Conferência Popular da Glória nº 192
Data: 27/08/1876
Orador:João Manoel Pereira da Silva
Título: Poesia dramática VII. Poesia dramática em Inglaterra
Aviso, íntegra ou resumo: Íntegra
Texto na íntegra
“Minhas senhoras e senhores. —Quando Júlio César, domadas as Espanhas e as Gálias, invadiu as ilhas britânicas para as curvar igualmente ao jugo romano, encontrou ali a terra habitada por uma população de origem celta, dividida em tribos, das quais a que possuía a parte meridional se denominava Bretã e as outras do Norte, Pictos e Scotos.
Duas tentativas de vassalagem aplicou-lhes César: teve, porém, de retirar-se com suas legiões, não deixando ali vestígios do seu domínio, pelas resistências tenazes que se lhe opuseram.
Mas à ambição romana não podia escapar essa terra. Sob o imperador Domiciano conseguiu Agrícola submeter a tribo Bretã, e impor-lhe o reconhecimento da senhora do mundo: de fora ficarão, todavia, as tribos interiores.
No século V Roma abandonou suas posses na Inglaterra, logo que hordas de bárbaros começarão a irromper do Norte, e a atirar-se sobre as Gallias, Espanhas e até Itália.
Apesar do tempo em que ali se conservarão nenhuma memória sua deixarão os Romanos. Nas Gallias e Espanhas ficou-lhes a raça, as instituições, os templos, os monumentos, as estradas, a língua. Na Inglaterra nem ao menos a língua, quer para o povo, quer para os governantes. Esta só penetrou ali com o cristianismo e os missionários, e ainda assim nunca o povo e nem os governantes a aceitarão, tornando-se privativa da igreja, dos sacramentos divinos, das funções religiosas.
Assim como a posição insular dos Bretões os não salvara contra os Romanos, lhes não valeu igualmente para invasões posteriores de outros povos.
Duas tribos teutônicas, Saxões e Anglos, disputarão entre si a posse de Inglaterra, até que por um acordo mútuo, e amálgama amigável, dividirão o solo, expelindo os Bretões, que se refugiarão em Gales, e em uma parte da França, a que deram seu nome. Fundaram assim um governo e reino com a raça, famílias e costumes fundidos de Anglos e Saxões.
Os Pictos e Scotos continuarão independentes na Escócia e Irlanda, os Bretões foragidos no paíz intitulado Condado de bates. Tudo o mais pertenceu d'aí por diante a novos invasores teutônicos.
Sofreram estes, por várias vezes ainda e a seu turno, insultos de Scandinavos e Normandos da Dinamarca e Noruega que os incomodaram atrozmente, posto que mais ou menos lhes resistissem com vantagem e vitórias.
Os Normandos, não podendo estabelecer-se em Inglaterra dirigirão se para França e aí fundarão um Estado próprio' com seu nome, e sob o ceptro de Rolon, seu chefe. Os Francos, já então vencedores e dominadores dos Gaulezes e Romanos, acomodaram-se com eles, reconheceram-lhes uma tal qual autonomia, travarão relações amigáveis, e se foram assim amalgamando. O chefe ou Duque Rolon casou-se com uma princesa franca, e considerou-se feudatário do reino.
No entanto o cristianismo se foi introduzindo entre esses bárbaros, e os Anglo-Saxões, como Francos e Normandos e Bretões o foram abraçando, adoçando por este feitio seus instintos selvagens e rudes com a predica dos missionários, e as doutrinas da moral sublime, que constitui a base da religião ensinada por Cristo e seus Apóstolos.
No século XI Guilherme, Duque de Normandia, herdeiro do feudo como filho natural do afamado Roberto do Diabo, in- vadio Inglaterra, combateu os Anglo-Saxões, venceu-os em Hastings, matou-lhes o último rei Harold, e apoderou-se de todos os seus domínios.
