições o povo romano dava-se por mais que feliz tendo pão e os espetáculos do circo; quando vemo-lo folgando com as obscenidades do teatro, nas bacanais nas lupercais, nas festas juvenis; quando vemo-lo em seguida entregar-se à morte com essa facilidade que horroriza, crescendo de modo incrível o número de suicídios, prova evidente de que lá se extinguira de todo o senso moral; quando, finalmente, pervertidos os costumes, mortas as crenças, dissolvida a família a corrupção, depois de estragar o homem, atingiu a própria mulher, sucedeu o que Horácio, o epicurista Horácio, tinha previsto quando dizia aos seus compatriotas; “Por mais que façais não escapareis ás grandes desgraças que vos estão iminentes; Roma está arruinada porque a mulher está corrompida”.
E nem se suponha que contra esse estado de cousas ao menos protestavam os espíritos superiores na Grécia e em Roma. Pelo contrário erão os primeiros com as suas funestas doutrinas e perniciosos exemplos a lavrarem a condenação, o menosprezo da mulher.
Hipócrates e Aristóteles olhavam a mulher como um ser imperfeito, um semi-homem.
Platão, o divino Platão, na sua República suprime o casamento e o substitui por associações anuais. Verdade é nas Leis modificou um que pouco essa teoria; mas ainda assim essas Leis separam no fim de anos os casados que não tiverem filhos.
Pitágoras, vós o sabeis, descreve o universo como obra do princípio bom, criador da ordem, da luz e do homem, - e do princípio mal que fez a desordem, as trevas e a mulher. “Quando a gente casa, dizia Juvenal, não vai buscar uma senhora, mas um carão. Se os olhos d'ela perderem um poucachinho de sua grandeza; se se lhe embaciar o esmalte dos dentes; se a pele desmerecer ou apanhar duas ou três rugas, está tudo acabado entre marido e mulher”. (Risadas.)
Assim pensava-se, assim se procedia.
Simphronio despediu a mulher pelo simples facto de ter esta assistido a um espetáculo sem sua licença.
Sulpidio fez o mesmo com a sua por tê-la encontrado sem véu.
Augusto, o reformador dos costumes públicos, expulsou a virtuosa Scribonia para casar com Livia, que fez do palácio imperial um verdadeiro prostibulo.
Pompeu repudiou a mulher e desposou a filha de Sylla só para alcançar a amizade d'este.
Não sabendo Cicero, o celebrado autor do livro dos Deveres como pagar as dívidas, o melhor expediente com que deparou foi repudiar Terencia, que lhe era tão dedicada, para unir-se a Publilia, que teve a mesma sorte apenas o grande orador lhe devorou o dote.
Catão, o censor, que mereceu uma estátua por ter corrigido os costumes, Catão fez mais ainda: cedeu a Hortensio Marcia sua mulher que estava grávida; tempos depois morre Hortensio deixando Marcia herdeira universal de seus bens; Catão tomou-a outra vez com prejuízo do filho de Hortensio.
E note-se que não é este ainda o lado mais repugnante do quadro. Tiberio, Nero, Heliogabalo e outros foram muito além nas torpezas, torpezas que não são para se repetirem n’este recinto.
Contra o menoscabo da mulher, contra a corrupção que lavrava por toda a parte, só havia no mundo antigo uma excepção: era o povo hebreu rebelando-se muitas vezes contra o seu Deus, exagerando a permissão de Moysés quanto ao divórcio, mas observando a santidade do casamento e respeitando os laços de família. A ideia de que Deus formara a mulher da substância do homem, sua companheira e igual; a crença de que o Messias tinha de nascer de uma mulher virgem colocava-a a abrigo do desprezo com que era tratada entre os outros povos.
A lei judaica vedava severamente a prostituição (Deuteron. XXII, 17.)
Era punido com a morte quem violava jovem viúva no campo encontrada a sós. (Deuteron loc. cit.)
Se esta ainda não estava prometida, o criminoso pagava ao pai uma pesada multa, casando logo com a ofendida e sendo obrigado sem remissão a conservá-la toda a vida. (Deuteron. XXVIII,29.)
