Conferência Popular da Glória nº 191

De Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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Data: 20/08/1876

Orador: Feliciano Pinheiro de Bittencourt

Título: Espiritualismo e materialismo

Aviso, íntegra ou resumo: Íntegra

Texto na íntegra

“Minhas senhoras, meus senhores. — Antes de entrar no desenvolvimento da tese, que tive a honra de anunciar-vos, julgo dever explicar-vos a minha presença n'esta tribuna que, se para alguns é pedestal de glória, para outros é áspero e solitário rochedo de encontro ao qual naufraga inevitavelmente o batel de suas ideias.

Moço e entusiasta pela ciência, desejando ardentemente inscrever um dia o meu obscuro nome no majestoso pórtico do templo do saber, não costumo ser indiferente às lutas incruentas da inteligência, aos combates pacíficos do talento, onde quer que eles se travem, qualquer que seja a sua arena.

E quando porventura, em consequência da minha idade e condição social, eu não posso, por exemplo, tomar parte nos brilhantes e profícuos certamens, que têm por teatro o recinto augusto do parlamento, cá de fora, de longe, olhando com ansiedade e interesse, folgo em ver e conhecer quais são os atletas mais denodados da tribuna em meu país, quais os economistas mais abalizados, quais os publicistas mais notáveis, os diplomatas mais distintos, quais são enfim, aqueles, d'entre os representantes do povo, que mais nobilitam o dom sublime da palavra, e mais alto elevam a gloria e o esplendor da pátria.

Emendo que emprego perfeitamente as minhas horas de repouso, o tempo que me sobra de meus afazeres obrigatórios em ler, apreciar, e confrontar as obras, os discursos, os trabalhos mais importantes, enfim, dos nossos homens de Estado, d’aqueles em cujas mãos repousam os destinos d'esta terra americana, onde tudo é grande e majestoso.

Sendo assim, meus senhores, parece que me posso justificar perante vós, dizendo-vos que escolhi o espiritualismo e o materialismo para objeto d'esta minha despretensiosa conferência, por ser hoje questão da moda falar-se do espirito e da matéria, pretendendo-se negar a existência do primeiro, e atribuir tudo, tudo explicar até mesmo a vida e suas manifestações, pela matéria e as propriedades físicas, que lhe são inerentes.

Certamente que senão fora a necessidade de repetir certas verdades, de todos mais ou menos sabidas e conhecidas, afim de fazê-las calar melhor no animo daqueles que muito de propósito buscam esquecê-las, eu não viria, ante um auditório tão numeroso e ilustrado, tratar do espiritualismo e materialismo, assunto que, apesar de ser de alta filosofia, está, entretanto, no conhecimento de vós todos.

Não vos venho aqui apresentar variados conhecimentos filosóficos. que não possuo, nem tão pouco fazer praça de uma grande leitura, citando inúmeros autores.

Preferirei apenas a opinião de alguns, que julgo mais competentes na matéria, pois que sempre entendi que a muita leitura, quando não é bem pensada e refletida, quando não é convenientemente digerida, produz males incalculáveis, gera ordinariamente a meia ciência que é o mais possante, o verdadeiro obstáculo contra todo e qualquer progresso real.

Feitas estas considerações, que entendi dever apresentar-vos, passo a ocupar-me da minha tese, começando pelo — espiritualismo.

Admite-se geralmente, é de crença universal, que o homem é um composto de duas substâncias: uma simples, indivisível, imponderável, imaterial, eterna, que é a alma ou o espírito; outra material, composta, divisível, ponderável, que é o corpo.

Estas duas substâncias componentes do ser humano, distintas como são, exercem entre si uma influência reciproca, estão na absoluta dependência uma da outra, afim de que possa dar-se e manter-se o grande facto da vida.

Desde que, porém, por vontade do ser supremo, que rege os mundos, o espírito, a alma abandona o corpo, este decompõe-se e vai para o mundo inorgânico; não perece de todo, transforma-se. A alma, imaterial, eterna, eleva-se à pátria celeste, comparece perante Deus, a fim de ser julgada conforme o entender a justiça suprema.