Nova era principia para Inglaterra. Ao domínio Anglo-Saxono sucede o Normando. Este torna-se cruelíssimo para o povo vencido. Confiscam-se todas as terras para serem partilhadas pelos cabos normandos companheiros de Guilherme formando-se assim a aristocracia da raça fortalecida pela propriedade do solo, que se converte em morgadio inalienável. Os Anglo-Saxões são reduzidos a servos, se não a escravos. Devem trabalhar em favor do seu novo barão feudal sob o regimen militar, e de um código e leis criminais as mais duras e barbaras.
As duas raças se conservavam separadas, servos e senhores mas sem luta porque uma ficou prostrada. Nenhum amalgama, ou liga, nem de famílias, nem de costumes, nem de língua. O rei de Inglaterra era ao mesmo tempo senhor da Normandia. Mas encarava Inglaterra como só feitoria de que deve auferir todos os proveitos e sueco. Folgava mais de residir em França, na sua Normandia, lá é que tinha seus prazeres, família, amigos e povo, que estimava.
No entanto autorizado por uma bula do Papa Adrianno, de 1155, assalta Irlanda e a subjuga igualmente; no século XIII invade o país de Gales e prostra a seus pés os restos de Bretões ali asilados. Não pode vencer Escócia, mas os reis normandos formão um belo Estado com Inglaterra, Gales e Irlanda, tendo assim estendidos e aumentado suas posses.
Eis que um grande acontecimento transforma a situação da Inglaterra, elevando-a de feitoria e colônia da Normandia a reino independente, posto que sempre com monarcas Normandos, e os barões Normandos, que eram senhores do solo.
João Sem-terra para roubar a coroa a seu sobrinho Arthur, sucessor de Ricardo Coração-de-Leão, excitou as iras de Felippe Augusto, rei de França, que sustentava o direito do jovem príncipe. Felippe Augusto, considerando-o seu vassalo como Duque de Normandia, declara confiscados todos os seus Estados em França, que nada menos erão que Normandia, Ânjou, Poitou e Touraine. Assim se anexaram essas possessões à coroa francesa, e apesar de guerras longas e sangrentas contra os reis ingleses que as tentavam reivindicar, nunca mais lhes voltarão ao domínio.
Reduzido João Sem-terra a rei de Inglaterra, Gales e Irlanda, com a perda dos feudos em França, viu levantar-se contra seu poder ilimitado os próprios barões Normandos estabelecidos em Inglaterra, que o obrigarão a aceitar o pacto da grande carta intitulada das liberdades públicas.
Por esse pacto o rei se comprometia a reunir um parlamento de nobres sempre que precisasse fazer guerra e levantar tropas, a fim de ouvir-lhes o parecer, e não poderia ofender a propriedade de seus súditos sem sua consulta. É o começo do direito político dos lngleses. Mas, até aí, o povo, a raça anglo-saxônica, não entrava em linha de conta, não era considerado, não constituía senão aglomeração de servos. Os Normandos estavam no século XIII na mesma posição da conquista do século XI: as duas raças separadas e adversas em tudo, posto que vivessem no mesmo país, e sob o mesmo céu e rei.
D'aí por diante, porém, se inicia a amalgamação das raças, e a formação de uma só nação. Foi preciso perder-se o território francês, base principal e cúpula do reino. O povo anglo-saxônico se foi dando à indústria, á agricultura, e nas cidades aglomerando e formando reuniões importantes. Os filhos segundos da nobreza normanda sem fortuna, coagidos a se dedicarem às artes industriosas, se foram aliando às filhas dos burgueses ricos, e as famílias misturando-se assim, ficando só Normando puro o ramo primeiro varonil da aristocracia, e desaparecendo no geral do povo o elemento normando, que ia sendo absorvido pelo anglo saxônico.
Como os reis para a guerra precisavam de dinheiro, e o seu parlamento só de nobres normandos lh’o não podia arrancar do povo anglo-saxônico, que o escondia e o ocultava, lembrou-se o rei de formar um segundo Conselho composto de deputados populares das cidades para que em sua presença se comprometessem por seus mandatários aos subsídios e impostos necessários. Era antes uma obrigação que um direito que se impôs ás cidades, que de mais a mais foram coagidas a sustentar à sua custa os seus deputados, ou comuns, como se chamavam, fazendo-lhes as despesas enquanto estivessem ocupados no conselho convocado pelo monarca. As finanças entrarão na competência da consulta dos plebeus anglo-saxônicos; a guerra e objetos importantes na dos nobres normandos que se denominarão Lords, ou Senhores.
