Conferência Popular da Glória nº 185

De Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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Data: 16/07/1876.

Orador: José Martins da Cruz Jobim

Título: Fatos históricos da Idade Média relativos à invasão dos bárbaros, ao feudalismo e à cavalaria errante

Aviso, íntegra ou resumo: Íntegra

Texto na íntegra

“Meus senhores. — Vou ocupar a vossa atenção com alguns factos históricos, relativos à invasão dos bárbaros no império romano, ao estabelecimento do feudalismo, e à cavalaria andante na idade média. E já que estes factos ligam-se à existência do império romano, é necessário começar por dizer alguma coisa sobre esse império.

Todos vós sabeis como esse Estado começou. Certo número de homens, de duvidoso procedimento, reuniram-se sobre o monte Aventino, debaixo do comando de dois irmãos gêmeos, Romulo e Remo Esses irmãos estabeleceram as regras sob as quais deviam eles viver, e começarão a formar os meios de defesa da cidade que construirão sobre essa montanha. Quando trabalhavam nesse serviço com os homens que se lhes tinham agregado, aconteceu atravessar Remo uma valia que Romulo tinha feito construir, dizendo que ninguém seria capaz de atravessá-la, mas desprezando Remo essa ordem, resultou d'aí uma briga entre ambos, na qual matou Romulo a seu irmão.

Estes irmãos eram filhos de uma vestal, de nome Reya Sylvia, tendo sido concebidos de deus Marte, foram mandados lançar em uma cesta ao rio Tibre, em ocasião em que esse rio estava cheio; vasando o rio ficou a cesta à beira d’ele, e aí um pastor, depois de uma loba os ter encontrado e ter-lhes dado de mamar, os recolheu e criou em sua casa.

São maravilhas frequentes em casos tais. Todos os reinos, todas as dinastias que começam, fundam-se quase sempre em milagres e maravilhas.

Assim aconteceu também à nação portuguesa. Quando começou primitivamente a sua nacionalidade e independência, foi por meio de maravilhas. Na véspera da grande batalha do Campo de Ourique, de que os nossos ascendentes, os portugueses, tanto se gloriam, dizem que Affonso Henriques avistou, na noite precedente, uma grande cruz de fogo no céu, e que ao vê-la se prostrara por terra exclamando:— a eles, Senhor, e não a mim, que respeito a vossa lei; e que no dia seguinte teve lugar a grande batalha entre eles e cem mil Mouros, ou sarracenos com mandados por cinco reis, sendo os portugueses apenas dez mil, de sorte que tocavam dez mouros para um português.

Mas, Alexandre Herculano, historiador português muito distinto, mostrou que tudo isto é uma patranha, ou uma fabula, que tais fatos não se deram, que lá não estiveram cinco, reis, e que essa grande batalha do Campo de Ourique não passou de uma escaramuça, que não houve senão um pequeno combate entre Mouros e Lusitanos, e as tropas que acompanhavam Affonso Henriques; e que tal cruz não apareceu. Isto reconheceu ele por documentos, que tirou de vários arquivos, não só de Hespanha, mas também de Portugal, d'onde resultou ficar malvisto da sua nação, por ter negado semelhantes maravilhas e milagres, vendo-se depois na necessidade, pela indisposição que d'aí lhe resultou, a retirar-se para a sua habitação atual em Vale de Lobos, onde trata de fabricar azeite, e não quer saber, mais nem de história, nem de política.

Os Romanos, depois de reunidos em número de três mil pouco mais ou menos, não tinham suficiente número de mulheres para aumentar a sua cidade, e, portanto, convocaram os povos vizinhos, para uma festa, em que haviam todos de achar grande divertimento. Compareceram muitas famílias d'esses povos vizinhos e no meio do divertimento os Romanos saltaram sobre elas, e lhes roubaram as mulheres. O resultado d'esta violência foi uma guerra que durou por muito tempo com diversos povos ofendidos. mas estes mesmos fatos não são referidos de modo unanime: uns dizem que o número das mulheres roubadas foi apenas de trinta e seis, outros dizem que este número foi de quinhentas e tantas, e outros de seiscentas e tantas.

Depois de por causa d'elas ter durado essa guerra por algum tempo, elas mesmas procurarão acomodar seus parentes, fazendo-lhes ver, que viviam satisfeitas na companhia dos Romanos, e não voltariam mais para a companhia de seus pais e irmãos.

Aquele povo continuou a desenvolver-se no mesmo espírito com que começara. Eram pela maior parte homens vagabundos e salteadores, e quase todos os que se reuniam a eles estavam no mesmo caso; tudo quanto praticavam era com o intuito de habilitarem-se o mais possível para saques e conquistas; de maneira que durante muito tempo depois de estabelecida a cidade, ainda continuavam no mesmo sistema de considerar o poder da força, como o seu único direito, e aqueles que nasciam defeituosos, como indignos de viver e de fazer parte da sociedade.

