Conferência Popular da Glória nº 188
Data: 06/08/1876
Orador: João Manoel Pereira da Silva
Título: Poesia dramática VI. O drama de Calderon de La Barca
Aviso, íntegra ou resumo: Íntegra
Texto na íntegra
“Senhora, Senhor Príncipe. — Senhoras e senhores! —
Prometi na última conferência que tive a honra de fazer perante este ilustrado auditório tratar particularmente das composições dramáticas de D. Pedro Calderon de Ia Barca.
Venho hoje cumprir o compromisso que tomei.
Para se apreciar, porém, Calderon como ele o merece, é mister conhecer o que era Espanha no tempo em que o poeta viveu.
Calderon representa a literatura da sua época e da sua pátria. A literatura é a voz da nação, o órgão de sua alma, a luz que manifesta seu estado social, sua civilização.
O literato, que não recebe para expandir as paixões nacionais, é flama fictícia, não tem importância, nem influência e originalidade, porque não é possível destacar-se o homem do seu século e do seu país. O que se atrasa, ou adianta, é um vulto isolado, individual, com quem se não conta para a marcha das ideias e o desenvolvimento do espírito humano.
Assim, a história de uma literatura se não pode separar da história da nação a que corresponde, porque uma é expressão da outra. Além d'isto como em moral, em política, em filosofia, nas artes, nas letras há uma só grande verdade, cuja essência repousa na relação dos objetos entre si, e não divididos, o método comparativo no exame e crítica é o mais apropriado a derramar a luz.
Calderon, sendo o representante mais genuíno do gênio, dos costumes, das crenças, das ideias, das tendências, das aspirações de Espanha no século XVII; sendo o pintor mais aperfeiçoado da sua vida, sendo igualmente o historiador o mais minucioso e sincero da sua nação, cumpre-nos compreender a Espanha na sua sociedade, nos seus sentimentos, na intimidade enfim de sua existência, para apreciarmos ao justo suas composições.
Espanha no século XVII já não era a Espanha da luta contra Árabes e Mouros. Como todas as nações europeias, que depois se transplantarão para a América, e n'esta parte do universo formarão novos Estados e sociedades que com o tempo se emanciparão, nascera, é verdade, do amálgama dos chamados bárbaros do V século com os Romanos até então possuidores do mundo conhecido. Em umas preponderou mais o elemento romano, menos em outras: as mais achegadas ao Norte receberão mais profundamente o princípio teutônico.
Em geral Roma influiu de preferência pela ilustração ou civilização que possuía, e os Teutões não tinham. Assim, mais o espírito dominaram os Romanos. Os Teutões, porém, com costumes mais puros e enérgicos, imprimirão grandes modificações no caráter, nas tendências da vida. Nos países meridionais mais romanos, nos setentrionais mais teutônicos, em todo o sentido, até nas línguas, que do seu contacto se derivaram.
Os Romanos do império erão povos estragados, desmoralizados, pervertidos, já afeminados, mas guardavam o culto das letras, das ciências e das artes. Os Teutões selvagens, mas no vigor e viço de princípios morais e ideias nobres, se foram esclarecendo ao brilho da instrução.
A religião cristã, subordinando uns e outros, e ligando-os pelas crenças, e pela alma, pairou sobre todos, e os dirigiu para novos destinos, igualando-os inteiramente.
O elemento teutônico tornou-se tanto mais proveitoso no seu enxerto e influencia quanto significava o princípio de devotamento ao amigo, culto à mulher, lealdade á palavra, coragem contra o inimigo. Para o Teutão o maior grau de baixeza e crime consistia em trair o amigo, em faltar ao respeito que merecia a mulher, em cometer vilanias, e em ser covarde.
Esses são os traços gerais, que entrando em ebulição, em luta, formarão às várias nações modernas da Europa.
Relativamente à Espanha há feições particulares a notar e estudar. Espanha, além das qualidades e organizações gerais da Europa, imprimiu-se de um certo espírito, ou misticismo oriental, que lhe comunicaram os Árabes, senhores de todo ou parte de seu território desde 710 até fins do século XV, em contacto com Espanhóis, ainda que em guerras continuadas. Além d'isto, separados os Espanhóis dos outros povos europeus, na luta gigantesca de oito séculos, só devendo a si, a seu valor, a sua religião, as vitórias que ganhavam, e que por fim tiveram o feliz resultado de expelir de todo o solo Árabes e Mouros coligados, formarão um tipo particular, original, nacional, que se destaca facilmente do de todos os outros povos da Europa.
O espanhol até fins do século V fora cavalheiresco, nobre, patriótico, franco, religioso, quase sempre, é verdade, com exageração, porque era qualidade esta própria do seu isolamento, da ardentia do seu céu, da imaginação que se impregnara de fogo arábigo, das guerras longas, sanguinolentas, tradicionais que sustentaram contra os inimigos das suas crenças religiosas. Tinham liberdades civis, direitos políticos, foros municipais, cortes mais ou menos legislativas, igualdade de cidadãos, porque o feudalismo desaparecera, e bem assim a divisão de classes, com o domínio dos árabes, e a necessidade de se ligarem e batalharem juntos os cristãos.