Era punido com a morte o adultério, sendo n’este ponto completamente equiparados o homem e a mulher. (Deuteron.XXII, 22)
Morrendo alguém e deixando apenas uma filha, excluíam-se todos os parentes do defunto, ficando ela herdeira única dos bens paternos. (Deuteron. XXVI. 8.)
O assassinato de uma criança considerava-se crime mais odioso do que o. do homem feito, sendo punido de morte quem espancasse uma mulher em estado de gravite se ela viesse a falecer em consequência de aborto. (Exod. XXI 22.)
Em relação ás próprias servas, erão os senhores obrigados a respeitar-lhes a honra, como se filhas fossem.
Mas se isto dava-se entre o povo hebreu, e justamente, como observa o padre Ventura, porque lá estava o cristianismo latente, em estado de gérmen, de figura de expectação, de profecia; e entre nós está cumprido, realizado, perfeito. Israel era o povo cristão da antiguidade, como o povo cristão é o Israel dos modernos tempos, sendo portanto certo que na antiguidade a mulher não foi respeitada, não foi considerada companheira do homem e sua igual senão por influência do cristianismo, por antecipado reflexo de seu espírito e graça sobre ela.
É o casamento a base da família, e o cristianismo elevando-o á altura de sacramento, por ser o emblema da união do Divino Mestre com a igreja, deu-lhe a unidade e a indissolubilidade, estabeleceu a jerarquia, firmou a dignidade dos fracos. Pela unidade vedou a poligamia; pela indissolubilidade condenou o divórcio; pela jerarquia assegurou a ordem; pela dignidade dos fracos pôs a mulher a coberto dos caprichos do marido, impediu o abandono e as sevicias dos pais contra os filhos (C. Cantú – O Bom Senso e bom coração. - Confer. XXV). E são de tal importância estas prescrições, que Gasparin, fervoroso protestante, tratando do divórcio assim se exprime em sua obra. - O inimigo da família: “O divórcio, negação implícita da união; o divórcio, que quebra de antemão o laço indissolúvel; o divórcio com as suas consequências expressamente condenadas por Jesus Cristo; o divórcio, essa monstruosidade, essa rebelião; o divórcio é horrível, é contra a natureza, é contra Deus; não há censuras, por enérgicas que sejam, que bastem; os Reformadores o consentiram, o aprovaram, não há reprovação, por forte que seja, que por isso não mereçam”.
É, pois, da mulher nobilitada pelo cristianismo e que vou tratar, estudando ligeiramente a missão sublime que Deus lhe confiou no seio da família, a extraordinária influência que exerce em todas as relações sociais.
Comecemos pela esposa.
Tendo de explicar aos Ephesios os deveres dos casados, S Paulo, no cap. V vers. 22 e 25, as resumiu assim:
“As mulheres sejam sujeitas a seus mandos como ao Senhor;
a Vós, maridos, amai a vossas mulheres como também Cristo amou a igreja e por ela se entregou a si mesmo”.
E assim deve ser a união.
O marido exerce a autoridade amando; a mulher, amando, obedece.
A obediência da mulher encontra um limite no amor do marido, amor que não pode recuar diante de sacrifício algum, amor que o mais possível deve aproximar-se do de Cristo entregando-se por sua igreja; a autoridade do marido é mais que contrabalançada pela influência da mulher, e assim como no regimen monárquico representativo descobriu-se a fórmula - o rei reina e não governa -, no regímen doméstico diz um escritor distinto, o marido reina mas é o casal unido quem governa, e n'esse governo não sei qual dos dois terá maior quinhão. O que é verdade é que as mulheres exercem sobre os maridos muito maior influência do que em geral se presume, afeiçoando-os facilmente ao seu gênio e caráter, tornando-os bons ou maus, fortes ou fracos conforme as qualidades de que são dotadas. A este respeito é para ter-se de memória o que deixou escrito Tocqueville, que teve a felicidade de encontrar uma esposa modelo: “Tenho visto muitas vezes no correr dos meus dias homens fracos mostrarem verdadeiras virtudes publicas por terem tido felizmente a seu lado uma esposa que os ajudara a prosseguir nesta vida, não por meio de conselhos sobre tais ou tais atos em particular, mas sim exercendo influencia benéfica na maneira por que cumpria-lhes encarar em geral o dever ou mesmo a ambição. Em muito maior número de casos, porém, força é confessá-lo, hei visto homens que a natureza fizera generosos, desinteressados e grandes mudarem-se pela perversão das próprias faculdades e por mil influências domésticas, em uns ambiciosos fracos, vulgares e egoístas que, nos negócios de seu país, já afinal não queriam atender senão aos meios de tornarem sua condição particular cômoda e folgada”.