Tal é, em resumo, a doutrina aceita pela maioria dos filósofos, pelos homens de bom senso em geral, e pelos espíritos refletidos; tal é também a doutrina que constitui os fundamentos do espiritualismo—Deus e a alma humana.

Julgo, meus senhores, que não devo aqui entrar em largos desenvolvimentos, em detalhes minuciosos, a respeito do espiritualismo, pois que, como já disse, é assumpto familiar a vós todos.

Assim pois eu nada vos direi em relação ao espiritualismo antigo, e ao da idade média; passarei por sobre esses dois longos períodos filosóficos, em que tantas escolas se findaram, em que tantos sistemas se apresentarão, em tantas tentativas se fizeram, que para estabelecer-se, de um modo real e verdadeiro, os sólidos alicerces da ciência mãe, e ocupar-me-ei de uma maneira geral e sucinta do – espiritualismo moderno.

Nos fins dos séculos XVI, meus senhores, quando já agonizava a escolástica, quando já aproximava-se do seu termo o período filosófico conhecido sob a denominação de – período da idade média - as ciências não só filosóficas, como físicas e matemáticas, ressentiam-se sobretudo dê falta de método para poderem ser compreendidas e estudadas com proveito.

Foi n'essa época, em começos do XVIÍ século, que apareceram dois gênios verdadeiramente notáveis, dois espíritos superiores. Bacon e Descartes, dando grande impulso à ciência moderna.

O primeiro fundou-se na observação externa dos fenômenos físicos; o segundo na observação interna dos fenômenos psicológicos. Aquele seguiu mais o testemunho dos sentidos; este o testemunho da consciência.

Deixarei de parte o filósofo inglês, a quem se deve a descoberta do famoso método da indução, e ocupar-me-ei de Descartes, a quem cabe incontestável mente a glória de haver lançado as primeiras bases do sistema espiritualista moderno.

Cumpre confessar, meus senhores, a bem da verdade que Descartes deixou-se arrastar por uma espécie de aberração, por um como que desvario do seu espírito, pretendendo atribuir tudo a consciência e à razão.

Foi ele quem, depois de haver dito em física “dai-me a força e o movimento, e farei o mundo”, ousou dizer em filosofia, “dai-me a consciência e a razão, e terei o homem, e todas as verdades que ele pode conhecer!”

Descartes, declarando-se idealista puro, chegou ao absurdo de negar a existência do mundo externo, duvidando até mesmo da própria existência; e é por isso que o seu método chama-se da — duvida perene.

E para lamentar-se que neste ponto o próprio John Locke, chefe da escola sensualista inglesa, adversário acérrimo de Descartes em muitas outras questões, como em relação às ideias inatas, por exemplo, é para lamentar-se que se mostrasse seu discípulo fervoroso.

Condillác, também sensualista; Berkley, idealista; e Hüme com o seu sistema egoísta, nada mais fizeram do que modificar em alguns pomos a doutrina de descartes, seguindo-a, porém, na essência.

De sorte que pode-se dizer, senhores, que o reinado de Descartes prolongou-se até o aparecimento de Thomaz Reid, ilustre filósofo, chefe da escola espiritualista escocesa, sucessor de Adam Smith na cadeira de filosofia moral da universidade de Glasgow, que regeu até 1780.

Foi Reid, com efeito, o primeiro que, separando a percepção da sensação que a envolve, colocou-a no número das nossas faculdades originais; de modo que, segundo a doutrina d’este filósofo, conhecemos o mundo externo por meio d'essa faculdade especial do nosso espírito, chamada—percepção externa; assim como conhecemos o mundo interno por essa outra faculdade denominada—percepção interna, senso íntimo, ou consciência.

Temos, pois, o homem conhecendo o mundo externo, e conhecendo a si mesmo.

O sistema e Reid estava, portanto, desenvolvido e aperfeiçoado, mas não completo; e, pois, a estas noções de percepção não tardou ele a adicionar outras de grande importância, e que servirão de complemento ao seu sistema.

Quero referir-me, senhores, às noções absolutas de causa, efeito, tempo, espaço, infinito, eternidade, etc, e às outras ideias que lhes são correlatas, como as de virtude, do bem, do mal, do justo, do injusto, do belo, etc.

Pode dizer-se que uma nova era abriu-se para a filosofia.

