Conferência Popular da Glória nº 193

De Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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Data: 31/08/1876

Orador: Bento Gonçalves Cruz

Título: Prolegômenos de biologia

Aviso, íntegra ou resumo: Íntegra

Texto na íntegra

“Meus senhores. - Bem longe estávamos de presumir, vós e eu, quão grande decepção nos preparava hoje a força de imprevisto sucesso. A este recinto fomos atraídos pela magnitude de um interessante assunto de que devera tratar um orador de comprovado talento e vasta erudição: dever-se-ia realizar presentemente a segunda conferência do curso de Botânica, de que se encarregou o ilustrado catedrático que, na Faculdade de Medicina, professa essa matéria. Mas, infelizmente, ponderoso impedimento priva-nos, por hoje, de sua simpática presença e do seu verbo ungido de insinuante eloquência e sazonado saber. Apesar, porém, meus senhores, da decepção que nos pesa pela ausência do orador esperado, há menos constrangimento na vossa posição de ouvintes e juízes que na minha: tomado de surpresa pelo generoso convite de um cavalheiro respeitável, tive, o sabeis, de declinar do meu lugar no auditório para aceitar, de momento, a tribuna que ocupo. Relevai, pois, que, como suprimento ao mérito que não tenho, de vós implore e espere benévola indulgência.

Devo prevenir-vos, a tempo, que a conferência de hoje em nada entende-se com o curso de Botânica, que, acidentalmente interrompido, amanhã seguirá a sua orbita luminosa dirigido sempre, então como d'antes, pelo seu benemérito iniciador. Em mim vede apenas um exemplo de fanatismo pelo culto do dever; de boa vontade consciente de sua fraqueza; um ambicioso, enfim, que vos dirá despretensiosamente o pouco que sabe, já calculando de antemão a valia do muito que lhe dareis em permuta; proponho-me apenas a preencher uma lacuna de tempo e não da matéria.

Contentai-vos, portanto, em ouvir a exposição de alguns prolegômenos de Biologia. Esforçar-me-ei, todavia, por colocar no primeiro plano do quadro que esboçar a fisiologia d'essas interessantes criaturas cujo complexo conhecimento faz o objeto da Botânica.

For a encetar assumpto vasto e difícil historiar com minucia as fases e tendências que têm predominado na evolução dos estudos biológicos até o começo do nosso século. Teríamos de acompanhar e discutir o espirito das múltiplas teorias que se sucederam desde Aristóteles, o fundador das ciências naturais, até Bichat; o precursor da moderna reforma do método de estudos; teríamos de desdobrar-vos aos olhos o mapa das conquistas e derrotas dos sistemas exclusivistas; apontar-vos na mesma arena confundidos filósofos e fisiologistas discutindo e disputando direitos de propriedade em domínios mal demarcados ainda.

Surgem n’essa época os reinados efêmeros das hipóteses as mais arrojadas; a imaginação incandescente do gênio entronizava-se e impunha-se onde, mais tarde, devia sobranceiro dominar o espírito calmo da observação e da experiência. Mil cogitações agitavam então sobre a origem, o princípio, a essência, das propriedades dos seres vivos. Tanto mais condensavam-se as trevas que envolviam a verdade, quanto tendiam os espíritos da época ao estudo e indagações das causas primas de todos os fenômenos que observavam.

Apesar, meus senhores, do caminhar relativamente tardio dos estudos biológicos antes do nosso século, apesar do curso forçado de doutrinas eivadas de falsos princípios; contudo, o nosso século recebeu d'essas gerações que passarão um precioso legado, fruto das observações e descobertas de alguns homens predestinados como o foram Van-Helmont e Harvey.

Ha meio século, porém, que uma reação potente realizou-se: a luz da observação confundiu muitos erros; o velho edifício das hipóteses caprichosas vacilou e abateu-se; só resistiu ao abalo o que havia sido construído pela observação e a experiência. Hoje, milhares de obreiros do futuro realizam por toda a parte o plano esplendido de uma concepção nova e fecunda.

A primeira alarma de reforma partiu do gênio observador de Bichat. A anatomia geral foi o começo da encarnação das novas ideias. Aí ele grupa os tecidos, atentando nas variedades de sua estrutura; a produção dos fenômenos vitais é por ele referida a natureza desses tecidos; assim, Bichat começou a descentralizar a vida. Essa conquista brilhante rasgou novos horizontes á ciência, como aos povos alarga a esfera de ação e felicidade a descentralização do poder e das riquezas.