No correr dos séculos XIV até o meiado do XV fez-se e concluiu-se o amálgama das duas raças conquistadora e conquistada. O elemento normando perdeu espantosamente, o conquistado, porque era mais numeroso e pela indústria e comercio conseguiu juntar mais capitães, inteligência e riqueza, preponderou progressivamente.
A nobreza normanda, porém, à proporção que ia decaindo pela raça, tratava de estender-se e sustentar-se nos seus privilégios e importância de barões feudais por inoculação de sangue novo; não teve dúvida em abrir suas fileiras para n'elas penetrar seiva alheia. Os talentos, as riquezas, os serviços relevantes prestados' nas guerras, bastavam para que os populares erguessem suas vistas para a aristocracia, e se convertessem a seu turno em aristocratas, aliando-se com as famílias nobres, e aceitando honras, títulos e até assento na casa e parlamento dos Lords.
D'aí resultou que hoje não existe mais nem um descendente direto por progenitura dos celebres vinte e cinco barões que obrigaram o rei João a aceitar a magna carta: posto que nas casas aristocráticas e nas famílias reinantes se conservem dísticos em francês, que era o idioma normando, o walon, que adotaram os francos e gauleses assimilados em um só povo todavia quase que se pode dizer desaparecera a raça normanda conquistadora. Grandes famílias de hoje começarão por merceeiros, relojoeiros e industriosos. Até um cozinheiro Bercks criou a de Norris, e um tipógrafo a de Rosebery. Jorge III fez duque um farmacêutico de Londres.
Também por essa razão, como por grandes talentos, riquezas e serviços ao Estado se podia e pode elevar-se o inglês plebeu aos cargos e titules aristocráticos, eles nunca acabarão cora a sua nobreza, consagraram-lhe sempre culto, e respeitaram e respeitam a divisão de classes na sociedade. Logo que a nobreza se pode recrutar no povo, não há exclusivismo, não há ciúmes e rivalidades.
A mescla das raças se desenvolveu por modo que Eduardo III no século XIV ordenou que os atos oficiais da administração, governo e tribunais se escrevessem na língua anglo-saxônica, e não mais em francês ou normando, posto que ele e sua corte continuassem a falar francês.
Assim na reunião das raças e formação de um só povo predominou o elemento anglo-saxônico o conquistado do século XI; também na língua, que é hoje a inglesa, preponderou o elemento anglo-saxônico, por quanto de trinta e oito mil palavras vinte e cinco são teutônicas, treze somente derivadas de outros idiomas, principalmente do normando ou francês.
Os mistérios e moralidades, poesia dramática do tempo, foram sempre em anglo-saxônico, nunca em latim como em França, Alemanha, Itália e até Hespanha, porque o povo das ilhas britânicas nunca entendera a língua de Roma.
As poesias, baladas, cantatas, poemetos de Robin Hood, e outros cânticos começarão em inglês desde o século XIII, com menos polimento de língua, porque esta só se firmou no século XVI, posto que o primeiro poeta conhecido inglês, Chaucer, pertença ao século XV. Mas ainda é um pouco rude, procurando imitar Boccacio em seus contos ligeiros.
Lá pela Escócia, Irlanda e Gales a raça celta conservava seu primitivo caráter, seu idioma nacional, seus costumes, suas instituições, seus bardos e seus druidas; a língua celta não era literária, mas o povo folgava com os cantares dos bardos, de que o poema Ossian de Macpherson é uma imitação.
Tornou-se a língua inglesa literária com Chaucer, e seus poemas e contos poetizados; o italiano era o mais influente da época, porque o wallon e provençal não chegarão a ser línguas literárias, e Dante, Petrarcha, Boccacio, e a civilização italiana que fora a primeira da Europa, derramavam raios esplendidos por toda a Europa.