O primeiro golpe dado n'este edifício social, que lhe começou a ruína, foi praticado pelo cardeal Ximenes, regente do reino, na ausência de Carlos V. Este herdeiro do trono nascera em Gahd, pertencia a dinastia estrangeiras. Um monarca que não fosse nacional, que pertencesse ao estrangeiro, custava muito à Espanha aceitar. Homens importantes se levantarão, localidades inteiras, províncias, assembleias de povo. Ximenes combateu e curvou essas resistências, à custa da perda de direitos e foros individuais e políticos, e entregou o septo e a coroa a Carlos V, primeiro representante da casa d'Áustria em Espanha.
Carlos V continuou a obra de Ximenes, extingui os privilégios, foros e direitos; subjugou o ânimo e o povo espanhol. Para completar seus intentos, arrancou o povo do seu país natal para combater no estrangeiro, não mais pela pátria e pela religião, sim e só pelos interesses políticos e vaidades do soberano, que era ao mesmo tempo imperador da Alemanha, senhor de grande parte da Itália, França e Países-Baixos.
Foi-se assim desde logo iniciando uma modificação no caráter, gênio, costumes e aspirações dos espanhóis.
Felippe II, sucessor de Carlos V em Espanha, feroz, cruel, fanático, e um dos maiores tiranos dos tempos modernos, amordaçou então de todo os brios ainda existentes dos seus súditos, prostrou a nação a seus pés submissa e escrava, nação que antes que todas as outras da Europa tinha sido livre e gozado de direitos e foros políticos, e o que foi ainda pior, por meio do Tribunal da Inquisição, e do auxílio dedicado do clero, que ele encheu de riquezas e importância, coagiu e amoldou o espanhol a uma cega obediência à igreja católica, apurando-lhe o fanatismo já existente de modo a ser considerado virtude e dever o que era um vício, porque em vicio se transforma a exageração do mais nobre, do mais santo princípio e elemento da vida, da alma e do espírito.
Com o longo reinado de Felippe II transformou-se o caráter espanhol, perdeu a verdadeira grandeza para substituí-la pelo orgulho, o sentimento do heroísmo e valor próprio pela pompa, o patriotismo real pelo ódio ao estrangeiro, a generosidade pela fereza e crueldade; tornou-se servil perante o rei e perante a igreja.
Não é, pois, à natureza que se devem imputar os defeitos dos espanhóis sob o jugo da casa d'Áustria, e nos tempos que se lhe seguiram: deve-os o povo á educação que recebeu á força, a disciplina, a que o coagirão, e com que o manietaram, disciplina tirada dos claustros, e pelos reis imposta á nação, para não ter mais brios próprios, individuais, espontâneos: disciplina até então religiosa, mas que passou a civil, e submeteu a sociedade toda.
A decadência moral, política, social não tardou a começar: de feito já ela se notara sob Felippe II, cada vez mais rapidamente caminhara com os seus sucessores. Espanha perdeu em muito pouco tempo toda a sua importância na Europa, grande, imensa, no reinado de Carlos V; perdeu suas conquistas nos Países-Baixos, França, Itália, Portugal. Brilhou um momento, desapareceu também em um momento, e ficou esquecida, atirada à margem das nações, como que riscada da história.
Foi já n'essa época de provada decadência que apareceu Calderon. Nasceu no ano de 1600. Viveu sob o jugo de Felippe IV e do inepto Carlos 11. Fora soldado, na Itália e Flandres militara; fez-se padre, tomando ordens eclesiásticas, e aceitou o encargo de oficial do Santo Oficio da Inquisição.
Fotografa, portanto, Calderon a sua sociedade do século XVII. Suas composições, posto que brilhem pela ação, pelos factos em movimento, e agitando-se em cena, são espiritualistas, fanáticas, nada têm de materialismo e nem de ceticismo. Concentram em uma unidade multíplice pátria, fé, filosofia, história, artes; essa unidade é o catolicismo, mas exagerado até o fanatismo o mais decidido.
Como não devia ser assim a civilização espanhola do século XVII, quando a não ser o catolicismo por esta fôrma diluído, que lhe oferecia ao menos a ideia de igualdade dos homens, e o dogma da mesma eternidade para todos, o único alimento que se podia intitular livre do espírito, nada lhe podia sorrir á mente acabrunhada pelo cativeiro efetivo e prostração moral em que o povo havia caído.
Não vos darei conhecimento de todo o teatro de Calderon; encerra cerca de cento e vinte dramas; basta que dos melhores escolha alguns, para que por sua análise possais apreciar não só o gênio do poeta, como a situação dos ânimos em Espanha, os costumes, as crenças, as ideias dos seus compatriotas, a sociedade enfim da sua época.
Em quase todos notareis procissões de frades com olhos côncavos, rezas que parecem remorsos, que acabam de pregar doutrinas de sangue, e de incitar a multidão a perseguir os Judeus, os Mouros, os heréticos, denunciando-os ao Santo-Ofício, espionando-os em todos os seus esconderijos.
Vereis hordas de bandidos, que roubam, assassinam, armados de bacamartes, achando couto e homizio nos conventos, nos lugares sagrados.
Observareis rapazes desordeiros, espadachins, prontos a vibrar a espada e o punhal, duelando-se sem quase pretexto, derramando sangue, e exaustos pelas orgias depravadas.
Descobrireis o infeliz Mouro, o desgraçado Judeu, o desditoso herético, o suspeito ou acusado de ter nas veias sangue que não católico, porque seus pais o não foram, embora ele o seja coberto com o São Benito, levado á força ao auto-de-fé, e arremessado a fogueira, ao som de aplausos da multidão expectadora. De envolta com eles velhos decrépitos, crianças, mulheres, sofrendo o mesmo martírio do fogo.