De outra parte, a substituição do grosseiro instrumento de Janssen pelos microscópios aperfeiçoados de Van-Deyl, o concurso da química e da física, já muito adiantadas pelos estudos de Lavoisier e Laplace, foram novos elementos que vieram em auxílio ao espírito pesquisador de nosso século. Graças a tão valiosos contingentes, lográmos correr o reposteiro que nos interceptava um mundo de maravilhas até então desconhecido, é o observador pôde, detida e regularmente, estudar os elementos os mais símplices da matéria orgânica: a Histologia surgiu como um manifesto ainda mais eloquente e definido das tendências da atualidade da ciência. Hoje, mais adiantado que no tempo de Bichat, o biologista não limita-se a segregar e classificar os tecidos estudando-lhes as propriedades vitais; as suas investigações têm ido além, estuda já os elementos morfológicos mais símplices dos tecidos — as células — e n’eles procura surpreender o determinismo das manifestações elementares da vida.

A biologia contemporânea não interroga as causas primas, remotas, cujo estudo lealmente abandonou à filosofia e à teologia; circunscreveu perfeitamente o terreno de suas explorações: indaga e estuda as condições físico-químicas que, atuando, determinam as manifestações das propriedades vitais.

Enfim, meus senhores, d'aqueles que cultivam o estudo da biologia retempera-se cada dia a crença no futuro, pelas conquistas que sucessivamente se multiplicam; e tanto assim é que o Sr. professor Claude Bernard, um dos mais esforçados propagandistas das ideias adiantadas, diz-nos: “a ciência que estuda os fenômenos da vida propõe-se a subjugar a natureza viva, como já foi submetida a natureza morta”.

Assentes essas lisonjeiras premissas, assaz ponderosas para que tenhamos arraigada fé no porvir, volvamos a atenção para o nosso assunto capital.

Todos os seres criados estão, de há muito, classificados em dois grandes grupos: seres inorgânicos, destituídos de vida; e seres organizados ou vivos. Deixando de parte o primeiro grupo ocupemo-nos do segundo.

Os seres vivos estão subdivididos em duas seções: seres animados ou animais, e seres inanimados ou vegetais. Há entre os animais e as plantas funções que lhes são comuns; nestas ainda uma divisão se estabelece: funções tendentes à conservação dos indivíduos e outras à perpetuidade das espécies. A nutrição é a síntese das funções que convergem á conservação do indivíduo, como a fecundação é a síntese dos atos que concorrem á perpetuidade das espécies.

A nutrição, pois, representa uma ideia complexa; tratemos de alguns dos seus elementos, procurando destacar os caracteres fundamentais entre as plantas e os animais.

Estudaremos as manifestações da vida sempre nos indivíduos os mais perfeitos dos dois reinos, mesmo para obviarmos as dificuldades que crescem de ponto à proporção que dos vertebrados e fanerógamos descemos às proximidades d'essa zona fronteira entre os dois reinos, e descrita por Huxley, onde animais e vegetais completamente se confundem.

A uniformidade da cor dos vegetais é a primeira impressão que recebemos ao observá-los. É sobretudo entre nós, na opulenta região dos trópicos onde a natureza arreia-se sempre com as galas de uma mocidade eterna, que mais luxuriante e imponente se desdobra o verde manto dos vales e montanhas. Os múltiplos acidentes d'essa cor predominante dão ao conjunto das plantas o mais encantador aspecto; a unidade do colorido não prejudica a variedade da perspectiva. Graças ainda á natureza d'essa cor o homem pôde, sem fadiga para os olhos, fixar a vista sobre essas paisagens sublimes mesmo quando banhadas em ondas de luz.

É pelos órgãos coloridos de verde que os vegetais respiram. Essa importante função tem por sede principal as folhas. Aí os suecos absorvidos pelas raízes recebem da influência atmosférica as propriedades de sueco nutritivo, modificação essa realizada em presença da matéria verde corante a— clorofila.