Pelo século XVI se foram traduzindo em inglês composições italianas, castelhanas e latinas, e romances escritos em wallon ou francês. D. Quixote do imortal Cervantes obteve logo as honras de passar para a língua inglesa, bem como alguns dramas do teatro castelhano, com as relações que se abrirão entre Inglaterra e Hespanha com o casamento de Henrique VIII com Catharina de Aragão, e com o da rainha Maria com Felippe II de Espanha.
A dinastia de Guilherme, Duque de Normandia, conquistador da Inglaterra, e que com as alianças se denominou ora Lancaster, ora York, conforme os primogênitos, seguiu-se a de Tudor com Henrique Vil, Henrique VIU, Eduardo VI, Maria, e Izabel até princípios do século XVII, e sucessão de Stuarts. A família de Tudor procedia de um obscuro camponês de Gales, que conseguira as boas graças dos reis e rainhas normandas. Ê a época da completa formação da língua inglesa, que tomou todo o seu incremento sob Izabel, posto que só na poesia; a prosa não se formara ainda, e os maiores escritores em prosa, Bacon e Hobbes, escreverão em latim para serem compreendidos por todo o mundo, porque o idioma inglês ninguém conhecia fora de Inglaterra.
A poesia dramática, nascida dos mistérios da idade média, começou em Inglaterra nos fins do século XVI a ser cultivada. Izabel era ilustrada, literata, conhecia várias línguas, falava a latina com alguma facilidade. Os idiomas latino e italiano eram por ela os mais apreciados. Folgava, entusiasmava-se pela mitologia romana, e ao gosto clássico, e ao mesmo tempo aos conceitos ligeiros dos poetas italianos dava a preferencia sobre tudo.
Se ia visitar algum barão em seu castelo, queria ser recebida pelos deuses penates, e levada a seus aposentos por Mercúrio; se passeava em seu jardim e parques, deviam rodeá-la pagens vestidas de ninfas, de Nereidas e de Tritões; se lhe apresentavam pasteis à sobremesa, exigia que simbolizassem as metamorphoses de Ovidio. (Risadas.) Quando se dirigia a caçadas, Diana era obrigada a aparecer-lhe, saudando-a como modelo de pureza virginal. (Hilaridade.) Uma vez que honrou a cidade de Norwich com sua presença, às portas a vieram buscar os graves aldermens de cabeleira longa, e vestes talares, trazendo à sua frente Cupido, que lhe ofereceu uma seta de ouro, com que ela devia cativar todos os corações. (Hilaridade.)
Implacável e terna, severa e apaixonada como mulher, amante de cortejos e festas; dedicada à política e às guerras como rei e soberano: queria que a chamassem rainha virgem, quando mais se lhe adaptava o título de mulher-homem.
lzabel gostava de luzida corte, de fidalgos literatos, de poetas admiradores de seu gênio. O seu querido d'entre estes foi Spencer, que soltejava em todas as suas composições, elogios encomiásticos à rainha, sol do mundo, nova Semiramis, imitando o vate inglês as canções e sonetos de Petrarcha. Procurou animar e espalhar o gosto das letras, mandando imprimir traduções latinas, e ela própria trasladou para o inglês tragédias de Seneca.
A poesia dramática original começou assim pela corte e pela nobreza e universidades, pelos esforços da rainha. Representavam-se peças latinas traduzidas, e algumas composições de poetas ingleses, posto que copias clássicas e sem grande valia.
Assim a poesia dramática em Inglaterra iniciou-se nos castelos, palácios e universidades, e só daí passou para o povo, quando em Espanha foi do povo e para o povo. E que nas Espanhas, onde primeiro nasceu a poesia dramática moderna, não havia feudalismo mais com a invasão dos Árabes e Mouros, e se estabelecera mais ou menos a igualdade dos homens, quando em Inglaterra os barões feudais eram ainda tudo, o povo nada, posto que dispusesse da câmara de comuns, porque esta foi subserviente sempre até levantar-se nos princípios do século XVI com Thiago I.
O povo começou em] Inglaterra depois da nobreza a criar companhias de cômicos, que se tornarão ambulantes, representando mistérios, e rudes composições profanas em estalagens, tavernas, e em barracas erguidas nos campos, às portas das cidades importantes.