Assim, as crianças que nascessem com grande defeito, do modo que não pudessem servir, como militares, na vida de conquistas, eram, como diz Tito Livio, lançados ao Tibre, tamquam faedum et turpe prodigium; era um povo que desde a sua origem tinha em si tais sentimentos de barbaridade, que nos custa hoje a conceber. Nunca tiveram casas de caridade, nem asilos para os aleijados, os inválidos, os decrépitos, etc, etc, como hoje acontece entre as nações civilizadas.

Todas as suas forças vitais parece que eram só destinadas para as conquistas dos outros povos, e com esse intuito desprezavam a vida, e todos sem excepção habilitavam-se para os exercidos da guerra, d'onde esperavam a sua prosperidade e o seu engrandecimento como nação; só esperavam d'i tudo, e nada do próprio trabalho e indústria, como fazem as nações modernas.

Começarão por conquistar; os povos vizinhos da Itália, e conquistados esses, foram-se estendendo por toda a parte, sem, contudo, passar de certas latitudes para o Norte da Europa e da Ásia; chegarão a dominar um território imenso, que constituiu o império romano, d'onde tiravam até a sua principal alimentação.

Nas conquistas portaram-se sempre com a maior barbaridade possível, trazendo os chefes das nações que conquistavam para servirem de triunfo em Roma, e  depois de praticarem com eles os atos de maior barbaridade possível, levavam-nos à Rocha Tarpéa d'onde os precipitavam para morrerem.

Assim era um povo que, se por um lado tinha alguma civilização, por outro era dominado por sentimentos bárbaros, que persistirão quase sempre até o fim do império. Tanta crueldade, tanta injustiça para com os outros povos devia naturalmente trazer uma grande reação. Esta reação principiou mesmo no meio do seu poder: os Gauleses lá foram 300 anos antes de Cristo, e incendiarão a cidade. Os Cartagineses por duas vezes lhes declararão uma guerra de morte, e se o seu general não se tivesse demorado em Cannes, e se tivesse aproveitado dessa vitória, Roma teria sido completamente arrasada, como o foi depois quase totalmente pelos Godos.

Assim o império romano devia necessariamente provocar contra si uma odiosidade extraordinária, porque considerava todos os outros povos como boa presa que escravizava, e destruía. O próprio imperador Constantino fez devorar por feras do circo dois chefes de nações.

Começarão finalmente os bárbaros a reagir. Os primeiros que se apresentarão em campo com força suficiente para amedrontá-los e resistir-lhes foram os Hunos, e quase ao mesmo tempo os Vândalos e os Godos.

Estes últimos povos quase homogêneos vinham da Escandinávia; os Godos dividiam-se em duas classes, Visigodos e Ostrogodos. Os Visigodos vinham do Poente e os Ostrogodos do Oriente da Escandinávia; caminharão ambos para o Oriente em procura dos povos do Danúbio, sujeitos a Roma.

Os Ostrogodos encontraram-se logo com os Hunos que marchavam em sentido contrário para o Oriente; estes constituíam uma força muito superior; bateram os Ostrogodos, e, como era o seu costume, matavam os que não os acompanhavam e serviam.

Este povo, os Hunos, foram o povo mais cruel, mais feroz e mais horrível! que tem aparecido no mundo. Eram oriundos das margens ao Norte do mar Cáspio, e estendiam-se até aos montes Ourales ao Norte e ao Sul d’esses montes. Aqueles que ficavam da parte do Oriente eram quase todos pretos, horrida nigredine, como diziam os Romanos, e os que ficavam do lado do Ocidente eram pela maior parte brancos ou mestiços, e confundiam-se com os Scytas.

Eram homens muito rechonchudos, com espaduas muito largas, estatura pouco elevada, cabeça grande, e no meio da cabeça tinham um calombo, que os assemelhava ao Thersites de Homero, o maior intrigante do exército grego, como ele o descreve; tinham a testa deprimida, a cara toda retalhada, porque as mais assim faziam, logo que eles nasciam, que era para não nascer barba; tinham os olhos muito pequeninos, metidos no fundo das orbitas, mas assim mesmo não deixavam de ver ao longe admiravelmente; tinham o nariz muito chato, andavam cobertos de peles e não conheciam nem logo, nem temperos; não comiam senão ou raízes agrestes, ou carne crua; andavam sempre a cavalo, e no lombo dos cavalos traziam a carne crua, por baixo dos arreios; era este o seu principal alimento, temperado com o suor dos cavalos; estes cavalos, de raça pequena, eram de uma vivacidade extraordinária, e muito sofredores; quando combatiam, como sempre, a cavalo n'estes animais com a competente adarga no braço esquerdo, jogavam os dardos com admirável destreza, serviam-se logo da espada ou lança, recuavam, e voltavam logo à carga com uma ligeireza admirável, e sempre firmes nos seus cavalinhos; andavam vestidos de peles; e estas peles eles as tiravam da grande quantidade de animais selvagens que existia no seu país. Eram peles de ratos, de raposas, de doninhas, de lobos, enfim de toda a sorte de animais selvagens, de que se serviam para alimento; as pernas andavam cobertas de peles de bodes amarradas, que cobriam até á planta dos pés, mas custava-lhes muito a andar a pé; estas peles os cobriam até apodrecerem; eles faziam no seu país um grande comércio de peles, que desciam pelo rio Volga abaixo, e iam parar ao Mar-negro, onde as vendiam aos Romanos a troco de instrumentos de guerra, de espadas, etc. etc, de toda a sorte de instrumentos que os mesmos romanos usavam.