Vê-se, portanto, quanto convém que a mulher cultive com esmero os bons predicados do sexo, e com especialidade a brandura, por meio da qual há de tudo conseguir. Refere Cantú, na conferência citada, que estava um sujeito a enumerar a um filósofo as qualidades de sua futura esposa: beleza, riqueza, espírito, nobreza, parentela, educação, e o filósofo a cada nova qualidade ia escrevendo um zero. Por fim disse o sujeito que era ela de boa condição; escreveu então o filósofo a unidade atrás d'aqueles zeros que assim adquiriram imenso valor.
No casamento, como o cristianismo estabeleceu, verifica-se o fato assombroso da unidade na dualidade, da igualdade na dependência. Sentimentos, interesses, alegrias, dores, tudo deve ser comum; é um paraíso a casa onde há harmonia em tudo e por tudo; deve ser um inferno quando n'ela reina o desacordo. (Muito bem!)
A esposa torna se mãe. Rasgam-se diante d'ela horizontes novos aparecem novos deveres, proporcionam-se-lhe alegrias desconhecidas, mas também preparam-se-lhe dores sem conta. Não importa; é sem igual a missão que vai exercer, vai formar homens e novas mais de família, vai dirigir os destinos do mundo. (Muito bem!)
“Uma boa mãe”, diz Jorge Herbert, “vale por cem mestres. Na família é ela o imã de todos os corações, a estrela polar de todos os olhos”.
E de feito assim é. Com as primeiras lições, com os primeiros preceitos que recebemos no regaço materno implantam-se em nosso espírito as ideias e sentimentos que só nos deixam na sepultura. “É na mocidade, diz Cowley, que se formão mais facilmente os hábitos virtuosos, e uma vez formados durão por toda a vida: como as letras gravadas na cocha de uma arvore, elas crescem e alargam-se com o tempo”.
Na família é a mãe constantemente imitada, é um espelho que os filhos têm sempre diante dos olhos, e por conseguinte compreende-se o cuidado que deve presidir aos seus menores atos, o comedimento nas palavras, os bons exemplos que deve dar a cada instante.
Às vezes dir-se-ia perdido todo o trabalho de uma mãe para formar do filho um homem reto e virtuoso. Corre o tempo, lá vem um dia, uma hora em que essa alma transviada volve-se para a imagem d’aquela que lhe ensinou a balbuciar as primeiras palavras, e que há muito desceu ao túmulo; acodem-lhe à mente como muda reprovação seus preceitos e bons exemplos; lembra-se de quanto há de ter a mãe sofrido vendo o filho ir caminho da perdição; para, reflete... ei-lo regenerado! (Muito bem!)
O estadista João Randolph disse uma vez: “Eu teria sido ateu se não tivesse uma lembrança—a do tempo em que minha falecida mãe costumava pegar-me na mão e obrigava-me a ajoelhar repetindo a oração dominical”.
O mesmo sucedeu com o reverendo João Newton de Olney, amigo do poeta Cowper. Depois de ter levado uma vida viciosa, como homem e como marinheiro, abriu repentinamente os olhos e reconheceu a sua depravação, sendo então que germinarão em seu espírito as boas lições que recebera de sua mãe. Como estes poder-se-iam citar muitos outros exemplos, mas não são precisos quando está hoje tão reconhecida a influência que uma mãe exerce sobre o caráter do filho, que até já tem sido isso objeto de cálculos comerciais.
Em um dos Relatórios dos Inspectores das escolas paroquiais da Inglaterra e de Galles, por Tufnell, diz este escritor que, segundo informações que teve, em uma grande fábrica que empregava muitas crianças, os diretores, antes de admitirem alguma, certificavam-se sempre do caráter da mãe; não lhes importando nunca o do pai, pois estavam convencidos de que se aquela fosse boa, os meninos haviam de conduzir-se bem. (Smiles—O caráter cap. II.)