Ao principio lzabel, em 1572, classificou e condenou os cômicos populares ambulantes como ladrões e vagabundos. Mas depois, melhor aconselhada, em 1574 autorizou-os a continuar suas representações.
Em Londres, todavia, reunião de burgueses puritanos, foram proibidas as representações. Lavrou-se até uma ordem proibindo-se a cômicos entrar na cidade, porque traziam a peste. (Risadas.)
Apesar d'essa oposição dos moradores da em city de Londres 1576, Izabel autorizou os cômicos a construir teatros em todas as localidades de Inglaterra e nos arrabaldes de Londres. Erigiu-se logo um encostado à city, construído com zinco mais choça que edifício regular, que começou a funcionar imediatamente; o gosto popular se desenvolveu por modo em favor de representações cênicas, que em 1630 havia não menos de treze teatros na cidade de Londres.
Pulularam, nem podiam deixar de pulular, autores dramáticos para aumentar os teatros e satisfazer o gosto do novo que ali concorria em grande número de todas as classes particularmente das camadas inferiores da sociedade, entusiasmando-se com as cenas que presenciavam. De dia é que se davam os espetáculos, e homens se vestiam de mulheres para representaremos personagens femininos; só se consentiu no século XVII às mulheres serem cômicas e representarem nos teatros.
Brilhou, e brilhou muito, a poesia dramática desde 1580 a 1640. Apareceram verdadeiros gênios, criando um teatro nacional, original, e autônomo, que é uma das glorias literárias maiores da Inglaterra. Foi a grande época da poesia dramática inglesa essa que preenche os sessenta anos de 1580 a 1640. Nem os fins do século XVII, nem o século XIX produziram em Inglaterra poetas dramáticos da robustez de imaginação, do talento superior dos escritores do reinado de Izabel e Thiago I.
Congreve, Otway, Home, Addison, Sheridan, Doyden, Lee, Rowe, poetas dramáticos do século XVII para cá, não valem um Marlowe, um Massinger, um Fletch, um Ben Johnson, um Beaumont, que pertencem a época de 1580 a 1640, quanto mais um Shakespeare, contemporâneo de Izabel e de Thiago, e que a todos excedeu como gênio admirável, profundo e sublime!
A poesia dramática foi sempre a poesia querida dos Ingleses, e que mais lhes corresponde ao gosto, porque ela reúne todos os gêneros, todos os matizes das Musas.
Izabel esforçou-se bastante por torná-la clássica na essência e nas fôrmas; por isso preferia Ben Johnson a Shakespeare; mas o drama não obedeceu á rainha e nem à corte ilustrada; saiu agreste, selvagem, irregular, mas nasceu das próprias entranhas e fibras do povo. Os autores que ganharão nome e reputação erão todos das classes mais Ínfimas da sociedade; o talento não procede das raças e nem mesmo da educação.
(Aplausos.)
Shakespeare era filho de um carniceiro segundo uns biógrafos, ou de um mercador de lãs conforme outros, ponto ainda não bem averiguado; Marlowe de um sapateiro; Webster de um sacristão; Ben Johnson de um pedreiro; Massinger de um criado.
Os autores erão além d'isto cômicos, homens do teatro. Há aqui ainda uma diferença entre Inglaterra e Espanha, as duas primeiras nações dramáticas. Em Hespanha os autores erão padres ou cavaleiros guerreiros. Os autores dramáticos ingleses não receberão educação literária, tudo arrancarão do seu próprio gênio. Por isso foram só inspirados pelo gosto, pelos instintos, pelos costumes do povo. A literatura clássica não prevaleceu, portanto, porque eles a ignoravam. Ganhou lnglaterra em glória, porque conseguiu a originalidade nas obras dramáticas em vez de se tornarem elas copias da antiguidade clássica.
E assim que a poesia dramática inglesa nascida dos mistérios e milagres, que punham em cena a bíblia e a vida dos santos, conservou o característico do mistério inglês, feito ao gosto do povo, isto é, reuniu o sublime e o burlesco, o grave e o faceto, o patético e o ridículo, o sentimental e o gracioso, as lagrimas e os risos.