Algumas d'estas peles eram muito estimadas em Roma, para servirem de ornamento nos vestidos das senhoras. Nos Hunos duravam no corpo até apodrecerem, de maneira que estes indivíduos exalavam quase todos eles um cheiro insuportável, como os selvagens da América do Sul, os Pampas e os Minuanos, ninguém pode estarão pé d'eles; este mau cheiro provém do costume que eles têm de untar o corpo com banha de égua, de modo que apodrecendo, ninguém pode parar ao pé d'eles, e lembro-me de que no Rio Grande do Sul, na minha infância, tendo-se feito muitos prisioneiros no campo, foram trazidos presos, e ao passar em por baixo das janelas todos fugirão com a mão no nariz.

Tal era a força dos Hunos que, depois de se terem apoderado de diversos povos, chegarão a apresentar-se em campo com um exército de setecentos mil combatentes. Com esta gente vieram colocar-se à margem do Danúbio, passarão para o outro lado, entrarão no Império do Oriente, saquearão e incendiaram muitas cidades, sendo imperador Theodoro II, príncipe pusilânime, que nenhuma resistência opôs, e que resgatou o país à custa de muito ouro, que era a principal paixão do rei dos Hunos.

Porém não puderam entrar na cidade de Constantinopla por causa da altura das suas muralhas; eles não tinham vaivéns, como os Romanos, e ignora vão a arte dos assédios. Limitaram-se a devastar o país por todas as partes vizinhas, e depois de não terem mais que roubar, de terem ido à Grécia, à Macedônia e a todos os países da antiga Grécia retiraram-se para a Itália.

Chegando à Itália dirigiram-se para Roma, e chegando lá a notícia, propôs-se o governo a mandar um emissário para dirigir-se ao rei Attila, que os governava e dirigia, a pedir-lhe misericórdia. Ofereceu-se o papa Leão I. Opôs-se o senado, dizendo que para se pedir misericórdia não se devia mandar um leão, mas um cordeiro. Replicou o papa com um proverbio de Salomão, dizendo que o justo é um leão que não tem hesitação nem medo.

E com efeito o papa fez parar e retroceder o bárbaro, que dizia que tinha poder até para fazer cair as estrelas, e que ele era o flagelo de Deus, mandado ao mundo para castigar os governos; e o povo acreditou que S. Pedro e S. Paulo tinham descido do céu para o obrigarem a retroceder.

Dirigiu-se então para a Alemanha, onde subjugou vários povos, e atravessou depois o Reno, invadindo a Gália.

Na cidade de Metz apresentou-se o bispo à imitação de Roma, com os seus padres cantando salmos, à frente do exército, mas um oficial deu-lhe um talho no pescoço com tanta força, que separou-lhe a cabeça, e logo ali matarão todos os padres que o acompanhavam; e depois de saquear a cidade, caminharão para a cidade de Rheims, onde apresentou-se o bispo diretamente ao rei; chamava-se Lobo, o rei ordenou-lhe que o acompanhasse para mostrar-lhe o caminho de Orleans, para onde se dirigia.

A este tempo agitava-se o povo em Paris para fugir aterrado; mas uma mulher procurava contê-lo, dizendo-lhe- que não tivesse medo, porque os Hunos não iam lá; aquela mulher, que era Santa Genoveva. Vendo que não convencia o povo, pediu às mulheres, que muito confiavam nela, que a acompanhassem até  à igreja para fazer oração; os homens desesperados, querendo levar as mulheres, dirigiram-se à igreja para arrombá-la e matar Genoveva, mas n'está ocasião apareceu um padre de Rheims, dando notícia de que os bárbaros já iam perto de Orleans, onde eles, depois de saquear a cidade, passaram-se para as planícies de Châlons, e aí encontrarão um grande exército, que os esperava.

Attila mostrou-se muito alegre, contando com a vitória, e proclamando que o seu Deus, de quem trazia a espada, não podia deixá-lo ficar mal. Esta espada tinha sido descoberta por uma vitela, que com ela feriu-se, e foi achada pelo rasto de

sangue, que seguiu-se até onde estava a espada enterrada com a ponta de fora, na qual feriu-se a vitela.

Dizia também o rei, que tudo d'ele era maravilhoso, e que até onde pisava o seu cavalo não nascia mais erva.