Não encareis esses espetáculos com os olhos de hoje, não os aprecieis pelas vossas ideias modernas. O mundo está muito mudado, o século XIX não é o século XVII. Hoje não há fanatismo, há antes ceticismo, pode-se dizer não há fé há dúvida. Além d'isto a moral tem sido entendida diversamente segundo as ideias e interesses das diferentes épocas.
Não vos admireis, portanto, de ver santificado, glorificado pelo poeta esse fanatismo, que pinta em suas composições em largos e belíssimos traços.
É que, segundo o espírito do século XVII em Espanha, o catolicismo remia, salvava quantos professavam seu culto, perdoava-lhes, abria-lhes as portas do céu, sempre que antes de morrerem se arrependiam, se confessavam, e pediam misericórdia: enquanto que estava perdido o homem mais virtuoso, fosse embora cristão, logo que não era católico, e católico sem mescla de molinismos, galicanismos ou jansenismos.
Esses frades, ainda que carregados de vícios, são servos de Deus, são soldados do catolicismo; essas multidões de bandidos e salteadores são católicos, trazem sempre ao peito o rosário, e ajoelham-se diante da Cruz; esses rapazes desordeiros e loucos ouvem missa, assistem aos sacramentos da igreja; essas vítimas dos autos-de-fé pensa o povo que se salvam, queimando lhes os corpos nas fogueiras, para que assim castigados rimam suas almas na eternidade; a Inquisição é para salvar as almas, destruindo os corpos. O fogo expurga os erros e crimes dos homens. (Sensação).
O drama intitulado —Principe constante — é a glorificação do patriotismo e da religião, D. João I de Portugal iniciara guerra na África contra Mouros, depois d'estes expelidos do seu reino europeu. Apoderara-se de Ceuta e a tornara cidade católica. Seu sucessor e filho D. Duarte continua suas expedições guerreiras. Dois infantes, irmãos do rei, D. Fernando e D. Henrique, o famoso incitador do gênio marítimo e aventureiro português, que do alto do promontório de Sagres dirigia expedições marítimas destinadas a descobrir novas terras, são infelizes na guerra, caem prisioneiros do rei de Fez. O monarca mouro envia D. Henrique a Portugal a dizer ao rei que lhe entrega D. Fernando, caso lhe seja restituída a praça de Ceuta. El-rei de Portugal cede, mas D. Fernando recusa, declara que quer continuar cativo de Mouros, sofrer martírios, morrer pela pátria e pela fé. Ceuta é portuguesa e católica; Ceuta não pode voltai1 a ser moura e muçulmana; nas fortalezas de Ceuta não deve mais tremular a flâmula de África, nas igrejas de Ceuta se não pode mais adorar outro Deus que não seja o dos católicos; sacrifique-se embora um infante de Portugal! D. Duarte morre de tristeza, seu filho e herdeiro na coroa, D. Affonso V corre a África a salvar o tio, resolvido a ceder tudo aos Mouros. O infante morre, fenece na maior penúria e miséria, produzindo-se as cenas mais patéticas e dolorosas. Ceuta continua portuguesa para glória de Portugal e adoração de Deus
Enfeixam-se no drama cenas admiráveis descrevendo a Vida dos Mouros, e o caráter do Príncipe constante comove e impressiona profundamente. É a personificação de Regulo, mas superior ao Romano porque une ao sentimento patriótico o religioso, que é todo espiritual e admirável.
A variedade do gênio do Calderon mostra-se visivelmente em todos os seus dramas, posto que a base, a essência seja religiosa, católica, espanhola; mas possui uma invenção, e uma imaginação que se expande sob colorido tão contrário e diversificado, que as cenas se sucedem, os acontecimentos se entrelaçam, a intriga se desenvolve, a ação corre, as paixões se agitam, a atrair sempre a atenção, a chamar a curiosidade, a comover o espírito. Às vezes a linguagem é por demais pomposa, orientai, quase gongoristica, deixando assim não só do ser natural como de ser nobre sempre e elevada. Mas nos dramas de Calderon tudo é movimento, tudo é ação, e quase se desculpam os defeitos do diálogo.
Eis-aí um drama para santificar o sentimento de honra no espanhol. Tem por título—O médico de sua honra.—D. Guttierres amara uma donzela e a pedira em casamento. Por unia simples desconfiança desiste da sua promessa. Procura outra mulher digna d'ele, e casa-se com Duna Mencia. Vivem ambos com uma quinta a uma légua distante de Sevilha, e vivem felizes, enamorados, como em um paraíso.
O sentimento de honra no espanhol, apurado segundo as ideias populares, refinado pelos prejuízos populares, é comum a ambos os sexos. A mulher não pôde aceitar por amante senão um homem honrado, valente, digno. Deve amá-lo com toda a sua alma. Não lhe cumpre, porém, sofrer homenagens equívocas, nem consentir ofensas a sua dignidade. Demais, o amor é um mistério do coração, e deve o ser da sociedade O maior segredo deve reinar entre os amantes; desleal, pérfido, traidor o que o revelar até o dia em que possa ser legitimado pela igreja católica, e, portanto, então publicado,
O sentimento de honra no homem não admite a menor suspeita, o mais leve indício de infidelidade: há de ser considerado geralmente puro e dedicado. A menor suspeita só com sangue se lava.