O caráter inglês é grave, positivo, meditativo; mas em certos momentos precisa de rir-se e folgar, como de ar para viver. O espirito faceto, humour, na sua língua, é parte integrante da vida e das composições literárias, artísticas e cientificas.
A igreja gótica traz gravadas nos vidros, nos pilares, nas ogivas, nas flexas, nos altares, cenas sagradas e cenas burlescas, e até às vezes indecentes, ao lado umas das outras. Nas outras históricas, filosóficas, nos sermões e predicas religiosas, há de o humour, ou gaiatice, parte das vezes grotesca e buffa, trazer o riso aos lábios, e alegrar os espectadores e leitores. Os oradores do parlamento inglês, tratem de altas questões sociais ou políticas, de administração ou de finanças, devem dizer chalaças para agradar. (Risadas.) Foi o grande merecimento de Lord Palmerston, tão estimado do público de Inglaterra.
Não se admire, pois, que no drama inglês se realize esse sistema, que está enraizado no gosto do povo. Todos os dramas ingleses, não só de Shakespeare, de todos os autores, apresentam o rei, o fidalgo, o padre, o buffo, o camponês, e cada um com sua linguagem; ao lado do patético e sublime, o grotesco, o burlesco, o ridículo, a farsa.
O mistério inglês apresentando Jesus-Cristo havia por força de mostrar o diado ao lado com chifres na cabeça, cauda, pés enforquilhados a dizer chufaras. (Hilaridade.) Não dispensava a aparição da burra de Balaã, e galhofas dos que a acompanhavam. (Risadas.) Até em um sobre o dilúvio, a mulher de Noé dá pancadas no marido porque não quer entrar na barca (Hilaridade prolongada.).
O sistema geral dramático inglês é o mesmo em todos os autores de nota; nas letras clássicas mais ilustrados que os espanhóis por serem mais modernos, admitiram a divisão dos drama sem atos, em vez de jornadas; a de tragédias, comédias e peças, em vez da expressão única espanhola e genérica, dramas. Mas como os espanhóis preferirão ao método clássico da unificação e simplicidade da ação e de um só evento, como era próprio dos antigos, a vida toda dos heróis, a complicação da ação, uma época inteira de acontecimentos; assim ambos abandonarão as regras da unidade de ação, lugar e tempo, preconizadas por Horacio e pelos franceses e Italianos. No drama inglês há mistura de verso e prosa, para que cada personagem fale sua linguagem própria; o verso é sempre heroico imitando n'esta parte os antigos. No drama Hespanhol o verso é constantemente empregado, mas de diferente metrificação; encontram-se o heroico, o octossílabo, e outros de matizes e fôrmas variadas Os Ingleses conheciam alguma coisa da literatura espanhola, os espanhóis nada sabiam dos Ingleses até o século XVIII. Assim se explicam os modos diversos dos dois povos; o inglês sempre se assimilou ao elemento estrangeiro, adoptou pai te d'ele, e o nacionalizou, sem perder sua originalidade; o espanhol, todo espontâneo e próprio, nada recebeu do estrangeiro, não melhorou assim com aquisições convenientes a sua literatura e o seu gosto, não admitiu nunca seiva ou sangue novo. Entretanto, em literatura, como nas raças humanas e na raça animal, e até no reino vegetal, a infiltração estranha, o enxerto, são necessários para desenvolvimento e robustez da espécie.
Como é, entretanto, que a poesia dramática inglesa logo ao nascer conseguiu brilhar tanto, e formar uma época tão gloriosa como a de 1580 a 1640, sob Izabel e Thiago l? Época superior a todas que se lhe seguirão? Época que deu nome a Izabel, como em França outra a Luiz XIV, em Roma a Augusto e a Leão X?
E que o tempo se prestava ao drama verdadeiro e natural. O tempo tem grande influência em literatura. As circunstâncias, os acontecimentos, as ideias que vigoram, a situação das cousas, tudo concorre para desenvolver, dirigir e exaltar o talento, o gênio, n'este ou n'aquele sentido. A influência é mútua dá época sobre o talento, e do talento sobre a época» posto que este não seja mais que o representante intelectual do seu tempo.