A questão das ideias absolutas, ou necessárias despertou logo a atenção geral; n'ela tomarão parte todos os filósofos da época. Para a sua solução fatigaram-se embalde os gênios verdadeiramente superiores de Leibnitz, Clarke, Newton, Rant, e tantos outros. Fatigaram-se embalde, digo, porque o erro principal de tais filósofos estava em quererem eles demonstrar, conhecer positivamente a essência, a natureza intima das ideias absolutas, o que nos é inteiramente vedado prescrutar. E aqui temos uma justificação para a seguinte verdade: os próprios gênios, os espíritos superiores, sentem-se pequenos e fracos quando pretendem ultrapassar as raias dos conhecimentos humanos.

Assim, pois, meus senhores, as primeiras discussões, os primeiros debates travados sobre as noções absolutas e necessárias, foram em pura perda.

Modernamente, porém, graças sobretudo aos trabalhos do imortal Victor Cousin, d’esse homem que já aos 23 anos era professor de filosofia na faculdade de Paris, as ideias necessárias, ou absolutas, têm recebido uma completa e cabal explicação.

Não é, certamente, procurando prescrutar a essência, a natureza intima, de tais ideias que chegaremos ao seu conhecimento; mas é, pelo contrário, partindo do relativo, do contingente, do finito, do limitado, que poderemos chegar ao absoluto, ao necessário, ao infinito, ao ilimitado, servindo-nos do raciocínio.

Tomemos para exemplo a ideia de causa. Todas as causas terrenas são finitas, relativas, secundarias; pois bem, remontando-nos por uma sucessão de causas, chegaremos à causa primeira, a—causa causarum—de todas as cousas, chegaremos à ideia de Deus. E assim conheceremos as demais noções absolutas. sempre pelo mesmo processo.

Conhecida a ideia de Deus, temos o primeiro fundamento do espiritualismo; o segundo é a alma humana, cuja existência se demonstra ainda por um processo semelhante ao que acabo de indicar.

Peço licença, senhores, para não apresentar provas físicas, morais, ou metafísicas, da existência de Deus, nem tão pouco da alma humana, pois que falo perante um auditório católico e ilustrado, e que conhece perfeitamente tais verdades.

Demais, eu não venho aqui defender o espiritualismo, porque ele não carece de defesa, tem em si mesmo a sua maior justificação.

As seitas que se levantam para combatê-lo nascem hoje, morrem amanhã; só o espiritualismo tem conseguido atravessar impávido os séculos e as idades, zombando do tempo, insinuando-se pelo futuro.

Os ataques dos materialistas contra o nosso sistema podem ser comparados a esses esforços impotentes das ondas oceânicas, que erguem-se furiosas, arrojam se contra o penedo, e recuam desfeitas em alvas e argênteas espumas.

Passarei, portanto, a encarar a segunda parte da minha tese, a que ligo maior importância, por ser atualmente assunto da moda, vou tratar do materialismo.

Vejamos o que é o materialismo, e quais as suas pretensões?!...

O sistema materialista pretende tudo explicar, tanto os fatos ou fenômenos de ordem física, como os de ordem puramente psicológica ou metafísica, apelando unicamente para a matéria, e suas propriedades físicas.

Tendo tido à sua frente nomes como Moleschott, Buchner, Proudhon, Le Bon, Vogt, Huschke, Briba, Vallentin, Flourens, Rodolpho Wagner, e alguns outros homens notáveis pela inteligência e pelo saber, mas infelizmente desvairados, o materialismo tem conseguido chamar a si alguns adeptos, que cumpre confessar a bem da verdade, deixam-se levar mais por espirito de imitação, por espirito de novidade, do que por convicções arraigadas.

O erro principal de tal sistema (se assim pode se chamar), a sua falta mais grave está justamente no seu exclusivismo.

Façamos as devidas distinções; não queiramos atribuir tudo à matéria, nem tudo ao espírito. No primeiro caso teremos o materialismo, sem razão de ser; no segundo, o idealismo, não menos absurdo.

Assim como, meus senhores, seria absurdo pretender-se explicar factos ou fenômenos de ordem puramente física, como, por exemplo, os movimentos mecânicos de uma máquina, apelando para o espírito, assim também seria impossível, não seria menor absurdo querer-se explicar factos de ordem moral, psicológica, ou metafísica somente pela matéria e suas propriedades.