Assim o sentimento de honra é superior ao próprio amor, a todos os outros da vida. Por ele se sacrifica pai, filho, mulher, amante; por ele se morre!
D Pedro rei de Castela, acompanhado de seu irmão D Henrique deixam Toledo para visitar Sevilha. O cavalo que o Infante montava cai, e o Infante pisa-se por fôrma que, não podendo continuar a viagem, o levado em braços a quinta de D Guttierres, onde se deve conservar até lhe chegar uma liteira.
O Infante reconhece em Dona Mencia a mulher que ele amara extremosamente quando donzela, e de que ele, posto que separado pelos acontecimentos da vida, se lembrava sempre. Dona Mencia, cortando-lhe as declarações, diz-lhe que é cativa, que pertence a D. Guttierres, e lhe será fiel, pedindo-lhe como prova do antigo amor que a não procure nem avistar. Partido o Infante da quinta, manifesta D. Guttierres à esposa que deve passar dias em Sevilha, a fazer companhia e corte ao rei Castela. Como que arrastada já por um funesto pressentimento, Dona Mencia nega-se a ir com ele à Corte, e suplica que se contente de, apresentadas suas homenagens ao monarca, voltar logo para a quinta, e não desampara-la nem um dia.
Parte para Sevilha D. Guttierres. Em vez de bom acolhimento do rei recebe ordem de prisão porque D. Pedro de Castela, o cruel segundo a história, o justiceiro segundo as crônicas espanholas, ouvira a dama, que não quizera D. Guttierres desposar, e que lhe dirigira formal queixa. Consegue D. Guttierres que o carcereiro lhe consinta passar a noite na sua quinta, voltando á prisão antes de amanhecer. O Infante, sabendo que D. Guttierres se acha encarcerado, parte á noite para a quinta, no intento de falar a Dona Mencia. Consegue entrada de um criado, mas Dona Mencia espantada do atrevimento lhe exproba a indignidade de seu procedimento. Chega á quinta D. Guttierres, o Infante foge, mas esquece o punhal que trouxera. D. Guttierres viu-o sair, e guarda o punhal, sem dar o menor indício a Dona Mencia do que se passara.
E admirável o dito íntimo de Dona Mencia quando exclama:
—Meu Deus! Se uma inocente assim sofre, o que não sofrerá a culpada?
D. Guttierres sabe que Dona Mencia lhe é fiel, mas teme o futuro: não pode deixar todavia pairar sobre sua honra a suspeita. Outros terão visto também sair o Infante de sua quinta. Confirma-se no seu juízo no dia seguinte, quando explicado perante o rei o seu procedimento em relação à primeira amante, e aprovado pelo monarca castelhano, é solto, e arranca das mãos da aia de Dona Mencia um papel que lhe descobre. Era uma carta de Dona Mencia ao Infante dizendo-lhe terminantemente que para ele morreu, não a procure, não a comprometia, não perturbe a paz e harmonia em que vive, nunca foi e nem será sua amante.
Apesar d'isso D. Guttierres se considera nodoado na sua honra: resolve-se á vingança. Leva a mulher da quinta para Sevilha; em uma noite tranca a mulher em seu quarto, afasta os criados, deixa-lhe sobre o leito um escrito dizendo-lhe; — O amor te adora, mas a honra te condena; tens só alguns momentos de vida. Prepara-te como católica a morrer no seio da igreja.
Um cirurgião é arrancado à força de sua casa, coberto com uma capa para nada ver, conduzido á morada de D. Guttierres.
D. Guttierres mascarado para não ser conhecido declara-lhe que ou morre, ou executará o que se lhe ordenar. O cirurgião cede, preferindo a vida. Então mostra-lhe D. Guttierres a mulher prostrada sobre o leito, cercada de crucifixos e luzes, e determina-lhe que a sangre, e espere até que, perdidas as forças, ela tenha expirado. Obedece o cirurgião. É uma cena horrível, mas soberba de ação, parca de palavras. Calderon não admite descrições, narrações, diálogos, apresenta os factos ao vivo. O cirurgião sai da casa sem ter visto fisionomia nenhuma para poder conhecer, com as mesmas precauções com que entrara, coberto com a capa, para nunca descobrir onde se passara o acontecimento.
O cirurgião, porém, ao sair prega as mãos ensanguentadas na porta e nas paredes, sem ser percebido. Vai logo no dia seguinte ao rei comunicar-lhe o sucesso. Descobre-se a casa, e D. Guttierres, chamado á Corte, diz ao monarca que ele é médico de sua honra; D. Pedro perdoa, aprovando o procedimento do fidalgo.
Eis-aí Espanha como era, minhas senhoras e senhores. Os caracteres do rei e de D. Guttierres são perfeitamente espanhóis. Dona Mencia não é um tipo da natureza de Antígone, Ophelia, Miranda, que sua visão e encantam, tipo geral, humano; mas é um caráter natural e próprio de espanhola. A ação corre dramaticamente sempre, não se perde uma cena, não se suspende nunca o interesse; gradualmente as paixões se vão desenvolvendo e apurando.
Peço licença para aproveitar ainda o tempo dando-vos noticia sucinta de três dramas, que simbolizam perfeitamente as ideias e prejuízos morais da Espanha do século XVII.
Um intitula-se—A Devoção da Cruz— representa o símbolo católico. Outro—A aggravo secreto, vingança secreta— representa o amor e o ciúme. O terceiro, denominado—O Magico prodigioso—significa a grandeza e proteção de Deus.