Como filha, seus deveres estão compendiados nas palavras do Decálogo: “Honra teu pai e tua mãe”. Enganar-se-ia, porém, quem supusesse que estão cumpridos esses deveres quando se tem prestado aos progenitores auxílio, respeito, submissão; as palavras citadas exigem mais alguma coisa a ternura filial que os antigos caracterizavam tão bem com o termo - piedade. Esta não conhece sacrifícios, não indaga seus pais são extremosos, se são indiferentes, e até se é ou não regular o seu procedimento. Pelo contrário, quando eles desviam-se do bom caminho é que se torna mais necessária a piedade filial, é que esta pode operar verdadeiros milagres. (Muito bem!)
D'entre os admiráveis exemplos de dedicação para com os pais lembrarei n’esta ocasião somente o de Terencia, indo todos os dias nutrir com o seu leito sua pobre mãe condenada a morrer de fome, obtendo-lhe por isso o perdão, alcançando do erário público uma pensão, e tendo a glória de ver levantar-se no lugar da prisão um templo consagrado á piedade filial.
Depois dos deveres para com os progenitores vêm colocar-se os deveres para com os irmãos.
“Um irmão é um amigo dado pela natureza”, disse o poeta e este pensamento define bem o amor fraterno.
“A esposa nos é cara”, diz Valerio Máximo, “os filhos são amáveis, os amigos preciosos; mas como não conhecemos todos esses objetos de nossa afeição senão no correr da vida, os sentimentos que nos inspiram não podem ter a profundeza dos que nascerão conosco”.
Na verdade — e ainda não se exagerando tanto o amor fraterno — o que haverá mais belo do que ver uma irmã aconselhando, guiando, repreendendo maternalmente o irmão que vai a despenhar-se no abismo! O que haverá mais belo do que essas vitorias alcançadas sem estrepito sobre naturezas às vezes as mais rebeldes! (Muito bem!)
Além d'estes, tem uma moça também deveres a cumprir para com os parentes, para com as pessoas da amizade de seus pais, para com os próprios fâmulos, e há de sair-se satisfatoriamente desde que se compenetre bem de sua elevada missão.
Há ainda para a mulher no seio da família um outro dever: é o cuidado da casa, e isso até em relação as coisas que parecem mais insignificantes. Quem tem família compreende perfeitamente as vantagens praticas d*esse cuidado, e apenas citarei as palavras de Henrique Taylor: “A verdadeira esposa deve ter todas as qualidades necessárias para fazer da casa um perfeito lugar de repouso. Para isso cumpre que tenha o tino e aptidão indispensáveis de modo a livrar o seu marido, o quanto seja possível, dos incômodos do governo doméstico, e mui principalmente das dívidas”.
São árduos e complicados os deveres de família; mas a mulher que os desempenhar bem achará no fim da jornada uma recompensa sem igual: será feliz fazendo a felicidade dos seus, e a felicidade doméstica, se não é a mais procurada, é, no entanto, a mais real e duradoura n'este mundo. “O homem aspira a uma felicidade mais completa e delicada do que lhe podem conceder as lides e os triunfos da vida pública, escreve Guizot em suas Memórias. Isto que hoje reconheço no fim de minha carreira já o senti no princípio e continuação d'ela. Mesmo no meio das mais importantes ocupações as afeições domésticas formam a base da vida, e muito incompletos e superficiais serão os gozos da carreira mais brilhante, se esta for estranha aos doces laços da família e da amizade.
Até aqui tenho considerado a mulher no seio da família; há outro lado pelo qual merece ser estudada, e é na missão de caridade que lhe incumbe na terra.
Para caracterizar-se a mulher costuma-se dizer que por ela devia ter sido sugerida a ideia da fundação do primeiro hospital. O seu posto de honra é ao lado dos náufragos da sociedade, a cabeceira dos enfermos, na choupana que não tem pão; havemos encontrá-la sempre onde haja uma dor que aliviar, uma lagrima que enxugar, e, o que mais é, havemos encontrá-la sempre modesta, sempre resignada, sem pensar nos aplausos do mundo, colhendo resultados que os homens jamais poderiam obter. (Muito bem!)