O aparelho respiratório dos animais é especialmente adaptado aos meios em que tem de funcionar: pulmões ou brânquias, se na atmosfera ou na água. Alguns animais inferiores respiram apenas pelo tegumento externo. O aparelho respiratório dos vegetais é apto a indiferentemente funcionar na atmosfera ou na água. As plantas aquáticas apenas têm de excepcional em suas folhas a ausência da epiderme.

A respiração do vegetai está subordinada à influência da radiação química da luz solar: á noite o maravilhoso laboratório das folhas não funciona no seu trabalho de redução do ácido carbônico, a planta altera o funcionalismo de sua respiração, limita-se apenas a eliminar pelos tubos aéreos o ácido carbônico que as suas raízes absorvem do solo e o que origina-se do oxigênio inspirado pela planta combinando-se com o carbono existente em sua economia. Á noite a planta absorve oxigênio da atmosfera. O modo da respiração vegetal tem, pois, modificações.

O animal, ao contrário do que vimos no vegetal, respira do mesmo modo sempre: na obscuridade como à luz, de dia como á noite; mesmo quando entorpecidos descansam os sentidos sob a benéfica influência do sono, lá vela a respiração animal solícita e incansável no seu labor uniforme.

Vejamos agora qual a permuta de elementos que os animais e as plantas entretêm com a atmosfera em que respiram; o que equivale a dizer-vos—indaguemos o modo de respirar desses seres.

O ar atmosférico é uma mistura de oxigênio e azoto, onde é permanente a presença de gás ácido carbônico e vapores d'agua. Pois bem, enquanto sem interrupção os animais aspiram oxigênio do ar e expiram ácido carbônico, os vegetais absorvem da atmosfera, durante o dia, ácido carbônico na clorofila que, das folhas sob a influência da luz solar, é decomposto em seus elementos—carbono e oxigênio. O primeiro d'estes princípios é assimilado em totalidade pelo vegetal enquanto que o segundo é restituído, em parte, à atmosfera.  O animal substitui apenas um gás que vicia o sangue por outro que o reconstitui; o vegetal recebe da atmosfera um corpo binário, decompõe-no, fixa em totalidade o carbono e em parte o oxigênio, elementos esses que vão entrar na constituição dos seus princípios orgânicos. Em resumo: durante o dia o vegetal desprende o oxigênio que o animal aspira e o animal elimina ácido carbônico que a planta utiliza. Durante a noite vegetais e animais exalam ácido carbônico e absorvem oxigênio. Quer na obscuridade, quer à luz difusa as plantas absorvem também, por toda a sua superfície, oxigênio da atmosfera; mas, muito diversamente do destino que tem nos; animais, esse oxigênio absorvido combina-se com elementos de carbono existentes no vegetal, dando origem a ácido carbônico que, logo que a influência da luz intervém, é decomposto nas partes verdes da planta.

As plantas descoradas, que não têm clorofila, não podem reduzir o ácido carbônico da atmosfera, apegam-se a outros vegetais e como parasitas respiram —tudo que vive respira—é lei sem excepção; há variantes só no modo como. O mesmo feto humano durante a vida intra-uterina, quando jaz ainda enclausurado em seus envoltórios, fora de todo o contacto direto com a atmosfera, imergido em líquido, n'essa quadra em que as suas vesículas pulmonares estão ainda virgens à espera do primeiro contacto do ar, respira. N'essa época, porém, de sua evolução, o homem a síntese sublime dos organismos perfeitos, respira por interferência de outrem; é, mutatis mutandis, tão contingente como a humilde e estiolada parasita.

Tais são as rápidas considerações que de momento vos posso fazer sobre a importante função da respiração dos vegetais. Passemos em revista alguns pontos referentes à sua nutrição propriamente dita.

Na linha divisória traçada pelos biologistas entre os seres mais perfeitos animais e vegetais, campeã como ponto capitais e forte o modo porque estes e aqueles se nutrem. Em verdade, são as substâncias orgânicas a fonte fecunda de onde, quase exclusivamente, derivam os elementos nutritivos dos animais, enquanto que, ao contrário, os corpos inorgânicos, em estado líquido ou gasoso, fornecem, em regra geral, á planta os materiais para a sua seiva.