Na Devoção da Cruz há incidentes os mais romanescos assassinatos, duelos, crimes, horrores. Contar-vos-ei só o assunto e em sua essência, não no seu desenvolvimento repleto de cenas as mais comoventes e apaixonadas.
A Cruz simboliza Deus vivo: diz-se Deus saído da sua altura invisível, impenetrável, impalpável para se traduzir no pedaço de pão ou bronze, convertido na imagem da Cruz. Quem a traz ao peito, quem a respeita e adora, é salvo, seja embora carregado dos mais horrorosos crimes. É o fanatismo espanhol do século XVII, fundado sobre o sentimento nobre, elevado, sublime, da verdadeira religião, a cristã, que nasceu cie Cristo crucificado: mas é a exageração d'esse sentimento, e como todas as exagerações produzido grandes males persegue, sopita, abafa todas as ideias morais para tudo subordinar ao fanatismo.
Eusebio, apesar de ter no peito gravado e alimentado com seu sangue o sinal da Cruz que na infância lhe imprimiram, assassina o irmão da mulher que adora; perseguido pela justiça e família poderosa do morto, foge, converte-se em chefe de salteadores, reúne gente, é o terror de todas as localidades vizinhas, adquire horrenda celebridade, rouba, mata quantos desgraçados lhe caem nas mãos. Mas como é católico e adora a Cruz, onde enterra uma vítima do seu furor levanta uma cruz de madeira para memória do feito, e salvação d'ela. Eusebio descobre que a amante Julia fora recolhida pelo pai a um convento. Arma escadas, acompanhado pelos seus asseclas. Penetra nos corredores da casa santa, percorre as celas das castas esposas de Deus em procura da amante.
Enfim, em uma d'elas, ei-la entregue ao sono da inocência, e os olhos ávidos de Eusebio a descortinam e reconhecem.
Deverá acordá-la? Treme. Parece detido por um sentimento moral. Flamas como que brilham diante d'ele. É uma cena difícil, mas o poeta é maravilhoso, o pudor sempre o inspira no meio da pintura das mais extraordinárias paixões e perigos. A simples roupagem que a cobre e guarda, a candura, a castidade, a perfeição do corpo, a defendem. Um santo respeito nasce da beleza, e faz estacar os desejos precipitados do coração.
Julia acorda, estremece, vê o amante em delírio aos pês do seu leito. O amor é forte, não se poderá esquivar. Eis, porém, que de repente Eusebio ergue-se, repele-a, grita-lhe: - mulher, mulher, deixa-me fugir. Vi Deus, Deus vingador, ei-lo no teu peito; tens gravado aí seu signo sagrado, seu símbolo; cada lagrima tua, cada palavra, cada olhar, cada beijo seria para mim o interno: essa cruz, que tens no seio, é para mim um aviso. Conserva-te pura, casta, religiosa, adeus! —
E parte, e foge, e desaparece. Julia atônita não sabe o que pensar, observa que uma cruz está pintada em seu seio, e que Eusebio descobrindo-a parará em seus projetos. Mas a casta solidão do convento fora perturbada, tudo será sabido, um homem penetrara nos umbrais da casa sagrada, na sua cela, o sentimento do seu amor por Eusebio fora excitado, e ele o desprezara, como objeto sem valia. Pode ela conservar-se assim abandonada, sujeita á maledicência, à calúnia. Ela até aqui inocente e pura, posto que apaixonada de coração?
Fel e veneno giram-me nas veias com meu sangue. - Exclama. — Delibera-se, deixa o convento, saltando pelas janelas, veste-se de homem, corre para onde lhe consta se refugiam os bandidos da quadrilha de Eusebio.
Mas essa quadrilha fora atacada por forças a cuja frente se acha o pai de Julia. Um combate se trava quando ela chega, e se coloca entre os sicários a procurar Eusebio. Uma bala bate no peito d’ela, mas não a ofende porque encontrou o signo da cruz. A luta termina em favor da justiça. Eusebio é ferido, preso, morre confessando-se e perdoado. Ella salva- se, volta para o seu convento, fazendo cessar todo o ato que a ofenda, agarrando-se a uma cruz, e declarando-se serva de Deus!
Assim o signo da cruz é um símbolo que salva! O princípio do drama parece ter servido a Schiller para base dos Salteadores, que ele escreveu. Mas o poeta alemão destacou-se no desenvolvimento da ação, e tomou caminho diverso. O assunto de Calderon conservou-se assim mais original, mais imagem de sua nação e religião ao ponto de acabar em verdadeiro fanatismo.
O Aggravo secreto explica o amor e vingança em Espanha: Otelo de Shakespeare tem suas semelhanças, mas tem igualmente diferenças notáveis, procedidas dos gênios diversos dos dois poetas, e da contrariedade dos costumes, ideias, prejuízos e tendências de Inglaterra e Espanha.