E é tão imperiosa esta tendência que constitui na mulher como que uma segunda natureza, manifestando-se entre as próprias selvagens. Conta Smiles (obra cit. cap. XI), que quando Mungo Park, só sem amigos e quase a morrer de fome, foi expulso de uma cidade da África e preparava-se para passar a noite debaixo d'uma arvore, exposto à chuva e aos animais ferozes que aí abundavam, uma pobre negra, que voltava de seus trabalhos campestres, compadecendo-se d'ele, levou-o para sua choça, e aí deu-lhe alimento e agasalho, entoando com as suas companheiras, para alegrarem o serão, uma cantiga onde o coro repetia sempre : “Tenhamos pena do pobre branco que não tem mãe”. E este incidente impressionou mais a Mungo Park de que todos os outros que lhe ocorreram durante as suas viagens.
Para o exato cumprimento d'esses deveres tão extensos, tão complexos, tão delicados, e às vezes tão difíceis, é preciso, como diz Dupanloup, que a mulher tenha espírito, caráter, alma, coração de boa tempera, e por conseguinte, hábitos sérios. É principalmente na família onde se conhece a verdade do que disse Tocqueville: “A vida não é um prazer, nem tão pouco uma dor, mas um negócio grave de que somos encarregados, e que é mister conduzir e terminar com honra”.
Por este só enunciado vê-se que não pertenço a escola dos que entendem que a cabeça mata o coração, que a inteligência mata o sentimento; não pertenço á escola dos que aconselham dever-se cultivar a fraqueza da mulher em vez de sua força, e dar-lhe atrativos em vez da confiança própria de modo a realizar o provérbio italiano: “É tão boa que para nada presta”. (Risadas.)
Penso, pelo contrário, que deve-se-lhe dar instrução, e instrução solida, mas sempre adequada à sua missão na sociedade.
O citado Dupanloup, no apêndice ao último volume de sua obra Da alta educação intelectual, demonstra de maneira que nada deixa a desejar as vantagens d'essa instrução, não julgando impróprio do sexo feminino o estudo da boa literatura, de certos pontos de filosofia, da história, de algumas questões práticas de direito, da estética, e finalmente da religião, exprimindo-se sobre este último ponto do seguinte modo: “Examine-se a questão diante de Deus e ver-se-á que para uma mulher cristã, para uma mãe sobretudo, não há talvez dever mais vigoroso do que instruir-se a fundo em sua religião no interesse das almas tão caras de seu marido e de seus filhos. E para entristecer ver-se às vezes mulheres piedosas não saberem dar, sobre um ponto importante de religião, a mais simples explicação a um homem do mundo que lh'a pede, ou não poder resolver qualquer insignificante objecção”. A estas matérias acrescentarei a vantagem que haveria em ter a mulher algumas noções de medicina, no interesse da saúde dos filhos nos primeiros anos, para melhor satisfazer a missão de caridade ao lado dos enfermos, e para tratar de incômodos próprios do sexo, afim de não ver-se, como acontece frequentemente, as exigências do pudor sacrificando tantas existências,
Se, porém, entendo que a mulher deve ter instrução solida,' e isso até como condição para bem cumprir seus deveres de família, interessando-se também pela profissão que seu marido houver adoptado, pelos negócios da sua pátria, e pelas grandes causas da humanidade; se entendo que em matéria civil, por exemplo, ainda hoje está a mulher privada de muitos direitos que deveria ter, não vou, contudo até a igualdade absoluta, matemática dos dois sexos em todas as relações sociais, até a supressão de toda. e qualquer distinção sob o ponto de vista de suas vocações exteriores, como pretende a propaganda moderna.
Contra essa emancipação não reproduzirei agora os argumentos diretos tirados da diversidade das naturezas dos dois sexos, diversidade que subsistiria sem embargo de ser em tudo igual á educação que se lhes proporcionasse. A hora vai adiantada e não quero abusar da benevolência do auditório. (Não apoiados.) Direi apenas que se porventura chegassem a realizar-se as aspirações da propaganda, a família sofreria um golpe mortal, a sociedade civil passaria por completa subversão, e mais do que ninguém perderia a própria mulher.