É, pois, da confusão que nascem os erros, as inconsequências, as extravagâncias e os absurdos, que pretendem os materialistas sustentar, e que devem ser energicamente combatidos.

E, senão, vejamos como pretendem eles explicar a inteligência, as ideias, os juízos, os raciocínios, os pensamentos, em uma palavra, — a inteligência e todas as suas operações.

lr-vos-ei apresentando, senhores, as opiniões dos chefes mais autorizados e respeitados da seita, e combatendo separadamente o modo de pensar de cada um d'eles, na medida de minhas fracas forças.

Começarei por Vogt, materialista de força, autoridade a que recorrem sempre os adeptos da seita para a sustentação de suas doutrinas.

Vogt diz que “há entre o pensamento e o cérebro a mesma relação que há entre a bílis e o fígado, entre a urina e os rins”. De sorte que ele considera o cérebro como “órgão secretor da ideia, do pensamento, do juízo, etc, do mesmo modo que o fígado secreta a bílis, e os rins secretam a urina”.

Ora, senhores, à primeira vista se reconhece quanto há de extravagante e absurdo em semelhante opinião!

É uma verdade incontestável, e por todos sabida, que há sempre entre o produto de secreção e o órgão secretor a mais intima relação, a mais absoluta dependência; isto é, o produto secretado participa da natureza do órgão secretor.

Assim é que o fígado, ou glândula hepática, órgão material, composto, visível, ponderável, etc, secreta a bílis, substância igualmente material, composta, visível, ponderável, divisível, etc.

O mesmo sucede com os rins, ou glândulas renais, em relação à urina.

Agora, perguntaremos nós aos senhores materialistas, dar-se-á a mesma cousa com o cérebro e a inteligência? Serão a inteligência, e seus produtos, secreções do cérebro?

Qualquer espírito, ainda o mais rude, deixando-se apenas guiar pelo bom-senso, responderá negativamente.

Com efeito, senhores, o pensamento, a ideia, o juízo, etc., são coisas simples, invisíveis, imponderáveis, impalpáveis, imateriais, etc.; como, pois, acreditarmos que sejam produtos de secreção de um órgão material, composto, divisível, ponderável, palpável, etc, como é o cérebro?!...

E pois não há a menor analogia, a mínima paridade, a mais ligeira identidade, que autorize a desarrazoada comparação que faz Vogt.

O próprio Buckner n'este ponto discorda da opinião do seu colega, dizendo que “a sua comparação é muito arrojada e pouco feliz”.

Moleschott, outro materialista não menos esforçado, em cuja obra, Circulação e vida, muito se inspirou Buckner, antes de escrever o seu livro, Força e matéria, diz e pretende sustentar que “o pensamento não é senão o resultado do movimento das células cerebrais”.

Vem ao caso, senhores, discutirmos essa questão de força e movimento da matéria, em que tanto falam os materialistas, fazendo d'ela o seu cavalo de batalha.

É para admirar-se, na verdade, que os homens que só rendem culto à matéria, e que dizem só deixarem-se guiar por aquilo que, demonstram a experiência e a observação cientificas, se achem n’este ponto na maior e mais flagrante contradição consigo mesmos!...

Com efeito, a ciência tem demonstrado, de uma maneira inconcussa, que uma das propriedades físicas da matéria é a inércia, isto é, a matéria é por si mesma inerte, precisa sempre de um agente impulsor para pôr-se em movimento.

Como, pois, nos vêm os senhores materialistas dizer que a matéria produz força e movimento?! Sempre as mesmas falsas proposições, e consequências igualmente falsas!...

Demais, senhores, se fossemos a admitir a hipótese figurada por Moleschott seriamos levados, pelo rigor inflexível da lógica, a admitir também tantos pensamentos quantas fossem as células cerebrais.

Ora, estas são, em número considerável e indemarcável, e, pois, seria, o indivíduo assaltado ao mesmo tempo por múltiplos pensamentos por múltiplas ideias; mas o pensamento, a ideia, e as demais operações da inteligência, são cousas simples, indivisíveis e impalpáveis; como, pois, admitir-se essa suposta multiplicidade?!...