Inglaterra vivera sempre tormentosa em guerras exteriores e civis desde o século XII. Todos os ânimos andavam em constantes agitações, todos os espíritos perturbados pelos acontecimentos extraordinários que se realizavam Grandes cenas, grandes espetáculos na vida, na história. Após as guerras contra a França para reivindicação dos feudos pertencentes aos antigos Duques de Normandia, seguiram-se ambições de homens, que se consideravam com direitos ao trono Guerras da rosa branca e da rosa encarnada por Lancasters e Yorks, assassinatos, patíbulos, barbarias, enchem as páginas da história de mais de um século. Os costumes se mesclarão com ideias patrióticas, e certa altivez e egoísmo no meio das lutas. Em menos de cem anos nove reis foram depostos para outros se colocarem em seus lugares; dos nove arrancados ao trono cinco perderão a coroa e a vida, assassinados barbaramente.
Assim a nacionalidade inglesa se formara no meio de guerras sangrentas, da ambição, do despotismo, dos crimes os mais horrorosos. Com a elevação da casa Tudor serenou a luta civil, o rei dominou, todavia, absolutamente, o que foi talvez mais horroroso. Henrique Vlll fez até uma revolução religiosa, abandonando o catolicismo. Casou-se com seis mulheres; duas enviou ao cadafalso, indo ver de Richmond o sinal que da torre de Londres se lhe devia dar de que o colo admirável de Anna Bolena caía enrolado nas belas trancas dos cabelos ao golpe duro do cutelo, manejado pelo braço poderoso do carrasco. Mandou matar o seu chanceler More, o poeta Surrey, mais de dez mil de seus súditos condenados como católicos. Maria, devota e alucinada, quis abater Inglaterra aos pés de Espanha, casando-se com Felippe II, e perseguindo os protestantes, ao contrário do pai, que perseguira os católicos. lzabel, que lhe sucedeu na coroa, continuou a obra de Henrique VIII contra os católicos. Maria Stuart pagou no cadafalso, como Joanna Grey, no tempo de Maria, sua beleza, suas paixões, e sua posição social de rainha de Escócia.
Ben Johnson, Marlowe, Shakespeare, presenciaram as execuções mandadas praticar por lzabel; virão suceder-lhe no trono Thiago I, filho de Maria Stuart, assassinada por lzabel, o filho da vítima, herdeiro do algoz de sua mãe; ao pé em França, as cenas sanguinolentas de Henrique III e Henrique IV; mais longe em Hespanha, os crimes hediondos de Felippe II, os autos-de-fé queimando aos milhares os infelizes descendentes de Mouros ou Judeus, os que se suspeitavam de não católicos puros. Todos estes acontecimentos agitavam as paixões, deviam comover o espírito. Não admira, portanto, que tão trágica época desse nascimento a grandes poetas trágicos, porque dirigia e influenciava os talentos e gênios.
Assim no drama inglês d'esta época a paixão sobe por vezes ao horrível e ao atroz, e manifesta energia espantosa, amargos sofrimentos, crimes assombrosos.
Quem erão esses autores que tão grande brilho deram à poesia dramática inglesa?
Deixemos de parte Shakespeare, superior a todos, mas contemporâneo de quase todos.
Quando não aparecesse Shakespeare, nem por isso a Musa dramática inglesa de 1580 a 1640 deixaria de fazer ressoar admiráveis composições. Seria ainda a época rica, opulenta, na poesia dramática.
Não se fala senão em Shakespeare, porque, como o cedro, ergueu-se a altura tal que com suas folhas e galhos cobriu quantas arvores aliás poderosas e robustas em torno d'ele se espraiavam. Assim acontece com Camões em Portugal. Quantos brilhantes talentos e gênios fulguraram na sua época? Entretanto só se cita geralmente o nome do autor dos Lusíadas. Todavia, que autor dramático inglês, a excepção de Shakespeare, excede, direi mesmo iguala Marlowe, que tão admiráveis tragédias escreveu, e que ainda se representam?