D. Lopo de Almeida, que se pinta português, mas que no fundo e em tudo é um verdadeiro espanhol, vivia feliz em Lisboa, casado com D. Leonor, durante o reinado de D. Sebastião. Mas D. Lopo descobre que um indivíduo roda-lhe de contínuo as vizinhanças da casa. Uma noite encontra-o dentro, e posto que desconfiado aceita-lhe as desculpas de que ali se asilara para se salvar de inimigos que o atacarão na rua. D. João, amigo de D. Lopo, sabe do acontecimento, procura comunicá-lo a D. Lopo, mas este explica-o de um modo satisfatório, assegura-lhe que vira o indivíduo quando entrara perseguido por assassinos e até correra em auxílio afugentando a estes. D. Sebastião pergunta a D. Lopo se o quer acompanhar á África a guerrear Mouros. D. Lopo mostrasse-lhe pronto, mas o rei diz-lhe que pense, porque era casado de há pouco, e não deve assim abandonar tão cedo a esposa. D. Lopo, ao ouvir esta frase do rei, diz consigo— pois minha injuria já é sabida por D. Sebastião, além de suspeita por D. João!
Fala à mulher que deve partir para a África. Ella aprova-lhe o intento, louva-o porque um nobre se deve à pátria e à religião, antes que a própria família. Novas razões para atormentarem D. Lopo; não o quer ela ver longe dos olhos?
Que fazer? A honra o obriga a vingar-se. Mas como? Por um ato público'? Mas a publicidade da vingança não serve para confirmar o insulto. Não revela a vingança o que a injuria não diz? É preciso vingar-se, não há dúvida. A nodoa na honra de um espanhol só se lava com sangue. Basta a suspeita, ele não precisa de provas, nem as quer conseguir. Está resolvido, mas o que é mister é calar-se, esperar, e vingar-se depois.
Prepara-se assim no maior silencio. Nada deixa suspeitar á mulher, nem ao amigo D. João, nem ao rival presumido, que trata d'aí por diante com todo o afeto. A ação dramatiza-se, o interesse cresce, e as cenas correm apaixonadas e admiravelmente. Era de feito D. Luiz um espanhol com que devera D. Léonor casar-se, mas que partido para a guerra, foi proclamado morto, e então ella se desposara com D. Lopo. O amor renasce entre ambos e redobra com intensidade. D Lopo passa a mulher para uma quinta que possui em uma ilha no Tejo, essa ilha contém muitas outras quintas, é um lugar de divertimentos e passeios. D. Leonor convida por uma carta o amante a ir vê-la para receber seus adeuses, porque ela não trai seus deveres de esposa, e quer pedir-lhe que parta para Espanha e a deixe de perseguir.
Todos estes tipos femininos de Calderon brilha» pela pureza e honestidade; devia de ser assim a espanhola, pelo menos do século XVII. [Risadas] Podem ter amor, paixão, irias curvam-se aos deveres e a religião.
D. Lopo tem notícia da entrevista. Compra todos os escaleres que de Lisboa viajam para a ilha n’aquele dia e hora. Só deixa um ás suas ordens. Coloca-se aí ao pé a esperar D. Luiz, que necessariamente deve acudir ao chamado de D. Leonor.
De feito, D. Luiz aparece. Não encontra barco, desespera-se. D. Lopo oferece-lhe o seu, e diz-lhe que irão juntos. Não gosta muito da companhia D. Luiz, mas sujeita-se. D. Lopo, a pretexto de mandar chamar um criado, despede o bateleiro, e entrando com D. Lopo no escaler, entrega-se ás águas do rio. As águas o levão, uma tempestade se levanta no Tejo, ambos correm perigo de serem sorvidos pelas ondas.
N'esta situação D. Lopo arranca um punhal, enterra-o no peito de D. Luiz, que grita desesperadamente, e ensanguentado é atirado ás águas do Tejo. Logo depois D. Lopo aproxima o batel à ilha, e antes de chegar á praia vira-o, entrega-o às vagas e à tempestade, salvando-se a nado.
Entra em casa quando a mulher que estremecera ao ouvir gritos de agonia se lhe mostra aflita, pálida. D. Lopo conta-lhe que se embarcara com D. Luiz e escapara a nado do naufrágio, e D, Luiz se afogara no rio. D. Leonor cai sem sentidos. D. Lopo sai e lança logo fogo a casa, que é devorada pelas chamas. Penetra, todavia, por entre elas, para mostrar que vai salvar a mulher. Aparece com o seu cadáver perante uma multidão imensa que açode ao incêndio. Chora sobre a sorte infausta da adorada esposa, e declara que só lhe resta agora ir morrer na África pela pátria e pela religião, combatendo Mouros.
Não vos contarei o desenvolvimento do Othello de Shakespeare, porque todos vós deveis conhecê-lo. Compararemos somente as duas composições, ambas verdadeiros primores d'arte: este estudo notará as diferenças dos dois poetas e dos sentimentos das duas nações.
O Othello de Shakespeare, posto que africano, estremece, chora, lamenta-se á proporção que desconfia da lealdade da es rosa. Tem necessidade de expandir-se, de comunicar suas dores, do receber consolações, entretanto fora um guerreiro. como também o tinha sido D. Lopo, de Calderon, que militara nas Índias. D. Lopo, porém, cala-se, esconde a sua aflição procura mesmo destruir qualquer indício de publicidade, mostra a maior confiança em D. Leonor. Para que o Othelo inglês chegue á vingança de sua honra, carece de tempo, e de um lago, personagem importante no drama, que lhe tortura barbaramente o coração que sofre, e lhe derrama dentro o veneno do ciúme gota a gota. D. Lopo não precisa de nenhum aviso ou conselho para que os zelos brotem do seu peito rápida e fortemente, como essas flores, ou cactos, que dos rochedos áridos de Espanha da noite para o dia se formão e abrem seus esplendores. Em Othelo há narrações, monólogos, meditações; em D. Lopo tudo é movimento, ação; o protagonista por si resolve, cala-se, espera e vinga-se, tudo em segredo. Othelo arrepende-se depois de assassinar Desdêmona, falta-lhe a coragem para sobreviver-lhe, suicida-se lamentando suas desgraças. D. Lopo apunhala o rival às escondidas, e atira o cadáver ao rio, extingue a vida da mulher por meio do incêndio de sua propriedade; as águas do Tejo, e o logo coroam-lhe a vingança. Perante o rei finge-se magoado pelo acontecimento para que se não suspeite. Não tem remorsos, porque entende que cumpriu seu dever de cavalheiro, Oferece-se ao rei para acompanhá-lo á guerra contra os Mouros, e combater pela fé e pela pátria.