Vê-se, portanto, que por qualquer lado encarada é inaceitável a opinião de Moleschott, que nada explica, antes tudo confunde e baralha.

Huschke ainda outro adepto da seita, diz que “há entre o pensamento e o cérebro a mesma relação que há entre a cor e as vibrações do éter”.

Em primeiro lugar observaremos que nada há mais obscuro que semelhante hipótese, própria mesmo de um cérebro de materialista, e materialista alemão!...

O éter, meus senhores, sua natureza, propriedades e vibrações, são questões puramente físicas, e que, portanto, não vêm ao caso, nada provam.

E, pois, temos aqui a confusão deplorável de que vos falei a princípio.

Além d'isso a natureza, a essência do éter, as suas propriedades, ainda por ninguém foram demonstradas positivamente; são apenas hipóteses admitidas na ciência, para a explicação de fenômenos exclusivamente do domínio da física, mas que nada têm que ver com d estudo dos fatos do mundo interno, psicológico, ou da consciência.

E, pois, a opinião de Huschke deve ser rejeitada, sem maior exame.

Não menos extravagante e esquisita é a maneira porque Briba, outro materialista, pretende demonstrar a inteligência e suas manifestações.

Ele diz que “a inteligência depende, ou tem a sua origem na gordura do cérebro; de modo que quanto maior quantidade de gordura contém o cérebro de um indivíduo, e quanto maior quantidade de fósforo se acha em combinação com esta gordura, tanto mais inteligente é o sujeito”.

E tanto é assim, diz ainda Briba, que sô as crianças, os recém-nascidos, e o feto mesmo (!), não são tão inteligentes como os adultos é porque têm menos gordura e fósforo no cérebro!!

Ora, ressalta aos olhos de qualquer o absurdo de semelhante opinião....

Liebig, ilustre fisiologista, apreciando de modo muito justo e razoável essa esdrúxula doutrina de Briba, diz que a ser verdade o que com tanto desembaraço afirma o materialista alemão, deveríamos considerar os ossos como os órgãos da inteligência por excelência, pois que não há parte alguma do organismo em que se encontre tanto fósforo como nos ossos.

E assim deveríamos logicamente admitir a inteligência espalhada por todo o corpo; onde houvesse um osso, por menor que fosse, residiria uma certa quantidade de substância intelectual, como a querem chamar os materialistas.

Ora, sendo assim, sempre que se fizesse uma operação, por exemplo uma amputação de um membro, o sujeito perderia certa parcela de entendimento, ficaria mais estúpido!...

A meu ver, senhores, a opinião de Briba nem merece as honras de uma refutação séria....

Rodolpho Wagner, fisiologista aliás de nomeada, mas infelizmente filiado á seita, diz, em uma de suas obras de fisiologia, tratando do cérebro e sua influência sobre as faculdades intelectuais, que “a inteligência se transmite dos pais aos filhos por divisão da substância intelectual!”

Ora, perguntaremos nós, qual será a natureza d'essa pretendida substância intelectual, e como se fará essa divisão, de modo a poder ela transmitir-se dos pais aos filhos! ...

Demais, R. Wagner não nos diz se os pais que tiverem muitos filhos perdem de todo a inteligência, repartindo-a por entre eles!...

Além d'isso a inteligência é indivisível, simples, invisível e impalpável; como admitirmos, portanto, essa pretensa divisão? Nada há mais absurdo e inconsequente.

E uma opinião, que por si mesma se refuta.

Le Bon, notável fisiologista, a quem tanto deve a ciência moderna, desgraçadamente na questão de que nos ocupamos n'este momento, cai nos mesmos absurdos e extravagâncias dos demais autores a que nos temos referido.

Ele pretendeu explicar a inteligência, ou entendimento pela quantidade maior ou menor de massa cerebral; assim, diz ele: “quanto mais volumoso e pesado é o cérebro, tanto mais inteligente é o indivíduo, e vice-versa”.

Le Bon ainda apelou para a comparação dos crânios, para a saliência das bossas frontais, para os diâmetros da cabeça, etc.