Os vegetais suprem por si todas as necessidades de sua elaboração nutritiva; utilizam o poder redutor e industrial de que são dotados', transformando as substâncias puramente minerais que absorvem do solo, em princípios orgânicos. N'esse trabalho de absorção de líquidos e gazes, de que são principais agentes as espongiolas das raízes, chega ao vegetal parte d'esse ácido carbônico que, como já vimos, é eliminado á noite pelas folhas. É devido á interferência d'esse corpo que alguns sais terrosos; como os fosfatos e silicatos, dissolvem-se n’agua e entram na economia vegetal.

Enquanto os vegetais gozam d'essa autonomia de nutrição o animal depende sempre da planta. Só esta sabe fabricar uma matéria azotada especial, a proteína, que é, direta ou indiretamente, por ela fornecida aos organismos animais que d'esse princípio carecem. Este fato sugeriu a Huxley a seguinte comparação: “A planta é o proletário ideal do mundo vivo, é o trabalhador que produz; o animal é o aristocrata ideal que se ocupa sobretudo em consumir”.

Até aqui vemos bem distanciadas e definidas as funções nutritivas dos animais e vegetais, atenta sobretudo a natureza completamente oposta dos alimentos que assimilam. Entretanto, meus senhores, em recente e interessante escrito tenta-se abrir brecha nas fronteiras dos dois reinos e confundir, na comunhão da elaboração de idênticos alimentos, os animais com um determinado grupo de vegetais. Não menos trata-se que provar que algumas plantas, como os animais, nutrem-se de matéria orgânica assimilada em suas folhas por um verdadeiro trabalho digestivo.

Não é de hoje que sábios naturalistas presumem a existência de vegetais carnívoros. Já no tempo de Linneu, Ellis, descrevendo a Dionoea muscipula, suspeitava que os insetos por ela capturados servissem de alimento a essa planta. Os primeiros sucessores do naturalista inglês aceitarão e estudarão apenas os movimentos das folhas e dos apêndices da Dionoea, deixando á margem a indagação do fim a que seriam destinados os insetos por esses órgãos aprisionados. Foi só depois de mais de meio século que a atenção dos naturalistas de novo fixou-se sobre as ideias emitidas por Ellis; convergindo os resultados das reiteradas observações acuradamente feitas, de então para cá, á confirmação d'elas. Não vos posso enumerar a brilhante pleiade de biologistas e botânicos que de Curtis a Darwin colaboraram n'esse interessante estudo, provando que, além da Dionoea, outros vegetais da mesma família gozam de idênticas propriedades.

É sob o patrocínio do nome de Darwin, o festejado autor da Origem das espécies, que em um recente livro com o título Plantas insectivoras ressurge, mais luminosa que nunca, essa questão palpitante de originalidade, impondo-se á consideração da ciência por atestados subscritos por quinze anos de experiências de Darwin, e pela franca adesão do sábio botânico Hooker.

As investigações de Darwin, tendentes a provar que a matéria animal passa por uma elaboração digestiva nas folhas das plantas carnívoras, dirigiram-se mais especialmente à Drosera rotundifolia, membro o mais vulgar da família das Droseraceas, se bem que se generalizassem a Droseraceas europeias e exóticas, bem como a muitos outros vegetais que apresentam pelos glandulares.

A Drosera rotundifolia é um vegetal cujas folhas, em número não superior a seis, apresentam a forma circular sob um pequeno diâmetro. Quer o limbo, quer a circunferência das folhas são munidos de grande número de filamentos de cor avermelhada, coroados em suas extremidades livres por uma gota de uma secreção viscosa e transparente, que se não evapora mesmo sob a temperatura dos raios do Sol. Quando pequenos insetos pousam sobre as folhas da drosera, a secreção dos filamentos os apreende, aglutinando-lhes as asas e membros. Devido a aflição do inseto, que se debate ao sentir-se prisioneiro, os outros filamentos, ou tentáculos, como os chama Darwin, curvam-se gradualmente sobre a vítima, e aí permanecem até extinguir-se-lhe a vida. Consumada a morte, os apêndices da folha voltam à sua posição primitiva. Se os insetos são de força superior à potência dos tentáculos, o próprio limbo da folha recurva-se sobre si mesmo e enclausura o infeliz prisioneiro.