A tragédia de Eduardo II, tão histórica quanto comovente, o drama Judeu de Malta, que serviu de modelo a Shakespeare para a sua composição de Shillock, são obras dignas de toda a consideração; só um gênio as podia compor; infelizmente Marlowe foi um dissoluto e desgraçado, morreu moço e assassinado. Mas que talento elevado e que imaginação opulenta lhe prodigalizara a natureza!
Marlowe é mais conhecido pelo seu drama fantástico da Vida e morte do Dr. João Fausto, que tanto serviu aos alemães, e por fim ao próprio gênio de Goethe, que o desenvolveu com as ideias modernas. A cena final, porém, em que Marlowe pinta Fausto, ressaciado de prazeres e da vida, arrependido de haver vendido sua alma ao diabo, chamando Jesus-Cristo, e sentindo chegar a hora fatal em que deve morrer, é uma das mais primorosas composições poéticas que se conhecem.
O drama de Eduardo II ensinou aos poetas ingleses que na história pátria havia assumptos próprios para a poesia de preferência a estranhos. Os contemporâneos e sucessores de Marlowe aproveitarão suas lições, e o povo inglês ganhou ilustrando-se na sua história nacional, entusiasmando-se pelos seus grandes homens, robustecendo-se de patriotismo.
Ben Johnson, posto que tendendo para o clássico afim de se fazer cortezão s poeta laureado como foi, pelo que maior nome ganhou em seu próprio tempo que Shakespeare, tem, todavia, talento engenhoso. O gênero cômico se lhe prestava ao caráter, ao sarcasmo, à ironia. Creou a comedia inglesa, de costumes e caracteres. A Raposa, cada um em seu caráter, o Alchimista o Aváro, a Mulher silenciosa, são composições dramáticas sempre agradáveis a representar-se, apesar de velhas: mostram um espirito observador, critico, sagaz, e um conhecimento da cena teatral. e dos seus efeitos, que admira em época tão tormentosa.
Fletcher e Beaumont escreverão dramas excelentes, às vezes exagerados pelo horrível: Bonduca, a tragédia de uma menina, Thierry e Theodurito, são três composições repletas de movimento, de vida, de interesse, de paixões, de ação, que merecem os maiores elogios.
Massinger na sua bela tragédia do Duque de Florença acompanha as composições de Shakespeare, posto que lhe falte aquela profundeza de gênio que caracteriza o grande trágico.
Webster muito se mergulhou na escola espanhola de aventuras repetidas, de peripécias extraordinárias, de lances inesperados, mas é um grande talento dramático e patenteia imaginação poderosa.
Eis em que círculo vivia Shakespeare. Só falo dos principais, não de todos os poetas do seu tempo. Em que lhes são superiores os da época de Carlos II, rainha Anna, e casa de Hanover?
A poesia dramática inglesa conta autores em tão grande número que é impossível citar-se. Aí brilha mais a literatura que em qualquer outro ramo. O teatro inglês é quase tão abundante em quantidade de autores e dramas como o espanhol dos séculos XVI e XVII.
Mas Shakespeare faz tudo esquecer. É o grande pintor dos caracteres, o mais profundo analisador das paixões humanas, um filósofo, um patriota, um historiador, como há poucos. Sim, historiador. Ele e Walter Scott o foram melhores que muitos que escreverão história. Nas suas obras mais se aprende que em Hume, Robertson, e tantos outros.
Guardemo-los para uma conferência particular. E vulto a que votamos respeito e admiração. É digno de menção especial. Tenhamos um pouco de paciência. Aguardemos outra ocasião para sobre ele conversarmos".
(Muitos aplausos e felicitações são prodigalizados ao orador.)
Localização
- Conferências Populares, Rio de Janeiro, nº8, ago.1876, pp. 55-71 (na integra). Capturado em 10 jan. 2026. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/docreader/278556/887
Ficha técnica
- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.
- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.
Forma de citação
Conferência Popular da Glória nº 192. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 3 fev.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=772
Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz – (http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br)