Já vimos que na família é a mulher a educadora por excelência. À propaganda não desconhece a necessidade da educação doméstica. Ora, supondo-se mesmo que, dada á mulher educação igual à do homem, pudesse ela fazer mais do que faz atualmente, a propaganda ainda não descobriu meio de poder a mulher exercer as funções de jornalista, jurada, eleitora, advogada, matemática, diplomata, deputada, senadora, ministra, etc, e ao mesmo tempo cuidar da criação e educação dos filhos e do governo da casa. Por conseguinte, ou seriam sacrificados esses deveres, ou o homem ver-se-ia na necessidade de desempenhá-los. No primeiro caso, dentro de pouco tempo estaria morta a família; no segundo, não sei se a humanidade lucraria com a troca de papeis.
Não é só isto: por maiores que fossem os serviços que a mulher houvesse de prestar exercendo profissões liberais, tomando parte na administração e governo do Estado, tais serviços jamais poderiam ser comparados com os que ela presta modestamente no seio da família. Sobre este ponto contento-me em repetir o que disse José do Maistre: “As mulheres não escreveram a Ilíada, a Jerusalém Libertada, o Hamlet, a Phedra, o Paraíso Perdido ou o Tarlufo: não deram o plano da igreja de S. Paulo, não compuseram o Messia, não esculpirão o Apollo de Belvedere, não pintarão o Juízo Final, não inventarão a álgebra, os telescópios, nem as maquinas a vapor; mas fizeram coisa muito melhor e mais sublime do que tudo isso, porque foi em seu regaço que elas formaram mulheres e homens retos e virtuosos, que são as produções mais excelentes do mundo”.
Com a emancipação, finalmente, seria a mulher quem mais teria de sofrer. Envolvei-a no turbilhão da vida pública, e em breve terá desaparecido essa tímida reserva que, na bela expressão de Gasparin, é a poesia e ao mesmo tempo a proteção de seu sexo; fazei-a respirar fora d’essa atmosfera de serenidade e contentamento que só ela sabe criar no interior de uma casa, e ei-la decaída do pedestal em que o Evangelho a colocou. (Muito bem!) Enem é isto mera conjectura; há muito que está feita a experiência. Entremos n'essas grandes fabricas em que a mulher trabalha ao lado do homem, e que, aliás, tanto têm contribuído para o bem-estar social, e em compensação reconheceremos desde logo o efeito deletério que elas têm produzido na condição doméstica, invadindo o santuário da família, quebrando os laços íntimos, arrebatando a esposa ao esposo, os filhos aos pais, e tendendo particularmente a rebaixar o caráter da mulher. (Smiles, obra cit. cap. II.)
Cumpre, pois, que a mulher se convença de que está cavando a própria ruína quando reclama a igualdade absoluta, matemática em todas as relações sociais; cumpre que ela se convença de que há de ter consequências mais sérias do que geralmente se supõe o movimento feminino, que nesse sentido vai se tornando de dia em dia mais pronunciado em França, na Alemanha, na Rússia, na Suissa, na Itália e com especialidade nos Estados Unidos.
Sem que o suspeitem, a bandeira que as mulheres aí arvoram é a bandeira da impiedade; o programa que desejam ver realizado importa a morte da família, é um grito de guerra contra o Evangelho. (Muito bem!)
A resolução do problema não está em querer a mulher assumir atribuições privativas do homem, em querer representar um papel que não é o seu: está justamente na diversidade das duas condições, das duas missões. “O que anda desaproveitado, diz D. Antônio da Costa na sua obra A instrução nacional, é o capital dos elementos próprios da mulher, e não o capital dos elementos da mulher semelhantes ao do homem. O homem tem por missão o trabalho científico e político, a mulher o trabalho educativo e moral; e as duas missões reúnem-se n'uma só, que é a missão completa da humanidade”.
(Aplausos gerais do numeroso auditório)
Localização
- Conferências Populares, Rio de Janeiro, nº7, jul. 1876, p. 21-36 (na integra). Capturado em 10 dez. 2024. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/docreader/278556/737
Ficha técnica
- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.
- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.
Forma de citação
Conferência Popular da Glória nº 184. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 2 fev.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=766
Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz – (http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br)