A parte muitas teorias propostas, nenhuma explicação positiva temos do mecanismo d'esses movimentos que aguardam ainda uma interpretação definitiva, como aguardam explicação o movimento das plantas que voltam-se sempre para o sol, como o das folhas que se fecham á noite, como o das sensitivas e a oscilação da esparzeta.

Quanto aos atos de elaboração digestiva, Darwin prova com minuciosas experiências, que, como o suco gástrico, o sueco das Droseras compõe-se de um ácido em dissolução em um veículo inerte e um fermento de natureza albuminosa, dissolvendo perfeitamente as substâncias assimilar es. Concluindo que os insetos aprisionados pelas Droseras são completamente dissolvidos pelo produto de secreção da planta e por esta absorvidos.

Consignamos esta teoria, esperando no entretanto dos obreiros esforçados pelo progresso real da biologia o responderem: se essas substâncias animais, dissolvidas pelas servem em plantas, realidade à sua nutrição, ou se n'elas penetram simplesmente em razão das propriedades de endosmose das paredes das células.

Um outro ponto interessante, relativamente á nutrição dos vegetais, é o referente ao modo porque se alimentam os cogumelos. Hoje que a origem vegetal d'esses seres não mais sofre contestação, agita-se a questão de saber-se o modo como se nutrem eles. O desenvolvimento d'esses vegetais é de uma rapidez espantosa, uma noite apenas é suficiente para a sua evolução completa; e tão rápido é o seu desenvolvimento quanto efêmera a sua existência. De mais, sobre quase todos os corpos da natureza como parasitas desenvolvem: na matéria vegetal morta, no solo sobrecarregado de húmus, sobre a madeira podre, sobre os ramos e as folhas das arvores, sobre ossos, nas ataduras aplicadas sobre úlceras sobre corpos paupérrimos de quaisquer substâncias nutritivas como detritos de granito, e até sobre metais. Enfim, para que avalieis, por um facto vulgar, a proliferação surpreendente dos cogumelos, basta dizer-vos que o mofo é o resultado da acumulação de milhares d’esses indivíduos. Sabemos que onde há um pouco de umidade, o mofo invade tudo.

Infelizmente, apesar dos recentes e conscienciosos estudos de Cooke e Berkeley, não logramos ainda a conquista de todos os segredos d’essas existências misteriosas. E se tocámos no fato da nutrição d’esses seres foi para consigná-lo apenas como uma interrogação que aguarda resposta. A nossa ciência a respeito d'esse assumpto resume-se a sabermos que alguns cogumelos absorvem substâncias orgânicas; e que, por conseguinte, quanto aos atos de nutrição, funcionam antes como animais que como vegetais.

A Nutrição em geral consiste num ato duplo de composição, e de decomposição; a planta, como o animal, recebe do suco nutritivo que n'ela circula os princípios constituintes dos seus tecidos, e n’esse mesmo líquido depõe os materiais que devem ser eliminados. Nota-se, porém, que nas plantas o movimento que predomina é o de composição. Devido a isso, as arvores seculares conservam na sua textura tecidos que representam o longo estádio de sua existência; cada ano aumenta-se o número de suas camadas que no tronco e ramos se justapõe do seguinte modo: na parte externado lenho e na interna da casca. Além d'esse crescimento em espessura os vegetais desenvolvem-se em dois sentidos opostos: da superfície da terra para o centro e para a atmosfera. Esse modo de desenvolvimento em nada se assemelha ao que se danos animais. N'estes os órgãos desenvolvem-se uniformemente até um certo ponto, e estacionam equilibrando-se então os dois movimentos de composição e de decomposição. Os tecidos elementares se substituem sempre, guardando, porém, as modificações o a feição que lhes imprime a influência das idades. D’esse crescimento indefinito das plantas e limitado dos animais já deixámos algumas premissas estabelecidas, quando tratámos da respiração de uns e de outros. Vimos então que os vegetais fixam sempre carbono que entra na constituição de seus tecidos; entretanto que os animais inspiram oxigênio expiram ácido carbônico. E a ocasião de lembrar-vos que o oxigênio é um corpo comburente, entra no organismo animal como elemento de combustão dos tecidos que devem ser eliminados, é, pois, o agente poderoso d'esse trabalho ativo de decomposição orgânica. O ácido carbônico eliminado pela respiração animal deriva d'essa combustão.