O exército que o esperava era composto do Romanos, vindos de Roma comandados por Aetius, e de Borguinhoes, de Francos, e de Gauleses. Depois de um renhido combate, foram os Hunos derrotados, e o mesmo rei admirou-se de que o inimigo não soubesse tirar todo o partido da vitória. Depois de conservar-se entrincheirado com: os seus numerosíssimos carros, em que costumavam dormir aqueles bárbaros com as suas mulheres e filhos, pois não tinham outras habitações, retiraram-se, tornarão a passar tranquilamente o Rheno, e dirigiram-se pela segunda vez para Roma.

O rei ia reclamar a princesa Honória, irmã do imperador. Esta princesa tendo tido mau procedimento na corte, era geralmente aborrecida, por isso escreveu ao rei propondo-se a casar com ele; e ele solicitou-a do imperador, que não lhe deu resposta; porém achando-se na Venecia viu uma moça muito formosa, chamada Ildico, e como era muito cobiçoso, quis logo casar-se com ela para juntá-la, como uma nova vítima, às muitas mulheres que trazia. Por onde ele passava todos os povos fugiam. Aqui fugirão quase todos para os pantanais do Mar Adriático e aí fundarão a cidade de Veneza.

O rei efetuou o seu casamento com a moça formosa, e no dia seguinte vendo-o os seus generais demorar-se tanto, contra o seu costume, dentro cia barraca, entrarão para o cumprimentarem e encontrarão ã moça ao pé da cama, coberta com um véu, e o rei morto estendido sobre a mesma cama.

Examinaram qual tinha sido a causa da morte, e reconheceram que foi uma hemoptise, que o tinha sufocado no próprio sangue, durante o sono.

Assim quiz Deus que ele, que tantos povos tinha sufocado em sangue, o fosse também no próprio sangue. Quando estiveram nos arredores de Constantinopla obrigou-se o imperador a pagar-lhes perpetuamente um imposto de 6,000 libras de outo em peso, e todos os anos mil libras; e nos saques que o exército fazia todo o ouro que se achasse era para ele só, e tudo o mais para quem pilhasse.

Tirarão o corpo para fora da barraca, e pondo-o em campo aberto, veio todo o exército vê-lo, e começou a andar a roda, gritando, cantando e chorando, como fazem os bois quando cheiram o sangue de algum companheiro morto.

Fizeram construir três esquifes, um de ouro, dentro do qual colocaram o corpo, outro por fora de prata, e ainda outro exterior de ferro, e assim encerrado o cadáver n'estes esquifes, o foram de noite esconder em lugar que nunca se pôde saber; mas duvido que não o procurassem, e não se achasse, depois, o atrativo tesouro.

O exército desfez-se em parte, mas uma boa porção permaneceu á esquerda do Danúbio, estendendo-se pela Bohemia e a Hungria, onde fundiu-se e desapareceu a final, não sem incomodar os povos vizinhos, e o mesmo império romano ainda com algumas corridas.

Os Godos e os Vândalos eram originários da Escandinávia, mas em geral estes bárbaros não tinham assento fixo; d'onde saiam uns vinham logo outros estabelecer-se, ora na Suécia, ora na Dinamarca, e ora na Prússia, e ainda no princípio do século passado o primeiro rei da Prússia, Frederico I, intitulava-se rei dos Vândalos.

Os Godos distinguiam-se em Visigodos e Ostrogodos; os primeiros eram da parte oriental, e os segundos da ocidental da Escandinávia; foram estes os primeiros a pôr-se em marcha para os lados do Danúbio, lá encontraram-se com os Hunos, foram por estes subjugados, e com eles andarão até à morte de Attila, depois separaram-se, fazendo várias correrias na Itália, onde foram batidos por Belisario Narses e por generais romanos.

Os Visigodos também foram a outro lugar do Danúbio, aí pararam com medo dos Hunos, e mandaram pedir ao imperador valente permissão, e passagem para o império, ao que houve muita oposição em Constantinopla, dizendo-se que era admitir lobos no meio de um rebanho de ovelhas, mas a final o imperador mandou dizer-lhes que daria passagem, com a condição de que haviam de adoptar e seguir a heresia de Ario. Conformaram-se com essa seita, e foram ministros iniciá-los nela; mandou-os depois passar o grande rio com a condição de passarem primeiramente as mulheres; quando estas tinham passado, os Gregos vendo tantas moças bonitas, louras, coradas, muito claras de olhos azuis, e tão bem conformadas começaram a roubá-las e a levá-las para o interior do país. Quando os Godos vieram deram-se por muito ofendidos, mas resignados, pareceram lamentando apenas a perda de suas mulheres e de suas filhas; eles eram em número de duzentos mil homens.

Em ocasião oportuna sublevaram-se e levarão tudo a ferro e fogo, saquearão e arrasarão o país, e vindo o imperador Valente de Constantinopla para os subjugar, foi completamente batido, e refugiando-se depois da batalha com o seu estado maior em uma casa de capim, foi esta incendiada, e ele aí morreu com todos os que estavam dentro.