Ora, senhores, a admitirmos essa influência do volume e peso do cérebro sobre o maior ou menor grau de inteligência, então deveríamos admitir também que os seres que ocupam os graus superiores da escala zoológica, como o elefante o leão, etc, são os mais inteligentes. Não é isto, porém, o que nos mostra a observação.

Vallentin, querendo responder a esta objecção, diz «a superioridade que da inteligência do homem sobre todos os outros seres animais, resulta, não do volume ou peso do seu cérebro, mas sim da estrutura especial das fibras nervosas do mesmo cérebro, que são mui delicadas, guardando entre si um arranjo particular, o que não se nota nos outros animais.

Isto, porém, não é exato; não está provado que as fibras nervosas do cérebro humano sejam grandemente diversas das dos demais seres que ocupam os graus superiores da escala zoológica. Essa suposta estrutura especial, essa delicadeza extrema, esse arranjo particular que Vallentin pretende encontrar somente no cérebro humano, existem igualmente na substância encefálica dos outros animais superiores. Logo, se fossemos a adoptar a opinião de Le Bon, o elefante seria o animal mais inteligente, pois é aquele que tem o cérebro mais volumoso e pesado.

A estas experiências de pesar-se o cérebro entregaram-se muitas outros fisiologistas, como Flourens, Hauner, Hoffman, e outros, concluindo que a massa cerebral do homem pesa geralmente mais do que a da mulher, e que por isso mesmo os homens são sempre mais inteligentes.

Não me é possível, meus senhores, deixar de protestar do alto d'esta tribuna contra esta grave injustiça, que os senhores materialistas irrogam ao sexo amável! A experiência e a observação de todos os dias nos estão mostrando senhoras de grande talento, de inteligência robusta, capazes de competir com homens dos mais ilustrados. E nem preciso citar nomes próprios em apoio da verdade que acabo de proferir, o que me seria facílimo fazer.

Mulheres há muito superiores a certos homens, que por mais que se esforcem nunca passão de verdadeiras mediocridades, no sentido amplo da palavra. Dê-se a educação que convém às mulheres, procure-se esclarecer convenientemente o seu espírito; deixe-se a velha rotina, infelizmente ainda seguida, e veremos se elas igualam ou não com os homens, podendo até mesmo excedê-los.

Tenho-vos mostrado, meus senhores, de um modo sucinto e rápido, os absurdos, as extravagâncias, os erros e inconsequências que resultam do facto de querer-se fazer nascer o simples, o imaterial, do composto, do material!

Tenho-vos mostrado também que não devemos nunca ser exclusivistas, não devemos procurar os extremos, e sim o meio termo.

Não prosseguirei, não só porque já ocupei demasiadamente a vossa atenção, como também porque já me sinto um tanto fatigado.

Vou terminar, mas antes de fazê-lo não posso deixar de dirigir-me a mocidade, a que tenho a glória de pertencer, e que em futuro não remoto tomará conta dos destinos grandiosos d'este Império, a fim de pedir aos jovens, meus companheiros, que empreguem muito cuidado, muito escrúpulo, antes de formarem as suas opiniões, e firmarem as suas convicções a respeito de questões de tanta transcendência, de tanto alcance social, como esta de que me acabo de ocupar.

Não nos devemos deixar nunca arrastar pelas impressões, primeiras muitas vezes falazes e enganadoras; não nos devemos deixar levar por simples fosforescências, meras ardentias, e sim pelo estudo acurado dos assumptos, pelo exame detido, pela reflexão inteira e completa.

Pela minha parte posso dizer-vos que é sempre o que procuro, e procurarei fazer.

Resta-me somente agora, meus senhores e senhoras, agradecer cordialmente a honra que me fizestes, vindo assistir a esta minha despretensiosa conferência, e devo agradecer tanto mais, quanto apresentei-me aqui sem título algum, que de direito me pudesse recomendar a vossa atenção e benevolência."

(Aplausos do auditório.)

(O orador é felicitado)

Localização

- Conferências Populares, Rio de Janeiro, nº8, ago.1876, pp. 41-54 (na integra). Capturado em 10 jan. 2026. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/docreader/278556/873

Ficha técnica

- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.

- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca. 

Forma de citação

Conferência Popular da Glória nº 191. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 3 fev.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=771

 


Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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