Já vedes que o crime é igualmente desenhado, mas que os caracteres têm outros sentimentos a respeito do que devem fazer, no intuito de vingar a honra.
A heroína inglesa deixa-se levar por seu amor, a ponto de abandonar casa e pai, e fugir para unir-se a Othelo; e uma admirável figura de mulher, apaixonada, sentimental, dedicada. D Leonor é espanhola, amou antes de casar, ligou-se depois a outro homem, mas respeita sua situação, cumpre seus deveres de esposa, resiste ao amante antigo quando lhe aparece, posto que a incite a paixão ressuscitada, ainda que lhe arda o coração em reminiscências doridas, e pareça ansiar renovamento de relações adoradas. É criminosa pelo pensamento, pelo espírito, mas não perante a sociedade. A vista do amante a impressiona, exalta, transforma-a, mas não lhe dá a ideia de faltar a lealdade. O amor de Desdêmona é natural, não conhece limites; o de D. Leonor é subjugado pela razão, pela educação, pelos sentimentos de dignidade.
Os lances, o enredo, as peripécias, a ação dramática, a paixão destilada a pouco e pouco na composição de Shakespeare; toda espontânea e de momento na de Calderon; as meditações, dúvidas, sustos de Othelo ao lado da resolução firme, imediata e silenciosa de D. Lopo; tem tudo atrativos particulares, efeitos dramáticos completos, mas diversos, um poeta falando mais à natureza sombria do Norte, e o outro a paixão escandecida e fogosa do Meio-Dia. Eis as diferenças das duas obras admiráveis.
Conversemos agora acerca do — Mágico prodigioso — de Calderon. Trata-se de um cidadão de Antiochia, pagão, ilustrado, de família importante, entregue ao estudo, à meditação, à ciência. Chama-se Cypriano. Conhecia Platão, Aristóteles, detestava como Plinio e como Tácito o cristianismo, porque era uma seita judia, isolada do gênero humano, inimiga de Roma e dos Deuses da mitologia. Confiado em sua força aspirava a volúpia da alma, e deleites do mundo físico, sensações, porque estava quase séptico, porque a situação da ciência lhe não bastava, o culto que professava lhe não satisfazia os Ímpetos espiritualistas: adivinhava com seu pensamento que havia um Ente sem causa, sem fim, princípio, todavia de tudo, causa de tudo, e criador.
Dir-se-ia que adivinhava a hora em que as filosofias antigas deviam ser substituídas pela imortal filosofia de Jesus-Cristo.
Resolve o diabo tentar e perder esta alma. Procura o único instrumento para a sedução e vitória. E a mulher instrumento da tentação e perdição do homem desde Eva, desde a criação do mundo. [Hilaridade prolongada.) Lança os olhos sobre Justina, bela, instruída, graciosa, cristã. Um do outro aproxima e derrama-lhes nos corações uma paixão intensa, delicada. Mas Justina faz preponderar a vontade sobre o amor, o espírito sobre o coração. Ama a Cypriano mas é cristã, e a razão a domina. Cypriano promete ao diabo ceder-lhe sua vida e alma, com tanto que ele consiga abraçar Justina. O diabo constrange-o a assignar uma escritura do convênio, prometendo-lhe satisfazer os desejos. Como são admiráveis de poesia, sentimento e paixão, as cenas em que aparece Justina, como é superior a todo o elogio a pintura do seu nobre e virtuoso caráter, apesar de em torno d'ela lazer o diabo que as flores, os regatos, a natureza, a atmosfera, tudo aos sentidos lhe faça incitar o fogo do amor!
Um dia conversam Cypriano e Justina à sombra dos sicômoros aplaudem os cânticos das aves, entoam hinos à natureza expandem sentimentos de mútua paixão Cypriano ousa abraçá-la, escurece-se, de repente, o céu. cobre-se de nuvens ronca o trovão, o mundo estremece. Em vez de uma mulher, e da mulher adorada, encontra Cypriano apertado em seus braços um esqueleto. Horroriza-se, grita, pede socorro, aparece-lhe o diabo, apresentando-lhe a escritura, e exigindo-lhe entregue seu corpo e sua alma.
Cypriano resiste ao diabo, declara-lhe que em vez de uma mulher abraçou um esqueleto, e o gênio infernal lhe faltara a palavra e promessa. O diabo é constrangido a confessa que Deus salvou Justina, e que esse Deus é o dos cristãos. Então Cypriano exclama - Desaparece, maldito, abraço-me com a Cruz, só o cristianismo é religião, em nome de Deus, em nome de Cristo, sou cristão!
O diabo estremece, e foge. sumindo-se nas entranhas da terra.