Passaram-se os Godos para o sul da Itália; d'aqui foram para o meio-dia da França, onde estabeleceram o reino da Septimania, que pouco durou; e d'aqui corridos pelos Borguinhões e os Francos, foram para a Hespanha e Portugal, que dominaram perto de 400 anos; mas no fim d'este tempo sublevando-se um moço espanhol de nome Fernando, venceu-os em combate matando o rei. Um filho d'este rei pôde evadir-se para a África.

Em todo o norte da África já dominavam os Sarracenos, que eram um amálgama do Turcos, Árabes, Persas, etc, que depois das guerras de Mafoma tinha o feito muitas conquistas, e tinham destruído o domínio romano na África, tinham corrido de lá com mais de seiscentos bispos cristãos, entre eles Santo Agostinho, bispo de Hippona,

Dirigindo-se o príncipe Godo ao Kalifa, para lhe pedir socorro, a fim de subjugar os espanhóis, deu-lhe o Kalifa 3,000 homens, comandados por um general de nome Tarico, que foi desembarcar em Gibraltar, d'onde dizem que vem o nome d'essa cidade, de gib montanha, e Tarico, gib-del-Tarico, hoje Gibraltar por corrupção.

Aí ficarão os Sarracenos por algum tempo, a espera de novas ordens; o Kalifa recebendo informações de que se podia conquistar o país, mandou muito mais força, e quando os Godos pensavam que a preza era d'eles, o Kalifa fez como diz a fábula, que o homem fizera ao cavalo, que pediu que o livrasse das feras, mas o homem depois que o montou nunca mais o deixou.

Apoderam-se os Sarracenos da Hespanha para si, e boa parte dos Godos corridos passaram-se para a África, pensando achar esses países desguarnecidos, mas aí foram submetidos, e fundidos entre os Sarracenos.

Os Árabes ou antes sarracenos apoderaram-se da Espanha e de Portugal, e perto de 700 anos dominaram aí. Os espanhóis com parte dos Godos, já identificados com eles, refugiaram-se nas províncias Vascongadas, d'onde faziam frequentes excursões contra os Sarracenos, com a ferocidade e fanatismo que os distingue, ao mesmo tampo que os Árabes os tratavam com muito mais humanidade e benevolência, não perseguindo os que ficavam residindo entre eles, antes protegendo-os, e dando-lhes plena liberdade para praticarem a sua religião. Estes espanhóis residentes eram conhecidos pelo nome de Mozarabes. Os cristãos, pelo contrário, eram ferozes e inexoráveis para com eles, e iam de propósito insultá-los nos seus templos, não havendo castigo que os corrigisse.

Os Árabes chegaram a ter na Espanha sete reinos, mas os reis andavam frequentemente em guerra uns com os outros, e foi isso o que os enfraqueceu e os perdeu.

Em Portugal dominarão até o reinado de Affonso III, mas na Espanha há 400 anos que perderam o domínio, deixando ainda muitos descendentes, gloriando-se mais os espanhóis de descender de Godos do que de Árabes ou Mouros, d'onde vem —Fidalgo—higo del God, segundo alguns.

De todos os povos da Alemanha, assim chamados pela reunião de duas palavras que significam homens de guerra, eram talvez os Francos os mais aptos para a civilização; dividiam-se em duas classes, Francês Salicos e Francos Ripuarios.

Quando eles se colocaram à margem direita do Rheno já os Borguinhões tinham-se apoderado do meio-dia da Gália, onde fundindo-se formarão a Borgonha, antiga província de França. Da sua posição faziam os Francos frequentes correrias pela Gália, entrando por um lado e saindo pelo outro, como fazem em Buenos-Ayres os bárbaros das Pampas. Na Gália não havia exército permanente, nem inteligência entre os municípios romanos. O governo, que residia em Roma, e depois em Ravenna só cuidava de sugar tributos das províncias, sem se importar muito com a sua defesa.

Quando os Francos julgaram oportuno passaram-se todos para a Gália, em que compreendia-se também a Bélgica, comandados pelo seu rei Clovis, filho de Merogé, apoderaram-se de todo o Norte da Gália, para onde trouxeram as suas leis, e os seus costumes. Eram todos pagãos que adoravam o Deus Odin, d'onde diziam os seus reis que descendiam, mas Clovis desejando captar a benevolência dos Galos-romanos, que já eram cristãos, aspirava a casar-se com uma princesa cristã; teve notícia das virtudes e da beleza de uma sobrinha do rei dos Borguinhões, chamada Clotildes. Esta princesa era filha do rei, irmão mais velho do rei atual, que chamava-se Gondebau. Tinha este matado o irmão para apoderar-se do trono, matou também a rainha e dois filhos, que atirou dentro de um poço, mas poupou duas meninas, das quais a mais velha foi ser freira, e a mais moça era a desejada por Clovis, a qual foi depois canonizada.