A ação molecular nutritiva, a metamorfose orgânica formão a feição essencialmente característica de todos os seres vivos — animais e vegetais

Em conclusão: do solo e da atmosfera, derivam os alimentos da planta que em seu organismo de preferência acumula carbono. Os animais tiram a sua alimentação, direta ou indiretamente das plantas; em sua economia acumulam de preferência azoto.

Passemos à circulação. Esta função tem por fim levar os líquidos aptos á nutrição, absorvidos pelos animais e vegetais, à influência do ar atmosférico, que os modifica; pondo-os depois em contacto com todos os tecidos que deles recebem a nutrição e a vida.

Os animais superiores elaboram em seu interior os alimentos que ingerem, e lançam o produto d'essa elaboração digestiva o—chylo—na corrente circulatória do sangue. As plantas absorvem diretamente do solo, em dissolução aquosa, os alimentos que entram logo em circulação.

Ao sangue dos animais corresponde, pois, a seiva dos vegetais.

Indaguemos as causas do movimento d'esses dois líquidos. O movimento do sangue tem por principal motor o órgão central da circulação—o coração. Por sucessivos e coordenados movimentos de contração e dilatação d'esse músculo, é o sangue propelido através das artérias á periferia do corpo; d'aí, através das veias, regressa ao coração, depois de ter vivificado todos os tecidos. Os movimentos das artérias e as válvulas do interior das veias são eficazes auxiliares do curso do sangue.

Além a esta circulação chamada grande circulação, há uma pequena circulação que consiste na passagem do sangue do coração aos pulmões e a estes ao coração, cujo fim é pôr o sangue venoso em contacto com o oxigênio que lhe traz a respiração, transformando-o em sangue arterial.

Nos vegetais a circulação é, talvez, uma função mais complicada que nos animais: além da circulação geral da seiva, que consiste em dois movimentos, um de ascensão e outro de descensa, há duas outras não menos importantes: a utricular ou de rotação e a laticifera.

Indaguemos qual o mecanismo do movimento da seiva ascendente. Nos vegetais, sabemos, não há um centro propulsor como nos animais. A seiva absorvida pelas raízes sobe por endosmose através a capilaridade dos tubos do tecido fibroso. do lenho e pelas falsas traqueias; o auxiliar d'esse movimento de ascensão é a transpiração que se dá nas folhas. A proporção que a água n'elas contida se evapora, um vácuo forma-se, e a seiva tende sempre a ocupá-lo. É na primavera que essa ascensão da seiva se efetua,

Durante o seu trajeto da raiz às folhas, a seiva não só expande-se lateralmente no tecido lenhoso, como também dissolve alguns produtos que em deposito encontra. Em razão da dissolução d'esses produtos encontrados pela seiva ascendente, ela enriquece-se, com novos elementos nutritivos á proporção que ascende. Chegada às folhas, a seiva recebe da influência da respiração do vegetal modificações que lhe dão todos os caráteres de sueco nutritivo. D'aí a seiva regressa à raiz, não mais pela via de ascensão mas pela casca do vegetal.

A circulação de rotação e a laticifera efetuam-se: aqueIa no interior dos alvéolos do tecido utricular, esta n'um sistema especial de vasos. A relação dos líquidos que circulam nos utriculos e vasos laticiferos com a seiva da circulação geral não está ainda bem definida.

Só incidentemente vos falei algures da importante função de absorção, e nada vos disse sobre as secreções. Não tenho, pois, esgotado o paralelo entre as funções tendentes à conservação dos indivíduos nos dois reinos, vegetal e animal.

Meus senhores. -Resvalei superficial e levianamente sobre assunto digno de patrocínio melhor; tenho, porém, como me comprometi, preenchido a lacuna de tempo. Quisera corresponder à vossa expectativa e á imérita atenção que me dispensastes; infelizmente para mim, os meus limitadíssimos recursos iludiram os meus bons desejos, mas o pouco que vos pude dar, espero, será aceito com animo benévolo e indulgente generosidade". (Aplausos.)

Localização

- Conferências Populares, Rio de Janeiro, nº8, ago.1876, pp. 91-104 (na integra). Capturado em 11 jan. 2026. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/docreader/278556/922

Ficha técnica

- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.

- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.

Forma de citação

Conferência Popular da Glória nº 193. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 2 fev.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=773

 


Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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