Como já vos disse uma vez O Mágico Prodigioso, de Calderon, tem parecenças grandes no assunto com o drama intitulado – Vida de Dr. João Fausto - escrito pelo poeta inglês Marlowe, que viveu antes de Calderon: mas Calderon que decerto não sabia inglês, e o drama de Marlowe só do meiado a fim do século XVII foi publicado, não o copiou d'ele; naturalmente em ambos os países havia igual legenda da qual os dois poetas se servirão; tem o diabo o nome de Mefistófeles, e o herói o nome de Fausto, na composição de Marlowe, notável particularmente pelas últimas cenas, em que o protagonista é pelo diabo carregado para os infernos, em cumprimento do pacto por eles celebrado. O grande poeta alemão João Gothe, de Marlowe antes que de Calderon, arrancou esse sublime drama de Fausto, que é uma das modernas composições mais justamente admiradas.
Deixando de parte a obra de Marlowe, que como quase todos os poetas ingleses de seu tempo, inclusive Shakespeare, como os franceses, alemães e italianos, encontrarão inspirações e assumptos no teatro espanhol, mais antigo e mais opulento de todos, comparemos Calderon com Goethe, a composição de um com a do outro.
Calderon é espanhol e católico, digo melhor, fanático, pertence ao século XVII. Goethe e, senão inteiramente cético, panteísta pelo menos, e alemão do século XIX. As ideias, os sentimentos, as tendências dos povos e dos homens modificam-se, transformam-se com os séculos.
Fausto alemão e Fausto espanhol querendo ir além das forças humanas encontrão o vácuo: o primeiro parte da dúvida que devora a sua época; o segundo da fé, que inspirava Espanha. Ambos procuram a ciência, que não encontram, mas o alemão se dirige pelo pensamento, o espanhol pela necessidade de amar, a volúpia sensual.
Fausto alemão analisa, discorre, ama Margarida um pouco--assim, assim, como o faz com Deus e até com o diabo. [Risadas.) Fausto espanhol adora Justina como se deve adorar a Deus, só ela é seu sonho, seu desejo, sua aspiração.
A heroína alemã é simples, amorosa antes de tudo, inexperiente, seduzível pelos instintos e sensações, por isso Fausto a domina e curva a seus caprichos. A heroína espanhola ê instruída, apaixonada, mas cristã, temente a Deus. Sua razão e vontade não lhe sopitam o amor, mas o subjugam e dirigem. Por isso a primeira pecou e padeceu; a segunda nunca pecou e salvou-se.
O diabo espanhol nunca se ri, o alemão está sempre a rir-se. [Risadas] O diabo alemão é galhofeiro, irônico, brincador; o diabo espanhol é grave e sério como um frade castelhano entregue ao isolamento e aos exercícios ascéticos. [Risadas.] O diabo espanhol treme quando se lhe falia em Deus; o diabo alemão zombeteia de Deus. [Risadas.] O diabo espanhol confessa murmurando a unidade e poder de Deus; o diabo alemão é paradoxal, epigramático, sensual, brincador, patuscâo (hilaridade prolongada), nega a força divina, é materialista perfeita.
Poetas são ambos, Calderon e Goethe, gênios da primeira ordem, mas seguirão diferentes veredas porque partirão de primícias diversas. Calderon é o poeta da invenção, Goethe o da ciência, que imporia que não seja espontâneo o assunto que escolheu, se o colorido, o desenvolvimento são próprios? Assim também praticava Shakespeare, aproveitava os assumptos alheies, mas, pondo-os em cena a seu modo e jeito, por tal forma nos enobrecia, embelezava, que chegava ao sublime, que era dele e só d'ele!
Que pena, minhas senhoras e senhores, que Espanha, descaindo de sua grandeza, entendesse dever conservar-se na sua originalidade, som receber ideias alheias, sem enriquecer-se com aquisições estranhas, sem adoptar um progresso paulatino e regular! Os enxertos salvam, melhoram aperfeiçoam as raças humanas, e as nações. O que é mister é sabor adquirir sem roer o fundo próprio, misturar uma com outra a ideia nacional e a estranha, guardar a tradição á proporção que se renova. O passado é parte do presente, quando se despreza todo o passado para só aceitar a ideia do presente, nada se edifica que seja durável, solido. Também quando como Espanha uma nação só quer viver por si, nada aceita das outras, torna-se estacionaria nas suas ideias e costumes, não adota progressos, não marcha para diante, sustenta como no século XVII sustentava Espanha que devia viver isolada, ai d'essa nação!
Com sua decadência lá se vai também o seu gênio, o seu espírito; as ciências, as letras, as artes, são parte da civilização geral, não medram, não se desenvolvem só por si. Em vez de literatos a nação não tem mais que mediocridades sem valor; a lira de ouro repercute sons de cobre, desaparecem as verdadeiras inspirações do poeta, do historiador, do artista, do filósofo, do sábio, e a nação em vez de prosperar estorce-se como um cadáver no sepulcro, como fez Espanha nos séculos XVII e XVIII!"
(Muitos aplausos acompanham o orador ao descer da tribuna).
Localização
- Conferências Populares, Rio de Janeiro, nº8, ago.1876, pp. 03-24 (na integra). Capturado em 10 dez. 2025. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/docreader/278556/835
Ficha técnica
- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.
- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.
Forma de citação
Conferência Popular da Glória nº 188. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 14 mar.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=770
Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz – (http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br)