Mandou um emissário saber d'ela em particular, se fazia gosto em casar com ele. A princesa costumava em certos dias e a certas horas sentar-se em um dos portões do palácio, onde distribuía esmolas aos pobres. Apresentou-se-lhe aí o emissário, em trajos de mendigo, e quando ella se preparava para lavar-lhe os pés, como costumava, e recomendar-lhe asseio, ele abaixou-se e pediu-lhe uma palavra em particular, ela respondeu-lhe que não tinha conversas particulares com ninguém, e que lhe dissesse ali mesmo o que queria; respondeu-lhe que era mandado pelo rei dos Francos, para saber se ela fazia gosto em casar-se com ele, e n'isto tirou da algibeira um anel de muito valor, e deu-lh'o como um presente da parte do rei; ela vendo sair da mão de um mendigo um anel de tanto valor, respondeu que aceitava o partido, e que Clovis dirigisse uma embaixada a seu tio, vindo acompanhada de uma guarda respeitável, para acompanhá-la. Assim aconteceu, mas Gondebau desconfiou; contudo não recusou a sobrinha. Partiu ela, e logo que se viu fora de palácio, tomou o melhor cavalo, e correu até chegar fora dos domínios do tio, sabendo depois que não o fez sem um pressentimento bem fundado.

Depois do casamento esforçava-se ela por converter o rei, que não queria renunciar a sua origem deísta, para seguir uma religião, que só adopta o princípio de que todo o poder vem por mandado de Deus, omnis potestas venit a Deo, per me reges regnant, quando pela sua religião ele descendia diretamente do seu Deus.

Depois de muitos esforços inúteis, aconteceu sobrevir da Alemanha um poder extraordinário de novos conquistadores, que vinham disputar a Cio vis a sua conquista; houve uma batalha, chamada de Tolbiac, na qual Clovis julgando-se perdido, ajoelhou-se, e levantando as mãos para o céu fez esta súplica: Oh! Deus de Clotildes, fazei com que eu ganhe esta batalha, e eu abraçarei com toda a fé e confiança a vossa lei. O mesmo voto fez o seu exército, e levantando-se caíram todos sobre o inimigo com tanta fúria, que logo o derrotaram.

O inimigo tornou a passar o Rheno, perseguido pelo exército franco, e Clovis o repeliu até os Alpes Rhecianos; d'este modo escarmentou os outros povos da Allemanha para que não o viessem mais incomodar. Ao voltar encontrou a rainha, Santa Clotildes, na companhia do arcebispo de Rheims S. Remi, e foram todos para o Templo, onde devia batizar-se o rei, é todo o seu exército, e foi n’este mesmo templo que se sagraram depois os reis de França até Carlos X nos nossos dias. Mas não foram sagrados nem Luiz XVIII, nem Luiz Phillippe, sem dúvida porque ambos cordiais e sinceramente constitucionais, julgarão que não deviam ir prestar um juramento inseparável d'aquele ato, em que o rei obriga-se a perseguir e repelir do reino toda a pessoa que não professe a religião dos Papas de Roma, que nem sempre se conformam com a tolerância e bondade de Jesus Cristo.

No ato do batismo apareceu uma pomba, branca como a neve, adejando dentro da igreja, sem animar-se a pousar, até que oferecendo-lhe a mão S. Remi, ela depositou sobre o altar uma pequena redoma de vidro, contendo os santos óleos, que deviam servir no baptismo e sagração do rei.

Esta redoma, conhecida pelo nome de sancta ampóla, acreditam os franceses que ainda dura, com o óleo que trouxe do céu. Eles dizem que desapareceu no ano de 1789, e tornou a aparecer quando sagrou-se Carlos X em 1825, para servir na sua sagração.

Santa Clotildes teve grande desgosto quando nasceu o primeiro filho, que morreu pouco depois; atribuiu Clovis a morte a castigo do seu Deus, por tê-lo abandonado, mas outros nasceram depois, que vingaram e constituíram a primeira dinastia dos reis de França conhecidos pelo título de merovingianos, ou reis cabeludos, ou preguiçosos.

Estes reis foram caindo em grande relaxação e desídia; eram conhecidos pelo nome de róis fènéants, e é d'eles que diz o poeta Boileau:

Quatre boeufs, attelés d'un pas tranquille et lent. Promenaint dans Paris nos rois indolents.

Entregavam todo o governo aos seus mordomos, ou maires du palais, e só tratavam de divertir-se, caçar, passear recostados em uma carroça puxada por bois, comendo e bebendo a seu gosto.

Com eles realizava-se bem o axioma tão falado hoje, do rei reina e não governa, mas custou-lhes isso caro.

Aqueles mordomos dispunham de todos os direitos e prerrogativas reais, declaravam guerra, e faziam tratados de paz e aliança, de tudo dispunham, e os reis casavam com filhas d'eles. Assim permaneceram sempre leais e zelosos, desde Pepino o velho, o do Heristal, etc, até que Pepino o Breve, assim chamado porque era um pepino pequenino (risadas gerais), filho de Carlos Martel, mandou este perguntar ao papa quem era o verdadeiro rei, se aquele que governava, ou aquele que nada fazia senão comer e dormir. O papa que fazia grande ideia de Pepino, e queria a sua proteção para livrar-se do imperador do Oriente, de quem dependia, de quem era súdito, como toda a Itália, que ele imperador governava por meio de um delegado seu, residente em Ravenna, e que não podia ter sido papa sem aprovação do imperador, da mesma sorte que os sumos pontífices romanos dependiam da aprovação do Senado, e desejando ser protegido por Clovis contra os Lombados, que se tinham apoderado do Norte  da Itália, e ameaçavam ir a Roma e a Ravenna, respondeu que o verdadeiro rei era aquele que governava.

Depois d'isto foram efetivamente os Lombardos a Roma, o papa fugiu e escondeu-se; saquearam a cidade e Ravenna.

O papa refugiou-se em França, d'onde voltou com Clovis e o seu exército, tendo este encerrado o último rei preguiçoso em um convento, onde morreu.

O papa sagrou Pepino em Rheims. Os Lombardos foram expulsos de Roma e de Ravenna, e Pepino doou ao papa, que chamava-se Zacharias, o domínio d'essas cidades para patrimônio de S. Pedro.

Contra esta doação muito reclamou o imperador queixando-se de semelhante doação de parte dos seus domínios; então o papa querendo firmar o seu direito, sempre contestado pelos imperadores, apesar de ilegalmente confirmado por Carlos Magno, filho de Pepino, que fez-se depois imperador do Ocidente, procurou provar com documentos pouco autênticos, que não precisava d'essas doações, porque o próprio imperador retirando-se para Constantinopla lh'as tinha feito.

N'este direito acreditou até o Dante, que diz no seu Inferno o seguinte:

Ahi Constantin! di quanto mal fut matre,

Non Ia tua conversion, maquella dote,

Que da te prese il primo rico patre.

Houve depois um sábio alemão, de nome Winkelmann, que sendo protestante fez-se católico, para obter um emprego na grande livraria do Vaticano, e aí compulsar muitos documentos. Desses documentos que publicou, e lá existem, tirou a prova de que tai doação nunca tinha sido feita por Constantino. Este sábio foi depois assassinado por um ladrão.

Á medida que os bárbaros iam-se apoderando das conquistas, distribuíam as terras pelos seus oficiais ou como soldo ou generais, pagamento conforme os seus serviços, e a esta paga chamavam feud, d'onde vem a palavra feudalismo; aboliam a escravidão pessoal, que existia em todos os domínios romanos, onde dois terços pelo menos da população eram escravos, e reduziam estes a servos da gleba ou da terra doada.

Estes senhores ficavam sujeitos a certas obrigações para com os chefes, e os servos para com os senhores proprietários, aquém pagavam uma taxa chamada taille. assim como os senhores pagavam ao rei, ao menos até certo tempo.

Cada um d'estes senhores foi crescendo em consideração e importância, e apesar da oposição dos reis tornaram-se outros tantos reizinhos soberanos e independentes, construirão por toda a parte castelos com circunvalações, e todos os meios de defesa e segurança pessoal, declaravam guerra entre eles, faziam tratados de paz, cunhavam moeda, e chamavam os servos para os serviços de guerra ou do interior do palácio, onde tinham todos os empregados, que costumavam ter os reis, copeiro-mór, reposteiro-mór, monteiro-mór, armeiro-mór, segeiro-mór, etc, etc, camareiras, assafatas, retretas, etc, etc

Aqueles senhores eram quem tinha o direito de dar maridos às donzelas; os moços seus súditos que queriam casar, iam ter com os senhores e eles apresentavam três pretendentes às moças e aos pais, para que escolhessem um; os noivos ou os pais pagavam um tributo pela concessão do senhor.

Ao pé do castelo, e fora das muralhas estava a aldeia ou vila, onde eram obrigados a morar os vilões, d'onde não podiam mudar-se para outras partes sem cometer um crime punido pelas justiças do senhor, que tinham direito de vida e de morte sobre eles.

N'esses tempos bárbaros havia quase completa anarquia, a cada passo pelas estradas corria-se o risco de ser roubado, ou assassinado; era o que mais contribuía, para que os homens pacíficos vivessem juntos, debaixo da proteção do senhor feudatário.

No interior dos castelos esmeravam-se todos em ter bons modos, e boa educação, havia escolas onde eram admitidos os filhos, e as filhas dos vilões mais estimados, para educarem; havia mestres de tudo, e as senhoras donas do castelo presidiam a estes serviços, quer do ensino, quer da educação das meninas. Mas os senhores aborreciam-se de estar encerrados, e saiam frequentemente armados e acompanhados dos seus escudeiros e guardas, percorriam os seus domínios, pacificavam as desordens, impunham respeito aos facinorosos, combinavam-se entre si para a segurança de todos, até que finalmente combinarão em formar uma ordem de cavalaria, a que chamavam andante, a qual muito contribuiu para a pacificação e boa ordem de todo o país. Foi d'esta época em diante que as mulheres começarão a gozar da consideração e respeito de que são dignas, e que tanto contribui para a civilização geral e para bem de todos.

Os Romanos as tratavam com muito desprezo, a ponto de matarem impunemente as suas mulheres, as repudiarem, e se casarem com outras sucessivamente quatro, cinco, e seis vezes.

É muito interessante o juramento que prestavam os cavaleiros no ato da investidura. Permita-se-me lê-lo aqui, e por aí terminarei esta maçada. (Não apoiados gerais.)

JURAMENTO DOS CAVALLEIROS DA IDADE MEDIA

Art. l.° Juro temer, reverenciar e servir a Deus, combater pela fé com todas as minhas forças, e antes morrer do que renunciar ao Cristianismo.

Art. 2. ° Servir fielmente a meu príncipe soberano, e combater valorosamente por ele e pela pátria.

Art. 3. ° Sustentar o bom direito dos mais fracos, como das Viúvas, dos órfãos, das donzelas, expondo-me por elas conforme o exigir a ocasião, com tanto que não seja contra a minha honra, a do meu rei ou príncipe natural.

Art. 4.0 Nunca ofender maliciosamente pessoa alguma, não usurpar bens alheios, mas combater contra os que assim procederem

Art. 5. ° Nunca praticar ação alguma por avareza, ou simplesmente por esperança de lucro, mas só por amor da gloria e da virtude.

Art. 6. ° Combater pelo bem, e em proveito da causa pública.

Art. 7. ° Obedecer às ordens dos meus generais, e superiores que tiverem o direito de comandar-me.

Art. 8. ° Respeitar a honra, o lugar, ou posição dos meus companheiros, sem querer por orgulho ou pelo poder da força usurpar o que me não compita.

Art. 9. ° Nunca juntar-me a outrem para combater um só homem, nem usar de traição, fraude ou embuste, mas combater francamente espada contra espada.

Art. 10. ° Nos torneios e combates de divertimento nunca me servir da ponta da minha espada.

Art. 11. ° Honrar e amar reciprocamente os meus companheiros, e ajudá-los todas as vezes que for preciso.

Art. 12. ° Quando for a alguma diligência ou aventura nunca largar as armas senão para descansar durante a noite.

Art. 13. ° N'estas empresas não fugir dos lugares maus e perigosos, marchando sempre caminho direito sem medo de encontrar animais ferozes, que a coragem de um só homem possa vencer.

Art. 14. ° Nunca tomar empenho, obrigação ou pensão de príncipe estrangeiro, sem permissão do meu.

Art. 15. ° Se for obrigado a conduzir qualquer dama ou donzela, servi-la, protegê-la, e salvá-la de qualquer perigo, mesmo com todo o risco da minha vida.

Art. 16. ° Quando mesmo as tenha ganhado pelas armas, guardar-lhes todo o respeito, e nada tentar contra a sua vontade.

Art. 17. ° Se elas me procurarem para as defender, não me recusar nunca, se não quiser passar por covarde e indigno da ordem, exceto se tiver ferida grave, moléstia, ou qualquer impedimento razoável.

Art. 18. ° Ser escravo da minha palavra; se for prisioneiro em boa guerra, pagar exatamente o resgate prometido, e se não puder, voltar à prisão; e se assim não praticar, serei tido por infame e perjuro.

Art. 19.º Voltando à minha corte, darei conta exata de tudo o que tiver passado, mas se mentir ou negar a verdade, ou não a quiser dizer, serei destituído da ordem.

Art. 20 ° Finalmente prometo em tudo ser fiel, humilde e cortês, sobretudo para com as damas e as donzelas, sem faltar nunca á minha palavra, qualquer que seja o mal que me sobrevenha.

Quisera que me dissessem agora, se uma Ordem tão distinta, tão útil, tão morigerada, que professava princípios tão elevados e tão magnificentes, e que tanto contribuiu n'aqueles tempos para a civilização dos povos, merecia ser ridicularizada como o foi por Cervantes no seu D. Quixote de Ia Mancha; é certo que de tudo se pode escarnecer, mas esta Ordem não merecia tanto escárnio, e-tanta chocarrice. que só serve para fazer rir. Bem o disse Philippe II de Hespanha; passando por uma loja de sapateiro, e vendo um homem a rir-se muito, disse ele: ou aquele homem está doido, ou está lendo D. Quixote. (Aplausos repetidos.)

Localização

- Conferências Populares, Rio de Janeiro, nº7, jul. 1876, p. 37-56 (na integra). Capturado em 10 out. 2025. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/docreader/278556/753

Ficha técnica

- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.

- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca. 

Forma de citação

Conferência Popular da Glória nº 185. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 2 fev.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=767

 


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